28.12.25

15 LIVROS DE MULHERES DE OUTUBRO A DEZEMBRO DE 2025


Este ano de 2025 me comprometi a só ler livros escritos por mulheres de Outubro a Dezembro. 

Promessa cumprida e encerro os três últimos meses com a leitura de 15 livros escritos por autoras. Desses livros, dez são dedicados a protagonistas femininas, o que muito me agradou. Somando esses 15 aos 43 lidos entre janeiro e setembro, encerro o ano com 58 livros lidos.

Em 2018 foram 40. Em 2019 foram 68. Em 2020 foram 61.  Em 2021 foram 55.  Em 2022 foram 60. Em 2023 foram 50.  Em 2024 foram 32.

 

1 - UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES – Um livro desafiador da sempre desafiadora Clarice Lispector. Lançado em 1969, tem muitas características ousadas do romance moderno, como ter no seu início uma vírgula e no seu final, dois pontos. Foi ganhador do prêmio Golfinho de Ouro no seu lançamento. Sua protagonista Lóri faz uma longa viagem ao mais profundo de si mesma e chega à consciência total de ser ao se envolver com Ulisses, um professor de filosofia que tem o nome do herói grego que fecha os ouvidos para as outras sereias porque só está disponível para Lóri (Loreley) que é o nome de uma sereia que atraia para os rochedos os barqueiros do Reno.

2 - A OBSCENA SENHORA D – O primeiro livro que li da brasileira Hilda Hilst. Lançado em 1982 é até hoje considerada uma das obras mais cultuadas e transgressoras da sua autora. Uma história que retrata uma senhora de sessenta anos após a morte do seu marido Hillé. Ela está absolutamente solitária e decide viver no vão da escada de casa e experimentar o mais profundo isolamento. Num intenso fluxo de consciência, o que gera estranhamento e dificulta a leitura, ela se vê às voltas com lembranças do passado ao mesmo tempo que se pergunta sobre o verdadeiro sentido da vida.

 


3 - O MATADOR – Primeiro livro que li da brasileira Patrícia Melo. Lançado em 1995, adaptado para o cinema em 2003 com o título de O Homem do Ano e com roteiro de Rubens Fonseca, tem Murilo Benício no papel principal e Wagner Moura e Claudia Abreu no elenco. Após uma aposta de futebol, Máiquel, jovem vendedor de carros usados na periferia de São Paulo, precisa tingir o cabelo de louro. A história a partir deste fato o leva a se tornar aos poucos um matador de renome respeitado por todos, comerciantes, políticos e até pela polícia. Um crescendo de tensão e enlouquecimento com muita violência e sexo.

 

4 - A CABEÇA DO SANTO - Primeiro livro que li da brasileira Socorro Acioli. Decepcionou-me profundamente pois esperava muito da autora cuja obra foi incensada por vários críticos. Samuel, cuja mãe faz um último pedido antes de morrer: que ele vá encontrar a avó e o pai que nunca conheceu, faz a pé o caminho de Juazeiro do Norte até a pequena Candeia, enfrentando a inclemência do sol do sertão. Ao chegar, encontra quase uma cidade fantasma e se abriga na cabeça oca e gigantesca de uma estátua de santo Antônio e começa a escutar uma confusão de preces femininas dentro da cabeça do santo. Imita Pedro Páramo, romance do mexicano Juan Rulfo que influenciou Garcia Márquez (promotor da oficina de que a autora participou em Cuba). Há realismo fantástico com péssimos diálogos, fraquíssimo desenvolvimento de personagens, ambientação clichê e lapsos narrativos. Irritante além da medida. 

5 - O HOMEM DA FORCA- Segundo livro que li da autora norte-americana Shirley Jackson (após Assombração da Casa da Colina), mas que não me arrebatou tanto. A autora é reconhecida por suas obras de horror e mistério e influência para autores como Stephen King, Neil Gaiman e Donna Tartt. A protagonista de 17 anos, anseia deixar a casa dos pais e entrar na universidade e quando isso ocorre suas pequenas certezas se evaporam. Ela não é mais capaz de compreender onde termina a realidade e onde começa sua alucinação. Há um contínuo crescimento da dissociação mental, diluição da identidade envolvendo abuso sexual e suicídio. O título original O Enforcado parece mais adequado já que a história aborda o tema da carta do Tarô, que traduz o dilema da infeliz protagonista.


6 e 7 - O SEGREDO DA EMPREGADA e A EMPREGADA ESTÁ DE OLHO – Este ano resolvi ler os três best seller de Freida McFadden. O primeiro, que já comentei, foi A Empregada e agora li os outros dois. Novamente temos um assassinato e vários plot twists, mas a autora consegue ser eficiente. São entretenimento honesto e bom passatempo. Se no primeiro livro conhecemos Millie, que trabalha como faxineira e se envolve em crimes, nos dois seguintes ela divide a narrativa com outros personagens fazendo a história ter reviravoltas narrativas com diferentes pontos de vista.  

8 - O ACONTECIMENTO - De Annie Ernaux. Primeiro livro que li da ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 2022. Aqui ela retorna ao ano de 1963 quando era uma estudante de 23 anos que engravida do namorado e sem poder contar com o apoio dele ou da própria família numa época em que o aborto era ilegal na França, ela vive praticamente sozinha o acontecimento que destrincha quarenta anos depois. A descrição do aborto é brutal e extremamente impactante. E a autora reflete sobre a onipresença da lei e seu imperativo sobre o corpo feminino. O livro foi adaptado para o cinema com o mesmo título e ganhou o Leão de Ouro em Veneza e venceu o prêmio César de Melhor atuação feminina em 2021 e 2022. 

9 - OS ANOS – Segundo livro seguido que li de Annie Ernaux. Uma autobiografia impessoal usando um sujeito coletivo que ocupa o lugar do eu para dar luz a um novo gênero literário onde recordações pessoais se mesclam à História, o que atualmente é conhecido como autoficção. Nascida em 1940, ela afirma que era tarde demais para se lembrar da guerra, mas que foi receptora das recordações e mitologias familiares. Passamos por seis décadas com eventos como a Guerra da Argélia, a revolução dos costumes, o nascimento da sociedade de consumo, as principais eleições francesas, a virada do milênio, o 11 de Setembro e as inovações tecnológicas.

10 - EU SEI POR QUE O PÁSSARO CANTA NA GAIOLA - Primeiro livro que li da autora e ativista dos direitos humanos dos EUA, Maya Angelou, publicado originalmente em 1969. Aqui ela conta episódios da sua infância e juventude quando foi criada por sua avó no sul segregacionista e racista. A autora foi amiga de personalidades como Nelson Mandela, Barak Obama, Martin Luther King entre outros e também uma poeta laureada e relembra episódios dolorosos como um estupro sofrido na infância e o grande carinho pelos pais e irmão. O livro aborda o poder da educação e da literatura na transformação do indivíduo. Esse livro tornou-se um clássico internacional e foi o primeiro de uma série de relatos autobiográficos que transformaram a autora em uma figura literária de destaque mundial.

11- JANE EYRE - Com 530 páginas, esta foi a primeira obra que li da autora Charlotte Brontë, que divide com Orgulho e Preconceito e outros livros de Jane Austen o panteão de grandes obras literárias de autoras inglesas do século XIX. Clássico da literatura à frente do seu tempo pelo protagonismo de uma personagem feminina forte e explorar questões de classe, sexualidade, religião e gênero. História da órfã que sofre desde pequena sendo maltratada pela tia, em seguida pena numa horrível escola de meninas e consegue superar essas adversidades graças à sua natureza firme e independente, quando é contratada como governanta numa mansão rural. Ao se envolver com seu patrão, descobre um segredo terrível. Romance gótico com crítica social e moral. 

12 - O MISTERIOSO CASO DE STYLES – Mais um livro que li da inglesa Agatha Christie, maior autora de livros policiais que já existiu. Este livro ficou marcado como o primeiro livro da autora e o primeiro caso do excêntrico e genial detetive belga Hercule Poirot. Aqui temos a sempre bem sucedida fórmula de um assassinato e vários suspeitos em um só local. Na mansão Styles, Poirot e seu inseparável amigo Hastings desvendarão o assassinato de Mrs. Emily Inglethorp, em que são suspeitos seus enteados, seu segundo esposo vinte anos mais novo e de passado nebuloso e uma série de agregados suspeitos de envenenamento.

 

13 - OS RELÓGIOS - Esse livro de Agatha Christie tem um título que pode confundir com outro livro a autora “O Mistério dos Sete Relógios”, que ainda não li e que recentemente recebeu uma adaptação da Netflix.  Essa história não me encantou, em parte por que achei a trama artificial e desnecessariamente complicada, em parte por que matei parte da charada no começo e por último por que a participação de Hercule Poirot é mínima. A ideia foi desafiar Poirot a desvendar um crime à distância, sem fazer parte direta das investigações e sem interrogar testemunhas. Não funcionou para mim.

14 - PEQUENAS GRANDES MENTIRAS - Segundo livro que li da autora australiana Liane Moriarty após o ótimo O Segredo do Meu Marido. Nos dois livros as capas são horríveis, mas aqui vemos que a autora tem realmente excelente talento narrativo, principalmente na construção de personagens femininas. Essa obra foi adaptada com sucesso para uma série com duas temporadas tendo no elenco Nicole Kidman, Meryl Streep, Reese Witherspoon, Laura Dern e Alexander Skarsgard. Apesar de eu já conhecer o desfecho da história que envolve uma morte e sua investigação policial, o livro consegue prender a atenção usando uma tensão constante já que somente no final da narrativa você descobre quem matou e quem morreu. Os capítulos são curtos e intercalados por trechos de depoimentos na polícia. Excelente. 

15-NADA É O QUE PARECE SER – Este é o sexto livro que li de Patrícia Highsmith, a incrível autora da série de romances policiais O Talentoso Ripley, que foi adaptado várias vezes para as telas. Aqui, em 592 páginas temos uma compilação dos melhores textos esparsos da escritora considerada pelo Times, a melhor autora de suspense de todos os tempos. São 28 contos em que ela experimenta técnicas narrativas diferentes em histórias de mistério que carregam sua marca própria em que se sobressai a humanidade de seus heróis e heroínas extraídos das pessoas comuns e que conseguem coroar sua existência com inesperadas vitórias.

 

 

26.12.25

OS 20 MELHORES FILMES DE 2025



Por sorte vi muitos filmes bons no cinema em 2025. Aqui não estou listando grande parte dos que assisti na TV ou nos canais de streaming . Também tive a sorte de ver 30 filmes na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo apesar de que alguns dos melhores que vi lá ainda não estrearam no cinema este ano. Desses 20 filmes 4 são brasileiros e fico muito contente com isso.

Agora a lista dos 6 piores



5.11.25

49ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

Há 23 anos bato ponto na maratona de filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Este continua a ser, como todos os anos, o ponto alto das minhas férias.

Sempre compro passaporte para 40 filmes, o que continua a ser vantagem, já que, por R$ 440,00 pagos antecipadamente, acabo pagando o equivalente a R$ 11,00 por filme (caso assista aos 40) — menos do que o valor da meia-entrada durante a semana. É possível ainda reservar o filme com 5 dias de antecedência e evitar risco de ingressos esgotados, o que acontece muito com os mais concorridos.

A correria é grande, e muitas vezes o cansaço bate, impedindo que eu veja todos os filmes desejados. Este ano foram exibidos 350 filmes de 80 países, em 15 dias (mais os dias da repescagem) em mais de 50 salas. Houve mais de 20 produções brasileiras inéditas e dezenas de filmes premiados em festivais como Cannes, Berlim, Veneza, San Sebastian, Tribeca, Roterdam, Locarno, Sundance, entre outros.

Vi 30 filmes no total. No ano passado, vi 31 (perdi os outros por pura exaustão). Assim, acabei pagando R$ 15,60 por cada filme — uma pechincha. Este ano dei a sorte de ter assistido à maioria dos vencedores da Mostra, algo que normalmente não acontece, pois todo ano os premiados são justamente os filmes que acabei perdendo. Aqui está uma breve avaliação dos 30 filmes a que assisti ordenados por preferência. Triste, mas os três piores foram justamente três produções brasileiras.

DJ AHMET-Prêmio Especial do Juri da Mostra. O jovem pastor Ahmet tem 15 anos e vive numa distante e isolada aldeia muçulmana na Macedônia do Norte. Ele encontra refúgio na música, enquanto lida com as expectativas do pai, a doçura do irmãozinho, que o venera, a rigidez da comunidade conservadora e sua primeira experiência com o amor por uma jovem prometida a outro homem. Vencedor do Prêmio do Público e do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance. Trilha sonora encantadora e atuação impecável do jovem ator Arif Jakup. O Hollywood Reporter elogiou as "atuações sólidas e naturalistas" do elenco, com atenção especial para Jakup, e afirmou que ele "tem uma qualidade elegante e agradável ao público. O filme critica de forma divertida certos costumes muçulmanos, mas nunca de maneira depreciativa.


THE PRESIDENT CAKE-Vencedor do Prêmio do Juri da Mostra de Melhor Filme. No Iraque dos anos 1990, em meio à guerra e à falta de comida, o presidente Saddam Hussein determina que todas as escolas do país façam um bolo em homenagem ao seu aniversário. Lamia, de apenas 9 anos, tenta escapar da tarefa, mas acaba sendo escolhida entre os colegas. A menina precisa recorrer à sua criatividade para conseguir os ingredientes e cumprir a missão de preparar o bolo imposto pelas autoridades. Vencedor do prêmio Caméra d’Or para melhor filme de diretor estreante em Cannes e do prêmio do público da Quinzena dos Cineastas, também em Cannes. Encantador e potente. 

FELIZ ANIVERSÁRIO-Filme egípcio em que a pequena protagonista ganhou o prêmio de melhor atuação dos filmes da Mostra. Ela é Toha, que trabalha como empregada doméstica e enfrenta contratempos para garantir que sua melhor amiga, filha de sua patroa, tenha uma festa de aniversário em troca de uma simples vela para fazer um pedido. Sem nunca ter celebrado o próprio aniversário, Toha assume a organização da festa e torna a celebração possível. Quando tentam impedir Toha de comparecer à festa, sua presença indesejada acaba revelando a outra face da família. Melhor filme, direção e roteiro internacional no Festival de Tribeca.

O AGENTE SECRETO-Excelente produção de Kleber Mendonça Filho. Filme premiado em Cannes pela direção e atuação de Wagner Moura. Em 1977, em Pernambuco, Marcelo é um especialista em tecnologia de pouco mais de 40 anos que está em rota de fuga. Ele chega ao Recife durante a semana do Carnaval para reencontrar o filho e descobre que está jurado de morte. Há tanto a se falar dessa película excepcional que nem ouso resumir em poucas linhas. O filme ainda fará uma belíssima e merecidíssima carreira internacional e ganhará ainda muitos prêmios. Mais um belo acerto do diretor pernambucano e do ator baiano.


FOI APENAS UM ACIDENTE-Um grupo de pessoas organiza um plano de vingança contra um homem que eles acreditam ser seu ex-torturador. Tudo começa quando um mecânico acredita que reconheceu seu torturador pelo som da perna protética que ele ainda ouve nos seus pesadelos. Determinado a se vingar, ele busca ajuda de outros prisioneiros para descobrir se o homem é mesmo o agente que o destruiu emocional e fisicamente. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. O diretor e roteirista Jafar Panahi foi ovacionado pelas plateias que lotaram todas as sessões do filme na Mostra. Ele ficou anos proibido de deixar o Irã e já foi vencedor da Mostra em 1995. É o favorito para o próximo Oscar de filme internacional.

NO CAMINHO-Veneno é um jovem errante e rebelde que frequenta lanchonetes de beira de estrada e faz sexo pago com caminhoneiros. Precisando urgentemente de uma carona, ele conhece Muñeco, um motorista duro e reservado. Ele convence Muñeco a levá-lo para dentro do universo hiper-masculino das longas rotas de caminhão pelo norte do México. Porém, conforme a viagem avança e uma intimidade inesperada surge entre eles, questões do passado de Veneno reaparecem, colocando a vida dos dois em risco. Vencedor do prêmio de melhor filme da seção Horizontes e do Leão Queer no Festival de Veneza. O filme é bastante cru e ousado, com cenas explícitas de sexo sem qualquer traço de leveza ou sutileza. Espetacular.

WHITE SNOW-O jovem e idealista Amir tem seu curta proibido na remota região montanhosa da Caximira após a denúncia do líder religioso local. O grande “erro” foi mostrar o sangue depois do parto. Logo, Amir é preso sob a acusação de incitar agitação social. Sua mãe arrisca a própria vida determinada a realizar o sonho do filho: munida de uma pequena TV e um aparelho de DVD, parte rumo a aldeias distantes para exibir o filme. Resiliente, Fátima segue viagem, observando em silêncio a generosidade dos outros e as condições sociais e econômicas que encontra. O percurso exaustivo, as situações de desespero e os fracassos a destroem física e mentalmente. Até que um acontecimento inesperado e devastador a transforma e liberta.


A HISTÓRIA DO SOM-Um jovem e talentoso estudante de música, Lionel, em 1917, conhece David, um colega inglês num conservatório de Boston onde eles se aproximam pelo profundo amor que compartilham pela música folk popular. Ambos partem para uma viagem pelo interior do Maine para coletar canções folk tradicionais. Este encontro inesperado, o caso de amor que nasce dele e a música que coletam e preservam vão influenciar o curso da vida de Lionel muito além de sua própria consciência. Elenco de primeira com a dupla Paul Mescal (dos perfeitos Aftersun e Todos  Nós Desconhecidos) e Josh O’Connor (dos também maravilhosos Rivais e La Chimera). 

E MAIS ALGUÉM-Tommy é um jovem gay de 17 anos que passa o verão em um emprego entediante na marcenaria do pai. Sua vida se transforma repentinamente quando descobre mensagens sexuais trocadas entre o pai e outro homem por e-mail. Dividido entre a lealdade e a sinceridade, Tommy se vê diante de um dilema que ameaça destruir sua família. Com a crescente tensão e diversos segredos vindo à tona, ele é forçado a enfrentar verdades difíceis e a encarar uma nova e mais complexa visão sobre o amor e o compromisso. O diretor, de carisma e simpatia acachapantes estava na sessão em que assisti ao filme e exultava de emoção.  

SIRÂT-Pai e filho chegam a uma rave nas montanhas do Marrocos à procura da filha e irmã que desapareceu meses antes em uma dessas festas intermináveis. Cercados por música eletrônica e por uma sensação crua e desconhecida de liberdade, eles distribuem a foto da jovem na esperança de achá-la. Os dois seguem um grupo exótico de frequentadores rumo a uma última festa no deserto. Conforme avançam por esse cenário escaldante, a jornada os obriga a confrontar seus próprios limites. Vencedor do prêmio do júri no Festival de Cannes. O filme foi exibido juntamente com o curta-metragem "Como Fotografar um Fantasma" de Charlie Kaufman.

À PAISANA-Lucas é um jovem policial gay no armário que trabalha disfarçado num shopping para prender homens no banheiro por atentado ao pudor depois de seduzi-los até que conhece o padre casado Andrew (o belo ator britânico Russell Tovey, da série gay Looking). Esse vínculo secreto se intensifica enquanto a pressão da polícia para novas prisões aumenta, deixando Lucas dividido entre o dever e o desejo. Com o tempo se esgotando e o passado em seu encalço, a celebração de Ano-Novo em família vira um acerto de contas no qual tudo o que foi reprimido ameaça vir à tona. Vencedor do prêmio especial do júri para o elenco do filme do Festival de Sundance.

GARÇA AZUL-Na década de 1990, um casal com seus quatro filhos se muda para a Ilha de Vancouver, enquanto as dinâmicas internas vão sendo lentamente reveladas pelas experiências da filha caçula. Essa tentativa de recomeço da família é ameaçada pelo comportamento cada vez mais perigoso de Jeremy, o filho mais velho portador de uma condição mental semelhante a esquizofrenia. Vencedor do prêmio de melhor primeiro filme no Festival de Locarno e menção especial no Festival de San Sebastián. Quem já conviveu, como eu, com um parente com esquizofrenia entende perfeitamente bem o drama da família.

RIVERSTONE-Excelente filme do Sri Lanka mostrando como a polícia lida com suspeitos de terrorismo que são mortos sob custódia policial em suposta troca de tiros. O filme é um road movie em que três policiais transportam num carro um homem que será executado secretamente com promessas de possíveis promoções como incentivo. O filme discute as reflexões e preocupações dos policiais enquanto viajam para o assassinato de um suspeito com quem não têm absolutamente nenhum conflito pessoal. Vencedor dos prêmios de melhor roteiro e fotografia do Festival de Xangai.

RAINHA DO ALGODÃO-No Sudão, em uma vila de produtores de algodão, Nafisa é uma adolescente que cresceu ouvindo as histórias heróicas da luta contra os colonizadores britânicos, contadas por sua avó, matriarca do lugar. Com a chegada de um jovem empresário com um novo plano de desenvolvimento e algodão geneticamente modificado, Nafisa se vê no centro de um jogo de poder que determinará o futuro do local. Tomando consciência de sua própria força, ela tenta salvar os campos de algodão — e a si mesma —, em uma jornada que transformará para sempre sua vida e sua comunidade.

MASPALOMAS-Vicente, com 76 anos, assumiu sua homossexualidade e deixou esposa e filha aos 50, passando os últimos 25 anos feliz com seu companheiro em Maspalomas, nas Ilhas Canárias em uma série interminável de festas gays com muita orgia sexual em praias paradisíacas, mas quando sofre um derrame se depara com uma realidade inesperada: foi transferido para uma casa de repouso conservadora no País Basco. Ele decide não falar da sua orientação sexual e aos poucos retorna ao armário, renunciando a tudo que lutou tanto para conquistar. Vencedor do prêmio de melhor atuação, para José Ramón Soroiz, e do prêmio Sebastiane no Festival de San Sebastián.

UMA SEGUNDA VIDA- Elisabeth é uma americana com deficiência auditiva que vive em Paris e com o visto prestes a expirar e aceita um trabalho exaustivo como concierge de Airbnb para continuar na França. É então que conhece Elijah, um californiano de espírito livre. Contra a sua vontade, ela precisa atravessar Paris ao lado dele, justamente durante a complicada cerimônia de abertura das Olimpíadas. No elenco, o excelente ator britânico Alex Lawther, visto em ótimas atuações em O Jogo da Imitação e Black Mirror

ROSEMEAD-Numa corrida contra o tempo, uma mulher com câncer avançado vê seu mundo desmoronar ao descobrir as obsessões violentas de seu querido filho adolescente e ter que ir aos extremos para protegê-lo neste retrato de uma família sino-americana. Inspirado em fatos reais. Com a atriz Lucy Liu (Kill Bill e As Panteras) que vive o drama de estar próxima da morte, com o filho prestes a alcançar a maioridade e poder ser preso a qualquer momento sem qualquer parente para ajudar. Vencedor do prêmio do público no Festival de Locarno. 

URCHIN-Mike, um morador de rua em Londres, se vê preso em um ciclo de autodestruição enquanto tenta mudar de vida. Uma história crua e absurda sobre os estranhos padrões que nos impedem de seguir em frente. O filme retrata com crueza a vida dos viciados, ex-presidiários e desabrigados, bem como a boa qualidade do atendimento feito pelo sistema de seguro social britânico. Vencedor dos prêmios da crítica e de melhor ator, para Frank Dillane, na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes.

BLUE MOON-O lendário letrista gay Lorenz Hart, convivendo com uma crise criativa, está num bar de Nova Yorque enquanto seu antigo parceiro Richard Rodgers comemora a estreia triunfal de seu revolucionário musical “Oklahoma!”. Do diretor Richard Linklater, com seu ator fetiche Ethan Hawke (presente nos seus filmes Boyhood e a trilogia Antes do Amanhecer, Antes da Meia-Noite e Antes do Por do Sol). Vencedor do prêmio de melhor coadjuvante, para Andrew Scott (de Todos Nós Desconhecidos e Ripley) no Festival de Berlim. Só não gostei mais do filme pela sua excessiva verborragia, típico do diretor em todos os seus filmes, mas que aqui me incomodou um pouco talvez pelo cenário mais fechado.


CÃES-Um filme tipicamente argentino, o que sempre é sinal de qualidade de roteiro. Os Saldañas têm uma nova tarefa para aliviar o tédio do verão: cuidar da casa dos vizinhos que viajam de férias mas o desaparecimento do cachorro dos vizinhos desencadeia um confronto violento e de alta tensão psicológica entre essas duas famílias. Vencedor do prêmio de melhor atriz coadjuvante, para María Elena Pérez, no Festival de Cinema de Málaga.

SAUNA-Johan é um jovem que mantém todas as portas abertas quando se trata de amor e sexo. Ele é recepcionista em uma sauna gay de Copenhague, onde também vive encontros com os outros frequentadores. Ele aproveita sua sexualidade livremente em bares, festas e casos de uma só noite, mas quando conhece William, um homem trans, ele vivencia o amor. O relacionamento é colocado à prova, como costuma acontecer em uma sociedade com conceitos rígidos sobre gênero, amor e identidade. Imaginei que seria um filme que trataria da questão gay, mas fiquei bem impressionado sobre a relevância do debate sobre preconceitos entre gays e trans.

QUEERPANORAMA-Um jovem homem gay em Hong Kong se faz passar pelos diferentes homens com quem já fez sexo e leva essas novas personas para seus próximos encontros. Apenas fingindo ser outra pessoa ele consegue ser realmente ele mesmo. Achei muito interessante a questão da identidade e os diálogos em que os parceiros abordam suas experiências e expectativas pessoais. Uma boa história com ponto de vista criativo.

FRANKENSTEIN-Victor Frankenstein, cientista brilhante, dá vida a uma criatura em um experimento monstruoso que acaba levando à ruína tanto do criador quanto de sua trágica criação. Uma releitura do  clássico de Mary Shelley pelo diretor Guillermo del Toro. No elenco os atores Oscar Isaac, Christoph Waltz e Mia Goth. Inegavelmente, fotografia, figurino, desenho de som e cenografia são muito marcantes, mas não me agradou muito a opção do diretor de narrar o filme mesmo que seja uma boa ideia usar a versão do médico e da criatura mas ainda não vi necessidade de narração.

DRUNKEN NOODLES-Adnan, um jovem gay estudante de arte, chega a Nova York para cuidar de um apartamento durante o verão. Ele faz estágio em uma galeria que exibe a obra de um artista mais velho e pouco convencional que conheceu há algum tempo. Enquanto momentos do presente e do passado começam a se entrelaçar, uma série de encontros — tanto artísticos quanto eróticos — desestabilizam a realidade de seu cotidiano.

BUGONIA-Dois jovens obcecados por teorias da conspiração sequestram a poderosa CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é uma alienígena com a intenção de destruir o planeta Terra. Mais um filme do não convencional diretor grego Yorgos Lanthimos. Talvez este seja o filme menos estranho do diretor de Pobres Criaturas, A Favorita, O Lagosta, Tipos de Gentileza e O Sacrifício do Cervo Sagrado. Gostei mais da interpretação de Jesse Plemons do que Emma Stone. Não gostei tanto deste filme.

CIDADE SEM SONHO -Uma história sobre ciganos me atraiu para o filme por não ser algo que se vê frequentemente. Toni é um cigano de 15 anos que vive no maior assentamento irregular da Europa, nos arredores de Madri. Orgulhoso de pertencer à sua família de sucateiros, ele acompanha o avô por todos os lados. Mas, à medida que as demolições se aproximam do terreno onde moram, e com o avô disposto a tudo para permanecer ali, Toni terá de decidir o que deixar para trás e o que sacrificar. Vencedor de melhor roteiro na Semana da Crítica do Festival de Cannes.


DRACULA-Longuíssimo filme de quase 3 horas da Romênia. Uma mistura de histórias do passado e presente sobre o mito de Drácula: uma caça a vampiros, zumbis e Drácula interrompendo uma greve, um conto de ficção científica sobre o retorno de Vlad, o Empalador, uma adaptação da primeira novela romena sobre vampiros, um romance trágico, um conto popular vulgar, histórias kitsch geradas por inteligência artificial. Achei longo e chato com exagerado e fraco uso da IA. Primeiro filme romeno de que não gosto.

ATO NOTURNO-Um ator ambicioso e um político em ascensão vivem um caso gay em sigilo e descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. À medida que se aproximam da fama, mais intenso se torna o desejo de se colocarem em risco. Filipe Matzembacher, Marcio Reolon são os diretores e estavam na sessão a que assisti ao filme. Já havia visto os filmes anteriores da dupla gaúcha (Tinta Bruta e Beira-Mar) sempre abordando o universo gay mas achei que a premissa dessa filme foi muito forçada.

RUAS DA GLÓRIA-Gabriel, um professor gay se muda de Recife para o Rio após a morte da avó querida. Assim que chega na cidade, se apaixona por Adriano, um misterioso garoto de programa uruguaio. Ele também faz novos amigos: uma mulher trans, dona de uma boate gay e sua trupe. Quando Adriano some, Gabriel começa uma jornada de investigação que o faz adentrar cada vez mais o mundo dos garotos de programa e da vida noturna das ruas da Glória. Inicialmente, achei a coreografia dos encontros sexuais muito boa, mas aos poucos foi se tornado repetitiva.

AURORA 15-Uma tentativa canhestra de fazer um filme brasileiro de terror. Praticamente todos os que vi do gênero falham miseravelmente. Um jovem casal prestes a assinar o contrato da casa dos sonhos recebe a invasão do local por um velho e sua filha adolescente seguidos de dois homens buscando matar a moça antes que anoiteça. Logo a noite logo chega e a menina já não possui mais a forma humana. Elenco global: Carolina Diecknann, Humberto Carrão, Juliano Cazarré, Marjorie Estiano e Milhem Cortaz. Não entendo como um filme tão ridículo consegue ter Rodrigo Teixeira da RT Features como produtor.