22.2.12

Histórias Cruzadas

Uma crítica disse que o pior adjetivo que se pode usar para um filme é: correto. Ok, então se for assim, Histórias Cruzadas é isso: correto, mesmo levando um Globo de Ouro e concorrendo a quatro Oscar. Filme, Atriz (Viola Davis) e Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer e Jessica Chastain).
O filme levou os prêmios de Melhor Elenco, Melhor Atriz (Viola Davis) e Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) do Sindicato dos Atores da América e Octavia Spencer, o Globo de Ouro, concorrendo com a mesma Jessica Chastain do elenco.
Então voltemos ao início: é um filme correto, interpretações na medida do que se espera delas, roteiro amarradinho, tudo dentro da receita. Ninguém faz feio, a reconstituição de época dos anos 60 é boa e o tema dá um belo caldo: o racismo no sul dos Estados Unidos. Você já viu esse filme antes? Já e não foram poucas vezes.
Aqui a história gira em torno da luta pelos direitos civis dos negros americanos. Aqui ela aparece com uma escritora branca decidindo enfrentar o código de silêncio em torno da segregação mal disfarçada dos negros na cidade de Jackson, Mississipi (você já viu Mississipi em Chamas!), mas aqui o diretor Tate Taylor opta por narrar a história sem exibir o racismo cru e violento, mas o racismo do dia a dia. Por exemplo, o assassinato do militante negro, Medgar Evers, na própria cidade de Jackson, e do presidente Kennedy, são mostrado apenas pela TV.
A força que o filme perde ao não abordar com contundência o racismo no Mississipi está na canção célebre de Nina Simone: Mississipi Goddam (Maldito Mississipi) que trata exatamente do assassinato de Medgar Evers, no Mississippi, além do assassinato de quatro garotas negras numa igreja do Alabama. Nina Simone compôs a canção que expressa sua indignação: “Alabama’s gotten me so upset/ Tennessee made me lose my rest/And everybody knows about Mississippi Goddam”. (Alabama deixou-me tão irritada/Tennessee me fez perder meu descanso/ E todo mundo sabe sobre o maldito Mississippi).

14.2.12

O Espião Que Sabia Demais

O Espião Que Sabia Demais é uma boa opção se você estiver com sono. Dá até pra roncar. Sinto uma grande pena em dizer isso desse filme. Sabe aquele tipo de filme que você queria muito gostar? Pegaram uma história de espionagem sobre guerra fria do magistral escritor John Le Carré; adicionaram um diretor que já mostrara ser um talento em ascensão como Tomas Alfredson (vide o seu filme cult sueco de vampiro Deixe Ela Entrar); acrescentaram um elenco de primeira a começar pelos sempre ótimos Gary Oldman, Colin Firth e Jonh Hurt…mas resulta num filme monótono, chatinho, excessivamente sombrio e arrastado. A trama de Le Carré é ótima nos seus best sellers, mas no cinema a massa desanda e vira um filme sobre um bando de burocratas matando, torturando e perseguindo uns aos outros.

Aqui, apesar de ótima reconstituição de cenários da época da Guerra Fria, temos uma overdose de elementos ingleses. Parece que o diretor quer em cada mínimo frame do filme nos lembrar que estamos na Inglaterra. Então não há um minuto sem uma xícara de chá, uma rua coberta de fog, sanduiches de pepino (“iguaria” favorita dos britânicos), alguém nadando num lago (passatempo inglês), papéis de parede florais, cães ingleses…fica over. Mesmo nas cenas filmadas em Budapeste e Istambul a gente sente que o diretor quer martelar na nossa cabeça que tudo tem que ter a cor do local.

Inegável, porém, o talento minimalista dos atores, mas o minimalismo pode ser demais até chegar a bons minutos em que um bom ronco não faz mal. Elogiável é a sequência final, em que tudo se explica — ufa, depois de duas horas já estava na hora —, ao som de La Mer, na voz de Julio Iglesias. Ah, e a trilha do filme está concorrendo ao Oscar. Esqueça se você acha Julio Iglesias brega. O homem arrebata com a canção originalmente gravada com uma batida jazzística em inglês com o título Beyond The Sea, usada à exaustão no cinema até na trilha de Procurando Nemo, mas aqui há um vivo frescor francês. Algo de sublime no meio de fog, críquete e sanduiche de pepino. Bons sonhos.

11.2.12

Um Conto Chinês





















O cinema argentino virou uma unanimidade por todos os motivos e com todos os méritos, inclusive com Oscar e tudo. À parte o cartaz infeliz deste filme que mostra uma vaca e dá uma idéia errada de que se trata de uma comédia (deviam matar quem escolheu esse cartaz), o filme cumpre tudo aquilo que um bom filme argentino promete a começar pelo ator Ricardo Darín, presente em 9 de cada 10 produções dos nuestros hermanos portenhos (Abutres, O Filho da Noiva, O Segredo dos Seus Olhos, Clube da Lua, Nove Rainhas…)

O filme tem um início estranhíssimo, com uma vaca literalmente despencando do céu. Essa introdução será retomada adiante numa ligação que consegue unir o bizarro e o lírico de modo extremamente original e convincente. Um erro que pode se tornar um acerto, uma busca da solidão que pode se transformar num encontro com o amor, a falta de comunicação tornando o azar em sorte.

Aqui, Darín é Roberto, um mal humorado veterano da Guerra das Malvinas que vive do trabalho para casa, recluso e cheio de manias. Uma delas é colecionar artigos estranhos publicados pelos jornais. Ele encontra por uma casualidade um chinês que não fala uma única palavra de espanhol que é roubado e atirado de um táxi em plena Buenos Aires. Eles não falam uma palavra em comum e seriam as pessoas menos indicadas para conviverem, mas, aos poucos, de um modo surpreendente, essa relação aparentemente impossível revela uma lição que mudará completamente a vida de ambos.

Um roteiro primorosos e repleto de sutilezas que faz a gente se perguntar por que no Brasil não se faz filmes assim.

8.2.12

Os Homens que Não Amavam as Mulheres

A fantástica série de livros Milenium, que deu origem a uma produção cinematográfica sueca, exibida no Brasil como uma brisa, com pouco público e pouca divulgação, talvez por ser sueca, agora, o mesmo filme: Os Homens que não Amavam as Mulheres, na versão em inglês: “The Girl with the Dragon Tattoo”, primeiro livro da trilogia, chega com a grife de Hollywood estampada e pode ser que tenha mais sucesso por aqui. Na bagagem carrega uma história de primeira, um diretor de mão cheia como David Fincher (Seven, Clube da Luta e A Rede Social) e um ator em franca ascensão: Daniel Craig (aqui sem os seus biquinhos habituais).
O filme está indicado a quatro Oscars.A série de livros já foi traduzida para mais de 40 idiomas e é um sucesso internacional com mais de 30 milhões de livros no mundo. O que é mais do que impressionante, pois são três livros totalizando 1.874 páginas.O papel mais vibrante do filme é o da hacker punk e bissexual Lisbeth Salander e ele foi parar nas mãos da atriz novata Rooney Mara (de A Rede Social) que se sai muito bem ao ponto de ter sido indicada ao último Globo de Ouro ao lado de veteranas como Meryl Streep e Glenn Close.
Não concordo com a opinião do crítico Thales de Menezes da Folha de São Paulo que diz que David Fincher melhora o livro que já era muito bom. Na verdade, como são duas linguagens narrativas diferentes (livro e filme), pode-se dizer que um é melhor ou pior do que o outro, mas nunca que um melhora o outro. Um filme não pode melhorar um livro. Nada pode, pois o livro é uma obra acabada e assim não pode ser melhorada ou piorada, não é como uma obra que está em construção ou que caiba reformas que a melhore.
Um dos pontos altos do filme é sua abertura espetacular. Nos meus muitos anos de cinéfilo não me lembro de uma abertura (enquanto aparecem os créditos) tão impactante e bem feita. Deveria haver um prêmio para a melhor abertura. Este filme levaria com louvor. Para quem leu os três livros ou viu o primeiro filme, esta versão é boa, mas não tem muito a acrescentar. O primeiro filme não era ruim, como diz o crítico da Folha chamando-o de “rascunho comparado à versão americana”. Tem gente que só valoriza o que vem de Hollywood.
Aliás, esse mesmo crítico acerta num ponto quando diz que a versão de Fincher perde para o original quando revela preocupação estética excessiva na brutal cena do estupro. A cena, na versão sueca, era crua e violenta. A americana, de tão plástica, parece mais uma cena de pornô soft.O filme americano muda o final do original. Para quem é fã da história de Stieg Larsson, fica um gosto meio amargo de um filme que tem um clímax e opta por terminar num anticlímax, com uma cena final chocha.
Os leitores da obra se apaixonam por Lisbeth apesar de ela levar a expressão anti-social ao seu paroxismo. Todos nós embarcamos na garupa da sua moto; nos angustiamos com as perseguições a que ela é submetida, exultamos quando ela consegue se vingar dos que a sacanearam e todos nos perguntamos se tudo valeu à pena, diante do seu sofrimento.
Essa crítica está parecendo mais literária que cinematográfica, mas isto é inevitável tratando de uma adaptação de um livro que é sucesso mundial. Aliás, deixo uma provocação. Cada volume (versão econômica) custa em torno de R$ 30,00 e encanta o leitor por semanas. Um ingresso de cinema custa em torno de R$ 10,00 e garante duas horas de encantamento.
Não dá pra ficar comparando né ?

20.1.12

Os Advogados do “Bom Gosto” Alheio

Todo ano é a mesma ladainha. Basta a Rede Globo estrear uma edição do Big Brother Brasil que logo começa uma campanha e uma feroz patrulha contra o programa e a emissora. Mas nunca vi a coisa ficar tão feroz como desta vez. As redes sociais estão pululando de gente ouriçada, todos loucos para opinar contra o BBB. São os advogados do bom gosto alheio.

E tome clichês como “atrofiar a mente”, “alienar”, “A intenção da Globo é nos emburrecer”, “zoológico humano”... É uma ladainha de lugares comuns.

O BBB, na sua essência, não difere dos outros inúmeros reality shows (há para todos os públicos). Mas os advogados do bom gosto alheio se atiçam especialmente pelo programa que é um tipo contemporâneo de dramaturgia. Você pode gostar ou detestar uma pintura, um romance, uma peça, uma novela, um samba ou um balé, mas não pode negar que todas essas expressões artísticas têm em comum os elementos básicos constitutivos de toda dramaturgia, elementos estabelecidos há centenas de anos por Aristóteles em sua “Retórica”: pathos, ethos e logos.

Pathos representa os elementos dos conflitos estabelecidos, as brigas, os amores, as intrigas; Ethos, a ideia de que o forte pode ser derrotado pela união dos fracos, o caráter das personagens, ou a possibilidade de o bem vencer o mal no final. Ou não. Logos é a narrativa midiatizada pela TV, a linguagem.

O BBB representa apenas um exemplo dos novos formatos que a cultura contemporânea encontrou para disseminar estruturas narrativas diferentes das então existentes. A evolução da tecnologia ao longo da história humana sempre modificou os padrões difusores da dramaturgia.

A se fiar nos contrários a novidades narrativas, nunca se teria escrito a Ilíada e a Odisséia, pois quando os aedos gregos, como Homero, narravam aqueles cantos, fiavam-se apenas na memória. Quando começaram a escrever as histórias, considerou-se um sacrilégio. Quando incorporaram ao teatro apetrechos técnicos que tiravam o foco da interpretação dos atores, inicialmente foi uma heresia, como a inclusão do som no cinema mudo...

Todas as mudanças introduzidas nas narrativas existentes sempre geraram estranhamento e críticas. E as críticas sempre vinham dos conservadores.

O que os advogados do bom gosto acham de tão diferente assim entre um BBB e uma novela ou um livro ou um filme? Não estou entrando no mérito da qualidade da obra, mas do formato delas. Vejamos:

1º) Todas tem um tipo qualquer de representação. O ator encarna um papel diferente de si próprio, um personagem. O BBB tem nisso uma grande jogada: o participante, que não é ator, representa a si próprio. Mas não pode ser 100% ele mesmo, pois as pessoas esperam uma mistura de realidade com show, buscam alguma centelha de encantamento. Essa dosagem misteriosa, esse ponto de equilíbrio delicadíssimo faz com que o participante agrade ou não ao público. Agrada mais aquele que, paradoxalmente, melhor finge o que realmente é. E o púbico é esperto. Assim como os participantes. No cinema/novela/teatro, o ator não pode ser ele mesmo sob pena de desagradar ao público e ser tido como canastrão.

2º) Todos os formatos dramatúrgicos envolvem algum tipo de dinheiro. Ou alguém acha que um escritor ou diretor ou roteirista escreve ou dirige por sacerdócio? O que incomoda tanto no fato de um participante do BBB ganhar 1 milhão? Muitos atores ganham isso. Aliás, isso é de uma falta de importância tão grande que atribuo as críticas focadas nesse aspecto do programa ao puro despeito ou inveja. Ou coisa pior, um elitismo disfarçado (só quem pode ganhar esse dinheiro é alguém que tenha estudado dramaturgia ou ralado na lida dos palcos e telas).

3º) Toda dramaturgia é um tanto de ilusão. Ninguém suporta excessos de realidade e ironicamente o reality show é uma realidade dourada. As festas são inclusões artificiais, a relações são profundas ou superficiais, há uma fachada que é evidenciada em cada aspecto, mas ao mesmo tempo busca seu disfarce. O paradoxo é fascinante. Cada um quer ganhar o prêmio máximo, quer ganhar a fama, a atenção, o carinho, o voto. É um simulacro da realidade, uma emulação dos conflitos da vida real maximizados e estimulados. O voyerismo é uma das condições da existência de qualquer obra de arte. Um exemplo disto está na célebre entrevista em que o diretor francês da nouvelle vague, François Truffaut, ídolo da esquerda, dá uma aula aos patéticos jornalistas americanos, explicando-lhes, e deixando-os de queixo caído, porque Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, é uma obra prima.

4º) Toda história tem um autor-narrador. O BBB tem milhões. A história vai se desenvolvendo à medida em que os conflitos e alianças se estabelecem. A cada dia, a casa pode adquirir novo formato a depender das performances dos seus integrantes e do humor da audiência. Todo livro, novela, peça, música tem apenas os seus autores.

Cabe aos leitores, espectadores e ouvintes o papel passivo de desfrutar da obra ou não. No BBB estabelecesse uma cumplicidade e a plateia tem a sensação de que pode fazer a história adquirir um rumo ou outro. Uma dramaturgia sem texto, ou melhor, com uma infinidade de textos possíveis.

Acho um perigo quando começam a definir o que é de interesse público e o que não é. Acho muita arrogância de intelectual pretensioso criticar o que as pessoas gostam. Acho que o maior termômetro para saber se algo está agradando é a audiência. Vejo um vídeo disseminado pelos advogados do bom gosto alheio do artista plástico Antonio Veronese criticando o BBB a partir de uma matéria do jornal O Globo em cujo caderno cultural publicou quantas vezes as meninas se masturbaram dentro do programa. Para ele é inconcebível que o “país pare” para ver duas pessoas conversando abobrinhas na cozinha.

Ele diz ainda que o BBB idiotiza as pessoas, mas se esquece de que a tv aberta mesmo oferece programas de "qualidade" que não atraem a audiência, vide os índices da TV Cultura. As pessoas não se conformam em não assistir ao programa, elas querem que os outros também não assistam. Elas não se conformam em não gostar, incomodam-se que outros gostem. E usam essa desculpa esfarrapada de que não é do interesse público ou que não é de bom gosto. Ninguém está obrigando ninguém a assistir. Para isso existem controles remotos e a programação cult da TV Cultura.

A Rede Globo como as demais emissoras são empresas privadas e têm anunciantes. Assiste quem quer. O que não dá é para ficar impondo a vontade em nome de um bom gosto ou moralismo e querer que uma empresa privada faça o que os intelectuais boçais querem. E se os anunciantes querem pagar para aparecer no programa é porque dá lucro para eles. O governo não tem nada a ver com isso. Os intelectuais adoram se meter no gosto dos outros e quando não conseguem o que querem pedem a interferência do governo.

Acho isso tão perigoso que nem sei por onde começar a me preocupar. Só queria saber de início quem são os sabidos que vão escolher o que é adequado. Quem são esses inteligentes que vão dar os parâmetros do que é bom e o que não é. O mais democrático é que cada um escolha o que lhe convém. Não para os advogados do bom gosto alheio, eles sabem o que é bom para o povo. Para mim, só resta lembrar a advertência do robô de Perdidos No Espaço: “Perigo! Perigo!”.

Para moralistas contrários ao programa, o BBB deve se suspenso “em defesa da família brasileira” (juro que li esse argumento na internet). Então vemos uma aliança estranha, os moralistas, os esquerdistas e os intelectuais contra o programa da Rede Globo.

Para quem reclama de um programa exibir durante horas imagens banais de pessoas conversando abobrinhas, lembro que o pintor e cineasta underground americano, Andy Warhol, pai da pop art e ícone pós-moderno, exibiu, em 1963, o seu filme Sleep, que era simplesmente um plano-sequência de um homem dormindo por cinco horas e vinte minutos. Mais tarde, Warhol apresentou um plano-sequência de oito horas de filme. E Andy Warhol continua a ser considerado um gênio pelos intelectuais. Será que esse dois filmes seriam considerados adequado para o tal “povo” ?

Conversando com uma amiga ouço o seu comentário: “Não entendo como alguém inteligente como você pode gostar desse programa”. Explico minhas razões. Ela reage assim: “Mas isso o povo não sabe”. Eis o que esses advogados do bom gosto alheio pensam: Elas pensam que sabem o que é melhor para o povo.

19.1.12

Os Imortais


Há uma máxima em Hollywood segundo a qual “jamais alguém perdeu dinheiro na indústria cinematográfica por subestimar a inteligência das platéias”.

Eis um desafio: escrever a respeito de um filme sobre o qual não encontrei absolutamente nada de bom para falar. Sou, desde criança, leitor compulsivo de mitologia grega, apaixonado pela história dos deuses e heróis desde criança, introduzido ao tema pela coleção Sítio do Pica-pau Amarelo de Monteiro Lobato. Os dois volumes dos 12 Trabalhos de Hércules foram o gás para vôos mais longos e profundos até conhecer mitologia grega como conheço a história dos meus amigos.

Essa longa narração é para explicar ao leitor que apesar de eu não ser leigo no assunto, mesmo conhecendo muito bem a história de Teseu com o Minotauro, Fedra, Zeus etc, fiquei muitas vezes perdido na história. Fico imaginando um expectador que não conheça tão bem o tema. O filme é uma farsa que não respeita sequer uma mínima coerência interna. Ele tem tantas falhas e é tão mal feito (me surpreende que seja da mesma equipe do espetacular 300), que precisaria dividi-lo em partes para começar a apontar os defeitos.

Primeiro, creio que o tema já foi explorado abundantemente e recentemente em Fúria de Titãs (refilmagem de um clássico) e também tivemos 300 e Tróia, esse último, outro filme que falhou demais com a mitologia.

Segundo, o que se via no cinema através daqueles óculos horrorosos de filme 3D era uma mutilação de um filme (para utilizar um termo bem adequado ao enredo). Muitas vezes, eu preferia tirar os óculos e ver borrões e não ler as legendas, pois a opção com os óculos era não distinguir os contornos dos rostos já que parecia que era sempre noite e uma névoa marrom cobria a tela prejudicando a visão.

Terceiro: Em cinema uma das principais atividades é a do produtor de elenco, a pessoa que seleciona os atores. Há uma expressão em francês, mas que se usa comumente em qualquer país, que é “Physic du rôle”, ou, traduzindo, físico adequado ao papel. Pois bem, foram poucos os filmes em que vi um elenco tão mal escolhido. O ator que representa Zeus parece um jardineiro mexicano com um bigodinho ridículo. O personagem clássico Zeus é o que pode haver de mais monumental e ameaçador. Há uma iconografia consagrada nas estatuárias espalhadas pelo mundo e obras de arte mostrando-o como um homem barbudo e forte com ar dominador. Pegaram um ator que dava para ser um jardineiro, colocaram um bigodinho ridículo e disseram: você vai ser Zeus! Pelos deuses, que gente burra é essa?

Aliás o miscasting é disseminado. Fiquei com pena de ver o grande John Hurt com um papel tão humilhante para o seu talento que brilhou em clássicos como O Homem Elefante, Perfume, o primeiro e melhor filme da série Alien, 1984 e tantos outros.

Quarto problema: A História. Imagine se eu quiser contar uma história baseada no Velho Testamento e misture as coisas colocando Abraão na arca de Noé ou Moisés sendo amante do Faraó….coisas desse gênero. Obviamente, muita gente ia reclamar com razão. Pois então por que diabos esses roteiristas resolvem misturar tudo que tem a ver com a história de Teseu? Teseu era um príncipe que virou rei de Atenas, era filho do poderoso rei Egeu, matou o minotauro que era um monstro no labirinto da ilha de Creta, uma história consagradíssima, cheia de simbolismos, detalhes saborosíssimos e que esse filme simplesmente retalha como uma picanha no espeto. E Fedra era filha do rei Minos de Creta e não tinha nada de sacerdotisa mas era uma mulher comum que inclusive seduziu o flho de Teseu, Hipólito que lhe resisitiu e por isso, falsamente acusado por ela, foi morto pelo pai. Então se vê que a história do filme é uma farsa, um deliberado saque de uma rica tradição por um bando de bárbaros da industria do cinema para,com os despojos, conseguir o entretenimento de incautos.

Quinto problema: A montagem do filme deve ter sido comprometida durante as cenas de açougue. Explico: Esse é o filme em que a violência é mais explicita e grotesca em relação aos filmes do gênero. Quiseram mesmo fazer um filme ou um açougue? As locações estavam mais para um matadouro do que para um templo ou um túnel ou o que quer que seja. Para facilitar a compreensão das platéias, as montagens costumam rapidamente identificar o local em que a cena se passa quando há a transição da narrativa de um ponto para outro.

Exemplo: estávamos num penhasco onde aconteciam cenas. Há um corte e outra cena é mostrada em outro local e assim sucessivamente. Não há a menor preocupação em fazer um take mínimo como ilustração para que a gente saiba que vai ver outro lugar. É tudo misturado e confuso. Não surpreende que as pessoas não entendam.

O diretor Tarsem Singh, que estreou no gótico fantástico A Cela, abusando, no bom sentido, das cores vivas, dos figurinos elaborados e dos cenários espetaculares, aqui cai numa armadilha estética que ultrapassa de longe o grotesco, uma queda de qualidade de rachar crânios, bolsos e reputações.

Sexto problema: Por que só perto do final do filme se diz o nome de Fedra? O tempo todo a gente não sabe como chamá-la. E os deuses? Por que só três deles têm nomes? Zeus, Atena e Poseidon. Ninguém fala nada dos outros e eram tantos: Ares, Artêmis, Afrodite, Hera, Hefaistos, Deméter, Héstia, Hermes, Apolo, Hades, Perséfone….Nomes existem para serem usados. Faltou pesquisa na produção, virou uma mixórdia, faltou talento e sobrou arrogância….um filme todo errado, sem um único mérito. É um desafio encontrar um adjetivo negativo para resumi-lo. A crítica do New York Times chamou-o de “ESTÚPIDO”. Para mim, trata-se de um filme DESNECESSÁRIO!

Mas, como ninguém perde dinheiro ao subestimar inteligências alheias, o filme deve ter seu público. Há quem goste de açougues e matadouros com saiotes, elmos, espadas, sandálias e arcos mágicos.

1.12.11

Por que não deixam os ateus em paz?

Outro dia, almoçando com minha amiga Conceição Moraes e outra colega, comentei que Conceição reza a Ave Maria todos os dias. Conceição então apontou para mim e disse: “Ele é ateu! Tenho pena desses ateus!”.


Respondi: “Também tenho. Seria uma vida tão mais fácil se eu acreditasse em Deus”.




O mais interessante foi o choque da outra colega. Em seu rosto uma miríade de expressões: incredulidade, como se eu fosse uma aberração; pena: como se eu precisasse de socorro; incômodo: por respirar o mesmo ar que eu. Tive vontade de dizer-lhe: “Ela disse que sou ateu e não que sou pedófilo”.



Eu já deveria estar acostumado. Poucas classes são mais mal vistas do que a dos ateus. Pesquisa do Gallup nos EUA mostrou que entre 95% e 80% dos americanos votariam em uma mulher, um católico, um judeu, um negro, um mórmon ou um homossexual para presidente, mas menos de 50% votariam em um ateu. No Brasil, 84% votariam em um negro para presidente, 57% dariam o voto a uma mulher, 32% votariam em um homossexual, mas apenas 13% votariam em um ateu. Entre as minorias (racial, sexual, de gênero...), a mais rejeitada é a anti-religiosa.


A historiadora Eliane Moura Silva, especialista em religião, analisa: "O brasileiro ainda entende o ateu como alguém sem caráter, sem ética, sem moral. É um entendimento que se espalha de modo homogêneo por todas as classes sociais.”



A jornalista Eliane Brum escreveu o artigo: “A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico” em que descreve o diálogo com um taxista. O homem afirmara ser evangélico e perguntou sua religião. Quando a jornalista disse que era ateia o motorista saiu com um



- Deus me livre!


Eliane retrucou – Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha. Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?



Eliane reflete sobre como a vida dos ateus é dura num Brasil cada vez mais evangélico pentecostal. “Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais são constituídas no modo capitalista. Nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel” obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações. O templo é um shopping da fé”



A Igreja Católica, atualmente mais tolerante com os ateus do que as pentecostais, tem também uma história de forte mercantilismo e utiliza movimentos carismáticos para reduzir a sangria de fiéis.


“Não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso não tem qualquer apelo. Tenho muitos amigos ateus que me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil.”



No site de uma igreja a jornalista encontra um aviso: “O perigo da tolerância” e afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”.



“A liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.”, concluiu.



Já na Folha de São Paulo do dia 24/11 deparo-me com o artigo do jurista Ives Gandra Martins intitulado: “Fundamentalismo ateu”. Quase ri do inevitável oximoro, mas não havia nenhuma poesia na contradição dos termos como no Claro Enigma de Drummond.



Ives Gandra diz que sustentou, pela CNBB, no STF, a inconstitucionalidade da destruição de embriões para fins de pesquisa. E recorre a um silogismo (“pois são seres humanos, já que a vida começa na concepção”).


Esse é um tipo de argumento fraudulento. O pois indicaria que a opinião do jurista é suficiente para servir de premissa. O pois seria apenas uma “conclusão lógica do argumento e o argumento é a própria opinião”. E continua “já que a vida começa na concepção”.



Isto é que é fundamentalismo! Se a vida começa na concepção, resta saber se aquela vida é um ser humano. Aliás, há vida em um pedaço de carne que se tira numa cirurgia. Um amontoado de células é vida, mesmo que seja num tumor. A questão é mais profunda. Esta vida é protegida como um ser humano é? Deve-se dar a um embrião de dez dias o mesmo tratamento de um ser humano? E a se crer nesse argumento, há milhões de “seres vivos” congelados em laboratórios de fertilização, embriões fertilizados. Essa “gente” não tem direitosnão?



Ives Gandra, ao sustentar que a Igreja é a detentora da verdade, esquece dos milhõesque morreram por desafiar a verdade da Igreja Católica.


Seria cômico se não fosse perigoso ler um jurista dizer que há uma “guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã e cumprem seu papel, nas mais variadas atividades, buscando a construção de um mundo melhor”



Se dependêssemos do mundo melhor dos religiosos ainda estaríamos com o Sol girando em torno da Terra e queimando mulheres e cientistas nas fogueiras da inquisição.



Para Gandra, ateus só não são iguais aos fundamentalistas do Oriente Médio porque não há terroristas entre eles. Puxa, uma diferença realmente pequena....Uns saem matando pessoas e explodindo prédios e jornais que publicam caricaturas de Maomé enquanto os ateus não explodem ninguém, não queimam ninguém. Não querem convencer ninguém a nada. Só querem que os deixem em paz.



A capacidade de influenciar pessoas é tão desproporcional entre religiosos e os poucos ateus que surpreende que possamos incomodar tanto essas sumidades. Não fosse falta de humildade seria por arrogância ou pura falta de bom humor. Recentemente, a Benetton foi obrigada a suspender parte da sua sempre polêmica campanha publicitária em que mostrou líderes mundiais trocando selinhos. Sob o sugestivo nome de UNHATE (Não ao ódio),sintomaticamente, o único cartaz suspenso foi o que do papa beijando um imã.



Se eles se beijassem mais talvez se esquecessem de nós.