6.7.18

O COMPLEXO DE PORTNOY E O TEATRO DE SABBATH



Os dois títulos acima fazem parte das 31 obras geniais do polêmico norte americano Phillip Roth, morto em maio último.

Roth foi um dos escritores mais prestigiados no mundo, o único americano em vida a ter suas obras completas publicadas pela Library of America, instituição que objetiva preservar a herança cultural americana. Oito dos seus livros foram adaptados para o cinema e o número de prêmios é respeitável, só tendo lhe faltado o Nobel, o que sempre motivou críticas unânimes à academia sueca.

O Complexo de Portnoy é a terceira obra de Roth e quando do seu lançamento, em 1969, foi uma bomba em termos de repercussão e polêmica. O livro levou o autor ao patamar dos grandes escritores e deixou-o milionário. Em 1972 o livro foi adaptado para o cinema

Toda a narrativa do livro é uma grande sessão de terapia do judeu americano Alexander Portnoy, — todos os protagonistas dos livros de Roth são judeus, como ele, espécies de alteregos — e aqui o narrador expõe ao analista suas pulsões sexuais incontroláveis e as obsessões com as quais não sabe lidar e que tenta, sem sucesso, reprimir.

Ao mesmo tempo o livro é obsceno e divertido e Portnoy tornou-se símbolo de uma cultura, um feito e tanto para um autor que ainda escreveria, com grande sucesso, dezenas de livros depois deste.

Quase meio século após seu lançamento, O Complexo de Portnoy mantém sua força, mesmo não chocando tanto como nos anos 70 e 80, quando a contracultura e a luta pelos direitos civis eram mais vibrantes.

Portnoy, o atormentado pelo seu forte Complexo de Édipo e culpa, não terá facilidade para se livrar das suas neuroses e da fortíssima influência da mãe judia — mãe judia é um clássico: "Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. Assim que tocava o sinal ao final das aulas, eu voltava correndo para casa, na esperança de chegar ao apartamento em que morávamos antes que ela tivesse tempo de se transformar. Invariavelmente ela já estava na cozinha, preparando leite com biscoitos para mim. No entanto, em vez de me livrar dessas ilusões, essa proeza só fazia crescer minha admiração pelos poderes dela”.

Com linguagem vulgar e narrativa sem cronologia, quase fluxo de pensamento, já que se trata de uma grande sessão catártica com um terapeuta, Roth não economiza nas tintas e percebemos um Portnoy repleto de autoironia, inteligência e sagacidade. Em certas passagens, como já foi relatado por vários leitores, fui tomado por gargalhadas. Despudorado e engraçado, esse livro conquista. Não pede licença nem perdoa.

Leia-o com deleite e sem culpa. Deixe toda culpa para o pobre Portnoy, pois ele já a tem de sobra.

 


O Teatro de Sabbath, de 1995, era o livro favorito do próprio Phillip Roth, entre todas as suas obras. Mais polêmico ainda do que O Complexo de Portnoy, a obra tornou-se de imediato um fenômeno em termos de adoração ou aversão. As feministas mais ferrenhas chegaram a colocá-lo no índice dos livros mais odiosos e seu personagem principal, o cínico e imoral  Mickey Sabbath, considerado a epítome do porco chauvinista.

O judeu quase septuagenário Mickey Sabbath é um artista de fantoches aposentado apresentado ao leitor em plena crise existencial e decadência física e moral. Acompanhamos seu declínio graças ao talento para criar conflitos e buscar situações limites que o levem cada vez mais para baixo. Nesse caminho, ele vê seus pouquíssimos amigos morrendo e em alguns momentos temos a impressão de que este homem é um bólido desgovernado que só é capaz de sentir e causar amargor.

Ledo engano. Sabbath, contra todo seu instinto canalha, mantém forte melancolia com algumas pessoas: o irmão mais velho, herói aviador abatido pelos japoneses na 2ª Guerra; a mãe, força da natureza e esteio da família, em demência senil após não superar a morte do filho. Após a morte da mãe, o pai de Sabbath segue o mesmo destino.

Sozinho, esse homem faz sua jornada rumo a um prometido, mas improvável suicídio. No caminho, conquistando prisão por indecência, demissão da Universidade por assédio sexual a uma aluna graças à férrea recusa em integrar uma sociedade onde há convenções e regras, Sabbath é incoercível seja pela lei, pelos costumes, pela moral ou pelo remorso. Trai, rouba, mente, subjulga, corrompe e estraga tudo à sua volta.

Mesmo atormentado pelos fantasmas do passado — em certos trechos há vários diálogos com a mãe morta (uma imagem extremamente judaica) — uma metáfora da sua solidão, ele vive cercado de mulheres com quem divide a sexualidade desregrada.

Mas Sabbath não é um personagem óbvio, um vilão raso, pois sob um olhar mais cuidadoso do leitor, exibe talvez um envergonhado verniz de ternura. Isso fica evidente na sua busca desesperada por um sentido final para sua vida após a morte de todos os seus parentes e mesmo após o câncer levar a sua amante, alguém tão importante para ele quanto foi a própria mãe.

Após Sabbath perder tudo e todos, já totalmente à deriva, Phillip Roth, como que emulando Machado de Assis ao defender seu Bentinho em Dom Casmurro, diz diretamente para o seu leitor: “Não seja tão duro com Sabbath, Leitor”. E defende seu protagonista a seguir, refletindo sobre qual homem resistiria a uma oferta sedutora, repetida várias vezes por uma moça com um terço da sua idade: “Nem o turbulento debate interior, nem a superabundância de autossubversão, nem os anos de leitura sobre a morte, nem a amarga experiência da aflição, da perda, da injustiça e da dor tornam mais fácil fazer bom uso dos seus miolos quando confrontado com uma oferta como aquela”.

Para o leitor brasileiro, sobretudo baiano, o livro reserva alguns momentos mais divertidos quando o protagonista relembra seu período de marinheiro, onde só lhe importava chegar a um porto qualquer para se deleitar nos prostíbulos do lugar. Sobre Salvador, Sabbath afirma que havia uma igreja e um bordel para cada dia do ano: “Lugar propício à imaginação, a Bahia” e recomenda a um dos poucos amigos deixar sua jovem filha virgem vir para cá: “Ela aprenderia muito mais sobre o texto criativo em um mês na Bahia do que em quatro anos na Universidade Brown”. E ao revirar as gavetas da moça e só encontrar objetos que denotam seu recato, o bruto sentencia sobre ela: “Você não sobreviveria cinco minutos na Bahia”.


Tudo bem que só li "O Teatro de Sabbath" este mês, mas estou sobrevivendo na Bahia há 55 anos. Não podem me acusar de recato!

5.6.18

DOIS GAROTOS SE BEIJANDO


Narrado por uma miríade de vozes de uma geração que morreu vítima da Aids, Dois Garotos Se Beijando, de David Levithan, é um livro de rasgar o coração. Intercala-se a leitura de suas páginas com lágrimas.

Acompanhamos Harry e Craig, dois adolescentes de 17 anos, ex-namorados, na sua tentativa de passar 32 horas se beijando para figurar no Livro dos Recordes. O desafio é fazer desse um ato público e político, em frente à escola em que ambos estudam e assim dar visibilidade a um tema tabu e ampliar o espaço da luta contra a homofobia e o preconceito.

Curiosamente, essa história é inspirada em um fato real. Os universitários Matty Daley e Bobby Canciello se beijaram sem parar por 32 horas, 30 minutos e 47 segundos no campus da Universidade de Nova Jersey.

Pelas regras do Guinness, o ato tinha que ser público e eles não podiam se sentar, usar o sanitário ou fraldas de adultos e tiveram que suportar o calor, o desconforto e as fortíssimas dores musculares sem desgrudarem os lábios por sequer um segundo.

Mas o livro ainda conta três outras histórias paralelamente: a de Peter e Neil, dois jovens que estão juntos há um ano; a de Ryan e Avery, que se conhecem num baile gay e um deles tem que se decidir como revelar que é transexual; e Cooper, um garoto solitário que atravessa suas noites em salas de bate papos na internet com homens desconhecidos e precisa enfrentar o drama de ter seu segredo descoberto pelos pais da pior maneira.

Todos os narradores unem-se em uma só voz para contar as histórias desses adolescentes. Eles, os narradores, já conhecem todas aquelas emoções por já terem vivido os mesmos dramas e afetos, enfrentaram os mesmos preconceitos e sentiram as mesmas dores quando estavam vivos. Somos os fantasmas da geração mais velha que sobrou. Você conhece algumas das nossas músicas. Não queremos assombrar você com melancolia demais. Nós te ensinamos a dançar.” Dizem.

Ao mesmo tempo em que os narradores demonstram empatia pelos dramas dos novos jovens, recordam a ironia do seu próprio tempo, refletindo “quando paramos de querer nos matar, começamos a morrer. Quando estávamos sentindo força, ela foi tirada de nós. Isso não deve acontecer com vocês.”

O conhecidíssimo poema Filtro Solar, versão do original de Mary Schmich diz: “Conselho é uma forma de nostalgia. Compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado do lixo, esfregá-lo, repintar as partes feias e reciclar tudo por mais do que vale.”

É isso que se vê em Dois Garotos se Beijando. Há uma dor subjacente ao fato de que estamos diante de conselhos de homens mortos tentando ajudar jovens vivos, evitando assim que eles passem pelos mesmos dissabores. Mas sabemos que isso é inútil não apenas porque os conselheiros estão mortos e nada podem fazer, mas porque conselhos são meras formas de nostalgia vã.

Por outro lado, há uma beleza imensa em poder ler essas páginas, esses conselhos mesmos, como se ainda houvesse alguma esperança. Mas eles, os narradores reconhecem: “Raramente somos unânimes em relação a alguma coisa. Alguns de nós amaram. Alguns não conseguiram. Alguns foram amados. Alguns não foram. Alguns nunca entenderam para que tanta confusão. Alguns queriam tanto que morreram tentando. Alguns juram que morreram de coração partido, não de AIDS”

Ao final da história, uma espécie de grito de desafio, uma ode à visibilidade com a qual não vejo outra forma mais perfeita de encerrar esse comentário: “Se juntarmos armários suficientes, temos o espaço de um quarto. Se juntarmos quartos suficientes, temos o espaço de uma casa. Se juntarmos casas suficientes, temos o espaço de uma aldeia, de uma cidade, de uma nação, do mundo”.


1.6.18

OS POLICIAIS GELADOS DE JO NESBØ



Há um ano eu nunca tinha ouvido falar no escritor norueguês Jo Nesbø. Somente com o lançamento do filme “O Boneco de Neve”, passei a prestar atenção à sua literatura policial e consumi-la como um faminto. Recentemente, li três livros da sua série sobre o detetive alcoólatra e viciado Harry Hole (Morcego, Baratas e Boneco de Neve). Há ainda quase dez títulos para serem degustados com o mesmo protagonista.


A literatura policial escandinava é quase um subgênero à parte na galeria de livros de suspense, envolvendo complicadas investigações e tramas policiais na linhagem dos mestres Agatha Christie (e seu detetive com TOC Hercule Poirot); Edgar Alan Poe (e o pai de todos os detetives de ficção, Auguste Dupain); Georges Simenon (com seu comissário Jules Maigret); Raymond Chandler (com seu detetive pinguço Philip Marlowe) e Arthur Conan Doyle (com o mais famoso de todos, Sherlock Holmes). Assim como o detetive Harry Hole, de Jo Nesbø, os protagonistas dessas novelas policiais são poços de idiossincrasias e dramas pessoais carregando cérebros brilhantes.

Autores suecos, dinamarqueses, finlandeses e noruegueses, como comprovam o sucesso da Série Millenium e vários outros, estão ganhando notoriedade no mundo inteiro com suas obras de forte impacto e seus personagens cheios de dores e amargores internos com seus próprios fantasmas para exorcizar. Os livros de Nesbø são traduzidos em mais de quarenta línguas e ele já chegou a ter três livros, simultaneamente, no topo da lista dos mais vendidos na Noruega.

Infelizmente, as adaptações das suas obras para o cinema não têm sido felizes. O filme baseado em “Headhunters” teve má recepção e Nesbø só aceitou vender os direitos porque os royalties iriam para sua fundação que ajuda crianças carentes a ler e escrever. A adaptação para as telas de Boneco de Neve também foi um fiasco como roteiro, edição e atuações e nem mesmo a presença de Michael Fassbender (X-Men e Shame) no papel do icônico detetive Harry Hole salvou a empreitada.

Em O Morcego, como nas obras seguintes, a editora Record refez o projeto gráfico das capas nas cores branco, preto e vermelho com detalhes em relevo e os livros passaram a ter melhor qualidade editorial. Aqui, Hole é enviado de Oslo para desvendar um misterioso assassinato de uma jovem norueguesa na Austrália. No meio da trama, o detetive luta contra seu alcoolismo e a tendência à autodestruição e enfrenta boxeadores aborígenes, traficantes, maníacos sexuais e a corrupção policial. Nesbø se esmera na contextualização da atmosfera da cultura australiana com seu passado colonial e racista.

No livro seguinte, Baratas, o detetive Hole é enviado para a Tailândia para investigar, com o máximo de brevidade e sigilo, a morte de um embaixador norueguês apunhalado em um motel barato de Bangkok. A missão no fundo é evitar um escândalo diplomático. Em uma atmosfera de trânsito barulhento e caótico e calor e umidades asfixiantes, Hole vê-se em uma trama que envolve antros de ópio, bares vagabundos de striptease, templos budistas e pedofilia. No decorrer da investigação, após um rastro de crimes, ele percebe que pode ser a próxima vítima do assassino. 

E finalmente, em Boneco de Neve, o policial norueguês enfrenta um serial killer em Oslo que mata mulheres, aparentemente de modo aleatório, no primeiro dia de inverno de cada ano e deixa um boneco de neve no jardim de suas casas usando uma peça de roupa da pessoa morta. O jornal inglês The Guardian considerou este o livro mais ambicioso de Jo Nesbø. O The Times o comparou ao Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris. Cada capítulo é eletrizante, como costumam ser todas as aventuras de Harry Hole.

Boneco de Neve é o sétimo romance de Nesbø e vendeu 160 mil exemplares apenas na semana do lançamento e é o romance policial norueguês mais vendido até hoje. 
Todos os livros têm em comum finais surpreendentes, que fazem valer cada minuto da leitura e desejar mais livros com o atormentado Harry Hole.



14.5.18

A TETRALOGIA NAPOLITANA DE ELENA FERRANTE

A escritora italiana Elena Ferrante é um sucesso na literatura mundo afora, mas eu, por preconceito, sempre achei que o seu seria um tipo de leitura mais feminina, talvez um tanto devido à escolha das ilustrações para as capas dos seus livros que a Editora Biblioteca Azul - Editora Globo fez para o Brasil.

Não sei como, venci o preconceito e após terminar de devorar as mais de 1.500 páginas dos quatro volumes da sua Tetralogia Napolitana, posso dizer que estou viciado na escrita de Ferrante.

            Apesar de ainda considerar péssimas as capas dos quatro livros, inadequadas ao conteúdo áspero e sujo da ambientação da história narrada em Nápoles ou no ambiente acadêmico e político ao longo de mais de 50 anos da Itália pós-guerra, confesso que ultrapassei a barreira das ilustrações infantis das capas para desfrutar de uma das melhores narradoras dos últimos anos.

         
            A tetralogia, que já vendeu quase 6 milhões de exemplares pelo mundo, é formada pelos romances: A Amiga Genial,  História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida. Tive o privilégio de ler os quatro livros de enfiada, um após o outro, ao contrário daqueles que começaram a lê-los na medida em que foram sendo publicados sucessivamente, ano a ano de 2012 a 2015.

           As obras narram as vidas de duas amigas de infância em um bairro pobre de Nápoles. Lenu e Lila. A primeira, a narradora, escreve já na maturidade sobre o desenrolar das histórias de ambas, os caminhos que percorreram, suas dores, a maternidade, os amores e os ódios.

A história nos faz ora admirar ora detestar uma ou outra, torcendo pelo sucesso de Lenu no mundo acadêmico e na literatura ou pela libertação de Lila da miséria social do bairro pobre de Nápoles, representação do microcosmo da Itália pós-guerra, com os assassinatos políticos, a luta sindical e partidária e a máfia napolitana, a Camorra.

A relação das duas amigas é o foco narrativo dos quatro volumes e Ferrante, habilmente, alterna as histórias de uma e de outra, fazendo com que os leitores fiquem presos ao vínculo único que as une que é desenvolvido nos muitos episódios em que, ao longo da vida, elas convivem em momentos diferentes, da infância à vida adulta, já casadas e com filhos.

          Há uma notável construção sobre a ambivalência das amigas Lenu e Lila, suas passionalidades napolitanas, a insuperável competitividade de ambas e seus rancores, mas também a ternura, os vínculos familiares e mesmo os amores divididos por ambas.

A crítica tem feito seguidos elogios à escrita de Ferrante que se insere na tradição da literatura feminina sem apelar para aspectos mais fáceis e de leitura rápida. As obras alcançam ainda a esfera do romance histórico, pois perpassam pela vida das duas amigas todo o panorama político e social da Itália na segunda metade do século passado.

No bojo de toda a história, vemos uma profunda crítica ao universo machista e retrógrado e uma elegia sobre a busca da voz própria e feminina, que inclui a tetralogia napolitana no chamado “romance de formação”, tradição em que estão obras que acompanham as transições da vida de um personagem não apenas ao longo dos anos, da infância à velhice, mas sua evolução psicológica e crítica que muito o definem em um antes e um depois, como acontece em David Copperfield, de Charles Dickens; Um Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce e O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D.Salinger, entre outros.

        Que seja bem-vinda a adaptação da obra para as telas pela HBO, mas, se eu fosse você, não esperaria e começaria logo a devorar os livros para ao menos poder também dizer, como sempre acontece: o livro é muito melhor.

11.4.18

ABRIL DESPEDAÇADO e LAVOURA ARCAICA

 Esta semana acabei de ler dois livros excelentes, ambos adaptados para o cinema por dois diretores brasileiros: Abril Despedaçado — dirigido por Walter Salles e com Rodrigo Santoro como protagonista—, e Lavoura Arcaica, do brasileiro Raduan Nassar, filmado por Luiz Fernando Carvalho e com Selton Mello no papel principal. Os dois livros foram publicados originalmente na década de 70 e giram em torno de profundas tradições familiares.

ABRIL DESPEDAÇADO – Obra do escritor albanês Ismail Kadaré, foi adaptado no cinema para o sertão brasileiro e aborda um círculo infinito de vinganças entre membros de duas famílias rivais. Um dos temas mais caros da dramaturgia universal é o da vingança e se o livro se passa nas montanhas da Albânia, a transposição da trama para a aridez sertaneja, no cinema, não lhe fica nada a dever. É o mesmo orgulho estéril. A mesma mesquinhez patriarcal.

Nas montanhas da Albânia, resiste por cinco séculos até hoje o código de conduta conhecido como Kanum, costume arraigado na vida dos agricultores, que prevê regras estritas sobre o direito das famílias de ter as mortes de seus entes vingadas à bala. Trata-se de um romance, mas o Kanum existe realmente e estima-se que mais de 20 mil pessoas se envolveram em lutas entre famílias, com quase 10 mil mortos somente a partir de 1991 com o fim do regime comunista na região, quando houve um ressurgimento das rixas.

Acompanhamos um mês na vida do jovem Gjorg desde o momento em que ele se vê imerso na rede de vingança, obrigado a cobrar de uma família rival a morte do irmão, matando também ele um membro do clã inimigo e assim submetido ao circulo de vendetas. Ele morrerá após 30 dias, a trégua chamada de bessa. Mas, na prática, sua vida já acabou, ou acabará em algum dia do mês de abril. É impossível não recordar do notável romance do Nobel colombiano Gabriel Garcia Márquez, Crônica de Uma Morte Anunciada, também adaptada para o cinema.

No seu derradeiro mês de vida, Gjorg vislumbra, por uma única e breve oportunidade, a bela jovem Diana e entre os dois se instala uma urgente e súbita paixão silenciosa. Para Gjorg, será uma busca desesperada pela carruagem que transporta Diana pelas montanhas e para a jovem letrada, a estupefação diante de tradições que ceifam a vida de centenas de jovens numa sociedade em que o nascimento de um menino é saudado com o seguinte desejo: “Que ele viva muito. E morra de bala!”

LAVOURA ARCAICA - Também um livro duro, difícil, construído a partir de uma narrativa que se assemelha a um mergulho em apneia ou a um caleidoscópio de cicatrizes abertas.

A história segue os caminhos — ou os descaminhos — de André, filho do meio de uma família religiosa de agricultores imigrantes, uma verdadeira metáfora invertida sobre a parábola bíblica do filho pródigo. Já na primeira página, André é encontrado pelo irmão mais velho Pedro (não à toa, nomes de dois irmãos apóstolos) em um quarto sujo de pensão após ter fugido da opressiva família cristã sobre a qual o pai, libanês rígido, impunha uma disciplina feroz, em contraste com a mãe, pura ternura e afeto.

O jovem André sofre sob essa pressão e se sente cindir nas tensões desses polos em permanente disputa por sua alma. Em torno dele, gravitam os demais irmãos, entre eles a meiga Ana (Simone Spoladore, nas telas), que desperta em André convulsivos desejos incestuosos. 

O livro tem uma construção não linear de prosa poética como um jorro de fluxo de consciência, levando o leitor a mergulhar nas suas páginas sem qualquer garantia. Um clássico obrigatório que precisa ser lido sem pressa, com o devido tempo.

E sobre o tempo, sobre a virtude da paciência, transcrevo trecho de um dos discursos do patriarca da família, belissimamente interpretado no cinema por Raul Cortez: “... rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira...”

28.3.18

ME CHAME PELO SEU NOME


“Se houver dor, cuide dela com carinho

O filme "Me Chame Pelo Seu Nome” foi o vencedor do último Oscar de Roteiro Adaptado, tendo sido ainda indicado a três outras premiações da Academia como melhor filme, ator e canção. Assim que saí do cinema, fui correndo comprar o livro, que devorei em três dias. A obra, que conquistou a comunidade gay, venceu o Lambda Literary Award, maior premiação mundial de ficção LGBT. Ainda embriagado pela atmosfera do romance, dividido minhas fortes impressões.


Não fossem pelas descrições da paradisíaca vila da Riviera italiana, debruçada sobre o Mediterrâneo com suas idílicas tardes de mormaço e aromas de lavandas e pessegueiros, não fosse por uma infinidade de outras experiências sensuais trazidas pela obra do escritor Andre Aciman e dirigida pelo italiano Luca Guadagnino, bastaria o diálogo final entre o ator Timothée Chalamet (um dos mais jovens a serem indicados ao Oscar), no papel do adolescente Elio, e seu pai, o ator Michael  Stuhlbarg, para carimbar a história com a marca de uma catarse em defesa do respeito ao amor.

Diferentemente do filme, o livro é construído com uma narrativa de um Elio mais velho, relembrando um verão no sul da Itália em que, aos 17 anos, conheceu o belíssimo americano Oliver, de 24, hóspede dos seus pais, acadêmicos que habitualmente recebiam estudantes de outros países para temporadas em uma cidadezinha que sabemos apenas que tem a inicial B.

A história é tecida em uma espécie de novelo em que os dois personagens principais se aproximam e se esquivam como em uma corte. Nem o adolescente Elio nem o jovem Oliver são exatamente homossexuais, pois no livro e no filme fica claro que eles têm interesses por mulheres, mas há uma curiosidade imanente, uma busca por uma experiência mais íntima que eles não conseguem evitar e, no caso de Elio, aliada à admiração pela beleza do louro americano, um inegável encantamento pela sua formação erudita, fruto do interesse por temas comuns a pessoas crescidas em meio à atmosfera acadêmica com destaque para música clássica, literatura e artes plásticas.

Estamos em algum momento dos anos 80 e as limitações tecnológicas de comunicação que a época impunha e o isolamento do local em que a história de amor se passa, contribuem para o clima de intimismo que favorece o enlevo. Nesse sentido, a história poderia ser vivida por um casal qualquer, não necessariamente gay. É, na verdade, um hino ao amor. Qualquer amor. Com sabedoria, dizia Guimarães Rosa: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.

No livro, que se estende para além do verão onde os jovens se conhecem, há uma atmosfera de desejo físico, com narrativa de forte sexualidade e luxúria, como na icônica cena do pêssego maduro, enquanto o filme opta por uma sensualidade mais difusa, de menos urgência da satisfação desse mesmo desejo que habita nos protagonistas. Ah sim, o pêssego continua lá.

Há quem torça o nariz e adote um tom moralista para tachar de pedofilia o envolvimento de um rapaz de 17 anos com um jovem de 24. Acho engraçado esse tipo de crítica quando se tratam de dois homens. Lembro, por exemplo, que na clássica película “Houve Uma Vez Um Verão", de 1971, um adolescente de 14 anos se apaixona e se relaciona intimamente com uma mulher mais velha e jamais se fez alusão à pedofilia neste caso.


Talvez o que mesmo tenha incomodado algumas pessoas seja que Me Chame Pelo Seu Nome finalize com uma mensagem positiva em relação ao que resulta de um primeiro amor, ao contrário de outras obras com temática semelhante sobre o amor entre homens com finais trágicos ou tristes, como O Segredo de Brokeback Mountain, Moonlight e tantos outros.

Encerro com o diálogo final entre pai e filho a que me referi no terceiro parágrafo. Qualquer filho que tenha enfrentado uma situação como a de Elio deveria ouvir o que o pai lhe diz: “Vocês tiveram uma amizade linda. Talvez mais que uma amizade. E eu invejo você. A maioria dos pais, se estivesse em meu lugar, torceria para isso tudo acabar, rezaria para seu filho acabar se endireitando. Mas eu não sou um pai assim. Em seu lugar, eu diria: se houver dor, cuide dela com carinho. E, se há uma chama, não a apague. Não seja brutal com ela. Arrancamos tanta coisa de nós mesmos para nos curarmos mais rapidamente das coisas que aos 30 anos já estamos falidos e temos menos a oferecer cada vez que começamos com uma pessoa nova. Mas insensibilizar-se para evitar qualquer dor – que desperdício!”.

20.3.18

O CONTO DA AIA E O VILAREJO


Acabei ontem de ler dois livros: O Conto da Aia, da canadense Margaret Atwood, e O Vilarejo, do brasileiro Raphael Montes. Recomendo vivamente a leitura de ambos.

O Conto da Aia vem de uma tradição de narrativa de distopia que remete a Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e 1984, de George Orwell, todos eles obras primas da literatura moderna adaptados com sucesso para o cinema.

A história se passa em um futuro próximo onde todo o Congresso e o presidente da República foram assassinados por fundamentalistas, a Constituição foi abolida e um grupo cristão radical assumiu o poder  instaurando uma ditadura que retira aos poucos todos os direitos das mulheres, tornando-as meras escravas reprodutoras.

As Aias, mulheres férteis (a minoria, em razão da contaminação do meio ambiente) são capturadas para serem estupradas uma vez por mês e gerar filhos para os Comandantes com a conivência das esposas inférteis que participam do ritual mensal. O objetivo seria repovoar o país que foram os Estados Unidos e que passou a ser a República de Gilead.

O livro, lançado há mais de 30 anos, voltou a ser popular após a eleição de Donald Trump com retorno de ideais radicais e graças também à bem sucedida adaptação para minissérie que foi a grande vencedora do último Emmy, faturando cinco prêmios (melhor roteiro, série dramática, direção, atriz e atriz coadjuvante).

A narradora — cujo nome real não sabemos, já que todas as Aias têm como nomes os prefixo dos nomes dos seus donos —, descreve a atmosfera sufocante e de extremo medo em que vivem as mulheres obrigadas a se vestirem totalmente de vermelho, com toucas brancas na cabeça com uma espécie de antolhos,  que as impedem de verem e serem vistas ao redor.

Nesse ambiente hostil vivem os Comandantes, suas Esposas, Os Olhos, que são espiões, os Anjos, um tipo de infantaria militar, as Marthas, responsáveis pela limpeza e comida das casas dos Comandantes, e as Tias, mulheres sádicas que cuidam da “educação” das Aias, leiam-se: lavagem cerebral, humilhações e torturas.

O livro deve ser lido como um alerta contra as tentativas de hierarquizar o patriarcado e fortalecer o poder do Estado contra os direitos das minorias.

Selecionei um trecho que revela o terror da narradora ao tentar encontrar um tipo tênue de barganha com o seu algoz para evitar a submissão mental total durante um dos inúmeros estupros disfarçados de cópula ritual: “Finja! Berro para mim mesma dentro da minha cabeça. Você deve se lembrar como. Vamos acabar logo com isso. Senão você ficará aqui a noite inteira. Movimente-se. Mexa esta carne um pouco, respire de maneira audível. É o mínimo que você pode fazer”.

Não sou mulher e jamais poderei imaginar esse tipo de brutalidade contra o corpo e contra o espírito de uma mulher. Não faço sequer ideia. Deste lado desse abismo, resta o meu estupor.

O VILAREJO

O Vilarejo é um livro relativamente pequeno, com menos de 120 páginas, que narra sete contos interligados e tenebrosos que se passam numa remota vila fictícia tomada pela fome e pelo rigorosíssimo inverno, num país assolado por uma guerra civil. 

O suspense tem início logo no prefácio e tem um arremate, do mesmo modo sombrio, no posfácio. De presente para o leitor, mais de uma dezena de belíssimas ilustrações de Marcelo Damm (sobrenome que, curiosamente, significa “maldito”, em inglês.)

Raphael Montes é um jovem autor que desponta com ótimos livros que vem fazendo sucesso como Dias Perfeitos e Suicidas e neste O Vilarejo demonstra um excelente domínio da narrativa de terror.

Os sete contos são curtos e de leitura ágil, mas nem por isso são rasos. Cada um deles tem como título os nomes dos demônios responsáveis por cada pecado capital: Asmodeus (luxúria), Belzebu (gula), Mammon (ganância), Belphegor (preguiça), Satan (ira), Leviathan (inveja) e Lúcifer (soberba) e cada conto narra a história de um habitante do Vilarejo relacionado a cada pecado e demônio. A narrativa não linear dá um sabor a mais. Apenas no último conto somos apresentados à cronologia dos trágicos eventos, o que nos faz entender de fato toda a história.

As narrativas são de um terror repulsivo, mas não apelativo, apesar das descrições sanguinolentas já que o contexto está bem adequado à atmosfera sombria da ambientação. Em algumas páginas, as várias manchas de sangue parecem nos lembrar de que estamos imersos na maldade humana.

Como diz o crítico Rodolfo Lucena, na Folha de São Paulo: “As histórias de "O Vilarejo" não deveriam ser lidas, e sim contadas em voz soturna em torno de uma fogueira, em noite de lua cheia”.

Recomendo a leitura da versão impressa, pois na forma digital o livro perde muito da sua beleza e do prazer ritual de desfrutar de uma edição caprichada e elegante.