26.11.16

O BAIANO INTERATIVO NA BLACK FRIDAY

Todos têm uma história para contar sobre sua experiência com a Black Friday, todos pegaram uma fila gigante em promoções. Também tenho minha história e ela está cercada de baianos interativos, aqueles seres peculiares que habitam esse universo paralelo quântico chamado Salvador.

Deixem-me guia-los até a cena. Lá estava eu após duas horas na fila das Lojas Americanas do Salvador Shopping, um dos tops da capital baiana. Nas mãos cds, dvds e blurays pela metade do preço que para um fanático por música e promoções é algo irresistível ao ponto de aguentar torturas medievais.

Devidamente justificada a minha presença naquele insólito território de horrores, passo a narrar os fatos que sobrevivi para contar. Podem parecer não crível para almas nobres, mas garanto que tudo é 100% verdadeiro.

Veja a cena. São 5 da tarde e a fila não dá sinais de vida. Apenas um caixa funcionando para o pagamento de cds, dvds e livros. E pensava eu que ali seria mais rápido por ser exclusiva para o pagamento desses itens enquanto quinze outros caixas eram utilizados para o pagamento dos outros dez milhões de itens à venda. Ledo engano, pois se o caixa único era exclusivo para os itens seletos, alguém esqueceu de avisar isso à atendente a aos clientes que escolheram aquela fila, usando-a, indiscriminadamente para pagar de fraldas descartáveis a panelas de pressão, de lençóis a caixas de absorventes.

O cheiro de gente suada impregna o ar mesmo com o ar condicionado no máximo, as pessoas se esbarram, se espremem, se esfregam, trocam odores enquanto coisas caem no chão com estrondo e o alto falante da loja grita os itens “por apenas R$ 9,90. Isso mesmo, R$9,90!”. Tudo isso narrado por alguém que precisava urgentemente de um fonoaudiólogo.

A trilha sonora do terror não poderia ser mais adequada: Em decibéis perigosos para a saúde e que fariam inveja a um fã do Iron Maiden, As Coleguinhas Simone e Silmara cometiam Se o nosso amor se acabar eu de você não quero nada/Pode ficar com a casa inteira e o nosso carro/Por você eu vivo e morro/Mas dessa casa eu só vou levar/ Meu violão e o nosso cachorro”.

O que pode ser pior do que ouvir essas moças gritando tal pérola do cancioneiro sertanejo num disco? Sim. Pode ser pior, meu amigo: ouvir a versão ao vivo com a plateia das Coleguinhas cantando e gritando junto. A ninguém ocorreu chamar a vigilância sanitária para combater tal atentado aos nossos tímpanos e à nossa saúde mental.

Se a fila parecia amorfa, não se engane, é apenas aparência. Enquanto a moça do caixa demonstra sua agilidade típica de um Barrichello baiano, com o pensamento nefelibata de alguém que já não está mais nesse mundo há semanas, as pessoas na fila praticam o seu esporte favorito: a interatividade.

Ninguém querendo perder seu lugar, as pessoas já estão íntimas depois de duas horas. De fato, já estavam íntimas mesmo nos primeiros 20 minutos.

Um moça atrás de mim me explica, sem que eu pergunte, porque comprou tantos boxes de dvd: “Ah, eu comprei mesmo! Quer saber? (era uma pergunta meramente retórica), comprei todos os Harry Potter e Jogos Vorazes! Todos! Tá pela metade do preço. No ano passado não comprei e me arrependi. Comprei todos! Comprei mesmo!”.

Balancei a cabeça, concordando educadamente, esperando não dar sinal de muito estímulo para que ela continuasse a mostrar quantos boxes havia comprado.

Após duas horas a gente fica sabendo que tem um grupo de pessoas na fila que chegaram à porta do Shopping cinco horas antes da sua abertura. O grupo veio em uma caravana de Conceição de Maria, cidade no interior e estavam todos com caixas cheias de compras para revender. Viajaram a noite toda e manifestavam preocupação com a hora do ônibus. “Se demorar muito a gente vai perder o transporte”, dizia um. “Vira essa boca prá lá, Agnaldo, dizia outro”. Alguém que não pertencia ao grupo viu a oportunidade para falar sobre o maravilhoso assunto dos transportes intermunicipais e outro falava da aprazível Conceição de Maria....ahhh que linda cidade.

De tudo se vê nessa vida numa fila de Black Friday. Imaginava que se aquilo acontecia no Salvador Shopping, num dos melhores da cidade, o que não estaria acontecendo no Piedade e no Lapa? Minha imaginação não dava conta.

A fome. Depois de tantas horas, as pessoas já se empanturram de amendoins, biscoitos recheados e guloseimas diversas que aparentemente estavam sendo levadas ao caixa para serem compradas. Após tanto tempo esperando, o povo parecia achar justo devorar tudo e entocar depois a embalagem em algum desvão.  Ninguém tem tempo pra punir essas transgressões e um frenesi de comilança se abate sobre a fila. As pessoas já nem se envergonham de conversar entre si com as bocas cheias de balas, cocadas e deliciosos pés-de-moleque. Recomendo os pés-de-moleque.

A fome também bate nos bebês e uma moça com uma criança feia e mirrada no colo resolve amamentá-la ali mesmo na fila. Senta-se num tamborete de plástico (um dos itens da sua compra), tira o seio para fora do vestido e o enfia na boca do menino que mama voraz. O pai da moça olha a cena com uma naturalidade de que já viu aquilo vezes sem fim. O menino mama com os olhos arregalados e atentos a tudo.

Ahhh o belo esporte da paquera entre baianos interativos. O ambiente vira um terreno ideal para as tentativas de prévias de acasalamento entre os indivíduos da espécie. Enquanto um rapaz até bem ajeitadinho reclama que se ficar na fila muito tempo vai perder o emprego e a mulher, uma abordagem pouco original e uma vã tentativa de fazer-se interessante para uma moça, esta mesma jovem replica em um baianês castiço: “Ôôôôxxxi. Tu não tá pegando nem gripe quanto mais mulé”.

O que poderia ser um diálogo mais da esfera do íntimo, torna-se assunto saboroso para as pessoas próximas e as não tão próximas na fila, tornando o infeliz rapaz alvo de zombarias dos demais. A moça percebe que mandou mal, pois o rapaz não era desinteressante, e tenta se emendar, mas o outro já não dá mais bola. Ela se arrepende, dá pra ver a expressão no seu rosto. Um futuro casamento acaba ali antes de começar.

As Coleguinhas Simone e Silmara se calam. O disco acabou. Então o que parecia ser um alívio para os ouvidos revela-se outra coisa: o som bruto da multidão.

Suprimida pela gritaria das Coleguinhas, nem havíamos notado quão alto as pessoas falavam. Sabemos que o baiano interativo definha com o silêncio, então aquela voz no alto falante da loja diz: “Liu, se dirija à sessão de cd! Liu, à sessão de cd!. Fred, aperta o play aí pra gente ouvir mais”.

E o sacana do Fred põe de novo pra tocar As Coleguinhas ao vivo que, a cada refrão, bradam sua marca registrada: “Chora, miséra!”. Se eu não fosse uma pessoa adulta choraria.

Então ficamos sabendo por que Liu foi chamada à sessão de cds. É que o caixa travou no momento em que um senhorzinho passava suas compras de mais de R$ 1 mil. Sacolas e mais sacolas já estavam cheias quando a máquina travou.

Atrás de mim uma baiana interativa, vamos chamá-la de Jurema, pois seu nome jamais será conhecido, há duas horas se queixava da fila, todo o tempo reclamando: “É hoje que eu sou demitida. Fechei meu consultório pra vir aqui pra esse inferno. Isso aqui não anda”.

Jurema reivindicava atenção e exortava os demais da fila para que reclamassem junto com ela: Anda aí, minha senhora! Ô moço, tira essas mulé desse som. Affff Maria, a gente tem que aguentar essas putas gritando Chora miséra. Até de miséra a gente é chamada aqui.”

Quando Jurema percebe que o caixa travou com as compras do senhorzinho, vai à beira da loucura: “Ô meu tio, prá que comprou tanta coisa! Não tinha mais fralda não?”

O homem tinha aproveitado a imperdível promoção de fraldas descartáveis pela metade do preço, o que metade da fila também tinha feito. A outra metade, que não sabia as delícias do cocô e do xixi infantil, pilheriava. Alguém gritou: “Vai ter menino assim prá mijar lá na Baixa da Égua”. Outro aproveitou pra perguntar se o colega não ia levar fraldas pra Conceição de Maria.

O velhinho sacava item por item das inúmeras sacolas, coisas que já estavam registradas para passar tudo de novo pelo caixa. A baiana Jurema explodia indignada e pediu, nervosa, para passar na minha frente pois, certamente já teria perdido o emprego.

Cedi e ela ficou exatamente atrás do velho reparando item por item que ele comprara. Comentava sobre cada um.“Esse lençol foi que travou o caixa, meu tio. Não leva isso mais não senão pode travar de novo!”.“Esse Exu dessas mulé não sabe cantar outra coisa não? Troca essa música aí, seu erê”.

O velhinho, envergonhado, baixa os olhos. A neta pré-adolescente, ao seu lado, tapa os ouvidos com os dois dedos com força tentando não ouvir os petardos da baiana que agora exatamente atrás dele insistia em comentar cada item da sua compra.

Depois do que parecia ser um tempo infinito, a compra foi aprovada  e toda a fila aplaudiu exortada por Jurema: “Minha gente, parece que o lençol passou”.

Quando chegou a vez de pagar, o velhinho digitou a senha do cartão com todo cuidado. Pegou os óculos no bolso para não errar.

Jurema não ajudava em nada gritando: “Não me erre essa senha, meu tio. Olha lá hein?”

A neta queria se afundar no chão enquanto o velhinho digitava. Alguém lá atrás gritou: “Vai dormir em lençol novo hoje, hein papá?

Então a senha passou. A fila inteira aplaudiu. Houve assobios. O velhinho, aliviado, acenou como quem tinha cruzado a linha de uma maratona.

O monitor do caixa, estranhamente voltado para o público, como para expor a todos a vida alheia, finalmente apresentou o valor das compra. 

Foi quando Jurema gritou: Porra, meu tio. Em 10 vezes?

5 comments:

Roberto Paulo said...

Kkkkkk. O pior que é bem assim.

Unknown said...

Huahuahuahuahua!!! Não me aguentei. Rindo muito. Parabéns pela crônica. Kkkkkk!!!

Unknown said...

Discordo do comentário de Roberto...
Para ser a nossa cara, o MELHOR é que é assim.
Ri demais imaginando a cena e você a ouvir a tal dupla sertaneja.
Não vou a essas BF nem a pau, Juvenal.
Parabéns pelo texto.

Anonymous said...

Esse texto é ficção ou verídico?
Fernandinho.

Anonymous said...

Rindo muito, Goulart! Muito bom! E afinal, foram quantas horas de fila? (Robinson)