5.12.14

RELATOS SELVAGENS

         
   Mais um filme argentino chega às nossas telas para reforçar a tradição de que o cinema feito pelos nossos hermanos consegue ser muito melhor do que o nosso. Utilizando-se de ótimos roteiros, diálogos naturais, excelente direção e uma linguagem de apelo universal, o cinema argentino dá sempre um show e nos faz perguntar por que não conseguimos fazer igual.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, sempre atilado, aponta como uma das causas a nossa predileção pelas fórmulas fáceis e batidas: as comédias escrachadas, o amor neurótico e o “coitadismo” (coitado do pobre, do bandido, do drogado ou pobre é lindo, bandido é lindo, drogado é lindo), a chamada crítica social. A gente não corre o risco de ver essas baboseiras no cinema argentino, sempre muito mais maduro do que o nosso.

Relatos Selvagens, dirigido por Damián  Szifron,  é dividido em seis excelentes episódios e isso é raro nesse tipo de filme, nos quais costumamos ver alguns episódios bons e outros ruins, como na série I Love New York, I Love Paris e I Love Rio. No caso do último, talvez chame a atenção o fato de que, ao contrário dos seus predecessores, todos os episódios são ruins.

Para não ser injusto, não dá para não mencionar outros grandes filmes divididos em episódios, como Dolls, do diretor Takeshi Kitano, com suas três belas histórias retratadas com delicadeza tipicamente oriental; ou Contos de Nova Yorque, dirigido pelo trio Scorsese,  Coppola e Woody Allen; ou o belíssimo Eros, também de um trio de diretores de peso: Antonioni, Steven Soderbergh e Wong Kar-Wai.

O leitor deve estar se perguntando se o autor dessas mal traçadas vai passar o texto inteiro falando de outros filmes ou vai começar, afinal, a falar de Relatos Selvagens...Que bom que o leitor lembrou. O autor se empolgou e se desculpa.

A primeira história de Relatos Selvagens é quase uma vinhetona, já que precede os créditos. Em um avião todos os passageiros descobrem que conhecem a mesma pessoa e que todos a prejudicaram no passado. O episódio termina com o cinema inteiro em uma grande gargalhada de nervoso. Ah como a vingança pode ser doce. Mas é puro humor negro pois o subconsciente, esse intrometido pronto para estragar qualquer farra, sopra nos ouvidos a famosa frase de Confúcio: “Ao embarcar para uma vingança prepare duas covas” Duas?

E as histórias se sucedem. Uma garçonete vê a chance de se vingar do gângster que destruiu sua família. Afinal, um veneno de rato que está vencido é mais letal ou menos? Dois homens se desentendem numa estrada e o arranhão no verniz que nos separa da civilização para a barbárie logo mostra que o homem é mais do que o lobo do homem e a gente não consegue deixar de lembrar a célebre frase de Sartre: “O inferno são os outros”. Como um episódio tão simples pode ser tão brilhante? E, afinal porque ninguém pensou em filmar uma cena dessas antes?

O quarto episódio, no qual um pai rico tenta livrar o filho de ser preso pelo atropelamento de uma mulher grávida é um verdadeiro tratado de sociologia, ou melhor, de patologia social. A propósito desse episódio, Luiz Felipe Pondé aponta sabiamente: “as classes menos favorecidas sabem muito bem como manipular seus ‘ganhos’ no esquema de corrupção. Um cínico diria que a corrupção também pode ser inclusiva”.

O maior astro do cinema argentino, Ricardo Darin, não poderia estar de fora desse filme. No penúltimo episódio ele interpreta um homem em uma luta desigual contra um estado burocrático que ameaça fazer da sua vida uma tragédia kafkiana. A violência explode e nos faz lembrar Michael Douglas em Um Dia de Fúria.

Palmas redobradas, vivas e hurras para o último e unanimemente considerado melhor episódio dos seis, uma verdadeira torrente de emoções em torno de um casal no dia do casamento. Esse episódio certamente deve ter sido o que levou o cineasta Pedro Almodóvar a decidir produzir Relatos Selvagens já que todo o episódio do casamento é puro cinema almodovariano, inclusive com a montagem frenética e a excepcional trilha sonora a cargo do ótimo Gustavo Santaolalla, que já ganhou dois Oscars seguidos.

Anárquico, histérico, brilhante, surpreendente, divertido...Não é preciso economizar nos adjetivos. Relatos Selvagens merece todos.


1 comment:

Alberto Milani said...

Oi Luiz! Obrigado por indicar-me este incrível filme. Gostei muitíssimo. Num primeiro momento, lembrou-me os trabalhos dos irmãos Cohen, mas, agora, lendo o teu relato acho que ele tem uma transcendencia tanto dos Cohen como de Tarantino. Valei.