20.8.13

Flores Raras

Há quase 20 anos, fui “apresentado” por um amigo à poeta americana Elizabeth Bishop através do livro “Flores Raras e Banalíssimas”, de Carmem Oliveira. Até então, jamais ouvira falar de Bishop ou da sua companheira, a brasileira Lota Soares ou sequer imaginava que no Rio de Janeiro dos anos 50 duas mulheres tão importantes para a poesia e a arquitetura pudessem ter vivido uma relação de amor tão intensa por quase duas décadas.

A partir da leitura do livro, fiquei fã de ambas. Em seguida, comprei o livro “Uma Arte”, em que a Cia das Letras publicava, em mais de 700 páginas, parte da enorme correspondência da poeta. São registros preciosos e precisos da visão de uma estrangeira sensível do Brasil dos anos 50 e 60, período em que Elizabeth Bishop viveu por aqui, entre Rio de Janeiro e Ouro Preto. Li as sete centenas de páginas como se estivesse recebendo as cartas de uma amiga, pois passei a admirar enormemente aquela mulher que ganhou todos os maiores prêmios da literatura americana, incluindo o prestigiado Pulitzer. Quando a atriz Regina Braga encenou o monólogo Um Porto Para Elizabeth Bishop, lá estava eu nas primeiras fileiras do TCA para reverenciá-la.

Todos esses longos parágrafos introdutórios são para explicar porque aguardei por quase 20 anos que alguém filmasse essa belíssima história, levando para mais pessoas a vida dessas duas mulheres já que o Brasil não lhes dá o devido valor. Uma mulher extremamente forte, Lota, e outra incrivelmente frágil, Elizabeth, ambas vivendo no auge das suas potencialidades, crescendo juntas graças ao seu amor.

O pouco conhecimento no Brasil sobre ambas se deve, provavelmente, ao fato de Lota ser mais conhecida (e talvez nem tanto quanto mereceria) no Rio de Janeiro, por ter sido a idealizadora, realizadora e defensora do impressionante Parque do Aterro do Flamengo; e por Bishop ser mais conhecida por quem gosta de poesia.

O diretor Bruno Barreto, com seu filme: Flores Raras, traz a história de amor das duas mulheres para um público maior, já que livro e poesia, urbanismo e teatro não são tão populares no Brasil quanto cinema.

Li de um crítico que o filme é um tanto acadêmico com tomadas e ângulos pouco inspirados e muito sóbrios. De fato, Bruno Barreto não ousou nos enquadramentos, mas isso não diminui a beleza do filme. Esse mesmo crítico afirma que a película lembra propaganda da Embratur ao mostrar o Rio que estamos acostumados a ver, com a praia de Copacabana ao som de uma música da Bossa Nova. Fiquei atento à tal cena. Trata-se de praticamente um quase frame de segundos mostrando Copacabana em ângulo aberto quando já se passava mais de 40 minutos do filme e não mais se vê outra vez. Sobre a Bossa Nova, afinal qual o estilo musical e a praia eram símbolos internacionais do Rio de Janeiro naquela época?

Outra crítica que li é quanto à forma como Glória Pires interpretou Lota: como uma lésbica machona. Outra falha do crítico, pois a verdadeira Lota era ainda mais masculinizada do que Glória Pires a interpretou e não seria uma mulher delicada que enfrentaria de igual para igual um político experiente como o governador Carlos Lacerda, e homens como o paisagista Burle Marx, que trabalhou sob o tacão de Lota que nem arquiteta formada era.

Glória Pires e Miranda Otto estão muito bem nos seus papéis. As cenas de sexo entre ambas são elegantes sem perder o erotismo e o filme consegue mostrar bem a extrema timidez de Bishop, sua relação intensa com a poesia (levava meses e até anos para concluir um poema) e sua carga de problemas com o alcoolismo, a asma, o trauma da orfandade e a depressão.

De fato, não vemos um filme muito arrojado podendo até ser conservador em alguns pontos, mas vale à pena pela beleza da história contada.

Chamo a atenção para o início do filme, quando a poeta lê para seu melhor amigo, o também poeta americano Robert Lowell, ainda em Nova Yorque, o até então incompleto poema Uma Arte (A arte de perder não é nenhum mistério/tantas coisas contém em si o acidente/de perdê-las, que perder não é nada sério./Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,/a chave perdida, a hora gasta bestamente./A arte de perder não é nenhum mistério./Depois perca mais rápido, com mais critério:/lugares, nomes, a escala subsequente/da viagem não feita. Nada disso é sério./Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero/lembrar a perda de três casas excelentes./A arte de perder não é nenhum mistério./Perdi duas cidades lindas. Um império/que era meu, dois rios, e mais um continente./Tenho saudade deles. Mas não é nada sério./Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)/não muda nada. Pois é evidente/que a arte de perder não chega a ser um mistério/por muito que pareça (escreve) muito sério.)

No final, vemos Elizabeth ler o final do mesmo célebre poema para o mesmo melhor amigo, no mesmo banco do Central Park, após todos os tumultuados anos vividos no Brasil quando foi muito amada e amou demais, já reconhecida e multipremiada. Um fechamento perfeito para um final de um ciclo, de uma história, retratando quanto tempo ela demorava para terminar um poema, quantas perdas viveu e ainda conseguiu, mesmo com toda a sua enorme fragilidade, sobreviver graças ao seu talento e o seu amor à poesia.


19.7.13

A machodependência e a piriguetagem


Chamou-me a atenção, há alguns dias, uma matéria da Folha de São Paulo com o seguinte título: "Paulistanas reclamam da falta de homens na balada dispostos a um relacionamento sério”

O repórter relatava que o mulherio paulista estava carente e frustrado com a escassez do produto masculino pela selva de pedra da paulicéia desvairada. Várias moças foram ouvidas, assim como os seus possíveis “alvos” de cobiça: “os bofes” e a conclusão tirada é que as mulheres, ao trocarem o antigo papel de caça para o novo, de caçadora, perceberam que não foi uma mudança, digamos assim, muito proveitosa.

A macharia é um produto que anda em falta ou a lei de oferta e procura, mais uma vez, mostra sua validade também no mercado das relações humanas devido à disseminação da piriguetagem? A concorrência anda braba nas hostes femininas.

Mas uma das coisas que mais me chamaram a atenção é que a maioria das mulheres reclama da falta de homem justamente nas baladas, detalhe: homem para relacionamento sério! Repetindo: relacionamento sério na balada!!!

Fico a me perguntar se isso não é uma contradição entre termos. Seria como procurar um tricolor no meio da torcida do Vitória ou vasculhar num grupo de petistas algum que não seja fã da Carta Capital. Mais fácil cavar um poço num deserto.

A Folha diz tudo: “Do clube moderninho ao boteco no centro, a noite paulistana não é mais terreno fértil para encontrar "bofes" com pretensões de engatar um relacionamento sério”.

Pelo censo de 2010 do IBGE, há quase 600 mil homens a menos em relação ao número de mulheres...e olhe que ainda há os gays, em torno de 10%, o que reduz ainda mais as chances do mulherio...sem contar os casados...a coisa começa a tomar contornos de drama porque homens morrem mais cedo do que mulheres por diversas razões genéticas, inclusive porque cuidam menos da saúde.

Quando começa a bater o desespero inicia-se também uma maior vulgarização das mulheres. Como muitas recorrem, por uma inclinação natural, à piriguetagem; as demais tendem a perceber aí uma espécie de nicho de mercado e acabam apelando, mesmo tangencialmente, ao mesmo recurso que já provou dar frutos e resultados.

A reportagem aborda um aspecto interessante. As mulheres se colocam como fáceis, modernas, dispostas a “ficar” sem compromisso e até abordam os homens, mas, com o tempo, voltam ao papel de mulher das antigas. Acontece que os homens sabem reconhecer a jogada e não caem fácil nessa estratégia.

A conquista da independência feminina, a liberdade que elas tanto buscaram é, finalmente, uma realidade. E elas estão aproveitando bem isso, se divertido a valer. Poucas assumem que não buscam de fato nada sério, mas esperam que os homens as vejam como caça enquanto elas agem do mesmo modo. Alguém vai perder nesse jogo.

A psicóloga Lúcia Petri afirma que a necessidade de encontrar alguém leva algumas mulheres a um comportamento desesperado, apressado, que, em muitas vezes, quebra o encanto e o desejo de um novo encontro. As mulheres reclamam de que ninguém quer nada sério, mas elas querem? Se querem, precisam repensar suas ações.

A vida real é uma selva brutal, uma luta bem distante, por exemplo, do idílio da canção "Futuros Amantes", de Chico Buarque que diz: "Não se afobe, não/ Que nada é pra já/ O amor não tem pressa/ Ele pode esperar em silêncio/ Num fundo de armário/Na posta-restante/Milênios, milênios/No ar..." Quem é que, nos tempos de hoje, pode esperar esse tempo todo por um futuro amante?

Depoimentos de três homens ouvidos pela Folha: Estudante de 24 anos: “As mulheres estão um pouco atiradas. Isso tira o barato. Fica fácil demais. Se foi assim comigo, imagina com os outros. Fora que tem muita mulher no mercado”. Gerente de restaurante de 32 anos: “Elas estão buscando algo sério em lugar errado. Quem está na noite só quer mesmo diversão. Eu mesmo estou fazendo test drive por aí”. Bartender de 31 anos: “Os homens estão com o pé atrás. Falta inteligência às mulheres. Geralmente elas só sabem falar de consumo. Ainda não conheci a mulher ideal”.

O psicólogo clinico Irineu Deliberalli, em seu blog questiona a máxima feminina de que faltam homens no mercado. Ele reflete que a maior independência financeira feminina que faz com que a mulher dirija a própria vida, também faz com que ela fique cada vez mais sozinha, principalmente as mulheres acima dos 35 anos e solteiras ou à procura de um segundo casamento e que têm boa condição profissional e financeira. Estas são as que mais reclamam.

A alma feminina sempre é mais sensível que a alma masculina. Assim são fabricados esses dois seres, com objetivos basicamente diferentes. Claro que ambos querem ser felizes e realizados, mas cada um busca isso ao seu modo. Atualmente, a realização pessoal e profissional das mulheres é importantíssima para ela e para sua família, mas isso cria um dilema.

Para Deliberalli, houve um pequeno desvio no roteiro feminino, em cumprir sua função específica junto à humanidade e este fator leva a mulher a ficar cada vez mais distante do seu ideal afetivo e do homem de maneira geral. A energia feminina é receptiva, acolhedora, é a que forma o lar, o interior, é o princípio passivo da vida. A energia masculina é o princípio ativo criativo que vai para fora em busca da criação e da conquista.

Mesmo sem abdicar da feminilidade, as mulheres ativas se aproximam do modelo masculino tradicional e agem como os homens sem se perceberem com tal energia masculinizada e não com a energia feminina. Fala-se aqui de energia e não de condição, preferência ou inclinação sexual.

As mulheres que reclamam que os homens só querem sexo e nada mais não percebem que esses homens fogem de mulheres fortes. O homem é um animal besta, que se sente frágil diante de uma mulher assertiva e decidida. Ao se sentir desejado, seu instinto é copular apenas. Isto fortalece seu padrão masculino de conquista. O instinto masculino de caçador não é atiçado para além do sexo. A mulher desafiadora, que merece ser conquistada, não é aquela que emula o papel masculino, mas a que estimula o instinto básico do homem como a fêmea que ele aprendeu a distinguir dos machos.

A antropóloga Mirian Goldenberg concorda. Ela diz que como há muito mais mulheres do que homens no mundo, elas devem buscar menos o príncipe encantado se quiserem encontrar um parceiro. "É contraditório, para não dizer pouco inteligente, que num mercado afetivo-sexual tão desfavorável elas exijam tanto", diz Goldenberg.

Ela lembra que antigamente o homem era o provedor, o protetor, o chefe de família e que hoje há vários modelos masculinos: o sensível, o delicado, o romântico, o vaidoso, o mais jovem, o que ganha menos e as mulheres exigem do homem coisas que não exigiam antes. Ele não tem que ser só o provedor bem-sucedido e poderoso. Também tem que cuidar do seu corpo, vestir-se bem, ser romântico, carinhoso. A mulher quer tudo isso numa só pessoa.

            Em Salvador parece que a coisa é ainda pior do que São Paulo. Aqui há 100 mulheres para cada 85,6 homens, na faixa de 20 a 39 anos. Isto coloca a capital baiana como a pior do país para se arranjar um companheiro para relacionamento sério.

Outro dia estava observando, na minha academia, o comportamento dos homens e das mulheres que a frequentam. O ambiente da academia é um excelente termômetro para análise de comportamento humano. Todos os homens ali estavam focados no objetivo de malharem e mesmo quando batiam papo com os amigos, o assunto das conversas costumava girar, pelo menos ali dentro, em torno dos próprios exercícios. Já as mulheres agiam de modo oposto, primeiro porque as mulheres conseguem, naturalmente, fazer várias coisas ao mesmo tempo, ao contrário dos homens. Pois eis que elas conseguem tomar cuidado para não estragar o esmalte nos halteres, ajeitar os mais diversos itens do vestuário para estarem sempre atraentes mesmo levemente suadas, falar várias vezes ao celular, selecionar a música que querem ouvir, checar a própria imagem nos inúmeros espelhos e, é claro, malhar. Tudo isso enquanto os olhinhos, devidamente retocados com rímel, rodam em busca da caça masculina que costuma estar concentrada na malhação.

Uma luta inglória....


2.6.13

Mulher é um bicho esquisito – Parte 3

O velho doktor Freud, entre uma baforada e outra de charuto, se perguntava “Afinal o que querem as mulheres?” Danuza Leão escreveu num artigo da Folha : “Ah, as mulheres”. 

Danuza ecoa as questões do criador da Psicanálise e relata casos frequentes de homens que tratam bem e amam suas mulheres, as valorizam, são ótimos pais, puxam conversas para assuntos de que elas gostam, reparam em sua aparência, as elogiam sempre, não se esquecem de todos os aniversários etc. No entanto, são desprezados como objeto de desejo e paixão.

Danuza dá uma pista do complexo labirinto da psique feminina: “o homem com quem se sonha não tem nada a ver com o homem que se ama. Nenhuma mulher vai se apaixonar por um homem que esteja de quatro por ela, adivinhando seus pensamentos, realizando seus desejos, antes mesmo de ela saber que desejos são esses. Ela pode gostar, sim, mas durante 24 horas, 48, enquanto existir aquela dúvida fundamental: que talvez não seja para sempre. É insuportável ser amada acima de todas as coisas o tempo todo, e pior ainda ter uma pessoa ao lado que nos tem como sua prioridade”.

Eis uma coisa que as mulheres deveriam ter coragem de dizer. No entanto, estão sempre reclamando que não são compreendidas, que os homens não lhes dão atenção e que falta homem no mercado. O sonho do príncipe encantado é ou não é uma constante no imaginário das nossas plebeias desde a adolescência? O “Eles foram felizes para sempre” ainda não anima os desejos da mulherada e os roteiros de todos os folhetins, novelas e filmes românticos para os quais elas tanto adoram arrastar os namorados?

O amor não tem manual de instruções, mas Danuza Leão é uma símia idosa (para quem não entendeu a ironia, é só um equivalente ao epíteto valorativo: “macaca velha). E ela reflete: “Para que o amor dure, é preciso que exista a dúvida se ele vai sobreviver, até mesmo àquela noite; não saber se ele vai ligar, não saber em que está pensando quando está calado, e sobretudo -sobretudo- saber que ele jamais vai lembrar de nenhuma das datas fatídicas, de quando se conheceram etc. etc., e jantar num restaurante especial e tomar um vinho no Dia dos Namorados. Para um homem ser amado é preciso que ele tenha um mundo particular --ou vários-- só dele, e no qual ela não consiga, jamais, penetrar”

Três grandes heroínas trágicas da literatura mostram o mesmo viés para com seus maridos. Emma Bovary, de Gustave Flaubert; Ana Karenina, de Liev Tolstoi; e Therese Desqueyroux, de François Mauriac. As três já foram retratadas em inúmeros filmes. Em comum, o fato de que todas trocam seus excelentes e bondosos maridos (bondosos e entediantes, é claro), por amantes reais ou potenciais. Como foram textos escritos por homens, as três protagonistas passam por belas enrascadas, mas deixam os maridos com o mesmo sentimento de: “o que eu fiz de errado?”.

Dona Flor, de Jorge Amado, quando teve a chance de um amor tranquilo, quando Teodoro, trouxe a paz de que o cafajeste Vadinho nunca foi capaz, não hesita em ficar com ambos. 

Afinal, elas gostam é dos cafajestes?  

26.5.13



Nada mais adequado do que assistir ao novo filme da franquia Star Trek em pleno dia 25 de maio, Dia Internacional do Orgulho Nerd, mesmo porque os nerds são, e felizmente não apenas eles, fãs de carteirinha, aficionados pela turma da Enterprise e Cia.

Então bati meu ponto no Cine Glauber Rocha e me vi com aqueles insuportáveis óculos 3D. E aqui vou repetir até que me provem o contrário: detesto filmes 3D. Até hoje nunca vi um cujas qualidades do 3D superassem seus defeitos. Eles, invariavelmente, ficam mais artificiais e escuros, meio nublados como se houvesse uma tela de filó sobre a tela do cinema e a tal profundidade de campo para mim não acrescenta lhufas. Mas que jeito? Todas as sessões eram com o maldito 3D!


Tirando esse efeito artificial, o filme tem inúmeras qualidades e eu, como trekker (sem carteirinha ou patente da Federação), fiquei fascinado com o roteiro, os diálogos e as cenas de ação, explosões e tensão e duplamente feliz ao saber que Kirk e seus amigos tiraram da liderança das bilheterias dos cinemas americanos, O Homem de Ferro 3, ao qual não assisti pois acho ridículos todos esses Homens de Ferro ou de Aço com seus uniformes collants coloridos, super armaduras, teias e corpos esverdeados).

O novo Star Trek repetiu a bilheteria da estreia do filme anterior de 2009 com arrecadação de mais de 70 milhões de dólares. Estas são boas notícias, pois a série sempre gerou muito mais paixão do que dinheiro. Dá um salto e avança do Cult para o Blockbuster sem perder a velha aura. Isso não é pouco!


Nessa nova missão vemos, inicialmente, numa espécie de aventura-prólogo do filme que se segue, como o capitão Kirk (Chris Pine) acaba perdendo o comando da Enterprise ao desobedecer a regra número 1 da frota estelar para salvar o amigo Spock (Zachary Quinto) da morte dentro de um vulcão em erupção.

Esse é apenas o começo da série de percalços que os oficiais da Enterprise enfrentarão até encontrar um vilão dos mais cascas grossas: John Harrison (Benedict Cumberbatch), cuja identidade real será revelada mais adiante no filme e que os verdadeiros fãs da série irão lembrar de episódios da primeira série. Nada digo agora para não estragar a possível surpresa, mas, inegavelmente, ele supera o vilão do filme anterior: Nero, papel de Eric Bana. 


O filme usa o gancho da rivalidade-amizade de Kirk e Spock de modo brilhante em cenas de carinho fraternal que são prelúdios de pancadaria das boas entre vilão e heróis (e não estou falando de super-heróis).


Após ataques e explosões na Terra, Kirk persegue o vilão até um planeta do Império Klingon, que, até os rebites da Sala de Engenharia sabem, é inimigo da Federação. 
Lá estão todos os tripulantes de quem aprendemos a gostar ao longo dos anos e com espaço suficiente na trama para explorar seus talentos e não apenas atuando como figurantes de luxo.  Spock, McCoy, Chekov, Scotty, Sulu e Uhura, todos audaciosamente indo aonde ninguém jamais esteve a procura de novas vidas e novas civilizações.  


Eu, que particularmente tenho um carinho especial com a nave Enterprise — e como aqui a pobrezinha sofre —, sempre me vejo virtualmente em perigo quando ocorrem problemas no reator de dobra ou quando algum torpedo de fótons ameaça os seus escudos e tremo ao ouvir: “escudos a 40%”, sinto certo prazer sutil com frases como: “capitão na ponte”, “vida longa e próspera” e todo aquele palavreado que adornou as minhas tardes de adolescente em frente à TV imaginando o espaço: a fronteira final

20.3.13

Divagações de um Ex-sedentário


Há dois meses venho frequentando um ambiente que sempre me causou estupor e, porque não dizer, certa repulsa. Não, caro leitor, não estou falando de festas de pagode ou aniversários de criança, muito menos de jogos do Ba-Vi. O lugar em que me vejo imerso seis vezes por semana é a academia.

Minha resignação a esta nova realidade se deveu a uma brutal repreensão da minha médica, escandalizada diante do resultado do meu exame de sangue, no qual o mau colesterol aparentemente tinha tomado Viagra e o colesterol bom se mandou para Caixa Pregos. Desaforos atirados na minha cara e alusões sinistras a uma morte precoce me levaram à sinvastatina, à aveia, às frutas e, enfim, à academia.

Uma coisa não se pode negar: a academia de ginástica é um ambiente perfeito para a perda de peso, o ganho de músculos e a exibição de egos inflacionados. Ah, os corpões que essas mentezinhas exibem. Quanto de psicologia caberia entre supinos e esteiras, halteres e bicicletas ergométricas; quanta análise antropológica está se esvaindo junto com litros de suor e de gordura.

Ali do alto da minha esteira divago: onde eu estava que não fui avisado que as panturrilhas masculinas passaram a exibir, obrigatoriamente, todo tipo de tatuagem? Há uma verdadeira poluição visual formada por símbolos tribais e grafismos aborígenes ou polinésios. Este pode ser um grande filão para arrecadação de imposto se as tatuagens nas panturrilhas forem incluídas entre os fatos geradores de tributos. Eu poderia, por exemplo, tatuar o símbolo da Petrobrás ou da Nike na minha panturrilha, ganharia um dinheiro dos anunciantes e assim estaria configurada a hipótese de incidência do tributo. Se é para exibir as panturrilhas e poluir o visual, que pelo menos se pague por isso.

Aliás, a academia que frequento pertence ao prefeito de Salvador. Estou me acostumando a correr com o alcaide na esteira vizinha. Pretendo apresentar a Neto esta sugestão: cobrar uma taxa dos tatuados e caso isto seja visto como discriminação ele pode dar exemplo e reduzir as mensalidades dos não-tatuados, repassando a diferença para os cofres da Prefeitura. Já pensou no impacto midiático? Ave, Neto!

Outra coisa que me chama a atenção é que as pessoas não largam seus smartphones para nada. A cada série de flexões ou abdominais, param para conferir quem postou o quê no Facebook ou quem curtiu o post de quem. Andam a esmo, sem olhar para frente, quase trombando uns nos outros com o olhar preso às suas telinhas portáteis. Parece que se se separarem demais dos telefones, vão definhar ou explodir, como naquele filme em que prisioneiros usam uma coleira e, ao se afastarem de certo ponto, a cabeça explode.

Aliás, essa obsessão das pessoas por estarem ininterruptamente plugadas ou eternamente online já beira o caso clínico. Outro dia, um amigo me ligou pedindo que entrasse imediatamente no Facebook para curtir um post que ele publicou. Informei que não dispunha de um computador e que estava no agradável café do Cine Glauber Rocha batendo papo com amigos, ao que ele retrucou que achava inadmissível (usou essa palavra) que eu não tivesse um celular com acesso à internet.

Pois eu resistirei enquanto puder a essa detestável pressão. Em casa ou no trabalho estou sempre com um computador à mão com acesso à internet. Será que no intervalo entra esses dois lugares eu preciso estar hiper-conectado como esses malucos? Minha maluquice é reservada para outras coisas. Tenho que me dar certo luxo e, hoje, o maior luxo é não permitir a invasão inoportuna por informações irrelevantes durante um bate-papo com amigos, nos minutos antes de começar o filme no cinema ou mesmo entre um aparelho e outro na academia.

A academia é uma terra de malucos funcionais. Os egos estão eternamente inflados e se houver cinco espelhos no espaço de 10 metros, o indivíduo se olhará em cada um deles, checando e re-checando os gomos do abdômen, a largura do peitoral ou a circunferência dos glúteos. Isso tudo sem largar o celular numa mão e a garrafinha de água na outra. Não importa que a academia tenha cinco bebedouros com água geladinha à disposição, o indivíduo não dispensará sua maldita garrafinha e sorve a água a cada 5 minutos enquanto confere as últimas do “Face” como se, ao não repetir o ritual, fosse morrer subitamente: desidratado e offline.

3.3.13

Indomável Sonhadora

A péssima escolha do título em português para este belíssimo filme é plenamente recompensado pela espetacular atuação de Quvenzhané Wallis, uma pequena grande atriz que, a esta altura, todo mundo já sabe que foi a mais nova a ser indicada ao Oscar (e a que tem o nome mais complicado). Além disso, o filme e seu diretor e roteiro também concorreram à estatueta máxima de Hollywood sem contar os prêmios nos festivais de Cannes e Sundance.

A tradução mais fiel ao original “Beasts of the Southern Wild”, Bestas do Sul Selvagem, refletiria muito mais fielmente o espírito do filme: a vida dificílima de famílias semiabandonadas, mas extremamente unidas, de uma comunidade pobre do sul dos Estados Unidos, na região alagada do rio Mississipi.

Nesse lugar devastado, insalubre e completamente enlameado, conhecido como A Banheira, habitam pessoas que poderiam perfeitamente estar num daqueles lixões que estamos acostumados a ver nas grandes cidades brasileiras ou em imagens de favelas indianas e miseráveis aldeias da África, mas é estranho ver esse tipo de pobreza no país mais rico do mundo.

A pequena Hushpuppy, de apenas 6 anos, é uma das crianças da comunidade, onde praticamente todos os adultos buscam no álcool uma fuga para as dores da sobrevivência. Ela vive apenas com o pai doente. A vida de Hushpuppy é uma sucessão de perdas: a mãe a abandonou quando ela era muito nova, os amigos vivem morrendo com as constantes inundações do rio e em breve o pai também irá morrer.

Do mesmo modo como os adultos da Banheira buscam uma fuga no álcool, Hushpuppy, como toda criança, encontra na imaginação e nas fantasias, uma saída equivalente, como nos diálogos com a mãe ausente.

Não basteassem a pobreza e tantas privações, Hushpuppy e seu pai doente enfrentam uma forte tempestade que inunda toda a comunidade e eles passam a viver em um barco precário com alguns amigos sobreviventes. O drama poderia parecer forte demais, quase insuportável de assistir, mas nas mãos inspiradas do diretor novato Benh Zeitlin, a película assume um tom lírico e quase de realismo fantástico.

A relação da menina e seu pai é o motor do filme. Como o pai de Hushpuppy sabe que vai morrer e que a filha ficará sozinha, ele a cria para ser uma sobrevivente, quase um pequeno animal, como aqueles que eles estão habituados a comer. E assim, nesse ambiente de hostilidades, não há espaço para demonstrações de afeto, para fragilidades ou para lágrimas.

É realmente espantoso que um diretor tão jovem (30 anos) tenha conseguido construir, com esse material, um filme tão terno e utilizando não atores. A princípio, duvidei que ele conseguisse, pois desde a primeira tomada, com uma câmera nervosa e nenhuma beleza aparente, o filme parece convidar o espectador para uma rejeição. Mas logo vemos que a ternura está nos pequenos momentos, nos gestos simples da menina, nas suas fantasias e na sua narração de criança diante das adversidades, em sequências de beleza improvável.

Há cenas de grande impacto como duas particularmente especiais. Em uma delas, o momento sempre adiado em torno do segredo da doença do pai, quando dá uma tremenda tristeza ver que tanta inocência não resiste à crua realidade ao vermos Hushpuppy gritar no rosto do seu pai: “Você pensa que eu não sei?” Mas não se permitem lágrimas por ali.  Nenhuma criança deveria passar por algo assim. É como amadurecer a fórceps.

Em um dos momentos mais líricos, a menina atira-se ao mar, como teria feito a sua mãe para fugir daquele local. Acompanhada de três outras meninas, são resgatadas por um barco e levadas para uma espécie de bordel flutuante, onde elas recebem algo que nunca tiveram, o carinho das mulheres que ali vivem e que poderiam ser suas mães, como poderia ser sua mãe, a mulher que nina Hushpuppy.

Ao fundo, emoldurando toda a cena, uma canção, um belo e triste blues, como devem ser os melhores blues, na belíssima voz de uma daquelas cantoras negras sulistas, com seu inconfundível timbre anasalado. A letra da canção diz: “Eu posso ser um escravo para você/Eu posso ser um patife para você/Se isso não é amor/Faça de conta que é/Enquanto o verdadeiro amor não chega”.

Que pena que as palavras no papel não tragam, junto, a melodia da canção. Só assim se poderia compartilhar o sentimento de que a letra da música é o retrato fiel da relação daquele pai e daquela filha que fazem de conta que não tem um pelo outro um amor verdadeiro, já que o amor é um luxo a que não se permitem as bestas do sul selvagem, um local em que tudo pode se perder a qualquer instante.

Mas ele está lá, pronto para ser perdido de todas as maneiras possíveis e então é melhor fingir que ele é outra coisa. Mas seu nome é amor e não se perde algo precioso assim sem muitas lágrimas.




8.2.13

O Primeiro Concurso de Miss Gay de Barreiras


A cidade de Barreiras fica no extremo Oeste da Bahia, na divisa com Goiás e Tocantins. No começo dos anos 80, a região cresceu muito com a chegada dos inúmeros sulistas atraídos pelo crédito farto e pela enorme quantidade de terra barata do cerrado, tudo disponível para o que acabou sendo o boom da soja, enriquecendo, em pouco tempo, centenas de agricultores.

A cidade passava pelo que costuma acontecer com regiões que se desenvolvem rapidamente: convivia com contradições como pobreza e riqueza e choques culturais entre tradições locais e do Sul e avanços em comportamentos de pessoas mais abertas a novidades, geralmente com uma bagagem cultural ou educacional mais plural, que traziam para Barreiras um frescor de ousadia.

Uma dessas pessoas era a minha amiga Salete. Gaúcha da gema e como todos os gaúchos, extremamente ligada às suas tradições, Salete também era uma inquieta por natureza. Sempre inventando modos novos de agitar as coisas, envolvendo os amigos e conhecidos em eventos e atividades culturais, onde não faltavam os defensores da natureza, artistas plásticos, cantores, poetas, jornalistas, religiosos, empresários, agricultores, políticos...Salete estava sempre envolvida em qualquer coisa que mexesse com a letargia natural de uma cidade do interior.

Um dia, aparentemente sentindo falta de alguma ousadia, eu a encontrei envolvida em um novo projeto. Ela queria realizar o primeiro concurso de Miss Gay de Barreiras.

Todos os amigos sabiam que quando ela colocava uma coisa na cabeça nunca mais tirava até conseguir realizar. De nada adiantaram as ameaças que logo começaram a aparecer. 

“Quem aquela gaúcha pensa que é para vir aqui na nossa terra fazer um concurso que é uma pouca vergonha?”, pensariam alguns. “Agora ela passou dos limites”, resmungariam outros. Mas a minha amiga não desanimava e quando as ameaças começaram a aparecer por telefone, ficando mais sérias, ela só ficou mais animada. Estava conseguindo o que queria: mexer  com as cabeças das pessoas.

Os seus amigos religiosos preferiram se afastar da polêmica. A polícia disse que não poderia dar segurança para o evento e um poderoso grupo ruralista da região, formado por fazendeiros tradicionais, capitaneou uma campanha contrária ao concurso.

Mas minha amiga Salete tinha muitos amigos e acionou seu grupo de admiradores: políticos, empresários, jornalistas e artistas. Era um pessoal jovem e articulado e, em breve, só se falava no concurso na cidade. Mas a sombra da ameaça pairava sobre a festa.

O dia se aproximava e minha amiga Salete fazia questão de divulgar a lista das concorrentes do 1º Miss Gay de Barreiras. Ela tivera um enorme trabalho para convencer as bichinhas a participar da competição, pois  todas temiam as ameaças. 

Dizia-se pela cidade que um dos ruralistas mais ricos e temidos da região soubera que uma das concorrentes revelaria, durante a festa, que tinha um caso com ele. Eu, pessoalmente, duvidava disso, pois o homem era muito poderoso e a bichinha jamais teria coragem de contar uma história assim, fosse ou não verdade, e principalmente em público. As lendas começaram a se formar e a festa começou a ficar cada vez mais interessante antes mesmo de começar. 

Eu comecei a suspeitar de que era a minha amiga mesma quem inventava essas histórias para atrair mais atenção para sua festa. Talvez nem as ameaças existissem mesmo. Afinal, antes de tudo ela era publicitária. Mas eu não esperava a surpresa no dia marcado que superou todas as minhas expectativas. Não sei como não houve mortes.

Estamos falando de uma cidade conservadora do interior em 1990. Estamos falando de uma festa organizada por uma "forasteira" gaúcha em pleno coração da careta sociedade ruralista do Oeste baiano.

Alguns dias antes da festa, viajei com amigos para Brasília, cidade próxima a Barreiras. Lá falamos da festa com um grupo de dez servidores da Caixa Econômica, do Banco Central e da Embaixada dos Estados Unidos e todos acharam que aquela era uma boa razão para eles se deslocarem no final de semana seguinte até Barreiras, uma cidade com excelentes rios para relaxar e uma festa que ameaçava ser inesquecível.

Na noite marcada, o clube de campo onde a festa aconteceria estava superlotado. Centenas de pessoas curiosas pelo evento se aglomeravam em frente ao palco. Minha amiga Salete estava radiante e feliz da vida pela sua ideia finalmente se materializar. Mal sabia ela que dali a pouco começaria o caos.

Meus dez novos amigos de Brasília estavam se divertindo muito. Naquele final de semana eles próprios fizeram muitos amigos novos na cidade. Eu subi numa das dezenas de mangueiras do clube para ver melhor o palco, pois tinha gente demais. Do alto da árvore consegui um ângulo perfeito.

A noite estava quente e cheia de estrelas, como sempre acontece nas noites do cerrado. Minha amiga Salete convidou empresários, vereadores, artistas e jornalistas da cidade para fazerem parte do júri do concurso e a decoração do lugar ficou a cargo das próprias bichinhas que, durante a tarde, enfeitaram o lugar em que, à noite, desfilariam. 

Eram seis as concorrentes ao cetro, ao manto e à coroa de 1ª Miss Gay de Barreiras, quase uma Rainha da Soja Gay. As duas mais cotadas eram La Negra, um cozinheiro queridinho das mulheres que precisavam de uma mão da cozinha (e de homens que precisavam de outras coisas) e sua maior rival, Kátia Flávia, um estudante que não sei bem o que fazia além de rebolar pela cidade e flertar muito nas festas e carnavais. Dizia-se que Kátia Flávia já tinha passado por metade das camas, sofás e assentos de camionetes e de tratores da cidade. La Negra ficaria com a outra metade.

A mestre de cerimônias da festa era Berê Brasil. Ela e Salete eram gaúchas e amigas inseparáveis. Todas as ideias de uma tinham o dedo da outra na execução e vice-versa. Onde uma delas idealizava, a outra realizava; onde uma delirava a outra puxava para o chão. E coube a Berê Brasil anunciar uma a uma as concorrentes e também o respeitável corpo de jurados, a fina flor da classe empresarial, artística e política da cidade.

As bichinhas desfilavam, animadíssimas, em traje de gala, em traje típico e, por fim, de maiô. Berê Brasil anunciava, com irreverência, seus nomes de guerra, suas profissões, as roupas que trajavam e seus sonhos, que sempre envolviam um marido rico. A plateia, animada pela bebida e pela velha rivalidade de La Negra e Kátia Flávia, aplaudia, vaiava, assoviava. Ninguém se lembrava da ameaça que pairava sobre a festa.

Nesse momento, como não poderia deixar de ser, houve um show breguíssimo, que envolveu uma mãe de santo conhecida do lugar e um ritual muito estranho que consistia nas seis bichas, vestidas de maiô arrancando, cada uma, um lenço colorido que formavam o vestido da mãe de santo que parecia mais uma cigana...tinha uma coisa a ver com sete saias ou sete véus, ou sete ruas...algo assim...tinha tambores e uma tigela de barro que alguém dançava segurando com fogo.

Foi quando os tiros começaram. Não dá para confundir tiros com outras coisas. De repente, a multidão estava incontrolável, gente correndo de um lado para o outro. Ninguém sabia para onde ir, pois os tiros vinham de todos os lados. 

Do alto da mangueira onde eu estava, consegui ter uma visão ao mesmo tempo privilegiada e dantesca: meus amigos caindo, outros correndo e tropeçando nas cadeiras que cercavam o palco; amigas de sandálias de salto tropeçando no chão formado de brita; jurados se escondendo debaixo das carteiras escolares que serviam de bancada; a mãe-de-santo (ou cigana), com os olhos esbugalhados, agarrada a uma das concorrentes de maiô, que gritava como uma louca; La Negra de peruca caindo para um lado, saltando, com agilidade surpreendente, por sobre as caixas de alto falantes, com um homem atrás com uma vara comprida batendo em suas costas. 

Foi quando vi que o alvo dos atacantes eram as bichas. Cada uma delas era perseguida por um grupo. A única bichinha que escapou foi a que se agarrou com a mãe de santo. As demais trataram de fugir dos agressores, algo que sabiam muito bem como fazer, pois era uma prática que aprimoraram com o tempo pela necessidade. 

Gritaria, tiros e correria. Foi quando percebi que o alto de uma mangueira não era o local mais seguro para ficar quando costumam dar tiros para cima. Sem pensar duas vezes, me atirei no chão e caí sobre uma cadeira de alumínio dobrável da Brahma que fez aquilo que essas cadeiras são fabricadas para fazer: dobrou sob o peso da minha perna, prendendo-a.

Nesse momento, vi Kátia Flávia passar ao meu lado sendo perseguida por dois homens com varas. Seu sapato alto quebrou uma tira e ela corria claudicando com um pé calçado e outro descalço. Era uma cena que poderia perfeitamente estar num filme de pastelão se não fosse toda a violência real envolvida. 

Meus olhos cruzaram com os de uma das amigas de Brasília que viajaram para ver a festa. Eu tentava, com o olhar, pedir-lhe desculpas por trazê-la de Brasília, aquele lugar civilizado, para o meio de selvagens. Ela me olhou com os olhos brilhando, faiscando de pânico e emoção. Não sabia se me amaldiçoava por trazê-la para aquele tiroteio ou me agradecia por fazê-la viver uma experiência inesquecível. 

Percebi que a segunda opção era a mais possível quando ela, que estava deitada no chão, puxou, discretamente, de debaixo do corpo, o sapato perdido por Kátia Flávia me dizendo sussurrando: “Essa aqui é a prova de que isso tudo existiu. Se eu não levar uma prova, ninguém em Brasília vai acreditar”.

Deixei minha amiga dando a “elza” no sapato de Kátia Flávia e corri para o palco para ver como estava minha amiga Salete. Imaginei como ela devia estar decepcionada, após tanto trabalho, tanto esforço e preparação, por ver sua festa destruída por um bando de arruaceiros.

Ao chegar ao palco vi uma cena que não entendi. Berê Brasil sacudia Salete pelos ombros e gritava alguma coisa com ela repetidas vezes no seu rosto. Não dava para entender o que falavam porque as duas gritavam ao mesmo tempo. Mas logo Salete parou de falar e eu pude ouvir o que dizia Berê, que foi o que acalmou a minha amiga.

Salete gritava repetidamente:  - "Ai Berê, as minhas meninas! Ai Berê, as minhas meninas! Ai Berê, as minhas meninas!"

E só se acalmou quando compreendeu o que Berê dizia: - "Que meninas, Salete? É tudo macho!"

OBS: Da última vez que soube, o sapato de Kátia Flávia decorava uma sala na sede da Caixa Econômica Federal, em Brasília.

3.2.13

A Gata


A veterinária nos havia dito que o parto aconteceria no máximo até o final de semana. Apesar de ser o seu primeiro parto, as gatas persas costumam corresponder ao que dizem as veterinárias regiamente pagas e a nossa era a maior especialista em gatos da cidade, ela própria com seis deles no seu apartamento de médio porte que dividia com a mãe idosa e a meia dúzia de felinos das mais finas procedências. Como era o caso da nossa bichana peluda de um azul aveludado.

Nós, ansiosos, nos revezávamos para nunca deixar a gata sozinha em casa naqueles últimos dias já que, como ela tinha um pequeno defeito na mandíbula, coisa pequena, de nascença, nem tínhamos notado isso quando a compramos ainda filhote e por quem pagamos uma pequena fábula, pois esse defeito a impediria de limpar a placenta dos filhotes e evitar que eles sufocassem após o parto. Estava tudo certo, passamos a sexta, o sábado e o domingo sem sair de casa ou saindo apenas um de cada vez. Mas passou o Faustão e o Fantástico e a nossa grávida nem tchum. Ela dormia no nosso quarto para emergências noturnas.

A segunda-feira chegou e teríamos que trabalhar, Mas a empregada estava orientada a ficar de olho na bichana. A qualquer sinal de parto ela deva ligar para um de nós dois que saberíamos o que fazer. Já havíamos lido todo o manual do parto dos felinos. A doméstica humana passou o dia inteiro de sobreaviso. Deixou sopa, cozido, feijão e o apartamento um brinco às seis da tarde. Eu chegaria às oito da noite. Não era possível que fosse esse o intervalo que a minha gata escolheria para parir.

Mas ao entrar na minha sala vi o rastro de sangue. O piso de mármore branco completamente sujo da placenta e os três filhotes mortos. Ela me olhava sentada ao lado do último cadáver. Eu olhava desolado para a cena com um tanto de nojo e perplexidade. Ela trazia nos olhos dourados uma resignação que eu não soube definir, mas não parecia abalada ou envergonhada. Como imaginávamos, ela não conseguiu limpar com a boca as vias respiratórias dos bebezinhos persas, nem comer a placenta. Morreram todos sufocados Deixaram um cheiro doce de sangue novo no piso de mármore branco.

31.1.13

Amor

O filme Amor é a mais recente película do diretor austríaco Michael Haneke, famoso pelo estilo seco, cru e duro com que apresenta ao público suas terríveis histórias, sem concessões ou adornos, mas com brutalidade algo sádica que lembra um pouco a crueza do dinamarquês Lars Von Trier. 

Aqui, Haneke conta sua história com um elenco formado pelos monstros do cinema francês Jean-Louis Trintignant (Um Homem, Uma Mulher), Emmanuelle Riva (Iroshima, Mon Amour) e Isabelle Huppert (A Professora de Piano).

Tenho a impressão de que a maioria das pessoas não leem boas críticas de cinema. A maioria diz que não quer ser influenciada pela opinião dos críticos. Então, se vê perfeitamente o que acontece nesses casos com o exemplo de Amor: salas repletas de pessoas de meia idade ou de jovens incomodados com o filme que aborda o drama de um casal de velhos em que o homem tem que lidar com o derrame e o definhamento físico e psicológico da esposa. 

Pessoas deixam as salas de tão mexidas pela história, ou por serem velhos e se anteverem próximos demais daquela realidade ou por serem ainda jovens demais para alcançar a dimensão trágica do que na tela se apresenta. Muitos, que ficam até o final, não escondem o seu desconforto ou o escondem para não parecerem insensíveis ou pouco inteligentes. 

Por que razão essas pessoas vão ao cinema? Por o filme ter sido ganhador da Palma de Ouro e do Globo de Ouro e estar indicado a cinco Oscar, inclusive melhor filme e melhor filme estrangeiro? Por que não leem as críticas? Suponho que se lessem saberiam que não é um filme pipoca nem um melodrama, mas um filme muito difícil, praticamente insuportável, o que não diminui a sua importância.

O filme não flui, como um córrego ou um rio, mas parece ter estagnado como uma lagoa traiçoeira e parece feder como um apartamento úmido e mofado. Com seus planos longuíssimos e poucos cortes ou movimentos de câmera, ele evolui muito lentamente, arrasta-se como um paquiderme, rumo ao desfecho antecipado na primeira cena: o horror a que estão condenadas todas as relações humanas de um modo ou de outro. Não há amor que resista à mixórdia de um corpo que se arruína e de uma mente que quase não está mais lá de tão deteriorada. 

Não há flores, lavandas ou amor que esconda o cheiro de um cadáver. 

Amor poderia ser só um filme, mas é mais um manifesto de Michael Haneke. O diretor não quer a cumplicidade da plateia, quer exibir uma ferida em carne viva: as relações humanas e sua deterioração lenta. Assim ele vem fazendo há anos com seus filmes assustadores como A Professora de Piano, A Fita Branca, Violência Gratuita e Cachê.

Não sei se o filme me acrescentou algo. Não sei se ele pretendia acrescentar. Talvez a sua seja apenas uma história como tantas outras, nem sei se merecia tantos prêmios, mas, inegavelmente, é uma grande coragem contar uma história assim num tempo em que a maioria das pessoas prefere ver casais de vampiros apaixonados. Talvez esse seja um filme dolorosamente necessário, como é necessário e doloroso espremer um furúnculo.

Emmanuelle Riva está indicada ao Oscar e merece o prêmio. Sua atuação é tão soberba e trágica, que se não levar a estatueta será porque a dor que transmite na tela incomoda ao ponto da repulsa. Aqui há uma contradição com a cena em que o personagem de Jean-Louis Trintignant diz à filha, personagem de Isabelle Huppert: “Nada disso merece ser mostrado ou exibido”. 

E, no entanto, estamos lá, na plateia a assistir tudo aquilo.

26.1.13

O Homem Mais Procurado do Mundo: Arapuca do Ano




Símio idoso ou, mais popularmente, macaco velho, não é que de vez em quando ainda me deixo cair numa arapuca? É que tenho um olhar clínico para detectar filmes que me agradarão e outros que me decepcionarão. Desenvolvi uma técnica após centenas de horas em salas escuras de cinema, em sofás em frente a tevês e lendo críticas e teorias sobre cinema. Tudo isso ajuda a desenvolver o faro. Mas, de vez em quando, escapa alguma bobagem.

Desta vez a bomba foi o filme O Homem Mais Procurado do Mundo, no original: Codinome Geronimo, uma bobagem feita para a TV norte-americana e que conta, pessimamente, a história da investigação que levou à morte do terrorista saudita Bin Laden no seu esconderijo no Paquistão.

No programa Metrópolis, da Cultura, a apresentadora anunciou o filme com um sorriso mordaz: “Para quem quer se refestelar com o patriotismo alheio”. Já o crítico da Folha André Barcinski foi ao ponto certo escrevendo que o filme tem tom de trambique.  Ele se pergunta como, com tantos filmes bons sem espaço nas salas de cinema, essa bomba consegue chegar aos cinemas brasileiros.

E ele deduz que a história da caçada a Bin Laden está em alta por conta do filme A Hora Mais Escura, indicado a cinco Oscars, trabalho da diretora Kathryn Bigelow (já vencedora do Oscar pela direção do filme Guerra ao Terror). Eu achava que ia ver A Hora Mais Escura, que só vai estrear em fevereiro, e por isso comprei o ingresso.

O filme se arrasta como um paquiderme e o diretor John Stockwell, que tem no currículo o ridículo filme filmado no Brasil, Turistas, usa um manjado recurso para tentar dar-lhe mais credibilidade ao misturar cenas reais com cenas de ficção, com longas e repetitivas sequências de treinamento dos soldados norte-americanos que irão matar Bin Laden: a tal da reiteração, que é considerado “crime” por qualquer estudante de roteiro. E mescla, ainda, cenas de discursos à tv do presidente Obama e declarações de Bin Laden com uma trama que falta muito para chegar a ser um triller. Assim, o filme economiza no orçamento, aproveitando imagens já gravadas e disfarça a falta de um bom roteiro.

O crítico de O Globo afirma: “Stockwell assinou um pacto com a burocracia num roteiro chapa branca, pró-intervencionismo”. O The Hollywood Repórter comenta: “Este é um filme que às vezes parece um documentário, às vezes lembra um docudrama cafona, e às vezes parece um filme mal montado, que pretende ser levado a sério” e, finalmente, o Variety diz: “Apesar de alguns momentos decentes, o filme mal consegue manter nossos olhos abertos”.

Como a repórter do Metrópolis insinuou, esse é um filme que chafurda no patriotismo mais chinfrim e rastaquera. Americanos devem adorar ver seus soldados defendendo as listras e estrelas, mas qual a pegada que isso tem para nós brasileiros? 

André Barcinski compara o filme a um faroeste moderno, com os americanos no papel de mocinhos e nenhuma análise mais profunda. Eu acho que ainda falta muito para essa bomba chegar aos pés do pior western.

A pergunta que me faço é por que não li nenhuma dessas críticas antes de comprar o maldito ingresso e jogar meu tempo, meu dinheiro e alguns neurônios na lata do lixo?

24.1.13

Django Livre é Mais um Show de Tarantino



Ao desfrutar de qualquer uma das obras primas de Quentin Tarantino, sabemos o que esperar. E ele nunca decepciona seus admiradores. É impossível não assistir a qualquer cena filmada por ele sem perceber, imediatamente, quem a concebeu. Diretores desse tipo, com marca e estética próprias, há pouquíssimos atualmente. Talvez Woody Allen e Pedro Almodóvar sejam os outros dois.

Em Django Livre, Tarantino, mais uma vez, demonstra o inquestionável talento que já exibiu nas joias em forma de celulóide: Bastardos Inglórios, Kill Bill, Cães de Aluguel, Pulp Ficcion e Jackie Brown.

O tema da escravidão é ainda uma ferida não totalmente cicatrizada na cultura norte-americana e poucas vezes ela foi retratada no cinema com as cores reais, com seu caráter violento e vil. Não fosse pela maestria que resultou num filme espetacular, Tarantino já mereceria ser louvado pela coragem em cutucar essa ferida até sangrar. Aliás, alguém discorda que as duas qualidades sejam atributos do diretor? A coragem e a atração pelo sangue e a violência?

Mais do que a violência pura, é o tema da vingança que mobiliza todas as energias de Tarantino, seu leitmotiv pessoal, na estética que homenageia desde os velhos filmes B aos antigos filmes de gangster ou de kung fu de Bruce Lee, passando pela blackspoitation (movimento dos anos 70 de filmes dirigidos e protagonizados por negros) e agora fazendo releitura particular de um western à la Sergio Leone. As películas de Tarantino são adornadas por trilhas sonoras exuberantes, diálogos insólitos de tão coloquiais, violência estilizada, inversões narrativas, planos abertos alternados por closes extremos e uma mistura de tensão, humor e catarse que, invariavelmente, fazem do espectador mais do que um admirador, um cúmplice do diretor.

Destaque merecido para o ator Christoph Waltz, que já levara o Oscar pelo papel do nazista sádico em Bastardos Inglórios, do próprio Tarantino, e agora concorre novamente ao prêmio por Django Livre, já tendo levado para casa o Globo de Ouro este ano pelo papel do caçador de recompensas que liberta o personagem título, interpretado magistralmente por Jamie Foxx, infelizmente esquecido em todas as indicações. Injustamente esquecidos também foram Leonardo diCaprio fazendo excepcionalmente bem o primeiro vilão da sua carreira, e Samuel L Jackson, como um negro que se diverte barbarizando os irmãos de cor.

O filme recebeu muitas críticas de alguns setores culturais dos Estados Unidos, como do diretor Spike Lee, ativista dos direitos dos negros, que anunciou um boicote a Django Livre sem sequer a ele assistir, entre outras coisas, pelo uso excessivo da palavra “nigger”, considerada muito ofensiva pelos negros norte-americanos. No Brasil equivaleria a “crioulo”, como está nas legendas. Spike Lee declarou: “A escravidão americana não foi um western spaghetti de Sergio Leone. Foi um Holocausto. Meus ancestrais foram roubados da África”.

Spike Lee certamente sabe que muitos negros eram escravos de outros negros na própria África antes de ser vendidos a comerciantes brancos, o que não diminui o drama dos seus ancestrais. O problema é que Spike Lee se considera proprietário do assunto “conflito racial” e sempre protesta quando um diretor branco ousa tratar do tema.

Tarantino se defendeu dizendo que “o filme fala sobre a época da escravidão, um período terrível e injusto. Como alguém pode fazer um filme sobre a escravidão sem mostrar as injustiças que eram cometidas?”. Jamie Foxx, que interpreta Django, completou: “Spike é um diretor fantástico, mas ele se torna mesquinho ao atacar seus colegas sem acompanhar o trabalho que está sendo feito. Para mim, isso é irresponsável.”

Vá ver Django e esqueça essa discussão ridícula do politicamente correto, delicie-se com tudo que o filme oferece, torça por Django e dê as merecidas risadas na cena em que os brancos da Ku Klux Klan debatem sobre quão incômodas são as máscaras brancas que usam para esconder os rostos.

17.1.13

As Aventuras de Pi e Os Deuses Multifuncionais



     O diretor Ang Lee, com seu impactante filme As Aventuras de Pi, levou a película a receber o segundo maior número de indicações para o Oscar 2013 (11), só perdendo para Lincoln, de Steven Spielberg, que disputa em 12 categorias as estatuetas no próximo dia 24 de fevereiro.

Na recente prévia do Oscar, o Globo de Ouro, As Aventuras de Pi disputava em três categorias, mas só ganhou o troféu pela Trilha Sonora.

Chamar de versátil o diretor taiwanês Ang Lee é reduzir demais suas excelentes características. Ele foi capaz de dirigir desde filmes com temática oriental como A Arte de Viver, Banquete de Casamento, Comer, Beber Viver e O Tigre e o Dragão; dramas íntimos como Tempestade de Gelo e O Segredo de Brokeback Mountain; filmes com foco em histórias de época dos Estados Unidos como Cavalgada com o Diabo e Aconteceu em Woodstock e até uma adaptação de HQ como Hulk.

As Aventuras de Pi é um filme que agradará a vários públicos: aos que adoram um filme em 3D, àqueles que gostam de ver uma história com final feliz ou piegas e àqueles que gostam de filmes que trazem uma mensagem edificante ou espiritual.

Dito isto, não posso negar que a história é bem contada, com uma direção segura, mesmo com um ranço da tal “mensagem”. A fotografia é deslumbrante e a trilha sonora é perfeita e, inegavelmente, o diretor conseguiu fazer bom proveito do efeito 3D, se bem que eu dispensaria tudo pelo velho e bom 2D com uma história mais densa e menos rasa do que um balde de água.

São exuberantes as imagens em computação gráfica do cardume gigante de peixes-voadores, do mar iluminado por milhares de águas-vivas, da imensa baleia que quase provoca um segundo desastre e, lógico, do tigre totalmente digital, mas de um realismo impressionante.

Até que é boa a atuação do adolescente Pi (Suraj Sharma) que no filme tenta imigrar da Índia para o Canadá com os pais e os animais do zoológico da família quando o navio em que viajavam naufraga e ele tem que dividir um bote com um tigre de Bengala. Já o Pi adulto não tem qualquer carisma.

Como tenho enjoo por qualquer influência religiosa, passei a implicar com o personagem assim que ele adere a todas as religiões sem fazer qualquer análise crítica sobre as contradições entre cada uma delas. Ele acredita, simultaneamente, em Buda, Krishna, Alá, Jesus e Jeová e tudo isso antes mesmo de precisar de qualquer um deles, pois sua múltipla conversão se dá antes do naufrágio.

Essa jogada do roteiro é uma releitura espertinha, reinterpretação indireta do recurso velhusco e conhecido em dramaturgia pela expressão latina “deus ex-machina”, em português “Deus surgido da máquina”, muito utilizado na tragédia grega e que permite que uma divindade surja no meio de uma história, para dar um determinado sentido à narrativa. O “deus ex-machina” era a chave mestra artificial que servia para tudo quando uma história não tinha uma solução natural. Muitas peças gregas eram finalizadas com um personagem que se travestia de sobrenatural descendo do teto pendurado numa corda.

Este recurso é muito criticado, pois cria uma solução forçada para uma trama. Dramaturgos e críticos sérios afirmam que personagens não devem depender de uma intervenção para a solução de uma história. O próprio Aristóteles era um crítico dessa artificialidade. Segundo ele: “toda tragédia deve ser verossímil, sem causalidades ou intromissões que fujam do real cenário dos acontecimentos”.

Pois olha só o que o esperto do Ang Lee fez: botou seu herói Pi para adorar TODOS os deuses. Assim ele garante, quando Pi está à deriva e quase morto, que ele possa pedir a ajuda de todas as entidades sobrenaturais, atenda ela pelo nome que for. A história é vendida todo o tempo como uma jornada de um garoto que só se salva da morte pela intervenção de um ser superior. Só para garantir Pi confia em todos eles. Ele nem se questiona ao final por que esse tal ser, que ele acredita ter sido seu salvador, matou afogados todos os tripulantes do navio, toda sua família e todos os inocentes bichos do zoológico.  

Talvez tenha sido Deus, talvez tenha sido Jeová, talvez tenha sido Alá....Enfim, o acaso não existe e a pura sorte é algo sequer imaginado.

É estranho, pois uma boa sacada do final do filme e a reflexão sobre o poder da imaginação. Então, pergunto: por que a imaginação não serviria também para refletir sobre a ilusão da intermediação divina nos destinos humanos?

Não nas mãos de Ang Lee, que era agnóstico e passou a rezar depois da fadiga de quatro anos trabalhando nesse filme. Mais uma razão para eu ficar com o pé atrás e lembrar a famosa frase de John Lennon, ateu militante: “Deus é algo pelo qual o homem mede a sua dor”.

Eu até aceitaria se o pobre Pi, no seu desespero de náufrago, caso dispusesse dela, se apegasse até a uma bola de basquete com o nome de Wilson, como outro náufrago famoso, encarnado por Tom Hanks, fez. Enfim, não engoli tamanha afetação por conta da ilusão de tantas divindades multifuncionais.

Mais honesto é o excelente filme, também em cartaz, “O Impossível”, com Naomi Watts e Ewan McGregor, que mostra a história real de uma família quase esfacelada pelo tsunami que matou mais de 200 mil pessoas na Tailândia em 2004. A família se vê no meio da catástrofe e se salva por muito pouco, graças a um misto de sorte e esforço gigantesco de cada membro dela (os pais e seus três filhos). Em momento algum se vende ao espectador a ideia de que houvesse um deus protegendo exatamente aqueles 5 enquanto outros 200 mil não foram tão abençoados.