29.10.13

11 ANOS NA MOSTRA DE CINEMA DE SÃO PAULO (II)

Cheguei ao décimo dia da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com 37 filmes assistidos, mas ainda faltam alguns dias e filmes para o final da maratona. Este ano me hospedei num hotel da Rua Frei Caneca, pertinho da Avenida Paulista e da Rua Augusta, o que é bem conveniente, pois me deixa nas proximidades de 5 salas do Shopping Frei Caneca, de 4 salas da Augusta e de 3 salas da Paulista. Numa rápida caminhada, chego a 12 dos 30 locais em que os filmes da Mostra são exibidos.

Este ano reencontrei uma velhinha muito simpática que, todos os anos, vem para a Mostra. Ela é carioca e vê os filmes do festival do Rio em setembro e em outubro se manda para São Paulo para ver os daqui. O gosto dela não bate muito com o meu e ela sempre que me vê se empolga para me recomendar os filmes que adorou e me mandar fugir dos que detestou. Parece coincidência, mas todos os que ela detesta eu adoro, mas não tenho coragem de contrariá-la. Finjo concordar, mas não sei se essa é uma boa política, pois ela fica encorajada para me falar por mais tempo. Felizmente, nem ela nem eu temos tanto tempo assim, pois estamos sempre correndo de uma sala para outra. Mas não é que a danada está hospedada no mesmo hotel que eu? Pelo jeito ela não faz mais nada aqui, pois já a vi duas vezes por volta das 3 da manhã no lobby do hotel, às voltas com seu caderninho de anotações, seu guia e seu catálogo da Mostra. Daria até para sentir pena dela ali sozinha, mas ela mesma me disse que está incógnita, pois não quer que ninguém saiba onde está para não distraí-la da maratona de filmes. Então, quando chego, de madrugada, passo por ela sorrateiramente para que ela não me veja e resolva recomendar, com sua grande veemência, os filmes imperdíveis e me salvar de “arapucas”.

Hoje foi o único dia em que consegui fazer o que queria desde o primeiro dia: ver 5 filmes seguidos. Nos dias anteriores sempre dava algum problema por atraso meu ou dos filmes, me deixando sem planos ou opções. Hoje, felizmente, tinha planos B para 3 filmes e foram exatamente os 3 que atrasaram meia hora cada um. Como havia menos de 20 minutos entre os filmes para os quais me programei, meia hora era fatal para que eu perdesse os filmes seguintes. Os dois filmes que não atrasaram foram exatamente o primeiro, das 13h e o último, das 22h. E eram os únicos que eu não tinha opção. Saí exausto depois de 5 filmes mas saí feliz.

Rango do dia: 1 café, 2 pães de queijo, 1 fatia de pudim, 1 saco de pipocas, 1 Big Mac e 1 copo de suco de uvas. No hotel matei um croissant 1 da manhã. Estou com menos de 76 quilos...essa maratona é um regime forçado. No post anterior falei de 14 filmes. Hoje falo de outros 12.

LA JAULA DE ORO -  Um filme como muitos da Mostra que falam sobre temas ligados à infância e juventude. Aqui, uma produção mexicana conta uma história muito crua e dura sobre três adolescentes, dois garotos e uma garota da Guatemala que vivem em favelas em circunstância de extrema miséria e falta de esperança ou qualquer expectativa de melhoria de vida, decidem por conta própria e sem experiência alguma emigrar para os Estados Unidos e o sonho de uma vida melhor. No caminho, eles encontram outro menino, um índio de Chiapas que não fala espanhol. Juntos eles viajam em trens de carga e caminhando sobre os trilhos. No caminho eles vão se defrontando com uma realidade muito mais dura e cruel do que eles sequer imaginavam e talvez piores do que as que viviam. Mas para chegar ao sonho eles têm que passar pelo pesadelo. Eles sofrem muito, como todos os demais pobres imigrantes, nas mãos de polícia, de bandidos e de "coiotes". São agredidos, roubados e saqueados por assaltantes também pobres. Lembrei-me de um bando de zebras cruzando um território pululante de leões. Só que tanto as zebras quanto os leões são seres humanos. Um final doloroso, realista e cruel e o filme foi bastante aplaudido no final. A Folha de São Paulo diz: " Ao final podemos observar o rosto dos imigrantes ilegais que chegam aos EUA e entender melhor o sentido de sua odisseia, as dores que carregam, os pedaços de alma que deixaram pelo caminho."

PELO MALO – Esse é um filme venezuelano e dei o azar de assistir a ele na sessão da juventude que é uma sessão gratuita que tem todo dia no cinema da Livraria Cultura e também em outras três salas. Muitos adolescentes perturbaram a concentração da plateia de verdadeiros cinéfilos. Uma outra história sobre jovem. Aqui ele tem nove anos e é filho de uma mulher desempregada e mãe solteira. O drama de Junior é exatamente o título do filme: Pelo Malo ou Cabelo Ruim. Junior está de férias e sua mãe tem um preconceito que não esconde pelo filho ter o cabelo pixaim. Ele também odeia ter esse tipo de cabelo e faz de tudo para alisá-los. Sua mãe suspeita também que ele seja afeminado e nesse meio tempo desconta no menino suas frustrações, pois não consegue recuperar o emprego de segurança. A avó da criança entra no conflito com a mãe, pois ela prefere o neto como é em vez de ser como o pai dele, machão e que morreu a bala. O filme mostra a Venezuela machista e militarista nos estertores do governo de Hugo Chavez. Um belo e duro filme que ganhou a Concha de Ouro de melhor filme no Festival de San Sebastian da Espanha.

A RECEITA FINAL – Uma coprodução excelente da Coréia do Sul e China provando que o cinema asiático é, hoje em dia, uma ótima fonte de produções inovadoras e caprichadas. Aqui, uma história sobre uma família separada. Um neto criado pelo avô que é um dos melhores cozinheiros do país. O pai do menino, durante o filme, com 19 anos, deixou seu pai e seu filho por alguma razão que ficamos sabendo no decorrer da película. Um daqueles filmes com final feliz e também aplaudido no final. Deu um grande prazer assistir depois de tantos filmes com finais trágicos e dramáticos. Daqueles filmes sobre culinária como vários outros que abrem o nosso apetite como o grego O Tempero da Vida, o dinamarquês A Festa  de Babete, o brasileiro Estômago e o mexicano Como Água Para Chocolate. O filme se desenvolve num reality show no estilo Top Chef sobre a descoberta de um novo chef de cozinha. Filmes sobre culinária sempre promete muitas boas cenas. E aqui ele cumpre com louvor todas essas promessas.

OS CARAS DO PORTO – Mais um filme sobre jovens. Uma produção espanhola que me entediou bastante, pois mostra durante todo o filme uma chatice só. Um adolescente promete ao seu avô, que vive trancado em casa pela família, ir a um velório e deixar uma jaqueta do exército no túmulo de um velho amigo do avô. O filme inteiro praticamente é a câmera acompanhado o adolescente e um casal de irmãos, seus amigos andando para o cemitério na periferia de Valência. Depois é a volta para casa e nada mais. Será que o diretor queria mostrar um rito de passagem ou algo assim? A selva das cidades? As incertezas que as mentes infantis não podem prever? Pretensioso ou falta de um bom roteiro? Ou as duas coisas?

EL GRAN CIRCO POBRE DE TIMÓTEO – Um documentário chileno que não me agradou muito. Fui com um amigo a quem recomendei e como me senti culpado por não ser o filme que eu esperava, saímos depois para jantar em um restaurante chileno e para compensar, apresentei a ele uma bebida e uma comida daquele país, que conheci quando estive lá, e que ele não conhecia: pisco e ceviche. A ideia era: já que o filme do Chile não valeu, pelo menos a culinária de lá compensaria. Ah o filme é sobre um circo decadente comandado por um gay, o tal Timóteo. Nele só trabalham velhos gays que viajam com esse circo pelo Chile há 40 anos, instalando-se em grandes e pequenas cidades com um show paupérrimo de drag queens. O documentário claramente foi feito por uma pessoa que não soube ser objetiva na edição, pois é uma tal de repetição sem fim de imagens paradas do tal circo, da lona do circo, do logotipo do circo, das bandeirolas do circo...afff que chatice. Depois vemos uns ensaios muito vagabundinhos e uns shows bizarros. Acho que tem gente que deve ter gostado...deve ter achado muito  autêntico, artístico, autoral...sei lá...eu gostei até a página 2. Ah Timóteo está fechando o circo porque adoeceu sério. Ahã...coitados dos artistas.... E o pisco do tal restaurante chileno ainda me deixou com ressaca no dia seguinte. O ceviche também não desceu muito bem.

O FOGUETE - Um filme muito bonito do Laos. Acho que não vi nenhum filme até hoje do Laos e este é muito bom. Conta a história de um menino que nasceu gêmeo numa comunidade em que acreditam que gêmeos são amaldiçoados e como o irmão nasceu morto, a mãe barganha com a sogra para não contar ao marido o caso e enterrar escondido o bebê que morreu (eles acham que não dá pra saber se o gêmeo amaldiçoado era o vivo ou o morto e por isso deviam matar ambos). Então uma série de acontecimentos desastrosos levam o menino e sua família, juntamente com uma garotinha e seu tio alcoólatra pelo Laos para encontrar um lar. O garotinho é muito bom ator e extremamente carismático. Dono de uma mente muito engenhosa, ele quer provar a todos que não é amaldiçoado e tenta construir um foguete gigante e participar da competição mais lucrativa e perigosa do ano: o Festival de Foguetes que dará à família a última oportunidade da vida. O filme foi o vencedor de prêmio de melhor longa estreante e do Urso de Cristal no Festival de Berlim.

WAJMA – Filme afegão muito triste sobre uma jovem que engravida de um namorado sacana numa sociedade em que isso pode significar a morte para ambos. O pai violento espanca a moça e tenta a todo custo salvar a honra da família enquanto a mãe tenta levar a filha para a Índia, onde ela pode fazer um aborto que no Afeganistão é crime. A dificuldade de obter um passaporte e a escolha difícil entre a honra da família e o amor pela filha. Tristíssimo, mas real.

SAUDADE - Um filme do Equador que mostra o dia a dia pacífico de um grupo de jovens estudantes que vive numa espécie de mundo à parte enquanto o país vive uma grande crise financeira. O personagem central é um rapaz de 17 anos que mora com o pai e a madrasta. Ele não cresceu junto com a mãe até que ela escreve e diz estar gravemente doente e pede para seu pai ir visitá-la nos Estados Unidos. O rapaz rejeita esse contato da mãe que julga tê-lo abandonado. O pai viaja, os amigos perdem as casas devido à crise e o jovem vê seu mundo-bolha desmoronar. Uma bela cena é a em que ele chora muito quando escuta, pela primeira vez, a voz da mãe cantar numa fita cassete gravada quando ele era um bebê a linda canção “Duerme Negrito”, de Mercedes Sosa. E a cena final é emblemática de um jovem renascido e reinventado a quem as angústias da juventude fizeram criar um homem, doído, mas um homem.

PARA AQUELES EM PERIGO – Um filme do Reino Unido que se passa na Escócia em uma comunidade pesqueira em que um jovem desajustado é o único sobrevivente de um estranho acidente de pesca que custou a vida de cinco homens, incluindo seu irmão mais velho. Pelas superstições locais todos culpam o rapaz pela tragédia, fazendo dele um pária. O jovem é consumido pela dor e pela culpa e meio em delírio decide sair em busca desesperada pelo irmão. Ele crê numa lenda que lhe contaram na infância sobre um monstro marinho que devora os pescadores. Uma cena final simbólica e forte, cheia de significados e que dá um arremate belíssimo a um filme que não prometia muito. Vale por essa imagem impactante. Mas reconheço que ela não teria esse impacto se não tivéssemos atravessado toda a angústia do filme.

LAS HORAS MUERTAS - Mais um filme sobre jovens. Aqui é um rapaz de 17 anos que vai trabalhar temporariamente no motel simples do tio enquanto este se interna para um tratamento. A história se passa no desolado litoral mexicano de Veracruz. No trabalho ele conhece uma mulher jovem, cliente habitual que vai ao motel com um amante casado que sempre a deixa esperando. Durante essas “horas mortas”, eles dois se conhecem melhor e vemos um suave jogo de sedução começar entre eles. Um filme suave, bonito e lírico. Boas atuações e boa direção.

TATUAGEM - Um filme brasileiro que confesso que me decepcionou apesar de ter ganho o último kikito do Festival de Gramado. A sessão estava superlotada, pois o diretor Hilton Lacerda é de Pernambuco, mas mora há anos em São Paulo, onde tem muitos amigos e, pelo jeito, muitos deles estavam no cinema para prestigiá-lo. Eu tinha grande expectativa porque apesar de ser o primeiro filme dirigido por Hilton, ele é roteirista de filmes que adoro como Baile Perfumado, Baixio das Bestas, Amarelo Manga, A Febre do Rato e A Festa da Menina Morta. E, além disso, o filme é com um dos meus atores brasileiros favoritos, Irandhir Santos.  Não sei como um cara que roteiriza filmes tão fortes e viscerais como os que citei acima, dirige uma bobagem dessas. A história se passa em Recife em 1978 durante a ditadura. Mostra um grupo de artistas gays, lésbicas ou pansexuais que se apresenta em cabarés com shows debochados de conteúdo político e amoral. Há muitas cenas de nudez e sexo entre dois homens, mas um filme excessivamente verborrágico com muitas coreografias, muitas mãos e muitos braços e discursos “poéticos”. Gostaria de dizer  que o filme me agradou no cérebro e não no coração mas de fato nem isso. Não me gerou nenhuma emoção especial. Uma chatice apesar de que as cenas de sexo são bem boas e ousadas, mas me incomodou certo tom datado e engajado. A plateia, pelo jeito adorou, pois aplaudiu entusiasmada no final e ninguém se levantou para sair. Fui o único a deixar a sala no final. Parece que só eu não gostei. O povo ficou pra babar o ovo do diretor. Eu, hein Rosa!


A PRIMEIRA VEZ DE EVA VAN END - Um filme do qual eu esperava mais, pois o diretor holandês é comparado, por alguns, ao diretor americano Todd Solondz, de cujos filmes eu sou fã como Bem-vindo à Casa de Bonecas, Felicidade, Histórias Proibidas e A Vida Durante a Guerra. De fato, o filme até tem a pegada de Solondz, mas se perde do meio para o fim e não mantém a força, com uma conclusão bem chocha e covarde. É a história de uma família disfuncional onde nem a mãe, nem o pai, nem os dois filhos e muito menos a filha, a tal Eva, têm qualquer empatia entre si. A chegada de um belíssimo jovem alemão, para um programa de intercâmbio, mexe com todas as estruturas desta família envolvendo medo, desejo e sentimentos que a família nem imaginava ter. Lembra até o argumento do filme Teorema, de Pasolini, mas fica distante anos luz da força do clássico italiano.

23.10.13

11 ANOS BATENDO PONTO NA MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

E, finalmente, chegou outubro! Como faço há 11 anos, desde que descobri a existência da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que este ano chega a 37ª edição, programo minhas férias com um ano de antecedência e bato ponto na capital paulista. Esta é a minha definição de liturgia sagrada e a melhor coisa que faço a cada ano. Não há nada que se compare à orgia cultural que São Paulo exibe com seus inúmeros espaços culturais entre cinemas, teatros, museus, exposições, shows e bienais.

Quase não dá tempo para escrever, afinal tenho que comer, dormir e tomar banho....o resto do tempo é passado nos escurinhos dos cinemas ou em deslocamentos entre as salas. Mas arrumei um tempo não sei como e agora posso comentar os primeiros filmes.

Digo sempre que a agonia dos cinéfilos da Mostra é menos escolher os filmes que verá e mais decidir aqueles que perderá. Como sempre, com um leque de mais de 350 longas e curtas em dezenas de salas de São Paulo, fatalmente os filmes selecionados se chocam e fazem os frequentadores andarem de um lado para o outro com o caderninho de anotações todo rabiscado fazendo malabarismo para encaixar os filmes nos horários disponíveis.

A logística de cada cinéfilo é uma coisa individualíssima. Não há uma que seja igual a outra. Cada um tem seu método particular, indecifrável para o vizinho. As coisas podem até, em teoria, funcionar direito quando se programa cinco filmes em sequência, mas há várias armadilhas no caminho do cinéfilo. Às vezes o filme atrasa, a legenda não funciona ou não chega a tempo, o a sessão lotou e como entre cada sessão o intervalo é de 20 minutos, um atraso mínimo pode comprometer a programação ou uma sessão lotada deixa o cinéfilo perdido. Ou ele encaixa um filme que não havia programado ou fica cerca de duas horas roendo as unhas. Então é comum ver gente fazendo alternativas mirabolantes, planos B e C...gente saindo da sala antes do fim do filme para pegar o próximo, se o próximo for imperdível e o atual não merecer...

Na Mostra vemos os mesmos tipos dos anos anteriores. As pessoas já se conhecem pelos nomes e trocam opiniões. Isso ajuda a escolher e eu mesmo já me peguei pedindo opinião a estranhos ou a velhos conhecidos de outras mostras. O lado ruim são os caras, quase sempre mais velhos e cinéfilos de carteirinha e crachá que falam alto como se todos quisessem ouvir suas opiniões. Já escolado, não deixo de sacar meu MP3.

Outros chatinhos são aqueles estudantes de cinema que ficam trocando ideias sobre planos e enquadramentos ou os que adoram exibir conhecimentos sobre diretores cabeções e seus filmes mais obscuros...onde essa gente tem tempo pra ver tanto filme assim ?

Quando a gente tenta conversar um pouco mais com esse povo da Mostra dá logo para perceber que não são pessoas, digamos, muito normais. E certamente estou entre os estranhos. Sempre tem alguém com uma idiossincrasia séria. É comum perceber que cada um tem um mundo meio periférico em que vive. Gente com os dois pés muito firmes no chão não fica tão envolvida assim com esse mundo cinematográfico. Que o digam esses caras que assistem a filmes de 8,  9 ou 11 horas seguidas.

Um dos frequentadores mais conhecidos da Mostra esse ano está bem velhinho. Ele já esteve até no Jô Soares. Sabe tudo de cinema e todo ano vai para o Festival do Rio em setembro e para o de São Paulo em outubro. Ele deve ter algum problema urinário, pois o cheiro de urina que o acompanha é de conhecimento de todos. Lembro-me dele, mais novo e falante, com voz possante...hoje quase se arrasta e fala baixo, caminha meio sujo e fedendo a urina. Mas como ele sempre sabe dos melhores filmes, sentir o cheiro de urina numa sala é sinal de que o filme será bom. Ele sempre fica isolado por causa do cheiro, deve usar fralda geriátrica ou então talvez seja pela falta do uso que ele cheire tão mal.

Perdi os filmes do primeiro dia, 18/10, pois havia manifestação na Paulista e o ônibus que saía de Guarulhos para a Avenida Paulista, próximo do meu hotel, não estava funcionando. Cansado demais, só queria descansar e me preparar devidamente para a maratona.

Nos 4 primeiros dias vi 14 filmes. Em grande parte deles, os diretores estavam presentes para apresentar os filmes para as plateias.

CONFISSÃO DE ASSASSINATO – Este ano, a Mostra faz uma homenagem especial ao cinema da Coreia do Sul e este é um excelente filme daquele país. Trata de história de um homem que publica um livro em que confessa uma série de brutais assassinatos de dez mulheres. Como o crime prescreveu o livro é um best seller instantâneo e ele vira uma celebridade também pela sua bela aparência. O detetive responsável pelo caso faz de tudo para lidar com o tema até porque sua esposa foi uma das vítimas. Enquanto isso um grupo de parentes das vítimas planeja vários modos de matar o assassino inclusive sequestrando-o. Como acontece sempre com o cinema sul coreano, um filme frenético, com muitas lutas coreografadas, câmera lenta bem estilosa e atuações surpreendentes com roteiro bem elaborado e trama bem urdida e reviravoltas da história. As cenas de perseguição a pé e de carro são das melhores que já vi.

BENDS – Na fronteira de Hong Kong e da China, uma madame rica tenta manter a fachada de seu estilo de vida após ser abandonada pelo marido enquanto seu motorista tenta levar a esposa grávida para Hong Kong a fim de evitar a pesada multa pelo segundo filho na China. Cada um, ao seu modo, tenta lidar com a pressão da situação em que a única coisa que têm em comum é o carro. E ele será fundamental para o desenvolvimento e o desfecho da história. Um filme bom e honesto.

A GAROTA DO 14 DE JULHO – Este foi o pior filme da Mostra até agora. Insuportavelmente chato, deixei-o na metade. Além de ser uma comédia francesa, e eu detesto comédias francesas de um modo geral, esse filme traz muitas gags e piadinhas bobas que somente quem conhece o estilo de vida e de humor francês entende e aprecia, o que definitivamente não é o meu caso, nem conheço, nem entendo, nem aprecio. Vi que muita gente deixou o filme também no meio e esperei para perguntar a algumas pessoas que saíram no final se tinham gostado. Uma mulher a quem perguntei disse que adorou e quando eu disse que detestei ela ficou surpresa. Quando eu comentei que achava que aquelas piadas só eram compreensíveis por que morou na França ela acabou concordando comigo e revelou que de fato ela morou na França. Na mosca! Trata-se de uma bobagem sem fim sobre um grupo de parisienses que resolve viajar no feriado para o litoral. Só idiotice.

A FULLER LIFE- Um bom documentário americano sobre o fabuloso escritor, diretor e jornalista Samuel Fuller que ficou conhecido e respeitadíssimo no cinema. O filme mostra cenas dos seus filmes e se baseia em sua autobiografia The Third Face. São 12 segmentos, cada um com um admirador de Sam Fuller lendo suas memórias. O filme é dirigido pela sua filha Samantha Fuller, presente na sessão. Fuller é considerado por críticos como um dos maiores cineastas americanos de todos os tempos. Como eu não vi nenhum dos seus filmes, o documentário me deu vontade de assistir a eles. A Mostra tem essa característica importante de nos mostrar, mesmo a quem acha que conhece muita coisa, coisas que nós ainda não conhecíamos.

PARADJANOV- Outro filme sobre um diretor consagrado de cinema, mas desta vez não é um documentário, mas uma co-produção da Armênia, França, Geórgia e Ucrânia. Baseado na história verídica do cineasta soviético de origem armênia Sergei Paradjanov, de quem eu nunca ouvi falar antes e que foi um gênio provocador que criou grandes filmes e ganhou respeito internacional, mas por ser muito rebelde, foi preso com acusações falsas. Mesmo banido do mundo do cinema, seu amor pela beleza lhe dá forças para continuar a criar mesmo preso. Um dos atores do filme, também produtor, italiano, estava na sala. No filme ele interpreta Marcello Mastroiani.

A BELA VIDA – Um filme francês de que gostei muito por não ser uma comédia. Conta a história de dois irmãos adolescentes, vivendo nas montanhas, criando ovelhas e criados escondidos pelo pai, meio cigano, que os sequestrou da mãe. Como o pai deles é condenado pela justiça, ele não pode se apresentar, sob pena de ser preso. Os dois irmãos se adoram e gostam muito do pai, mas começam a sentir necessidade de contato com pessoas da idade deles, de conhecer moças. Um dia eles são descobertos e são forçados a se mudarem mais uma vez. O irmão mais velho desaparece e o mais novo tem que optar entre quatro destinos: ficar com o pai, voltar para a mãe, reencontrar o irmão ou ficar com a sua linda primeira garota e primeira paixão que promete a ele uma vida nova.

ESTRADA PARA O NORTE – Um road movie finlandês mas com uma pegada de filme internacional pois poderia se passar em qualquer país. Conta a história do reencontro de um respeitado pianista com o pai que ele não conheceu. Ambos viajam rumo ao norte onde ambos descobrem coisas sobre o outro que não imaginavam. Reencontram pessoas importantes da vida de ambos que estavam à margem das suas vidas. Os cinéfilos da Mostra, aqueles de cabelos brancos comentaram depois da sessão que este até que é um filme leve desse diretor de quem eu nunca ouvi falar antes mas pelo jeito esses cinéfilos da Mostra sabem de tudo...

EXÉRCITO DA SALVAÇÃO – Filme franco-marroquino que conta a vida do primeiro escritor árabe e marroquino a assumir publicamente sua homossexualidade. O filme mostra sua vida em Casablanca, quando o jovem Abdellah passa seus dias em casa, com uma família complicada e tendo relações sexuais com homens pelas ruas da cidade. Dez anos depois, ele vive com seu amante suíço, deixa Marrocos e vai para Genebra, rompe com o amante e começa uma nova vida, pedindo abrigo em um posto do Exército da Salvação. O filme merecia um roteiro mais intenso já que trata da vida de um escritor. O garoto não exibe nenhuma emoção, é extremamente passivo e mesmo depois de adulto não exibe emoção. A única cena em que se emociona é exatamente a última cena do filme quando ouve um conterrâneo marroquino cantar para ele uma canção do seu país.

LA PARTIDA - Outro filme com a temática da homossexualidade. O diretor espanhol estava na sessão para apresentar o filme e debater com a plateia. A história se passa em Cuba sobre dois rapazes cubanos que adoram futebol e vivem quase na marginalidade e lutam para levar uma vida juntos quando se descobrem apaixonados. Mas a vida é muito difícil para ambos. Um trabalha cobrando e batendo em pessoas que devem ao seu sogro e o outro, casado e com um filho pequeno, se prostitui nas ruas de Havana para pagar as contas de sua família que sabe que ele se prostitui. Ambos são muito jovens e nada para eles é fácil. O amor é um complicador nessa equação tão dolorosamente difícil. Quase dá para resumir o filme na famosa frase da música: “Love hurts” ou na canção de Chico Buarque “Viver do Amor”, da Ópera do Malandro: “ O amor/Jamais foi um sonho/O amor, eu bem sei/Já provei/E é um veneno medonho”

LIÇÕES DE HARMONIA – Um filme do Cazquistão que conta a história de um menino de 13 anos que  vive com a avó numa fazenda e estuda numa escola onde uma gang de alunos explora e humilha os colegas. Nesse ambiente de violência e criminalidade o garoto, executa um plano para livrar a escola da gang mas o resultado não é o que ele espera e a violência assume contornos assustadores. Gostei do filme que mostra que se faz bom cinema em todo o mundo.

OBRIGADO POR NADA- Um excelente filme, co-produção Suíça-Alemanha e um dos melhores que vi na Mostra. Um grupo de 3 deficientes físicos em graus diversos planejam roubar um posto de gasolina para provar que não são perdedores. Uma tarefa que já seria difícil para pessoas comuns torna-se uma odisseia para quem vive em cadeiras de rodas. O personagem principal é um rapaz que foi um atleta, mas ficou preso a uma cadeira de rodas após um acidente com esqui na neve. Durante uma temporada em uma instituição para deficientes físicos ou mentais ele se vê apaixonado por uma bela enfermeira e decide bola um plano para assaltar o posto de gasolina onde trabalha o namorado da moça. Enquanto isso o grupo ensaia para uma apresentação de Hamlet para deficientes com um diretor visionário.

SOMENTE EM NOVA YORQUE - Um filme americano-palestino muito divertido com muitas semelhanças com as comédias de Woody Allen. Um jovem palestino vive em Nova Yorque com os pais e está ficando desesperado para arrumar uma namorada. Completamente viciado em sexo, está cansado de os pais tentarem arrumar para ele uma noiva palestina até que conhece uma judia israelense que precisa de um green card. Para desespero da família, ele resolve se casar com a moça não para ajuda-la mas pelo sexo. Até que as coisas assumem outros contornos e eles descobrem que gostam mesmo um do outro e outros obstáculos aparecem. O ator principal não me pareceu no começo muito carismático mas no decorrer do filme vi que ele é muito engraçado e tem piadas muito boas, dignas dos diálogos dos filmes cômicos de Woody Allen com a mesma temática ligada a religião e sexo.

ESCUDO DE PALHA- Um filme japonês muito bem produzido, com ótimo roteiro (lembra um pouco o triller 16 Quadras com Bruce Willys), mas é melhor. Muito bem dirigido, conta a história de um assassino de crianças que precisa ser escoltado até Tóquio para ser julgado pelos seus crimes quando um multibilionário oferece pelos jornais 1 bilhão de ienes a quem matar o assassino da sua neta. Todo mundo se torna um matador em portencial, inclusive todos os policiais, médicos e pessoas comuns. Um grupo de policiais de elite tem que escoltar o assassino arriscando para isso as próprias vidas numa viagem de mais de mil quilômetros de carro e trem. Uma perseguição infernal onde qualquer pessoa pode ser um matador, inclusive os próprios membros da escolta.

UMA VIDA COMUM – Produção britânica de um diretor de quem nunca ouvi falar: Uberto Pasolini e o melhor filme a que assisti este ano. Simplesmente uma perfeição, uma pequena obra prima. A história de um homem sozinho, sem amigos ou família que é obcecado por organização e meticuloso ao extremo. Ele trabalha em um departamento do governo encarregado de encontrar parentes de pessoas que morreram sozinhas. Como quase nunca aparece alguém, ele é o único a assistir aos funerais. Como não tem amigos, ele coleciona, em um álbum, as fotos dos mortos enquanto eram vivos. São imagens de pessoas felizes. Mas o departamento em que ele trabalha é extinto para reduzir despesas e ele é demitido. Só tem um último caso para resolver e ele decide levar até o fim a busca por familiares de um morto que morava em frente à janela do seu apartamento e deixou apenas alguns discos e fotos. Na busca pela família e amigos deste homem, ele descobre que a vida pode ser muito mais surpreendente do que ele imaginava. Até que o destino mostra-se muito mais caprichoso do que ele poderia imaginar. Final triste e belíssimo. Um filme para ver e chorar muito tamanha a sua beleza e simplicidade. Uma história das mais comoventes que já vi. Conversando com outros frequentadores da Mostra percebo que é uma unanimidade.


2.10.13

Para que serve mesmo um smartphone? – 2ª parte


Há algumas semanas, escrevi um artigo intitulado: “Para que serve mesmo um smartphone?”. Desde que o publiquei, pretendia continuar em uma segunda parte abordando dois aspectos do vício nos smartphones: a falsa noção de urgência e a auto-indulgência em relação à própria importância. Antes disso, algumas considerações.


Um edição recentíssima da revista Istoé, 27/9/2013, publicou uma grande reportagem de capa com o título: “Vítimas da dependência digital”. Com um conteúdo similar ao meu texto, a Istoé  afirma: “Com a explosão dos smartphones, cerca de 10% dos brasileiros já são viciados digitais. A medicina aprofunda o estudo do transtorno e anuncia o surgimento de novas opções de tratamento, como a primeira clínica de reabilitação especializada.”


A revista divulga pesquisa da Universidade de Maryland que investigou o que sentiam jovens de dez países em cinco continentes após 24 horas longe dos smartphones e tablets. As descrições dos sentimentos foram idênticos aos de viciados em álcool e outras drogas em crise de abstinência. Esse fenômeno já tem nome: nomofobia, que é a ansiedade de indivíduos longe dos celulares.

O Grupo de Dependências Tecnológicas do Hospital das Clínicas de São Paulo descreve as consequências dessa dependência: os usuários se distraem com facilidade e têm dificuldade de controlar o tempo gasto com o aparelho. Em breve, com a disseminação dos óculos inteligentes como o Google Glass, o número de dependentes irá aumentar ainda mais.

A dependência já é tratada como questão de saúde pública no Japão, China e Coreia do Sul que investem na psicoterapia de mais de 500 mil adolescentes incentivando-os a frequentar espaços abertos, aumentar o convívio social e praticar esportes. Na Coreia do Sul, 30% dos adolescentes são viciados e o tratamento leva os os jovens a ficarem 12 dias internados longe dos telefones viciantes.

Pesquisas mostram que o vício digital aciona o sistema cerebral de recompensa, o mesmo estimulado pelas drogas. Quanto mais se cede à compulsão, mais sensação de prazer o cérebro produz. E isso vai até um ponto no qual a pessoa não consegue mais ficar sem essa sensação, tornando-se dependente de seu foco de compulsão.

 A falsa noção de urgência e a auto-indulgência em relação à própria importância -  Já contei o episódio em que um colega ligou para o meu celular enquanto eu conversava com amigos em um café pedindo-me que entrasse imediatamente no Facebook para ler um texto que ele postara. Expliquei-lhe que não tinha acesso à internet via celular, ao que o amigo replicou, incrédulo, que achava inadmissível, usou mesmo esta palavra, que eu não usasse um smartphone.

Fatos assim vivem acontecendo à minha volta e quanto mais acontecem mais eu insisto em me manter à margem dessa onda. Resistirei ao falso imediatismo que as pessoas se auto impuseram. Nada pode ser tão urgente assim que precise de um smartphone. Minha colega de sala vive me exibindo o seu ultra-mega-super-ultra-plus moderno como se fosse o último negresco do pacote. Há poucos meses a mesma colega me exibia a ex-versão mais recente, hoje já ultrapassada e daqui a alguns meses me exibirá a nova versão turbinada, que deixará para trás a atual.

 Outro dia, essa colega me mostrava as mil e uma vantagens do seu smartphone e a cada “vantagem” eu demonstrava que nada daquilo me serviria para coisa alguma. Ela retrucou que o aparelho era importante para mandar mensagens e pareceu surpresa quando eu disse que meu velho Nokia também mandava mensagens. Disse-me que podia conversar online com amigos e pareceu desapontada quando eu disse que não havia nenhuma urgência nessas conversas e que, se realmente fosse algo importante, eu poderia ser contactado com um telefonema, algo que esses aparelhinhos ainda fazem. Ao argumento último que usou para me convencer dos prodígios do bicho, o acesso ao Facebook (cada vez mais Face e cada vez menos Book), realmente surpreendeu-lhe meu contraargumentento de que já tinha acesso no meu computador de casa.

Se um dia eu viesse a possuir um smartphone seria para usar os recursos que ele oferece, mas exatamente porque não quero ser mais uma vítima dessa falsa noção de urgência auto imposta é que não me rendo a esses argumentos. Estou muito bem no meu próprio ritmo.

Outra coisa que me incomoda nos viciados em smartphones é a necessidade constante de auto-exposição e sua auto-indulgência em relação à sua própria importância. Cada prato de comida consumido em restaurante é postado nas redes sociais com a “relevância” de um passo do homem na lua; cada por-do-sol, “dividido” com os amigos com a urgência de um momento a ser eternizado; cada foto na praia, revestindo-se de uma aura antológica.

Veja só se vou querer um aparelho que me escravize, me deixe mais pilhado, ainda mais egocêntrico e autocentrado do que naturalmente eu já sou? Recomendo a todos os meus amigos que torçam para que eu continue afastado desses “aparelhos inteligentes”. Se longe deles já sou insuportável...