27.12.06

Minority Report


Um filme com Tom Cruise, bagagem de mais de 30 longas e bilheteria de US$ 2 bilhões, dirigido por Steven Spielberg, mais de 20 filmes e US$ 10 bilhões de bilheteria e roteiro baseado no autor de "Blade Runner" é garantia de um bom filme? Na minha opinião é garantia de dinheiro, bilheteria e muito marketing, mas não de um bom filme.

Por que tudo que Cruise faz tem que ser bom? "Vanilla Sky", refilmagem de “Abre Los Ojos” é um porre sem fim, preferível uma boa injeção na testa. Sua namorada, Penélope Cruz, está vergonhosamente apagada num filme pretensioso e chatíssimo.

Spielberg fez também recentemente um filme equivocado e malhado mundo afora. "A.I." herança de Stanley Kubrick, um grande prejuízo nas bilheterias, o que em si não significa que o filme é necessariamente ruim, mas não é bom também. Que quer: o nome Spielberg não é antônimo de fracasso. Esse seu Minority Report é um filme extremamente banal, com uma história muito pouco original e ee não fossem os quase 450 efeitos especiais seria apenas um filmezinho comum. Ainda tem uma montagem irregular, em alguns pontos ágeis e dinâmicas, em outros repetitivas e arrastadas, clichês em profusão, algo imperdoável, como o recurso exaurido de desmascarar o vilão em público e o final feliz do casal reconciliando-se.

Aqui estão alguns dos pontos especialmente fracos:

O personagem de Tom Cruise é totalmente dedicado ao trabalho porque tem problemas após perder o filho e se separar da mulher. Essa premissa é suficiente para que a gente saiba que ele vai se comportar no resto do filme, a gente já viu isso “até o nojo” em milhares de filmes de sessão da tarde. Só que não fosse bastante o diretor mostrar isso uma vez ou duas, ele fica entupindo nosso juízo com essas imagens do menino e da dor do pai. E tome-lhe imagem do menino e da dor do pai. E quando você pensa que ele vai parar, voltam as imagens do menino e da dor do pai....Viu como é chato uma coisa repetida desnecessariamente?

Syd Field, um dos maiores especialistas em roteiros, consultor da Tri-Star Pictures, lançou esse ano um volume que dá a exata dimensão do que pretendo explicar. O livro chama-se: “Como Resolver Problemas de Roteiro” e ele relata uma história de uma pessoa que escreveu um roteiro e não conseguia humanizar e solucionar uma cena de diálogo entre uma mulher e uma enfermeira. Syd Field ensina que na cena faltava uma carga dramática e uma motivação para o diálogo. E ele explica como resolver o problema. Ao que parece o roteirista desse Minority Report não aprendeu essas lições. A cena do diálogo entre Cruise e a veterana atriz Lois Smith, criadora do projeto dos precogs é fundamental para o desenrolar da história, mas o diálogo é inverossímil simplesmente porque não há motivação para que aconteça.

Outro diálogo que não há razão de ocorrer é o que têm a ex-esposa de Tom Cruise e o seu perseguidor Danny Witwer. Imprescindível para o desenvolvimento do filme mas completamente destituído de justificativa humana e psicológica. Não há porque ela contar tudo aquilo ao perseguidor do marido. Doc Comparato ensina na sua obra prima “Da Criação ao Roteiro”: Diálogo impossível é aquele que não tem credibilidade nem razão de existir; é formalmente correto, mas falta-lhe alguma coisa. Freqüentemente quando isso acontece, é porque existe uma falha na motivação e de intencionalidade por parte do personagem. Nesse caso é preciso rever a história e tratar de encontrar falhas da trama, uma vez que se trata de um erro de estrutura”

O filme tem problemas de concepção e lógica que Doc Comparato, consideraria problemas sérios. Diz ele na obra acima citada: “Todas as histórias têm uma lógica que não pode ser quebrada e que se baseia em como as coisas são na realidade. Todo roteiro deve conter esse sentido de credibilidade”. E a lógica que Comparato fala não é apenas a lógica comum, externa à obra, mas a lógica interna do filme. Se o filme quebra a própria lógica interna não há saída. É furo feio ou desrespeito ao expectador.

Exemplos: Quando Cruise escapa da divisão e é perseguido, uma coisa muito simples era descredenciá-lo para entrar novamente no prédio, mas ele retorna usando as suas próprias credenciais (os olhos), e os mesmos olhos são usados pela sua esposa para entrar na penitenciária quando ele já está preso. Como ele pode ter as credenciais se está preso? Um simples “delete” seria suficiente para desabilita-lo. E numa sociedade tão sofisticada tecnologicamente isso é um abuso na inteligência do espectador.

E se se sabe que é tão fácil trocar de olhos que em qualquer cacete armado ou muquifo de esquina se faz em 24 horas, porque não inventaram um sistema mais inteligente e seguro para proteger os prédios do governo? Tipo usando as impressões digitais? Você viu isso em “Missão Impossível” não viu? E você também viu que o mesmo Tom Cruise lá se disfarça muito bem com uma máscara. Porque diabos nesse filme ele precisa injetar uma droga dolorosa debaixo do queixo para deformar o rosto? Por que não bastaria uma máscara? E porque não fazem logo uma cirurgia plástica? Você viu isso em “Face Off” com John Travolta e Nicolas Cage trocando de rosto.

Se eles localizam todo mundo escaneando as íris como não descobriram o homem que raptou o filho de Tom Cruise? E se localizam Tom Cruise pelas íris escaneadas em todo lugar que ele vai, metrô ou shopping, como não o localizam dentro no próprio quartel general da polícia quando ele usa as próprias íris scaneadas para abrir a porta do Templo

E a chave do filme, a grande resposta do enigma, a explicação final é um primor de furos como uma peneira velha. A premissa básica de que o assassino, para escapar da prisão, contaria com uma interpretação, pelo técnico, de um “eco” da visão dos precogs, não se sustenta pois mesmo que o técnico confundisse a visão como um “eco”, ainda assim a bola com o nome do verdadeiro assassino seria criada e aí não haveria como esconder o crime. Se o assassino planejava matar e contratou alguém para fazer o serviço, antes de contratá-lo, pensou no crime e se pensou no crime era para os precogs registrarem o crime antes e não depois como um suposto “eco”.

A cena em que Cruise sai dirigindo um carro diretamente da linha de produção é hilária de tão ridícula, quer dizer que os carros já saem da gigantesca linha de produção diretamente para as auto estradas? Não há sequer um pátio para eles ficarem.

Uma ótima crítica publicada na Veja resume tudo: “Spielberg esqueceu de uma premissa básica do grande suspense, que é deixar o espectador descobrir aos poucos, por deduções lógicas, a chave do enigma. Não é o que acontece em Minority Report.

Primeiro porque o diretor gosta de facilitar o trabalho da platéia, repetindo, enfatizando ou dando de mão beijada todas as dicas. Segundo, porque, de certa forma, os próprios pre-cogs substituem a participação ativa de quem está na poltrona, fazendo com que cada revelação venha fria e sem vida. É certo que em sua fase kubrickiana, Steven Spielberg se mostra mais dark, cultiva humor negro e homenageia os filmes 2001 – uma odisseia no espaço e Laranja mecânica. Nada, contudo, que torne Minority Report a obra-prima que todo mundo vem apregoando.”

Ou seja, se você quiser ver esse filme deixe seus neurônios em casa. Pensar não é uma atividade para o qual Steven Spielberg é especialmente indicado. No final das contas um filme equívoco e um desperdício do talento do ótimo Max Von Sydow. Esqueça esse filme e veja o ator sueco excepcionalmente bem em “Pelle o Conquistador” e “O Sétimo Selo”.

Estrogênio e Morbidez


Uma das coisas mais tristes de ser fã de um diretor, de uma escritora e de uma atriz é ter uma grande expectativa num filme em que eles estejam reunidos e, no final, ter a sensação de que houve talvez desperdício de talento.

Assim é As Horas. Dói sentir que uma grande estrela como Nicole Kidman, vencedora do Globo de Ouro, só ganhou o Oscar pelo papel de Virgínia Wolf para corrigir a injustiça de no ano anterior ter perdido o merecido prêmio por Moulin Rouge para Halle Berry. E não é por falta de méritos de Kidman, que continua em boa forma, mas fica difícil gerar empatia em sua personagem uma vez que a atriz fica em cena míseros 35 minutos.

Stephen Daldry, diretor do ótimo e sensível filme Billy Elliot, também foi preterido há três anos pela academia, injustiça que também pode ser estendida a Julianne Moore que já teve chances em Boogie Nights (para o qual foi apenas indicada para o Globo de Ouro e Oscar), Magnólia (onde estava soberba e pelo qual não ganhou prêmio algum) e Fim de Caso (impecável, mas apenas indicada). Se ganhassem as estatuetas, seriam reparações, mas as reparações não cheiram muito bem. Vide o questionamento do personagem de Ed Harris, indicado, merecidamente, para o Oscar, se o prêmio literário que ganhou (no filme) não foi apenas porque estava à beira da morte.

A música solene e minimalista de Philip Glass pode ter sido até premiada, mas — mais sombria, impossível — dá a exata dimensão da angústia com um som instrumental duro e quase sem vocais. Não digo que a música deveria ser alegre, mesmo porque isso não faria sentido algum nesse filme, mas junte-se mais ainda a dose de amargor (a música) a essa mistura áspera e tem-se como resultado mais morbidez.

As Horas é um filme que trata de morte todo o tempo com suicídios em altas doses, tristeza, solidão, desamparo e amargura. A morbidez permeia cada fotograma e não há muita explicação para isso a não ser a própria incontinência humana para o sofrimento.

Em um momento Virgínia diz: “É preciso que alguém morra para que os outros dêem valor à vida” mas, contraditoriamente, logo adiante se vê que a personagem de Julianne Moore sente extrema culpa por sobreviver a toda a família, onde se morre de câncer a rodo. A moral e a culpa judaico-cristãs estão onipresentes e os personagens, como rebotalhos humanos usando os afetos como muletas, não disfarçam o imenso tédio das próprias vidas enfadonhas. Isso não tem muito de revolucionário, sejamos justos.

Pessoas fracas e cujas vidas banais são disfarçadas de algum sentido, mulheres sem auto-estima, indefinidas sobre a própria sexualidade, transitando pelo lesbianismo com maior ou menor convicção, homens marcados pelos fantasmas de antigas relações destruidoras — a AIDS aparece como um flagelo auto imposto... É sintomático que a única personagem com alguma auto-estima seja a de Toni Collette (de O Casamento de Muriel e Sexto Sentido) e o autor, como para condená-la por não se enquadrar no perfil de morbidez, enfia-lhe um tumor no útero. Simbólico que seja no útero não? Nada mais feminino do que um tumor no útero.

Mrs.Dalloway, filme de 1997, com Vanessa Redgrave no papel principal, retrata mais fielmente o espírito da Inglaterra no tempo de Virgínia Wolf do que o 3x4 de As Horas, onde Wolf é mostrada como uma mulher aborrecida, amalucada e cheia de literatices e não a autora e crítica literária consagrada como uma das mais criativas da literatura do século 20 e precursoras do feminismo. Seu livro O Quarto de Jacob, por exemplo, é considerado ponto de transição da ficção tradicional para o impressionismo poético Além do mais, As Horas nem mesmo é fiel a Wolf. Mrs.Dalloway, seu romance mais famoso, foi iniciado em 1923 e ela morreu 18 anos depois do que aparenta no filme. Suas obras: Passeio do Farol, de 1927, Quarto Próprio, de 1929, As Ondas, de 1931 e Os Anos, de 1937 são todos posteriores a Mrs. Daloway.
É uma pena que essas atrizes interpretem personagens atreladas a uma morbidez angustiante, como satélites perdidas a procura de um eixo de luz ou calor. Essa dor onipresente e opressiva nas almas tem uma densidade por demais rarefeita para sustentar o filme.

As Horas tem boa direção, porém é acadêmico nos enquadramentos e nos planos, apesar de se resolver muito bem nas fusões temporais. Cenários e figurinos corretos e fotografia e trilha sonora adequadas para filmes de época. Tem, também o inegável mérito de mostrar 3 mulheres vivendo suas vidas em períodos históricos diferentes ligadas por um liame imaginário em torno de uma grande personagem literária.
Essa opção criativa, mas algo arriscada, reduz, porém, a substância do filme e fica claro que esse é o típico exemplo de que o todo pode ser inferior à soma das partes. Mostradas separadamente potencialmente seriam 3 ótimas histórias, unidas, perdem intensidade e sabor. Como acontece às suas personagens, o filme perde o vigor e a vida.

Madame Satã


Ele era órfão de pai. Aos oito anos a mãe o trocou por uma mula, aos nove, deixou Pernambuco para o Rio, onde morou com uma prostituta e adotou sete crianças. Preso inúmeras vezes, analfabeto, negro, nordestino, pobre, homossexual, tinha tudo para ser mais um excluído social, um excluído absoluto. Mas esse não era um homem comum. Era João Francisco dos Santos, ou melhor, Madame Satã. Um rebelde que não se conformava com a própria exclusão e lutou contra isso bravamente e por toda a vida. Um rebelde em toda a magnitude da palavra. Um mito que transcende seu nome de batismo.

E foi assim que o genial diretor Karim Aïnouz, no seu primeiro longa, nos presenteia com uma verdadeira obra prima que é seu filme Madame Satã que já chega nas telas brasileiras ovacionado com o premo de melhor direção no Festival de Biarritz na França, premiado também no Festival de Cinema de Chicago e melhor longa metragem (cólon de ouro), melhor ator (cólon de prata para Lázaro Ramos) e melhor fotografia (cólon de prata para Walter Carvalho) no Festival de Cine Iberoamericano de Huelva, na Espanha.

O uso da câmara desfocada e o enquadramento incompleto são das ótimas coisas do filme! Metáforas visuais perfeitas do interior dos personagens. Um filme permite que se conte uma história utilizando-se a câmara para retratar outros aspectos que não apenas o óbvio, o que o público vê de imediato. Há diversas camadas muito mais intensas do personagem que podem ser trazidas à luz e à tela com recursos sofisticados que nem sempre são tradicionalmente eleitos pelo público como aceitáveis, ou suportáveis. São apenas menos acessíveis, mas nem por isso uma disposição maior desse público e uma boa vontade podem inviabilizar uma apreciação desses recursos.

A câmara desfocada reflete a tensão dos sentimentos intensos daquelas pessoas, como se lutassem internamente para viver com os pés no chão. As emoções em luta com a razão fazem com que às vezes as coisas percam o foco, turvam o olhar. Se isso acontece conosco, pessoas privilegiadas, o que dirá daquelas pessoas, vivendo sob aquelas condições.

Os limites dos enquadramentos dos personagens são um achado, como que as personagens sendo grandes demais para caber no recorte que o diretor queria dar. É como uma homenagem do diretor, como se ele quisesse dizer: perdoe-me por querer limitá-lo a um quadro de cinema pois sei que vocês estão além desse corte que dou à sua trajetória na vida. A idéia de desmesura é clara. Satã era "um negro que não sabia o seu lugar", ou melhor, que não cabia nele. A imensa força desse filme vem dessa tensão para romper limites. É como se os limites de um fotograma fossem uma prisão a mais para os personagens e o diretor não quisesse se prestar a também essa violência. Muita gente julgou as duas escolhas quase insuportáveis, o foco e o enquadramento.

A mim causou-me extremo prazer estético, tinha uma simpatia muito grande com a história e com tudo que se passava ali na tela. Há gente que achou ruim a opção do diretor em retratar apenas uma parte da vida de Madame Satã. Se ele tivesse feito um filme falando do começo da vida dele quando era pequeno, passando pela adolescência até a morte seria mais como um desses filmes convencionais ou um documentário. O roteiro capta, com o retrato dessa fase da sua vida, a sua máxima densidade.

A fotografia premiada de Walter Carvalho e a mão precisa de Aïnouz reconstituíram notavelmente a Lapa dos anos 30 tanto na cenografia quanto no linguajar do elenco.

Satã sonha em meio ao rebotalho humano que habita o gueto pútrido e violento onde a escória transita como se estivesse na sua sala de visitas. Satã, violento e terno, perigoso e sensível, é feito todo de extremos, sonha em ser a estrela de um espetáculo ao mesmo tempo onírico e sórdido, festivo e tosco, mas inegavelmente extraordinário pela crueza do ambiente em que se desenvolve, surpreendentemente capaz se ser fonte de momentos de pura grandeza, fruto proibido da imaginação que somente poderosas almas profundamente artísticas seriam capazes de ter.

Madame Satã é um filme — perdão do termo desgastado, mas, sinceramente, não há outro, — político. Satã em nenhum momento se vitimiza, ele é vítima sim, inúmeras vezes vítima, mas se rebela a essa fôrma. Não cabe nela, ele se rebela e mostra, luta quase inglória de tão injusta, que pode ser o que ele quer e não o que querem que ele seja. Numa época em que marginal, brigão, cafajeste, boêmio e ladrão eram sinônimos de macheza, Satã mostrava, com seu auto proclamado orgulho homossexual, que era mais macho do que todos os malandros da Lapa juntos, mesmo quando rebolava num palco improvisado num cabaré e gritava: " A vida tem mais graça quando a gente dança".

O que nunca me deixa de espantar é a capacidade absolutamente inesgotável que o ser humano tem em superar a própria hipocrisia. Como diz a crítica Neuza Borges, que entrevistou o diretor logo após a apresentação do filme em Cannes: "Houve um escândalo durante o festival de Cannes por causa das cenas de sexo, várias pessoas deixaram as salas de exibição onde o filme foi mostrado. É difícil imaginar o que terá chocado tanto essa platéia experimentada e que já deve ter assistido a filmes muito mais diretos sobre a homossexualidade, como "Querelle", de Fassbinder, ou "O Último Tango em Paris", de Bertolucci. O diretor concorda e declarou: "Madame Satã terá cumprido, afinal, uma das vocações mais saudáveis do cinema, a de incomodar o que já estava adormecido, cutucar o que já estava acomodado, abrindo janelas para contemplar a diversidade do mundo. Alguns jornalistas saíram na sessão de imprensa. Na sessão de público, também saíram algumas pessoas. Não estamos no Afeganistão, com o Talebã. Mas sexo é uma coisa que incomoda. A intimidade também. Não é nem a questão da prática sexual, mas é a forma como você revela a intimidade entre duas pessoas. O que acho interessante é saber o que incomoda, o que é politicamente permitido ou não. Você tem os filmes do John Woo, em que se cortam não sei quantas cabeças por segundo. Isso, tudo bem! E aí quando você fala em intimidade, ainda se sente isso como perigoso.

Palmas para todos os rebeldes, os malditos, os que incomodam, os corajosos, os marginalizados. Não me surpreendo se esse filme tiver um centésimo do número de espectadores que teve o anti-ético Cidade de Deus. Em Madame Satã você não verá um videoclipe, mas puro e verdadeiro Cinema. Maiúsculo

9.12.06

Carta de Despedida em Tarde de Sol


Acabo de perceber a falta que você me faz. 

O momento exato em que esse vazio me assolou foi aquele no qual você cruzou o céu a bordo de um MD-11, deixando minha vida e minhas mãos pesando como chumbo. Tentei acenar um adeus, mas os ombros doíam por não conseguirem levantar as mãos para esse gesto inútil. Os pés pareciam não querer largar o chão do aeroporto como se estivessem certos da sua volta que quem sabe se haverá.

Volta! 

Se eu soubesse que você, no final, partiria, não teria aberto minhas comportas, não serviria para seu regalo as minhas carnes assim em postas, não teria exposto o meu coração retalhado em fatias, se soubesse que no fim você partiria. Se não fosse para me embriagar de você eu não teria ido até o fim da taça desse seu veneno, esse seu mel de especiarias.

Você que chegou na hora errada pondo uma luz estranha e intensa no fundo dos meus olhos cansados — e já era tão tarde para me fazer sentir aquilo,— então já que invadiu a casamata, derruba-me logo as barreiras; não foram capazes, quebra as correntes, as amarras, essas tenazes; suga meu sangue, seiva. Salva-me!

Pois pantanosos são esses lugares; de inexplorados, tão ermos, para caminhar em direção ao meu coração, perigosos esses trechos; calcinados, tanto já sofreram nas minhas mãos. Quem diria ser este, para um coração, um caminho?

Os desvios e os desvãos me atraíam para terrenos ainda mais árduos. Perder-me fora condição para buscar o desconhecido, esse misterioso espaço só meu. Nebulosas paragens desse habitat instável, fascinante terreno, todo o meu corpo, miragem delirante, a ocupar espaços baços. Olhos perdidos em qualquer direção — os meus —, traços de pés plantados num desvio do caminho, um aviso, uma pista falsa num chão movediço qualquer.

Talvez você arrancasse de mim um suspiro inaudível como uma gota de dor, ou um abraço, como uma sombra para descansar sob uma árvore de galhos ressecados e quebradiços. Mas lhe faltarão os meios para decifrar tantos enigmas do meu peito e você, então, ficará sem forças e sem coragem para percorrer esses pedregosos leitos onde eu me deito na busca do oblívio do sexo.

Se eu fosse algum tipo de deus, eu me faria inteiramente seu para que você nunca partisse e me deixasse...Uma noite dessas acordarei suando, olhos vermelhos, o corpo em fogo, a gritar o seu nome, chamando você aqui.

Nessa noite descobrirão que enlouqueci.

11.11.06

Diários de Motocicleta


O filósofo Jean Paul Sartre declarou uma vez que Che Guevara era o homem mais completo da sua época. Talvez tenha sido, na verdade, um dos mais completos de todas as épocas. Uma pequena parcela das muitas histórias sobre o mítico Che Guevara chega às telas, retratada pela visão privilegiada do diretor Walter Salles.

Em Diários de Motocicleta vemos Salles firmemente ancorar no topo da sua maturidade cinematográfica. O diretor não precisaria provar para ninguém seu talento após filmes memoráveis como Terra Estrangeira, Central do Brasil e Abril Despedaçado, todos obras-primas. Mas agora, com apoio e verba do produtor Robert Redford e o selo Sundance, Salles exibe sem amarras seu talento ao mesmo tempo sensível e arrebatador. O filme, ao ser apresentado em Sundance e em Cannes recebeu entusiasmados aplausos de mais de 1.000 pessoas em pé. Salles reconhece a importância de retratar essa parte da vida de Che, mas afirma que a trajetória da sua vida não caberia nem mesmo em 10 filmes.

Começaria pelo final: A experiência rara de ouvir aplausos da platéia ao término do filme. O road movie, com todos os elementos de busca da identidade e jornada iniciática, retrata oito meses na vida do estudante de medicina argentino Ernesto Guevara, então com 23 anos, e seu amigo Alberto Granado, de 29. Anos depois, Ernesto, já o comandante Che Guevara, herói de guerras revolucionárias em Cuba e no Congo, entraria para o panteão dos mitos imortais ao ser assassinato covardemente aos 36 anos nas selvas da Bolívia a mando dos EUA. A célebre foto de Che, feita pelo cubano Alberto Korda, é, provavelmente, a imagem mais reproduzida no século XX e tornou-se inquestionavelmente, o símbolo máximo de resistência, rebeldia e, paradoxalmente, de ternura.

Outra foto de Guevara, não tão famosa como a de Korda, é a que o mostra morto e cercado de soldados bolivianos. Como bem comentou o crítico José Geraldo Couto, as mitologias em torno de Che são tão abundantes que abarcam tanto os ideais cristãos quanto os da esquerda. A própria foto de Che morto, barbudo e sem camisa, lembra muito o martírio de Cristo.

Guevara é interpretado magistralmente pelo jovem ator mexicano Gael Garcia Bernal, que já esteve na pele de personagens marcantes em filmes como Amores Brutos, E Sua Mãe Também e O Padre Amaro e é o grande destaque no novo filme de Pedro Almodóvar: La Mala Educación, onde faz 4 personagens, inclusive um travesti.

Bernal, no papel de Che, e Rodrigo de la Serna, no papel de Granado, entram para a história do cinema como uma dupla repleta de enorme carisma. Cada sorriso gigante de Bernal, como Ernesto, enche a tela de uma beleza juvenil cheia de sinceridade. A bordo da precária motocicleta La Poderosa, eles atravessaram a Argentina, atingem os Andes chilenos e, já despojados da velha Norton 500, chegaram ao Peru e à Venezuela. No caminho são transformados profundamente ao testemunharam as grandes injustiças praticadas contra os pobres latino-americanos, explorados à exaustão em minas de cobre, expulsos de suas terras, despojados, humilhados... a viagem aconteceu em 1952. Hoje, 52 anos depois, poucas coisas mudaram e a América Latina continua com suas veias abertas, como diz o escritor Eduardo Galeano, sangrando as suas riquezas, sugadas pelos eternos poderosos.

A parte mais tocante do filme é quando Ernesto chega à colônia de leprosos de San Pablo na amazônia peruana. Ali, ele e o amigo Granado trabalham voluntariamente por alguns meses e subvertem as ordens que exigiam luvas para quem tratava os doentes, mesmo quando a lepra já não era mais contagiosa. A segregação dos doentes em um dos lados do rio enquanto os médicos moram do outro já incomodava Ernesto que instala a irreverência na colônia, joga futebol com os enfermos e numa atitude reveladora do grande homem que — então — ele já era, no dia do seu aniversário, após um emocionante discurso onde pregava o sonho da união de uma América Latina irmã, decide atravessar o perigoso rio à noite, à nado, para comemorar com os amigos leprosos.

Ele, um asmático, tem uma atitude de tamanha coragem e destemor da qual, como definiu Sartre, somente um homem verdadeiramente completo seria capaz. Com sua crônica asma, sua vida foi uma batalha permanente. Alguém, como ele, para quem cada bocado de ar era uma luta, poderia ter envelhecido tranqüilamente na sua terra natal, aberto uma clínica e tornado-se um burguês, mas a viagem que fez pela América Latina mudou sua vida e esse filme mostra como se forja um herói, um revolucionário.
Um homem completo.

10.11.06

Alexandre

O maior de todos os mitos foi real. Com esse dístico, Oliver Stone nos apresenta sua versão de 3 horas e 150 milhões de dólares de Alexandre, o Grande, na verdade uma obsessão pessoal do diretor por 15 anos.
A principal pergunta que deve ser feita sobre o filme de Oliver Stone é: Ele conseguiu retratar à altura a magnitude do personagem Alexandre da Macedônia? Alguém tão monumental cujos fracassos superaram as conquistas da maioria dos homens recebeu um tratamento digno da sua importância?

Infelizmente não. Por dois motivos principais: primeiro, um filme sobre Alexandre jamais caberia em 3 horas de duração. Apesar de sua curta vida, 32 anos, ele conseguiu realizar feitos que ninguém até hoje conseguiu ou conseguirá. Conquistou 90% do mundo conhecido de então, lutou mais de 70 batalhas em oito anos e jamais foi derrotado. Conquistou mais de 5 milhões de quilômetros quadrados, da Grécia aos atuais Egito, Iraque, Afeganistão, Irã, Turquia, Índia e muito mais. E isso numa época em que não havia a infraestrutura, a medicina e a comunicação que existem hoje. Alexandre foi profundamente transformado nesse processo de conquistas e por isso esse poderia ser o road movie dos road movies.

O segundo motivo para que o filme não retrate a grandeza de Alexandre é que o diretor claramente, ao editar a película que teria 5 horas, acabou por mutilar aspectos da construção do personagem que seriam essenciais para estruturar a sua complexidade dramática. Alexandre foi um grande general, mas por problemas com a edição das imagens, o que se vê dele é, em várias cenas, um jovem perplexo, dominado pela mãe, confuso sobre a relação com o pai, alcoolizado, desprezado, chorão, arrependido, paranóico... E sabe-se que ele era tudo isso, mas muito mais. Era um homem extraordinário e de um magnetismo arrebatador. Stone errou na mão ao optar por não mostrar os aspectos mais brutais de Alexandre que serviriam para dimensionar a complexidade da sua personalidade.

O filme não retrata várias batalhas importantes de Alexandre como a destruição da cidade grega de Tebas que, por ordem dele foi totalmente arrasada e toda a população assassinada. Outra batalha ferocíssima, que durou meses, foi a terrível tomada da cidadela de Tiro que também foi completamente destruída e todos os habitantes enforcados e as mulheres e crianças escravizados.

Stone não toca do incêndio comandado por Alexandre durante uma bebedeira da maravilhosa cidade e do imponente palácio real de Persépolis, uma das mais lindas capitais do império persa. Alexandre pessoalmente comandou o incêndio do palácio todo feito de ouro, prata, mármore e pedras preciosas. Um crime terrível.

O filme retrata a famosa batalha de Gaugamela onde Alexandre com 40 mil homens derrotou o imenso exército de Dario de 180 mil. Ocorre que esse não foi, como diz o filme, o primeiro combate entre os dois exércitos. 4 anos antes em Granico e depois em Isso Alexandre já derrotara duas vezes Dario que fugia sempre.Gaugamela é realmente uma batalha espetacular e lembra super produções como a batalha da Praia da Normandia no Resgate do Soldado Ryan ou as grandes batalhas de O Senhor dos Anéis mas a chave da batalha é mal explicada no filme. A estratégia de Alexandre para penetrar numa brecha ele mesmo criou nas fileiras do monstruoso exército persa é considerada até hoje por experientes militares como uma jogada de um gênio.Usando a infantaria, as falanges e a cavalaria em uma sincronia espetaculares.

Colin Farrell, definitivamente, não era o ator ideal para o papel de Alexandre. Além de não ter a beleza que o macedônio tinha, seus cabelos louros são escandalosamente falsos, vê-se que é uma peruca horrível. Um louro legítimo (há vários no filme) tem cílios, barba e sobrancelhas louras e Farrell exibe feios pêlos hirsutos e pretos na cara. Além do mais falta-lhe uma qualidade insuperável: carisma.

Usar narração como o filme faz, do faraó Ptolomeu, ex-general de Alexandre, não me perece uma das soluções mais criativas. Fica óbvio que isso serviu para justificar os cortes nas cenas importantes e apenas poder amarrar e citar fatos e batalhas imprescindíveis na construção do personagem. É uma pena, mas as pessoas não sabem a importância de Ptolomeu. Ele simplesmente foi ancestral de Cleópatra e criador de uma grande linhagem de faraós importantes e isso o filme não mostra.

A relação homoerótica de Alexandre com o general e amigo de infância Hefestion e as cenas em que o eunuco Bagoas aparecem são de uma falta de tato do tamanho da patada dos elefantes do rei Pórus na batalha de Hidaspes. Ao cortar as cenas em que Alexandre e Heféstion degolam, trucidam e esfolam povos, e mostrá-los cheios de meiguices, claramente perde a oportunidade de retratar o caráter ambivalente da sexualidade grega. No cinema onde assisti ao filme o público debochava rindo das afetadações de Alexandre. Hefestion era um guerreiro poderoso e derrubava o próprio Alexandre nas lutas. Por que retratá-lo de cabelos compridos, melífluo, cheio de rímel nos olhos e olhar lânguido? Heféstion era um carniceiro tão forte e violento quanto os demais soldados macedônios.

Há muito mais registros históricos do papel do eunuco Bagoas do que o de Roxane, até porque ela foi assassinada logo depois da morte do marido e, como mulher, tinha pouca importância para os registros dos historiadores da época enquanto Bagoas tornou-se um primeiro-ministro importante de Alexandre (no filme ele não dá um pio). Bagoas era o eunuco favorito de Dario e consta que o grande rei persa preferia seus carinhos ao de qualquer das lindas esposas do seu fornido harém. Para maiores informações recomendo o livro O Menino Persa de Mary Renault, autora de outras obras sobre Alexandre.

Há várias outras obras literárias ótimas sobre Alexandre. O historiador Plutarco escreveu sobre ele comparando-o ao imperador Julio César. O escritor Valério Manfredi escreveu 3 importantes livros sobre Alexandre mas nenhum deles toca no tema da bissexualidade do macedônio.

Já vi muitas cenas de sexo melhores e mais impactantes em produções mais simples do que a que mostra as núpcias de Alexandre e Roxana. Enquanto isso há apenas insinuações homoeróticas lânguidas demais como as melosas declarações de amor trocadas com Hesfastion. Quando Alexandre chama o eunuco para a sua cama a imagem do filme sofre um fade out para que ninguém veja o que aconteceu ali naquele leito. Para poupar o público de cenas mais fortes ?

A personalidade de Alexandre foi muito moldada pelos conflitos entre seus pais, mas o papel de Aristóteles chegou a ser muito mais importante na educação e formação humanista de Alexandre do que a influência dos pais. Olímpia, uma bacante que participava de orgias e Filipe, bissexual assumido, tendo inclusive vários amantes entre os soldados. No filme isso não é explicitado. E há apenas uma única cena onde Aristóteles aparece. É de uma falta de cuidado histórico impressionante o filme não dar mais espaço para cenas com o filósofo que ainda hoje é considerado um dos mais importantes da humanidade.

A cena em que Filipe mostra a Alexandre os destinos cruéis dos heróis gregos Medéia, Hércules, Prometeu, Édipo e Aquiles é belíssima, à luz de achotes e numa espécie de caverna. As imagens que acompanharão Alexandre para sempre são retratadas em paredes escuras e vê-se um pai e um filho no processo de formação de um caráter. Infelizmente é triste constatar mas 90% do público do cinema nem sabem quem foi Medéia ou Prometeu e apenas tangenciam a complexa grandeza narrativa das histórias de Hércules, Édipo e Aquiles.

A cena em que a morte de Filipe é mostrada num flash back é na verdade muito esquisita, foge completamente da estrutura narrativa do filme. É a única cena em flash back de um filme que já em si é um grande flash back narrado por Ptolomeu. Se o diretor imaginava criar algum impacto com isso fez uma espécie de apêndice incômodo desnecessário. Porque não narrar tudo cronologicamente? Não faz o menor sentido.

Crítica e público norte-americanos esnobaram o filme que foi mais bem recebido além-mar, algo a que Oliver Stone já está acostumado, mas dessa vez mesmo ele se surpreendeu com a paulada. Mas o que se pode esperar de uma nação cujo fundamentalismo cristão elege um debilóide limítrofe duas vezes presidente? Uma nação de idiotas, como diz Michael Moore.

O filme não é também tão ruim. O crítico Inácio Araújo, da Folha, injustamente, dá a ele apenas 1 estrela. Chama a produção de "mise-en-scéne pomposa e balofa". Compara com Gladiador que, segundo ele: “dá ao público o prazer do kitsch, tão necessário às grandes produções. Alexandre é vítima de um bom gosto entediante: as coisas estão todas no lugar, os guerreiros lutam como, é de presumir, lutava-se na Antigüidade.”

São engraçados esse críticos não é? Marcelo Bernardes da Época diz exatamente o contrário: “Oliver Stone criou um filme kitsch e cafona”. Ambos malham o filme, só faltou entrarem em acordo sobre seus defeitos. Inácio Araújo, como a maioria do público (um crítico e não deveria estar num nível tão baixo) vê Alexandre como um homem que “simplesmente, não queria voltar para casa”.

Má vontade do crítico. Fica claro que Alexandre acreditava (seguindo as idéias de Aristóteles) que indo para o leste chegaria ao “Mar Exterior” ou “Oceano Circundante” e que dali, por um acesso para o Rio Nilo, voltaria rapidamente à Grécia navegando. Esse era um grande erro geográfico mas, na época, suficiente para justificar o desejo de Alexandre de rumar sempre para o leste. Ele queria sim, voltar para casa, mas queria também conhecer e conquistar o mundo antes. E realizou o que ninguém imaginou sequer sonhar.

Tróia e a Cassata da Minha Avó


Qual a história da sua vida? Que lenda ou romance marcou sua infância ou adolescência? Podem ter sido os livros de Monteiro Lobato, talvez você seja dos privilegiados que cresceram com as aventuras de Pedrinho, os quitutes de Tia Nastácia e as histórias de Dona Benta... isso sem falar das loucuras de Emília e experiências do Visconde.

Talvez esteja mais para Julio Verne e cresceu com as Vinte Mil Léguas Submarinas ou A Volta ao Mundo em 80 dias... Não? Então foi daqueles precoces que já liam Machado de Assis e se encantaram com sua luxuosa linguagem e com os personagens Capitu, Brás Cubas ou Quincas Borba, ou era mais regionalista e gostava de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo... Jorge Amado então. Certamente adorou Capitães de Areia, Dona Flor... Pedro Arcanjo...

E quando o encanto das palavras tomou outro caminho, também encantado, e se materializou em celulóide e luz na sala escura de um cinema? A linguagem é, em si, pura magia e a linguagem do cinema torna a mágica da literatura uma magia ricamente diferente.

Desde criança, fui criado como uma traça de livro. Nenhuma brincadeira me encantava mais do que as histórias. Obviamente, a rara doença que tive na infância —Coréia de Sydenham's—que impedia a coordenação de movimentos, foi fundamental para despertar o gosto da leitura. Sem contar que durante anos as injeções semanais de benzetacil foram fundamentais na elaboração das chantagens para que meus pais me fornecessem todos os gibis da cidade. Virei expert em manipular emoções e culpas. Se bem que as injeções doíam realmente e os sábados da minha infância tinham cheiro de xilocaína.

Já que estou na infância, lembra daquela sobremesa que sua tia ou sua avó faziam? Era uma torta? Um bolo? Um doce? O quê você não daria para comer aquele doce que sua avó fazia e que tinha um sabor especial, um certo gosto de infância que por mais que outra pessoa tenha tentado fazer depois nunca mais foi a mesma coisa, faltava um olho de menino para dar o sabor. E o menino cresceu.

Como a cassata que minha avó fazia, as injeções e a leitura da Ilíada (A Guerra de Tróia), foram partes integrantes da minha infância. Como poderia esperar que a história de Tróia transposta para o cinema, linguagem que aprendi a amar a partir da literatura, cometesse tantos crimes homéricos em relação ao original!

Talvez uma pessoa que provasse a cassata da minha avó e não soubesse que havia uma camada de pêssego, outra de chocolate, uma de leite condensado e outra de biscoito champanhe e pão de ló com uma deliciosa cobertura de chantily se deliciasse ao provar apenas da cobertura sem imaginar o que tinha embaixo.

Quem assiste ao filme Tróia e não conhece a história original estará se deliciando apenas com uma simples cobertura sem recheio, sem conteúdo, sem riqueza e sem magia. Assim foi a opção lastimável de realizar um filme sobre a guerra de Tróia sem os deuses, pois a guerra ocorreu devido a uma disputa de 3 deusas e vários deles chegaram mesmo a lutar algumas batalhas ao lado dos mortais. Omitir esse vasto material das telas, em si mesmo cinematograficamente riquíssimo de possibilidades imagéticas, é optar pela mediocridade.

Há no filme inúmeras falhas não somente do ponto de vista mitológico como também do ponto de vista histórico. Exemplos abundam: Se você viu o gigante Ájax no filme ser morto por Heitor, fique sabendo que isso não consta da história original. Ájax matou-se após a morte de Aquiles atirando-se sobre a própria espada. Outros erros grosseiros do filme: na luta com Menelau, Paris não fugiu da morte mas foi resgatado por Afrodite; Heitor não matou Menelau; Helena não escapa de Tróia, ao contrário, volta para casa com o marido Menelau e vivem felizes para sempre; Páris não escapa do incêndio de Tróia, mas é morto pela flecha de um arqueiro grego; Príamo não foi morto por Agamenon, mas por Neoptólemo, pelo filho de Aquiles; Andrômaca, viúva de Heitor, não escapa da guerra, mas casa-se com o mesmo Neoptólemo que matou Príamo e ainda dá a ele 3 filhos; o filhinho de Andrômaca e Heitor não escapa da guerra pois foi atirado para a morte do alto das muralhas de Tróia; Agamenon não é morto por Briseida, mas leva-a com ele para a Grécia e lá ambos morrem pela mão da rainha Clitemnestra... não faltam crimes contra Homero.

E o que se pode dizer de reduzir uma guerra que durou 10 anos a poucas batalhas que no filme parecem durar alguns dias? E a omissão imperdoável de figuras femininas incríveis como a rainha Hécuba, esposa de Príamo, a sua filha Cassandra, sacerdotisa de Apolo que tinha o dom da profecia e em quem ninguém acreditava, como um castigo infringido pelo deus, além das Amazonas, exímias guerreiras que lutaram por Tróia. E do lado grego as personagens de Electra e Ifigênia, filhas de Agamenon. Electra, junto com o irmão Orestes responsáveis pela morte da mãe Clitemnestra como vingança por ela ter assassinato o pai e Ifigênia, sacrificada no altar de Ártemis pelo próprio pai para aplacar a ira da deusa e permitir que os navios zarpassem para Tróia.

Podem alegar liberdade artística, mas da próxima vez que forem filmar A Volta ao Mundo em 80 dias não reclame se o diretor resolver encurtar para 30 dias, ou se as Vinte Mil Léguas Submarinas virarem uns 20 quilômetros. Não estranhe também quando as personagens de Monteiro Lobato, no cinema, vierem com uma Tia Nastácia branca ou sem personagens de fábula como Visconde, Emília, Cuca e Saci. Ah, E o que você acharia se em vez de Dom Quixote lutar contra moinhos “gigantes” pusessem o Cavaleiro da Triste Figura lutando, digamos, com moinhos “anões”?

Não há chance alguma de qualquer leitura pessoal moderna superar um clássico como A Ilíada ou qualquer dos citados. É por isso que nunca mais vou experimentar novamente a verdadeira, original e inesquecível cassata da minha avó. Também ela, um clássico.

Se não há como melhorar, deixemos os clássicos em paz!

Menina de Ouro


Dificilmente a atriz Hillary Swank deixaria de receber o segundo Oscar pela sua torturante e torturada boxeadora no filme Menina de Ouro. A academia gosta de personagens aleijões ou com deficiências no corpo ou na alma. Este é o diagnóstico da personagem de Swank em Menina de Ouro, filme indicado a 7 estatuetas.

Quem acompanha a carreira do diretor Clint Eastwood já diagnosticou — esta palavra não está repetida à toa — sua tendência à morbidez e às mágoas humanas. Em seu oscarizado Sobre Meninos e Lobos, Eastwood já mostrava predileção por feridas expostas.

Em certo sentido Eastwood reforça nesses últimos filmes a idéia de que em Hollywood um filme de sucesso não pode tratar de muitos temas. Em Sobre Meninos e Lobos o diretor não desenvolveu o papel da Igreja Católica nos casos de pedofilia, vertente dramática que merecia ser explorada. Ora, o pedófilo do filme era um padre e o filme se passa em Boston, cidade onde estourou um gigantesco escândalo de pedofilia da Igreja, por que o diretor passou ao largo desse rico tema?

A mesma inapetência em diversificar abordagens acontece em Menina de Ouro. A boxeadora do filme parece ser assexuada, como se não tivesse desejos ou se sua opção pelo boxe, algo, convenhamos, não muito feminino, não tivesse lhe trazido dissabores sexuais. Ela gostava de rapazes? Foi magoada por eles? Era lésbica? Em momento algum aborda essa vertente também plena de significados. Isso empobrece os filmes.

Eastwood, ultimamente, faz com que eu me sinta um sádico que, no papel de voyer — papel que, em última análise, cabe aos cinéfilos — está em frente a uma tela para apreciar Mr. Eastwood destilar sua frustração com a humanidade.

Uma polêmica envolve este filme nos Estados Unidos. Ela não pode ser detalhada aqui pelo risco de antecipar o final da película, mas gira em torno da opção do diretor em mostrar uma visão degradante de um certo tipo de deficiente. Uma Associação Nacional de Afetados nessa deficiência e o grupo “Not Dead Yet” (Ainda não estamos mortos) nos EUA estão em campanha contando para os espectadores o final do filme em represália à maneira pouco edificante com que o diretor lidou com o tema. Eles acusam o filme de "confirmar os piores estereótipos".

Eastwood tem uma queda especial pela tragédia humana, pelas almas despedaçadas, pela falta de misericórdia de Deus diante das angústias dos homens. Seus heróis são vítimas da vida em uma permanente luta vã. Não há proteção contra as armadilhas do destino, só resta sofrer e lamber as feridas.

Em Menina de Ouro vemos um filme competentemente dirigido, mas com um argumento relativamente batido, repletos de clichês e simplismos como as personagens da boxeadora vilã, do treinador bonzinho, do aluno mau e do aluno bobo de alma pura. Registre-se, porém, o esforço algo inglório, do diretor em escapar dessas armadilhas esquemáticas e a coragem em abordar a indigesta relação da boxeadora com a família. Desculpem, mas isso também soou meio previsível mesmo a pesadíssima cena da assinatura do contrato no hospital. É bem feita, mas grotesca ao extremo.

Aparentemente Eastwood quer mostrar que amadureceu (ou envelheceu) nos seus temas. Quando interpretava o bruto Dirty Harry, seus personagens não eram vítimas da dor, mas lutavam contra ela e a venciam. Hoje, Eastwood demonstra um imenso desencanto, como seu pistoleiro recluso de Os Imperdoáveis e seu detetive enfartado de Dívida de Sangue. Há uma certa contradição aqui, pois Eastwood, ex-prefeito da cidade de Carmel, é também um político ligado ao partido republicano de Bush e amigo de Reagan. Há tempos os Estados Unidos não abarcam valores tão conservadores e republicanos, algo que deveria agradar ao conservador Eastwood, no entanto seus últimos filmes tratam de desencanto e um certo niilismo. Se a justiça divina não protege os homens e a justiça dos homens não os acolhe resta o fardo da dor e da culpa e as feridas expostas.

Sinceramente, acho que já chega de tanta dor. Ou, como diz uma amiga minha: me poupe!

13.10.06

Shakespeare para a massa!


"Uma leitura livre do Discurso de Marco Antônio"

Amigos, brasileiros, cidadãos dêem-me seus ouvidos. Vim para enterrar Lulla, não para louvá-lo. O bem que se faz é enterrado com os nossos ossos, que seja assim com Lulla. O nobre Alckmin disse a vocês que o torneiro mecânico Lulla era ambicioso. E se é verdade, a falta era muito grave e Lulla pagou por ela com o 2º turno pelas mãos de Alckmin e dos eleitores. Pois Alckmin é um homem honrado, e assim são todos eles, homens honrados. Venho para falar próximo antes do fim do 1º mandato de Lulla. Ele já foi meu amigo, tornou-se infiel e injusto comigo. Mas Alckmin diz que ele era ambicioso. E Alckmin é um homem honrado.

Lulla trouxe muitos petistas, tutti buona gente, pero tutti ladri, para cargos comissionados em Brasília que, contribuindo com o dízimo, encheram os cofres do PT. Incorporou, também, o valerioduto, os sanguessugas e os mensaleiros no primeiro escalão. Isto parecia uma atitude ambiciosa de Lulla?

Quando o prefeito Celso Daniel era assassinado, Lulla chorava. Quando os pobres sofriam Lulla chorava. Ora a ambição torna as pessoas duras e sem compaixão. Entretanto, Alckmin diz que Lulla era ambicioso. E Alckmin é um homem honrado.

Vocês todos viram que Lulla não sabia de nada que estava acontecendo sequer no mesmo andar no seu palácio. Isto era ambição? Mas Alckmin diz que ele era ambicioso, e Alckmin, todos sabemos, é um homem honrado.

Eu não falo aqui para discordar do que Alckmin fala. Mas eu tenho que falar daquilo que eu sei. Vocês todos já o amaram e tinham razões para amá-lo. Qual a razão que os impede agora de votar novamente nele?

Ontem, a palavra de Lulla era ouvida na ONU, agora, jaz aqui na urna disputando o segundo turno. Ah! Se eu estivesse disposto a levar os seus corações e mentes para o motim e a violência, eu compraria um dossiê para difamar e atrapalhar a eleição de Alckmin e de Serra, os quais, como sabem, são homens honrados. Não vou falar deles. Prefiro falar de Lulla.

Cidadãos. Se vocês têm lágrimas, preparem-se para soltá-las. Vocês todos conhecem esta faixa presidencial. Vejam, foi neste lugar da faixa que a faca de José Dirceu penetrou. Através deste outro rasgão, o "nosso Delúbio", tão querido de Lulla,enfiou a sua faca, e, quando ele arrancou a sua maldita arma do ferimento, vejam como o sangue de Lulla escorreu. E Lulla teve a suprema dignidade de dizer-se traído por "praticas inaceitáveis" mas não deu nome aos bois...Práticas não traem, pessoas traem, mas isso Lulla não sabe.

E o "nosso Delúbio", como vocês sabem, era o anjo de Lulla, o Gregório Fortunato redivivo, dormia no Alvorada e no Torto. Oh! Deuses, como Lulla o amava. O golpe do "nosso Delúbio" foi, de todos, o mais brutal e o mais perverso.

Pois, quando Lulla viu que o "nosso Delúbio" o apunhalava, a ingratidão, mais que a força do braço traidor, parou seu coração. E Dirceu, e Genoíno, e Silvinho, e Palocci, e Waldomiro, e Freud, e Berzoini e os 40 de Ali Babá. Oh! Que queda brutal meus concidadãos. Então eu e vocês e todos nós também tombamos, enquanto esta
sanguinária traição florescia sobre nós.

Sim, agora vocês choram. Percebo que sentem um pouco de piedade por ele. Boas almas. Choram ao ver a faixa presidencial do nosso Lulla despedaçado. Bons amigos, queridos amigos, não quero estimular a revolta de vocês. Aqueles que praticaram este ato são tão honrados quanto o caseiro Francenildo. Quais queixas e interesses particulares os levaram a fazer o que fizeram, não sei. Mas são sábios e honrados e tenho certeza que apresentarão a vocês as suas razões. Eu não vim para roubar seus corações. Eu não sou um bom orador como Serra. Sou um homem simples e direto, que amo os meus amigos.

Aqui está o testamento, com o selo de Lulla. A cada cidadão ele deixou um cartão do Bolsa-Família.

7.10.06

Mangue Seco em P & B


Long long time ago...quando talvez não tivessem inventado a foto em cores, o scanner, a câmera digital...velho...muito velho...

Mas havia sol forte, areia fofa, água salgada, amigos queridos e um camarão no alho que estava perfeito para a nossa imensa fome...saboroso...muito saboroso...

Saudades...

6.10.06

Perdidos no Queens


Era a minha 3ª vez em Nova Yorque, a segunda vez de um dos meus amigos e a 1ª vez do outro. Ao chegarmos, um casal americano amigo foi nos pegar no aeroporto La Guardia, que fica no Queens, um bairro maior do que a ilha de Manhattan. Levou-nos para dormir a primeira noite na sua linda casa em Staten Island, em frente à Baía de Nova Yorque. Mas essa moleza foi só no primeiro dia. No dia seguinte seguimos para nosso hotel.

Aproveitamos bastante os maravilhosos cinco dias na cidade que nunca dorme. O meu amigo que visitava NY pela primeira vez, mesmo com todos os meus alertas, desrespeitou o primeiro e máximo mandamento dos viajantes. O pecado capital para quem vista a cidade: NÃO PERDERÁS TEMPO EM NOVA YORQUE!
Tempo foi tudo que ele perdeu. Paciência foi tudo que perdi.

Naqueles cinco dias meu amigo demonstrou seus métodos de organização que fariam um virginiano radical com Transtorno Obsessivo-Compulsivo agudo parecer um inocente amador. Meu amigo conhecia 87 maneiras diferentes de pentear os cabelos, tinha rituais de escovação dos dentes que fariam inveja a um sadomasoquista profissional e me aborrecia com a dedicação suprema ao consumismo.

Após cinco dias de museus, parques, passeios, noitadas, breakfests, shows, restaurantes, bares, metrôs, boates, musicais...deixaríamos NY na manhã seguinte e na véspera, à noite, ele, ao arrumar as malas, nos comunicou que iria acordar cedo no dia seguinte para conhecer o Central Park.

Nós dissemos: "pelamordedeus, meu filho, nosso carro está reservado para as 10 da manhã, você ficou 5 dias em NY e não conheceu o Central Park, porquê?"

Detalhe: O Central Park, que ficava há dois quarteirões do nosso hotel, tem 340 hectares, mais de 500 mil árvores, 93 quilômetros de trilhas, o comprimento de 20 quarteirões e a largura de 6. Ele queria conhecer em 2 horas das 8 às 10 da manhã.
E foi.

Havíamos decidido alugar um carro em Nova Yorque e dirigir até Boston. Não teria graça ir de avião, de ônibus ou trem. Divertido seria ir dirigindo, conhecer a experiência de dirigir nos EUA, na região da Nova Inglaterra que é muito bonita e as estradas são boas. São 5 horas até Boston e estava decidido alugar o tal carro.
Meus amigos novaiorquinos foram muito gentis e reservaram o carro para nós. Se saíssemos de Nova Yorque as 10 da manhã, como previsto, com as paradas, chegaríamos em Boston lá para as 5 ou 6 da tarde.

Isso aconteceria com pessoas normais, não conosco.

Quando já eram 10 da manhã e ele não voltava, descemos para a rua com as nossas malas e as dele também. Com as bagagens na porta do hotel o esperamos em vão. Tive que ligar para a locadora e mudar a reserva do carro de 10 da manhã para o meio-dia.

Quando deu meio dia e ele também não apareceu, liguei novamente para a locadora para trocar de novo a reserva de meio dia para 1 da tarde. A mulher me disse que mudava pela última vez e que se eu não fosse buscar o carro a 1 da tarde ela iria cancelar e eu pagaria mais caro.

Ficamos mais 40 minutos na calçada em frente do hotel sem saber o que tinha acontecido com o terceiro infortunado. E se ele estivesse morto o que faríamos? E se ele tivesse sido assaltado, estuprado, preso?

Finalmente, quando já estava preparando o desespero, o sacana apareceu num táxi com 3 horas de atraso. E, calmamente, ainda foi buscar uma roupa na lavanderia em frente ao hotel. Depois queria abrir a mala, ali mesmo na rua, para guardar as roupas lavadas. Eu o impedi aos berros. Se ele abrisse aquela mala ali levaria mais 3 horas para organizar tudo. Por acaso tenho groselha nas veias?

Pegamos um táxi que nos levou a locadora. Aí começa o segundo problema. O carro era um Taurus lindo. Mas era um caro automático e nenhum dos três sabia dirigir um carro desses. Pedimos um outro normal com embreagem e marcha. Não tinham. Era automático ou nada.

Não podíamos dizer a mulher da loja que não sabíamos dirigir esse tipo de carro porque senão ela não alugaria. Ela iria pensar que éramos alienígenas venusianos. Quem no planeta Terra não sabia dirigir um carro automático, ela pensaria.

O que podíamos fazer? Ler o manual, claro. Guardamos as malas, entramos no Taurus, que parecia uma lancha de tão grande, e olhamos aquele painel que nunca tínhamos visto antes. Não tinha marcha nem embreagem. Peguei o manual para ler.

Agora que a loucura passou, sei que um carro automático é muito melhor para dirigir do que um manual. Mas isso eu sei agora. Minha situação ali era lamentável dentro de um carro que eu nunca vi, sem saber nem onde ligava, lendo um manual em inglês na porta de uma locadora na rua 44 com a 2ª avenida ao lado da ONU.

Para piorar ainda mais as coisas eis que aparece um policial atrás de mim e diz que se eu não sair imediatamente serei multado ou preso ou deportado, sei lá, porque não podia ficar parado ali que era área de segurança máxima das Nações Unidas. O policial, obviamente, não era um negão, mas um ruivo sardento de olho azul.

Tive que sair sem saber sequer como ligar o carro. Não sei como liguei e passei a única marcha que tem além de P e R que é D. P é park para quando se quer estacionar e substitui o freio de mão e R é a ré. D é para dirigir, É só botar no D e acelerar. Só que até para complicar nossa vida a marcha era aquelas de mão. Nos outros carros automáticos a marcha fica no lugar onde costuma ficar o freio de mão, mas no maldito Taurus ela ficava ao lado do volante.

Eu sabia que tinha que botar no D, mas como fazer isso se a alavanca estava dura e não encaixava. Depois de minutos de tensão com o guarda quase me rebocando e o homem da locadora reavaliando se devia mesmo me alugar o carro, é que eu descobri como passar a marcha. Só encaixa se você pisar no freio até o fim.

Encaixada a marcha D os próximos passos eram: entrar na 2ª avenida, pegar a rua 48, passar pela 1ª avenida em frente ao prédio da ONU, tomar a highway FDR e seguir até a Ponte Triborough e de lá para a rodovia 95 que me levaria até Boston. Esse trajeto até pegar a FDR highway revelou-se um tormento. A embreagem que não existia parecia me chamar como aqueles membros amputados que coçam. O freio era super-hiper-sensível e o primeiro toque que dei jogou tudo que estava nos bancos no chão e se não estivéssemos com o cinto de segurança nos jogaria no painel.

Ok, freio, eu te respeito! A 2ª avenida parecia ser uma experiência instransponível, mas conseguimos superá-la. Vencida essa etapa, despistado o guarda, atravessada a ONU, estávamos, sabe-se lá como, na FDR.

Mapas a postos. Meu amigo como co-piloto revelou-se um fracasso total. O mapa que tínhamos era de um guia vagabundo que dizia que era só seguir beirando o East River até a Ponte Triborough sem virar em lugar nenhum. Os demais carros não respeitavam o limite de 45 milhas e só eu estava respeitando não por medo de multa, mas por medo do carro. Iniciamos ali a colecionar fuck off e fuck you que nos eram ditos pelos motoristas que nos ultrapassavam. Contamos 9 até perdermos a conta.

A ponte foi vista à distância o que nos acalmou, pois a cada momento eu imaginava o inimaginável: perder-me em Manhattan. Subimos pela ponte e, ao longe, vimos 10 pedágios. 9 nos levariam até a rodovia 95 para Boston. Um dos pedágios não era o certo. Qual deles eu peguei? Eu bem sei do que eu sou capaz.

Peguei o único pedágio que eu não poderia em hipótese alguma pegar. Estar perdido ali era como um atestado de óbito para um estrangeiro, 3 atestados de óbitos.
O livro-filme Fogueira das Vaidades acontece por causa de um acidente ali naquele lugar, naquela ponte. O personagem de Tom Hanks se perde ali mesmo. Adoro esse livro, mas nunca pensei em reproduzir aquela cena na minha vida.

Percebi imediatamente que estava no pedágio errado, mas aí já era muito tarde, pois apareceram vários carros atrás do meu e não pude retornar.

Perguntei ao guarda do pedágio, num inglês corretíssimo e com toda calma: Mister, sei que estou no pedágio errado e não posso dar ré, mas há algum retorno para a rodovia 95?

Ele respondeu: Yeah!

Claro que perguntei: O senhor pode me dizer como eu pego esse retorno?

Ele respondeu: No!

Não pude acreditei naquilo. O homem dessa vez era um negão e não queria dizer onde era o retorno! Eu pensei que tinha entendido errado ou que ele tinha me entendido errado e tornei a insistir: Sorry Mister, but I am lost. I just want to know how can I take the detour to 95 road.

Meu inglês foi perfeitamente entendido por ele e o dele por mim. Ele respondeu que não me diria onde era o retorno porque se ele dissesse e se eu errasse o caminho ou me acidentasse eu o culparia e ele não poderia se comprometer.

A palavra bastard veio aos meus lábios, mas ficou por lá mesmo. A fila de carros aumentou atrás de mim e eu tive que arrancar com o Taurus para aquele terreno inóspito que era o Queens e o Bronx.

A highway é um dos piores ambientes para se perder. Prefira o Saara! Não tem acostamento nem nada. Só a pista, horas de pista, mil retornos e a gente sem saber qual pegar. Na locadora nos deram o mapa de Manhattan e da estrada para a Nova Inglaterra, mas não do Queens ou do Bronx. Não estava nos nossos planos nos perder ali.

Sem mapa, sem acostamento, sem celular, sem informação e a cada retorno que passava ter que ouvir o co-piloto e o navegador dizerem: “Será que o retorno não foi aquele que passou?”

Eu estava tentando manter a calma. Eu gritava: "Ninguém fale comigo!!!Ninguém fale comigo!!!!"

Reconheço esse momento de descontrole, mas ao mesmo tempo pensava que não fazia sentido algum uma batida, uma prisão, uma multa ou algo mais trágico na minha vida em pleno subúrbio de Nova Yorque. Minha vida não valia um filme trágico desses.

Lembrei do filme 3 Formas de Amar. Tem uma cena em que um ator diz: "Quando estamos perdidos numa viagem e procuramos o caminho certo, finalmente encontramos e aliviados retomamos a estrada correta, algum tempo depois a parte da viagem que mais dá gosto lembrar é a parte em que estávamos perdidos".

Depois de quase 1 hora naquele ermo, sem sinal de esperança, vi finalmente uma placa que soou como uma gota de água para um sedento ou um acarajé para um faminto (meus amigos preferem um McChicken).

AEROPORTO LA GUARDIA!!! Essa frase será usada na minha sepultura um dia como sinal de agradecimento aos deuses. Aeroporto La Guardia, um dia farei um poema com esse título. Estávamos de volta ao aeroporto, onde chegamos 5 dias antes.

Imaginei. No aeroporto deve haver um retorno, uma estrada para Boston. Entrei pela pista que levava ao aeroporto e passei quase meia hora tentando encontrar um americano no meio daquele inferno, mas só encontramos haitianos, paquistaneses, indus, chineses ou filipinos. Ninguém para nos informar como encontrar o retorno para a 95.

Não podíamos estacionar para pedir informações. Decidi por conta própria arriscar. Fui adiante e peguei outra highway. Ninguém garantia que era a estrada certa e eu arrisquei assim mesmo. Meus amigos deviam estar rezando, pois pararam de falar comigo.

Após quase 1 hora a Triborogh Bridge foi vista a distância e nós pegamos outro pedágio. Quase sem acreditar disse ao moço assim: Moço por favor, tenha pena desse pobre brasileiro perdido. Como eu faço para chegar na 95 até Boston?

Ele disse: Siga sempre. Você já está nela!. Um negão para redimir o outro.
Quase não acreditei. Quase 2 horas perdido e finalmente free and safe.

Devem ter sido as preces dos amigos. Ou as minhas imprecações. Claro, não esquecendo quem dirigia o Taurus. Essa sorte não teve o personagem de Tom Hanks em A Fogueira das Vaidades.

Nossa. Saí melhor do que Tom Hanks!

26.9.06

Havia um Carro de Boi


Costumava passar por aqui um carro-de-boi, o carro-de-boi das 5 horas. A poeira da estrada que ele levantava só assentava lá para o fim da tarde e o som, agora distante, das suas rodas, costumava ficar em meus ouvidos, noite adentro, como a luz das estrelas permaneciam dentro de meus olhos, mesmo fechados, muito mais tarde.

O pó daquela estrada que o carro-de-boi das 5 horas levantava, ainda hoje não larga a minha alma e a sua lembrança nunca foi tão viva. Antes que anoiteça totalmente dentro de mim, minha tia ainda pegaria o candeeiro de querosene de espantar muriçocas.

Antes que escureça, ela ainda precisaria expulsar as galinhas que ficaram sobre as camas e recolher um ou outro ovo. Antes que o crepúsculo se instale em minha alma, minha tia ainda faria requeijão quente e não me deixaria comer porque dava dor-de-barriga.

Minha tia fingia que não via que eu comia o requeijão ainda quente que ela fingia ter esquecido sobre a mesa da sala. Antes de anoitecer definitivamente, ela ainda prepararia as lingüiças que comeríamos no almoço do dia seguinte.

Minha tia não mora mais aqui e o carro-de-boi não existe mais. Ficaram a mesma poeira e a mesma estrada de cascalho. Sou estranho à beira do caminho onde passava um carro-de-boi e já passou há muito, das cinco horas. Aqui estão outras galinhas ciscando. O que terá acontecido com aquela galinha de pescoço pelado que senti pena e pedi à minha tia que não matasse ? Um dia ela foi importante e durante anos não a julguei digna de uma lembrança. Como saber o seu destino tornou-se tão dolorosamente importante.

Os olhos, órfãos de subjetividades, buscam recordar. Encontram o velho pneu ao lado do, agora enferrujado, rolo de arame farpado, o umbuzeiro centenário, empoeiradas telhas de argila encostadas à antiga cerca, a moenda desativada, a lagoa já seca...As montanhas que um dia teriam sido azuis aparecem cinzentas ao meu novo olhar. Nunca foram azuis, os olhos é que perderam a capacidade de enxergar, azuis, montanhas cinzentas.

Mas um novilho esquálido, de um bege sujo, toma luar sob uma árvore ressequida. Dói olhar. Uma árvore tão grande, e não faz parte da minha memória.

19.9.06

A Taça de Vinagre


Em 1882 deu-se o primeiro e único encontro entre dois homens memoráveis, dois homens tão diferentes entre si como a água e o vinho e ao mesmo tempo com afinidades que, paradoxalmente, os uniam, como a devoção pela beleza e pela literatura. Falo do escritor irlandês Oscar Wilde e do poeta americano Walt Whitman.


Oscar Wilde era, então, um jovem poeta que causava furor na Europa quando chegou pela primeira vez aos Estados Unidos para uma turnê de palestras. Seu esteticismo já era lendário no continente europeu, mas a América puritana parecia que seria hostil àquele dândi que alegava não estar à altura dos seus objetos de porcelana azul.

Engano. A América adorou Wilde e mimou-o como ele estava acostumado. Na Filadélfia, ele pediu para conhecer o grande Walt Whitman, poeta já velho e famoso, mas que vivia em uma cabana simples.

A elegância refinada do jovem Oscar, com seu sobretudo de veludo verde, contrastava com o barbudo Walt com sua blusa rústica feita pela cunhada. Wilde contou para Whitman que sua mãe lia para ele, na infância, os belos poemas do livro Folhas de Relva, do velho americano.

Whitman, lisonjeado, ofereceu ao visitante uma garrafa de um vinho vagabundo, feito de sabugo de milho. O estóico e o esteta desfrutaram daquele improvável momento etílico enquanto conversaram por horas. Separaram-se, emocionados.

Tempos depois, já em Londres, o elegante Oscar Wilde contou para amigos aquele encontro. Os colegas, conhecendo bem seu gosto refinado e suas exigências para vinhos comentaram como devia ter sido intragável, para ele, beber aquele vinho de sabugo.

Wilde respondeu: “Se aquele homem tivesse me oferecido vinagre, eu beberia com mais prazer do que já bebi o mais fino champanhe”

Lembrei desse encontro de dois dos meus escritores favoritos e, longe de mim me comparar a qualquer um deles, constatei como essa passagem tem uma irônica analogia com a forma como a política se apresentou na minha vida.

Sempre admirei a coragem de Wilde, que dizia: “O público é maravilhosamente tolerante. Perdoa tudo, menos o gênio”; e a sobriedade de Whitman. Por algum tempo, como Oscar Wilde, também eu acreditei profundamente em um homem simples. Um homem de barba, como Whitman, que vinha do povo, como ele, que tinha os valores do povo e que saudava o homem rústico, o homem simples: “Não me fechem as portas, orgulhosas bibliotecas, / Pois justamente o que estava faltando em tuas prateleiras apinhadas, / É o que venho trazer”.

O homem simples em quem um dia eu acreditei parecia trazer, na própria vida, o conteúdo alternativo das bibliotecas oficiais cujas portas lhe tinham sido fechadas. Esse homem simples, quase analfabeto, sentira na pele o sofrimento da fome, da falta de oportunidades, da pobreza. Esse homem não faria alianças sujas, redimiria toda sorte de injustiças, não trairia a confiança depositada em que sonhou com uma estúpida espécie de redenção possível. Era a esperança contra o medo.

Há anos-luz do talento de Wilde, também vivi em meio aos livros e tive educação e certo conforto. Como Wilde, fui embalado por anos pela imagem de um homem simples, de barba. Como Wilde, metaforicamente, bebi da taça de vinagre que um homem simples me ofereceu.

As semelhanças terminam aqui. A minha história não tem um final feliz.

14.9.06

Miame, Uma Pocilga ao Sol


Logo no primeiro dia senti que alguma coisa estava muito errada naquela viagem. No último dia os envolvidos já queriam se matar.

A primeira etapa consistiu no desembarquei com meus dois, até então, amigos no aeroporto de Miame. Eu já sabia que haveria um espaço de 13 horas entre a chegada em Miame e a hora de deixar a cidade rumo a Washington às 6 da tarde.

A operadora no Brasil não conseguiu um vôo mais cedo. Ainda teríamos que pegar uma conexão de Washington para Nova Orleans 9 da noite. Assim, tive a expectativa de conseguir no aeroporto de Miame um vôo mais cedo para Washington e de lá outro mais cedo para Nova Orleans. Não queria ficar 13 horas em Miame.

Às 5 da matina estávamos no balcão da United perguntando a um negão gente boa se haveria chance de conseguir esse vôo para Washington mais cedo. Meus amigos preferiam ficar em Miame. Pedimos sugestão ao negão que olhou para gente e disse:

"Não fiquem em Miame! Miame é horrível, não tem nada aqui que preste! Vocês vão ser assaltados! Miame Beach e South Beach são pocilgas. Se vocês quiserem, eu boto vocês num vôo daqui a meia hora para Washington. Lá no aeroporto vocês podem pegar um shuttle que faz um passeio com guia ótimo, leva vocês à Casa Branca, ao cemitério de Arlington, ao Congresso, Capitólio, Museu Smithsoniano, aos monumentos a Washington, Lincoln e Jefferson etc. Depois o shutlle leva vocês de volta ao aeroporto a tempo de pegarem o vôo para Nova Orleans."

Eu tinha a maior vontade de conhecer Washington. Insisti com meus amigos para irmos, afinal, se Miame tem praia, Salvador também tem e nós não estávamos viajando por causa de praia estávamos? Quem em sã consciência trocaria Washington por Miame por causa da praia? Meus dois amigos insitiram veementemente. Miame ou nada. Fui voto vencido.

O negão assistindo ao debate pareceu inconsolável. Disse que no mês seguinte ele deixava Miame para o Hawai. Desejou sorte e que nós não fôssemos assaltados. Descobrimos, sonolentos, o guarda-volumes do aeroporto, guardamos nossas malas, pegamos um ônibus e fomos para South Beach. No caminho vimos como essa cidade é feia. Miame não tem graça nenhuma a não ser na orla.

Quase 1 hora depois saltamos do ônibus, tomamos outro, saltamos no começo de South Beach às 7 da manhã. Andamos durante 3 horas pela beira da praia, pela areia da praia, pela rua e pela calçada e não encontramos nada! Quase deserta. Pouquíssimas pessoas na praia e na rua, as loja fechadas, os restaurantes fechados, poucos carros e nada de movimento.

Só lá para as 10:00 horas conseguimos tomar um caríssimo café da manhã. Mais 1 hora andando pela praia num sol escaldante até o fim de South Beach. O fim mesmo! Acabou a praia, acabou a cidade, acabou tudo, não tinha mais nada. Só víamos um descampado, um terrenão baldio enorme deserto e uma espécie de camping abandonado.

Paramos para descansar, nem tomar um banho num chuveirinho que tinha na praia a gente podia, porque deixamos os shorts nas malas no aeroporto. Estávamos exaustos e morrendo de calor e eu amaldiçoando os amigos a cada minuto. Imaginava que estávamos ali naquele sufoco quando podíamos estar no Museu Smithsonian em Washington no ar condicionado ou no cemitério de Arlington onde eu poderia tirar fotos para minha coleção de fotos em cemitérios famosos e nem tanto.

Descansados, atravessamos um descampado e um estacionamento abandonado, saindo numa rua deserta. Pegamos um táxi arredio, perdido naquele ermo. Foi nossa salvação. O motorista, um negão haitiano nos explicou o que estava acontecendo: "Miame só acorda depois das 11 horas da manhã!"

Esses negões estão sendo ótimos para nós, pensei. Então foi isso. O povo nessa cidade ferve até de madrugada e só acorda quase meio dia. O homem nos levou até Miame Beach para, digamos, "apreciar o movimento". Senti-me um jeca total quando meus amigos pediram ao motorista para parar em frente à casa de Versacce para eles tirarem uma foto ali. Onde tombou Versacce, me disse um deles. Eu preferi não contrariar e esperar no ar condicionado do táxi enquanto eles se enquadravam nas fotos em frente à mansão em um estilo que não consegui identificar.

Finalmente vida! Finalmente Miame Beach, o povo do bem patinando e se mostrando pelos calçadões, gente bonita e nem tanto. Nada especial, nada extraordinário, mas como vínhamos daquela buraqueira de South Beach foi o que se pode arranjar. Sorvete e descanso do calor e da caminhada. Vamos apreciar o movimento.

Mas não dá para ficar apreciando movimento até 6 da tarde quando teríamos que voltar ao aeroporto para pegar o bendito vôo. Bem, já que estamos nessa zorra dessa cidade por causa dessa zorra dessa praia vamos aproveitar e tomar um banho de mar né?
Quem disse que consegui consenso?

Um dos amigos que insistiram tanto para ficar em Miame por causa do mar, não queria tomar banho por dois motivos: 1º motivo, ele já havia se banhado no Atlântico e seu sonho era tomar banho no Pacífico! 2º motivo, ele não tinha shorts. Eu não podia discutir o primeiro motivo sob pena de perder completamente o resto de minha sanidade mental, mas o segundo dava para resolver. Compraríamos shorts em uma loja, loja não faltava! Convenci um, não o outro que queria o Pacífico.

Argumentei até os limites da minha paciência que havíamos andado mais de 3 horas na beira da praia, sentimos como aquela cidade é quente e o que ele iria fazer quando nos visse, alegremente, na água do mar? Ou ele achava que iríamos perder a oportunidade de tomar um banho, mesmo que fosse um banho no Atlântico?

Ele contra argumentava que não teríamos como tirar a água salgada do corpo antes de ir ao aeroporto. Falei que havia chuveirinhos nas praias e nós encontraríamos um, não era possível que não houvesse um chuveirinho de água doce em plena Miame Beach. Ele, irredutível, garantiu que não iria tomar banho nem comprar shorts.

Eu disse: "Olha seu sacana, se você chegar na beira da praia e resolver entrar na água não vai poder voltar aqui e comprar shorts porque temos pouco tempo."

Como eu previra, o sacana mal botou os pés na areia lotada de gente bonita resolveu que queria entrar no mar. Quase explodi! Disse que ele não iria voltar porque a loja era longe e ele agora iria ficar ali vendo a gente se divertir. A cara dele deu pena e acabei sugerindo que ele o nosso amigo que comprou o short, o dividissem. Foi um processo insano.

Meu amigo e eu entramos na água de shorts, meu amigo tirou o dele e ficou de cueca dentro do mar, eu trouxe o short dele para o outro vertir, tive que fazer barreirinha numa praia não tão deserta assim para ele tirar a calça jeans e vestir o short do que estava no mar. Depois desse longo processo resolvemos dar uma volta pela areia da praia e quando notamos estávamos há quase 1 hora andando e nosso amigo, uma das pessoas mais brancas que conheço, tinha sido esquecido na água do mar sob um sol escaldante. Quando lembramos dele e voltamos não conseguíamos distinguí-lo de um pimentão cozido no forno, pois ele, inibido e de cueca, não quis sair da água para ficar sob um guarda sol. Mas nós não tínhamos mesmo guarda sol...

Havíamos chegado àquela praia perto das 2 da tarde e estipulamos ficar ali só até as 4 horas pois ainda tínhamos que nos lavar, tirar as roupas molhadas, vestir nossas roupas secas e pegar ônibus para o aeroporto. O capítulo do chuveirinho foi inteiro uma novela. Por pouco não fomos presos por atentado ao pudor, pois tínhamos que nos lavar, tirar os shorts, vestir as calças e camisas, calçar os tênis ali mesmo e secar no sol pois nem toalhas tinhamos. As roupas molhadas foram guardadas nas sacolas plásticas da loja.

Pegamos um ônibus. Errado. Não nos levou ao aeroporto.

Quando descobri o engano perguntei ao motorista qual o ônibus certo. Ele nos deixou saltar e indicou outro ponto onde pegaríamos o ônibus correto. Novamente um negão salvou nossa pele.

Já eram mais de 4 da tarde. O motorista me disse que devíamos pegar o ônibus com a letra J. Ou seria letra G? Ele falou numa mistura de inglês e espanhol. A ansiedade agora era saber qual era o ônibus. G ou J? Quase pegamos de novo o ônibus errado, mas fomos demovidos por uma negona jamaicana ou panamenha, que estava no ponto e que, praticamente, me puxou pela mochila de cima do segundo degrau. Agora sabíamos que era letra G. Após esse vexame, esperamos quase uma hora. O ônibus certo passou mas nós estávamos com tanto sono que dormimos. Os três!

A negona dominicana ou salvadorenha não estava mais ali para nos salvar. Perdemos o ônibus pois quando acordamos ele estava indo embora. Esperamos mais uma eternidade até outro ônibus. Meus amigos queriam ir de táxi mas eu disse que sairia muito caro, afinal foi mais de uma hora até o aeroporto.

Finalmente, o ônibus certo de novo. Assim que entrei perguntei à motorista, uma negona de perucão e dedos cheios de anéis: “Miss, esse ônibus demora meia hora até o aeroporto não é?"

Ela respondeu, seca: "Não! Uma hora"

Olhei o relógio e vi que era exatamente 5 da tarde e nós ainda tínhamos que pegar as malas no guarda volumes e fazer o check in. Tínhamos exatamente 1 hora.

A mulher do perucão e brincos de ouro completou para o meu desespero: " Isso num horário normal, mas estamos no horário do rush".

Foi então que me lembrei que nos Estados Unidos o povo sai do trabalho as 5:00 horas. Amaldiçoei-me por não ter aceitado a idéia do táxi. Amaldiçoei meus amigos por quererem ficar em Miame em vez de Washington. E estávamos com uma fome! Nossa única comida do dia foi o café da manhã às 10 horas e um sorvete ao meio dia. Sem almoço, com sono, salgados, suados, com areia em algumas partes, um pouco sujos, cansados e estressadíssimos.

Aquele era apenas o primeiro dia das minhas férias.

Rush! O primeiro rush verdadeiro da minha vida. Talvez o último. Tensão! Faltava meia hora para chegar ao aeroporto e ainda estávamos presos no engarrafamento há uma milha de distância.

Parecia que perderíamos o vôo. Era o último vôo do dia para Washington. Outro só no dia seguinte. Não havia mais vôos para Nova Orleans. Teríamos que dormir em Miame. Não conseguia pensar em horror maior.

A negona motorista com unhas imensas pintadas de lilás parecia imune ao meu sofrimento. Meus amigos traziam a angústia estampada no rosto. O trânsito parecia morto. O ônibus não andava nem 1 metro por hora. As horas não paravam de andar. Não adiantava mais pegar um táxi porque o engarrafamento era democrático.

Algum anjo negro deve ter feito algum milagre nesses minutos pois o engarrafamento, subitamente, desapareceu. A negona motorista de lentes de contato verdes acelerou. Talvez devido às 2 americanas que também estavam no ônibus e iriam pegar, coincidentemente, o mesmo vôo que a gente.

Como toda tragédia que se preza, essa não acabou assim tão fácil. O que aconteceu ali não sucedeu comigo em qualquer outro lugar em minha vida e aconteceu exatamente em Miame: logo após o engarrafamento desaparecer o ônibus quebrou!

Poderia escrever os e-mails dos colegas que estavam comigo no ônibus para qualquer dúvida ser esclarecida, mas, infelizmente, os dois não dirigem mais a palavra a mim, nem a eles mesmos, diga-se de passagem. Também não tenho o endereço das duas americanas e nem o nome da motorista black power.

Parece mentira. Em minha vida inteira nenhum ônibus que peguei nunca havia quebrado. Em lugar algum do mundo em que peguei ônibus o desgraçado quebrou (exceto o ônibus que rolou uma ribanceira comigo dentro em Goiás matando um passageiro e ferindo outros em 1987).

Pois o desgraçado do ônibus quebrou em Miame com a gente dentro e faltando 20 minutos para o vôo, meia milha para o aeroporto e após o maldito engarrafamento. As meninas americanas e nós três cercamos a negona de colares de pérolas falsas que sacou um celular e ligou para a central.

Ela nos disse: "I am doing my best!"

Parecia que ela estava chocada, pois acredito também ela nunca vira um ônibus quebrar em pleno trânsito. Só que o "best" dela não estava funcionando. Não ia dar tempo de esperar o ônibus reserva.A gente começou a se deseperar. A negona suada sentiu a nossa dor e disse: "Ok, I will try!"

O ônibus foi levado aos solavancos. A gente tinha já perdido toda esperança. O aeroporto apareceu à nossa frente mas ainda estava longe. A negona, irritada, chegou a dirigir quase 300 metros aos trancos quando o ônibus quebrou de vez. Ela disse algo como: “Corram seus bastardos!”

A gente nem pestanejou. Saltamos do ônibus no meio do trânsito.Corremos feito loucos, nós três e as duas meninas. Só que elas não precisavam pegar as malas no guarda volumes e nós sim. Mas onde ficava o maldito guarda volumes? O aeroporto era imenso e havia 3 guarda volumes.

Não tínhamos tempo, nos dividimos e quando um de nós achou o guarda volumes certo gritou para os outros dois. Faltavam 3 minutos e a moça do guarda volumes parecia ter tomado lexotan.

Foi o tempo de pegar as malas e subir o elevador. Por sorte o balcão da United estava exatamente à nossa frente, mas ainda tínhamos que fazer o check in. Estávamos cansados, famintos, suados, salgados, sujos e fedendo. As roupas grudadas no corpo, suor frio de medo misturado com o suor do calor terrível de Miame. Daria qualquer coisa por uma coca cola gelada com um Big Mac.

Até hoje não sei como mas conseguimos pegar o vôo. Fomos os últimos a entrar no avião e durante horas eu não acreditava que aquilo tinha acontecido comigo. Tive uma crise de riso histérico no avião. Meus amigos se assustaram e pediram que eu me acalmasse. Quanto mais eles se aborreciam e se envergonhavam, mais eu gargalhava para desabafar e irritá-los ainda mais, pois tudo começou com a insistência deles em excluir Washington das nossas vidas. Eles procuravam cadeiras vazias no avião para se afastar de mim. Eu sentia o estômago doendo de fome e também pelo riso histérico.

Foi então que uma aeromoça aproximou-se de mim preocupada e perguntou o que é que eu estava sentindo, eu respondi: Fome!

Ela me trouxe um maldito pacote de amendoins e um copo de coca cola. O vôo não servia jantar e a aeromoça era branca.

2.9.06

A Interatividade sem Pecado Abaixo do Equador


Desmond Morris, renomado antropólogo britânico e consultor científico da BBC inglesa, coordenador da série de documentários O Animal Humano, no seu mais famoso livro O Macaco Nu, analisa o comportamento interativo humano sob uma ótica digamos, geográfico-climática.

Claro que existem vários outros estudos sobre a antropologia especificamente sub-equatorial que nos resultou homens tão cordiais, já disse Sérgio Buarque de Holanda em Visões do Paraíso e Raízes do Brasil, estudou Gilberto Freire em Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mucambos e descreveu Caio Prado Jr. em Formação do Brasil Contemporâneo; do calor tropical onde se cozinhou nossa única sopa racial e onde tudo passa da construção à ruína sem passar pelo apogeu, como definiu Levi Strauss em Tristes Tópicos.

Mas Desmond Morris acredita que entre a série de fatores envolvidos nessa compulsão interativa, um fundamental é o clima quente dos trópicos. Para ele, em países abaixo do equador, o calor faz com que as pessoas desenvolvam uma cultura meio apática, menos introspectiva, algo calorosa, afetuosa, displicente e mais interativa. Uma das razões para isso seria porque o homem tropical, diferente do de clima temperado, não se preocupa com o período do ano em que faz frio ou neva e ele não precisa, nos meses de calor, economizar para pagar calefação e estocar alimentos. Por aqui não se economiza porque, proporcionalmente, tudo tem o ano inteiro e ninguém morre de frio.

Assim tudo é relativamente abundante e o homem tropical reflete essa abundância natural com abundância de gestos, de palavras, de ritos, de danças, de toques. Aqui todo mundo dá opinião na vida dos outros, se importa ou finge se importar com tudo que não lhe diz respeito. É preciso participar. Na aparência, é claro, porque não se comprometem de fato.

É comum, por exemplo, no trânsito, alguém buzinar, dar sinal de luz e fazer todo tipo de gesto apenas para avisar ao motorista do carro ao lado que a porta no veículo não está fechada ou o farol está acesso. Esse falso cooperativismo não é visto em situações realmente importantes.

Ou quando se entra numa contramão e nunca falta quem avise que é contramão. Creio que 99% das pessoas que entram numa contramão percebem logo o erro, mas sempre tem alguém que avisa que você está na contramão. Há um prazer nesse alerta e os autores não estão conscientes. É apenas um sintoma da interatividade.

Outro hábito comum é quando um flanelinha, a pretexto de ajudar a estacionar o carro, fica batendo na chaparia. Peço sempre que parem, não gosto que batam no meu carro, mas logo me arrependo, pois esses interativos se aborrecem facilmente quando alguém aparenta ser mau humorado e os carros costumam sofrer com isso. Sem contar quando há uma contenda quando dois deles disputam quem guardou seu carro. E você sabe que não foi nenhum dos dois.

O fato de Salvador ser uma cidade costeira e de litoral belíssimo faz com que as pessoas percam a capacidade e o espaço do ensimesmamento, da introspecção. Qualquer tristeza momentânea, o horizonte e o mar estão ali para estabelecer uma dimensão infinita e qualquer abalo emocional sofre revés ante a imensidão. E nada é refletido ou analisado e sim sufocado pela paisagem exuberante.

Não falo do sagrado hábito da contemplação. A exuberância sufoca também contemplação. Quando alguém contempla um determinado objeto, é preciso de tempo e silêncio, como num mantra visual, para que nós próprios nos percebamos novos diante do objeto contemplado. Essa observação cuidadosa e muda mostra muito menos do objeto contemplado e muito mais de nós mesmos do que imaginamos. E, muitas vezes, mostra mais do que gostaríamos de ver. Por isso a fuga é freqüente.

Em lugares onde a frieza do clima, da geografia, ou da arquitetura dificultam a interação, as pessoas costumam confiar mais nos amigos verdadeiros que costumam ser poucos, e escolhidos, para questões importantes. As pessoas estabelecem vínculos mais sólidos para confiar e atravessar reveses emocionais ou para problemas mais sérios.

Em cidades como Salvador facilmente se consegue companhia para uma farra, festa, folia, mas dificilmente se consegue um apoio moral ou emocional. A agenda de endereços e telefones, repletas de contatos, não serve para outra coisa que não para o lúdico.

A amabilidade folclórica do baiano é realmente superficial como são superficiais suas amizades. É comum duas pessoas se encontrarem na rua e se abraçarem excessivamente afetuosas para logo se afastarem dizendo: me liga para a gente marcar alguma coisa. Não há a honestidade de dizer simplesmente: Até qualquer dia, mesmo porque ambos sabem que não vão ligar coisíssima nenhuma e às vezes nem têm os números dos telefones um do outro.

Outra mania baiana é a mania de desmarcar. É surpreendente a facilidade com que se desmarca aqui. As pessoas combinam coisas: cinema, teatro, qualquer coisa e se, de repente, pintar algo melhor, simplesmente ligam dizendo: Estou desmarcando ou então Não deu!. Isso quando ligam. Na maioria das vezes simplesmente nem aparecem. E fica por isso mesmo porque quem sofre a "desmarcação" também é craque em "desmarcar".

Li na Folha de São Paulo um texto ótimo com o título: Modos brasileiros de escapar do não, de Michael Kepp, que serve como uma luva para o baiano. Kepp diz: "Universalmente as pessoas se escondem atrás de expressões comprometedoras para evitar assumir a responsabilidade pelos atos e opiniões e fugir de confrontos embaraçosos. Se essa "esquiva retórica" fosse uma disciplina acadêmica os brasileiros seriam PhDs nela."

"Expressões propositalmente vagas como: ‘Pode ser’, ‘vamos ver’, ‘se der’ para desviar da palavra não. E frases descompromissadas como ‘eu te ligo’, ‘a gente se vê’, ‘apareça lá em casa’, são escapadas e não promessas de novo encontro."

“O álibe para não cumprir um compromisso é : ‘Houve um desencontro’
" ’Pô você sumiu' não deve ser confundido com ‘Que saudade’ "
" ’Sumiu!!??’ é uma reação sem graça que transfere o peso do sumiço para o outro."

E o pior é que a pessoa supostamente sumida tem endereço e telefone conhecidos pelo outro. Nos EUA as pessoas dizem, com a mais saudável honestidade: "Meu nome e endereço estão na lista telefônica". Quem quer encontrar o outro sabe como fazer e se não faz é porque não quer, não tem essa hipocrisia.

" ’Fico te devendo’: Qualquer trato não cumprido soa como um acordo amistoso. ‘Não deu’ antecipa um ‘fica para a próxima’.”
"Os americanos são mais objetivos ou mais grosseiros? Se dizem: ‘Desculpe, não vou poder porque estou muito ocupado’ é um golpe no ego, mas enrola menos do que ‘eu te ligo’ ou ‘a gente combina’ ”
“As expressões mais perigosas são as que começam com: ‘é o seguinte’...prosseguem com ‘não deu’ e acaba com ‘fica para a próxima’."

O escritor Umberto Eco, comentou na Revista Época: " Se você é convidado [nos EUA] para algum compromisso e responde que está ocupado (Sorry, I'm busy), a pessoa que o convidou chega a pedir desculpas e não lhe pergunta mais nada. Mas se você diz que sim e depois não vai, a coisa é inconcebível" "Entre nós [diz citando os italianos mas perfeitamente aplicável aos brasileiros e baianos], se diz:' me ligue para a gente se encontrar', ou então: 'quando passar por aqui venha jantar em casa', e não temos nenhuma intenção de rever nosso interlocutor".

Não sei se fiz uma colcha de retalhos ou se desenvolvi alguma idéia coerente com argumentos discutíveis. Para quem achou que passei a adorar os EUA e odiar a Bahia deixo essa dúvida no ar como uma espécie de mistério...Não resisti.