1.12.11

Por que não deixam os ateus em paz?

Outro dia, almoçando com minha amiga Conceição Moraes e outra colega, comentei que Conceição reza a Ave Maria todos os dias. Conceição então apontou para mim e disse: “Ele é ateu! Tenho pena desses ateus!”.

Respondi: “Também tenho. Seria uma vida tão mais fácil se eu acreditasse em Deus”.

O mais interessante foi o choque da outra colega. Em seu rosto uma miríade de expressões: incredulidade, como se eu fosse uma aberração; pena: como se eu precisasse de socorro; incômodo: por respirar o mesmo ar que eu. Tive vontade de dizer-lhe: “Ela disse que sou ateu e não que sou pedófilo”.

Eu já deveria estar acostumado. Poucas classes são mais mal vistas do que a dos ateus. Pesquisa do Gallup nos EUA mostrou que entre 95% e 80% dos americanos votariam em uma mulher, um católico, um judeu, um negro, um mórmon ou um homossexual para presidente, mas menos de 50% votariam em um ateu. No Brasil, 84% votariam em um negro para presidente, 57% dariam o voto a uma mulher, 32% votariam em um homossexual, mas apenas 13% votariam em um ateu. Entre as minorias (racial, sexual, de gênero...), a mais rejeitada é a anti-religiosa.

A historiadora Eliane Moura Silva, especialista em religião, analisa: "O brasileiro ainda entende o ateu como alguém sem caráter, sem ética, sem moral. É um entendimento que se espalha de modo homogêneo por todas as classes sociais.”

A jornalista Eliane Brum escreveu o artigo: “A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico” em que descreve o diálogo com um taxista. O homem afirmara ser evangélico e perguntou sua religião. Quando a jornalista disse que era ateia o motorista saiu com um

- Deus me livre!

Eliane retrucou – Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha. Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?

Eliane reflete sobre como a vida dos ateus é dura num Brasil cada vez mais evangélico pentecostal. “Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais são constituídas no modo capitalista. Nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel” obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações. O templo é um shopping da fé”.

A Igreja Católica, atualmente mais tolerante com os ateus do que as pentecostais, tem também uma história de forte mercantilismo e utiliza movimentos carismáticos para reduzir a sangria de fiéis.

“Não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso não tem qualquer apelo. Tenho muitos amigos ateus que me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil.”

No site de uma igreja a jornalista encontra um aviso: “O perigo da tolerância” e afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”.

“A liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.”, concluiu.

Já na Folha de São Paulo do dia 24/11 deparo-me com o artigo do jurista Ives Gandra Martins intitulado: “Fundamentalismo ateu”. Quase ri do inevitável oximoro, mas não havia nenhuma poesia na contradição dos termos como no Claro Enigma de Drummond.

Ives Gandra diz que sustentou, pela CNBB, no STF, a inconstitucionalidade da destruição de embriões para fins de pesquisa. E recorre a um silogismo (“pois são seres humanos, já que a vida começa na concepção”).

Esse é um tipo de argumento fraudulento. O pois indicaria que a opinião do jurista é suficiente para servir de premissa. O pois seria apenas uma “conclusão lógica do argumento e o argumento é a própria opinião”. E continua “já que a vida começa na concepção”.

Isto é que é fundamentalismo! Se a vida começa na concepção, resta saber se aquela vida é um ser humano. Aliás, há vida em um pedaço de carne que se tira numa cirurgia. Um amontoado de células é vida, mesmo que seja num tumor. A questão é mais profunda. Esta vida é protegida como um ser humano é? Deve-se dar a um embrião de dez dias o mesmo tratamento de um ser humano? E a se crer nesse argumento, há milhões de “seres vivos” congelados em laboratórios de fertilização, embriões fertilizados. Essa “gente” não tem direitos não?

Ives Gandra, ao sustentar que a Igreja é a detentora da verdade, esquece dos milhõesque morreram por desafiar a verdade da Igreja Católica.

Seria cômico se não fosse perigoso ler um jurista dizer que há uma “guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã e cumprem seu papel, nas mais variadas atividades, buscando a construção de um mundo melhor”.

Se dependêssemos do mundo melhor dos religiosos ainda estaríamos com o Sol girando em torno da Terra e queimando mulheres e cientistas nas fogueiras da inquisição.

Para Gandra, ateus só não são iguais aos fundamentalistas do Oriente Médio porque não há terroristas entre eles. Puxa, uma diferença realmente pequena....Uns saem matando pessoas e explodindo prédios e jornais que publicam caricaturas de Maomé enquanto os ateus não explodem ninguém, não queimam ninguém. Não querem convencer ninguém a nada. Só querem que os deixem em paz.

A capacidade de influenciar pessoas é tão desproporcional entre religiosos e os poucos ateus que surpreende que possamos incomodar tanto essas sumidades. Não fosse falta de humildade seria por arrogância ou pura falta de bom humor. Recentemente, a Benetton foi obrigada a suspender parte da sua sempre polêmica campanha publicitária em que mostrou líderes mundiais trocando selinhos. Sob o sugestivo nome de UNHATE (Não ao ódio),sintomaticamente, o único cartaz suspenso foi o que do papa beijando um imã.

Se eles se beijassem mais talvez se esquecessem de nós.

26.11.11

Os Amores Imaginários

Assisti a Amores Imaginários no ano passado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Somente agora ele estreia em Salvador. Antes tarde do que nunca, pois o filme é uma pequena joia. Você não deve deixar passar a oportunidade de conferir o trabalho do diretor canadense Xavier Dolan, que também atua no filme, premiado em Cannes e indicado ao Cesar (o Oscar francês) como filme estrangeiro.

Xavier Dolan não é apenas uma carinha bonita no cinema (se bem que ele tem uma bela estampa). O moço já dirigira o ousado Eu Matei Minha Mãe, sua estreia como diretor de um filme que ele também roteirizou com apenas 16 anos. Um fenômeno precoce.

O rapaz (hoje ele tem 22 anos) demonstra grande ousadia ao pegar um tema extremamente batido como o do triângulo amoroso e conseguir extrair dele algum frescor.

A delicadeza com que o jovem diretor trata o tema é talvez reflexo da sua juventude e da sua sexualidade (Dolan é gay). Muitos jovens passam pelos mesmos dissabores que os personagens atravessam nos dois filmes.

Aqui, o triângulo amoroso tem como foco uma relação platônica entre a descolada Marie e seu melhor amigo gay (papel do diretor Dolan) pelo angelical Nicolas que, pelo jeito, quer mesmo é só a amizade enquanto os dois amigos se engalfinham pelo belo querubim de cachinhos dourados que flerta com os dois sem garantir o principal.

Vemos que a relação dos inseparáveis amigos passa a sofrer um duro revés. Será que vão superar o angelical (ou diabólico) Nicolas?

O filme já seria interessante se mostrasse apenas essa história, mas ele fica ainda melhor e ganha força quando insere depoimentos de outras pessoas que contam suas tragédias amorosas particulares. Há depoimentos bizarros, há sentimentos em borbotões, há dor legítima, há loucuras por amor e fracassos românticos. E ainda, como cereja do bolo, belas cenas em câmara lenta ao som de Bang Bang, sucesso original de Nancy Sinatra (da trilha de Kill Bill), mas aqui interpretada em italiano pela cantora Dalida, cult como um Tarantino, kitsch como um Almodóvar.

Desculpem os críticos amargos e cheios de fel, mas só alguém muito azedo para não se deixar deslumbrar por cada cena deste filme delicado. Por que se preocupam tanto em apontar uma suposta pretensão do jovem diretor e se esquecem dos diálogos bem elaborados e das interpretações cheias de nuances? Dolan, além de tudo, sabe dirigir bem seus atores.

Um filme, como não poderia deixar de ser, repleto de exageros, exagero de dor, de amor, de amizades e rupturas. A fotografia, a cenografia, a trilha sonora, o figurino e a direção de arte mostram esse exagero estético com um cenário belíssimo, repleto de objetos vintage. Referências explícitas aos ícones James Dean e Audray Hepburn dão um toque ainda mais camp.

O que muitos críticos condenam no filme é, em minha opinião, exatamente o que ele tem de melhor. Dolan assume sua estética gay (se é que se pode classificar assim) e exagera mesmo. Afinal, o filme trata dos exageros. Críticos dizem que ele abusa de um virtuosismo redundante e se esquecem de que o filme trata exatamente da repetição de erros amorosos, das reiteradas armadilhas em que caímos quando nos apaixonamos, e como nos colocamos sempre nas mesmas arapucas. E por que se malha tanto Dolan por abusar das câmaras lentas quando para Wong Kar Wai (meu diretor favorito) só há elogios para as mesmas tomadas ao som de baladas tão melosas (e belas) quanto? Dá vontade de, ao sair do cinema, comprar correndo a trilha sonora.

Um crítico do jornal A Tarde assina um atestado de fel nas entranhas na sua coluna do jornal em que comenta o filme. Praticamente não há uma linha que não seja dedicada a falar mal da obra. Desde a primeira linha diz: “Na pressa para apontar novos talentos, a imprensa celebrou o jovem diretor canadense Xavier Dolan, que, aos 20 anos, cometeu Eu Matei Minha Mãe (2009), assinando o roteiro, a direção e trabalhando como ator e coprodutor. A obra tem momentos de apelo dramático, mas sucumbe diante de uma superficialidade mal disfarçada”.

Ora, para um filme (Eu Matei Minha Mãe) conquistar três prêmios na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, o Prêmio Internacional do Júri na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o Prêmio da crítica no Palm Springs Internacional Film Festival e ainda representar o seu país no Oscar com apenas 20 anos de idade e já no primeiro filme e o crítico dizer que o diretor “cometeu” o filme....Esse crítico parece que sabe mais do que o pessoal de Cannes e do Oscar.

O amargo crítico continua: “...a câmera de Dolan se dedica ao onanismo pseudo esteta, que derrama influências as mais diversas, desde o viés romântico do italiano Bernardo Bertolucci até a arte minimalista do cineasta Wong Kar-Wai (de Hong Kong), passando por idealizações que lembram, por exemplo, Jules e Jim (1962), do francês François Truffaut”. Então eu pergunto: Todas essas são influências ótimas, de grandes diretores e que se o filme traz referências a esses mestres, melhor do que se derramar por porcarias que andam por aí nos circuitões. Mas “onanismo pseudo esteta” é de lascar!!!! onde esse homem foi encontrar isso?!!!

O crítico chama de perfumaria as cenas que norteiam a narrativa e afirma que o diretor as forja sem qualquer efeito prático senão o de provocar algum prazer visual. Quero crer que o crítico prefere cenas em que o visual cause desprazer. Ora, as cenas a que ele se refere são retratos da vida de personagens que têm, sim, uma existência afetada e que vivem em festas, mas essa é a vida deles. As cenas que o crítico reclama de não terem efeito prático são exatamente as cenas que mostram a circularidade dessa vida. Se fosse assim, cenas de grande filmes que exibem momentos de “pouco efeito prático”, deveriam ser abolidas, mesmo que integrem organicamente o próprio filme como, só para citar um, o clássico O Deserto dos Tártaros, em que acompanhamos um personagem durante longas tomadas em que praticamente nada “de efeito prático” acontece e que nos faz, como ele, personagem, esperar que algo aconteça e quebre a sua monotonia pela espera permanente de algo que não acontece nunca.

Esse crítico de A Tarde estava mesmo num dia ruim. Para ele, as questões existenciais de Amores Imaginários “cabem na profundidade de um pires e as pretensões de Dolan incomodam pela maneira como descambam num desarranjo sem qualquer horizonte de consistência”.

Ora, leitor, não seja amargo assim e deixe esse filme leve e suave te conquistar e você pode se divertir sem exigir a profundidade de um abismo ou a consistência de uma areia movediça. Deixe-se envolver nesse tal “pires” mas cheio de uma colorida, divertida e sonora película que pode até ter a consistência de uma gelatina de morango com chantilly, mas vai ser doce e agradável se você não for alérgico a amores reais ou imaginários.

A Pele que Habito


De Pedro Almodóvar já vi tudo. Até seu obscuro livro: “Fogo nas Entranhas” já li. Em todos os seus trabalhos há um tema predileto: as mulheres, esses seres misteriosos que aparentemente são originárias de um planeta diferente do planeta de onde vêm os homens. Pedro Almodóvar aponta para lá sua lente.
O problema começa a se complicar quando se sabe que orbitam nesse universo humano, espécimes de planetas menores, de onde se originam os transexuais, os bissexuais, os hermafroditas, os trangêneros, os crosdressers…um universo de possibilidades. E se o sabido doktor Freud, do alto do seu divã vienense, já se perguntava “Afinal, o que querem as mulheres?”
Dito isto, vamos à Pele que Habito, novo filme de Pedro Almodóvar. A película é baseada no livro Tarântula, de Thierry Jonquet, e dá para entender porque o espanhol escolheu adaptá-lo em vez de ser autor do próprio roteiro. É que os temas caros de Almodóvar estão todos por lá: traições, incesto, estupro, relações intrincadas, bizarrices…o universo almodovariano é uma salada um tanto colorida, e às vezes indigesta.
Talvez aqui ele tenha cometido vários pecados. Deixou sua zona de conforto, com sua multicolorida estética kitsch, o que não deixa de ser uma façanha quando se trata de alguém que tem uma marca reconhecida. O filme tem um lado sombrio que obscurece o que Almodóvar tem de mais marcante: o escracho e o humor, mesmo que seja o humor negro. Aqui vemos Antonio Banderas, como vimos poucas vezes, como um excelente ator (ele só atuou bem quando foi dirigido por Almodóvar, só fazendo bobagens depois de abandonar a tutela do mestre).
Aqui Banderas é um cirurgião plástico que, após o acidente de carro da esposa, cria uma pele artificial com a qual poderia tê-la salvo das trágicas queimaduras. Ele, finalmente, como Dr. Frankenstein, cruza todos os campos da ética e, com os avanços da ciência, desenvolve a tal pele usando um ser humano como cobaia. E este é apenas um dos seus crimes.
O filme avança e retrocede levando o espectador a adentrar o universo do médico-monstro. Infelizmente, a estética muito limpa foge da marca dos sucessos anteriores de Almodóvar e mesmo as cenas de sexo ficam muito aquém de ousadias sensuais de muitos filmes dele. Só para citar exemplos: o estupro em Kika (1993) ganha muito em coreografia sexual em relação ao estupro na Pele que Habito. E Banderas exibe sua nudez sem pudor seja em Ata-me (1990), seja em A Lei do Desejo (1987), mas aqui, pudicamente, se cobre com um cobertor. Almodóvar avança por um lado e recua por outro. Onde estão a coragem e a ousadia de sempre?
Há outros problemas como um vestido que surge após anos sem que se saiba como, alguns erros básicos de continuísmo, personagens que nada acrescentam à trama e que poderiam ser perfeitamente dispensáveis como, paradoxalmente a própria estrela Marisa Paredes (soberba em Tudo Sobre Minha Mãe) em um papel que se for espremido não tem nenhuma importância na trama, além de uma referência descarada e desnecessária ao carnaval da Bahia (Almodóvar é amigo de Caetano Veloso e não se cansa de homenagear o santamarense). A música, que sempre foi um ingrediente destacado dos filmes do diretor, perde bastante na escolha da cantora espanhola Ana Mena para interpretar, em português, a fraquinha canção Pelo Amor de Amar.
Uma falha enorme é o não desenvolvimento psicológico do personagem Vicente. Fundamental para a trama, a ausência do aprofundamento no universo do rapaz demonstra um descuido que parece ser proposital para que o espectador não tenha tempo de ter empatia suficiente com ele.
Mas o filme tem méritos e o principal deles é incomodar a plateia. Isso não é pouca coisa e nesse mister Almodóvar continua um craque. Pena que seu bisturi está menos afiado.

Balada do Amor e do Ódio


A figura do palhaço sempre foi um arquétipo poderoso no cinema (assim como no teatro, na ópera e na arte em geral). Foi com essa espécie de obsessão em mente que o diretor espanhol Alex de La Iglesia dirigiu Balada do Amor e do Ódio, levando os prêmios de direção e roteiro no Festival de Veneza de 2010. O filme é o típico exemplo de cinema fantástico (no sentido do grotesco).


A história tem início na década de 30, durante a guerra civil espanhola, num ambiente de uma família circense cujo elenco é forçado pela milícia a lutar contra o governo. Logo a seguir vemos uma sequência ao mesmo tempo plasticamente bela, mas de uma estética bruta e suja, em que um palhaço, vestido de mulher, com cachos dourados e nariz vermelho empunha um facão e destroça os atacantes munidos de fuzis até ser dominado. Preso e condenado a trabalhos forçados, ele vê seu filho, o garoto Javier (o ator mirim é muito fraco) tentar seguir seus passos já que sonha ser também palhaço, como todos na sua família. Mas o pai, na cadeia, o aconselha a assumir o papel do palhaço triste já que jamais seria engraçado pois não tivera infância. Para ser feliz deveria buscar a vingança.

O filme dá um salto de mais de 30 anos e, sob a ditadura de Franco, vemos o garoto Javier, já um homem adulto, buscando um papel de palhaço triste num circo vagabundo, num ambiente semelhante àquele da sua infância, dominado pelo personagem grotesco, viril e violento do palhaço Sérgio, amante extremamente ciumento da trapezista Natália.

O título desse filme bem poderia ser: “Mulher de malandro é chave de cadeia!” Desde o momento em que Javier vê a moça, que é belíssima, notamos que dali não vai sair coisa boa. Os críticos identificam no amor dividido de Natália (paixão por um Sérgio violento e amor pelo calmo Javiercomo metáfora da própria Espanha, dividida entre fascistas e republicanos.

Impossível não se lembrar de Quentin Tarantino e Guillermo Del Toro em seus filmes mais trash (Pulp Fiction, Bastardos Inglórios e O Labirinto do Fauno). Em certo momento da narrativa percebe-se que o filme rompe todos os rótulos e o diretor claramente viaja na maionese. Passa de uma narrativa política a alegórica e em seguida ao cômico, ao grotesco puro e simples, ao gótico fantástico e termina em um anunciado final trágico. Nunca mais vou ver um palhaço sem esquecer das cenas desse filme.

21.9.11

Melancolia e A Árvore da Vida

No momento em que escrevo esse texto, os filmes Melancolia e A Árvore da Vida estão em cartaz em apenas três salas de cinema de Salvador. Não sei quanto tempo continuarão em cartaz. Acho difícil que permaneçam muito tempo, pois apesar de serem filmes de diretores famosos e polêmicos — Lars Von Trier e Terrence Malick — podem ser substituídos perfeitamente por um bom lexotan. E ambos estão ligados ao mesmo tema: a vida é uma Graça de Deus ou é um presente da própria Natureza?

Sou fã dos dois diretores. De Lars Von Trier sou macaco de auditório, admirador de todos os seus filmes desde que fui apresentado, em 1991, à experiência única da sua película “Europa”. Não perdi uma única aventura do polêmico cineasta que este ano perdeu a Palma de Ouro de Cannes por conta de sua proverbial língua e do seu imensurável ego, quando bateu boca com jornalistas em torno de uma piada de péssimo gosto envolvendo nazismo. Em sua filmografia, há verdadeiras joias como Ondas do Destino, Os Idiotas, Dançando no Escuro, Dogville, Manderley e Anticristo. Esse longo parágrafo é para dizer como fiquei triste por não ter gostado de Melancolia.

Acontece que Melancolia é resultante de uma crise depressiva na vida do diretor. O crítico e psicanalista Contardo Calligaris escreveu na Folha de São Paulo que a personagem Justine, de Kirsten Dunst (a referência à heroína homônima do Marques de Sade não é à toa) sofre de um mal que transborda o próprio sentimento dos melancólicos. Estes, na sua tragédia pessoal, podem até querer acabar com a própria vida, mas nenhum deles concebe, como a Justine de Trier, o fim da “vida” em si. Da existência da espécie humana. E é isso que o diretor parece querer mostrar com o seu ego de um cinismo monumental. “Se não dou a mínima para a humanidade, essa que se exploda”. E para tal, o enorme planeta Melancolia fará o serviço sujo se chocando com a Terra, como um iceberg abalroando o Titanic, e levando embora, num apocalipse hiperbólico, desde Guantánamo até a Capela Sixtina, desde Bangu I e Angra II até o Santo Sudário e a Esfinge de Gizé.

Belas imagens, sem dúvida, abrem a película, como é do feitio do talento inquestionável do diretor dinamarquês. Belíssimos oito minutos de um lirismo tão lindo que quase dói: um comercial do apocalipse em slow motion, como aponta em brilhante artigo o crítico Antônio Gonçalves Filho no Estadão.

Já A Árvore da Vida levou a Palma de Ouro de Cannes, uma premiação bastante questionada pois, entre os críticos, diz-se que o filme não está à altura dos trabalhos anteriores de Malick, como Terra de Ninguém, Cinzas no Paraíso e Além da Linha Vermelha. Fui para sua pré-estreia na sessão para jornalistas no Multiplex.

Se fosse analisá-lo como um todo, diria que não gostei dele. Falo como uma obra integral, apesar de seus pontos positivos, como a excelente cenografia, belíssimas interpretações dos atores (Brad Pitt e Sean Penn sempre excelentes), trilha sonora e fotografias primorosas. Mas vejo isso como um exemplo de que o todo pode ser inferior à soma das partes.

Há alguns anos li um comentário jocoso a respeito do que definiria um “filme de arte”. Isso me pereceu, naquela época, uma gozação infeliz, mas hoje eu concordo com a frase que é a seguinte: “Filme de arte é aquele que acaba de repente!”.

Esse filme é exatamente isso. Em vários momentos, você percebe que ele pode acabar a qualquer momento que isso não faria a menor diferença. E, de fato, ele acaba numa cena igual a várias outras. Muito bonita, mas igual em beleza a todas as outras. Além disso, há muito de uma coisa que costuma se criticar em cinema que é a tal reiteração, aquela inclusão desnecessária de cenas que nada acrescentam ao enredo ou à trama, mas apenas repetem o que já foi dito ou mostrado. Além disso, há uma irritante narrativa sussurrante. Para narrar qualquer coisa tem que ser sussurrando? E o filme também pressupõe que você vá embarcar no questionamento espiritual que ele desenvolve (desenvolve?) sobre Graça e Natureza, a primeira compreendida no sentido filosófico cristão.

A história não é amarrada, mas entremeada de inúmeras cenas plasticamente bonitas e que caberiam melhor em um documentário do National Geographic, imagens grandiloqüentes, do Big Bang, à criação do universo, das águas-vivas, dos dinossauros....Tudo com uma música altíssima emoldurando cada cena com uma grandiosidade que se não era pretensiosa, chegava muito perto disso. O final, com todo mundo numa praia, vivos e mortos, me deixou constrangido pela pieguice e pela breguice.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, na Bravo, analisa os dois filmes e identifica na Graça, o encanto e seu conceito, ao lado de Deus, uma das maiores criações da filosofia ocidental. A Graça seria generosa e dá vida enquanto a Natureza é egoísta e escrava da fisiologia. Essa premissa, que julgo algo rasteira, me obriga a me identificar com a crítica de Isabela Boscov na Veja: “O diretor não tem algo menos superficial do que essa dicotomia filosoficamente discutível entre a indiferença da natureza e a generosidade do espírito — como se a espiritualidade humana não fosse, ela própria uma resposta à violência casual da natureza”.

O crítico da Folha Inácio Araújo gostou. Para ele o filme é uma saga familiar contada de forma não-linear, por fragmentos ou estilhaços de vida que se projetam no tempo. Afirma ele: “Esse filme dispensa maior erudição ou esforço intelectual para ser compreendido: ter uma alma já basta”. Pergunto eu: ter compreendido significa ter gostado? Minha alma compreendeu o filme, apesar dos meus esforços intelectuais para não achá-lo pretensioso. Mas, por favor, não exija demais da minha alma.

16.7.11

Minhas cenas inesquecíveis


Todo mundo gosta de listas. O escritor Umberto Eco até lançou um belíssimo livro sobre elas: "A Vertigem das Listas". Há listas para tudo e esta é minha lista de 20 cenas inesquecíveis de cinema. Não há ordem, mas uma organização sentimental de minhas cenas favoritas. Afinal, o que torna um grande filme são as suas cenas inesquecíveis.

Blade Runner (1982) - A perseguição final - Esse é um filme memorável. A sequência final é impecável. O replicante líder (Rutger Hauer) e o caçador de androides (Harrisson Ford) estão em uma alucinante perseguição. O replicante, no fim da jornada sangrenta em uma noite repleta de neon e chuva ácida. O monólogo final é irretocável: “Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataques em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar, no escuro, na Comporta Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva.”.

A Morte em Veneza (1971) - O maestro e seu destino - Como Ridley Scott, Visconti retrata a busca pela vida. Como o replicante que só deseja viver, o velho maestro descobre no efebo Tadzio um elixir da juventude. Na cena final, em uma Veneza semi-evacuada pela peste, o velho, em uma cadeira de praia, estende as mãos para Tadzio ao longe. A cena ilumina as palavras do livro: “Aschenbach sentiu dolorosamente que a linguagem pode apenas louvar, mas não reproduzir, a beleza que toca os sentidos”. E ao morrer, um filete de suor, tinta negra, derretida pelo sol — um escárnio da beleza sobre o tempo — escorre da sua têmpora.

O Chamado (2002) - O cavalo na balsa - Pode parecer heresia incluir um filme de terror B, refilmagem de um horror gótico japonês, numa série de grandes filmes, mas esta é uma lista eclética. O filme não é grande coisa, mas a sequencia em que um cavalo rompe aos coices uma jaula em um ferry e se solta enlouquecido pelo meio dos carros, acabando por se atirar ao mar, é qualquer coisa de espetacular. Uma pequena joia.

Ó Paí Ó (2007) - A morte das crianças - Não falei que era uma lista eclética? Aqui há uma sequência perfeita em que a atriz baiana Luciana Souza, como a evangélica Joana, atira-se Pelourinho abaixo, vestido branco esvoaçando na noite, gritando a plenos pulmões em busca dos filhos que já sabe mortos. É de cortar o coração. A cena tem uma tomada aérea e a câmara abre, lenta, com as imagens de mulheres correndo em direção à tela. Um crítico famoso declarou que ela deve entrar para a história das cenas ícones do cinema mundial.

O Encouraçado Potemkim (1925) – A escadaria de Odessa - Aqui também uma mãe em desespero não consegue salvar o filho. O diretor Sergei Eisenstein fez deste um filme que entrou para a história pela famosa sequência do massacre da população nas escadarias de Odessa em que um balé de imagens se sucede na tela com uma longa descarga eletrizante. Impossível esquecer a imagem do carrinho com o bebê, despencando escadaria abaixo, após a morte da mãe.

Filhos do Paraíso (1997) – A corrida - Há uma tradição de os filmes iranianos mostrarem cenas memoráveis com crianças. Aqui, o diretor Majid Majidi conquista a plateia com uma bela história de um casal de irmãos que divide um único par de sapatos. Como os dramas infantis sempre lhes parecem insuperáveis, o diretor, habilmente, conduz o filme como uma criança. Toda a sequência da corrida que, para o ultra carismático Ali é a solução dos seus problemas, já que ele pretende tirar o terceiro lugar e ganhar um novo par de tênis, é magnetizante. Para ver com o coração e um lenço nas mãos.

Sindicato de Ladrões (1954) - O diálogo dos irmãos – Marlon Brando memorável e sempre perfeito, no auge do seu talento e beleza, Oscar de melhor ator pelo papel do boxeador que abandonou os ringues, envolvido pela máfia. Brando é Terry, dominado pela mágoa e culpa pela morte de um amigo. Ele abre a alma para o irmão desonesto no banco de trás de um táxi: “Eu poderia ter tido classe. Eu poderia ter sido um lutador. Eu poderia ter sido alguém, ao invés do vagabundo que sou”. Não se fazem mais atores nem cenas assim.

O Iluminado (1980) - No corredor do hotel – Esta foi eleita a cena mais assustadora da história do cinema. O filme traz Jack Nicholson eternamente histriônico, mas quem rouba o filme é o garotinho. Em um hotel isolado pela neve, é magistral a filmagem em travelling do menino no velocípede percorrendo uma sucessão de corredores desertos. Stanley Kubrick segue o mestre Stephen King e manipula com habilidade nossa apreensão. A imagem, aterradora, das irmãs mortas assusta qualquer marmanjo.

As Pontes de Madisson (1995) – O momento de decisão – Clint Eastwood e Meryl Streep são um luxo. Ele, um fotógrafo de meia idade e ela uma dona de casa, vivem um breve romance outonal. É dilacerante a cena em que ela tem que decidir entre o marido e os filhos e o fotógrafo. Dentro do carro, mãos crispadas na maçaneta, olhando o amor da sua vida sumir no carro da frente. São segundos para decidir toda uma vida e ela traduz no olhar toda a carga de dúvidas enquanto o marido sequer imagina o turbilhão por que passa a esposa ao seu lado.

A Marca da Maldade (1958) – Plano-sequência inicial - Um longo plano único de mais de três minutos abre esta obra prima de Orson Welles mais lembrado por Cidadão Kane, realizado 17 anos antes. Aqui ele demonstra novamente a obra do gênio que foi, com um complexo trabalho de câmera em grua e nos faz percorrer a fronteira mexicana onde sabemos que uma bomba explodirá em um carro. Um filme noir que merece todos os elogios.

Pacto Sinistro (1951) – A partida de tênis – O mestre do suspense Alfred Hitchcock tem dezenas de películas com inúmeras cenas inesquecíveis, como a clássica do chuveiro em Psicose. Mas, em Pacto Sinistro, o diretor esgarça cada fibra dos nervos do expectador até o seu limite durante uma partida de tênis em que um dos personagens tenta desesperadamente encerrar o set enquanto o vilão se dirige para o local do crime, para deixar um isqueiro que incriminaria o jogador. Somente um gênio conseguiria transformar uma partida de tênis numa sessão de tortura para os nervos.

A Bruxa de Blair (1999) – A lanterna na barraca – Considero este um dos filmes mais assustadores a que já assisti. Haverá quem torça o nariz, mas a ideia é genial. De custo irrisório, tornou-se a película mais lucrativa do cinema. A versão original tem cenas verdadeiramente arrepiantes, como a da moça sozinha, rosto iluminado apenas por uma lanterna, aos gritos, em pânico legítimo, em uma barraca numa floresta cheia de ruídos apavorantes e todos nós querendo muito acreditar que não se trata de uma atriz. A enigmática cena final das mãozinhas na parede são puro horror.

Matrix Reloaded (2003) - A sequência da auto-estrada - A trilogia Matrix é um divisor de águas no cinema por inúmeras razões. Toda a mitologia que cerca o filme, a pletora de referências a inúmeros livros, a outros filmes, à cultura pop e o estabelecimento de um novo paradigma de efeitos especiais. Para quem gosta de cenas de perseguição, a sequência da auto-estrada é a cereja mais doce do topo de um bolo. Dura 15 minutos, envolvendo artes marciais, perseguições de carro, moto e caminhão na contramão do tráfego intenso, personagens saltando entre veículos em movimento e um show de batidas e explosões.

Um Corpo que Cai (1958) – O cemitério de Mission Dolores – Este filme tem para mim um sabor especial porque se passa em São Francisco, cidade que amo, e há uma cena especialmente bela em que a personagem Madeleine visita o cemitério de Mission Dolores. Sou louco por cemitérios e nas três vezes que estive na Califórnia, fui ao mesmo cemitério e ao mesmo túmulo que Kim Novak visita no filme. O detalhe interessante é que a igrejinha e o seu cemitério foram das poucas construções que ficaram em pé no grande terremoto que destruiu São Francisco em 1906.

Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987) - A cena final – O diretor iraniano Abbas Kiarostami é espetacular. Aqui ele mostra o garotinho Ahmad envolto numa pequena odisseia pessoal para devolver ao seu colega de classe um caderno esquecido na escola. A tarefa é como uma missão que Ahmad fará tudo para cumprir e a película é como um conto de fadas ao contrário. São inúmeros os percalços que Ahmad precisa atravessar e parece que tudo foi em vão, mas a última cena é pura poesia em uma única e rapidissima imagem: uma florzinha miúda dentro do caderno do amigo.

Toda Nudez Será Castigada (1973) – A fuga com o ladrão boliviano – Arnaldo Jabor dirigindo Nelson Rodrigues só podia dar samba e censura. O universo rodrigueano em seu esplendor: taras, incesto, perversões e crítica à hipocrisia da classe média. Darlene Glória, no papel ícone da sua carreira, é a prostituta Geni. A cena em que o enteado Serginho, por quem ela se apaixona, após ser violentado na cadeia por um ladrão boliviano, foge do país com o próprio ladrão a tiracolo não poderia ser um tapa mais direto no rosto da moral familiar burguesa e patriarcal. Uma contribuição inquestionável para a dramaturgia e para o cinema nacional.

Magnólia (1999) – A chuva de sapos – Este filme é uma pequena joia do cinema dos anos 90. Nas três horas em que se desenrolam as histórias de nove pessoas em planos temporais diferentes, sentimos como se estivéssemos nos embriagando com nove tipos diferentes de bebidas. Tom Cruise nunca esteve tão bem como nesse filme. Foi indicado ao Oscar de coadjuvante, mas, injustamente, não ganhou. O elenco é fabuloso: Julianne Moore, William Macy e Philip Seymour Hoffman. A antológica chuva de sapos final é uma catarse, uma overdose com referências espalhadas em códigos pelo filme.

Dançando no Escuro (2000) – A “dança” final de Selma – O diretor dinamarquês Lars Von Trier é um sádico e misógino, mas é um gênio e tudo que toca é ouro puro em cinema. Esse foi o primeiro (e último) filme da cantora Bjork que pela interpretação ganhou a Palma de Ouro em Cannes de melhor atriz. Ela é Selma, uma imigrante quase cega que atravessa verdadeiros horrores para salvar o filho do mesmo destino. Para escapar da mediocridade, Selma sonha acordada com precários musicais arriscando a vida em cada passo. A “dança” final de Selma no vazio leva o cinema às lágrimas.

Anticristo (2009) – A sequência de abertura – Para provar que eu gosto do “louco” Lars Von Trier, incluo mais uma cena irretocável de uma das suas obras. O filme Anticristo em si não me agradou tanto, me chocou até. Cenas de mutilação genital e tortura são excessivas até para mim. Mas a abertura em câmara lenta, ao som da ária Lascia Ch'io Pianga de Handel, é êxtase puro. Quase dá para esquecer de que estamos vendo a morte de uma criança.

Amor à Flor da Pele (2000) – Todas as tomadas em slow motion sob a chuva e ao som de “Aquellos Ojos Verdes”, na voz de Nat King Cole - Wong Kar-wai é o meu diretor preferido e nesta lista poderia incluir outras cenas de qualquer um dos seus filmes. Aqui vemos um casal traído e abandonado pelos seus respectivos cônjuges, tentando sobreviver com a dignidade possível. A descoberta lentíssima do afeto, uma crescente tensão sexual quase incontida, a beleza dos pequenos gestos e da onipresente fumaça dos cigarros são para serem vistos várias vezes.