Continuo, pelo 7º ano a publicar breves resenhas dos livros lidos e divido
as postagens em três blocos.
Aqui estão os 20 lidos de Janeiro a Maio deste
ano. Esse número ficou na média dos lidos no mesmos cinco meses iniciais dos
últimos anos (27 em 2019; 22 em 2020; 20 em 2021; 21 em 2022 e 14 em 2023; 16 em 2024 e 22 em 2025).
Mulheres, brasileiros e não-ficções continuam perdendo a batalha. Foram lidos apenas 1 livro de autora mulher x 19 de homens; 3 de brasileiros x 17 de europeus e norte-americanos e 3 de não-ficção x 17 romances.
1-A ASSUSTADORA HISTÓRIA DO SEXO
– Terceiro livro que li de Richard Gordon. Assim como nos anteriores: A Assustadora História da Medicina e Os Grandes Desastres da Medicina, é divertidíssimo, e o autor nos conduz pela história da
sexualidade humana, de forma picante e com leve toque de humor, apresentando a
verdade por trás dos relacionamentos e hábitos sociais de personagens
da história, abordando casos amorosos de personalidades históricas que
não constam nos livros oficiais de História como a Rainha Elizabeth I e
as várias especulações em torno de sua virgindade, os valores
vitorianos, as doenças venéreas e muitas informações saborosas.

2-OS ÚLTIMOS CASOS DE SHERLOCK
HOLMES – Este foi, apesar do título, o penúltimo dos nove livros publicados
pelo escritor Arthur Conan Doyle com o seu personagem icônico, o detetive
Sherlock Holmes que li. Agora só me falta o último desses nove livros. Aqui temos Holmes vivendo em uma pequena
fazenda criando abelhas e com reumatismo e relembrando casos importantes do
passado, todos excelentes contos, entre eles: O Caso da Vila Glicínia, O Caso
da Caixa de Papelão, O Caso do Círculo Vermelho, O Caso do Detetive Agonizante
e O Caso do Pé do Diabo.

3-O FANTASMA -14º livro que li do autor de romances policiais norueguês Jo Nesbo e mais um
mistério a ser desvendado pelo trágico e genial detetive alcoólatra Harry
Hole. Nesta obra, que continua a série,
Harry carrega uma enorme cicatriz no rosto e uma prótese de titânio num dos
dedos. Quando Oleg, filho da sua ex namorada Rakel, é preso como o principal
suspeito de um homicídio. Hole decide investigar o mistério já que ele não
aceita que o rapaz que ajudou a criar seja um assassino numa Oslo infestada
pelo tráfico de drogas de uma substância altamente viciante chamada violino num
ambiente de corrupção, assassinatos e jogos de interesses.

4-AS VINHAS DA IRA – Segundo
livro que li do autor americano John
Steinbeck depois de Ratos e Homens. Considerado a obra-prima do autor, rendeu-lhe o Prêmio Pulitzer e o Nobel. Steinbeck, durante a Grande
Depressão, mesmo não sendo comunista,
foi acusado de sê-lo, ao pondo de o livro
ser queimado e banido
das escolas e bibliotecas. A obra tem
início quando Tom Joad deixa a prisão e, chegando em casa, descobre que toda a família e os vizinhos estão deixando as
terras, expulsos por bancos que compraram as fazendas de agricultores falidos. A
família parte para a Califórnia na esperança de encontrar trabalho após vender
todos os pertences em troca de poucos dólares e a história se
desenvolve durante este terrível périplo em que o sonho americano é apresentado como um horrível pesadelo.

5-O CLUBE DO CRIME DAS QUINTAS
FEIRAS – Primeiro livro que li do autor
Richard Osman e que recentemente virou uma série da Netflix com um elenco de
estrelas formado por Pierce Brosnan, Helen Mirren, Ben Kingsley entre outros.
Uma história divertida sobre um clube formado por velhinhos que
moram em um condomínio de luxo para aposentados na Inglaterra e que se reúnem
para resolver crimes jamais solucionados pela polícia. Os velhinhos são
bastante interessantes, mas a história me pareceu um tanto confusa com um pouco
de idas e vindas ao passado e umas mortes meio forçadas. O autor lançou algumas
continuações, mas confesso que não tenho interesse em me aventurar mais nesse
universo.

6-O RIO QUE ME CORTA POR DENTRO –
Primeiro livro que li do brasileiro Raul Damasceno e que me agradou imensamente
com uma prosa rápida e lírica. É pequeno mas caudaloso e intenso, unindo delicadeza e agressividade. Uma história de separação, dores, frustrações, desejo e descoberta do amor e da sexualidade, com muitas feridas emocionais.
Cícero é um rapaz mergulhando na
ausência materna no interior do Ceará e que é criado pelos avós. Sua mãe mora em
Fortaleza e trabalha como doméstica e apenas uma vez por ano visita o filho. Nesse universo partido, ele descobre o carinho
do vizinho Luzimar, seu melhor amigo de infância, mas esse amor é, ao mesmo tempo, alívio e nova fonte de sofrimento . Uma das melhores leituras do ano.

7-A ÚLTIMA MULHER – Esse foi o
segundo livro que li do escritor brasileiro de romances policiais Luiz Alfredo
Garcia-Roza depois de Berenice Procura. Nessa história temos novamente o delegado
Espinosa, personagem de vários livros do autor, numa investigação envolvendo os exploradores de mulheres Rato e Japa, no bairro da Lapa. Quando um
violento policial decide chantagear o cafetão Ratto, ele desaparece, mas sua namorada Rita, uma
prostituta jovem e inteligente, vê-se em meio a uma caçada pelas ruas e becos escuros da cidade. O delegado
Espinosa entra no caso quando começam a surgir mulheres mortas com crueldade. Não gostei muito da história e não me
ambientei muito no universo retratado da marginalidade e boemia cariocas. Não que o universo não me agrade mas não me pareceu bem construído. Não achei que o celebrado delegado Espinosa se sai muito bem dessa investigação, pelo contrário.

8-O PLANETA DOS MACACOS – Primeiro
livro que li do autor francês Pierre Boulle e que se tornou uma das mais bem
sucedidas histórias de ficção científica após várias adaptações.
No ano de 2.500, astronautas da Terra chegam a um planeta dominado por macacos
evoluídos onde seres humanos são selvagens tratados como animais. O protagonista, o jornalista Ulysse Mérou, é capturado por gorilas e levado para um laboratório onde humanos são utilizados em experimentos científicos. No cativeiro, o
jornalista entra em contato com cientistas chipanzés que tentam entender o
funcionamento do cérebro humano tão diferente dos demais. O final do livro é
diferente do final do filme em que vemos o personagem de Charlton Heston
encontrando a Estátua da Liberdade tombada numa praia, mas também consegue ser
surpreendente e original.

9-AS ORIGENS DO TOTALITARISMO –
Primeiro livro que li da filósofa mais influente do século XX, a alemã Hannah
Arendt. Uma aula magna com mais de 800 páginas sobre a história do antissemitismo, do
imperialismo e sua influência nos
regimes totalitários. Para ela, antissemitismo, pensamento
racial e novo imperialismo, lançaram as bases para o totalitarismo no século
XX. No trecho em que relembra o papel do escritor
Émile Zola na defesa do capitão judeu Alfred Dreyfus em 1898 citando o estadista Georges Clemenceau: “Já houve homens que resistiram aos
mais poderosos monarcas e se recusaram a inclinar-se diante deles, mas tem
havido poucos capazes de resistir à multidão, e sozinhos enfrentar as massas
mal orientadas, de encarar desarmado o seu implacável frenesi e, de braços cruzados,
ousar dizer não!, quando o que a massa exige é um sim. Esse homem foi Zola”

10- OS TRÊS MOSQUETEIROS –
Quarto livro que li do escritor francês Alexandre Dumas após O Conde de Monte
Cristo, O Colar da Rainha e da sua Biografia Literária de Napoleão Bonaparte. Este livro, com mais
de 700 páginas, publicado originalmente como folhetim em 1844 e extremamente
adaptado para as telas, descreve as aventuras dos conhecidíssimos
Athos, Porthos, Aramis e d’Artagnan que entraram para a Literatura como uma das
amizades mais leais já contadas e que se passa na França durante
o reinado de Luis XIII, com subtexto histórico em que são
personagens o poderoso Cardeal
Richelieu e a rainha Ana da Áustria. Esqueça as adaptações
juvenis. Apesar do caráter aventureiro,
os mosqueteiros frequentemente não são sempre heróis, mas apresentam alguns
defeitos, sendo vaidosos, mulherengos e briguentos.

11-WALKING DEAD - A ASCENÇÃO DO
GOVERNADOR – Série pós-apocalíptica de Robert Kirkman e Jay Bonansinga, adaptada com sucesso para as telas, e
que apesar de possuir os sete volumes, comecei, por engano, a ler a partir do
volume 3 A Queda do Governador. Ao descobrir o erro, já tinha terminado o livro de que gostei muito. Então decidi ler o
volume 1 - A Ascensão do Governador. Pensei: "esse personagem que será o governador no livro 3 está tendo sua história
contada aqui". Mas eis que a história consegue me surpreender como se ela
soubesse que eu tinha lido antes o livro 3. Não era o que eu estava pensando. A história começa algumas
semanas depois de o mundo colapsar com as pessoas sendo transformadas em zumbis
que vagam pela terra. Assustados, os
irmãos Brian e Phillip e a filha de um deles de apenas 7 anos, lutam para
sobrevier no meio do caos saqueando casas para achar
mantimentos e abrigo, passando fome e medo. Aqui descobrimos como o ameaçador
vilão na história foi moldado.

12-A SOMBRA DO VENTO – Primeiro
livro que li do escritor Carlos Ruiz Zafón. Esperava muito mais, após tantos elogios publicados. Primeira parte da tetralogia: O
Cemitério dos Livros Esquecidos. Não me animei para ler os volumes seguintes. O cenário é Barcelona após a Segunda
Guerra Mundial. Daniel, de 11 anos e criado amorosamente pelo pai
livreiro, leva-o para conhecer o misterioso Cemitério de Livros, onde toda
obra literária abandonada espera um leitor. Daniel se encanta pelo romance A
Sombra do Vento e fica obcecado pelo autor Julian Carax. Ao procurar outras
obras dele e descobrir que alguém estava queimando todos os seus livros, Daniel parte para uma investigação, conhece dezenas de
personagens e atravessa lugares e a história de Barcelona. A busca o leva ao
amadurecimento e a novos sentimentos. O texto não me encantou. Achei mal amarrado e com personagens demais .

13- A PACIENTE SILENCIOSA –
Primeiro livro que li do autor Alex Michaelides e que fez grande sucesso há
alguns anos, ficando por muito tempo no topo da lista dos mais vendidos. A história gira em torno de uma famosa pintora que está num hospital psiquiátrico por ter matado o marido com quem
ela levava uma vida perfeita. Desde sua prisão, ela não
diz uma só palavra até que um psicoterapeuta aparece determinado a fazê-la falar e descobrir a
verdade. À medida que se aprofunda na
mente dela e investiga seu passado, segredos vêm à tona. O romance conduz
a uma revelação surpreendente e perturbadora, que redefine toda a narrativa e a
percepção de quem é a verdadeira vítima. A narrativa é contada em
primeira pessoa pelo psicoterapeuta que quebra várias regras para conseguir
descobrir a história de sua paciente. O tão falado plot twist do livro
é bom, mas não me encheu tanto os olhos.

14- O CORAÇÃO DAS TREVAS-
Primeiro livro que li do autor Joseph Conrad que ficou mais conhecido após a aclamada adaptação para o cinema por Francis Ford Coppola como Apocalypse
Now. Uma novela publicada originalmente em três capítulos em 1899 e baseada em
experiências do autor quando era marinheiro na África. Um mergulho
excepcional e apaixonante com uma visão crua e extremamente crítica ao
colonialismo europeu no continente africano. Acompanhamos, por meio da narrativa
do capitão Charles Marlow, sua terrível experiência quando se candidatou para
comandar um barco pelo rio Congo onde teria a missão de localizar o misterioso
Kurtz, desviado da sua função de coleta de marfim para o governo belga.

15- ÓPERA DOS MORTOS- Primeiro
livro que li do autor brasileiro Autran Dourado e que considero um
dos melhores da vida. Fico impressionado por este autor tão
premiado não ter a merecida relevância nos dias atuais. Essa obra prima
foi lançada no fim dos anos 60, mas continua pouco
comentada. O autor foi premiado com as láureas mais importantes da Literatura
Brasileira como os prêmios Camões, Jabuti e Machado de Assis, além de ter sua
obra reconhecida pela Unesco como obra representativa da literatura
universal. A história se passa no
interior de Minas Gerais focada na decadência de uma família mostrando a
terceira geração que habita um antigo e imponente casarão centenário. Linguagem
com narrativa polifônica com fluxo de consciência que permite um mergulho
inebriante e fantástico.

16-O FIM DE EDDY- Primeiro livro
que li do badalado autor francês Édouard Louis e seu romance de estreia cujo estilo se insere
no que recentemente passou a ser chamada auto-ficção. Acompanhamos as
dificuldades da infância do jovem autor com a descoberta conflituosa da sua homossexualidade numa
família disfuncional e violenta num vilarejo da França. Chamou-me atenção os momentos em que o autor relata as
cenas de frequentes bullings que sofreu de colegas e como isso o
marcou profundamente, sobretudo a vergonha de apanhar e ser humilhado em
público, refugiando-se todos os dias num lugar onde apanhava em segredo e a sensação de ser cúmplice desses
espancamentos. Anos depois, descobre quão pouco
isso significou para os espancadores que nem lembravam desses episódios, sendo que Eddy lhes consagrava todos os seus pensamentos e
angústias desde que acordava.

17-O LEITOR – Primeiro livro que
li do autor Bernhard Schlink que ficou muito famoso
após a adaptação para o cinema com Kate Winslet (que ganhou o Oscar pelo papel) e Ralph Fiennes como protagonistas. A relação complexa entre Michael, adolescente de
15 anos, e Hanna, mulher 21 anos mais velha, na Alemanha
pós-guerra. Na primeira parte, acompanhamos a descoberta do sexo e a paixão pela literatura do casal. Na segunda parte, anos depois, Michael assiste ao julgamento de
Hanna por colaboração com o nazismo. Achei a narrativa frouxa, apesar do tema delicado. Incomodou-me a dificuldade do autor (e do seu narrador, convenientemente),
em abordar as motivações da personagem de Hanna. Isso fica evidente no seu último encontro, onde ela lhe responde sobre o passado: “Não importa o que eu penso. Não importa o que eu sinto. Os mortos
continuam mortos”. Pelo contrário, nós os leitores, precisaríamos saber o que ela pensa. Sua não versão seria como a falta da versão de Capitu em Dom
Casmurro, com a diferença fundamental de que Machado de Assis faz a ausência da versão feminina gritar, expondo o descrédito do narrador enquanto no Leitor a falta da versão de Hanna é uma óbvia uma limitação literária.
18- CADERNOS DE LANZAROTE - 15º livro que li do prêmio Nobel português José Saramago (após Memorial do
Convento, O Ano da
Morte de Ricardo Reis, A Jangada de
Pedra, História do
Cerco de Lisboa, O Evangelho
Segundo Jesus Cristo, Ensaio Sobre
a Cegueira, Todos os
Nomes, A Caverna, O Homem
Duplicado, Ensaio Sobre
a Lucidez, As
Intermitências da Morte, A Viagem do
Elefante, Caim e Claraboia). Esses diários que o autor escreveu ao longo de vários anos em que viveu na ilha de Lanzarote, serão melhor aproveitados pelo leitor mais familiarizado com as suas obras. Aqui ele relata seu cotidiano ao lado da companheira Pilar, narra suas viagens pelo mundo, coleciona suas correspondências com amigos (como Jorge Amado de quem foi muito próximo), suas teses sobre o comunismo e ateísmo, suas premiações, sempre com um insuperável bom seu característico bom humor e pessimismo humanista.


19 e 20 - DESESPERO E OS JUSTICEIROS– Esses foram respectivamente o 51º e 52º livros que li do mestre do terror Stephen King. O primeiro tem excelente narrativa, personagens bem construídos e história arrepiante. A clássica luta do bem contra o mal que ultrapassa o terror e discute a natureza da bondade e da maldade. Com mais de 560 páginas, a história flui como uma estrada que é o ponto de partida da trama. Desespero é o nome da cidade em que se passa a história onde um estranho policial sequestra e prende viajantes numa rodovia. O mistério envolve uma antiga mina onde morreram vários chineses soterrados há anos e artefatos malignos operados por uma entidade sobrenatural chamada TAK com poderes extraordinários e que se alimenta da dor e do sofrimento. Minha surpresa se deu na leitura do livro seguinte. Os Justiceiros, com metade do tamanho, é um espelho de Desespero como uma espécie de multiverso em que vemos quase todos os personagens do primeiro livro em situações diversas, mas estranhamente familiares. King deixa o início propositalmente confuso quando seis vans muito estranhas aparecem numa rua de uma cidade de Ohio e começam a atirar nos moradores. Aos poucos, descobrimos que a entidade TAK voltou e tudo pode acontecer com a mesma tensão e as mesmas mortes horríveis de que tanto gostamos nas páginas de Stephen King. Detalhe: eu havia abandonado a leitura desse livro até ler Desespero, quando tudo se encaixou e me trouxe de volta ao fantástico Os Justiceiros. As duas capas formam uma só imagem.