1.1.23

LEITURAS DE OUTUBRO A DEZEMBRO DE 2022

 


Há 5 anos publico uma breve resenha dos livros lidos no ano. Para alguns deles dedico resenhas maiores. Minha média anual de leituras continua em 56 livros. 

Em 2018 foram 40. Em 2019 foram 68 livros. Em 2020 li 61. Em 2021 o número foi de 55 livros e no ano passado foram lidos 60. 

Divido as postagens sempre em três blocos. Foram 21 livros de Janeiro a Maio; outros 21 de Junho a Setembro e aqui estão os 18 livros que li de Outubro a Dezembro do ano passado.

1- O SR. GANIMEDES, de Alfredo Gallis – Romance português publicado em 1906. O título é referência ao belo efebo grego por quem até Zeus se apaixonou e antecipa a questão da disforia de gênero e do erotismo do travestismo. História de uma viúva rica que se apaixona por Leonel, jovem esbelto e afeminado, apaixonado pelo rude Liberato que gostava de o ver vestido de mulher. Apesar da homofobia, nas três oportunidades que o livro tem para falar dos dois homens na alcova, não esconde a atmosfera quentíssima ao tratar das cenas em que pessoas espiam o casal gay durante sexo, algo indisfarçavelmente saboroso já que nenhum dos demais casais do livro tem mais química do que a deliciosa dupla Leonel e Liberato.

2-CONTOS GÓTICOS RUSSOS Volume com seis contos: O primeiro: O Retrato, de Nikolai Gógol, é sobre um pintor pobre que recorre a forças demoníacas para melhorar de vida e é considerado um conto de terror em estado puro.  Os dois contos seguintes são: A Família do Vurdalak e O Encontro 300 Anos Depois, de Alexei Tolstói. Um trata da figura lendária do upyr russo, considerado entre os melhores do gênero vampiresco e o conto seguinte é sobre um cavaleiro e uma dama que tentam rechaçar, com uma cruz milagrosa, seus pesadelos. O quarto conto é Os Fantasmas, de Ivan Turguênev, que narra as viagens de um fazendeiro ávido por emoções.  O quinto conto é Bobok, de Fiódor Dostoiévski, que satiriza os temas góticos e o último é O Monge Negro, de Anton Tchêkhov, onde um professor contracena com um ente sobrenatural. 

3- CAIXA DE PÁSSAROS – Livro de Josh Malerman, adaptado para o cinema com Sandra Bullock como protagonista, uma mãe que precisa sobreviver com seus filhos num mundo pós-apocalíptico. Eles tentam a todo custo escapar de criaturas imateriais que, ao serem vistas, fazem com que as pessoas que as veem tornem-se suicidas e assassinos. De olhos vendados, eles navegam num rio para chegar à segurança de um refúgio onde não sabem se conseguirão atingir. O livro tem narrativa não linear, o que quebra a atmosfera de suspense que o filme conseguiu solucionar melhor. A história faz um interessante paralelo com a do também pós-apocalíptico: Um Lugar Silencioso, em que uma família tem que sobreviver no máximo silêncio possível para não ser morta por criaturas misteriosas muito sensíveis ao som. 

4- CONTOS CLÁSSICOS DE VAMPIRO – Coletânea com sete dos mais importantes contos sobre a figura clássica do vampiro. O primeiro conto é "Trecho de um Romance" de Lord Byron, que inspirou John Polidori para "O Vampiro", segundo conto, publicado há mais de 200 anos e considerado uma das mais influentes histórias vampirescas da literatura, que introduziu o estereótipo do vampiro aristocrata . O terceiro conto é "O Hóspede de Drácula" de Bram Stoker, publicado postumamente pela viúva do autor. O conto seguinte é o gótico: “Porque o Sangue é Vida” de Francis Crawford, trágica história de uma vítima de assassinado que retorna como vampira. “A Morta Amorosa” de Théophile Gautier, é o último e trás uma vampira sensual que seduz um padre.

5- SOB A REDOMA- Dos mais de 78 livros do mestre Stephen King, este foi o 42º que li e um dos maiores escritos pelo autor. Devorei suas 960 páginas em apenas nove dias do tanto que foi minha incapacidade de abandonar a leitura. Foi adaptado para série de TV com três temporadas horríveis. Uma redoma invisível e intransponível surge subitamente, isolando do mundo os moradores da pequena Chester's Mill, no Maine. As pessoas presas precisam encontrar seus próprios meios de sobreviver com os recursos sendo reduzidos e tensões crescendo exponencialmente. Tem um dos melhores vilões dos livros King (Big Jim), um casal protagonista tão certinho e com a química de duas pedras sendo o homem um militar sem nenhum sex appeal e com o inacreditável nome feminino de Dale "Barbie" Barbara. 

6- UMA HISTÓRIA DOS POVOS ÁRABES – Um livro clássico de Albert Hourani que nos permite conhecer os elementos que construíram o mundo árabe. Tem início nos primórdios do Islã com o surgimento de Maomé e as suas divisões que geraram diferentes correntes do islamismo. A segunda parte trata do ápice da civilização islâmica até seu enfraquecimento entre os séculos XI e XV. A obra transporta o leitor para o mundo muçulmano, suas aldeias, desertos, palácios e mesquitas. Ele aborda a era Otomana, as guerras mundiais e do papel servil da mulher na cultura árabe onde o costume dizia que uma mulher só deveria sair de casa três vezes na vida: para ser conduzida à casa do marido, no enterro dos seus pais e quando ia ser enterrada. 

 

7- O RECICLADOR- Esse livro é um spin-off meio bastardo da famosa série Wild Cards, editada por George R. R. Martin, autor de Game of Thrones  e organizador dos livros de Wild Cards escritos por um consórcio de mais de 40 autores sobre o espalhamento de um vírus alienígena que contamina milhões de pessoas pelo mundo, matando a maioria dos infectados (as Rainhas Negras) e alterando o DNA de outros, conferindo poderes estranhos a alguns poucos (os Ases) e deformações horríveis aos demais (os Curingas). Nesse pequeno livro, David Levine criou um infectado favelado carioca que descobre o poder de criar um tipo de carapaça protetora feita de lixo. A história é muito bobinha e sem emoção e cujo único atrativo é ter um personagem brasileiro integrando a galeria dos infectados pelo vírus “Carta Selvagem”. A série já teve mais de 20 livros lançados nos EUA, com infelizmente apenas 9 deles no Brasil.

8 a 11- OS BÓRGIAS – Essa série de quarto volumes de arte erótica, criada pelo aclamado desenhista italiano Milo Manara e com roteiro de um dos artistas multitalentos mais reconhecidos, o chileno Alejandro Jaborowsky tem excelente qualidade em papel couchê e aborda política, religião, intrigas palacianas, conspiração pelo poder, luxúria e incesto, um fiel panorama da Igreja Católica durante a renascença italiana do final século XV. Os quatro volumes são ricos em arte pornográfica e heresia, o que deve causar calafrios em religiosos, mas não há nada nas imagens que não tenha acontecido nos quartos nem tão secretos do Vaticano. 

No volume 1: Sangue Para o Papa mostra o futuro papa Alexandre VI ainda um poderoso cardeal tramando, subornando e matando seus adversários no conclave que ocorreu após a morte do seu predecessor, o Papa Inocêncio VIII já então famoso pela luxúria. Os quatro filhos de Rodrigo Bórgia com a amante Vanozza, são Lucrécia, César, Giovanni e Jofre, cada um mais devasso e perigoso do que o outro. 

O desenho dos corpos em detalhes e cores vivas são a marca registrada do desenhista Milo. É chocante acompanhar o frenesi de violência de Rodrigo Bórgia que manda cortar os pênis de 150 frades amantes do belo cardeal Júlio Rovere, seu concorrente ao papado, além de matar o filho de outro cardeal arrancando-lhe os olhos com uma colher. Rodrigo não hesita em entregar a sua amante a um velho em troca de voto.  Há uma edição em capa dura que reúne os quatro volumes.


Nos volumes “Poder e Incesto”, “As Chamas da Fogueira” e “Tudo é Vaidade” acompanhamos personagens como Leonardo da Vinci seduzido por César Bórgia com seu próprio corpo para convencer o pintor a desenhar máquinas de guerra e o filósofo Nicolau Maquiavel aconselhando César na guerra contra a França contra o rei francês Carlos VIII. É ilustrada também a campanha do dominicano Girolamo Savonarola que levou Florença ao que ficou conhecido como Fogueira das Vaidades convencendo fiéis a queimar todos os objetos de arte e luxo, terminando por ser condenado à fogueira.


12- UM MOMENTO DE LOUROS VERDES - Terceiro livro que li do escritor, ensaísta e dramaturgo norte-americano Gore Vidal. Este livro foi lançado nos anos 50 quando o autor tinha 20 anos. Dos sete contos, gostei especialmente do “Troféu Zenner”, que tenho certeza que inspirou Caio Fernando Abreu a escrever Aqueles Dois, do seu livro Morangos Mofados. Nos dois contos, a homossexualidade dos personagens nunca é citada, mas eles são expulsos do colégio e da repartição devido ao seu afeto mútuo suspeito. Ambos os finais são inesquecíveis. O do conto de Caio: “Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram”. E o do conto de Vidal: “Ofuscado pelo clarão do sol, ele [o professor que expulsa os rapazes], atravessou o quadrângulo, cônscio de que nada havia que pudesse fazer”.

13- SE A RUA BEALE FALASSE – Segundo livro que li do norte-americano, ativista gay e militante negro James Baldwin após o maravilhoso O Quarto de Giovanni.  Este segundo livro teve adaptação para o cinema que deu o Oscar e o Globo de Ouro à atriz Regina King. História de Tish que se descobre grávida do noivo Fonny, preso injustamente pelo estupro de uma porto-riquenha. A mãe de Fonny viaja a Porto Rico para confrontar a suposta vítima do estupro, ela também uma vítima do sistema, cena que no demonstra o enorme talento de Regina King. Os protagonistas negros enfrentam o peso do racismo sistêmico da polícia e do Judiciário: “Acho que não tem um branco neste país que não fique de pau duro ao ouvir um preto gemendo de dor”, diz o atormentado Fonny.

14- O MINISTÉRIO DA FELICIDADE ABSOLUTA - Segundo livro que li da autora e ativista indiana Arundhati Roy mas que não me encantou tanto quanto o seu livro de estreia: “O Deus das Pequenas Coisas”. Neste segunda obra, a autora traça uma teia intrincada envolvendo uma mulher transgênero muçulmana, uma criança abandonada que quer ser chamada de Saddam Hussein e uma jovem perseguida por sua luta pela libertação da Caxemira, entre vários outros personagens numa ode aos excluídos da Índia, retrato das violações de direitos humanos em todos os terríveis aspectos do país. O livro reflete que num país com 300 milhões de deuses, a banalidade e naturalidade das doenças, da fome, corrupção, torturas, guerras civis, mendicância, filas gigantescas em hospitais imundos, cemitérios habitados por indigentes... são tão naturais que não chamam mais atenção, como uma paisagem que sempre esteve lá. 

15- SHALIMAR, O EQUILIBRISTA – O 10º livro que li de Salman Rushdie e que curiosamente aborda o mesmo tema do livro da sua conterrânea Arundhati Roy: os conflitos na Caxemira. Como sempre, Rushdie dá um show sem se desviar do seu característico humor fino, tornando este um dos seus melhores trabalhos. Uma história épica de amor e vingança em meio a revoluções, atentados políticos, xenofobia, limpezas étnicas e tabus religiosos que transcorrem em sessenta anos no século XX. O relato tem início com a paixão súbita e proibida de um embaixador americano na Índia por uma bela dançarina da Caxemira, o que desencadeia acontecimentos trágicos.

16 - A CASA DOS ESPÍRITOS – Primeiro livro que li da chilena Isabel Allende e seu maior sucesso. Confesso que por muito tempo tive um preconceito mal justificado pelas obras da autora mas, felizmente acabei com isso e fiquei apaixonado pela sua escrita. O livro trata de três gerações de uma família movida pelo amor, ódio e pela vingança, uma saga familiar que se mescla com a turbulência política em um país latino-americano não identificado. Uma frase do protagonista Esteban Trueba resume o espírito dramático e sociológico da possibilidade de revolução: “O marxismo não tem a mínima possibilidade na América Latina, pois não contempla o lado mágico das coisas. É uma doutrina ateia, prática e funcional. Não pode ter êxito aqui”. 

17- A ARTE DA GUERRA- De Sun Tzu. Confesso que não sei por que li esse livro, já que o não me interessa. Minto. Li porque ele é citado em tantos filmes e  obras da cultura pop que achei que precisava ter uma opinião. Obra clássica do pensador chinês Sun Tzu, escrita mais de 500 anos antes de Cristo, é considerado o mais perfeito manual estratégico para conflitos armados, mas que pode ser aplicado em outras áreas da vida, tendo se transformado num tratado sobre planejamento e liderança e virado uma febre entre os empreendedores modernos e até esportistas e artistas. Introduzido no Japão antes do século I, desempenhou grande um papel na unificação do país. O próprio Napoleão Bonaparte usou os ensinamentos nas suas guerras contra o resto da Europa. 


18 - POESIA REUNIDA – De Martha Medeiros. Nunca tinha lido nada dessa autora gaúcha que já vendeu mais de um milhão de livros no Brasil e é considerada uma das nossas maiores cronistas. Este volume é uma seleção de poesias de seus quatro primeiros livros Strip-Tease, Meia-Noite e um Quarto, Persona Non Grata e De Cara Lavada, escritos entre 1985 e 1995. Fiquei agradavelmente surpreso com a descoberta dos textos dessa autora que tem uma profunda voz feminina com uma poesia direta, sensual e ao mesmo tempo simples e riquíssima. Exemplos: “fui vista em festas que nunca fui/esquiando na neve que nunca vi/falando com gente que sequer conheço/incrível como minha vida evolui/nas horas em que não me pertenço”. Ou em quase haicais como “fica o dito/pelo maldito” e “quando dou pra ti/sou mulher/quando dou por mim/solidão”.

 

 

 




6.12.22

OS BÓRGIAS

Há alguns dias, li essa série de quarto volumes de arte erótica criada pelo desenhista italiano Milo Manara, conhecido pelo seu traço voluptuoso, e que teve roteiro de um dos artistas multitalentos mais reconhecidos, o cineasta e poeta chileno Alejandro Jodorowsky.

A série tem excelente qualidade em papel couchê e aborda política religiosa, intrigas palacianas, conspiração pelo poder, luxúria e incesto, um fiel panorama da Igreja Católica durante a renascença italiana do final século XV.

Os quatro volumes são ricos em arte pornográfica e heresia, com diálogos crus  que devem causar calafrios em religiosos, mas não há nada nas imagens que não tenha acontecido nos quartos e salões nem tão secretos do Vaticano.

O volume 1: "Sangue Para o Papa" mostra o futuro papa Alexandre VI, ainda o poderoso cardeal espanhol Rodrigo Bórgia, tramando, subornando e matando seus adversários no conclave que ocorreu após a morte do seu predecessor, o Papa Inocêncio VIII, já famoso pela luxúria.

Os quatro filhos de Rodrigo Bórgia: Lucrécia, César, Giovanni e Jofre são cada um mais devasso e perigoso do que o outro e os desenhos dos corpos em combates físicos ou em relações sexuais em detalhes e cores vivas, são a marca registrada do desenhista Milo. 

A história dos Bórgias já foi adaptada para tv pelo diretor Neil Jordan (de Entrevista com o Vampiro, Fim de Caso e Traídos Pelo Desejo, este último que lhe rendeu dois Oscars como diretor e roteirista) com o ator Jeremy Irons interpretando o papa Alexandre VI. O escritor Victor Hugo também escreveu uma peça adaptada para a Ópera de Donizetti: Lucrezia Borgia

É chocante acompanhar o frenesi de violência de Rodrigo Bórgia que manda cortar os pênis de 150 frades amantes do belo cardeal Júlio Rovere, seu concorrente ao papado, além de matar o filho de outro cardeal arrancando-lhe os olhos com uma colher. Rodrigo não hesita em entregar sua própria amante a um velho em troca de voto.

Os volumes seguintes são: “Poder e Incesto”, “As Chamas da Fogueira” e “Tudo é Vaidade”, onde acompanhamos personagens como Leonardo da Vinci, seduzido por César Bórgia com seu próprio corpo para projetar suas máquinas de batalha e o filósofo e político Nicolau Maquiavel aconselhando César na guerra contra a França liderada pelo rei Carlos VIII. 

Uma das história que sempre me impressionaram e que está contemplada na série é a guerra aberta do icônico padre dominicano Girolamo Savonarola, inimigo do papa, que levou Florença ao que ficou conhecido como A Fogueira das Vaidades, que levou centenas de fiéis a queimarem, em um verdadeiro frenesi, todos os seus objetos de arte e de luxo, terminando por levar o próprio Savonarola a ser condenado pelo papa à fogueira. É curioso que o termo Savonarola passou a ser utilizado como adjetivo para qualificar pessoas fanáticas, já tendo sido usado para designar o presidente Jair Bolsonaro.

Fiquei fã da arte de Milo Manara, que não conhecia. Agora já quero muito ler sua biografia ilustrada do pintor italiano Caravaggio, mestre supremo do chiaroscuro renascentista. Também me interessei pelo jogo Assassin's Creed em que Lucrécia é uma antagonista ao lado de César e do pai Rodrigo. O jogo retratada abertamente a relação incestuosa entre os irmãos César e Lucrécia. 



27.11.22

UM MOMENTO DE LOUROS VERDES

Este foi o terceiro livro que li (após Criação e Ao Vivo do Calvário) e o primeiro livro de contos de autoria do romancista,  ator, tradutor, ensaísta e dramaturgo norte-americano Gore Vidal. 

Este livro, esgotado no Brasil, foi lançado nos anos 50 quando o autor estava com pouco mais de 20 anos. Ele era de uma família rica de políticos famosos, assumidamente homossexual, analista brilhante e que chegou a ser candidato ao senado nos EUA. 

Dos sete contos deste livro, que de um modo ou outro tratam do tema da homossexualidade, gostei especialmente de três: “O Papo Roxo” tem um final belíssimo sobre a perda brusca da inocência de duas crianças que tentam com dificuldade matar um pássaro que sofria com uma asa quebrada “Ficamos ali parados de pé muito tempo, sem olhar um para o outro, com a pilha de pedras entre nós. O sol brilhava, esplêndido. Nada havia mudado no mundo, mas, de súbito, sem uma só palavra e no mesmo momento, ambos começamos a chorar.”

O conto “Três Estratagemas” que se passa no litoral da Flórida, conta a história de um americano viúvo, aposentado, de meia-idade e com dentes postiços que passa os dias ociosamente tomando sol e bebendo rum enquanto aborda belos rapazes na praia: “É preciso ser prático. Não é POR QUE recebemos certas atenções e sim as atenções em si mesmas” e o fato de os rapazes que ele aborda não terem dinheiro lhe é conveniente: “Não é pior a pessoa ser amada por seu dinheiro do que por algo tão espúrio e efêmero quanto a beleza”.

Mas o conto mais bonito é “O Troféu Zenner”, publicado em 1950 e que, tenho certeza, inspirou o escritor Caio Fernando Abreu a escrever Aqueles Dois, conto publicado no seu livro Morangos Mofados, de 1982. Tanto no conto de Vidal quanto no de Caio Fernando, a homossexualidade dos personagens nunca é citada, mas nos dois casos eles são expulsos do colégio e da repartição devido ao seu suspeito afeto mútuo. Até seus nomes são curiosamente semelhantes: Sawyer e Flynn e Saul e Raul.

Nos dois contos os personagens são tão masculinos que por não demonstrarem qualquer aparência estereotipada, surpreendem a todos pelo carinho deles. Tanto Gore Vidal quanto Caio Fernando Abreu fazem seus ‘heróis’ darem a volta por cima após a expulsão, como um tipo de redenção, o que é surpreendente no caso de Vidal que tem uma famosa veia cínica. 

Ambos os finais são inesquecíveis. O do conto de Caio Fernando Abreu: “Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz. Quase todos tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram”. E o do conto de Vidal: “Ofuscado pelo clarão do sol, ele [o professor que expulsa os rapazes], atravessou o quadrângulo, cônscio de que nada havia que pudesse fazer”.


26.11.22

O MINISTÉRIO DA FELICIDADE ABSOLUTA e O DEUS DAS PEQUENAS COISAS

O primeiro livro que li da autora e ativista indiana Arundhati Roy foi seu livro de estreia: O Deus das Pequenas Coisas que trata do amor proibido entre pessoas de castas diferentes na Índia. Fiquei tão encantado pela maneira sensível da autora contar a história, que a incluo nos meus livros favoritos da vida toda. A obra deu a Roy o privilégio de ser a primeira pessoa indiana a vencer o Man Booker Prize, a mais importante láurea literária do Reino Unido.

No seu segundo livro, O Ministério da Felicidade Absoluta, Arundhati Roy traça, 20 anos após o sucesso de O Deus das Pequenas Coisas, uma teia intrincada envolvendo Anjun, uma mulher transgênero muçulmana (uma hijra), uma criança abandonada que quer ser chamada de Saddam Hussein e uma jovem arquiteta perseguida pela sua luta pela libertação da Caxemira, entre vários outros personagens interessantíssimos numa ode aos excluídos da Índia, pungente retrato das discriminações e violações de direitos humanos em todos os possíveis e terríveis aspectos do seu país.

Se sua primeira obra, que é o maior best-seller indiano, levou a autora a responder a um processo por “obscenidade”, esse segundo livro lhe rendeu ameaças de morte por retratar criticamente o conflito na Caxemira. Um parlamentar indiano propôs que Roy fosse utilizada pelo exército como escudo humano. 

Em um dos trechos, repleto de dolorosa ironia, ela escreve: “Nada assustava mais aqueles assassinos do que a perspectiva de azar. Afinal, era para afastar o azar que os dedos a segurar espadas cortantes estavam cobertos de pedras da sorte e que os pulsos brandindo cassetetes de ferro estavam adornados com fios vermelhos amorosamente amarrados por mães zelosas”.

O livro reflete que num país com 300 milhões de deuses, a banalidade e naturalidade das doenças, da fome, corrupção, torturas, guerras civis, mendicância, acidentes de trem, filas gigantescas em hospitais imundos, cemitérios habitados por indigentes, vazamentos de gás, mutilações... são tão naturais que não chamam mais atenção, como uma paisagem que sempre esteve lá. Em outro trecho ela consegue trazer um pouco de humor negro, como quando diz: “Depois de uma festa, elas resolveram andar um pouco e tomar o ar fresco. Naquela época, havia algo como ar fresco na cidade”.

Talvez o leitor brasileiro menos informado sobre a conflituosa história da Índia, não aproveite tanto os capítulos em que a autora trata das guerras da Caxemira e os conflitos civis envolvendo indianos, muçulmanos paquistaneses e aguerridos caxemires, realmente com muitas informações que não estamos acostumados, mas é reconhecível por qualquer um o drama da discriminação sofrida pelas pessoas trans em praticamente todo o mundo: “Em urdu, a única língua que ela conhecia, todas as coisas – tapetes, roupas, livros, canetas, instrumentos musicais, tinham gênero. Tudo ou era masculino ou feminino. Tudo, menos seu bebê. Sim, ela sabia que havia uma palavra para os iguais a ele: 'hijra'. Duas palavras, na verdade: 'hijra' e 'kinnar'. Mas duas palavras não fazem uma língua”.

Surpreende também que apesar de tudo, a obra consiga ter tanto humor fino em meio aos horrores, um respiro para que o leitor consiga avançar pelas tragédias como em momentos em que descreve os hábitos das mulheres trans: “Ela aprendeu a se comunicar com a assinatura hijra de bater palmas com os dedos estendidos, como um tiro, e que podia significar qualquer coisa – sim, não, talvez, a piroca da sua irmã, você nasceu pelo cu. Só outra hijra era capaz de decodificar o que significava especificamente o estalo específico, naquele momento específico”.

SE A RUA BEALE FALASSE e O QUARTO DE GIOVANNI

Na década de 1980, emocionado, li O Quarto de Giovanni, publicado em 1956 pelo norte-americano, ativista gay e militante negro James Baldwin, livro que conta a história intensa e tristíssima do amor do jovem garçom italiano Giovanni e do norte-americano David, um complicado bissexual numa Paris do pós-guerra.

O livro, lançado originalmente no Brasil com o título resumido de Giovanni, mexeu tanto comigo que o reli muitas vezes ao longo dos anos, sempre com imensa pena por nunca mais ter a chance de poder lê-lo pela primeira vez. 

Vários dos meus amigos foram obrigados a ler a minha cópia mas, infelizmente, preciso admitir que nenhum deles teve um décimo do meu entusiasmo. Cheguei mesmo a considerar romper uma das amizades quando o meu então amigo leitor declarou sua torcida pelo personagem mais odioso do livro.

Em 1986, tive o privilégio de assistir sozinho à peça homônima, apresentada uma única vez em Salvador pelos então atores globais Caíque Ferreira e Hugo Della Santa, ambos vitimados pela AIDS dois anos depois. Foi a primeira vez que fui sozinho ao teatro e lembro que chorei muito no final.


Muitos anos depois de ter lido O Quarto de Giovanni, acabo de ler outra obra de Baldwin: Se a Rua Beale Falasse, de 1974, quinto livro do autor e cuja adaptação para o cinema deu o Oscar e o Globo de Ouro à atriz Regina King.

O livro se passa no bairro negro do Harlen em Nova Yorque e conta a história de Tish que aos 19 anos se descobre grávida do noivo Fonny, um escultor negro preso injustamente pelo estupro de uma porto-riquenha. Tish, a narradora, fará de tudo para libertar Fonny, cuja mãe Sharon viaja até Porto Rico para confrontar a suposta vítima do estupro que também é, a seu próprio modo, outra vítima do sistema. É uma cena intensa e que, no filme, demonstra o enorme talento da premiada Regina King.

A história tem o mérito extra de ser escrito por um homem, mas que tem como narradora uma moça negra grávida, o que demonstra uma imensa sensibilidade do autor de narrar a história sob o ponto de vista de uma jovem numa condição impossível de ser plenamente sentida por um homem.


Fonny, Tish e suas famílias e amigos, enfrentam o peso do racismo estrutural e sistêmico da Polícia e do Judiciário. Em um desabafo, Fonny diz: “Acho que não tem um branco neste país que não fique de pau duro ao ouvir um preto gemendo de dor”.

Tanto em O Quarto de Giovanni quanto em Se a Rua Beale Falasse, James Baldwin trata de temas espinhosos, como homofobia e racismo internalizados. No primeiro livro, publicado mais de uma década antes da Revolta de Stonewall, catalizadora dos movimentos LGBT, Baldwin aborda no subtexto a discriminação sexista interna entre homens bissexuais, que, mesmo vítimas do patriarcado heteronormativo, se consideram superiores aos gays afeminados, às drag queens e às mulheres trans graças à sua passibilidade heterossexual,

Já no segundo livro, além da discriminação sofrida pelos negros, alguns dos personagens têm que enfrentar, dentro do seu próprio núcleo familiar, um preconceito hoje conhecido como colorismo, em que alguns negros se julgam melhores do que outros por serem menos escuros.

O Quarto de Giovanni e Se a Rua Beale Falasse merecem ser lidos tanto por negros quantos gays, mas muito também por aqueles leitores que, não pertencendo a nenhuma dessas categorias, têm a corajosa empatia para tentar conhecer um pouco do drama pelo qual essas pessoas passam.

26.9.22

LEITURAS DE JUNHO A SETEMBRO



A cada ano publico a lista de livros lidos entre Janeiro a Maio, Junho a Setembro e Outubro a Dezembro. A primeira parte dos lidos deste ano já está publicada aqui no blog. Foram 21 lidos nos primeiros cinco meses do ano e outros 21 nessa segunda parte do ano, totalizando 42. Foram 18 físicos e 24 e-books.

Tenho procurado ler mais livros de autoras mulheres e finalizei as duas partes desse ano com a leitura de 10 livros das escritoras: Mary Shelley (Frankenstein),  Jane Austen (Mansfield Park), Lisa Hilton (Elizabeth I), Léa Messina (100 Autores Que Você Precisa Ler), Philippa Gregory (A Filha do Fazedor de Reis), Shirley Jackson (A Assombração da Casa da Colina), Margaret Atwood (Os Testamentos), Virginia Woolf (Rumo ao Farol), Harper Lee (Vá, Coloque um Vigia) e Liane Moriarty (Pequenas Grandes Mentiras).

Eis os 21 lidos de Junho a Setembro.


1
-UM HOMEM SÓ - Clássico da literatura moderna de Christopher Isherwood, aborda o envelhecimento e a solidão de um homem gay, um professor inglês na Califórnia dos anos 1960 após a morte trágica de seu jovem parceiro.  Publicado pela primeira vez em 1964, o livro chocou leitores com seu retrato franco de um homem gay na maturidade.  Uma narrativa comovente sobre amor e solidão com prefácio do escritor e ativista João Silvério Trevisan. Foi adaptado para o cinema com Colin Firth (indicado ao Oscar pelo papel) e Julianne Moore no elenco. Escrevi um texto inteiro sobre o livro no blog.

2-NO CAMINHO DE SWAN- Livro inicial da colossal empreitada de 7 volumes da série Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.  Obra prima que todos deveriam ler um dia na vida, mas que são difíceis pela complexidade do tema e do estilo. Li para poder ler o capítulo sobre ele da obra Lições de Literatura, de Vladimir Nabokov (texto abaixo), o que foi um excelente motivo para começar a ler Proust que cria dezenas de personagens e ambientes da França do início do século XX e trata da memória como visão filosófica do tempo com as recordações intercalando o passado e o presente, o que tornou-se uma revolução para o romance em todos os  tempos.

3-LIÇÕES DE LITERATURA - O autor russo Vladimir Nabokov, após migrar da Rússia para os EUA ensinou literatura em universidades antes do sucesso do seu livro Lolita.  Os manuscritos das suas aulas foram publicados em dois volumes e neste ele examina os clássicos Mansfield Park (Jane Austen), A Casa Soturna (Charles Dickens), O Médico e o Monstro (Robert Louis Stevenson) e No Caminho de Swann (Marcel Proust). Li os quatro livros para poder ler depois os capítulos sobre eles. Nabokov também analisa Madame Bovary (Gustave Flaubert) e A Metamorfose (Franz Kafka), que eu já havia lido antes, além  de Ulysses, de James Joyce, livro para o qual ainda não reuni coragem suficiente para ler.

4-NÓS - Escrito pelo dissidente russo Iêvgueni Zamiátin, esta é a distopia original que inspirou os clássicos: Admirável Mundo Novo, 1984, Laranja Mecânica, Fahrenheit 451, O Conto da Aia e Jogos Vorazes. Relançado no Brasil após ter estado esgotado por anos, em uma edição de luxo, acompanhada de resenha escrita por George Orwell e uma carta do próprio autor a Stálin pedindo para sair da União Soviética, onde todas as suas publicações estavam sofrendo perseguição política. O livro descreve um governo totalitário que privou a população de direitos fundamentais como individualidade e liberdade de expressão até que um engenheiro começa a duvidar das suas convicções ao conhecer uma mulher que o contamina com a doença chamada imaginação.

5-UM ESTUDO EM VERMELHO- Primeiro livro de Arthur Conan Doyle em que o autor introduz o detetive mais popular da literatura mundial Sherlock Holmes. Publicado em 1887, nessa primeira história, Holmes conhece seu melhor amigo Watson. A polícia de Londres pede auxílio a Holmes para desvendar um crime: um homem é encontrado morto, sem ferimentos e cercado de manchas de sangue com expressão de pavor no rosto. Na segunda parte do livro é apresentada a curiosa vida dos Mórmons no interior dos EUA e os motivos iniciais que levaram o assassino a cometer o crime.

6-O SINAL DOS QUATRO – Segundo volume das histórias do Sherlock Homes, também encontrado com o título de O Signo dos Quatro, traz o famoso detetive como sempre autoconfiante e atraído pelas agruras da cliente Mary Morsan, uma bela mulher atormentada por um passado nebuloso. O curioso é que Watson conhece nessa história a futura esposa que irá aparecer nos livros seguintes. Aqui encontramos uma aventura cheia de elementos dramáticos, uma caça ao tesouro com direito a um pigmeu e um pirata com perna de pau, terminando em uma caçada desesperada com perseguição de barco pelo Tâmisa. Aqui vemos Holmes lutando contra o seu vício em cocaína.

7-AVENTURAS DE SHERLOCK HOLMES Terceiro volume das histórias de Arthur Conan Doyle, esse livro reúne os doze primeiros contos de Sherlock Holmes, publicados originalmente com enorme sucesso na década de 1890 na revista britânica Strand Magazine. Entre esses contos estão as histórias mais conhecidas como A Liga dos Cabeças Vermelhas, Escândalo na Boêmia, O Diadema de Berilos e A Banda Malhada. Uma ótima maneira de se aventurar junto com o famoso detetive de Baker Street por histórias mais rápidas mas igualmente instigantes.

8-MEMÓRIAS DE SHERLOCK HOLMES - Outro livro de contos de Holmes, assim como o anterior, com doze histórias entre elas Silver Blaze (sobre o desaparecimento de um cavalo de corrida), A Caixa de Papelão (sobre uma caixa misteriosa contendo duas orelhas), O Ritual Musgrave (sobre o desaparecimento o mordomo de um amigo de Holmes), O Intérprete Grego (envolvendo um poliglota grego e sequestro onde pela primeira vez aparece Mycroft, o irmão mais velho de Holmes) e O Problema Final (na qual Doyle, cansado do detetive, mata Holmes. Depois ele o “ressuscitaria” devido à insistência dos fãs e da editora. Aqui conhecemos o Professor Moriarty famoso arqui-inimigo de Holmes).

9-A FILHA DO FAZEDOR DE REIS – Primeiro livro que li da autora Philippa Gregory, famosa pelos romances históricos adaptados para as telas.  Quarto livro da autora sobre a Guerra das Duas Rosas (já li vários livros sobre o tema e nunca me canso deles). Novamente uma protagonista feminina: a filha do Conde de Warwick, o conhecido “Fazedor de Reis”, o homem mais poderoso da Inglaterra no século XV. Sua filha Anne se torna uma mulher corajosa ao acompanhar o pai numa guerra contra o rei da Inglaterra que pôs o herdeiro de Henrique VI no trono, com quem Anne é casada. Após a morte do rei, ela se casa com o futuro rei Ricardo III, assassino do seu ex-marido.

10-ASSOMBRAÇÃO DA CASA DA COLINA - Primeiro livro que li de Shirley Jackson e considerado um clássico de histórias de casas mal assombradas. Tenho que dar razão a Stephen King que afirmou: “Essa é a história de casa mal-assombrada mais próxima da perfeição que eu já li.” Adaptado pela Netflix na série A Maldição de Hill House. “A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta. Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho”.

11-AS CZARINAS, AS MULHERES QUE FIZERAM A RÚSSIA – Após ler onze livros seguidos de ficção, consegui encaixar uma história de biografias para dar uma respirada. Aqui, um tema que adoro desde que li Os Romanov, do premiado historiador Simon Sebag Montefiore. As czarinas, escrita pelo historiador e diplomata russo, Vladimir Fedorovski, aborda a história da Rússia não pelos nomes e feitos dos czares, mas pela atuação das várias mulheres que estavam no poder ao longo de muitas décadas. As czarinas russas têm histórias repletas de rivalidades, conspirações, traições e assassinatos e é surpreendente que tão poderosas mulheres comandassem os destinos de um país tão grandioso, machista e conservador.

12-TROCAS MACABRAS - 41º livro que li do metre Stephen King.  Li numa edição capa dura de luxo da editora Suma de Letras com 650 páginas. Estamos de volta à cidadezinha de Castle Rock, cenário  de outros livros do autor onde uma nova loja de nome “Artigos Indispensáveis”, é aberta e dirigida por um estranho homem: Leland Gaunt, que se tornou um dos maiores vilões de King. Para cada cliente, Gaunt tem algo perfeito por um preço camarada. Mas, junto com a pechincha, há um pedido estranho e o que começa com aparentes pegadinhas inocentes sai do controle e transforma a cidade em palco de mortes brutais. Na adaptação para as telas temos Ed Harris e Max von Sydow nos papéis principais.

13-CAÇANDO CARNEIROS – 6º livro que li do escritor japonês Haruki Murakami. Escrevi um texto só sobre este livro no blog. A obra tornou o autor famoso mundialmente e confesso que não gostei do livro, assim como não havia gostado da leitura anterior “Kafka à Beira-Mar”. Aqui temos uma espécie de thriller em que um protagonista insosso e sem nome recebe um telefonema estranho, conhece pessoas inesperadas, parte para uma jornada em busca de pistas sobre um carneiro desaparecido no meio rural do Japão e acaba descobrindo a si mesmo, como acontece em toda road story.

14-OS TESTAMENTOS Continuação do excelente O Conto da Aia, obra-prima distópica da canadense Margaret Atwood, de quem eu já havia lido o excelente Vulgo Grace, também adaptada para as telas. Escrito quinze anos após O Conto da Aia, ainda estamos na teocrática República de Gilead, mesmo após tentativas de insurgência. Aqui, temos as histórias de três mulheres que irão se encontrar de modo explosivo. Uma delas cresce em Gilead, filha de um Comandante e outra, no Canadá, participando de protestos contra Gilead. Os testamentos dessas duas jovens são entrelaçados pelo revelador manuscrito da mais implacável executora do regime, a odiosa Tia Lydia, cuja obra de terror já vimos no livro anterior.

15-O TELEFONE PRETO E OUTRAS HISTÓRIAS – Terceiro livro que li do ótimo Joe Hill, filho de ninguém menos do que Stephen King. Os anteriores foram A Estrada da Noite e NOS4A2 (Nosferatu), que virou série com duas temporadas. Este livro de contos foi publicado anteriormente sob o título Fantasmas do Século XX. O conto que dá título à nova edição recentemente foi adaptado sem muita inspiração para o cinema com Ethan Hawke como o vilão que sequestra e mata crianças. O The Washington Post considerou Hill um dos "maiores escritores de ficção fantástica do século XXI". Aqui temos 16 contos sendo que alguns são excepcionais, como Melhor Estreia de Terror, Fantasmas do Século XX, Os Filhos de Abraham, O Café da Manhã da Viúva e Internação Voluntária.

16-RUMO AO FAROL Segundo livro que li de Virginia Woolf após Mrs. Dalloway. A história uma família que passava as férias de verão em uma casa de praia de onde avistava o farol da ilha próxima.  Não é um livro fácil já que é narrada em fluxo de consciência e discurso indireto livre: “Na sala em ruínas, pessoas em piquenique teriam aquecido suas chaleiras; amantes teriam ali buscado abrigo, deitados nas tábuas nuas; e o pastor teria guardado sua comida em cima dos tijolos caídos, e o vagabundo teria dormido enrolado no casaco para se proteger do frio. Então teto teria caído; urzes e cicutas teriam fechados os corredores, os degraus e as janelas; teriam crescido desigual, mas luxuriosamente, sobre o entulho, até que um intruso, tendo se perdido, poderia ter dito, apenas por causa de um lírio-tocha misturado às urtigas, ou um caco de porcelana no meio das cicutas, que aqui, alguém, uma vez vivera”.

15-VÁ, COLOQUE UM VIGIA- Segundo romance de Harper Lee, ambientado duas décadas depois de sua obra-prima O Sol é Para Todos. Estamos nos anos 1950 em meio à questão da segregação racial. Para grande surpresa de todos que esperaram anos por uma segunda obra de Harper Lee, que após o sucesso do primeiro e premiado livro jamais escreveu outro por 65 anos, vemos uma surpreendente abordagem sobre os personagens que aprendemos a amar: “Se um homem diz ‘essa é a verdade’ e você acredita, mas depois descobre que é mentira, fica desapontada e toma cuidado para nunca mais ser enganada por ele. Mas quando você se decepciona com um homem que sempre se pautou pela verdade – e em cuja maneira de encarar as coisas você acreditava -, você não fica apenas ressabiada, fica sem nada.”

18-ME ENCONTRE- Terceiro livro de André Aciman e continuação de “Me Chame Pelo Seu Nome” (premiado no cinema com o Oscar de melhor roteiro adaptado). Os personagens do primeiro livro, Elio, seu pai Samuel e seu primeiro amor Oliver estão de volta às páginas. Samuel, a caminho de Roma para encontrar seu filho que se tornou um pianista renomado.  Elio se muda para Paris, onde vive mais um romance, enquanto Oliver, pai de família e professor nos EUA, planeja reencontrar o amor do passado na Europa. O livro está muito distante da beleza do primeiro e há até mesmo uma falha temporal levando-se em conta os acontecimentos narrados no segundo livro, Variações Enigma, onde Elio e Oliver se encontraram, mas que aqui o autor passa batido por esse detalhe.

19- RAVENSPUR – Quarto livro que li do britânico Conn Iggulden sobre a icônica Guerra das Rosas envolvendo os descendentes da família de reis Plantagenetas da Inglaterra (os ramos York, Lancaster e Tudor). Continuação dos volumes: Pássaro da Tempestade, Trindade e Herança de Sangue que li no ano passado. Neste quarto volume, acompanhamos o rei Eduardo IV ser expulso da Inglaterra enquanto esposa e filhos se refugiam para se escapar dos Lancaster. Eduardo retorna com um poderoso exército e recupera a coroa. Mas Henrique Tudor irá reivindicar o trono, levando a uma das batalhas mais sangrentas e resultando na morte seguida de três reis. O autor é elogiado por duas outras séries que pretendo ler: O Imperador, sobre Júlio Cesar, e O Conquistador, sobre Genghis Khan, ambos com cinco volumes cada.

20-UM SONHO FEBRIL- O primeiro livro que li de George R.R. Martin fora dos seus 7 volumes da série Game of Thrones e dos 9 volumes da série Wild Cards. Aqui uma reinvenção original das histórias de vampiros que se passa no meio do século 19 no sul escravagista dos EUA. O falido capitão de navios a vapor Abner Marsh recebe uma oferta de sociedade do rico aristocrata Joshua York para construção do belíssimo e potente Sonho do Fevre. A embarcação navega pelo rio Mississipi deixando pelo caminho uma coleção de histórias sombrias com interessantíssimas discussões sobre o que nos torna como seres humanos não tão diferentes assim dos vampiros que tratam a humanidade do mesmo modo como tratamos os animais e os negros escravizados.

21- PEQUENAS GRANDES MENTIRAS
- Primeiro livro que li da escritora Liane Moriarty e adorei, mas teria apreciado mais se já não tivesse assistido à série Big Little Lies com duas temporadas na HBO e soubesse o grande final. Muito bem escrita e focada na amizade de três mulheres fortes com filhos na mesma escola primária. Madeline (na série vivida por  Reese Witherspoon) está no segundo casamento e arrasada porque a filha do primeiro relacionamento decidiu morar com o pai que as abandonou na infância. Celeste (na série, Nicole Kidman) mãe de gêmeos e com um marido que promove frequentes abusos físico e mental, e Jane uma jovem mãe solteira que tem o filho, fruto de uma violência sexual. O livro é narrado em dois tempos alternados. Já sabemos que houve uma morte mas não quem morreu nem como até o final.