25.1.19

JERUSALÉM A BIOGRAFIA


A primeira vez que ouvi falar deste livro foi no Manhattan Connection, onde o autor Simon Sebag Montefiore foi incensado pelo lançamento de outra obra monumental: “Os Romanov”, a história de 300 anos da dinastia dos czares russos. Dei logo um jeito de devorar as mais de 900 páginas dos Romanov e até escrevi uma entusiasmada resenha no blog.

Os críticos rasgaram elogios à ambiciosa empreitada de Montefiore de escrever uma verdadeira biografia da cidade santa de Jerusalém e seus mais de 3.000 anos de história. Atirei-me sobre as 640 páginas do livro, convencido de que a história de Jerusalém não seria menos impressionante do que a história dos Romanov.

Acabo de encerrar a leitura que poucas vezes consegui interromper, frequentemente adentrando madrugadas. A obra é acompanhada de mapas dos diferentes períodos históricos passados por Jerusalém, dezenas de fotografias e árvores genealógicas das dinastias que dominaram a região desde os primeiros cananeus, sacerdotes e reis judeus de Davi e Salomão até Herodes, cristãos levantinos, papas, cruzados europeus, egípcios, persas, assírios, babilônios, gregos, romanos, patriarcas ortodoxos russos, árabes e sultões otomanos.

Simon Montefiore levou anos na pesquisa para o livro explicando que tal tempo foi necessário por não desejar criar uma obra seca para acadêmicos. Queria vida no livro e decidiu que deveria não somente se ater aos fatos históricos, mas tratar Jerusalém como uma personagem em si. Por isso deveria ser uma biografia da cidade e suas pessoas, quase um romance. Acabou criando um épico!

Lá estão todos aqueles personagens históricos que conquistaram, destruíram ou edificaram os lugares sagrados de Jerusalém. Todos os reis e profetas, sultões, paxás, czares, imperadores e homens santos e suas guerras sangrentas e conflitos religiosos. Passaram pelas ruas da cidade e pelas páginas do livro Salomão, Ramsés, Abraão, Moisés, Jesus Cristo, João Batista, Herodes, Pilatos, Maomé, Cleópatra, Cesar, Marco Antônio, Nero, Calígula, Ciro, Alexandre, o Grande, Saladino, Rasputín, Ricardo Coração de Leão, Constantino, Napoleão...Cada um com um generoso espaço para brilhar nas páginas da biografia.

Jerusalém é retratada como a verdadeira arena sanguinolenta que é de disputa das três religiões monoteístas (o chamado povo d’O Livro), convivendo em tensão permanente em espaços sagrados como a Esplanada das Mesquitas dos muçulmanos, o Muro das Lamentações dos judeus e a Igreja do Santo Sepulcro dos cristãos latinos, coptas, armênios e gregos ortodoxos, esses últimos em eterna disputa fratricida interna.

O livro tem início com a conquista de Jerusalém pelo seu futuro rei Davi 1.000 anos antes de Cristo, quando o local não passava de uma antiga povoação sobre uma montanha onde os habitantes enfrentavam verões abrasadores e invernos gelados. O lugar acabou tornando-se em pouco tempo o palco previsto para o Juízo Final e um eterno campo de batalha das maiores civilizações, palco de fanatismos e intolerâncias.

Dezenas de vezes destruída e reconstruída, bombardeada e sitiada, Jerusalém é um barril de pólvora no meio do Oriente Médio cercada por todos os lados de inimigos como Egito, Arábia Saudita, Síria, Jordânia, Líbano, Irã, Iraque e Turquia.

A narrativa passa por períodos históricos, cada um deles capaz de preencher centenas de livros, como as duas grandes guerras mundiais, as Cruzadas, o holocausto, as guerras napoleônicas, até as renhidas disputas territoriais atuais, encerrando a obra com os fatos que geraram a partilha de Jerusalém após o reconhecimento da ONU em 1967, na icônica Guerra dos Seis Dias.
O autor Simon Montefiore em Jerusalém

Jerusalém é uma cidade que mexe tanto na estrutura psicológica de muitas pessoas que o British Journal of Psychiatry relatou que desde 1930 foi diagnosticado o que a Medicina nomeou “Síndrome de Jerusalém”. Trata-se de uma descompensação psicótica relacionada à excitação religiosa pela proximidade dos lugares santos.

Um dos muitos peregrinos que chegaram à cidade com essa ideia fixa foi o famoso escritor russo Nicolai Gógol que em 1848, entrou na cidade em elevado fervor religioso. Ele já era reconhecido internacionalmente pelas obra-primas O Inspetor Geral e Almas Mortas, mas acreditava que Deus estava bloqueando sua capacidade de escrever para punir seus pecados. Convenceu-se de que suas obras eram pecaminosas, destruiu seus manuscritos e jejuou até a morte.

Mas Jerusalém também era famosa pela vida mundana que acompanhava êxtases religiosos, com bairros inteiros dedicados à depravação e bordéis com adolescentes judias e europeias para todos os gostos ao ponto de tornarem-se focos de doenças venéreas, como narrou outro escritor famoso, o francês Gustave Flaubert, autor de Madame Bovary que se dedicou, em sua visita à cidade, a orgias monumentais como jamais vira na sua vida.

Se a visão de êxtase religioso de Gógol se opunha à de depravação sexual de Flaubert, a opinião de outro escritor famoso, o britânico vitoriano William Thackeray, autor do célebre A Fogueira das Vaidades, vai além, ao declarar estupefato: “Não há um único lugar para o qual se olhe em Jerusalém onde não tenha sido cometido algum feito violento, algum massacre, algum visitante assassinado, algum ídolo cultuado com ritos sanguinários”.

Jerusalém é um mosaico cultural intrincado, um caldeirão de guerras santas e paixões, de traições e matanças, de êxtases e espiritualidade, de misticismo e história. Tudo em maiúsculas, em abundância e misturado.  Por trás de cada pedra, de cada muro, de cada palavra há um mundo se descortinando.

Para quem gosta de história, o livro é um achado; para quem tem alguma fé, é essencial; e para quem quer entender a geopolítica atual, é obrigatório.

23.1.19

OBJETOS CORTANTES


Há alguns dias, assisti à minissérie Objetos Cortantes, em uma maratona da HBO. Foram oito capítulos, mas que, na metade, já me fizeram correr para uma livraria e comprar o livro homônimo da escritora Gillian Flynn.

Então se deu o seguinte dilema: ou eu assistiria à minissérie (e assim saberia o final da trama) ou leria o livro até o fim para mergulhar no drama da solitária jornalista Camille Preaker? Era uma “escolha de Sofia”, já que saber o final pela TV inviabilizou a perfeita fruição da experiência do livro. Assim, se você não puder ver a série, leia o livro. Ou vice versa. Não há como escolher um formato sem perder o impacto do outro.

Livro e série são um legítimo suspense policial em que a trama só se fecha na última cena — e nas últimas páginas —, quando revela quem matou e arrancou os dentes das duas garotinhas assassinadas do thriller. Ultima cena? Não. A revelação se dá durante a subida dos créditos do ultimo episódio. Brilhante!

Este foi o primeiro romance de Gillian Flynn, autora também do livro Garota Exemplar (Gone Girl), que teve premiada adaptação para o cinema com direção de David Fincher (de Seven, Clube da Luta e Zodíaco). Já a série Objetos Cortantes foi dirigida por Jean-Marc Vallée (indicado ao Oscar por Clube de Compras Dallas).

No papel principal de Objetos Cortantes está a ótima Amy Adams, com suas seis indicações ao Oscar, dois Globos de Ouro e mais sete indicações para o prêmio. Como coadjuvante de luxo, temos Patricia Clarkson como Adora, a mãe “vampira” da protagonista e que levou o Globo de Ouro e o Critics' Choice Award de melhor atriz coadjuvante.

Definir Objetos Cortantes como um thriller policial é reduzir demais o escopo da obra. Trata-se de um estudo existencial sobre a solidão e o desamor. 

É, para dizer o mínimo, inquietante acompanhar o vigoroso trabalho de Amy Adams na construção da jornalista Camille, eternamente à beira do colapso psicológico, tendo que lidar com os dramas do passado ao ser praticamente obrigada pelo chefe a elaborar uma série de reportagens sobre assassinatos brutais de duas adolescentes na cidadezinha de Wind Gap, não por acaso sua cidade natal, de onde ela conseguiu escapar anos antes, fugindo de uma relação tóxica (na falta de uma palavra mais forte) com sua mãe Adora, uma das megeras mais descaradamente vis e dissimuladas vistas nas telas.

Camille trás como herança da convivência com a mãe e com a cidade centenas de cortes em forma de palavras rasgadas nos braços, seios, tronco e pernas. A automutilação como válvula de escape e expiação física para a angústia emocional. Na falta das facas e navalhas, o álcool em abundância torna-se simulacro líquido para afogar a dor psicológica de Camille, com a vantagem se ser plenamente aceito e estreitamente ligado à ideia de socialização. É como se ela ecoasse as palavras de Frida Khallo: “Tentei afogar minhas mágoas, mas as malditas aprenderam a nadar”.

As cicatrizes do corpo de Camille estão cauterizadas, mas ao retornar a Wind Gap, os estigmas da alma recomeçam a sangrar. Em dezenas de flashbacks, vamos, aos poucos, adentrando o universo da Camille adolescente: a sensação de inadequação ao ambiente escolar, o abuso sexual a que se submetia como forma de conquistar afeto e o sofrimento e morte da meia-irmã Marian, pela qual se culpa, já que a mãe não hesita em lamentar que não tenha sido Camille a morrer no lugar da favorita. A certa altura Camille lamenta: “É impossível competir com os mortos, eu gostaria de parar de tentar”.

A protagonista encontra uma miríade de dificuldades ao tentar realizar as reportagens. A começar por um delegado indolente, uma população anestesiada com os crimes, oscilando entre a xenofobia pela possibilidade de o assassino ser um dos seus moradores e o desejo vulgar de virar notícia. Não fosse o suficiente, a mãe de Camille, a milionária Adora, boicota todo o tempo o trabalho, ora definindo a reportagem como de mau gosto, ora simplesmente impedindo os parentes das vítimas de falarem com a filha.

A cidadezinha de Wind Gap é praticamente um dos vilões da história, com sua atmosfera decadente, goticamente sufocante e soturna, com suas fazendas de porcos confinados e cujo sofrimento torna tais animais neuróticos e com desejo de morte. Não é à toa que publicações científicas definem os porcos como animais mais espertos que cães e com nível de inteligência similar ao dos os chimpanzés. Não por outra razão, Camille jamais conseguiu comer um presunto na vida após visitar os animais confinados em baias-prisões em uma das fazendas da mãe. É angustiante ler as descrições dos matadouros no livro. A série apenas tangencia esse aspecto.

Em meio a essas duas mulheres problemáticas em eterno embate, temos uma terceira não menos complexa: a meia-irmã de 13 anos Amma (a atiz Eliza Scanlen dando um show na série), rebelde, manhosa, eternamente nas piores companhias e em festas regadas a sexo e coquetéis de anfetaminas e maconha. Amma é também a fêmea alfa que domina uma galerinha insolente de ninfetas patinadoras.

Enquanto age como uma minimegera, a adolescente Amma é também vítima da mesma mãe superprotetora. Nesse caldeirão, Camille tem que lidar com a possibilidade de salvar Amma da vil Adora, como talvez não tenha conseguido fazer com a irmã Marian.

Um livro perturbador adaptado para uma série ainda mais intrigante. Como diz a autora em determinado momento: “Uma criança criada com veneno considera a dor um consolo”. Não deixe de ser uma testemunha privilegiada desse embate entre a apatia e a catarse.

13.12.18

WOLF HALL E O LIVRO DE HENRIQUE


Recentemente publiquei uma postagem comentando 10 livros sobre a história da dinastia inglesa dos reis Plantagenetas, da Inglaterra, escritos por Jean Plaidy. Continuando com livros sobre reis ingleses da Idade Média, quero falar sobre dois livros que li recentemente e que envolvem a dinastia seguinte à dos Plantagenetas: os Tudors, especialmente o rei Henrique VIII.

Tratam-se dos livros Wolf Hall e O Livro de Henrique, de autoria de Hillary Mantel, outra inglesa e que têm um mérito extra, uma vez que sua autora ganhou o prêmio mais importante da língua inglesa, o Booker Prize,  sendo a única mulher a ganhar o prêmio duas vezes, em 2009 e 2012, com as duas obras respectivamente, algo mais raro ainda por serem romances históricos. Espera-se para breve o final da trilogia, com o livro, ainda sem título em Português, que se chamará The Mirror and The Light.

O trabalho de Hillary Mantel é mais interessante porque, ao invés de dirigir sua narrativa para a vida do rei Henrique, ela torna o monarca quase coadjuvante, ao focar em Thomas Cromwell, um personagem sombrio e polêmico, talvez um dos mais inteligentes e hábeis manipuladores de toda História.

Em Wolf Hall, que custou cinco anos de intensa pesquisa para a sua autora, estamos nas primeiras décadas de 1.500. quando Henrique VIII está separado da sua primeira esposa, Catarina de Aragão, e o superpoderoso cardeal Wolsey cai em desgraça por não conseguir que o papa Clemente concedesse o divórcio para o rei. Henrique, que não tem herdeiros masculinos, se encanta pela ambiciosa Ana Bolena e para se casar com ela precisava da anulação do casamento anterior, lembrando que na Idade Média, os monarcas sofriam grande influência da Igreja Católica de Roma e um édito de excomunhão era a ameaça mais forte que o papa usava para impor seu poder.

Thomas Cromwell aparece para resolver esse problema com sua notável habilidade de manipulação após a queda do cardeal Wolsey, de quem fora secretário, e em seguida tramar a prisão e decapitação do chanceler seu rival Thomas More (famoso também como filósofo e autor do clássico livro Utopia).

No livro, acompanhamos a escalada de Cromwell desde criança quando foge dos espancamentos frequentes do pai violento e alcoólatra até surgir anos depois como homem de confiança do cardeal e seguimos o jogo de intriga, influência e poder, sempre sob a ótica do próprio Cromwell.  

Cromwell pintado por Holbein
É preciso se acostumar inicialmente com o estilo diferente de narrativa já que Hilary Mantel utiliza-se muitas vezes de diálogos quase cifrados, como seria comum em tramas complexas em que meias palavras são ditas e subtendidos são abundantes. Cromwell é tratado no livro por “ele”, o que demanda uma atenção do leitor, mas que logo o torna uma espécie de cúmplice privilegiado da teia traçada por Cromwell, a última pessoa no mundo que qualquer um quisesse ter como inimigo.

Neste livro, acompanhamos o sucesso do habilidoso Cromwell em levar adiante as reformas, tanto do parlamento quanto da igreja, a dissolução de mosteiros e de ordens religiosas, a sonhada anulação do casamento do rei com Catarina, o ostracismo e decadência da então rainha e sua herdeira Maria e a ascensão de Ana Bolena e sua ambiciosa família, que finalmente se casa com o rei, levando Cromwell a se tornar ainda mais influente rico e poderoso, acumulando simultaneamente cargos de conselheiro, barão, duque, arquivista mor, secretário geral e primeiro ministro.

Wolf Hall teve críticas entusiasmadas dos maiores periódicos do mundo. Segundo o The Observer: “É um livro belo e profundamente humano, um espelho negro pendurado sobre o nosso mundo. E o fato de a conclusão acontecer apenas depois de o pano cair só prova que Hilary Mantel é uma das nossas mais corajosas e brilhantes escritoras”. Para o The Times é simplesmente “O livro mais cativante que alguma vez você lerá”; o Daily Telegraph o saúda como “Um livro esplendidamente ambicioso”, enquanto o Guardian o trata como “Uma investigação envolvente e humana sobre o preço da ambição”.

Já a segunda parte da trilogia, O Livro de Henrique, tem o título original de "Bring Up the Bodies", algo como "tragam os corpos", que é a terminologia jurídica para que os réus fossem levados perante a corte para ouvir as acusações.

Aqui a manipulação de Cromwell a serviço do rei se volta contra Ana Bolena e sua agora poderosa família. A segunda esposa de Henrique também não lha dá um filho e sim outra filha, que no futuro viria a ser a rainha Elizabeth I. Após todo o esforço para conseguir a anulação do seu primeiro casamento, agora o rei perde o interesse por Ana Bolena e se volta para outra donzela, a meiga Jane Seymour, dama de companhia das duas rainhas anteriores. 

Ana Bolena passa a provar do próprio veneno e uma orquestração nos bastidores, envolvendo toda a família, a levam para o cadafalso e uma conspiração faz com que Cromwell forje as acusações que levam à decapitação dos vários dos seus supostos amantes, entre eles o seu próprio irmão George Bolena, acusado de incesto.

Henrique por Holbein
No cinema a história de Ana Bolena já foi contada nos filmes Ana dos Mil Dias de 1969 que premiou Geneviève Bujold no papel da rainha com o Globo de Ouro, tendo uma indicação ao Oscar e teve no papel do rei Henrique o ator Richard Burton. 

Em 1966 o filme O Homem Que Não Vendeu Sua Alma mostra a participação decisiva de Cromwell como o acusador do chanceler Thomas More. A atriz Vanessa Redgrave faz o papel de Ana Bolena e o ator Orson Welles interpreta o cardeal Wosley. O filme está disponível na Netflix e ganhou na época seis prêmios Oscar nas categorias de melhor filme, diretor, ator (para Paul Scofield no papel de Thomas More), roteiro adaptado, fotografia e figurino.

Mais recentemente, no filme A Outra, temos Natalie Portman como Ana, Scarlett Johansson como sua irmã Maria Bolena e Eric Bana no papel do rei Henrique. A série Os Tudors teve quatro temporadas e fez grande sucesso com o galã Jonathan Rhys Meyers no papel principal do rei inglês.

Wolf Hall, o primeiro livro, virou minissérie em seis capítulos e passou no Brasil pela Netflix com o ator Damian Lewis (famoso pelas séries Homeland e Billions) no papel de Henrique VIII.


28.11.18

A SAGA DOS PLANTAGENETAS


Conheço algumas pessoas, poucas, na verdade, que adoram livros sobre a Idade Média. Sou desses fascinado por esse período histórico que durou 10 séculos e que é um banquete apetitoso para quem aprecia tramas, guerras e intrigas. Uma verdadeira aula de roteiro e que, não por outra razão, é tema de incontáveis filmes e livros.

Acabo de finalizar a leitura do 10º dos 14 volumes de uma das melhores séries sobre a dinastia dos Reis Plantagenetas, que governou a Inglaterra por 300 anos. Infelizmente, só os dez primeiros livros foram publicados no Brasil pela Editora Record. Cada um, em formato de bolso, custa em torno de R$ 20,00, uma pechincha para quem gosta do tema.

A Saga dos Plantagenetas, da inglesa Jean Plaidy, conta os bastidores da poderosíssima família que governou a Inglaterra entre os séculos 12 e 15, durante as terríveis Guerra dos Cem Anos e Peste Negra.

A Saga tem início com o livro 1, Prelúdio de Sangue sobre a ascensão ao trono inglês do jovem Henrique II, após os tumultuosos anos de anarquia na Inglaterra, período brilhantemente retratado no livro (e também na mini-série) Os Pilares da Terra, de Ken Follet.

Henrique II deu início à dinastia dos Plantagenetas ao se casar com a icônica duquesa Eleanor de Aquitânia, uma das mulheres mais incríveis de toda a História. O casal tinha um relacionamento extremamente turbulento, já que Eleanor fora casada com o maior inimigo da Inglaterra, o rei da França, Luis VII, com quem já tinha gerado duas filhas e de quem se divorciou para contrair segundas núpcias com o inimigo do ex-marido.

Henrique e Eleanor participaram da 2ª Cruzada, empreendimento de dimensões colossais que não tem o merecido reconhecimento dos estudantes e leitores de História. Apesar de ter sido esposa de dois reis, a verdadeira joia era o ducado da Aquitânia, que pertencia a Eleanor, um território mais rico do que todo o restante da França e da própria Inglaterra.

O casamento de Eleanor com Henrique II gerou oito filhos e a rainha viveu anos prisioneira do esposo por ter tramado destroná-lo. A história é retratada no filme O Leão no Inverno, de 1968, (poster ao lado) com Peter O'Toole como o rei Henrique e Katharine Hepburn, como Eleanor, papel que lhe rendeu um dos três prêmios Oscar que o filme levou.

São extremamente detalhados os volumes da saga que tratam da provável homossexualidade de Ricardo Coração de Leão e as relações conflituosas entre Henrique II e seu chanceler Thomas Beckett, arcebispo da Cantuária, assassinado por ordens enviesadas do rei e que, posteriormente seria santificado pela Igreja Católica.


O segundo volume, O Crepúsculo da Águia, narra os momentos derradeiros de Henrique II, que viveu longos anos como um rei respeitado, mas que ao final da vida era odiado e foi traído pelos filhos, sob a influência da rancorosa esposa. Apesar de certo tom folhetinesco, as obras não deixam de oferecer um riquíssimo panorama da época, mesmo que, em certos casos, haja espaço para tópicos não tão bem fundamentados e que passaram para a História provavelmente como boatos. 

Uma das dificuldades que essa narrativa pode trazer para o leitor não muito familiarizado é a falta de criatividade que os pais tinham ao nomear os filhos. Foram inúmeros os Ricardos e Eleanoras, Henriques e Isabelas, Guilhermes e Joanas etc. Para ajudar os mais confusos, cada volume traz as árvores genealógicas completas. 

O terceiro volume, O Coração do Leão,  aborda a ascensão de Ricardo I ao trono, sua ida para a 3ª Cruzada, seguindo o caminho anterior da sua mãe, onde lutou contra o lendário sultão sarraceno, o guerreiro Saladino. O livro narra, com detalhes, o relacionamento romântico explícito entre Ricardo, rei da Inglaterra, e Felipe II, rei da França, que o acompanhou na Cruzada, lutando ao seu lado com todos os componentes típicos de macheza e virilidade medieval, apesar do notório romance homo-afetivo. Acompanhamos o sequestro de Ricardo, mantido refém pelo imperador da Áustria antes de retornar para a Inglaterra, o que mergulhou o país num caos. Na sua ausência, o irmão caçula João, conhecido como João Sem Terra, governou o país após determinar a morte do jovem sobrinho Artur, o primeiro na linha sucessória.

O quarto livro, O Príncipe das Trevas, trata do governo do rei João após a morte de Ricardo, Coração de Leão. João é retratado como um rei tão cruel que a própria mãe Eleanor disse que teria sido melhor ela ter morrido antes de gerá-lo. Em outras obras da literatura e do cinema, esse período é retratado nas sagas de Robin Hood e Ivanhoé. 

Sob o reinado de João I, a Inglaterra conheceu a famosa Carta Magna,  uma espécie de Constituição que os barões impuseram ao rei. No livro, acompanhamos o casamento do dissoluto João com a inescrupulosa Isabella de Angoulême. As baixarias chegam ao requinte de Isabella acordar no meio da noite e encontrar o corpo de um dos amantes castrado e enforcado no dossel da cama por ordem do marido.

O quinto volume, A Batalha das Rainhas, trata da rivalidade entre as rainhas Isabella da Inglaterra e Blanche da França. A primeira, após a morte de João I, vitima de uma forte disenteria,  entrona o filho Henrique III, de apenas 9 anos. Enquanto isso, Blanche, mãe do rei francês Luís IX, trama a invasão da Inglaterra. Por trás de dois jovens reis, manipulavam duas rainhas-mães, lobas ambiciosas, causando guerras e mortes. Sobre a beleza e voluptuosidade da rainha Isabella da Inglaterra, é interessante o fato de que após enviuvar do rei João, ela se casa novamente, mas dessa vez com o noivo da filha Joana e seu antigo noivo, Hugo de LusignantCuriosamente, o rei Luis IX viria mais tarde a ser canonizado pela Igreja Católica como São Luis. Sua estátua adorna a fachada da Catedral de Sacre Couer em Paris, ao lado da estátua de Joana D'Arc, outra santa francesa.  

No sexto volume, A Rainha de Provence, estamos durante o reinado do dócil Henrique III, que se empenha por um casamento feliz com sua amada Leonor da Provença e tenta apagar os escândalos que mancharam o nome da sua família. Henrique, ao contrário de vários outros reis da Idade Média, não é personagem de nenhuma das peças de William Shakespeare nem foi retratado em muitos filmes ou séries de TV, tendo uma presença e papel mínimos na cultura popular.

Henrique é personagem da célebre Divina Comédia, poesia de seu contemporâneo italiano Dante Alighieri, que o representou como um exemplo de governante negligente, sentando sozinho no Purgatório do lado oposto a outros reis fracassados. 

O volume sete, Eduardo I  conta o reinado do rei conhecido como Eduardo Pernas Longas e O Martelo dos Escoceses, que trouxe prosperidade à Inglaterra e passou para a história pelo brutal tratamento dado aos escoceses e pela expulsão de todos os judeus da Inglaterra, lei que vigorou por 350 anos. Sua violência contra os escoceses é retratada no filme Coração Valente em que Mel Gibson interpreta o rebelde escocês Willliam Wallace.

Os historiadores atuais elogiam sua contribuição às leis e à administração pública, sendo-lhe creditada a restauração da autoridade real após o reinado de seu pai e o estabelecimento  do parlamento como instituição permanente, bem como um sistema funcional para a arrecadação de impostos.

Já no oitavo volume, As Loucuras do Rei, conhecemos Eduardo II, vaidoso e homossexual assumido, que entrega o país nas mãos dos amantes. Seu casamento infeliz com a princesa francesa Isabella resulta em muitas humilhações para a rainha e termina com a prisão e assassinato brutal do monarca, tramado pela esposa.

O primeiro dos amantes de Eduardo II, Piers Gaveston, Conde da Cornualha, famoso pela sua arrogância como favorito do rei, gerou tamanho descontentamento entre os barões ingleses e a família real francesa que Eduardo foi obrigado a exilá-lo. Pouco depois chamou-o de volta e um grupo de barões executou Gaveston em represália à ordem do rei. O filme Eduardo II, do diretor inglês Derek Jarman, retrata com maestria esse período.


O volume nove, O Juramento do Rei, aborda o reinado de Eduardo III, que governou com sabedoria e fugiu do legado do pai. Os problemas tiveram início quando o rei da França morreu sem herdeiros masculinos. A mãe de Eduardo III era sua única descendente direta, mas na França vigia a lei sálica e mulheres e seus descendentes eram excluídos do direito ao trono. A mãe de Eduardo, Isabella era filha do rei francês, o que levou o monarca inglês a reivindicar o trono da França, dando início à Guerra dos Cem Anos. 

Esse período é retratado também no livro e na míni-série Mundo Sem Fim, de Ken Follet, continuação de Os Pilares da Terra.

O décimo volume, Passagem para Pontefract, trata de um período confuso da história inglesa, quando o neto de Eduardo, Ricardo II, assume o trono com dez anos de idade até ser preso e morrer de fome, após um governo desastroso. Sua reputação para a posteridade foi em parte devida à peça homônima de Shakespeare, que o retrata como responsável pela Guerra das Rosas.

Os quatro volumes finais da série não foram lançados no Brasil, mas podem ser baixados em alguns blogs e sites. São: A Estrela de Lancaster (sobre o Henrique V), Epitáfio para Três Mulheres (que narra a história de Joana D’Arc), A Rosa Vermelha de Anjou e Sol em Esplendor, que relata o fim da dinastia dos Plantagenetas.

13.11.18

42ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO


    De novo bati ponto na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, como faço há 16 anos seguidos, e onde encontro uma gente muito estranha, que se diverte passando horas esquematizando todas as inúmeras possibilidades de assistir à maior quantidade possível de filmes, entre mais de 300 produções de 67 países.
    
    Todo ano é a mesma loucura. As mesmas pessoas se deslocam de diferentes partes do país para São Paulo e enfrentam uma alucinada maratona, correndo de um cinema para outro, engolindo almoços e lanches cronometrados e bebendo baldes de café para seguir acordado.

  Mais um ano consegui comprar o passaporte para assistir a 40 filmes mas sempre me vejo conversando com diferentes pessoas para saber quais, nas suas opiniões, os melhores filmes vistos. E toda vez me vejo me perguntando onde foi que errei, pois as pessoas sempre dizem que os melhores filmes foram exatamente aqueles que selecionei para perder ou perdi por optar por concorrentes no mesmo horário. Mas houve filme para todos os gostos, incluindo um chinês com 9 horas de duração e que foi exibida não sei para quem.

     Este ano, a Mostra teve a excelente iniciativa de criar um aplicativo para celulares que permitia ao credenciado reservar os filmes a que queria assistir com 4 dias de antecedência, evitando o trabalho de se deslocar até a Central da Mostra, na Avenida Paulista, e enfrentar filas para retirar os ingressos dos seus filmes com 3 dias de antecedência. Também, pelo mesmo aplicativo, podia-se desistir da reserva até a véspera sem perder o crédito. Se o aplicativo não funcionou 100%, não se deve julgar com muita severidade os idealizadores, pois foi o primeiro ano em que ele foi utilizado. Para mim, só facilitou a vida e não tive qualquer problema.


    Como quase sempre acontece, os premiados deste ano ou eu não concordei com a escolha (como o Prêmio do Público para Melhor Filme Brasileiro de Ficção e o Prêmio da ABRACCINE de Melhor Filme Brasileiro de Diretor Estreante, que foram para o fraquíssimo “Meio Irmão”), ou então eu não assisti aos outros filmes premiados por critério pessoal ou choque entre filmes, como foi o caso dos demais premiados:

1-Prêmios do Júri de Melhor Filme para novos diretores e do Público de melhor Documentário Internacional: “Las Sandinistas!”;
2- Menção Honrosa do Júri para o brasileiro “Sócrates”;
3- Prêmio do Público para Melhor Ficção Internacional para o libanês “Carfanaum”;
4- Prêmio do Público para Melhor Documentário Brasileiro: “Torre das Donzelas”;
5- Prêmio da Crítica de Melhor Filme Internacional:“Nuestro Tempo”;
6- Prêmio da Crítica de Melhor Filme Brasileiro: “Todas as Canções de Amor”.

    Esse ano, acabei dormindo demais ou de menos e perdi dois dos filmes a que tinha direito por conta do passaporte e, ao final, foram 38 vistos. Aqui vai minha avaliação e cotações.



CULPA – A maior surpresa e talvez o melhor filme da Mostra, na minha opinião. Rodado em uma sala, com uma única locação e sustentado no excelente roteiro e na atuação do protagonista. O policial Asger Holm trabalha temporariamente atendendo chamadas de emergência numa delegacia da Dinamarca quando, no final do seu turno e na véspera de um julgamento importante que definirá seu futuro da polícia, atende a uma ligação de uma mulher sequestrada. Quando a ligação é desligada repentinamente, começa a busca pela vítima e pelo seu sequestrador. Com o telefone como sua única ferramenta, Holm entra numa corrida contra o tempo para salvar essa mulher em perigo. Ele logo percebe, porém, que está lidando com um crime muito maior do que pensava. A esposa sequestrada pelo marido com antecedentes criminais, a luta pela guarda dos filhos, as crianças deixadas sozinhas durante o sequestro em andamento, a burocracia da polícia dinamarquesa diante da sequência de dramas que se desenrolam em uma única noite e em tempo real. O suspense fica mais dramático porque o expectador não vê as vítimas nem os policiais que perseguem o sequestrador. Tudo se desenrola tendo como único recurso narrativo as vozes dos personagens pelo telefone e a tentativa desesperada do policial. O filme tem o mérito adicional de utilizar o som representando uma história frenética, paralelamente às imagens mostrando um imobilismo forçado e tenso. O crítico Bruno Carmelo destaca a capacidade do filme de sugerir imagens sem mostrá-las  "o espectador dispõe de elementos suficientes para imaginar a vítima, seu drama, o interior do carro e a casa do sequestrador invadida pelos policiais. Retornamos ao cinema como storytelling, e não como espetáculo: os personagens contam a história ao mesmo tempo a Asger e ao espectador, que tentam juntos desvendar o crime”

  
A GUERRA DE ANNA- Um filme russo muito impactante que conta o drama da pequena judia Anna, de 6 anos, cuja família inteira foi morta em um extermínio. Única sobrevivente, ela passa um longo tempo sozinha escondida na chaminé do escritório de um dos comandantes do 3º Reich. Por dias e noites infindáveis, ela tem que sobreviver escondida, com fome, sede e frio, aprendendo sozinha a descobrir estratégias para se livrar das muitas ameaças.


RETABLO- Uma excelente produção peruana que me surpreendeu. O filme mostra o trabalho de Segundo, um garoto de 14 anos, ao lado do seu pai artesão nas montanhas do Peru. Ele está aprendendo a arte do pai que fabrica retábulos, tradicionais caixas coloridas de variados tamanhos com cenas religiosas e eventos cotidianos. O menino reverencia o ofício, mas se depara com um chocante segredo do pai, que acaba por revelar a paisagem profundamente religiosa e conservadora que o cerca. A forma com que a mãe e a comunidade lidam com a descoberta, o modo como o próprio garoto se martiriza ao descobrir o segredo do pai e como ele resolve apesar de tudo exorcizar seus próprios demônios é um achado. O filme tem uma sequência e uma cena final que são de um requinte invejável.
  
A CASA QUE JACK CONSTRUIU – Mais um petardo de Lars von Trier. Cinema lotado em todas as sessões e gente saindo no meio sem conseguir ver as cenas mais pesadas. O filme tem no personagem principal um ótimo Matt Dillon, como há muito não se via, retratando a epítome da falta de empatia. Ele é Jack, um arquiteto e serial killer perfeccionista e com TOC que a partir de um primeiro assassinato (de Uma Thurman, sempre ótima) que lhe desperta um enorme prazer, passa a matar dezenas de pessoas ao longo de 12 anos, guardando os corpos num frigorífico. Tempos mais tarde, ele compartilha sua história com o sábio Virgil (Bruno Ganz), em uma jornada rumo ao inferno, emulando a Divina Comédia, em que o poeta Virgílio conduz Dante Alighieri ao inferno. As cenas de extrema violência são a marca do diretor e ele não deixa por menos e segue os passos de O Anticristo, dentre outros. Trier segue o esquema de Ninfomaníaca, em que uma viciada em sexo narra suas histórias para um ouvinte. Aqui, um viciado em matar faz o mesmo, mas ele não busca nem receberá qualquer redenção.


A FAVORITA – Uma produção caprichadíssima, com locações impactantes em castelos luxuosos e imensos cômodos decorados suntuosamente com madeiras nobres que fazem os personagens parecerem minúsculos. O filme conta com três grandes atrizes, num duelo de atuações nos papéis principais. No início do século 18, a Inglaterra está em guerra com a França. A frágil rainha Anne (Olivia Colman, vencedora do Grande Prêmio Especial do Júri e da Copa Volpi de Melhor Atriz do Festival de Veneza), tem na sua amiga íntima e parceira de cama Lady Sarah Churchill (Rachel Weisz), a verdadeira governante da Inglaterra. Até que chega à corte a ambiciosa serva Abigail (Emma Stone) que se aproxima da monarca e rouba a velha amizade despertando a ira de Lady Sarah. A ambiciosa Abigail fará de tudo para conseguir seus objetivos não importa o preço a pagar.


JOSÉ - O filme venceu o prêmio Leão Queer no Festival de Veneza. O personagem título tem 19 anos e vive com a mãe na Guatemala, um dos dez países mais religiosos, pobres e perigosos do mundo. Mãe e filho levam uma vida difícil: ela se divide entre a igreja e o trabalho como vendedora de sanduíches, enquanto o rapaz enfrenta uma rotina de ônibus lotados e encontros amorosos rápidos e casuais em quartos sórdidos com outros rapazes que conhece em aplicativo de paquera. Ao conhecer o jovem Luis, surge uma paixão que irá complicar sua vida. José precisa decidir como seguir adiante, lidando com a religiosidade de uma mãe que em parte depende dele ou viver esse amor proibido. A vitória do filme no festival de Veneza coincide com o momento em que o parlamento guatemalteco discute um projeto de lei que proíbe o aborto, mas também o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

SELVAGEM- Leo é um jovem de 22 anos que ganha dinheiro fazendo sexo com outros homens. Sensível, ele observa os clientes irem e virem, sem saber o que esperar do futuro. Ao contrário dos demais, ele se apega, quer um pouco de afeto. Entre programas e baladas, ele conhece Ahd, também michê, e precisa lidar com um sentimento não correspondido. O filme é cru e nem um pouco condescendente, mostrando a verdadeira natureza da vida dos michês sem qualquer glamour. O personagem principal segue uma trajetória descendente, padecendo de doenças fruto da vida sem conforto, alimentação adequada e afeto. Há uma cena bela e tocante em que ao ser examinado por uma médica, instintivamente Leo a abraça. Ele se submete a uma variedade assustadora de fetiches para obter carinho e dinheiro, dorme pelas ruas, bebe água da sarjeta e ferindo um dos códigos da prostituição, beija os clientes na boca.  Como diz o crítico Bruno Carmelo, Léo sofre duplamente quando encontra clientes agressivos demais, para quem o sexo é um instrumento de poder. “A prostituição, como qualquer serviço, depende de uma diferença de posição entre ambos os lados – uma oferta e uma demanda -, mas o personagem acredita na possibilidade de amar a todos, e a qualquer um, numa utopia tão sexualmente voraz quanto afetivamente utópica...Ele serve como exceção que confirma a regra, o contraexemplo de uma figura que transborda de amores numa era de cínicos e individualistas”.

O ANJO- Filme argentino coproduzido por Pedro Almodóvar e com o ator Chino Darin (filho do icônico Ricardo Darin) no elenco. Baseado na história real de Carlos Robledo Puch (que ficou preso por 45 anos), o filme acompanha sua vida de crimes desde que era o belo adolescente Carlitos, que, em 1971, fazia sucesso com seus cabelos loiros e um verdadeiro talento para cometer crimes. Ao lado do amigo Ramon (Darin), com quem tem um envolvimento semi-homoerótico, embarca em uma jornada de descobertas, amor e crime. Matar é apenas um desdobramento aleatório da violência, que aumenta em uma escalada contínua. Por causa de sua aparência delicada, Carlitos passa a ser conhecido como "O Anjo da Morte". O filme explora bem a aparência delicada de Carlitos, seu corpo sem pelos e imberbe, os lábios sedutores e a libido pouco contida em contraste com o desejo de roubar e se apoderar do máximo de experiências e bens possíveis. A sequência de início de final do protagonista dançando com uma arma apontada para a câmera é tão sedutora quanto amoral e por isso ameaçadora enquanto metáfora.


AMOR ATÉ ÀS CINZAS – O diretor chinês Jia Zhang-Ke tem no seu curriculum filmes elogiadíssimos pela crítica e super premiados como Pickpocket, Plataforma, Still Life, Um Toque de Pecado, O Mundo, Cry me a River e Memórias de Xangai.  Aqui, ele conta a história de Qiao uma jovem apaixonada por um mafioso provincial. Em uma briga de gangues rivais, ela dispara uma arma para protegê-lo e acaba ficando cinco anos na prisão. Após sair da cadeia, procura pelo amor que a abandonou na prisão e jamais a visitou, tentando retomar o tempo perdido. O diretor mantém a maestria dos filmes anteriores, com grandes planos abertos reforçando através das imagens a natureza mesquinha dos personagens, emoldurando assim os diálogos que já registram brilhantemente os desajustes humanos. Mais uma vez aqui temos o toque de um mestre que sabe como poucos contar uma história.


A ROTA SELVAGEM - Charley é um garoto de 15 anos que sonha com estabilidade. Filho de um pai solteiro boêmio, mudam-se de cidade com frequência. Quando se estabelecem no Oregon, o rapaz consegue um emprego de assistente de treinador de cavalos de corridas, onde se encanta pelo velho cavalo Lean-on-Pete. Ao descobrir que a vida do animal está em risco por ter terminado sua utilidade nos páreos, ele decide tomar medidas extremas para salvar esse novo amigo. O adolescente segue uma jornada de descobertas e privações ao lado do animal ao tempo em que cresce como ser humano, desenvolvendo uma casca protetora. Muito envolvente, principalmente levando em conta que o garoto tem um talento natural exatamente na corrida, enquanto o animal está no fim da carreira como quarto de milha. Uma história de valentia e persistência além de um belo road movie para além da clássica história do menino e seu cavalo. Atuam como coadjuvantes de luxo Chloë Sevigny e Steve Buscemi.


VIDA SELVAGEM – Uma combinação excelente dos atores Jake Gyllenhaal (O Segredo de Brokeback Mountain, O Abutre, Zodíaco, entre outros)  e Carey Mulligan (Shame e O Grande Gatsby) sob a direção do ator Paul Dano estreando na função mas conhecido por premiadas em filmes como A Pequena Miss Sunshine, 12 Anos de Escravidão e Sangue Negro. Aqui temos a história do adolescente Joe, de 14 anos, filho único do casal. Eles vivem em uma pequena cidade próxima às florestas de Montana nos anos 1960. Em um dos muitos incêndios que ocorrem com frequência, o pai Jerry, desempregado, decide se juntar ao combate contra o incêndio, deixando esposa e filho sozinhos. Forçado a assumir o papel de adulto, Joe testemunha os esforços de sua mãe, enquanto ela tenta tocar a vida em frente. O diretor dá espaço para os silêncios no lugar dos diálogos que os personagens resistem em travar e os espaços amplos em contraste com a prisão de um casamento e de uma casa opressivos. Todo o filme é visto sob a perspectiva do jovem Joe com seu olhar perdido e sua busca de unir as duas partes de um casamento que não mais se aguenta em pé.

PIEDADE – Um excelente filme grego de um cinismo quase cômico. A história de um homem de meia idade que mora com o filho adolescente em uma casa de classe média alta. Ele é saudável e aparenta ter uma vida normal, mas sua esposa está em coma após um acidente. O filme segue os passos desse homem, alguém que se sente feliz apenas quando está infeliz. Viciado em tristeza, o personagem tem uma necessidade tão grande por piedade que faz de tudo para evocar esse sentimento nos outros. É a vida de um homem em um mundo que não parece cruel o bastante para ele.



NOITE SILENCIOSA- Filme polonês. Adam, um jovem economista, descobre que sua namorada está grávida e decide mudar de vida. O rapaz quer sair da Polônia para sempre com ela e abrir um negócio na Holanda. Para fazer isso, ele retorna à sua cidade natal para tentar convencer seus parentes a vender o terreno que é a única propriedade da família. Durante o jantar de Natal, Adam se dá conta de que o preço que pagará para seu sonho se concretizar será muito mais alto do que imaginava. E que, aparentemente, quando se trata de família, as coisas são bem mais bonitas nas fotos do que na realidade.

OS RELATÓRIOS SOBRE SARAH E SALEEM – Filme palestino que mostra a relação de Sarah, judia e dona de um café em Jerusalém Ocidental e casada com um militar judeu e Saleem, palestino também casado que vive na parte oriental da cidade e trabalha como entregador. Eles se apaixonam e vivem uma relação que ameaça as estabilidade das famílias. Uma noite, em um encontro às escondidas, eles são descobertos e a trama ganha dimensões políticas, vindo à tona um relatório falso sobre o uso das informações supostamente obtidas pelo palestino da relação com a esposa do militar israelense. O filme venceu o Prêmio do Público e do Prêmio Especial do Júri de Melhor Roteiro no Festival de Rotterdam.

INIMIGOS ÍNTIMOS- Um filme policial francês, o que normalmente não me agrada, mas que me surpreendeu positivamente. Conta a história de dois amigos de infância de famílias marroquinas, que nasceram e foram criados na periferia de Paris dominada pelo narcotráfico. Apesar de serem como irmãos, já adultos, seguiram caminho opostos, um abraçou o crime e o outro tornou-se policial. Os dois precisam, a partir de determinado negócio que deu errado para ambos, se reencontrar para lidar com os inimigos comuns, precisam um do outro para sobreviver. Com todos os ressentimentos do passado, renovam laços em torno da única coisa que ainda têm em comum: o compromisso com o lugar de sua infância. Após muitas mortes, vinganças e traições, um final doloroso e adequado ao espírito e à atmosfera do ambiente.

A PLANTAÇÃO DE LARANJAS- Belo filme iraniano, como é frequente na maioria das produções daquele país. Aban é uma mulher de 45 anos que gerencia uma fazenda de laranjas. Ela tem que lutar contra a desconfiança e o machismo já que uma mulher independente é uma ameaça aos homens iranianos. Ela lidera uma equipe só de mulheres em trabalho temporário na sua colheita (as mulheres precisam de autorização dos maridos para trabalha). O objetivo é vencer seu competidor, um fazendeiro que tem uma história antiga de rixa com ela e  que não hesita em chantagear as trabalhadoras, boicotar o trabalho de Aban e roubar-lhe a colheita. Ela hipoteca sua casa e seu galpão para entregar a colheita a tempo de honrar um grande contrato. Sua resiliência é invejável e a briga prova a capacidade de cada um de lidar com problemas de toda ordem.


INFILTRADO NA KLAN – Uma comédia séria, um paradoxo típico do cineasta Spike Lee que mostra, nos anos 70 nos EUA as convulsões sociais e a luta pelos direitos civis através da história de Ron Stallworth, primeiro detetive negro na Polícia de Colorado Springs. Após ser recebido com hostilidade pelos colegas, Stallworth propõe aos chefes infiltrar-se na Ku Klux Klan e expor o grupo. Para isso, ele conta com a ajuda do colega judeu, outro grupo discriminado pelos supremacistas brancos da organização. O filme venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e na sessão em que assisti, no dia seguinte à eleição de Jair Bolsonaro, ao final, quando são mostradas cenas de intolerância racial nos EUA com um carro atropelando várias pessoas e matando uma delas nos conflitos de Charloteville e o discurso patético de Donald Trump, todo o cinema começou a aplaudir o filme e a gritar “Ele Não”, “Bolsonaro Nunca”, um desabafo dramático e com gosto amargo de fato consumado pois a eleição tinha sido no dia anterior.  

EM CHAMAS – Filme sul coreano e representante do país na disputa do Oscar de filme estrangeiro e baseado no conto Queimar Celeiros, do ultra badalado escritor japonês Haruki Murakami. Jongsu é um jovem entregador que reencontra uma garota que já morou em sua vizinhança. Ele aceita o pedido dela para cuidar do seu gato enquanto ela estiver na África. Na volta, ela apresenta Jongsu a Ben, um jovem rico e enigmático (papel de Steven Yeun, o Glenn de The Walking Dead) que conheceu na viagem. Um dia, Ben conta a Jongsu sobre seu hobby mais incomum e a partir daí o filme segue novo rumo numa tensão crescente em que o espectador é mantido todo o tempo em suspense até o final catártico que fecha o filme com uma imagem impactante e inesquecível.  De acordo com a crítica de Bruno Carmelo, "o fator mais excepcional do filme se encontra na capacidade de sugerir, cena após cena, que algo gravíssimo aconteceu no passado, ou está prestes a acontecer a qualquer momento".



PODRES DE RICOS- Produção hollywoodiana baseada no best-seller "Asiáticos Podres de Ricos". O filme já faturou mais de 230 milhões de dólares, tendo custado meros 30 milhões. Toda a equipe e o elenco é de origem asiática e conta a história de uma nova-iorquina descendente de chineses que viaja para a Ásia pela primeira vez para acompanhar o namorado a Singapura, onde descobre que o moço é herdeiro da família mais rica do país e tem que lidar com a sogra tirana que a desaprova. Apesar de ser uma comédia que acaba por repetir os clichês do gênero, não deixa de ser muito divertida e ainda tem o luxo dos lindos cenários de Singapura e trilha sonora excelente. Um crítico chamou a atenção para a inversão de estereótipos atribuídos a asiáticos e como é divertido ouvir falas como: "Tem muita gente passando fome nos Estados Unidos, você quer ficar igual a ela?".

O BATERISTA E O GOLEIRO – Filme irlandês. O baterista Gabriel sofre de bipolaridade e depressão após a morte da mãe. Depois de um incidente provocado por ele, é forçado a fazer terapia numa clínica onde começa uma improvável amizade com o adolescente Christopher, diagnosticado com Asperger e que tem obsessão por ser goleiro. Apesar de ambos não serem destaques nem em uma banda nem em um time de futebol, têm funções essenciais ao andamento da harmonia e à solidez de uma equipe. O vínculo que inicialmente é rechaçado pelo baterista, aos poucos vai revelando como um pode ser útil para o outro já que são absolutamente complementares, pois se um tem grande dificuldade para controlar os impulsos, mas é naturalmente conhecedor da natureza humana, o outro tem grande dificuldade para entender as pessoas mas é expert em controle. Um filme edificante e com muita ternura, com uma mensagem de tolerância e amizade.

PEDRO E INÊS- Filme português inspirado na conhecida história de Pedro I e Inês de Castro, quado o monarca entrona a amada morta por seus inimigos. O filme apresenta Pedro, um homem internado num hospital psiquiátrico por viajar de carro com o cadáver da sua amada Inês. A narrativa recorda, simultaneamente, as vidas de Pedro de Portugal, na Idade Média, Pedro Bravo, no presente, e Pedro Rey, em um futuro distópico. As três histórias são contadas intercaladas e com os mesmos atores interpretando os mesmos papeis nas três diferentes narrativas

303 – A estudante de biologia Jule descobre que está grávida e parte de Berlim para Portugal a bordo de uma antiga van 303 para contar pessoalmente a novidade ao namorado. No caminho, ela dá carona a Jan, um rapaz que estuda ciências políticas e está indo à Espanha para conhecer seu pai biológico. Enquanto viajam, suas conversas se tornam cada vez mais pessoais e íntimas. Após vários desentendimentos, eles descobrem que têm opiniões muito diferentes sobre quase tudo, mas não se cansam de conversar, desfrutar da viagem e as belas paisagens da Alemanha, França Espanha e Portugal. O filme tem diálogos muito inteligentes, excelente trilha sonora e bela fotografia e um crescendo de intimidade e romance vai deixando o filme cada vez mais bonito e suave.

  
VERMELHO SOL-  Nos anos 70, um desconhecido chega a uma pacata cidade argentina. Em um restaurante, sem qualquer motivo, ele começa a insultar um renomado advogado local. As pessoas o expulsam o estranho que decide se vingar do advogado que toma um caminho sem retorno que envolve mortes e segredos. O filme indiretamente fala da ditadura argentina e como o ambiente do país levou ao arbítrio. Lembra a maneira com que o diretor Michael Haneke tratou seu “A Fita Branca”, ganhador da Palma de Ouro e do Oscar de Filme Estrangeiro. 


O CAMINHO NÃO TOMADO- Produção chinesa que conta a história de um homem que toma conta de uma decadente fazenda de avestruzes. Ele quer a qualquer preço reconquistar sua ex-mulher, que vive outro relacionamento. Um dia, um homem a quem ele deve dinheiro pede para ele cuidar de um menino que ele suspeita ter sido sequestrado. Ele embarca em uma viagem pelo deserto com a criança. As coisas tomam rumos perigosos quando o homem decide a princípio proteger a criança dos sequestradores, mas em seguida imagina que ele próprio pode ficar com o dinheiro do sequestro para reconquistar a ex-mulher. A relação com a criança, a princípio fria, se torna cada vez mais complexa, alternando o desafeto e a ternura.

SEQUESTRO RELÂMPAGO - Uma boa produção brasileira. Confiei no instinto de ser uma direção da ótima Tata Amaral e acertei. Marina Ruy Barbosa faz uma jovem vítima de um sequestro relâmpago. Seus sequestradores são inexperientes: Matheus e Japonês (o ator global Daniel Rocha) descobrem que não há tempo para sacar o dinheiro nos caixas eletrônicos e decidem ficar com a moça até que amanheça. O nervosismo e os conflitos entre os três ficam à flor da pele. Há uma disputa por liderança e Isabel tenta tranquiliza-los enquanto ao mesmo tempo tenta achar um modo de fugir, tentando também jogar um contra o outro e assumir algum protagonismo, usando da psicologia, uma tarefa quase impossível para quem não sabe usar uma arma e contra bandidos que não têm nada a perder.

LA QUIETUD – O diretor argentino Pablo Trapero estava presente no dia em que vi este filme e o apresentou à plateia da Mostra. Confesso que já vi filmes melhores do diretor, como Do Outro Lado da Lei, Família Rodante,  Nascido e Criado, Leonera, Abutres e O Clã (que lhe deu o Prêmio de Melhor Diretor em Veneza) mas também vi filmes seus piores, como Elefante Branco. Aqui, Eugênia (a belíssima Berenice Bejo, de O Artista) retorna da França após longa ausência para Buenos Aires após o derrame do pai. Em La Quietud, propriedade rural da família, ela se reúne com a mãe e a irmã. As três mulheres são forçadas a confrontar os traumas emocionais do passado, que se desenrolaram em meio à ditadura militar. Segredos há muito enterrados ressurgem, amplificados pela inquietante semelhança física entre as duas irmãs com diversas insinuações de incesto. A atriz Martina Gusman, que interpreta a irmã Mia, é esposa do diretor na vida real.

THUNDER ROAD – Um filme que é uma pequena joia. Não consegui enquadrá-lo em nenhuma categoria, parece uma comédia com pitadas de humor negro, mas também não sei se é isso. Gostei bastante do ator Jim Cummings que faz o papel de Jimmy Arnaud, um policial atrapalhado de uma pequena cidade texana, que luta para lidar com a morte da mãe, o divórcio iminente, a rebeldia da filha adolescente e sua própria falta de noção. Ele aparentemente tem algum grau de autismo ou bipolaridade. O filme foi o vencedor do Grande Prêmio do Júri do festival  South by Southwest e trata-se de um projeto pessoal do próprio Jim Cummings que além do papel principal, fez o roteiro, direção, música e montagem.

OPERAÇÃO OVERLORD – Na véspera do Dia D da 2ª Guerra Mundial, paraquedistas americanos são deixados atrás das linhas inimigas com uma missão crucial para o sucesso da invasão da Normandia que daria fim à grande guerra. No solo francês, numa vila ocupada pelos alemães, eles descobrem que precisam luta contra seres monstruosos, resultados de um experimento nazista. Muito sangue e tiroteio, muitas mortes e massacres são marcas registradas do produtor J. J. Abrams.


A TERCEIRA ESPOSA – Um filme vietnamita do qual eu esperava bem mais. May é uma menina de 14 anos que vive em uma área rural do Vietnã, no fim do século 19 e sua muda quando ela se torna a terceira esposa de um rico dono de terras. Na nova casa, May é favorecida e bem tratada e logo engravida — na esperança de dar ao marido um herdeiro homem. Mas, após testemunhar um encontro romântico proibido, a jovem encara uma série de infortúnios, que farão com que uma transformação, até então adormecida, aflore. Concordo com o crítico que lamenta que o olhar essencialmente descritivo da diretora, até mesmo por ser mulher, mostre as mulheres apenas por fora, sem subjetividades e sem investigar o modo como enxergam o mundo sob seu ponto de vista. O filme objetifica o que já é objetificado.


SEM AMOR- Filme americano apenas bonitinho que conta a história de Joy, uma jovem com profundo vazio na alma e que busca preencher com sexo desenfreado e relacionamentos que se tornam fugazes. Com grandes problemas decorrentes disso (falta de emprego e teto), ela busca ajuda numa terapia para viciados em sexo, ela encontra apoio em Maddie que lhe propõe abstinência de um mês e a casa de hóspede da sua velha mãe que é cuidada por Jim, seu recluso e problemático irmão. Essa dupla aparentemente impossível pode fazer as coisas começarem a mudar para ambos quando descobrem que além das dificuldades comuns com as pessoas (ele se liga de menos e ela, demais) têm também interesses comuns como a música.

GUTLAND- Uma produção de Luxemburgo, coisa rara, que mostra um homem com um passado misterioso chegando a uma vila apenas com uma mala. Os habitantes do local desconfiam do forasteiro mas acabam por integrá-lo no povoado. Aos poucos, fica claro que não apenas ele esconde um passado sombrio como algo sinistro está encoberto sob a superfície imaculada desse pequeno e pitoresco mundo. A história de um forasteiro chegando numa nova cidade sempre rende ótimos enredos, como foi visto desde Teorema, de Pasolini até Dogville, de Lars von Trier.


DE PAI PARA FILHO- Um homem de 60 anos descobre que tem uma grave doença mas em vez de buscar tratamento, decide ir ao Japão para procurar seu pai que o abandonou com dez anos. Ao mesmo tempo, um jovem rapaz de Hong Kong, que de alguma maneira é relacionado a este passado, surge em Taiwan e assim, começam duas jornadas de reconciliação. Destaque para a bela fotografia


AQUI- Filme iraniano arrastadíssimo e que nem sequer poderia dizer ter um fiapo de roteiro. Normalmente gosto dos filmes iranianos e não costumo ter problemas com ritmo lento mas esse é de doer. Conta a história de um velho que vive isolado nas montanhas e que tenta salvar a vida do filho marcado para morrer. Ele acaba tendo que levar o corpo do filho para ser batizado nos rios da montanha e cuidar do neto. Não tem sequer um diálogo, mas apenas o velho gritando o nome do filho nas montanhas.

SAL  - Uma produção da Colômbia que não me agradou muito. Heraldo sofre um acidente de moto durante uma viagem pelo deserto na tentativa de encontrar um pai misterioso. Ele é encontrado ferido por um casal que vive no deserto e que o trata aplicando sal em suas feridas e o alimentam com cacto. À medida que melhora, Heraldo revela uma alma em conflito. Ele precisa resolver seu tormento para poder voltar à jornada. Ainda estou tentando entender qual a mensagem que transcende a história.

ELEMENTO DE UM CRIME- Um dos poucos filmes da Mostra que  não era um lançamento. Um noir dirigido por Lars von Trier e seu primeiro longa, de 1984, que foi vencedor do Grande Prêmio Técnico no Festival de Cannes daquele ano. Para mim um filme muito confuso e no qual dormi mais da metade do tempo O filme é arrastado mesmo. A história de um tal de Fisher que retorna traumatizado e com poucas lembranças ao Cairo depois de liderar a investigação de um assassinato na Europa. Obcecado, procura um terapeuta que, sob hipnose, faz voltar suas memórias. O filme foge quase completamente do estilo adotado por Lars von Trier ao longo da sua carreira que se seguiu a este primeiro longa.


A HISTÓRIA DA PEDRA- Filme de Taiwan que considerei um dos piores da Mostra. Diz a sinopse: "O filme acompanha um grupo de gays dentro e ao redor de um bar local que culmina em mágoas, desespero e tragédia. Em meio ao caos de uma cidade obscura, os personagens tentam encontrar esperança”. Isso até poderia ser um mote para uma boa produção, mas a direção de atores e os próprios atores são péssimos, as locações são mal escolhidas, os enquadramentos pouquíssimo inspirados, enfim falta o básico, uma noção de ritmo e de tempo e até mesmo cenas de transição entre os planos para dar ideia de movimento. Não se sabe como ou porque as pessoas estão ou chegaram naqueles lugares, suas motivações, seus conflitos são pueris e falta uma montagem que se possa chamar por este nome. As cenas de orgias são tão sem graça que garanto que se o diretor deixasse os atores sozinhos com seus corpos seminus eles fariam melhor, sem uma direção que só deve existir pra atrapalhar. Fraquíssimo.


MEIO IRMÃO- Um filme brasileiro que achei dos mais fracos da Mostra. São tantas falhas básicas que não saberia nem por onde começar, mas parece que o público e o júri não levaram isso em consideração pois deram dois prêmios à produção. Na sessão em que assisti estava toda a equipe do filme, atores, diretora, produtor (que é casado com a diretora) e aparentemente toda a plateia era formada de amigos do povo do filme já que ingressos eram distribuídos a quem quisesse. Em outras sessões em que o filme passou, reparei que a turma estava toda ali fazendo campanha. Não sei se isso interferiu no resultado, mas vi que a campanha foi grande. A história gira em torno do desaparecimento da mãe de Sandra, uma adolescente com eterno ar de zumbi. Desorientada e sem dinheiro, ela pede ajuda a  seu meio irmão distante. Ela é branca e ele negro. O rapaz trabalha com gravação de imagens e por acaso gravou uma agressão homofóbica. Ele tem uma homossexualidade reprimida e um interesse sexual pelo amigo que foi um dos agredidos. Não convencem as ameaças pelo whatsapp e o filme parecia um ensaio de grupo amador como a constrangedora cena em que, finalmente, os dois caras se “pegam”, com direito a nu frontal e tudo. Até quando poderia parecer ousado, saiu-se gratuito.

FAMÍLIA SUBMERSA- Filme argentino que se passa durante um verão em uma Buenos Aires com a cidade vazia e abafada. Após a morte da irmã de Marcela ela precisa se desfazer dos pertences e do apartamento da irmã. Nacho, um jovem amigo de sua filha oferece ajuda e isso envolve Marcela em viagens e aventuras compartilhadas misturando pessoas e fatos de outras épocas, tudo muito confuso. Marcela se vê em meio a alguns autoquestionamentos quando sua vida cotidiana entra em ação. Me pareceu muito confuso, talvez porque dormi durante uma parte do filme e se já não havia um fio de meada para acompanhar, dormir deve ter tornado tudo muito mais confuso, pois não sabia mais o que era sonho, delírio, passado ou presente. Talvez tenha que ver novamente.