31.8.12

Por que outro Vingador do Futuro ?


Li em algum lugar que O Vingador do Futuro (Total Recall) superou o terceiro "Batman", levando a bilheteria do morcego para a segunda posição. Isto não seria suficiente para me levar ao cinema e assistir a este remake, mas tenho uma grande simpatia pelo filme original de 1990, de Paul Verhoven, em que Arnold Schwarzenegger encarna muito bem o papel do protagonista do excelente conto de ficção científica "Lembramos para você a preço de atacado" de Phillip K.Dick, autor, entre outros, dos contos que deram origem a filmes como Minority Report, Blade Runner e O Pagamento.

Então, que graça teria ver uma refilmagem já sabendo dos segredos que o roteiro guardava para apresentar como surpresa no desenrolar da trama?

Então lá estava eu na sala 8 do Cinemark. Lotada de adolescentes se empanturrando de pipoca e casais...por que não fazem uma sala onde adolescentes sejam barrados e só entrem pessoas sozinhas....se um dia eu me candidatar a algum cargo, vou defender essa plataforma: cinema deveria ser um outro prazer solitário.

Bem, mas voltando ao Cinemark. Eis que o diabo do filme começa a dar problema. O som teimava em, subitamente, se mostrar abafado e quase só se ouviam os diálogos dos atores e nada dos efeitos sonoros, um dos pontos mais importantes de uma boa ficção. Os ruídos de fundo, os barulhos dos carros espaciais e os efeitos vinham, ficavam alguns minutos e sumiam. Depois ficavam indo e voltando sem parar.

Isso me irritou de tal modo que me levantei da cadeira e fui procurar algum responsável para exigir meu dinheiro de volta, afinal havia perdido a vontade de assistir ao filme àquela altura. Felizmente, o gerente foi muito educado, devolveu o valor do ingresso, disse que ia providenciar o conserto e afirmou que o que importava não era o dinheiro, mas minha satisfação. Mas o que me irritou mesmo foi que ninguém naquela sala lotada se dispôs a reclamar. Por eles, o som podia ficar assim até o fim do filme que ninguém se incomodaria.

Dias depois, me dirijo ao cinema do shopping Barra para tentar terminar de ver o filme que tinha deixado na metade e fiquei impressionado com a imundície da sala. A vigilância sanitária precisava fazer uma visita urgente lá. Além de um cheiro insuportável de mofo no carpete das paredes, as cadeiras são sujas e velhas e o chão, cascudo de cimento, parece que nunca viu uma vassoura. Trata-se de uma sala antiga, com sistema de som defasado e nem sequer a projeção presta.A imagem é fosca e o som, abafado.

Para completar, havia uma criança de uns dois anos na sala com um casal que, suponho, fossem os seus pais. A criança, obviamente, não devia estar ali, pois o filme tem censura de 14 anos. Vira e mexe um dos pais tinha que sair da sala com a menina que fazia barulho e isso me perturbava. Como ainda estava na parte do filme que eu já tinha visto, me submeti a ir até a portaria para saber do responsável pelo cinema se não era proibido manter uma criança na sala. Parecia que eu estava vivendo um flash back, mas, desta vez, cinco moças fardadas do cinema me olharam como se eu fosse um  doido. A resposta que ouvi foi que se a criança estava com os pais elas não podiam proibir a entrada.

Eu perguntei se a censura não era de 14 anos e elas ficaram se olhando como se eu estivesse fazendo uma pergunta de trigonometria ou propondo discutir o Bóson de Higgs.

Decidi apelar para a respiração Sudarshan Kriya,  como me ensinaram no curso de respiração da Arte de Viver para reduzir o estresse e a ansiedade.

Mas e o filme mesmo? Afinal era para isso que eu estava ali

Sinto dizer, mas esta refilmagem perde bastante para o original apesar de ser um bom entretenimento com emocionantes sequências de perseguição e ótimos efeitos visuais. Diferentemente do primeiro filme, aqui toda a ação se passa na Terra e não mais em Marte. Apesar de passados mais de 20 anos da primeira versão, ela jamais envelheceu, como acontece com filmes de ficção que contam com boas direções e bons roteiros.

Paul Verhoven, diretor do primeiro filme, não gostou do remake e menos ainda de ouvir os novos produtores tacharam o original de brega e Colin Farrell chamá-lo de kitsch.

Aí é que está o busílis. Porque ser kitsch é ser necessariamente ruim? Um filme pode ser adoravelmente kitsch e ser ótimo. E isso é uma das melhores coisas do Vingador do Futuro original.

O crítico Érico Borgo, sabiamente, lembra que “Colin Farrell é bom ator, mas não tem o carisma necessário para segurar um filme assim. Enquanto Schwarzenegger fazia caras e bocas e gritava com seu sotaque carregado, Farrell se esforça para parecer perdido e aflito, o que ajuda a dar a impressão que este O Vingador do Futuro se leva a sério demais. É mais sombrio, mais realista, mas muito menos divertido. A versão genérica tira do clássico tudo o que o tornou memorável”

O protagonista Doug Quaid deixou a pele de Schwarzenegger e agora encarna em Colin Farrell como o mesmo operário com rotina frustrante que procura a tal companhia Recall ou Rekall (não entendi porque a mudança do nome), para viver memórias alheias. Tudo igual ao original, nada de novo sob o céu. É uma pena que falte a Colin Farrell o que sobra a Schwarzenegger: um porte poderoso que justifique levar tantas porradas e tombos sem fraturar várias costelas e vértebras.

Outra pena é a falta enorme que faz Sharon Stone que, no original, interpretou a esposa do protagonista. No seu lugar está Kate Beckinsale. Sinceramente, Stone, mesmo com mais de 50 anos, está inteiraça para repetir o papel, além de ser muito melhor atriz do que Beckinsale, esposa do diretor Len Wiseman desde que filmaram juntos os bobos Anjos da Noite. Se Stone não conseguisse a mesma agilidade física da quase quarentona Beckinsale, sobra, à louraça, carisma e talento. E para cenas de ação já inventaram uma coisa bem moderna chamada dublê!

Enfim, vale a pipoca. E nada mais.

21.8.12

PARIS SEM GLAMOUR


Paris me surpreendeu de diversas maneiras e uma delas não foi positiva. Após alguns dias entre museus, templos, passeios, praças e pontos turísticos, minha ficha caiu e percebi que havia escapado de várias situações estranhas.

A primeira cena assustadora foi logo na minha chegada vindo do aeroporto Charles De Gaulle. Ainda no metrô, na estação do Arco do Triunfo, vi um jovem negro dando socos no rosto de um rapaz louro. Um segurava o outro pela gola enquanto desferia uma saraivada de socos no seu rosto. E isso acontecia na maior naturalidade enquanto as pessoas caminhavam. Quando passei, puxando minha mala, olhei, surpreso, a cena. O agressor me encarou como quem diz: vai encarar! Logicamente, desviei o olhar e me afastei antes que sobrasse algum para mim.

Surpreendi-me com o número de mendigos nas calçadas da cidade. Naquele frio eles dormem ao relento ou sob a chuva com pouco agasalho. No metrô também tem mendigos. Tirei duas fotos, uma do mendigo da Rue du Rivoli por onde eu passava todos os dias em direção à Toulherias. Ele tinha um cachorro e um celular. O outro tinha dois gatinhos e seu ponto era ao lado da Igreja Madaleine, era o mendigo da Rue Royale. 

Outra experiência assustadora foi quando quase fui depenado ao desembarcar da Gare du Nord chegando de trem da Alemanha. Eu, desorientado como sou, saí da estação pela porta onde os táxis deixam os passageiros e não pela porta em que os passageiros pegam os táxis. Estava com minha mala e tentava pegar um táxi, mas nenhum parava. Não conseguia entender a razão, até que um rapaz estranhamente solícito (parisiense solícito é para se desconfiar) me abordou dizendo que se eu queria um táxi deveria segui-lo. Caminhei atrás dele por alguns segundos, mas algo me disse que aquilo era uma roubada. Além disso, ele parecia mais marroquino do que francês. Rapidamente, voltei para a estação e vi a placa indicando o ponto de táxi. O meu “solícito” ajudante demonstrou seu desapontamento e sumiu atrás de outra vítima. Fiquei me imaginando sem mala, sem roupas, sem passaporte ou dinheiro. Isso no centro de Paris.

Presenciei mais três cenas seguidas desconcertantes. A primeira, ao cruzar a catraca do metrô Les Halles. Só dá pra passar uma pessoa por vez após inserir o bilhete. Estava passando quando um cara completamente estranho se encostou em mim e me empurrou para a frente. Deu um sorriso sem graça e seguiu. Só então percebi que ele passou junto comigo na catraca para não pagar. Às vezes as pessoas que não têm dinheiro usam esse método, mas achei estranho ele fazer isso comigo sem me pedir ou me conhecer. Depois pensei que ele poderia ter roubado a carteira do meu bolso. Passei a levar a carteira na mochila.

Logo após essa cena, quando eu e dois colegas de viagem entramos num mercado para comprar leite, pão, frios, essas coisas, vimos um homem mal encarado entrar e sair tranquilamente com uma coisa grande no bolso do casaco, tipo um produto caro. Só tinha a moça do caixa e ela não viu nada. Ele roubou na maior facilidade e ainda deu uma risadinha para mim.

E imediatamente após essa cena passamos pela frente de um restaurante na Rue Saint Honoré, onde ficava nosso apartamento, carregando as compras, quando vimos um grupo de três jovens jantando do lado de fora, como é comum em Paris. Achei estranho, pois estava chovendo e apesar de haver um toldo, eles preferiam comer do lado de fora em vez de ficar no interior com aquecimento. Confesso também que desconfiei dos três caras pelos seus tipos meio desleixados e largados comendo num restaurante daqueles. De repente, quando estávamos mais à frente, ouvimos uma gritaria e eram os três caras desembestados, pela calçada, para não pagar a conta do restaurante. Entraram à toda pela estação do Metrô do Louvre e sumiram. Isso também é Paris

Travei lutas difíceis também com um guarda-volumes no primeiro dia que fiquei no Albergue da Juventude (tem algo com menos glamour do que ficar num albergue nos arredores de Paris?). Pois o maldito guarda volumes do lugar é a solução para a política do albergue de não se responsabilizar por objetos deixados nos quartos. Eles deixam isso tão claro na chegada que fica-se com a impressão de que a gente deve mesmo tomar cuidado e usar os guarda volumes se não quiser surpresas desagradáveis. O sistema do tal guarda volumes do albergue é bem prático, com todas as instruções, inclusive em inglês, o que é raro na França, o que me facilita já que não entendo praticamente nada de francês. Mas meu maior talento é não entender instruções seja em que língua for.

Precisava guardar uma mala grande e uma sacola em dois guarda volumes com preços diferentes. Quando as portas se abrem, a gente tem que enfiar as malas e fechar. Então de cada uma das portas saí um cartão que a gente usa para retirar a mala de novo quando precisar. O tal cartão vale por 24 horas e se você não tirar a bagagem nesse tempo a porta se abre e sua bagagem fica exposta.

Só que resolvi abrir de novo um dos compartimentos para guardar meu netbook e não fiquei atento à regra que diz que só se pode abrir uma vez por 10 segundos ou algo assim. Não sei o que aconteceu, talvez eu tenha demorado demais com a porta aberta, mas a maldita máquina engoliu meu cartão e sem ele eu não conseguiria mais abrir a porta. Fui pedir ajuda ao rapaz da recepção e como todo francês, ele demonstrou, com sua eloquência blasé, uma grave irritação e um profundo desprezo por ter que abrir a porta para mim. Fiquei com medo de apanhar.
            Para encerrar o capítulo Paris sem glamour, após um passeio pelo Montmarte e a Sacre Coeur, finalizamos uma tarde agradável em pleno Pigale, onde está localizado o famoso Moulin Rouge e onde se concentram as maiores sex shops da cidade. Exploramos as maiores, um ambiente que cheira a sexo e decadência. Não recomendo uma visita noturna, apesar de que em 1995 e em 1998 eu já havia estado lá à noite.

Saímos de lá no final da tarde com os neóns das fachadas pornôs já ligados e o Moulin Rouge acesso, todo iluminado de vermelho. A noite fria e chuvosa chegou e nos apanhou comendo fatias de pizza vegetariana embrulhadas em papel alumínio em um banco de jardim, com latas de coca cola. Três hereges em Paris, a capital do vinho e da gastronomia, comendo fatias de... Bem, como dizem os insuportáveis parisieneses quando querem ser mais insuportáveis do que o habitual: “Je sui désolé”.

Mais falta de glamour, impossível.

PARIS E MAIS UM INVERNO - PARTE 6



Seguimos de metrô até o Montmartre, passeamos pelas ruas do bairro mais artístico de Paris onde há dezenas de excelentes pintores fazendo belos quadros ao vivo e desenhando os turistas. A qualidade do trabalho é excepcional e dificilmente se vê tanta gente talentosa por metro quadrado. Ficam todos numa praça cheia de turistas ao lado da Igreja do Sacre Coeur. Depois fomos à própria Igreja que é linda e tem uma história interessantíssima, e que fica no alto e em frente a uma imensa escadaria. É um dos lugares mais altos de Paris e onde se pode apreciar a cidade que se espalha lá embaixo.

Perto dali fica o Pigale que é onde está localizado o famoso Moulin Rouge e onde se concentram as maiores sex shops da cidade. Exploramos as maiores. Um ambiente que cheira a sexo e a decadência. Não recomendo uma visita noturna apesar de que em 1995 e em 1998 eu já havia estado lá à noite. 

Felizmente, há tantos museus esplêndidos aqui com tantas maravilhas que mesmo num dia de chuva há muito para se fazer. Nesta viagem tenho descoberto lugares novos que não conhecia e retornado a outros.

Conheci um museu incrível que nem sabia que existia e que fica ao lado do apartamento onde estou: o l’Orangerie. Localizado no final do Jardim das Toulherias e em frente da Place de la Concorde, reúne um acervo magnífico das famosas Nymphéas de Monet. São pinturas imensas, que ocupam duas enormes salas e que mostram a série do artista que foi o papa do Impressionismo, pintadas originalmente em seu jardim em Giverny, perto de Paris. Se não bastassem essas obras, o museu ainda reúne um formidável acervo de Picasso, Matisse, Renoir, Cezáne, Modigliane, Toulouse-Loutrec e muito mais. Um delírio, além do fato de que o prédio tem uma arquitetura interna muito moderna, contrastando com a estrutura clássica exterior bem adequada ao conjunto da praça em que fica localizado.

Depois voltei ao Museu d’Orsay que já conhecia da minha viagem anterior e a que nunca é demais retornar. Talvez esse seja o meu museu favorito no mundo. Só a sua estrutura é deslumbrante que abrigou uma antiga estação de trem, a organização das obras em três níveis diferentes com um grande espaço aberto onde se pode caminhar entre elas e a exuberância do acervo. Pena que chegamos faltando duas horas para fechar. Dá até certa raiva por Paris ter tantas obras de arte e tantos museus. Nunca se pode apreciar o suficiente. E olhe que nem falei do Louvre, pois não creio que vá visita-lo nesta viagem, pois já fui três vezes nele nos anos anteriores em que estive aqui. E ele é grande demais.

Passeamos em volta do Sena, cruzamos alguma pontes charmosas como a famosa Alexandre III em frente da Esplanada dos Inválidos e uma que não lembro o nome, mas que é cheia de cadeados com nomes de casais de namorados, exatamente como uma que vi em Colônia.

No final da tarde, já anoitecendo testemunhamos uma cena rara. Na Praça Chatelet, uma multidão se concentrava em frente a um prédio com guardas fardados fechando as várias ruas em frente, televisões e jornalistas se agrupavam. Era a cerimônia da entrega do César, o Oscar do cinema francês. Tiramos algumas fotos e ficamos um tempo para ver se reconhecíamos algum artista famoso, mas era muita gente em volta e não dava para ver direito, além de que vários carros chegavam o tempo todo com artistas mais conhecidos do cinema francês.

O dia continuou a ser uma réplica chuvosa do anterior, mas foi mais dedicado a compras de encomendas. Passeio pela Avenida da Ópera, pelo Boulevard dos Capuchinhos e  pela Champs Elisse. Um almoço delicioso num discreto e baratíssimo restaurante oriental na própria avenida Champs Elisee, escondido dentro de uma galeria e acessível aos conhecedores e com uma variedade de pratos pelos quais pagamos apenas 17 euros cada um incluindo gorjeta e café.


PARIS E MAIS UM INVERNO - PARTE 5



Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Nat King Cole, Maurice Chevalier, e muita gente boa, canta I Love Paris, de Cole Porter, nos acostumando a ouvir:  “Eu amo Paris na primavera\Eu amo Paris no outono\Eu amo Paris no inverno quando neva\eu amo Paris no verão quando faz muito calor”. (I love Paris in the springtime.\I love Paris in the fall.\I love Paris in the winter when it drizzles,\I love Paris in the summer when it sizzles).


E então se convencionou que Paris deve ser amada em todos os momentos, não importa se chova cântaros ou caia neve ou se o céu é de um cinzento sujo e de nuvens pesadas. Só que a mesma canção diz na estrofe seguinte: “Eu amo Paris todos os momentos do ano\por queque eu amo Paris?\Porque o meu amor esta lá perto” (I love Paris every moment,\ Every moment of the year.\Because my love is near).

Então a coisa não é assim tão incondicional. Dá pra amar a cidade em todos os momentos, mas só se seu amor estiver perto. Deve ser por isso que ela é a cidade mais romântica do mundo. Mas, sob chuva, tenha paciência. É uma contradição uma cidade linda como essa ficar encharcada, um lugar tão cheio de arte, palácios, museus, monumentos, parques magníficos e a gente ter que se molhar todo, ficar coberto de agasalhos, com meias úmidas, o vento gelado dos bulevares atravessando a lã do gorro, das luvas, do cachecol... e o mar de turistas com guarda-chuvas e os africanos vendendo miniaturas cor de rosa da Torre Eiffel que piscam como arvorezinhas de Natal...e chineses ou japoneses em bandos invadindo tudo... 

I Love Paris debaixo de um guarda-chuvas...

De certo modo perdoo os insuportáveis parisienses pelo seu eterno mau humor, afinal a cidade mais linda do mundo, a deles, nunca poderá ser só deles, pois está sempre invadida por hordas de turistas. E Paris passou por muitos traumas com invasões no passado. Stendhal dizia: o parisiense é um italiano em crise de mau humor.

PARIS E MAIS UM INVERNO - PARTE 4



Como nada é perfeito na vida, lá estava em Paris, resfriado e sob um frio de 6 graus. Entupido de remédios e agasalhado, parecendo o boneco da Michelin, fui explorar os arredores do “meu” apartamento da Rue Saint Honoré. 

A primeira parada foi a Igreja de São Roque, construída no tempo de Luis XIV, e que fica exatamente em frente às janelas do “meu apartamento”, que dispunha até de duas varandinhas que se abriam para o campanário da antiga igreja, cujo interior abrigava capelas, pinturas, esculturas, abóbadas, altares e um enorme órgão. 


Caminhei pela Rue de Rivoli, com suas lojas de souvenires, livrarias bacanas e restaurantes. Segui até a Place de la Concorde, com seu famoso obelisco egípcio vindo de Luxor e uma imensa roda gigante que não combinava com nada. Descansei ao lado de um lago nas Toulherias, sem pressa, como deve ser para apreciar tudo com calma. 

Subi a Champs-Élysées na direção do Arco do Triunfo, mas precisaria andar muito, é uma avenida imensa, e eu ainda não estava 100%. Foi quando minha atenção foi atraída pelos belíssimos Grand e Petit Palais. O Grand Palais estava temporariamente fechado, mas o Petit estava aberto. Ele abriga um grande acervo de belas pinturas desde o século 17, artefatos gregos e muitas estátuas, com um jardim interno, um café com uma pequena fonte. 

Havia uma exposição com 100 fotografias da organização Repórteres Sem Fronteiras, registros chocantes das guerras do Afeganistão, Iraque e dos Bálcãs, imagens impressionantes de refugiados, de mulheres, velhos e crianças com olhares perdidos e cidades bombardeadas.

Continuei pela  Champs-Élysées, mas não cheguei ao Arco do Triunfo. Como estava cansado, com fome e gripado, jantei num restaurante com vista para a rua, observando as pessoas passearem em uma das avenidas mais charmosas do mundo.

PARIS E MAIS UM INVERNO - PARTE 3



Após dois dias em Paris, fiz uma viagem relâmpago para um fim-de-semana na Alemanha, onde visitei minha amiga Cândida. Embarquei na imensa e gelada Gare du Nort em que as pessoas tentavam se aquecer ao lado de umas espécies de totens onde lâmpadas fortíssimas tentavam, em vão, esquentar o ambiente. 

Para minha surpresa, meu vagão era na primeira classe. Minha amiga havia comprado, com antecedência, a passagem por 69 euros em uma promoção. Numa viagem de 3 horas contei com serviço de bordo, almoço completo, bebida à vontade, conexão wi fi e passageiros um tanto esnobes. 

Passei por Bruxelas e várias cidadezinhas charmosas.  A estadia na Alemanha foi breve e agradável. Meus amigos me apanharam na estação de trem ao lado da Catedral de Colônia no sábado e na segunda-feira peguei o trem em Bonn de volta até Paris. O frio de 6 graus na França transformara-se em zero grau na Alemanha e uma gripe deu sinal de vida em meus pulmões. 

O retorno para Paris foi na segunda classe. Por 39 euros, o vagão não tinha conexão com internet e os passageiros eram famílias de indianos, paquistaneses, nigerianos...Pelo menos dormi quase toda a viagem de volta.

Às 16h estava de novo na  Gare du Norte. Telefonei para Patrick, o francês que alugou, pela internet, seu apartamento na Rue Saint Honoré (a Oscar Freire de Paris), ao lado da Rue d’Opera, da Rue de Rivoli e do Jardim das Toulherias, no bairro mais chique da capital. Peguei um táxi e encontrei o locador na porta do prédio. O apartamento era ótimo, reformado e totalmente mobiliado, com internet, telefone, tv a cabo, micro-ondas, geladeira, fogão, lava-louças, lava-roupas... Tudo por pouco mais de 110 euros por dia.

Sinta a diferença de nível! O albergue em que dormi dois dias ficava nos arredores do bairro 20, o mais longe do centro. Agora eu estava no 1º arrondissement, ao lado da Ópera e do Louvre. 

Adeus pobreza!

PARIS E MAIS UM INVERNO - PARTE 2

Meu segundo dia em Paris foi bem produtivo. Apesar de um frio cortante, resolvi explorar a pé o máximo que conseguisse. Saltei do metrô na Ile de La Cité e voltei à Notre Dame, onde já havia estado nas duas outras viagens a Paris. Dessa vez, aluguei aquele aparelhinho que conta a história da igreja. 

Tem em várias línguas, mas não Português, para mostrar nossa desimportância. Em todos os museus do Mundo é assim, tem gravações em Inglês, Francês, Espanhol, Italiano, Alemão, Chinês e Japonês. Em Português, nem a pau.

Apesar da eterna horda de turistas, a visita foi agradável, mesmo dentro da Notre Dame fazendo quase tanto frio quanto fora dela.

Atravessei a ilha, visitei várias lojas de gravuras e livrarias simpáticas, andei pela margem do rio Sena até o Boulevard Saint German e o Boulevard Saint Michel. Continuei à pé até o Jardim de Luxemburgo, um lugar belíssimo e atualmente com uma exposição imperdível do pintor alemão Lucas Cranach que viveu na corte do imperador Frederico na Saxônia na época da Reforma. 

O Museu Luxemburgo é pequeno e estava cheio de velhos tropeçando na gente. Mas a exposição foi excelente,com um acervo único de pinturas de Cranach. Lembrei como os franceses não gostam mesmo de tomar banho e os velhos franceses gostam menos ainda, pois naquele lugar apertado, foi agoniante sentir aquele odor ardido. 

Pelo menos não fazia frio.

Anoiteceu mas ainda deu para conhecer dois lugares que não tinha visto em Paris anteriormente: o Pantheon e a Igreja de Santa Genevieve.

O Pantheon é um edifício magnífico onde estão enterrados os heróis da França, das revoluções, cientistas e escritores como Zola, Rousseau, Voltaire, Marie Curie, Alexandre Dumas, Victor Hugo. Imenso, com criptas no subterrâneo, cúpulas altíssimas, estátuas e murais com a Histórias da França. 

De volta ao albergue. Na manhã seguinte eu pegaria um trem para um fim de semana na Alemanha.

PARIS E MAIS UM INVERNO - PARTE 1



Cheguei a Paris  sob 6 graus após um voo de mais de 10 horas da Air France. Eram 8 da manhã quando desembarquei  no imenso aeroporto Charles De Gaulle e uma hora depois já estava no ônibus da própria Air France que, por 15 euros, bem mais barato do que um taxi, me deixou ao lado do Arco do Triunfo. 

Saltei com mala e mochila, além de uma sacola cheia de café, cachaça, charque e feijão para amigos saudosos do tempero brasileiro. 

Após uma troca de trem e estação de metrô cheguei ao meu destino: estação Porte de Bagnolet, de onde segui para o Albergue da Juventude, uns 500 metros da estação. Já havia me hospedado nesse albergue em 1998, mas como a prefeitura estava reformando todas as ruas e calçadas do bairro, foi bem complicado arrastar uma mala por desvios, tapumes, cascalho e lama seca. 

O frio e o vento gelado exigiam casaco, luvas, cachecol e gorro. Cheguei ao albergue às 11:30, mas tive o desprazer de saber que o quarto só é liberado às 3 da tarde. De 12 às 15h eles fazem faxina e todo mundo é obrigado a deixar os quartos. Só restava esperar. Um mau negócio, pois praticamente não dormi a viagem inteira. 

Quando o quarto foi finalmente liberado, consegui simplesmente desabar na cama e dormir 3 horas. Acordei às 18h e tomei um banho estranho num chuveiro com apenas duas duchas: uma expelia um jato gelado como o bafo da morte e a outra, um jato fervente como lava incandescente. Optei pelo segundo. Com o frio do ambiente, era a menos pior das opções.

Maldita hora em que esqueci as havaianas. Tive que me enxugar com a toalha úmida e voltar para o quarto semi-congelado vestindo meias molhadas.  

A história desse albergue não está nada boa...

19.8.12

360

Diretor do cultuado Cidade de Deus; do inspirado Domésticas;  do oscarizado O Jardineiro Fiel, além da surpreendente mini-série Som e Fúria,  Fernando Meirelles começou a errar na mão no decepcionante Ensaio Sobre a Cegueira, filme que nem de longe faz jus aos inúmeros méritos da obra homônima de José Saramago.

Ok, livro é livro; filme é filme. Entretanto, tratando-se de uma das primeiras adaptações de Saramago para as telonas, separam as qualidades das duas linguagens um abismo mais amplo do que o que seria aceitável.

Mas esse texto é para falar de outra derrapada de Meirelles: 360. Sinto pena de dizer isso pois gosto dele. Acompanho com interesse sua carreira mas não posso negar a segunda decepção seguida.

Aqui vemos um filme com atores de vários países, entre eles os talentosíssimos Anthony Hopkins, Jude Law e Rachel Weisz pouquíssimo utilizados e também os brasileiros  com comprovados carisma e talento mas também com um mínimo de espaço: Maria Flor e Juliano Cazarré. A única palavra que cabe aqui é esta: desperdício!

O próprio diretor já declarou várias vezes que não repetiria a empreitada em filmes com esse tipo de narrativa multifatiada. São nove historietas que teriam potencial para ser melhor desenvolvidas, cada uma podendo virar um filme em si, mas restam pouco impactantes sem o tempo necessário para que o expectador se envolva com qualquer uma delas. Aos personagens não é dado o tempo para que gerem empatia no público e, enquanto o filme transita entre EUA, França, Áustria, Inglaterra e Eslováquia, a plateia anseia por mais substância.

A crítica de O Globo, Susana Schild, de modo inspirado em sua crítica no jornal: "O perfil dos personagens é tão ralo que cabe em mensagens do Twitter".
Meirelles é o primeiro a se reconhecer  frustrado e que a cria carecia de mais musculatura e menos superficialidade. Disse que se dependesse dele cada história teria mais uns 20 minutos cada. O filme me lembrou um quadro em que temos uma excelente moldura, as tintas mais caras e variadas, uma tela de material excelente mas uma pintura sem alma. Isso não é arte, é só técnica.

E a falta de pulso de Meirelles em relação à obra prova que foi um produto de encomenda, em que ele foi contratado unicamente para agir como um tarefeiro de luxo e não como um diretor. Um trabalho pífio para quem já teve nas mãos o luxo de ser pai de um filme tão autoral como Cidade de Deus. Ele mesmo já declarou: “80% do filme é do roteirista  Peter Morgan, 3% é da peça original de Arthur Schnitzler. O resto é meu”. Suspeito que seja menos ainda pois ele esqueceu de dizer qual parte é do estúdio.

Os US$ 14 milhões gastos na produção dificilmente se pagarão. O filme estreou nos Estados Unidos em duas salas, rendendo US$ 12 mil. Na semana seguinte chegou a sete salas, mas rendeu apenas US$ 10 mil no fim de semana com a média caindo para US$ 1,1 mil por sala. A produtora alega que o filme foi disponibilizado no iTunes e pay-per-view, o que garantiria uns US$ 3 milhões. Mas, reconheçamos: ainda está longe de encostar no custo do filme. Não sei como vai ser no Brasil pois estreou este fim de semana enquanto escrevo.

O diretor tem razão em ficar preocupado com os números já que sua última obra como produtor, o bem feito Xingu, de Cao Hamburger, custou R$ 12 milhões e para zerar os custos era para ter mais de 800 mil expectadores, não tendo passado da metade disso. Resultado: prejuízo.

360 faz parte dos chamados filmes mosaico, em que várias tramas paralelas são mostradas e se encontram no decorrer da narrativa. Não se pode necessariamente acusar o gênero de superficialidade. Um bom roteiro aliado a uma boa direção podem atingir um resultado poderoso como provaram muito bem Paul Thomas Anderson em Magnólia; Tod Solondz em Felicidade e  A Vida Durante a Guerra; Robert Altman em Short Cuts, Dr. T e as Mulheres e Prêt-à-Porter; Quentin Tarantino em Pulp Ficcion e Sin City; e Alejandro González Inárritu em 21 Gramas, Babel e Amores Brutos em que as histórias independentes se entrelaçam de modo muito mais sutil e inteligente.

Tirando o mérito da primorosa trilha sonora, e não somente por todos os problemas de formato, o filme decepciona também no quesito filosófico e conceitual, pois trata de maneira banal questões bastante densas como o abandono, a solidão, a prostituição, a religião, a máfia, o alcoolismo, o adultério...Já no título a película traz uma obviedade referindo-se ao giro em torno de um  eixo, e tem como mote final e inicial a mesma frase pretensamente profunda: "Um sábio disse uma vez que se há uma bifurcação na estrada, siga-a. Só esqueceu de avisar qual caminho escolher". O que se vê em 360 é que, apesar de qualquer caminho que os personagens trilhem, os bons acabam sempre bem, enquanto os maus, literalmente, acabam na lama. Valores como amizade, família, religião aqui são pregados na testa do expectador como um post it para lembrá-lo: seja um bom menino e tudo vai dar certo para você. Caretice tem aqui nome e sobrenome.

Se a ideia fosse fazer uma comédia rala, rasteira e simplória eu não diria nada, até porque nem iria gastar meu dinheiro suado com o ingresso, mas com temas tão densos e um diretor tão talentoso fico me perguntando onde tanta pretensão pode levar.

12.8.12

À Beira do Caminho



Fui assistir ao terceiro filme do diretor Breno Silveira em pleno domingo do Dia dos Pais: uma crueldade, pois não me lembro de ter chorado tanto em um filme. Não vou esconder o jogo, chorei do começo ao fim.

O filme é descaradamente (no melhor sentido do termo) feito para levar às lágrimas e faz isso magistralmente, com competência e sensibilidade incontestáveis, sem jamais apelar para o melodrama.

A história é um road movie de redenção. A história do caminhoneiro João, um homem marcado por uma profunda dor, que carrega um fardo como uma âncora que o faz mergulhar numa espiral de autodestruição, fuga e alheamento. Este personagem denso e trágico tem na interpretação do sempre talentoso ator baiano João Miguel um tour de force, ou seja, uma ação difícil, executada com grande habilidade.

Poderia fazer um parágrafo inteirinho falando só dos excelentes trabalhos de João Miguel no cinema e no teatro, mas isso me tiraria do foco do filme. Então vamos combinar assim: João Miguel, como sempre, está brilhante desde a primeira cena em que aparece, com uma barba desgrenhada. Solidão é seu nome; desamparo, o sobrenome. Perdido, a bordo de uma boleia, vagando pelas estradas do interior do País na companhia unicamente dos seus fantasmas e das músicas de Roberto Carlos.

E então não há como não falar de Roberto Carlos, mesmo correndo o risco de desviar um pouco da narrativa sobre o filme porque, na verdade, a película foi construída sobre essas canções românticas e descaradamente (essa palavra de novo) sentimentais. E o filme e as canções formam, brilhantemente, um corpo só.

Breno Silveira, que já dirigiu Dois Filhos de Francisco, campeão incontestável de crítica e público, com mais de 5 milhões de expectadores, novamente usa o casal de atores do primeiro longa: Ângelo Antônio e Dira Paes. A atriz está soberba, carregando parte da dor do caminhoneiro João, sua personagem faz parte da luta pelo resgate da alma deste homem e ela faz isso com a mesma competência de sempre: um único olhar seu, de amargura e arrependimento, arranca tantas lágrimas quanto uma pedrada ou um soco no estômago.

Dira é Rosa, que se junta ao personagem do pequeno prodígio baiano Vinícius Nascimento, no papel de Duda, para amolecer o coração do quase destruído João.

Mas, por que o nome do menino só vai aparecer nesse texto depois de tantos parágrafos? Afinal, é ele quem tem as melhores falas, as cenas mais ternas. Vinícius foi visto no cinema pela primeira vez em Ó Paí, Ó, como um dos filhos da beata Joana.

Então aqui vai um parágrafo só para esse garoto que possui um talento mais do que natural, sem qualquer afetação, sem exageros tampouco receios, ele parece saber exatamente o que se espera dele. Milhões de atores profissionais não saberão nunca o que Vinícius tem de sobra: talento e carisma, uma combinação que encanta a plateia e seu rosto não precisa procurar a câmera, pois a câmera não quer perdê-lo de foco. Todas as suas cenas não são menos do que perfeitas e brilhantes. Não temo estar exagerando nos adjetivos, pelo contrário, temo não estar sendo suficientemente justo com ele.

Um filme sobre pais e filhos, perdas e reencontros, sobre amizade e família, amor, arrependimento e sobre segundas chances. Seguindo a tradição dos filmes de estrada, os road movies, À Beira do Caminho trás a memória de Paris Texas, de Wim Wenders, uma preciosa obra prima, além de um tanto de Central do Brasil, de Walter Salles, já que nos dois filmes são narradas histórias de adultos endurecidos em uma jornada pelo interior do país em companhia de crianças que buscam suas famílias. Curiosamente, os atores mirins dos dois filmes têm o mesmo nome: Vinicius Oliveira (o Josué de Central do Brasil) e Vinicius Nascimento (o Duda de à Beira do Caminho).

Impossível, para quem a ele assistiu, não lembrar um pouco do filme argentino Las Acácias, em que um motorista de caminhão faz um trajeto entre Assunção e Buenos Aires, um homem solitário e carrancudo que dá carona a uma mulher e um bebê. Outro road movie sobre redenção e busca pela família e identidade que ganhou o cobiçado prêmio Caméra D'Or em Cannes em 2011 e recebeu muitos elogios na Europa e América Latina.

Mas Las Acácias é praticamente todo construído de silêncios enquanto À Beira do Caminho mescla eloquentes silêncios com diálogos que são quase monólogos feitos aos arranques. O filme tem tantos outros méritos, mas sublinho a fotografia do incomparável Lula Carvalho que traz no currículo a direção de fotografia de filmes como Tropa de Elite 1 e 2,  Budapeste, Feliz Natal, A Festa da Menina Morta, entre muitos outros.

À Beira do Caminho levou merecidamente cinco prêmios no último Festival do Audiovisual em Pernambuco: melhor filme pelos júris oficial e popular, melhor roteiro, melhor ator (João Miguel) e ator coadjuvante (Vinícius Nascimento). Sua narrativa é praticamente toda linear, com alguns flash backs que ajudam a entender o drama do protagonista.

Chamo a atenção para cenas com frases de para-choques de caminhões. São inseridas em momentos chaves, como verdadeiros capítulos da história e que contribuem, sem dúvida, para a narrativa. A última tomada do filme é irretocável, surpeendentemente, um provérbio chinês pendurado na traseira de um caminhão.

Com ela encerro esse texto: “Espere o melhor. Prepare-se para o pior. Aceite o que vier”.

7.8.12

O Que Esperar Quando Você Está Esperando o Brilho Eternamente Ofuscado de Rodrigo Santoro



Fui assistir à comédia romântica bobinha O Que Esperar Quando Você Está Esperando unicamente pela presença de Rodrigo Santoro no elenco, pois sou fã do ator e admiro sua persistência em desbravar a selva do cinema norte-americano.

Como já intuía, foi o mesmo que jogar meus cobres pelo ralo. O filme, que tem no título um trocadilho fácil, é baseado num best seller de auto-ajuda. É uma comedizinha muito da rala e rasa e o pobre Santoro está menos do que insosso no papel do marido da personagem de Jennifer Lopez.

Adoro o humor escrachado de Chris Rock, mas nesse filme ele está despido da sua clássica escatologia, engessado por um filme família sessão da tarde. E o pobre Santoro fica apagado, tanto ao lado de Chris Rock quanto nas cenas com Jennifer Lopez. E ele sacou que a câmera procura os rostos dos colegas atores em vez do dele e optou por uma interpretação minimalista em excesso sem qualquer ousadia.


Registro a esperteza da distribuidora brasileira em exibir no cartaz apenas a imagem de Rodrigo Santoro, sem qualquer dos atores americanos mais famosos do que ele, como Chris Rock, Jennifer Lopez, Cameron Diaz e Dennis Quaid.

E lá estava eu, naquela sala do Cinemark, como uma ilha solitária cercada de casais por todos os lados. O casalzinho da minha frente tinha, em anos somados, menos do que tenho de idade e passaram o filme inteiro com as bocas grudadas, não sei como eles conseguem. Aliás, sei sim, tenho na memória o nome vagamente familiar disso: hormônios. Mas será que não ficam com os lábios inchados e as línguas dormentes? Bem, se restasse alguma dignidade nesses velhos ossos eu não ficaria até o final do filme. 

Novamente não foi dessa vez. Parece que há um carma nos filmes do ator em Hollywood. Inicialmente apagado no seu debut internacional como um surfista sem falas em As Panteras Detonando, foi detonado pelo quarteto fantástico: Cameron Diaz, Drew Barrymore, Lucy Liu e Demi Moore. Escalado para o elenco da mega série Lost, foi visto em pouquíssimos episódios, também quase sem falas. 

Houve uma rápida ponta em Simplesmente Amor, filme formado por uma colcha de retalhos de histórias em que se viu ofuscado pelos machos-alfa: Hugh Grant, Colin Firth e Liam Neeson e por Laura Linney, atriz com quem contracenava.

Em Che ele até que ganhou um papel de mais destaque como Raul Castro, mas, novamente, havia dois nomes mais fortes na sua frente: Benício Del Toro como Che Guevara e Damien Bichir como Fidel Castro. Para quem não sabe Damien Bichir foi indicado ao último Oscar pelo filme Uma Vida Melhor, concorrendo com Brad Pitt, George Clooney, Gary Oldman e Jean Dujardin.

Em Cinturão Vermelho, filme americano sobre jiu jitsu, do escritor e diretor cult David Mamet, nosso herói fica novamente ofuscado pelos astros americanos Tim Allen e Joe Mantegna.

Uma boa chance viria com a deliciosa comédia O Golpista do Ano (I Love You Phillip Morris), mas a sina colocou em seu caminho Jim Carrey e Ewan McGregor que também roubam o filme como um divertido casal de gays.

Em 300, Santoro teve um bom destaque interpretando um vilão, o rei Xerxes, um papel marcante e valorizado por uma perfeita caracterização e por ser um rico contraponto para a saga dos 300 espartanos. Por sorte, quase consegue dividir bem a tela com o astro Gerard Butler que interpreta o malhado herói Leônidas. 

Alguns dos seus filmes no Brasil não tiveram tanto destaque como A Dona da História, Os Desafinados, Não Por Acaso e Reis e Ratos, mas o muito talentoso Santoro continua sua labuta, tendo no currículo papéis irretocáveis no cinema brasileiro como em Bicho de Sete Cabeças em que literalmente entra na pele de um interno num hospital psiquiátrico; em Abril Despedaçado, onde interpreta um jovem obrigado a seguir a sina de vingança sem fim de uma família; em Carandiru, onde encarna à perfeição um travesti; e em Heleno, no papel do jogador Heleno de Freitas. Ele também mostrou seu talento no drama argentino Leonera, do premiado Pablo Trapero, diretor argentino dos excelentes: Família Rodante, Abutres e Do Outro Lado da Lei.

Santoro está em uma nova produção internacional ainda sem data marcada para estrear, o novo filme de Philip Kaufman: Hemingway & Gellhorn, em que dividirá as telas com ninguém menos que Nicole Kidman, Clive Owen e Robert Duvall. Vamos torcer pelo nosso herói e ver no que vai dar.

3.8.12

Para Roma Com Amor


Fico feliz ao sair de uma sala de cinema onde acabo de assistir a um filme sobre o qual não tinha grandes expectativas. Dizer isso de um filme de Woody Allen pode parecer sacrilégio, mas eu esperava não gostar de Para Roma Com Amor, no entanto gostei bastante do filme.

É que passei a tomar mais cuidado com os filmes de Woody Allen depois da baita decepção que tive com o muito fraco Vicky Cristina Barcelona que, entre inúmeros problemas, me fez crer que Penélope Cruz é uma farsa: uma atriz que interpreta sempre o mesmo papel, o de Penélope Cruz, uma serial femme fatale. Seu prêmio Oscar não mudou minha opinião. 

O segundo cuidado que tive com Para Roma Com Amor foi o fato de que nele trabalha um ator que também detesto: o repetitivamente indigesto Roberto Benigni, outro que faz sempre o mesmo papel: o de Roberto Benigni, uma espécie de Didi Mocó com sotaque italiano e a quem substituíram o jabá pelo ravióli. O seu Oscar por A Vida é Bela também não me enche os olhos.

Comecei a me surpreender positivamente, pois os dois estão ótimos no filme. E eu que pensei que jamais gostaria de qualquer um deles. O mais incrível é que ambos continuam a fazer o que sempre fazem: os papéis deles mesmos. Penélope Cruz só mudou de língua, substituindo o espanglês ou o espanhol pelo italiano, mas continua a interpretar a femme fatale de sempre. Benigni é Benigni, mas sob a direção de Woody Allen ele ficou menos insuportável. Ou talvez porque ele apareça nas telas menos tempo do que nos seus próprios filmes, já que integra apenas uma das quatro histórias da película. É isso! Roberto Benigni em dose homeopática é palatável.

Para Roma Com Amor não é o melhor filme de Woody Allen, mas também não é o pior. E assim consegue ficar muito acima da média dos filmes descerebrados de comédia que o cinemão anda a oferecer por aí, graças aos seus diálogos inteligentes, cenas e atuações inspiradas, direção segura, montagem ágil e trilha sonora de primeira.

Da sua série mais recente longe da zona de conforto nova-iorquina, Allen passou por Londres, Barcelona e Paris e, dessa série, as obras-primas são Match Point e Meia Noite em Paris e a dissonância ficou com Vicky Cristina Barcelona.  

Para Roma Com Amor está mais próximo da linha cômica de Scoop, o Grande Furo do que do também de origem inglesa O Sonho de Cassandra, lembrando que nesse interim o nova-iorquino voltou às origens filmando os irregulares, mas comicamente agradáveis: Tudo Pode Dar Certo e Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos.

Aqui o diretor, fã declarado de jazz, abre a película com a canção italiana "Nel blu dipinto di blu”, popularmente conhecida como “Volare" levando a plateia de cara para dentro do clima caótico da capital italiana, onde somos apresentados a quatro histórias simultâneas, mas que não se inter-relacionam.

Fora das próprias produções por cinco filmes, Woody Allen volta a interpretar o mesmo personagem neurótico que encanta os fãs aos 76 anos e 40 filmes. Aqui ele é um produtor cultural aposentado que vai a Roma com a esposa para conhecer o noivo da filha. E aqui temos a melhor parte do filme, a do agente funerário tenor que só consegue cantar bem no chuveiro. Um achado divertidíssimo. Recomendo até para quem tem problemas biliares.

Na segunda história, Alec Baldwin e Jesse Eisenberg interagem no melhor estilo Woody Allen com Ellen Page. De tirar o chapéu. A química e o timming dos três atores estão perfeitos. Já era fã de Ellen Page desde Juno e Menina Má.com. Baldwin e Eisenberg (A Rede Social) me impressionaram bastante, o último está ótimo como o alterego do diretor. Novamente, parte do mérito se deve à direção segura de Woody Allen. 

Roberto Benigni interpreta um homem comum que repentinamente se descobre uma celebridade, uma crítica ácida do diretor à mídia sensacionalista e novidadeira. Felizmente, como disse, a história é curta e termina antes de Benigni nos fazer enjoar da sua cara. A última história não deixa de ser divertida, mas é a mais fraca das quatro, salva justamente pela personagem solar da prostituta de Penélope Cruz. Nunca pensei que um dia eu a elogiaria. 

Quem teve o privilégio de conhecer Roma, não terá como não se deleitar com a beleza das tomadas inusitadas da Cidade Eterna. Quem não conhece a capital italiana, não terá motivos para se queixar do belíssimo cenário para as deliciosas histórias. Então entreguei os pontos, deixei a caretice de lado e dei boas e altas gargalhadas. Absurdos surreais, humor desbragado e inteligente. O que eu queria mais, ora bolas?!