26.9.06

Havia um Carro de Boi


Costumava passar por aqui um carro-de-boi, o carro-de-boi das 5 horas. A poeira da estrada que ele levantava só assentava lá para o fim da tarde e o som, agora distante, das suas rodas, costumava ficar em meus ouvidos, noite adentro, como a luz das estrelas permaneciam dentro de meus olhos, mesmo fechados, muito mais tarde.

O pó daquela estrada que o carro-de-boi das 5 horas levantava, ainda hoje não larga a minha alma e a sua lembrança nunca foi tão viva. Antes que anoiteça totalmente dentro de mim, minha tia ainda pegaria o candeeiro de querosene de espantar muriçocas.

Antes que escureça, ela ainda precisaria expulsar as galinhas que ficaram sobre as camas e recolher um ou outro ovo. Antes que o crepúsculo se instale em minha alma, minha tia ainda faria requeijão quente e não me deixaria comer porque dava dor-de-barriga.

Minha tia fingia que não via que eu comia o requeijão ainda quente que ela fingia ter esquecido sobre a mesa da sala. Antes de anoitecer definitivamente, ela ainda prepararia as lingüiças que comeríamos no almoço do dia seguinte.

Minha tia não mora mais aqui e o carro-de-boi não existe mais. Ficaram a mesma poeira e a mesma estrada de cascalho. Sou estranho à beira do caminho onde passava um carro-de-boi e já passou há muito, das cinco horas. Aqui estão outras galinhas ciscando. O que terá acontecido com aquela galinha de pescoço pelado que senti pena e pedi à minha tia que não matasse ? Um dia ela foi importante e durante anos não a julguei digna de uma lembrança. Como saber o seu destino tornou-se tão dolorosamente importante.

Os olhos, órfãos de subjetividades, buscam recordar. Encontram o velho pneu ao lado do, agora enferrujado, rolo de arame farpado, o umbuzeiro centenário, empoeiradas telhas de argila encostadas à antiga cerca, a moenda desativada, a lagoa já seca...As montanhas que um dia teriam sido azuis aparecem cinzentas ao meu novo olhar. Nunca foram azuis, os olhos é que perderam a capacidade de enxergar, azuis, montanhas cinzentas.

Mas um novilho esquálido, de um bege sujo, toma luar sob uma árvore ressequida. Dói olhar. Uma árvore tão grande, e não faz parte da minha memória.

19.9.06

A Taça de Vinagre


Em 1882 deu-se o primeiro e único encontro entre dois homens memoráveis, dois homens tão diferentes entre si como a água e o vinho e ao mesmo tempo com afinidades que, paradoxalmente, os uniam, como a devoção pela beleza e pela literatura. Falo do escritor irlandês Oscar Wilde e do poeta americano Walt Whitman.


Oscar Wilde era, então, um jovem poeta que causava furor na Europa quando chegou pela primeira vez aos Estados Unidos para uma turnê de palestras. Seu esteticismo já era lendário no continente europeu, mas a América puritana parecia que seria hostil àquele dândi que alegava não estar à altura dos seus objetos de porcelana azul.

Engano. A América adorou Wilde e mimou-o como ele estava acostumado. Na Filadélfia, ele pediu para conhecer o grande Walt Whitman, poeta já velho e famoso, mas que vivia em uma cabana simples.

A elegância refinada do jovem Oscar, com seu sobretudo de veludo verde, contrastava com o barbudo Walt com sua blusa rústica feita pela cunhada. Wilde contou para Whitman que sua mãe lia para ele, na infância, os belos poemas do livro Folhas de Relva, do velho americano.

Whitman, lisonjeado, ofereceu ao visitante uma garrafa de um vinho vagabundo, feito de sabugo de milho. O estóico e o esteta desfrutaram daquele improvável momento etílico enquanto conversaram por horas. Separaram-se, emocionados.

Tempos depois, já em Londres, o elegante Oscar Wilde contou para amigos aquele encontro. Os colegas, conhecendo bem seu gosto refinado e suas exigências para vinhos comentaram como devia ter sido intragável, para ele, beber aquele vinho de sabugo.

Wilde respondeu: “Se aquele homem tivesse me oferecido vinagre, eu beberia com mais prazer do que já bebi o mais fino champanhe”

Lembrei desse encontro de dois dos meus escritores favoritos e, longe de mim me comparar a qualquer um deles, constatei como essa passagem tem uma irônica analogia com a forma como a política se apresentou na minha vida.

Sempre admirei a coragem de Wilde, que dizia: “O público é maravilhosamente tolerante. Perdoa tudo, menos o gênio”; e a sobriedade de Whitman. Por algum tempo, como Oscar Wilde, também eu acreditei profundamente em um homem simples. Um homem de barba, como Whitman, que vinha do povo, como ele, que tinha os valores do povo e que saudava o homem rústico, o homem simples: “Não me fechem as portas, orgulhosas bibliotecas, / Pois justamente o que estava faltando em tuas prateleiras apinhadas, / É o que venho trazer”.

O homem simples em quem um dia eu acreditei parecia trazer, na própria vida, o conteúdo alternativo das bibliotecas oficiais cujas portas lhe tinham sido fechadas. Esse homem simples, quase analfabeto, sentira na pele o sofrimento da fome, da falta de oportunidades, da pobreza. Esse homem não faria alianças sujas, redimiria toda sorte de injustiças, não trairia a confiança depositada em que sonhou com uma estúpida espécie de redenção possível. Era a esperança contra o medo.

Há anos-luz do talento de Wilde, também vivi em meio aos livros e tive educação e certo conforto. Como Wilde, fui embalado por anos pela imagem de um homem simples, de barba. Como Wilde, metaforicamente, bebi da taça de vinagre que um homem simples me ofereceu.

As semelhanças terminam aqui. A minha história não tem um final feliz.

14.9.06

Miame, Uma Pocilga ao Sol


Logo no primeiro dia senti que alguma coisa estava muito errada naquela viagem. No último dia os envolvidos já queriam se matar.

A primeira etapa consistiu no desembarquei com meus dois, até então, amigos no aeroporto de Miame. Eu já sabia que haveria um espaço de 13 horas entre a chegada em Miame e a hora de deixar a cidade rumo a Washington às 6 da tarde.

A operadora no Brasil não conseguiu um vôo mais cedo. Ainda teríamos que pegar uma conexão de Washington para Nova Orleans 9 da noite. Assim, tive a expectativa de conseguir no aeroporto de Miame um vôo mais cedo para Washington e de lá outro mais cedo para Nova Orleans. Não queria ficar 13 horas em Miame.

Às 5 da matina estávamos no balcão da United perguntando a um negão gente boa se haveria chance de conseguir esse vôo para Washington mais cedo. Meus amigos preferiam ficar em Miame. Pedimos sugestão ao negão que olhou para gente e disse:

"Não fiquem em Miame! Miame é horrível, não tem nada aqui que preste! Vocês vão ser assaltados! Miame Beach e South Beach são pocilgas. Se vocês quiserem, eu boto vocês num vôo daqui a meia hora para Washington. Lá no aeroporto vocês podem pegar um shuttle que faz um passeio com guia ótimo, leva vocês à Casa Branca, ao cemitério de Arlington, ao Congresso, Capitólio, Museu Smithsoniano, aos monumentos a Washington, Lincoln e Jefferson etc. Depois o shutlle leva vocês de volta ao aeroporto a tempo de pegarem o vôo para Nova Orleans."

Eu tinha a maior vontade de conhecer Washington. Insisti com meus amigos para irmos, afinal, se Miame tem praia, Salvador também tem e nós não estávamos viajando por causa de praia estávamos? Quem em sã consciência trocaria Washington por Miame por causa da praia? Meus dois amigos insitiram veementemente. Miame ou nada. Fui voto vencido.

O negão assistindo ao debate pareceu inconsolável. Disse que no mês seguinte ele deixava Miame para o Hawai. Desejou sorte e que nós não fôssemos assaltados. Descobrimos, sonolentos, o guarda-volumes do aeroporto, guardamos nossas malas, pegamos um ônibus e fomos para South Beach. No caminho vimos como essa cidade é feia. Miame não tem graça nenhuma a não ser na orla.

Quase 1 hora depois saltamos do ônibus, tomamos outro, saltamos no começo de South Beach às 7 da manhã. Andamos durante 3 horas pela beira da praia, pela areia da praia, pela rua e pela calçada e não encontramos nada! Quase deserta. Pouquíssimas pessoas na praia e na rua, as loja fechadas, os restaurantes fechados, poucos carros e nada de movimento.

Só lá para as 10:00 horas conseguimos tomar um caríssimo café da manhã. Mais 1 hora andando pela praia num sol escaldante até o fim de South Beach. O fim mesmo! Acabou a praia, acabou a cidade, acabou tudo, não tinha mais nada. Só víamos um descampado, um terrenão baldio enorme deserto e uma espécie de camping abandonado.

Paramos para descansar, nem tomar um banho num chuveirinho que tinha na praia a gente podia, porque deixamos os shorts nas malas no aeroporto. Estávamos exaustos e morrendo de calor e eu amaldiçoando os amigos a cada minuto. Imaginava que estávamos ali naquele sufoco quando podíamos estar no Museu Smithsonian em Washington no ar condicionado ou no cemitério de Arlington onde eu poderia tirar fotos para minha coleção de fotos em cemitérios famosos e nem tanto.

Descansados, atravessamos um descampado e um estacionamento abandonado, saindo numa rua deserta. Pegamos um táxi arredio, perdido naquele ermo. Foi nossa salvação. O motorista, um negão haitiano nos explicou o que estava acontecendo: "Miame só acorda depois das 11 horas da manhã!"

Esses negões estão sendo ótimos para nós, pensei. Então foi isso. O povo nessa cidade ferve até de madrugada e só acorda quase meio dia. O homem nos levou até Miame Beach para, digamos, "apreciar o movimento". Senti-me um jeca total quando meus amigos pediram ao motorista para parar em frente à casa de Versacce para eles tirarem uma foto ali. Onde tombou Versacce, me disse um deles. Eu preferi não contrariar e esperar no ar condicionado do táxi enquanto eles se enquadravam nas fotos em frente à mansão em um estilo que não consegui identificar.

Finalmente vida! Finalmente Miame Beach, o povo do bem patinando e se mostrando pelos calçadões, gente bonita e nem tanto. Nada especial, nada extraordinário, mas como vínhamos daquela buraqueira de South Beach foi o que se pode arranjar. Sorvete e descanso do calor e da caminhada. Vamos apreciar o movimento.

Mas não dá para ficar apreciando movimento até 6 da tarde quando teríamos que voltar ao aeroporto para pegar o bendito vôo. Bem, já que estamos nessa zorra dessa cidade por causa dessa zorra dessa praia vamos aproveitar e tomar um banho de mar né?
Quem disse que consegui consenso?

Um dos amigos que insistiram tanto para ficar em Miame por causa do mar, não queria tomar banho por dois motivos: 1º motivo, ele já havia se banhado no Atlântico e seu sonho era tomar banho no Pacífico! 2º motivo, ele não tinha shorts. Eu não podia discutir o primeiro motivo sob pena de perder completamente o resto de minha sanidade mental, mas o segundo dava para resolver. Compraríamos shorts em uma loja, loja não faltava! Convenci um, não o outro que queria o Pacífico.

Argumentei até os limites da minha paciência que havíamos andado mais de 3 horas na beira da praia, sentimos como aquela cidade é quente e o que ele iria fazer quando nos visse, alegremente, na água do mar? Ou ele achava que iríamos perder a oportunidade de tomar um banho, mesmo que fosse um banho no Atlântico?

Ele contra argumentava que não teríamos como tirar a água salgada do corpo antes de ir ao aeroporto. Falei que havia chuveirinhos nas praias e nós encontraríamos um, não era possível que não houvesse um chuveirinho de água doce em plena Miame Beach. Ele, irredutível, garantiu que não iria tomar banho nem comprar shorts.

Eu disse: "Olha seu sacana, se você chegar na beira da praia e resolver entrar na água não vai poder voltar aqui e comprar shorts porque temos pouco tempo."

Como eu previra, o sacana mal botou os pés na areia lotada de gente bonita resolveu que queria entrar no mar. Quase explodi! Disse que ele não iria voltar porque a loja era longe e ele agora iria ficar ali vendo a gente se divertir. A cara dele deu pena e acabei sugerindo que ele o nosso amigo que comprou o short, o dividissem. Foi um processo insano.

Meu amigo e eu entramos na água de shorts, meu amigo tirou o dele e ficou de cueca dentro do mar, eu trouxe o short dele para o outro vertir, tive que fazer barreirinha numa praia não tão deserta assim para ele tirar a calça jeans e vestir o short do que estava no mar. Depois desse longo processo resolvemos dar uma volta pela areia da praia e quando notamos estávamos há quase 1 hora andando e nosso amigo, uma das pessoas mais brancas que conheço, tinha sido esquecido na água do mar sob um sol escaldante. Quando lembramos dele e voltamos não conseguíamos distinguí-lo de um pimentão cozido no forno, pois ele, inibido e de cueca, não quis sair da água para ficar sob um guarda sol. Mas nós não tínhamos mesmo guarda sol...

Havíamos chegado àquela praia perto das 2 da tarde e estipulamos ficar ali só até as 4 horas pois ainda tínhamos que nos lavar, tirar as roupas molhadas, vestir nossas roupas secas e pegar ônibus para o aeroporto. O capítulo do chuveirinho foi inteiro uma novela. Por pouco não fomos presos por atentado ao pudor, pois tínhamos que nos lavar, tirar os shorts, vestir as calças e camisas, calçar os tênis ali mesmo e secar no sol pois nem toalhas tinhamos. As roupas molhadas foram guardadas nas sacolas plásticas da loja.

Pegamos um ônibus. Errado. Não nos levou ao aeroporto.

Quando descobri o engano perguntei ao motorista qual o ônibus certo. Ele nos deixou saltar e indicou outro ponto onde pegaríamos o ônibus correto. Novamente um negão salvou nossa pele.

Já eram mais de 4 da tarde. O motorista me disse que devíamos pegar o ônibus com a letra J. Ou seria letra G? Ele falou numa mistura de inglês e espanhol. A ansiedade agora era saber qual era o ônibus. G ou J? Quase pegamos de novo o ônibus errado, mas fomos demovidos por uma negona jamaicana ou panamenha, que estava no ponto e que, praticamente, me puxou pela mochila de cima do segundo degrau. Agora sabíamos que era letra G. Após esse vexame, esperamos quase uma hora. O ônibus certo passou mas nós estávamos com tanto sono que dormimos. Os três!

A negona dominicana ou salvadorenha não estava mais ali para nos salvar. Perdemos o ônibus pois quando acordamos ele estava indo embora. Esperamos mais uma eternidade até outro ônibus. Meus amigos queriam ir de táxi mas eu disse que sairia muito caro, afinal foi mais de uma hora até o aeroporto.

Finalmente, o ônibus certo de novo. Assim que entrei perguntei à motorista, uma negona de perucão e dedos cheios de anéis: “Miss, esse ônibus demora meia hora até o aeroporto não é?"

Ela respondeu, seca: "Não! Uma hora"

Olhei o relógio e vi que era exatamente 5 da tarde e nós ainda tínhamos que pegar as malas no guarda volumes e fazer o check in. Tínhamos exatamente 1 hora.

A mulher do perucão e brincos de ouro completou para o meu desespero: " Isso num horário normal, mas estamos no horário do rush".

Foi então que me lembrei que nos Estados Unidos o povo sai do trabalho as 5:00 horas. Amaldiçoei-me por não ter aceitado a idéia do táxi. Amaldiçoei meus amigos por quererem ficar em Miame em vez de Washington. E estávamos com uma fome! Nossa única comida do dia foi o café da manhã às 10 horas e um sorvete ao meio dia. Sem almoço, com sono, salgados, suados, com areia em algumas partes, um pouco sujos, cansados e estressadíssimos.

Aquele era apenas o primeiro dia das minhas férias.

Rush! O primeiro rush verdadeiro da minha vida. Talvez o último. Tensão! Faltava meia hora para chegar ao aeroporto e ainda estávamos presos no engarrafamento há uma milha de distância.

Parecia que perderíamos o vôo. Era o último vôo do dia para Washington. Outro só no dia seguinte. Não havia mais vôos para Nova Orleans. Teríamos que dormir em Miame. Não conseguia pensar em horror maior.

A negona motorista com unhas imensas pintadas de lilás parecia imune ao meu sofrimento. Meus amigos traziam a angústia estampada no rosto. O trânsito parecia morto. O ônibus não andava nem 1 metro por hora. As horas não paravam de andar. Não adiantava mais pegar um táxi porque o engarrafamento era democrático.

Algum anjo negro deve ter feito algum milagre nesses minutos pois o engarrafamento, subitamente, desapareceu. A negona motorista de lentes de contato verdes acelerou. Talvez devido às 2 americanas que também estavam no ônibus e iriam pegar, coincidentemente, o mesmo vôo que a gente.

Como toda tragédia que se preza, essa não acabou assim tão fácil. O que aconteceu ali não sucedeu comigo em qualquer outro lugar em minha vida e aconteceu exatamente em Miame: logo após o engarrafamento desaparecer o ônibus quebrou!

Poderia escrever os e-mails dos colegas que estavam comigo no ônibus para qualquer dúvida ser esclarecida, mas, infelizmente, os dois não dirigem mais a palavra a mim, nem a eles mesmos, diga-se de passagem. Também não tenho o endereço das duas americanas e nem o nome da motorista black power.

Parece mentira. Em minha vida inteira nenhum ônibus que peguei nunca havia quebrado. Em lugar algum do mundo em que peguei ônibus o desgraçado quebrou (exceto o ônibus que rolou uma ribanceira comigo dentro em Goiás matando um passageiro e ferindo outros em 1987).

Pois o desgraçado do ônibus quebrou em Miame com a gente dentro e faltando 20 minutos para o vôo, meia milha para o aeroporto e após o maldito engarrafamento. As meninas americanas e nós três cercamos a negona de colares de pérolas falsas que sacou um celular e ligou para a central.

Ela nos disse: "I am doing my best!"

Parecia que ela estava chocada, pois acredito também ela nunca vira um ônibus quebrar em pleno trânsito. Só que o "best" dela não estava funcionando. Não ia dar tempo de esperar o ônibus reserva.A gente começou a se deseperar. A negona suada sentiu a nossa dor e disse: "Ok, I will try!"

O ônibus foi levado aos solavancos. A gente tinha já perdido toda esperança. O aeroporto apareceu à nossa frente mas ainda estava longe. A negona, irritada, chegou a dirigir quase 300 metros aos trancos quando o ônibus quebrou de vez. Ela disse algo como: “Corram seus bastardos!”

A gente nem pestanejou. Saltamos do ônibus no meio do trânsito.Corremos feito loucos, nós três e as duas meninas. Só que elas não precisavam pegar as malas no guarda volumes e nós sim. Mas onde ficava o maldito guarda volumes? O aeroporto era imenso e havia 3 guarda volumes.

Não tínhamos tempo, nos dividimos e quando um de nós achou o guarda volumes certo gritou para os outros dois. Faltavam 3 minutos e a moça do guarda volumes parecia ter tomado lexotan.

Foi o tempo de pegar as malas e subir o elevador. Por sorte o balcão da United estava exatamente à nossa frente, mas ainda tínhamos que fazer o check in. Estávamos cansados, famintos, suados, salgados, sujos e fedendo. As roupas grudadas no corpo, suor frio de medo misturado com o suor do calor terrível de Miame. Daria qualquer coisa por uma coca cola gelada com um Big Mac.

Até hoje não sei como mas conseguimos pegar o vôo. Fomos os últimos a entrar no avião e durante horas eu não acreditava que aquilo tinha acontecido comigo. Tive uma crise de riso histérico no avião. Meus amigos se assustaram e pediram que eu me acalmasse. Quanto mais eles se aborreciam e se envergonhavam, mais eu gargalhava para desabafar e irritá-los ainda mais, pois tudo começou com a insistência deles em excluir Washington das nossas vidas. Eles procuravam cadeiras vazias no avião para se afastar de mim. Eu sentia o estômago doendo de fome e também pelo riso histérico.

Foi então que uma aeromoça aproximou-se de mim preocupada e perguntou o que é que eu estava sentindo, eu respondi: Fome!

Ela me trouxe um maldito pacote de amendoins e um copo de coca cola. O vôo não servia jantar e a aeromoça era branca.

2.9.06

A Interatividade sem Pecado Abaixo do Equador


Desmond Morris, renomado antropólogo britânico e consultor científico da BBC inglesa, coordenador da série de documentários O Animal Humano, no seu mais famoso livro O Macaco Nu, analisa o comportamento interativo humano sob uma ótica digamos, geográfico-climática.

Claro que existem vários outros estudos sobre a antropologia especificamente sub-equatorial que nos resultou homens tão cordiais, já disse Sérgio Buarque de Holanda em Visões do Paraíso e Raízes do Brasil, estudou Gilberto Freire em Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mucambos e descreveu Caio Prado Jr. em Formação do Brasil Contemporâneo; do calor tropical onde se cozinhou nossa única sopa racial e onde tudo passa da construção à ruína sem passar pelo apogeu, como definiu Levi Strauss em Tristes Tópicos.

Mas Desmond Morris acredita que entre a série de fatores envolvidos nessa compulsão interativa, um fundamental é o clima quente dos trópicos. Para ele, em países abaixo do equador, o calor faz com que as pessoas desenvolvam uma cultura meio apática, menos introspectiva, algo calorosa, afetuosa, displicente e mais interativa. Uma das razões para isso seria porque o homem tropical, diferente do de clima temperado, não se preocupa com o período do ano em que faz frio ou neva e ele não precisa, nos meses de calor, economizar para pagar calefação e estocar alimentos. Por aqui não se economiza porque, proporcionalmente, tudo tem o ano inteiro e ninguém morre de frio.

Assim tudo é relativamente abundante e o homem tropical reflete essa abundância natural com abundância de gestos, de palavras, de ritos, de danças, de toques. Aqui todo mundo dá opinião na vida dos outros, se importa ou finge se importar com tudo que não lhe diz respeito. É preciso participar. Na aparência, é claro, porque não se comprometem de fato.

É comum, por exemplo, no trânsito, alguém buzinar, dar sinal de luz e fazer todo tipo de gesto apenas para avisar ao motorista do carro ao lado que a porta no veículo não está fechada ou o farol está acesso. Esse falso cooperativismo não é visto em situações realmente importantes.

Ou quando se entra numa contramão e nunca falta quem avise que é contramão. Creio que 99% das pessoas que entram numa contramão percebem logo o erro, mas sempre tem alguém que avisa que você está na contramão. Há um prazer nesse alerta e os autores não estão conscientes. É apenas um sintoma da interatividade.

Outro hábito comum é quando um flanelinha, a pretexto de ajudar a estacionar o carro, fica batendo na chaparia. Peço sempre que parem, não gosto que batam no meu carro, mas logo me arrependo, pois esses interativos se aborrecem facilmente quando alguém aparenta ser mau humorado e os carros costumam sofrer com isso. Sem contar quando há uma contenda quando dois deles disputam quem guardou seu carro. E você sabe que não foi nenhum dos dois.

O fato de Salvador ser uma cidade costeira e de litoral belíssimo faz com que as pessoas percam a capacidade e o espaço do ensimesmamento, da introspecção. Qualquer tristeza momentânea, o horizonte e o mar estão ali para estabelecer uma dimensão infinita e qualquer abalo emocional sofre revés ante a imensidão. E nada é refletido ou analisado e sim sufocado pela paisagem exuberante.

Não falo do sagrado hábito da contemplação. A exuberância sufoca também contemplação. Quando alguém contempla um determinado objeto, é preciso de tempo e silêncio, como num mantra visual, para que nós próprios nos percebamos novos diante do objeto contemplado. Essa observação cuidadosa e muda mostra muito menos do objeto contemplado e muito mais de nós mesmos do que imaginamos. E, muitas vezes, mostra mais do que gostaríamos de ver. Por isso a fuga é freqüente.

Em lugares onde a frieza do clima, da geografia, ou da arquitetura dificultam a interação, as pessoas costumam confiar mais nos amigos verdadeiros que costumam ser poucos, e escolhidos, para questões importantes. As pessoas estabelecem vínculos mais sólidos para confiar e atravessar reveses emocionais ou para problemas mais sérios.

Em cidades como Salvador facilmente se consegue companhia para uma farra, festa, folia, mas dificilmente se consegue um apoio moral ou emocional. A agenda de endereços e telefones, repletas de contatos, não serve para outra coisa que não para o lúdico.

A amabilidade folclórica do baiano é realmente superficial como são superficiais suas amizades. É comum duas pessoas se encontrarem na rua e se abraçarem excessivamente afetuosas para logo se afastarem dizendo: me liga para a gente marcar alguma coisa. Não há a honestidade de dizer simplesmente: Até qualquer dia, mesmo porque ambos sabem que não vão ligar coisíssima nenhuma e às vezes nem têm os números dos telefones um do outro.

Outra mania baiana é a mania de desmarcar. É surpreendente a facilidade com que se desmarca aqui. As pessoas combinam coisas: cinema, teatro, qualquer coisa e se, de repente, pintar algo melhor, simplesmente ligam dizendo: Estou desmarcando ou então Não deu!. Isso quando ligam. Na maioria das vezes simplesmente nem aparecem. E fica por isso mesmo porque quem sofre a "desmarcação" também é craque em "desmarcar".

Li na Folha de São Paulo um texto ótimo com o título: Modos brasileiros de escapar do não, de Michael Kepp, que serve como uma luva para o baiano. Kepp diz: "Universalmente as pessoas se escondem atrás de expressões comprometedoras para evitar assumir a responsabilidade pelos atos e opiniões e fugir de confrontos embaraçosos. Se essa "esquiva retórica" fosse uma disciplina acadêmica os brasileiros seriam PhDs nela."

"Expressões propositalmente vagas como: ‘Pode ser’, ‘vamos ver’, ‘se der’ para desviar da palavra não. E frases descompromissadas como ‘eu te ligo’, ‘a gente se vê’, ‘apareça lá em casa’, são escapadas e não promessas de novo encontro."

“O álibe para não cumprir um compromisso é : ‘Houve um desencontro’
" ’Pô você sumiu' não deve ser confundido com ‘Que saudade’ "
" ’Sumiu!!??’ é uma reação sem graça que transfere o peso do sumiço para o outro."

E o pior é que a pessoa supostamente sumida tem endereço e telefone conhecidos pelo outro. Nos EUA as pessoas dizem, com a mais saudável honestidade: "Meu nome e endereço estão na lista telefônica". Quem quer encontrar o outro sabe como fazer e se não faz é porque não quer, não tem essa hipocrisia.

" ’Fico te devendo’: Qualquer trato não cumprido soa como um acordo amistoso. ‘Não deu’ antecipa um ‘fica para a próxima’.”
"Os americanos são mais objetivos ou mais grosseiros? Se dizem: ‘Desculpe, não vou poder porque estou muito ocupado’ é um golpe no ego, mas enrola menos do que ‘eu te ligo’ ou ‘a gente combina’ ”
“As expressões mais perigosas são as que começam com: ‘é o seguinte’...prosseguem com ‘não deu’ e acaba com ‘fica para a próxima’."

O escritor Umberto Eco, comentou na Revista Época: " Se você é convidado [nos EUA] para algum compromisso e responde que está ocupado (Sorry, I'm busy), a pessoa que o convidou chega a pedir desculpas e não lhe pergunta mais nada. Mas se você diz que sim e depois não vai, a coisa é inconcebível" "Entre nós [diz citando os italianos mas perfeitamente aplicável aos brasileiros e baianos], se diz:' me ligue para a gente se encontrar', ou então: 'quando passar por aqui venha jantar em casa', e não temos nenhuma intenção de rever nosso interlocutor".

Não sei se fiz uma colcha de retalhos ou se desenvolvi alguma idéia coerente com argumentos discutíveis. Para quem achou que passei a adorar os EUA e odiar a Bahia deixo essa dúvida no ar como uma espécie de mistério...Não resisti.