8.8.19

Robert Mapplethorpe ainda incomoda muita gente


Atribuo a uma conspiração os eventos que me levaram a ler “Só Garotos", da multiartista americana Patti Smith. De repente, para onde olhava, alguém estava falando sobre o livro. Mas, por um tipo besta de implicância, tendo a resistir quando essas coisas acontecem. Minha birra natural me faz dizer: “Ah, é? Pois não vou ler!” Ainda mais que nunca tinha ouvido falar dessa tal Patti Smith!

É assim que a gente sabe como a gente é besta!

Talvez tenha cedido à pressão da leitura devido à bela foto da capa do livro, em que Patti Smith está ao lado do melhor amigo, o fotógrafo americano Robert Mapplethorpe, de quem eu já era fã. Ou talvez por aquela foto ser na icônica Coney Island, cenário de inúmeros filmes e lugar onde, mesmo após algumas idas a Nova Yorque, eu jamais conheci. Um pecado para um cinéfilo.

Ao ler Só Garotos, difícil foi parar. Em pouco tempo, arrastava um bonde por Patti Smith e Mapplethorpe, para quem ela escreveu o livro, cumprindo-lhe uma promessa no leito de morte. O fotógrafo foi uma das vítimas da AIDS em 1989 aos 43 anos, no auge da fama e sucesso internacionais, muito rico e aclamado como um dos maiores artistas contemporâneos e corresponsável por elevar a fotografia ao nível da arte.

No livro, imergimos na vida desses dois artistas. Smith, em 1967, aos 21 anos mudou-se para uma Nova Yorque no auge da contracultura,  com uma mão na frente e a outra atrás e uma vaga esperança de ser famosa. Viveu anos na pior, fazendo bicos e chegou a passar fome. A entrada de Mapplethorpe em sua vida fez com que tudo passasse a fazer sentido.

Em pouco tempo, o casal mudou-se para o emblemático Chelsea Hotel, habitat dos maiores cabeções daquela geração louca, onde conheceram todo mundo que um dia seria mega importante, como os beatniks Allen Ginsberg e William Burroughs, os cantores Bob Dylan, Iggy Pop, Jimi Hendrix e Janis Joplin, o artista pop Andy Warhol e toda uma geração de gente da pesada.

A partir do Chelsea Hotel, as carreiras de ambos seguiram sempre ascendente, mas ainda com muitos perrengues, quando não tinham dinheiro para pagar pelo  menor quarto do hotel e precisavam optar entre um café da manhã e material de pintura.

Robert, com um passado familiar fortemente católico, descobriu-se homossexual, prostituiu-se, experimentou uma infinidade de drogas e mergulhou de cabeça no universo gay sadomasoquista barra pesadíssima de Nova Yorque. Mas os laços com Patti permaneceram  inabaláveis.

Na sequência de Só Garotos, continuei obcecado pelo casal e emendei com a leitura da biografia de Mapplethorpe escrita por Patricia Morrisroe, atualmente fora de catálogo e disponível em sebos físicos e digitais como a Estante Virtual.

Polêmicas sempre estiveram ligadas à obra de Mapplethorpe, associado primordialmente ao nu masculino e ao homoerotismo. No ano passado, a censura a algumas das suas fotografias por um Museu de Arte Contemporânea de Portugal provocou o pedido de demissão do seu diretor artístico, levando o crítico, historiador de arte e professor da Universidade de Lisboa Pedro Lapa, ex-diretor de dois museus portugueses a declarar que “o obsceno, o abjeto, o informe, o pornográfico, tudo tem lugar na arte. A arte lida com tudo, não exclui”.

No filme Fotos Proibidas, assistimos à luta do diretor do Centro de Artes Contemporâneas de Cincinatti, Ohio, Dennis Barrie, interpretado pelo ator James Woods, para exibir as fotografias da Mostra The Perfect Moment, de Mapplethorpe, quando um xerife decide prendê-lo no dia da estreia da Mostra. O filme retrata um feroz debate ideológico no qual o júri precisa decidir se as fotos eram pornografia ou arte.

De um lado, um juiz preconceituoso e um xerife truculento e do outro um homem obstinado, enfrentando todo um sistema, os riscos de prisão e demissão, além da falta de apoio da própria família, já que a esposa não compreendia sua insistência em manter-se fiel à ideia de liberdade artística e pelo direito expresso na constituição americana de liberdade de expressão. Barrie resistiu até à tentativa de suborno, quando um cliente anônimo lhe ofereceu US$ 100 mil, o valor total das suas dívidas, para ele abandonar a causa.

Era o ano de 1990 e a América parecia enlouquecida por políticos conservadores, uma época em que a epidemia de AIDS devastava a classe artística por todo o país, tendo matado o próprio Mapplethorpe um ano antes.

O filme retrata os embates ao longo do julgamento, que envolveu especialistas de todo o país defendendo a obra de Mapplethorpe e ressaltando suas excepcionais escolhas de luz, sombra, perspectiva, profundidade de campo, composição...Os membros do júri, todos cidadãos simples que nunca tinham visitado um museu, inocentaram os acusados, liberaram a mostra e garantiram a liberdade artística. Uma frase de um dos jurados é emblemática: “Eu não entendo nem gosto de Picasso, mas quem entende diz que é arte. Então eu acho que é arte”.

No Brasil, 30 anos depois, vemos hordas de moralistas ignorantes voltarem a mostrar suas unhas sujas, novamente envolvendo o trabalho de Mapplethorpe além da exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Basileira”, cancelada pelo Santander por pressão de grupos fascistas. É impressionante que a nudez num museu gere tamanho desconforto nos pudicos de plantão, levando-os a agredirem artistas, como no MAM de São Paulo e vituperarem contra a exposição "Histórias da Sexualidade" do MASP.

Como ainda hoje fazem faltam pessoas ousadas como Robert Mapplethorpe.



7.6.19

Livros de Janeiro a Maio

Aqui estão os 27 livros lidos neste ano de Janeiro a Maio
Estão na ordem em que aparecem na ilustração acima e na lista abaixo

FOGO E SANGUE – De George R.R. Martin, autor das Crônicas de Gelo e Fogo. Séculos antes das histórias de Game of Thrones, quando a Casa Targaryen, formada por senhores de dragões, assume Pedra do Dragão em Westeros

OBJETOS CORTANTES  – Primeiro livro de Gillian Flynn, adaptado pela HBO.  Da mesma autora de Garota Exemplar, adaptado para o cinema

JERUSALÉM, A BIOGRAFIA – Obra de Simon Sebag Montefiore com mais de 900 páginas. O mesmo autor dos Romanov, que li ano passado.

O ALEPH O primeiro livro do argentino Jorge Luis Borges que li. Há tempos me devia essa experiência. Contos que justificam o adjetivo “borgiano”.

ALMAS MORTAS – Obra prima do russo Nikolai Gogol, que destruiu a segunda parte da obra antes de morrer. Li após saber, em Jerusalém, a Biografia, que o surto de Gogol se deu durante sua visita a Jerusalém.

SUBMISSÃO – O primeiro livro que li do polêmico francês Michel Houellebecq. Uma distopia em que um muçulmano é eleito presidente da França instituindo teocracia, poligamia e patriarcado. O livro desperta paixões da direita e da esquerda, o que significa que vale à pena ser lido.

UM AMOR INCÔMODO – O quinto livro que li da italiana Elena Ferrante, após sua Tetralogia Napolitana. Narra o retorno de Delia, aos 45 anos, à sua cidade natal, Nápoles, para enterrar a mãe achada morta numa praia e que levam a filha a reviver emoções de um passado que julgava enterrado.

WILD CARDS 1 - Coleção de contos de ficção organizada por George R. R. Martin, de Game of Thrones. Primeiro volume de uma série de 22 livros e conta as histórias dos principais personagens da série a partir da disseminação de um vírus que contamina parte da população, matando inúmeras pessoas e dotando parte dos sobreviventes com poderes especiais.

GAROTA EXEMPLAR – Após ter lido Objetos Cortantes de Gillian Flynn e ter visto a adaptação deste livro para o cinema, com Ben Afflec e Rosamund Pike, resolvi ler a obra que gerou o filme. Excelente, mas é uma pena que eu já sabia o final. Mesmo assim foi uma boa experiência. Se já era fã da autora, fiquei mais ainda.

AS CRÔNICAS MARCIANAS – Livro de contos de ficção científica publicado na década de 1950. Segundo livro que li do americano Ray Bradbury, após Farenheit 451, que já adaptado para o cinema duas vezes. Todos os contos giram em torno da colonização de Marte por humanos. Distopia, mais uma vez.

OS PRELÚDIOS DE DUNA - A CASA ATREIDES – Após seis livros fabulosos de Frank Herbert,  foram publicados pelo seu filho Brian Herbert vários outros depois da morte do autor dos originais. Aqui temos o primeiro da nova série narrando acontecimentos anteriores aos de Duna, O Messias de Duna, Os Filhos de Duna, O Imperador-Deus de Duna, Os Hereges de Duna e As Herdeiras de Duna.

A FILHA DO CAPITÃO – Primeiro livro que li de Aleksandr Pushkin, considerado fundador da novela russa e que influenciou autores como Gogol e Turgeniev. Foi a partir de um argumento seu que Gogol escreveu Almas Mortas. Aqui, a história de amor na Rússia do fim do século 18 com pano de fundo na história real da revolta de Yemelyan Pugachev, que alegava ser o falecido czar Pedro III.

DIÁRIO DE UM LOUCO – Uma novela curta de Nicolai Gogol. Literalmente o diário de um funcionário público atormentado que vai aos poucos enlouquecendo até ser internado num hospício.

A BRIGA DOS DOIS IVANS- Depois de ler O Capote, Almas Mortas e Diário de um Louco, fui adiante na obra de Gogol e me deliciei com uma novela que narra a disputa de dois cidadãos de uma vila da Ucrânia, no início do século 19. Depois de anos de amizade eles mantêm uma longa disputa. História leve e cínica sobre a condição humana.

A SEDE – O 5º livro que li do autor norueguês Jo Nesbo. Aqui, temos um assassino à solta e que tem como característica beber o sangue das suas vítimas, sempre mulheres. O detetive ícone de Nesbo, Harry Hole, terá que enfrentar o único assassino que lhe escapou.

A ESTEPE – Mais uma novela russa. Aqui o autor Anton Tchékhov conta a viagem de um menino para estudar em outra cidade e assim percorre por alguns dias a vastidão da estepe russa. Por meio da história acompanhamos não apenas um retrato da natureza, mas também dos diversos tipos humanos russos, suas atividades econômicas e seus relacionamentos sociais e pessoais.

ASIÁTICOS PODRES DE RICOS – Best seller do cingapuriano Kevin Kwan, adaptado com sucesso estrondoso para o cinema. Achei bem água com açúcar o romance de uma moça chinesa com um herdeiro multimilionário de Cingapura que serve para o autor desfiar uma infinidade grifes. Quem gosta de romances bobos e grifes famosas vai fazer a festa.

DRIVE – A História de um dublê de filmes (não sabemos seu nome) que faz bicos como motorista de fugas de assaltos. Escrito pelo americano James Salis e adaptado para o cinema com o ator Ryan Gosling no papel do motorista

UM CORAÇÃO SINGELO – Escrito pelo francês Gustave Flaubert, famoso por Madame Bovary, temos a história de Felicidade, uma mulher ingênua que se vê ligada pelo destino à sua patroa de quem é separada por um abismo social. O livro narra uma vida de infinita dedicação e vocação para cuidar do próximo.

DUAS NARRATIVAS FANTÁSTICAS – Depois de Os Irmãos Karamazov, Crime e Castigo e a Senhoria, li este volume composto das novelas: “A Dócil” e “O Sonho de um Homem Ridículo”. A primeira descreve o drama de um homem  desesperado que, diante do cadáver da mulher, busca entender o que a levou ao suicídio. A segunda novela é a história de um homem que começa vagando por São Petersburgo e refletindo que sempre foi uma pessoa ridícula, o que o leva à ideia de suicídio.

RICARDO E VANIA – Livro do jornalista brasileiro Chico Felitti escrito a partir de uma reportagem sobre Ricardo (o “Fofão da Rua Augusta”), o que levou o autor à descoberta de “Vânia”, travesti radicada em Paris e ex-namorada de Ricardo. O livro recupera a trajetória tortuosa de um casal simbólico do underground paulistano dos anos 70 e 80.

GARGANTA VERMELHA – Mais um livro policial do norueguês Jo Nesbo com o inspetor Harry Hole. Aqui o autor alterna seus cenários entre passado e presente, dos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, nas trincheiras de Leningrado, a uma Oslo atual quando Harry Hole investiga uma rede de tráfico de armas  relacionada a um grupo de antigos e novos nazistas.

ÉDIPO CLAUDICANTE – Sempre fui tarado por Mitologia Grega e este ensaio do brasileiro Antonio Farjani analisa com profundidade as razões da existência de tantos heróis feridos nos pés na Mitologia e o destino trágico do herói como metáfora para a iluminação espiritual.

NAPOLEÃO, UMA BIOGRAFIA LITERÁRIA – Uma obra excepcional do autor francês Alexandre Dumas, de quem eu nunca tinha lido nada. O livro que acompanha Napoleão Bonaparte desde sua terra natal na Córsega até a consagração como imperador francês, passando pelas batalhas vitoriosas até o fiasco na Rússia, os dois exílios e a definitiva e dramática batalha de Waterloo.

NIETOCKA NIEZVANOVA – Quinta obra que li de Dostoievski e que conta a história de uma moça, filha de uma família paupérrima que após a morte dos pais é adotada por uma família riquíssima desenvolvendo uma paixão pela filha dos tutores. Para uma obra de 1850 é interessante ver as descrições de amor físico entre duas jovens.

A FILHA PERDIDA – Sexto livro que li de Elena Ferrante. Aqui ela tem como foco os conflitos internos de uma professora universitária de meia-idade, aliviada após as filhas crescidas se mudaram com o pai. Em férias no litoral da Itália, a personagem reflete sobre a ambivalência do amor maternal e suas consequências emocionais.

A IDADE MÉDIA E O DINHEIRO – Jacques Le Goff foi um historiador francês especialista em Idade Média que renovou o gênero biográfico, levando o leitor a crer ser realmente possível conhecer um personagem medieval. Esse livro é considerado o melhor estudo sobre o papel do dinheiro na Idade Média. 

26.3.19

LEITURAS ABANDONADAS


Há tempos quero escrever sobre livros cuja leitura não conclui. Não são muitos, já que resisto em abandonar uma obra pelo meio, sempre imaginando que em algum momento ela vai me agarrar e me encantar sua leitura e também graças a certo faro de identificar bons livros a partir de autores cujas obras já conheço ou por temas que me interessam.

De uns anos para cá, ao deixar um trabalho em que obrigatoriamente tinha de ler e escrever diariamente, passei a sentir um prazer maior em ler e escrever por puro deleite. Há tempo não lia tanto, o ritmo atual está em quatro livros a cada mês.

Mas no meio do caminho....

Umberto Eco
O PÊNDULO DE FOUCAULT - Costumo encarar os clássicos com prazer e não costumo errar, mas há as lacunas. Apesar de já ter lido e apreciado várias obras do italiano Umberto Eco, como O Nome da Rosa, A Ilha do Dia Anterior, Baldolino e O Cemitério de Praga, não consegui avançar no seu quase intransponível O Pêndulo de Foucault. Tentei três vezes, mas não passei da página 40 em grande parte por conta da sua vasta erudição, citações ocultistas, densidade e trama excessivamente complexa. Sentia vergonha por admiti-lo, mas me acalmei ao saber que esse livro está entre os mais abandonados pelos leitores, mesmo por aqueles com uma cultura média.


Patricia Highsmith
CAROL - A escritora Patrícia Highsmith é uma fera do thriller policial, mas abandonei duas vezes a leitura do seu romance Carol, adaptado para o cinema com as talentosas Cate Blanchett e Rooney Mara no elenco. O filme conseguiu ser tão xarope quanto o livro, o que é raro, já que Highsmith deu muita sorte nas diversas adaptações dos seus thrillers para a tela grande, como em Pacto Sinistro, dirigido por Hitchcock (como Strangers on a Train), e as diversas adaptações em torno do personagem escroque Tom Ripley, protagonista de cinco romances da autora: O Talentoso Ripley, Ripley Debaixo d’Água, O Garoto Que Seguiu Ripley, Ripley Subterrâneo e O Jogo de Ripley. Todos eles li com prazer, mas Carol me derrotou.


William Faulkner
O SOM E A FÚRIA- Eu já sabia que o prêmio Nobel William Faulkner era famoso por ser de leitura difícil. Deixei para enfrentar o seu O Som e a Fúria após a leitura da sua “Trilogia Snopes” (A Mansão, O Povoado e A Cidade). Ler esses três livros não foi exatamente uma tarefa fácil, mas assim mesmo me deram imenso prazer. Porém, ao encarar O Som e a Fúria, sucumbi. Incentivado pelos elogios rasgados da crítica à obra, considerada não só o melhor romance de Faulkner, mas uma das mais contundentes obras de ficção do século XX, tentei repetidamente retomar. Em vão. São excessivas as suas vozes narrativas e vários os planos sem cronologia, um quebra-cabeças que se tenta encaixar no escuro. Sinto que um dia vou tentar novamente.


James Joyce
ULISSES – Essa volumosa obra do irlandês James Joyce (mais de mil páginas) é considerada, talvez a mais abandonado de toda a história da literatura. Há um aparentemente intransponível parágrafo de mais de 30 páginas de um monólogo interior de uma personagem. Existem até manuais escritos para se aprender como ler esse livro. Minhas duas tentativas de lê-lo não me levaram além da página 20, e com muito custo. Uma pena, já que sou fã da história grega que inspira a obra, a Odisseia, de Homero que já li mais de uma vez. A linguagem experimental e inovadora, com texto em fluxo de consciência e vocabulário inventado pelo autor me intimidaram demais.


Edward Said
ORIENTALISMO- Há tempos queria ler esse ensaio literário, considerado por vários autores de que gosto como essencial para a compreensão da visão ocidental sobre o Oriente. O livro é extremamente bem escrito pelo intelectual erudito palestino Edward Said, também um dos mais respeitados críticos literários. Tenho a impressão de que me falta a prévia leitura de algumas obras citadas pelo autor e talvez me incomode um pouco o tom de defesa de tese sobre a representação dos povos orientais na formação da identidade ocidental e a legitimação de interesses coloniais. São analisados com profundidade e talvez com excessiva reiteração, inúmeros documentos, pronunciamentos políticos, a geografia e a história, relatos de viagem, estudos religiosos e obras literárias europeias. Deixei pela metade para retomar antes da minha futura primeira viagem para o Oriente.

25.1.19

JERUSALÉM A BIOGRAFIA


A primeira vez que ouvi falar deste livro foi no Manhattan Connection, onde o autor Simon Sebag Montefiore foi incensado pelo lançamento de outra obra monumental: “Os Romanov”, a história de 300 anos da dinastia dos czares russos. Dei logo um jeito de devorar as mais de 900 páginas dos Romanov e até escrevi uma entusiasmada resenha no blog.

Os críticos rasgaram elogios à ambiciosa empreitada de Montefiore de escrever uma verdadeira biografia da cidade santa de Jerusalém e seus mais de 3.000 anos de história. Atirei-me sobre as 640 páginas do livro, convencido de que a história de Jerusalém não seria menos impressionante do que a história dos Romanov.

Acabo de encerrar a leitura que poucas vezes consegui interromper, frequentemente adentrando madrugadas. A obra é acompanhada de mapas dos diferentes períodos históricos passados por Jerusalém, dezenas de fotografias e árvores genealógicas das dinastias que dominaram a região desde os primeiros cananeus, sacerdotes e reis judeus de Davi e Salomão até Herodes, cristãos levantinos, papas, cruzados europeus, egípcios, persas, assírios, babilônios, gregos, romanos, patriarcas ortodoxos russos, árabes e sultões otomanos.

Simon Montefiore levou anos na pesquisa para o livro explicando que tal tempo foi necessário por não desejar criar uma obra seca para acadêmicos. Queria vida no livro e decidiu que deveria não somente se ater aos fatos históricos, mas tratar Jerusalém como uma personagem em si. Por isso deveria ser uma biografia da cidade e suas pessoas, quase um romance. Acabou criando um épico!

Lá estão todos aqueles personagens históricos que conquistaram, destruíram ou edificaram os lugares sagrados de Jerusalém. Todos os reis e profetas, sultões, paxás, czares, imperadores e homens santos e suas guerras religiosas. Passaram pelas ruas da cidade e pelas páginas do livro Salomão, Ramsés, Abraão, Moisés, Jesus Cristo, João Batista, Herodes, Pilatos, Maomé, Cleópatra, Cesar, Marco Antônio, Nero, Calígula, Ciro, Alexandre, o Grande, Saladino, Rasputín, Ricardo Coração de Leão, Constantino, Napoleão...Cada um com um generoso espaço para brilhar nas páginas da biografia.

Jerusalém é retratada como a verdadeira arena sanguinolenta que é de disputa das três religiões monoteístas (o chamado povo d’O Livro), convivendo em tensão permanente em espaços sagrados como a Esplanada das Mesquitas dos muçulmanos, o Muro das Lamentações dos judeus e a Igreja do Santo Sepulcro dos cristãos latinos, coptas, armênios e gregos ortodoxos, esses últimos em eterna disputa fratricida interna.

O livro tem início com a conquista de Jerusalém pelo seu futuro rei Davi 1.000 anos antes de Cristo, quando o local não passava de uma antiga povoação sobre uma montanha onde os habitantes enfrentavam verões abrasadores e invernos gelados. O lugar acabou tornando-se em pouco tempo o palco previsto para o Juízo Final e um eterno campo de batalha das maiores civilizações, palco de fanatismos e intolerâncias.

Dezenas de vezes destruída e reconstruída, bombardeada e sitiada, Jerusalém é um barril de pólvora no meio do Oriente Médio, com Israel cercado dos inimigos Egito, Arábia Saudita, Síria, Jordânia, Líbano, Irã, Iraque e Turquia.

A narrativa passa por períodos históricos, cada um deles capaz de preencher centenas de livros, como as duas guerras mundiais, as Cruzadas, o holocausto, as guerras napoleônicas, até as disputas territoriais atuais, encerrando a obra com os fatos que geraram a partilha de Jerusalém após o reconhecimento da ONU em 1967, na icônica Guerra dos Seis Dias.
O autor Simon Montefiore em Jerusalém

Jerusalém é uma cidade que mexe tanto na estrutura psicológica de muitas pessoas que o British Journal of Psychiatry relatou que desde 1930 foi diagnosticado o que a Medicina nomeou “Síndrome de Jerusalém”. Trata-se de uma descompensação psicótica relacionada à excitação religiosa pela proximidade dos lugares santos.

Um dos muitos peregrinos que chegaram à cidade com essa ideia fixa foi o escritor russo Nicolai Gógol que em 1848, entrou na cidade em elevado fervor religioso. Ele já era reconhecido internacionalmente pelas obra-primas O Inspetor Geral e Almas Mortas, mas acreditava que Deus estava bloqueando sua capacidade de escrever para punir seus pecados. Convenceu-se de que suas obras eram pecaminosas, destruiu seus manuscritos e jejuou até a morte.

Mas Jerusalém também era famosa pela vida mundana que acompanhava êxtases religiosos, com bairros inteiros dedicados à depravação e bordéis com adolescentes judias e europeias para todos os gostos ao ponto de tornarem-se focos de doenças venéreas, como narrou outro escritor famoso, o francês Gustave Flaubert, autor de Madame Bovary que se dedicou, em sua visita à cidade, a orgias monumentais como jamais vira na sua vida.

Se a visão de êxtase religioso de Gógol se opunha à de depravação sexual de Flaubert, a opinião do escritor britânico vitoriano William Thackeray, autor do célebre A Fogueira das Vaidades, vai além, ao declarar estupefato: “Não há um único lugar para o qual se olhe em Jerusalém onde não tenha sido cometido algum feito violento, algum massacre, algum visitante assassinado, algum ídolo cultuado com ritos sanguinários”.

Jerusalém é um mosaico cultural intrincado, um caldeirão de guerras santas e paixões, de traições e matanças, de êxtases e espiritualidade, de misticismo e história. Tudo em maiúsculas, em abundância e misturado.  Por trás de cada pedra, de cada muro, de cada palavra há um mundo se descortinando.

Para quem gosta de história, o livro é um achado; para quem tem alguma fé, é essencial; e para quem quer entender a geopolítica atual, é obrigatório.

23.1.19

OBJETOS CORTANTES


Há alguns dias, assisti à minissérie Objetos Cortantes, em uma maratona da HBO. Foram oito capítulos, mas que, na metade, já me fizeram correr para uma livraria e comprar o livro homônimo da escritora Gillian Flynn.

Então se deu o seguinte dilema: ou eu assistiria à minissérie (e assim saberia o final da trama) ou leria o livro até o fim para mergulhar no drama da solitária jornalista Camille Preaker? Era uma “escolha de Sofia”, já que saber o final pela TV inviabilizou a perfeita fruição da experiência do livro. Assim, se você não puder ver a série, leia o livro. Ou vice versa. Não há como escolher um formato sem perder o impacto do outro.

Livro e série são um legítimo suspense policial em que a trama só se fecha na última cena — e nas últimas páginas —, quando revela quem matou e arrancou os dentes das duas garotinhas assassinadas do thriller. Ultima cena? Não. A revelação se dá durante a subida dos créditos do ultimo episódio. Brilhante!

Este foi o primeiro romance de Gillian Flynn, autora também do livro Garota Exemplar (Gone Girl), que teve premiada adaptação para o cinema com direção de David Fincher (de Seven, Clube da Luta e Zodíaco). Já a série Objetos Cortantes foi dirigida por Jean-Marc Vallée (indicado ao Oscar por Clube de Compras Dallas).

No papel principal de Objetos Cortantes está a ótima Amy Adams, com suas seis indicações ao Oscar, dois Globos de Ouro e mais sete indicações para o prêmio. Como coadjuvante de luxo, temos Patricia Clarkson como Adora, a mãe “vampira” da protagonista e que levou o Globo de Ouro e o Critics' Choice Award de melhor atriz coadjuvante.

Definir Objetos Cortantes como um thriller policial é reduzir demais o escopo da obra. Trata-se de um estudo existencial sobre a solidão e o desamor. 

É, para dizer o mínimo, inquietante acompanhar o vigoroso trabalho de Amy Adams na construção da jornalista Camille, eternamente à beira do colapso psicológico, tendo que lidar com os dramas do passado ao ser praticamente obrigada pelo chefe a elaborar uma série de reportagens sobre assassinatos brutais de duas adolescentes na cidadezinha de Wind Gap, não por acaso sua cidade natal, de onde ela conseguiu escapar anos antes, fugindo de uma relação tóxica (na falta de uma palavra mais forte) com sua mãe Adora, uma das megeras mais descaradamente vis e dissimuladas vistas nas telas.

Camille trás como herança da convivência com a mãe e com a cidade centenas de cortes em forma de palavras rasgadas nos braços, seios, tronco e pernas. A automutilação como válvula de escape e expiação física para a angústia emocional. Na falta das facas e navalhas, o álcool em abundância torna-se simulacro líquido para afogar a dor psicológica de Camille, com a vantagem se ser plenamente aceito e estreitamente ligado à ideia de socialização. É como se ela ecoasse as palavras de Frida Khallo: “Tentei afogar minhas mágoas, mas as malditas aprenderam a nadar”.

As cicatrizes do corpo de Camille estão cauterizadas, mas ao retornar a Wind Gap, os estigmas da alma recomeçam a sangrar. Em dezenas de flashbacks, vamos, aos poucos, adentrando o universo da Camille adolescente: a sensação de inadequação ao ambiente escolar, o abuso sexual a que se submetia como forma de conquistar afeto e o sofrimento e morte da meia-irmã Marian, pela qual se culpa, já que a mãe não hesita em lamentar que não tenha sido Camille a morrer no lugar da favorita. A certa altura Camille lamenta: “É impossível competir com os mortos, eu gostaria de parar de tentar”.

A protagonista encontra uma miríade de dificuldades ao tentar realizar as reportagens. A começar por um delegado indolente, uma população anestesiada com os crimes, oscilando entre a xenofobia pela possibilidade de o assassino ser um dos seus moradores e o desejo vulgar de virar notícia. Não fosse o suficiente, a mãe de Camille, a milionária Adora, boicota todo o tempo o trabalho, ora definindo a reportagem como de mau gosto, ora simplesmente impedindo os parentes das vítimas de falarem com a filha.

A cidadezinha de Wind Gap é praticamente um dos vilões da história, com sua atmosfera decadente, goticamente sufocante e soturna, com suas fazendas de porcos confinados e cujo sofrimento torna tais animais neuróticos e com desejo de morte. Não é à toa que publicações científicas definem os porcos como animais mais espertos que cães e com nível de inteligência similar ao dos os chimpanzés. Não por outra razão, Camille jamais conseguiu comer um presunto na vida após visitar os animais confinados em baias-prisões em uma das fazendas da mãe. É angustiante ler as descrições dos matadouros no livro. A série apenas tangencia esse aspecto.

Em meio a essas duas mulheres problemáticas em eterno embate, temos uma terceira não menos complexa: a meia-irmã de 13 anos Amma (a atiz Eliza Scanlen dando um show na série), rebelde, manhosa, eternamente nas piores companhias e em festas regadas a sexo e coquetéis de anfetaminas e maconha. Amma é também a fêmea alfa que domina uma galerinha insolente de ninfetas patinadoras.

Enquanto age como uma minimegera, a adolescente Amma é também vítima da mesma mãe superprotetora. Nesse caldeirão, Camille tem que lidar com a possibilidade de salvar Amma da vil Adora, como talvez não tenha conseguido fazer com a irmã Marian.

Um livro perturbador adaptado para uma série ainda mais intrigante. Como diz a autora em determinado momento: “Uma criança criada com veneno considera a dor um consolo”. Não deixe de ser uma testemunha privilegiada desse embate entre a apatia e a catarse.