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5.12.19

TUTTI BUONA GENTE, MA TUTTI LADRI


O genial Nelson Rodrigues era obcecado por família e pecado. Em todas as suas obras havia uma tara secreta ou uma traição mal escondida. Em uma das suas famosas frases ele disparava: “Toda família tem um momento em que começa a apodrecer”.

Lembro-me dessa frase dez vezes por dia ao ouvir algum Bolsonaro. Como são quatro deles a nos municiar de taras familiares, passarei um bom tempo com Nelson Rodrigues na mente. Vejamos:

Quando Jair Bolsonaro quis humilhar o presidente da OAB Felipe Santa Cruz, atacou a memória do seu pai, morto pela ditadura. Obrigado a se explicar, jogou mais cal na vítima sugerindo que ele foi morto como represália pelos companheiros, o que equivale a pichá-lo como traidor do próprio movimento.

O presidente não mudou o script, pecando no quesito originalidade, já que no luxo não tinha mesmo chance, quando quis ofender a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet, ao tripudiar da morte do seu pai, torturado na ditadura.

O “mito”, com um arroubo de sua notória semgracice, para continuar no terreno familiar, mirou sua automática para o garboso Emmanuel Macron, presidente da França, ao comparar sua esposa Michele com a francesa Brigitte. Ah, enquanto Brigitte lecionava teatro e literatura, a avó de Michelle era presa por tráfico de drogas e sua mãe era investigada por falsificação de documento.

Sofreram ataques dos Bozos as filhas de Manuela d’Ávila e Maria do Rosário (a que não merecia estupro por ser feia) e até o filho de 11 anos da ex-líder do governo Joice Hasselman, que foi às lágrimas há poucos dias em plena tribuna da Câmara dos Deputados.

O patrão de Sérgio Moro estava recentemente agraciando bolsominions com sua presença na porta do Palácio da Alvorada quando o ciclista Lemuel Simis indagou: “Onde está Queiroz?”, recebendo em resposta, com a notória nonchalance de miliciano: “Está com sua mãe”!

Vejamos quantas famílias estão envolvidas nessa equação. Temos o presidente e seu filho Flávio, que empregava Queiroz no gabinete; o ciclista e sua mãe, jogada na fogueira inesperada; além do próprio Queiroz que emplacou a familharada em gabinetes, entre eles o ex-marido da sua atual mulher. Tá ficando complicado de acompanhar?

E não podemos esquecer que o senador Flávio Bolsonaro empregou a mãe e a esposa de Adriano Nóbrega, chefe foragido da milícia do Rio suspeito do assassinato da vereadora Marielle Franco.

Ainda continuando na parentalha, sobraram cargos de confiança nos gabinetes da Família Bozo para doze parentes de Ana Cristina, ex-mulher do presidente e mãe de seu filho mais novo, Jair Renan. 

Ana, mãe de Jairzinho (que namorou a filha do assassino de Marielle, só por acaso), foi nomeada por Carlucho em seu gabinete na Câmara de Vereadores do Rio. Houve vaga para o pai e a irmã de Ana, três primos e quatro tios. Dados públicos revelam 102 pessoas com parentesco naqueles gabinetes de 32 famílias. Quantas famílias nós já listamos até aqui? 

Tem mais. Volto ao ciclista que perguntou por Queiroz.  Irritado com a pergunta, um apoiador do presidente o ameaçou no ato: “Tenho um filho de 30 anos que se te pega, te corta em cinco”. É impressionante como metem filhos e mães nas histórias sem pestanejar. 

Segundo o velho "doktor" Freud, no seu conceito do retorno do recalcado, há mecanismo psíquicos nos quais os conteúdos recalcados ou expulsos da consciência reaparecem constantemente  de modo deformado como fantasias e pulsões, que resultam de uma espécie de negociação entre a instância psíquica repressora e as representações reprimidas.

Apenas quem tem um apreço mórbido e freudianamente recalcado pela própria família, como nas “famiglias” da máfia napolitana, a Camorra, e sua “omertà” ou código de silêncio, consegue se empenhar tanto em ofender famílias alheias, uma representação fantasiosa da própria neurose interna familiar.

De várias maneiras, nos lembraremos dessa infeliz e terrível família no futuro como algo original ao seu próprio modo. Afinal, como disse Tolstói, em sua célebre obra Anna Karenina. “Todas as famílias felizes se parecem. Mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

2.6.13

Mulher é um bicho esquisito – Parte 3

O velho doktor Freud, entre uma baforada e outra de charuto, se perguntava “Afinal o que querem as mulheres?” Danuza Leão escreveu num artigo da Folha : “Ah, as mulheres”. 

Danuza ecoa as questões do criador da Psicanálise e relata casos frequentes de homens que tratam bem e amam suas mulheres, as valorizam, são ótimos pais, puxam conversas para assuntos de que elas gostam, reparam em sua aparência, as elogiam sempre, não se esquecem de todos os aniversários etc. No entanto, são desprezados como objeto de desejo e paixão.

Danuza dá uma pista do complexo labirinto da psique feminina: “o homem com quem se sonha não tem nada a ver com o homem que se ama. Nenhuma mulher vai se apaixonar por um homem que esteja de quatro por ela, adivinhando seus pensamentos, realizando seus desejos, antes mesmo de ela saber que desejos são esses. Ela pode gostar, sim, mas durante 24 horas, 48, enquanto existir aquela dúvida fundamental: que talvez não seja para sempre. É insuportável ser amada acima de todas as coisas o tempo todo, e pior ainda ter uma pessoa ao lado que nos tem como sua prioridade”.

Eis uma coisa que as mulheres deveriam ter coragem de dizer. No entanto, estão sempre reclamando que não são compreendidas, que os homens não lhes dão atenção e que falta homem no mercado. O sonho do príncipe encantado é ou não é uma constante no imaginário das nossas plebeias desde a adolescência? O “Eles foram felizes para sempre” ainda não anima os desejos da mulherada e os roteiros de todos os folhetins, novelas e filmes românticos para os quais elas tanto adoram arrastar os namorados?

O amor não tem manual de instruções, mas Danuza Leão é uma símia idosa (para quem não entendeu a ironia, é só um equivalente ao epíteto valorativo: “macaca velha). E ela reflete: “Para que o amor dure, é preciso que exista a dúvida se ele vai sobreviver, até mesmo àquela noite; não saber se ele vai ligar, não saber em que está pensando quando está calado, e sobretudo -sobretudo- saber que ele jamais vai lembrar de nenhuma das datas fatídicas, de quando se conheceram etc. etc., e jantar num restaurante especial e tomar um vinho no Dia dos Namorados. Para um homem ser amado é preciso que ele tenha um mundo particular --ou vários-- só dele, e no qual ela não consiga, jamais, penetrar”

Três grandes heroínas trágicas da literatura mostram o mesmo viés para com seus maridos. Emma Bovary, de Gustave Flaubert; Ana Karenina, de Liev Tolstoi; e Therese Desqueyroux, de François Mauriac. As três já foram retratadas em inúmeros filmes. Em comum, o fato de que todas trocam seus excelentes e bondosos maridos (bondosos e entediantes, é claro), por amantes reais ou potenciais. Como foram textos escritos por homens, as três protagonistas passam por belas enrascadas, mas deixam os maridos com o mesmo sentimento de: “o que eu fiz de errado?”.

Dona Flor, de Jorge Amado, quando teve a chance de um amor tranquilo, quando Teodoro, trouxe a paz de que o cafajeste Vadinho nunca foi capaz, não hesita em ficar com ambos. 

Afinal, elas gostam é dos cafajestes?