12.11.23

47ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

Completo, com sucesso, minha 20ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

A 47ª Mostra retorna com força total após os últimos anos em que se somaram os problemas decorrentes da pandemia e perda do patrocínio da Petrobrás por conta de obscurantismo do governo anterior. Este ano, foram apresentados 362 filmes de 96 países em mais de 20 salas espalhadas pela cidade no período de 15 dias. Comprei a credencial para 40 filmes por R$ 410,00, mas lamentei não haver, como no ano anterior, a credencial para 30 filmes. Esse ano só havia opções para 20 e 40 ingressos

Continua sendo uma pechincha já que apesar de não ter visto os 40 filmes, cada um saiu por pouco mais de R$ 12,00 enquanto o ingresso inteiro chega a custar mais R$ 30,00. Dos 362 filmes disponíveis, vi 32.

Aqui estão os que assisti neste ano, não na ordem em que vi, mas na ordem de preferências.

1- 

FOLHAS DE OUTONO – Filme da Finlândia vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes. Belíssima história de dois estranhos solitários que se encontram por acaso na noite de Helsinque em busca do primeiro, único e último amor. No entanto, os caminhos para a felicidade são obscurecidos pelo alcoolismo do homem, telefone perdido, desconhecimento do nome um do outro e outros obstáculos. O filme tem um senso de humor muito peculiar apesar de tratar de problemas sérios como a solidão, o subemprego, o alcoolismo e a angústia existencial. Uma história que se desenvolve rica de minimalismos nas interpretações (um pleonasmo irresistível), perfeitas elipses e uma doçura tocante. Impossível não se comover com a história.



SOBREVIVÊNCIA DA BONDADE
– Vencedor do Prêmio da Crítica do Festival de Berlim. Um filme da Austrália em que, aos poucos, se percebe o que está acontecendo e nesse ponto está o que mais gosto num filme: sua capacidade de respeitar a inteligência da plateia e não entregar tudo de cara. Até o fato de o filme não possuir legendas, nem sequer ser falado numa língua compreensível, apesar de haver sim diálogos, eles também incompreensíveis para seus próprios interlocutores.  Começamos vendo uma mulher negra e sem nome ser sequestrada e abandonada em uma jaula no meio do deserto. No entanto, ela não está pronta para morrer e foge, atravessando epidemias e perseguições. Cruzando desertos, cânions e montanhas, ela só encontra tragédia, mas nada disso é capaz de modificar sua intrínseca natureza generosa. Um final que só de revela no último segundo, dando ao filme que já era ótimo, uma genialidade ainda surpreendente.


   O SILÊNCIO DAS SIRENES O primeiro filme que assisti de Kosovo, país pouco conhecido dos Balcãs. Um roteiro muito interessante e bem desenvolvido com sólidas interpretações e direção segura. A história de um policial de trânsito pouco honesto que aceita pequenos subornos de motoristas detidos por excesso de velocidade até que encontra, com drogas e muito dinheiro, o promotor de um tribunal internacional. Ele pensa estar finalmente fazendo algo importante que vai lhe render elogios e promoção sem saber que está se envolvendo num perigoso caso de corrupção, muito maior do que poderia imaginar, envolvendo suborno, máfia e crimes de guerra que foram comuns durante os conflitos envolvendo Sérvia, Bósnia e Croácia.

    DEVAGAR Filme da Lituânia que ganhou prêmio de melhor direção no Festival de Sundance – A história de uma dançarina contemporânea que conhece um intérprete de linguagem de sinais designado para traduzir as aulas para seus alunos. Uma forte atração ocorre, mas tudo muda quando ele revela que é assexual. Apesar do cálido romance entre os dois, o casal vai precisar lidar com a questão da intimidade. Um filme muito instigante e que, apesar de não se aprofundar tanto no aspecto psicológico da assexualidade, está no ponto exato para trazer o tema à discussão sem tentar esmiuçar demais a questão a ponto de virar didático.

OS JUNCOS- Filme da Turquia exibido no Festival de Toronto. Esse filme tem a fotografia mais bonita que vi entre todos os que assisti na Mostra. Em uma pequena vila na Anatólia, um lago repleto de juncos contém aquilo do qual os moradores dependem para a subsistência. Nesse lugar isolado, com códigos e leis próprias, o jovem Ali resiste bravamente contra a dominação de proprietários de terras e as violentas milícias que tomam conta da região. Ao mesmo tempo, ele tenta recuperar o amor da esposa, que se aproxima cada vez mais da corrupção local.

ESPECIALMENTE À NOITE- Coprodução Espanha Portugal e França. Quando jovem, Vera não tinha condições de criar o filho e o entregou à adoção. Depois de muito tempo, ela começa a procurá-lo, mas as instituições de adoção insistem dizendo que não há registros da criança. Ao mesmo tempo, Cora, uma professora de piano, vive com o filho adotivo de18 anos. Os caminhos desses três personagens estão prestes a se cruzar. Exibido no Festival de Veneza. Com Lola Dueñas estrela de muitos dos de filmes de Pedro Almodóvar. A plateia aplaudiu no final. Tem uma bela cena em que uma cantora interpreta toda a canção Estranha Forma de Vida, de Amália Rodrigues, gravada por Caetano Veloso e que inspirou Almodóvar no seu filme homônimo.

QUARTOS VERMELHOS – Filme do Canadá. Todos os dias, Kelly-Anne vai cedo até o tribunal para garantir um bom lugar no julgamento de Ludovic Chevalier, um serial killer por quem é obcecada. Mas à medida que o processo se arrasta e a garota passa mais tempo no tribunal com as famílias das vítimas, ela tem cada vez mais dificuldade em manter o equilíbrio psicológico e em assumir a fixação mórbida pelo assassino. Kelly-Anne decide tentar de tudo para encontrar a peça final desse quebra-cabeça: um vídeo desaparecido da vítima, uma menina de 13 anos que se parece muito com ela.

ANATOMIA DE UMA QUEDA – Filme francês que venceu a última Palma de Ouro do Festival de Cannes. Sandra, uma escritora alemã, e Samuel, seu marido francês, também escritor, vivem com o filho adolescente em uma isolada cidade nos Alpes. Quando Samuel é encontrado morto, a polícia passa a tratar o caso como um suposto homicídio, e Sandra se torna a principal suspeita. Aos poucos, o julgamento se transforma não apenas numa investigação das circunstâncias da morte, mas em uma jornada psicológica e perturbadora às profundezas da conturbada relação do casal.



THE PERSIAN VERSIONFilme independente muito simpático dos Estados Unidos vencedor dos prêmios do público e de roteiro do Festival de Sundance. Focado nas dificuldades de relação entre as culturas americana e iraniana, a história da jovem Leila que busca encontrar algum equilíbrio e abraçar essas culturas opostas enquanto desafia rótulos. A sequência inicial dá o tom debochado do filme mostrando Leila usando burca e biquíni, caminhando pelas ruas de Nova Yorque. As cenas musicais com os iranianos dançando Girls Just Wannna Have Fun, de Cyndi Lauper, lembram as impagáveis cenas do cinema indiano.

MULHER DE... Filme da Polônia exibido no Festival de Veneza que mostra as transformações históricas no país ao longo dos anos do comunismo para o capitalismo. Nesse ambiente, acompanhamos 45 anos da vida de Aniela em busca da liberdade como mulher trans, enfrentando do preconceito de um país muito católico às dificuldades com a família e a Justiça que a obrigam a fazer escolhas difíceis e grandes sacrifícios. Uma história de resiliência e da força de vontade que é impossível dimensionar para quem não tem ideia do que é a questão trans.

GARAGEFilme da Irlanda que mostra o cotidiano de Josie, um frentista e zelador considerado pelos vizinhos como desajustado inofensivo e que passou toda a vida adulta trabalhando em um posto de gasolina decadente nos arredores de uma pequena cidade irlandesa. Solitário, mas otimista incansável, Josie vê seu pequeno lar ficar ameaçado e sua vida corre o risco de mudar para sempre após passar a dividir o dia a dia de trabalho com um adolescente complicado. O filme é belo e triste e venceu um dos prêmios do Festival de Cannes.

BEIJANDO O CHÃO POR ONDE VOCÊ PASSOU- O primeiro filme que assisti de Macau. Foi exibido no Festival de Roterdã.  História de um escritor que não consegue escrever há anos e que procura alguém para alugar um quarto no apartamento onde vive. Um belo ator iniciante se candidata à vaga e desperta o interesse do escritor, que começa a enxergar no inquilino a inspiração para o novo livro. Despertou o interesse do público LGBT graças às belas e discretas cenas de envolvimento romântico platônico dos dois jovens orientais, com destaque para a tradição asiática de momentos contemplativos. Interessante notar os timings profissionais desses dois homens, um vivenciando a paralisia artística e emocional após o sucesso e outro a euforia do início da lida com a própria arte.



MANHOLE – DESVIO FINAL – Filme do Japão exibido no Festival de Berlim que conta a história de um jovem ambicioso e com um excelente emprego e casamento marcado com a filha de seu chefe. Na véspera da cerimônia, após a despedida de solteiro, ele cai dentro do poço de um bueiro. Sem saída e assustado ele usa o smartphone para contatar a polícia, os amigos e até usuários desconhecidos das redes sociais, enquanto luta para sair a tempo de chegar ao altar. Uma história que achei bastante original por manter a tensão constante em um cenário limitado onde se passa 90%. Aos poucos descobrimos que se trata de uma história de vingança com uso inteligente da tecnologia de comunicação via redes sociais.

NÉVOA PRATEADA – Uma coprodução da Holanda e Reino Unido. História de Franky, uma jovem enfermeira londrina obcecada por vingança e necessidade de encontrar culpados por um acidente traumático ocorrido há 15 anos. Ela é incapaz de se envolver em um relacionamento até que se apaixona por uma de suas pacientes. A atriz Vicky Knight venceu o Prêmio do Júri do Teddy Award do Festival de Berlim. Ela, curiosamente, tem mais de 30% do corpo queimado num incêndio de um pub (no filme, ela é sobrevivente justamente de um incêndio num pub).  No filme anterior, Dirty God, da mesma diretora Sacha Pollak, a atriz levou um prêmio BAFTA pelo papel da vítima de ataque com ácido no filme anterior.  

A BARBÁRIE- Filme argentino que conta a história de Nacho, que aos 18 anos, foge da violência da mãe em Buenos Aires e busca um lugar para se refugiar com o pai, um fazendeiro com quem tem pouco contato. O contato mostra a Nacho as nuances do relacionamento tenso com os empregados da fazenda paterna, pessoas que ele conheceu quando criança e a dificuldade para ele entender seu lugar como patrão. O ator Marcelo Subiotto, que faz o pai, foi premiado como melhor ator no Festival de Lima. Também foi exibido no Festival de Málaga.

O CASO GOLDMAN – Filme francês que conta a história real do julgamento em Paris de Pierre Goldman nos anos 70. Judeu e ativista de extrema-esquerda sentenciado à prisão perpétua por quatro assaltos e pela morte de duas mulheres, Goldman alega ser inocente dos assassinatos. Goldman é transformado pela imprensa em um herói da esquerda intelectual e o julgamento vira um evento caótico em razão do famoso antissemitismo francês. Exibido do Festival de Cannes. Achei a história interessante mas me incomodou o tom excessivamente palavroso e muito verborrágico do filme.

O AMOR É UMA ARMA – Uma interessante coprodução de Hong Kong e Taiwan que venceu o Prêmio Leão do Futuro “Luigi De Laurentiis” para melhor primeiro longa-metragem no Festival de Veneza. Conta a história de Sweet Potato um jovem que sai da prisão e vive sem rumo praticando pequenos golpes. Ele é puxado de volta para questões do passado quando o antigo “chefe”, a mãe e o melhor amigo reaparecem, deixando-o sem esperança para o futuro.

VAMPIRA HUMANISTA PROCURA SUICIDA VOLUNTÁRIO – Um filme divertido e fofo do Canadá que venceu o prêmio de melhor filme na Jornada dos Autores do Festival de Veneza. Poderia ser um filme da Sessão da Tarde se não tratasse do tema do suicídio, mas com um tanto de humor negro. Sasha é uma jovem vampira com um sério problema: ela é sensível demais para matar. Desesperados, seus pais, tios e primos vampiros cortam seu suprimento de bolsas de sangue e, assim, ela percebe que sua vida está em perigo. Tudo muda após ela conhecer Paul, um adolescente solitário com tendências suicidas e que está disposto a morrer para salvar a vida dela. Mas esse acordo logo se transforma em busca durante a noite para realizar os últimos desejos de Paul.

EM CHAMAS – Filme paquistanês que conta a história de Mariam que vive com a mãe num minúsculo apartamento no Paquistão. Com a morte do avô materno, o irmão de Mariam manipula mãe e irmã para que elas cedam a ele o local onde moram, coisa muito comum no país, onde os direitos de propriedade das mulheres são bastante frágeis. Mariam, perturbada com a situação, encontra algum conforto em um romance secreto com um colega de classe que faz a jovem ser consumida por pesadelos que, logo, passam a se transformar em realidade. Exibido no Festival de Cannes.

O OUTRO LAURENS – Coprodução da Bélgica e França, conta a história de Gabriel Laurens, detetive particular cuja sobrinha pede que ele investigue a morte de seu pai, irmão gêmeo de Gabriel. Ele é forçado a enfrentar fantasmas do passado ao ver-se envolvido em uma estranha investigação que mistura dissimulações, fantasias e uma rede de tráfico de drogas.  Exibido no Festival de Cannes.

UM DIA TUDO ISSO SERÁ DE VOCES – Filme da Suécia. Lisa é uma desenhista de humor que viaja até a fazenda da família, onde encontra os pais e o casal de irmãos pela primeira vez em uma década. A reunião tem um motivo inusitado: os pais querem que apenas um dos filhos herde uma floresta, que está em posse da família há gerações. Porém, talvez nenhum deles esteja disposto a morar naquele lugar novamente. Nessa disputa cheia de subterfúgios histórias escondidas do passado e uma tragédia mal explicada vêm à tona forçando a família a expelir fantasmas e expurgar seus traumas.

OUR SON– Outro filme dos Estados Unidos que tem certa atmosfera de filme independente, muito mais pelo tema que aborda, mas que aparentemente é uma produção cara. Luke Evans interpreta um editor de sucesso no auge da vida com uma ótima carreira, um casamento com o esposo Gabriel (Billy Porter, famoso pela série Pose) e um filho de oito anos. Quando seu marido decide terminar a relação, seu mundo desmorona. Ambos travam uma batalha num divórcio caro e colocam o filho no centro da disputa. O casal, antes muito próximo é levado pela separação até o limite. Um filme algo açucarado que agrada especialmente ao público LGBT que tem nos dois atores bem diferentes dois ícones de representatividade gay. Há cenas de sexo bastante picantes de Luke Evans com outro homem, ambos com corpos esculturais, mas a química com Billy Potter é abaixo de zero.

 

SHE CAME TO ME
– Filme norte-americano exibido no Festival de Berlim com elenco estrelado pelos premiados Peter Dinklage, Anne Hathaway e Marisa Tomei. Não é a cara de filmes independentes da Mostra, mas a diretora Rebecca Miller já participou com alguns filmes em mostras anteriores. Peter Dinklage interpreta um renomado compositor passando por um bloqueio criativo e incapaz de terminar a partitura da grande ópera. Sua esposa interpretada por Anne Hathaway, uma mulher obcecada por controle e organização, que curiosamente também é sua terapeuta, o obriga a sair de casa em busca de inspiração até que ele conhece uma mulher pilota de um rebocador que é viciada em romance e relacionamento abusivo. Um pouquinho açucarado demais para meu gosto por dramas mais intensos.

QUASE TOTALMENTE UM PEQUENO DESASTRE- Filme da Turquia exibido no Festival de Roterdã. Acompanhamos quatro jovens que vivem em Istambul. Uma estudante que se angustia ao acompanhar as notícias diárias da, sua amiga com quem ela divide a casa e que tenta fugir para o exterior porque não consegue ver qualquer futuro na Turquia. Um engenheiro casado insatisfeito com a vida e um desempregado que se sente sufocado por estar morando com os pais. Várias coincidências aproximam os dois casais e mostram como o inesperado pode ser surpreendente e por vezes assustador.

O DIABO NA RUA NO MEIO DO REDEMUNHO - Filme brasileiro dirigido por Bia Lessa com Caio Blat, Luiza Lemmertz e Luiza Arraes no elenco e baseado no meu livro brasileiro favorito, Grande Serão: Veredas. Riobaldo conta suas experiências sangrentas no cangaço, acompanhado por Diadorim, amigo misterioso que lhe desperta sentimentos contraditórios. Queria muito ter gostado mais do filme, mas muitos elementos me incomodaram a começar pelo fato de que Caio Blat, por mais talentoso que seja, não tem nenhum dos atributos de Riobaldo. Em cinema, isso tem o nome pomposo de physique du rôle (físico para o papel). As falas soam excessivamente teatrais e irritam pela velocidade com que são ditas, talvez uma opção para não levar o filme às 3 horas de duração. As cenas de batalha, mesmo bem dramatizadas, são excessivas e há momentos em que mesmo quem já leu o livro fica confuso. Usar dublagem em vez da captação do som direto foi uma armadilha já que incorporou elementos sonoros que seriam impossíveis de outro modo, mas fez com que as falas soassem ainda mais artificiais. Achei desnecessário apelar várias vezes para a nudez frontal dos atores, o que além de soar como um “ruído estético”, dá a impressão de que só porque os atores têm os corpos lindos, eles estão expostos ali nus.

A GRAÇA- Um filme russo exibido no Festival de Cannes que é um road movie clássico. Uma adolescente e seu pai viajam em uma antiga van por estradas ermas no interior da Rússia, carregando um projetor de cinema enferrujado. Eles vagam aparentemente sem rumo e no caminho passam por diversas situações tensas. Somente no final ficamos sabendo o objetivo da viagem, mas sinceramente é um final que acrescenta muito pouco ao filme e serve apenas como a explicação ou propósito da viagem em si.

EU SOU MARIA –Um filme brasileiro bem simpático que trata do tema do preconceito racial e de classe que atinge moradores de favelas cariocas- Maria tem 15 anos, mora com a mãe, e o irmão numa favela do Rio. Ela sonha estudar em um bom colégio e participa de um concurso de redação em uma renomada escola particular. Aprovada com uma bolsa de estudos, ela enfrenta o desafio de manter as notas altas, provar que merecem estar ali e se adaptar a um mundo de privilégios que nunca conheceu.


FRAGMENTOS DO PARAÍSO –
Documentário dos EUA vencedor do prêmio de melhor documentário sobre cinema do Festival de Veneza – Apesar de não ser muito fã de documentários e de nunca ter ouvido falar do cineasta Jonas Mekas, fiquei curiosos pela sua história. Por mais de 70 anos, o diretor lituano Jonas Mekas documentou sua vida, no que ficou conhecido como seus filmes-diários. Há depoimentos apaixonados de celebridades como Peter Bogdanovich, John Waters, Martin Scorsese, Jim Jarmusch, Andy Warhol, Marina Abramović e outros sobre a influência de Mekas nos seus trabalhos

ASOG- Filme filipino que deu à atriz Jaya os prêmios do público no Festival de Vancouver e o prêmio do Júri para Melhor Interpretação na Mostra. Jaya é não-binária e apresentava um talk show na televisão filipina, mas o programa acabou quando um desastre natural atingiu o país. Para se recuperar financeiramente, Jaya decide viajar para participar de um concurso de beleza e ganhar o dinheiro da premiação. No caminho, encontra um dos seus alunos que planeja viajar para a mesma direção, em busca do pai ausente. A pé, de bicicleta e de barco, essa dupla improvável realiza uma viagem totalmente transformadora.

ANIMALIA – Filme do Marrocos vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance e conta o drama de uma jovem de origem rural que está lentamente se adaptando aos privilégios da família marroquina abastada do marido. Mas quando eventos sobrenaturais colocam o país em estado de emergência, ela se vê separada do esposo e da nova família. Sozinha, grávida e em busca do caminho de volta, ela encontra a emancipação.

RODAS E EIXOS- Filme japonês que preciso dizer que saí na metade, pois senti uma rejeição total ao estilo de filmagem e interpretações aparentemente amadoras. Basicamente é a história de uma moça rica que vive no interior do Japão e conhece um homem gay também rico que a leva para uma boate onde ela se interessa pelo garoto de programa que já teve um relacionamento com o amigo dela. Há uma proposta de ménage à trois, mas não tive paciência para esperar essa parte. Inspirado no livro “Madame Edwarda”, de Georges Bataille, mas não li nada desse escritor.

EL PARAÍSO – Filme da Itália cujos ingressos na Mostra foram muito disputados, pois venceu os prêmios de melhor roteiro e de melhor atriz do Festival de Veneza conta a história de Julio que, já com 40 anos, ainda mora com a mãe colombiana de personalidade forte. O pouco dinheiro que tem vem do que ganham trabalhando para um traficante local. Esse frágil equilíbrio é ameaçado com a chegada de uma jovem colombiana que faz a primeira viagem como “mula” de cocaína. Adoraria ter assistido mas confesso que dormi quase o filme todo, não pela qualidade do filme mas pela minha total exaustão no dia.

28.9.23

LEITURAS DE JUNHO A SETEMBRO DE 2023

Dando continuidade às postagens que faço há 5 anos com breves resenhas dos livros lidos, listo os 19 livros que li nos últimos quatro meses. A eles se somam os 14 lidos de Janeiro a Maio deste ano que publiquei em post anterior completando 33 neste ano.

1- O LEOPARDO – De Jo Nesbo O 12º livro que li do magnífico criador do detetive Harry Hole. Nesse novo thriller, a polícia norueguesa caça um serial killer responsável pela morte de várias mulheres encontradas afogadas no próprio sangue. Aqui temos de volta o complicado detetive Harry Hoje, personagem tão genial para a literatura policial quanto Hercule Poirot é para Agatha Christie e Sherlock Holmes para Conan Doyle, um alcoólatra com inúmeras recaídas e cheio de fantasmas pessoais, mas extremamente humano e honesto. Aqui, o sadismo do assassino é muito impactante, com o uso de um equipamento de tortura tão macabro que só podia ter saído de uma mente inventiva, lembrando os piores vilões dos livros de Stephen King.

2-TUDO É RIO – De Carla Madeira Livro de estreia da autora. Temos aqui o casal Dalva e Venâncio que passa por uma perda trágica. No meio da crise, surge Lucy, a prostituta mais linda e depravada da cidade, o que cria um triângulo amoroso de resultado devastador. As duas personagens femininas são antípodas extremas e parte do que me incomodou no livro foi o modo simplificador com que a autora justificou as razões que levaram Lucy à prostituição. Um final abrupto e focado na redenção das personagens que só alcançaria o efeito pretendido se elas fossem carismáticas o suficiente para a gente se importar com elas, o que, convenhamos, não funcionou.  Não foi um livro ruim, mas os personagens foram muito pouco desenvolvidos e o final do livro não desceu.

3 e 4 - NOITES NA TAVERNA E MACÁRIO – De  Álvares de Azevedo Nunca havia lido nada do autor, mas não gostei da estética rebuscada dos dois livros, mesmo adorando histórias de terror. No primeiro, cinco amigos se reúnem para contar histórias envolvendo eventos sobrenaturais. Azevedo foi expoente da geração romântica do “mal do século”, conhecida pela melancolia e pelo tédio.  Obras póstumas impactantes quando lançados no século XIX, mas que envelheceram mal. O segundo livro me desagradou ainda mais e, mesmo sendo curto, quase desisti da leitura várias vezes. Uma peça de teatro sobre um jovem que encontra com o diabo. Chata como a mente de um terraplanista.

5- A RAINHA VERMELHA – De Philippa Gregory. Essa historiadora é especialista em monarquia britânica e escreve sobre um tema que me fascina: as guerras entre casas reais inglesas. Este é o segundo volume da série de quatro livros: A Guerra dos Primos dos quais já li “A Filha do Fazedor de Reis”, mas ainda faltam: “A Princesa Branca” e “A Maldição do Rei”. Os quatro livros tratam da guerra das Rosas envolvendo as dinastias York, Lancaster e Tudor tendo como protagonistas mulheres fortes das três famílias. Neste volume, a herdeira Margaret Beaufort dedica sua vida a colocar o filho Henrique Tudor, futuro Henrique VII, no trono e mudar o curso da história.

6- O JOGADOR – De Fiódor Dostoiévski O 13º livro que li do escritor russo que mais me fascina e que está entre meus autores favoritos. Fico sempre muito impressionado pelo seu estilo elegante e o total domínio da narrativa, conseguido ser ao mesmo tempo bem humorado e denso. Temos aqui um tema muito próximo ao autor já que ele próprio sofreu com o vício no jogo. A história se passa num balneário que é paraíso e inferno para viciados. Diversos personagens inescrupulosos rodeiam o narrador Alexei, um preceptor, contratado por um decadente general russo que espera a morte da avó para saldar uma dívida e casar-se com a leviana Blanche. O livro tem um salto de emoção quando subitamente aparece no balneário a detestável avó do general, que gera um tumulto na história e se vê envolvida no “inferno” da jogatina desenfreada.

7- HOMENS SEM MULHERES – De Haruki Murakami – 7º livro que li do escritor japonês mais adorado pelo público. Se  achei seus dois livros anteriores que li: Kafka à Beira Mar e Caçando Carneiros arrastados, aqui mordi a língua porque os sete contos deste volume são excelentes e abordam sentimentos de homens solitários deixados por suas mulheres e que tentam recomeçar a viver após o final dos relacionamentos. “Drive My Car” virou um filme que ganhou o Oscar. “Sherazade”, é sobre uma mulher que adora contar histórias após as relações sexuais com o amante. “Samsa Apaixonado”, inspirado em A Metamorfose, é o inverso do livro de Kafka quando temos um inseto que acorda metamorfoseado em Gregor Samsa. Há ainda os excelentes “Yesterday", “Um Órgão Independente”, “Kino” e “Homens Sem Mulheres”.

8- DENTRO DA NOITE VELOZ – De Ferreira Gullar- Primeiro livro que li do poeta maranhense. Publicado nos anos 70, tem poemas sem métrica definida, com versos livres, repleto de lirismo e abordando temas como a desigualdade social e a ditadura militar. Em Poema Brasileiro o poeta atinge um dos seus pontos altos, quando repete em diferentes métricas poéticas a frase: “No Piauí de cada 100 crianças que nascem/78 morrem antes de completar 8 anos de idade”. Destaco também o poema Não há Vagas em que o poeta diz: “O preço do feijão não cabe no poema / O preço do arroz não cabe no poema / Não cabem no poema o gás / a luz do telefone / a sonegação / do leite / da carne / do açúcar / do pão....”encerrando sem dó: “O poema, senhores, / não fede / nem cheira”.

9- A ÚLTIMA FESTA - De Lucy Foley Primeiro livro que li dessa autora badalada. A editora fez uma enorme campanha publicitária no lançamento em 2018 dessa história de suspense no estilo “whodunnit” ou “quem matou?”, recurso narrativo envolvendo o assassinato de um personagem da trama com investigação sobre a identidade do criminoso. A diferença, neste caso é que não somente não sabemos quem matou, mas também quem foi morto. Nove amigos todo ano passam o réveillon juntos, mas neste ano somente oito retornam vivos. Aos poucos a história se desenvolve mostrando que todos os personagens têm seus esqueletos nos armários e não são as melhores pessoas para ter como amigos, pelo contrário, poucos deles valem o que comem.

10- A VOLTA DE SHERLOCK HOLMES - De Arthur Conan Doyle – O 5º livro que li da série de Sherlock Holmes. Aqui o autor “ressuscitou” o detetive após tê-lo matado nas Cataratas de Reichenbach no volume anterior: Memórias de Sherlock Holmes após pressão do público e da editora. O novo volume contém 13 contos narrados pelo Dr. Watson, médico e inseparável amigo de Holmes. Entre os contos, destaco os excelentes A Casa Vazia, Os Dançarinos, O Ciclista Solitário, A Escola do Priorado, Os Seis Napoleões, Os Três Estudantes, O Atleta Desaparecido, A Granja da Abadia e A Segunda Mancha.

11- O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? – De Henry Farrell Eu já havia visto o filme clássico baseado deste livro, com Bette Davis e Joan Crawford que conta o drama das irmãs Jane e Blanche. A primeira foi um fenômeno na infância, mas com o tempo sua irmã tomou o lugar de estrela. Após um acidente a carreira de Blanche foi interrompida e ela passou a viver sob os cuidados de Jane, isoladas numa mansão e num relacionamento abusivo cheio de segredos e culpa. Estilo de terror psicológico gótico que originou um subgênero protagonizado por mulheres idosas malvadas. A edição trás como brinde o conto O Que Terá Acontecido à Prima Charlotte, sobre uma mulher de meia-idade, suspeita do assassinato de seu amante. 

12- À SOMBRA DAS MOÇAS EM FLOR – De Marcel Proust Segundo livro que li da série de 7 volumes da monumental obra Em Busca do Tempo Perdido. Foi muito difícil avançar na leitura desse volume, como foi no primeiro O Caminho de Swann. Aqui acompanhamos um Marcel adolescente que, após desilusão amorosa com Gilberte, filha de Charles Swann e Odette de Crécy, parte com a a avó para uma temporada de veraneio num hotel chique na cidade litorânea de Balbec onde conhece um grupo de moças e se apaixona por Albertine. Este é considerado o mais difícil dos sete livros da série, com infinitas digressões líricas e descrição excessivamente minuciosa e detalhista do autor. 

13- ESCRAVIDÃO II – De Laurentino Gomes Após ter lido os três livros mais famosos do autor (1808, 1822 e 1889) e o primeiro volume da série Escravidão, devorei o segundo volume sob o impacto dos terríveis relatos da escravidão no Brasil. Este se passa entre 1700 e 1800 e acompanhamos os cerca de dois milhões de africanos arrancados dos seus lares e embarcados nos infectos porões dos navios negreiros para o Brasil, viagem descrita em sórdidos detalhes no livro. Continuamos lendo sobre as misérias dos que sobreviveram à travessia, a humilhante venda em leilões públicos, a vida em senzalas infectas, os castigos e a falta de esperança. O livro é resultado de seis anos de pesquisas do autor com viagens por 12 países. Em breve lerei o terceiro e último livro, encerrando também essa trilogia .

14- A REDOMA DE VIDRO – De Sylvia Plath Primeiro livro que li da poeta norte-americana e que foi seu único romance publicado. Lançado pouco após seu suicídio e recheado de referências semiautobiográficas, a história é inspirada nos acontecimentos que levaram a autora a ser foi internada em uma unidade psiquiátrica. Plath sofria de depressão e a sua protagonista Esther, que, nos anos 50, sai de Boston com uma bolsa de estudos e um estágio numa importante revista de Nova Yorque, revela essa característica da autora em um período pós-guerra que obrigavam as mulheres a escolher entre a profissão ou a família. Apesar do tema espinhoso, a escrita de Plath é elegante e bem humorada.

15- O CHAMADO DE CTHULHU E OUTROS CONTOS – De H. P. Lovecraft Primeiro livro que li do americano H. P. Lovecraft, escritor que revolucionou a literatura de terror inaugurando elementos sobrenaturais na ficção científica ao criar o que ficou conhecido como horror cósmico. Foi muito influenciado por Edgar Allan Poe e é o escritor favorito de modernos escritores de terror e fantasia como Stephen King e Neil Gailman. Nesta edição, além do clássico O Chamado de Cthulhu, encontramos os contos A Música de Erich Zann, Dagon, Os Gatos de Ulthar, A Casa Abandonada e A Verdade Sobre o Falecido Arthur Jermyn e Sua Família. Ler Lovecraft é entrar num outro patamar no que se refere à literatura fantástica.

16- AS ORIGENS DA FUNDAÇÃO – De Isaac Asimov Após ter lido os três livros originais da série Fundação e os dois volumes que antecedem a saga, estou pronto (mas não tão animado) para os dois volumes que concluem a história. Este foi o 8º livro do “bom doutor” que li e Asimov é indiscutivelmente uma fera na ficção científica, mas não tem um texto muito elegante. Notei certa fórmula que incomoda com excesso de adjetivos e de advérbios de modo e diálogos desnecessários. A exigência de leitores e editores levaram o autor a escrever os livros Prelúdio e Origem da Fundação que não acrescentam nada à trilogia original que já não era tão especial assim, mas que é um sucesso editorial e uma unanimidade pela crítica mundo afora.

17- CUJO - De Stephen King. Este foi o 44º livro do mestre Stephen King que li. A cada obra do autor que devoro fico impressionado com o perfeito domínio que ele tem do suspense, mantendo o leitor em estado de constante tensão. Aqui estamos novamente na fictícia cidade de Castle Rock, cenário de muitos livros de King. O garotinho Tad vive em paz com os pais até que uma série de acasos conspira para que mãe e filho passem dias presos em um carro sob sol escaldante ameaçados por um São Bernardo com hidrofobia. King repete com maestria o clima de suspense quase insuportável do seu livro Louca Obsessão, bem como o clima angustiante do livro Jogo Perigoso. Cujo é tão frenético que nem é dividido em capítulos, não permitindo sequer um respiro. 

18 - JOHNNY, VOCÊ ME AMARIA SE O MEU FOSSE MAIOR? – De Brontez Purnell Esse é um livro sujo, como diz a própria contracapa. Seu narrador é uma sucessão de episódios de rancor, paixões súbitas, autodepreciação, terapias frustradas, subemprego, drogas, festas e muito sexo sem proteção. Negro, fora do padrão estético, punk, soropositivo e muito afeminado, o autor revela que há coisas mais assustadoras do que o HIV. Uma leitura angustiante muitas vezes, mas a narrativa fragmentada fica repetitiva. Intrigante a parte em que o autor conta a história que deu origem ao título quando, ao ter sido trocado por um cara mais bem dotado, pergunta se este foi o motivo do rompimento e ouve a resposta afirmativa. Fiquei pensando sobre essa pergunta desesperada e não decidi se o sim ou o não teria sido a pior resposta .

19 – A NOITE DAS BRUXAS – De Agatha Christie De todos os autores que já li, ninguém supera em número de leituras a “Dama do Crime” Agatha Christie. Das suas mais de 80 obras publicadas, já li mais de 50 entre romances, contos e peças de teatro. Entretanto, o seu livro A Noite das Bruxas não estava entre eles. Confesso que o li muito mais motivado pela recentíssima adaptação para o cinema feita pelo ator e diretor britânico Kenneth Branagh. A história original se passa numa pacata cidadezinha inglesa e foi transposta, sem qualquer razão, para a bela Veneza do meio do século passado.  Aqui temos de novo o genial Hercule Poirot convidado pela amiga e escritora Ariadne Oliver para desvendar a morte da adolescente Joyce, afogada num balde de maçãs numa festa de Halloween após revelar que vira um assassinato no passado.