2.6.13

Mulher é um bicho esquisito – Parte 3

Em janeiro de 2009, escrevi as partes 1 e 2 deste texto. Agora, mais de quatro anos depois, ele tem uma continuação. Não pergunte o porquê deste intervalo, sei lá, são tantas coisas...

Lá na primeira parte eu introduzia a jamais respondida pergunta do velho doktor Freud, entre uma baforada e outra de charuto: “Afinal o que querem as mulheres?”.

Foi novamente refletindo sobre este enigma que me deparei com a coluna de Danuza Leão na Folha do último dia 26 de maio: “Ah, as mulheres”. Vale uma lida completa.

Em resumo, Danuza ecoa as questões do criador da Psicanálise e relata casos frequentes de homens que tratam bem e amam suas mulheres, as valorizam, mostram que elas são a prioridade da vida deles, são atenciosos, prestativos, ótimos pais, puxam conversas para assuntos de que elas gostam, reparam em sua aparência, as elogiam sempre, não se esquecem de todos os aniversários etc, etc... (Danuza lista mais coisas) e, no entanto, são desprezados como objeto de desejo e paixão.

Danuza dá uma pista do complexo labirinto da psique feminina, uma pista que de fato não leva à saída, mas ilumina o caminho. Para ela, “o homem com quem se sonha não tem nada a ver com o homem que se ama. Nenhuma mulher vai se apaixonar por um homem que esteja de quatro por ela, adivinhando seus pensamentos, realizando seus desejos, antes mesmo de ela saber que desejos são esses. Ela pode gostar, sim, mas durante 24 horas, 48, enquanto existir aquela dúvida fundamental: que talvez não seja para sempre. É insuportável ser amada acima de todas as coisas o tempo todo, e pior ainda ter uma pessoa ao lado que nos tem como sua prioridade”.

Eis uma coisa que as mulheres deveriam ter coragem de dizer. No entanto, estão sempre reclamando que não são compreendidas, que os homens não lhes dão atenção e que falta homem no mercado. O sonho do príncipe encantado é ou não é uma constante no imaginário das nossas plebeias desde a adolescência? O “Eles foram felizes para sempre” ainda não anima os desejos da mulherada e os roteiros de todos os folhetins, novelas e filmes românticos para os quais elas tanto adoram arrastar os namorados?

O amor não tem manual de instruções, mas Danuza Leão é uma símia idosa (para quem não entendeu a ironia, é só um equivalente ao epíteto valorativo: “macaca velha). E ela reflete: “Para que o amor dure, é preciso que exista a dúvida se ele vai sobreviver, até mesmo àquela noite; não saber se ele vai ligar, não saber em que está pensando quando está calado, e sobretudo -sobretudo- saber que ele jamais vai lembrar de nenhuma das datas fatídicas, de quando se conheceram etc. etc., e jantar num restaurante especial e tomar um vinho no Dia dos Namorados. Para um homem ser amado é preciso que ele tenha um mundo particular --ou vários-- só dele, e no qual ela não consiga, jamais, penetrar”

Três grandes heroínas trágicas da literatura mostram o mesmo viés para com seus maridos. Emma Bovary, de Gustave Flaubert; Ana Karenina, de Liev Tolstoi; e Therese Desqueyroux, de François Mauriac. As três já foram retratadas em inúmeros filmes. Em comum, o fato de que todas trocam seus excelentes e bondosos maridos (bondosos e entediantes, é claro), por amantes reais ou potenciais. Como foram textos escritos por homens, as três protagonistas passam por belas enrascadas, mas deixam os maridos com o mesmo sentimento de: “o que eu fiz de errado?”.

Dona Flor, de Jorge Amado, quando teve a chance de um amor tranquilo, quando Teodoro, trouxe a paz de que o cafajeste Vadinho nunca foi capaz, não hesita em ficar com ambos. 

Afinal, elas gostam é dos cafajestes?  

Não é só na vida, no cinema e na literatura que esta pergunta que não quer calar está presente. Na bela canção de Ari Barroso: Camisa Amarela, imortalizada nas vozes de Nara Leão e de Gal Costa, uma mulher encontra seu companheiro completamente bêbado no carnaval e ainda o elogia: “Não estava nada bom, o meu pedaço na verdade estava bem mamado, bem chumbado, atravessado//Depois o encontrei num café zurrapa do Largo da Lapa/ Folião de raça bebendo o quinto copo de cachaça”.

E não satisfeita ela ainda diz: “Voltou às quatro horas da manhã mas só na quarta-feira/ Cantando "A jardineira", oi, "A jardineira"/ Me pediu ainda zonzo um copo d'água com bicarbonato/ Meu pedaço estava ruim de fato pois caiu na cama e não tirou nem o sapato// Roncou uma semana/ Despertou mal-humorado/ Quis brigar comigo/ Que perigo, mas não ligo! // O meu pedaço me domina/Me fascina, ele é o tal/Por isso não levo mal.”.

Ainda bem que existe a Lei Maria da Penha para proteger as mulheres de homens agressores, mas chama a atenção a seguinte notícia de um jornal do Amazonas: “Mulheres desistem de queixas contra agressores em 80% dos casos”. Relata que em Manaus, 80% das cerca de 1 mil  queixas feitas por mês contra maridos violentos são retiradas pelas mulheres agredidas, segundo informações da delegada adjunta da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher, Juliana Soares Viga.

Segundo a delegada titular, Lia Gazineu, a quantidade de mulheres que optam por desistir de levar o processo adiante é tão alta quanto ao número de denúncias. “É comum a vítima vir até aqui e depois voltar pedindo apenas uma audiência para explicar ao marido que ele não pode bater nela”, disse.

A justificativa para a desistência é, quase sempre a mesma: a dependência financeira ou emocional. “Muitas dizem que não podem prosseguir por conta dos filhos, pelo fato de ser o marido quem sustenta a casa ou porque é apaixonada pelo agressor”.

Afinal, é a vida quem imita a arte?

Quem desejar ler a primeira parte deste texto não faça cerimônia, está no blog: