24.1.07

Tudo Por um Passaporte!!!


Recentemente aproveitei para tirar um novo passaporte, algo que venho adiando há meses. Compreendi porque o processo de expedição de um passaporte assemelha-se a uma via-crucis.

São necessários vários passos: ir ao SAC e descobrir quais são esses passos; tirar fotos para passaporte que não podem ter mais de seis meses; comprar um formulário e preenchê-lo; pagar uma taxa no Banco do Brasil; voltar ao SAC com tudo preenchido; descobrir que os comprovantes de votação não são suficientes, mas que preciso de uma certidão do TRE atestando que sou um cidadão que cumpre com as obrigações eleitorais; descobrir que todos os documentos têm que ser originais e, portanto, meu certificado de reservista (só possuo uma cópia autenticada há anos) não serve.

Pausa para conseguir a segunda via do certificado que só é expedida das 7 às 11 da manhã no quartel do Exército do Forte de São Pedro.

Dirijo-me ao quartel num dia sempre adiado. Finalmente, aproveitando uma noite de insônia em que vi o sol nascer, decido que vai ser aquele dia. Mesmo me arrastando de sono vou ao quartel. E aqui começou de fato a segunda parte da via crucis.

Manhã de mormaço úmido. Atravesso o grande portão de madeira e passo por uma espécie de túnel onde seis soldados armados de fuzis fazem caras de mau. A sala onde vou tem uma porta e várias janelas abertas para um grande pátio onde se acumulam poças de água da chuva. Soldados circulam com aspecto de torpor. O dia começa a ficar mais quente, parece que vai chover de novo.

Numa tv passa o programa de Ana Maria Braga. Cinco longarinas com quatro assentos cada acomodam mais de dez homens que aguardam atendimento enquanto assistiam a tv. Alguém me diz, sem que eu pergunte, que eu preciso de uma senha.

Então vejo a velha. Deve ter mais de 50 e, pela aparência de estupor, sua única função ali é essa: entregar senhas. Antes que eu me aproximasse, ela já estendia a mão com um papelzinho: 22. Na verdade ela já estava com a mão estendida, com ar vago, assim que entrei na sala. Um gesto automático. Aqueles eram seus momentos altos do dia: entregar as senhas que retira de um bloquinho. Apesar do seu aparente catatonismo, o ato era algo sagrado. Sonha com isso quando dorme, sem culpas, sob o lençol de chenile.

Uma outra mulher negra, com uma voz muito irritada e em um tom excepcionalmente grave, como um surdo de bateria, grita: “senha 12”. Diria que aquela mulher não deve ser fácil. Chove!

Enquanto isso Louro José ensina a fazer polenta dando preciosas dicas sobre as inúmeras vantagens de um forno pré-aquecido. No dia em que eu precisar fazer polenta devo me lembrar dessas instruções.

Reparo melhor no local. São 8h e há 10 guichês alinhados. Apenas dois são ocupados. Um pela mulher obtusa das senhas e outro pela mulher da voz grossa. Pessoas são chamadas e atendidas. A voz da atendente está ficando ameaçadora.

Observo a decoração. Um quadro de Olavo Bilac, uma árvore de natal anã, uma magra guirlanda e dois festões decorativos raquíticos pendem de uma parede no fundo. Um verde e um vermelho. Restos do último Natal. Soldados batem continências

A chuva pára. O calor aumenta e os três grandes ventiladores não dão conta do recado. As pessoas chamadas parecem se arrastar com preguiça infinita até o guichê. Mais gente chega, a mulher das senhas está à toda. Não dá uma palavra, mas seu bloquinho está a mil.

Ouço alguém dizer que vai ter que jurar a bandeira. Estremeço. Isso sim é que é um castigo de verdade. Lembro que quando precisei fazê-lo, aos 18 anos, dublei enquanto, mentalmente, recitava “Batatinha quando nasce”. Meu único gesto de rebeldia silenciosa naquele local.

Agora sim, alguém com um c.c. de verdade! Nada desses perfumes baratos para disfarçar o verdadeiro e indefectível suor baiano. Penso no que pode vir de bom em estar naquele calor úmido, cheirando suor dos outros, ouvindo Ana Maria Braga comer polenta enquanto uma mulher irada grita senhas e ainda a ameaça real de jurar a bandeira...O que não se faz por um passaporte!

Um café. Sim, um café vai dar um jeito nisso. Vejo do outro lado do pátio uma cantina. Chove, mas por um café vale à pena. Atravesso o pátio, correndo. A cantina parece ter passado por uma batida policial, os únicos lanches são sonhos gigantes cobertos de açúcar derretendo e algo que alguém resolveu chamar de empadão, mas que pode ser chamado por qualquer outro nome que não vai fazer diferença alguma. Mas o café me reabilitou.

Volto. Senha 22. A mulher me atende. A voz está mais calma, mas ainda ameaçadora. Explico que quero a segunda via do certificado de reservista e ela pergunta se eu me lembro onde fiz o meu alistamento.

Penso em dizer que isso já faz muito tempo, que aconteceu em outra vida, aliás, há várias vidas, quando eu ainda tinha 18 anos e era um adolescente complicado. Hoje, 25 anos depois, um adulto mais complicado ainda, jamais me lembraria onde o alistamento aconteceu. Mas não digo nada. Ela não entenderia. Lembro que tenho a cópia autenticada e entrego a ela. Seus olhos, juro, brilharam por um milionésimo de segundo. Cópia autenticada é coisa rara ali, onde pessoas perdem documentos com muita freqüência. Digita o número do meu documento no computador.

Mas como nada comigo é simples ela descobre que o meu cadastro não consta do seu sistema. Deve ter algum número errado. Ela pede minha carteira de trabalho. Digo que sou funcionário público e não uso mais esse documento. Ela diz que há outro sistema, ligado a Brasília, que identifica pelo CPF, mas só o tenente tem a senha e ele deu uma saída. Espero o tenente voltar.

Passa das 10h. O tenente volta, mas dessa vez o sistema de Brasília está fora do ar. Ela sugere que eu aproveite para pagar a guia na lotérica já que o horário do quartel termina às 11h. A lotérica tem uma fila gigante. Para pagar R$ 3,00 espero apostadores da mega sena, compradores de cartões telefônicos, pagadores de contas, recolhedores do INSS, sacadores de dinheiro do Bolsa Família....nunca imaginei que se fizesse tanta coisa numa lotérica.

Pago e volto, mas o sistema não voltou. Sugiro que a atendente digite os números de 0 a 9 no lugar do último dígito do meu documento. Ela digita aleatoriamente. 2, 7, 6, 4. Esquece os números que digitou e os que ainda faltam digitar. Penso sugerir que ela comece do 0 e termine no 9, pelo menos os árabes criaram essa ordem há séculos e tem funcionado bem até hoje, mas preferi respirar fundo.

Não deu certo. Só tinha um jeito. Procurar nos livros do arquivo morto, mas era um lugar muito complicado e ela não garantia nada. Mas primeiro eu precisava lembrar onde me alistei. Busquei no fundo da memória, retrocedi até o jurássico da minha adolescência quando a palavra veio de algum lugar. Falei rápido, para não perdê-la: “Barroquinha talvez?” Quase disse: “Barroquinha, esse nome faz algum sentido para você?”.

Ela se levantou e desapareceu nos fundos da sala. Voltou muito tempo depois. Descobriu qual o número errado no meio dos outros certos. Eu não quero imaginar o lugar onde ela foi. Não parece ser um lugar muito apropriado. Juro que ela voltou diferente

4.1.07

Abril Despedaçado-A História de um Filme

Esse é um livro especial da Cia das Letras com as fotos, o roteiro e os textos do filme Abril Despedaçado, do diretor Walter Salles, que vale à pena ter. O livro conta com mais de 200 páginas, tem capa dura e é muito bem impresso em papel de boa qualidade, com fotografias tão bonitas que lembram as de Sebastião Salgado e textos ricos, com informações interessantíssimas sobre o adaptação para o cinema do livro do albanês Ismail Kadaré.

Já se comentou que o fato de ser essa uma história com data e local definidos retira dela sua possível característica de fábula. Em parte concordo que o diretor poderia ter abdicado da informação quanto ao tempo e ao espaço porque saberíamos onde e quando a história se passa, mas, de qualquer modo, no livro, Walter Salles reafirma o caráter universal e até mitológico da história, lembrando a origem da obra original, a Albânia, e a lenda de Orestes na Mitologia Grega. Assim, é impossível discordar de que, independentemente de a história se passar no sertão brasileiro de 1910, sua universalidade é inegável, como lenda, mito ou como tragédia familiar. Aliás, não foi um poeta que disse: "Queres falar do mundo, fala da tua aldeia"?

Escreve Salles "No decorrer da preparação de Abril Despedaçado, uma série de episódios violentos reforçaram a escolha por uma obra aparentemente descolada da realidade, situada em tempo e espaço não muito definidos, mas que nem por isso deixaria de estar ligada à questão da violência no Brasil. A realidade atingiu um estágio em que não há ficção que possa chegar a seus pés"

Lendo os seus comentários no livro, compreendi muitas coisas que não tinha entendido antes. Não me impressionam as críticas à improvável afetuosidade entre irmãos no sertão porque, na verdade, esse é um filme sobre o amor de dois irmãos. Diz-se que no sertão os irmãos são secos, não têm esse tipo de afeto. Posso até concordar, até porque foi lá que nasci e cresci e conheço bem, mas isso não desmerece o filme e o objetivo de Walter Salles que foram perfeitos.

Muitas cenas que deram trabalho infernal ficaram de fora na montagem. Walter Salles tinha um conceito e respeito-o imensamente pela sua coragem e fidelidade ao seu princípio. Ele mesmo diz que dava dó cortar belíssimas cenas e sequências filmadas e cita Drummond: "fazer poesias é cortar palavras". Nessas horas a gente lembra da exuberância excessivamente prolixa de Lavoura Arcaica e sente a falta de um montador com conceito, mas também com coragem.

Até mesmo a cena final quando Tonho encontra o mar...alegórica, destoante do realismo com que o filme vinha caminhando até ali, só agora, no livro, compreendo seu propósito que é o de Tonho homenagear o irmão e seu sacrifício. Não sei como não percebi isso quando vi o filme.

Quando ouço as críticas ao filme e a Salles acusando-o de privilegiar a estética em detrimento da história eu não sei se rio ou se choro pelos infelizes que pensam assim. Quanta riqueza e quanta história existe por trás da imagem de uma camisa ensangüentada ao vento ? E o que mais precisa ser dito quando Clara observa, angustiada, a lua completamente cheia, e sabe que chegou a hora da morte de Tonho?

Alguns críticos torceram os narizes para o redenção do final brasileiro, diferente do original, como se uma conclusão fosse menor e menos filmicamente dramática que outra. Aliás, é bom que fique bem claro que o próprio Ismail Kadaré aprovou o filme, estando entre os entusiastas que aplaudiram sua estréia em Cannes.

De qualquer maneira o filme não tem um final de todo feliz. Tonho se salva, descobre o amor com Clara e põe fim à tragédia. Mas a que preço? Aliás, os gestos nobres do menino, o agnus dei, seu olhar doce para Tonho dormindo, sua expressão ao ver a cama vazia e descobrir que o irmão seguiu seu conselho e fugiu do círculo da tragédia, sua decepção ao presenciar o retorno de Tonho para a terrível bolandeira... todo seu olhar é de uma pureza e uma eloquência sem palavras que enchem os olhos de água, arrebentam a alma e despedaçam o peito.

2.1.07

Infidelidade


Há algum tempo escrevi sobre “De Olhos Bem Fechados” onde comparava Stanley Kubrick a Adrian Lyne e afirmava que os filmes de Lyne têm mais sensualidade e são, paradoxalmente, menos conservadores e moralistas do que os de Kubrick.


Particularmente comparava “De Olhos”...com “Lolita”, mas, para minha sorte, Lyne lançou depois daquele meu texto “Infidelidade”, um filme que cabe perfeitamente bem na comparação que faço entre os dois diretores e entre os filmes. Como já não suporto mais falar da caretice de Kubrick vou falar de Lyne. E para variar, em vez de falar mal de um filme, vou falar bem.

Em “Infidelidade” temos Richard Gere e Diane Lane formando um triangulo amoroso com Olivier Martinez (visto em “Antes do Anoitecer”, excelente filme sobre o escritor cubano Reinaldo Arenas). Mr. Gere e Mrs. Lane são o perfeito casal de propaganda de margarina que vive o sonho americano com seu filhinho que faz teatrinho na escola e seu cachorro numa bela casa perto de Nova York. Lane vive um caso extraconjugal repleto de tensão sexual e extremamente voluptuoso. Ela se entrega ao affair sem culpa e sem medo e intrepidamente se arrisca além da prudência.

O que o filme tem de mais interessante é essa abordagem da traição da esposa. O que a gente está acostumado a ver é a traição dos maridos. Homens são educados para amar verdadeiramente sua a esposa e ter relações com outras mulheres. Nesse filme o papel é invertido e a esposa trai o marido mesmo amando-o. Só por essa sacada e quase originalidade, Lyne merece todos os elogios.

Adrian Lyne esperava que Infidelidade provocasse a mesma polêmica de seus trabalhos anteriores. Nesse filme o tema adultério é abordado de forma não convencional. Segundo Lyne, Indifelidade trata a traição em um relacionamento como algo natural. Ele pensou em fazer um filme mostrando um casamento que estava se desmanchando mas achou que isto seria entediante. Seria muito mais interessante se o casamento fosse perfeito e, ainda assim, a esposa tivesse um caso. “Não acho que as pessoas têm relações extra-conjugais porque vivem infelizes. Acho que o acaso tem uma grande parte nisto”, comentou.

Para Lyne o filme é diferente de La Femme Infidelle, obra-prima de Claude Chabrol: “Esse é um thriller erótico que explora os relacionamentos num novo nível de intensidade e perigo. O filme mostra uma visão cheia de suspense de como são criadas cortinas de fumaça para esconder as culpas de cada um.”

Lyne dirigiu filmes como 9 1/2 Semanas de Amor, Lolita, Atração Fatal ou Proposta Indecente. É acusado pelos críticos de fazer filmes como se fossem videoclipes. Filme não devem ter elementos que interfiram na narrativa e chamem mais atenção do que os atores e a história, cinema não deve ser assim, esses elementos devem ser dosados e entrarem na trama de modo natural, mas deve-se reconhecer que Lyne evoluiu bastante nesse tempo e perdeu um pouco dessa tendência que trouxe dos seus anos de diretor de comerciais.

Em Infidelidade encontramos esses elementos, só que em momento algum eles interferem na narrativa. Mas virou moda criticar Lyne por isso. Ninguém reclamou, por exemplo, quando Jane Campion, diretora do premiado “O Piano” fez pretensiosas estripulias preciosistas com a fotografia e a iluminação das cenas de “Um Retrato de Mulher”. A diretora chegou a ser escrachada ao vivo no set por John Malcovich: “ Você pensa que está fazendo um quadro de Caravaggio? Isso é só um filme!” Ninguém critica Campion mas Lyne recebe porrada de todo lado. O moralismo está em quem critica Adrian Lyne. Exemplo disso é a sua versão de Lolita que nem mesmo foi lançada nos cinemas americanos por ser considerado ousado demais. O puritanismo é extremamente contagioso.

O que há de melhor no filme é a honestidade de Lyne na conclusão da obra. Há uma traição e qual o resultado de uma traição quando o cônjuge descobre? Que sobrevida pode ter uma relação depois disso? Mesmo se o casal decide permanecer unido, jamais a história deles será a mesma. E dessa premissa Lyne não se desvia. Por que razão isso seria sintoma de moralismo ou conservadorismo? Quando a mulher descobre a traição do marido ela pode perdoar e ninguém questiona se a relação fica fissurada ou não, mas se o homem é o traído as críticas partem de todos os lados e todos se arvoram a dizer que a relação já era chatinha mesmo, o galã era esquisito, a mulher era balzaquiana, o marido era bestinha etc.

Gostei do filme começar de um jeito, na metade enveredar por outro e lá pelo terço final ter uma reviravolta policial. Vi gente que criticou esse fato. Tem uma turma que não sabe apreciar esse tipo de surpresa, gente que só quer ver o que é previsível. O personagem de Richard Gere tem uma reação dramática e de uma tensão fílmica impressionantemente sofisticada e ele consegue traduzir perfeitamente bem seu conflito. Lyne mostra a seqüência muito bem filmada, a faca, a bola de vidro, o sangue, os livros, a secretária eletrônica, o tapete, o elevador, a mala do carro... E emoldurando tudo efeitos de som que prolongam e reforçam a tensão. Tensão que continua na cena da batida no fundo do carro na saída da escola do filho, na fuga à noite para o depósito de lixo...E uma luz perfeita que não interfere em nada na narrativa, ao contrário do que dizem críticos de má vontade.

A cena em que as duas amigas da personagem de Diane Lane se encontram com ela no café tem um diálogo muito bom que muitos fingiram não ver, principalmente quando uma das mulheres, numa interpretação extremamente sutil, afirma que uma vez traiu o marido e qual a conseqüência daquele ato: “Todo caso termina em desastre”. A verdade por trás dessas palavras é dolorosamente genuína. Qualquer caso digno desse nome termina em desastre. E os críticos preferem falar mal da cena da transa no banheiro daquele café onde as amigas estão. E o que a cena tinha de ruim? Resposta: era bem filmada demais, bem coreografada demais. Como um comercial! É demais não!?

Exemplo desse tipo de má vontade se vê numa crítica do antigo site Anedota Búlgara onde o autor faz uma brincadeira sem graça e chama o filme de “O diabo na carne de Mrs. Lane”. O homem deve sofrer de algum tipo de dor-de-cotovelo. Compara Olivier Martinez com Mickey Rourke “barba por fazer, aparência desleixada, voz rouquinha e sexy, hábitos sexuais esquisitos, ar intelectual...” Compara a cena de ventania em Nova York a um “comercial-de-impulse" Qual o problema? A cena da ventania tinha que ser feia e mal feita para agradar ao crítico? Não pode ter uma boa luz porque senão vira comercial? E, afinal, aquele tipo francês deve agradar bastante às mulheres, talvez não agrade ao crítico, mas não é aos homens que ele tem que agradar não é mesmo?

Pois eu continuo a dizer: Moralistas são os críticos. Adrian Lyne é ótimo!

Venga Toro


Na postagem abaixo disse que a tourada é um dos espetáculos de horror mais insanos e desumanos que existem. Perguntaram-me, provocativamente, se eu acho a matança de um touro na arena mais cruel do que um abate num matadouro. Não vou dar uma resposta direta, vou comparar as duas mortes.


Primeiro, credencio-me para essa resposta. Como Engenheiro Agrônomo em diversas ocasiões da minha vida profissional, castrei animais, fiz partos e estive presente, tendo eu próprio abatido carneiros, porcos, e, pelo que lembro, pelo menos dois bois. Estive também em uma tourada na Espanha e assim sinto-me apto para uma comparação.

O que é mais cruel, dar uma machadada, uma única ou no máximo duas na testa de um touro que será em seguida sangrado para que sua carne alimente dúzias de pessoas e signifique muitas vezes o sustento de uma família ou o que Marco Frenette descreve com extrema revolta e lucidez que se passa nos bastidores de uma arena de touros?

Frenette comenta a série de programas de tv espanhola, transmitidos pela Net, que abordam todos os aspectos desse "esporte" nacional espanhol: “Muitos novilhos são mortos na experimentação de novos modelos de espadas? Toureiros e fabricantes se reúnem em segredo, discutem o peso do aço, e então fazem o teste enterrando a espada no animal. Enquanto o novilho agoniza, comparam a dificuldade com que ela penetrou na carne.

“Animais adultos tem os chifres cortados, ficam horas sob sacos de areia, as patas inchadas são ensopadas com aguarrás para que o animal não consiga ficar parado devido à extrema ardência. Para comprometer sua já fraca visão, os olhos são untados com vaselina e para empurrá-lo em direção ao corredor que o levará à arena, espetam-no várias vezes. O touro aterrorizado corre para o que julga a saída onde é recebido pelos gritos da multidão”.

A tourada é dividida em 3 partes. Primeiro os picadores, a cavalo, golpeiam o touro perfurando-o profundamente com lanças cortantes de aço com pontas de 10 cm. Na 2ª parte os bandarilheiros espetam aquelas hastes com papel colorido nas costas do touro, enfurecendo-o. Parecem lindas, mas têm, nas pontas, um arpão de 8 cm. que causam dores atrozes, pois, a cada movimento, os ganchos cravados cortam cada vez mais fundo.Por fim, o matador executa um balé cheio de frescuras e dá uma estocada única com sua espada, cravando-a até o cabo no corpo do animal. Os picadores retornam e finalizam a execução com as lanças enquanto o toureiro, na arena, sorri para a multidão exibindo o troféu: a orelha ensangüentada do touro. Não é porque Almodóvar embalou essa cena com a voz suave de Elis Regina cantando “Por Toda a Minha Vida” que ela se tornará menos horrenda e grotesca.

Almodóvar filmou a morte de cinco touros numa sessão de treinamento de toureiros reais. Um grupo de proteção dos direitos dos animais está processando o diretor que justificou explicou que a morte dos animais aconteceria de qualquer maneira e as câmeras só fizeram registrar o momento, mas o grupo ecológico alega que as leis locais proíbem sofrimento e morte de animais em filmes e qualquer violência contra eles precisa ser simulada. Qual o propósito de mostrar essas mortes num filme de ficção? Afinal, se fosse um documentário vá lá, mas mostrar a matança revela um profundo desprezo pelo sofrimento dos animais e isso não tem perdão na minha modesta opinião.

Todas as análises sobre esse tipo de “esporte” abordam sempre dois lados. Um dos aspectos gira em torno da extrema covardia com que o animal é tratado, o delírio insano de uma multidão frenética e ávida por sangue "a cruenta alma espanhola", a falsa noção de heroísmo de um canalha que, de posse de todas as vantagens, mata injusta e ritualisticamente um animal destituído de qualquer réstia de dignidade e que conta apenas com a fatalidade do seu destino terrível nas pontas afiadas dos instrumentos de tortura e morte.

A outra análise, embasada sempre pelo cínico verniz antropológico, não admite mensuração de valores de uma civilização por paradigmas esternos a ela. Honestamente, prefiro ser tachado reducionista e de desprezo pela cultura de um povo a aplaudir ou me esquivar a um extremo estupor diante dessa pusilanimidade cruenta.

A avaliação antropológica deveria, caso fosse tão válida, sobreviver a leis que proíbem, por exemplo, a farra do boi em Santa Catarina, afinal também ela faz parte da cultura daquele pessoal. Rinha de galo ou de canários ou brigas de cães só se tornaram integrantes da cultura de um povo, como a farra do boi e as touradas, porque alguém não teve coragem de proibi-las em nome do direito dos animais.
Ou as cruéis esterilizações de milhões de meninas na África, quando lhes extirpam os clitóris sem anestesia. Como condenar a selvagem cultura das infibulações e das touradas se se vai defender o direito de ser cruel com as meninas e com os animais em nome da sagrada e indiferente análise antropológica?

Marx, dizia: "A dominação do homem pelo homem foi precedida da dominação da mulher, mas essa já é história para outro artigo”. Fiquemos, por hora, com uma frase de Gandhi que do alto da sua sabedoria afirmou: "Pode-se medir o grau de evolução de um povo pelo modo como seus animais são tratados".

Fale com Ela


Do cineasta Pedro Almodóvar assisti a todos os filmes e até li o seu livro Fogo nas Entranhas. De tantos agradáveis momentos que passei em salas de cinema, muitos devo aos filmes dele. Desde Pepe, Luci e Bon, passando por Ata-me, Kika, De Salto Alto, Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos, Matador, Carne Trêmula, A Pele do Desejo, A Flor do Meu Segredo, Tudo Sobre Minha Mãe...Vi tudo. 


Mas quando assisti a Fale Com Ela saí do cinema com uma sensação de estranhamento, um mal estar.... Não era Almodóvar. E fico cheio de dedos para dizer que não gostei do filme. Como posso não ter gostado se todos dizem que é uma obra prima, se rasgando em elogios ?

Não foi porque detesto touradas. De todos os esportes (?) abomináveis este é o pior. Só assistiria a uma tourada se soubesse que o touro mataria o toureiro. Estive uma vez perto de um desses espetáculos de horror na Espanha. Do lado de fora da arena senti o fedor de esterco e de sangue, vi as hordas de moscas e aquela gente histérica gritando olé!, torcendo para o touro ser abatido, o animal inocente esfalfado, cansado, aturdido, ensopado de sangue, espetado, cruel e covardemente, por espadas...

Jogaria toda a cultura espanhola na lata do lixo se conseguisse salvar apenas um touro. Explodiria as obras de Gaudi, poria fogo nos quadros de Dali e Picasso, destruiria os filmes de Buñuel e Saura e os livros de Cervantes e Lorca apenas para salvar um único touro. E Almodóvar coloca uma tourada neste filme.

Mas não foi só por isso que não gostei. Deveria gostar, pois nesse filme o touro leva a melhor e o toureiro (uma mulher), é quem acaba em sangue e areia. Se a tourada é um espetáculo grotesco, a desse filme chega às raias do absurdo quando, enquanto a toureira empala o animal, ouve-se a trilha sonora mais deslocada que vi em todos os filmes que assisti na vida: Elis Regina, suavemente, cantando Por Toda a Minha Vida enquanto o sangue escorre, negro e rubro, do dorso suado de um touro.

Onde estavam as cores berrantes de Almodóvar ?, os diálogos cômicos, os dramas patéticos, as situações rocambolescas e estapafúrdias, os exageros, a excêntrica estética barroca, a cultura kitsch, o sexo passional, as verdades absurdas, a desmesura típica, as músicas envolventes?

Por falar em música, além do equivocado trecho da canção de Elis, há uma forçada inserção da imagem de Caetano Veloso cantando Cucurrucucu Paloma. Por mais que goste de Caetano e a sua brilhante interpretação dessa música, senti que a sua figura ali soa gratuita, deslocada, destoa, num filme onde Almodóvar busca se conter ao máximo. O mano Caetano está ali apenas graças ao seu ego monumental e pela amizade íntima com o diretor. Bairrismos à parte, quase soa uma interferência narrativa.

Afirmam que Almovóvar amadureceu para não se tornar prisioneiro de um estilo. Essa história é furada! Almodóvar só atingiu o ponto mais alto da sua carreira exatamente porque se manteve fiel a um estilo. Exemplo disso é o seu brilhante e perfeito Tudo Sobre Minha Mãe, Oscar de Filme Estrangeiro. Não há nada de errado em manter-se fiel a um estilo, principalmente se esse estilo representa a alma do artista e ainda por cima faz sucesso.

Ninguém deixa, por exemplo, de reconhecer o gênio de Nelson Rodrigues e ele sempre foi fiel a um estilo. Nunca mudou e nem por isso ficou prisioneiro. Não é repetição, mas cada vez que um artista, sobretudo se esse artista é genial, volta sobre o mesmo tema, ele não se repete, mas lança uma nova luz sobre o objeto, ele mostra novos ângulos, ilumina novas camadas do objeto sem nunca se repetir ou ficar prisioneiro do assunto.

Almodóvar, dessa vez, preferiu filmar com o cérebro, esquecendo o coração. É assim que ele comanda, com mão de ferro, um filme onde nada se desenvolve, o imobilismo das duas mulheres serve como desculpa para uma metáfora da passividade. Não tenho nada contra narrativas lentas, até as prefiro, mas nesse filme tudo trava, trunca, não cresce, estagna, como se o diretor quisesse o tempo todo amarrar o ritmo ao estático. A frenética alma espanhola, com toda a sua característica morbidez, não combina com isso. A tourada, o balé, o flamenco, a vida, enfim, tudo é ritmo! No filme temos homens apáticos, covardes, fracos, mulheres fortes, masculinizadas mas imóveis. Não falta só movimento, falta intensidade de emoção.

Os homens choram. E daí? A incomunicabilidade já foi melhor expressa em diversos momentos do cinema, nem vale a pena enumerar exemplos. Qual a vantagem de um homem só conseguir se expressar quando a mulher está em coma? Qual a vantagem para a mulher e para uma relação? Parece muito bonito, mas não se sustenta, pois o que torna bela uma relação é exatamente a troca. Troca que não se vê, pois o diálogo é substituído por monólogos. Benigno, covarde, não tem coragem de procurar a amada. Só consegue falar com ela quando não faz mais sentido e ela está em coma. Se ela acordasse de repente tenho a impressão de que ele se esconderia de medo.

As mulheres não querem homens sensíveis. Não foi por outro motivo que a toureira tinha tomado uma decisão importantíssima antes do seu acidente, referente ao seu hiper sensível namorado jornalista. Ela tinha adoração pelo seu ex, também toureiro e nem um pouco sensível. E quem disse que a bailarina gostaria de um enfermeiro afeminado criado pela mãe? Homens afetados ela tinha aos montes na sua escola de balé.

A mão pesada de Almodóvar exige, no final que um personagem vá para a cadeia para que a imobilidade continue, e, sem muita criatividade, adota um The End hollywoodiano, com letreiro com os nomes do casal, como um fechamento de um circulo. Nada de novo aqui. Mais original foi o macedônio Milcho Manchevski ao finalizar “Antes da Chuva”, filme que recebeu 30 prêmios, entre eles o Leão de Ouro, com um círculo final que se fecha apenas como paradoxo.

Afirmam que o momento mais belo de Fale com Ela mostra o regresso do macho ao útero da fêmea como um homem em miniatura. Não bastassem homens frágeis, afeminados, chorões, Almodóvar inclui um homem miniatura. Não creio que Almodóvar domine tão bem o universo masculino. Mulheres sempre foram o seu forte. Que volte logo a elas!

Fim de Caso


Um livro que recomendo a quem tem alguma fé ou já viveu um grande amor. “Fim de Caso” foi escrito em 1951 por um dos maiores escritores ingleses, Graham Greene, autor, entre outros clássicos, de Expresso do Oriente e Nosso Homem em Havana. Quase todo inglês já leu esse livro que no Brasil passou da 10ª edição. É uma história arrebatadora que virou filme com indicação para Oscar e tudo.


O filme, adaptado da obra de Greene, é dirigido por uma dos meus diretores favoritos: Neil Jordan (Traídos Pelo Desejo e Entrevista Com o Vampiro) e os personagens principais são interpretados por Julianne Moore (Magnólia), Ralph Fiennes (A Lista de Schindler) e Stephen Rea ( alter ego do diretor Jordan, que estrela todos os seus filmes).

A história: um triângulo amoroso entre um alto funcionário público inglês, sua esposa e um escritor durante a Segunda Guerra Mundial em Londres. O ingrediente mais interessante da história, que o autor manipula com maestria, é a fé (ou a ausência de fé) dos personagens em Deus e como isso faz com que suas vidas sejam reviradas e destruídas. Para quem acha que estou antecipando as coisas, a primeira página do livro é quase um flash back e diz quase tudo: “Essa é muito mais uma história de ódio que de amor”.

O livro leva o leitor para uma imensa variedade de emoções humanas que chega-se a pensar: como esses ingleses conseguem conter um vulcão remoendo as entranhas sob uma aparência áspera e fria?

Selecionei uma passagem que gostei especialmente: “Sua cicatriz fazia parte do seu caráter tanto quanto o ciúme. Então pensei se queria que meu corpo se transformasse em névoa e vi que queria que aquela cicatriz continuasse a existir por toda a eternidade. Mas minha névoa poderia amar aquela cicatriz? Então, comecei a querer o meu corpo, que eu detesto, só porque era possível que ele amasse aquela cicatriz.”

Leia após um banho quente, ponha um bom perfume numa tarde chuvosa, tomando vinho branco numa taça legal, ouvindo Sarah Vaughan e com os pés aquecidos por meias novas. Meias novas são fundamentais! Mas para quem prefere ouvir pagode, tomar cerveja na praia e sentar na areia....bem, acho que Grahan Greene não vai combinar.