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11.4.18

ABRIL DESPEDAÇADO e LAVOURA ARCAICA

 Esta semana acabei de ler dois livros excelentes, ambos adaptados para o cinema por dois diretores brasileiros: Abril Despedaçado — dirigido por Walter Salles e com Rodrigo Santoro como protagonista—, e Lavoura Arcaica, do brasileiro Raduan Nassar, filmado por Luiz Fernando Carvalho e com Selton Mello no papel principal. Os dois livros foram publicados originalmente na década de 70 e giram em torno de profundas tradições familiares.

ABRIL DESPEDAÇADO – Obra do escritor albanês Ismail Kadaré, foi adaptado no cinema para o sertão brasileiro e aborda um círculo infinito de vinganças entre membros de duas famílias rivais. Um dos temas mais caros da dramaturgia universal é o da vingança e se o livro se passa nas montanhas da Albânia, a transposição da trama para a aridez sertaneja, no cinema, não lhe fica nada a dever. É o mesmo orgulho estéril. A mesma mesquinhez patriarcal.

Nas montanhas da Albânia, resiste por cinco séculos até hoje o código de conduta conhecido como Kanum, costume arraigado na vida dos agricultores, que prevê regras estritas sobre o direito das famílias de ter as mortes de seus entes vingadas à bala. Trata-se de um romance, mas o Kanum existe realmente e estima-se que mais de 20 mil pessoas se envolveram em lutas entre famílias, com quase 10 mil mortos somente a partir de 1991 com o fim do regime comunista na região, quando houve um ressurgimento das rixas.

Acompanhamos um mês na vida do jovem Gjorg desde o momento em que ele se vê imerso na rede de vingança, obrigado a cobrar de uma família rival a morte do irmão, matando também ele um membro do clã inimigo e assim submetido ao circulo de vendetas. Ele morrerá após 30 dias, a trégua chamada de bessa. Mas, na prática, sua vida já acabou, ou acabará em algum dia do mês de abril. É impossível não recordar do notável romance do Nobel colombiano Gabriel Garcia Márquez, Crônica de Uma Morte Anunciada, também adaptada para o cinema.

No seu derradeiro mês de vida, Gjorg vislumbra, por uma única e breve oportunidade, a bela jovem Diana e entre os dois se instala uma urgente e súbita paixão silenciosa. Para Gjorg, será uma busca desesperada pela carruagem que transporta Diana pelas montanhas e para a jovem letrada, a estupefação diante de tradições que ceifam a vida de centenas de jovens numa sociedade em que o nascimento de um menino é saudado com o seguinte desejo: “Que ele viva muito. E morra de bala!”

LAVOURA ARCAICA - Também um livro duro, difícil, construído a partir de uma narrativa que se assemelha a um mergulho em apneia ou a um caleidoscópio de cicatrizes abertas.

A história segue os caminhos — ou os descaminhos — de André, filho do meio de uma família religiosa de agricultores imigrantes, uma verdadeira metáfora invertida sobre a parábola bíblica do filho pródigo. Já na primeira página, André é encontrado pelo irmão mais velho Pedro (não à toa, nomes de dois irmãos apóstolos) em um quarto sujo de pensão após ter fugido da opressiva família cristã sobre a qual o pai, libanês rígido, impunha uma disciplina feroz, em contraste com a mãe, pura ternura e afeto.

O jovem André sofre sob essa pressão e se sente cindir nas tensões desses polos em permanente disputa por sua alma. Em torno dele, gravitam os demais irmãos, entre eles a meiga Ana (Simone Spoladore, nas telas), que desperta em André convulsivos desejos incestuosos. 

O livro tem uma construção não linear de prosa poética como um jorro de fluxo de consciência, levando o leitor a mergulhar nas suas páginas sem qualquer garantia. Um clássico obrigatório que precisa ser lido sem pressa, com o devido tempo.

E sobre o tempo, sobre a virtude da paciência, transcrevo trecho de um dos discursos do patriarca da família, belissimamente interpretado no cinema por Raul Cortez: “... rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira...”

5.11.15

39ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

Mais uma Mostra Internacional de São Paulo chega ao final. A 39ª, mas a minha 14ª pois não tem programa marcado para outubro que substitua minha concepção de compromisso. Então, nenhum amigo resolva morrer ou se casar em outubro, pois estarei ocupado.

Como uma regra, novamente a Mostra premiou apenas filmes a que não assisti. Com mais de 300 opções, estou sempre escolhendo ver aqueles que os críticos não gostam ou eles só gostam dos que eu não vi ou não gostei.

Este ano não consegui bater minha maca de 51 filmes. Fiquei perto: 43. Destaco 3 obras primas e 3 bombas colossais. Duas delas produções brasileiras a que dou nota zero.



MEUS FAVORITOS: NOTA 10

DHEEPAN, O REFÚGIO - Produção francesa que venceu a Palma de Ouro no último festival de Cannes e que é dirigida por um dos melhores diretores europeus da atualidade, Jacques Audiard, que dirigiu os excepcionais A Ferrugem e o Osso e O Profeta. Aqui ele conta a história de um ex-soldado guerrilheiro do Sri Lanka que para escapar da guerra, foge para a França com uma jovem mulher e uma garota fingindo serr uma família. O trio acaba se estabelecendo em um projeto habitacional nos arredores de Paris. Eles mal se conhecem, mas tentarão construir uma vida juntos. O filme surpreende em três reviravoltas brilhantes na vida do protagonista.

DESDE ALLÁ - Coprodução da Venezuela e México e que venceu o Leão de Ouro no último festival de  Veneza. Um filme corajoso e que não teme falar de temas espinhosos e sem buscar ser politicamente correto. Conta a história tortuosa de Armando, um rico protético que atrai jovens de rua para sua casa com dinheiro. Ele não quer tocá-los, apenas observá-los para se masturbar. Ele também segue um empresário mais velho com quem parece ter tido uma relação traumática. O primeiro encontro de Armando com Elder, líder de uma gangue de rua, é violento, mas isso não diminui sua fascinação pelo belo adolescente. Interesses financeiros fazem com que o rapaz o visite com regularidade e uma intimidade inesperada surge entre eles. Mas o passado de Armando é motivo de preocupação, e Elder empreende o último ato de afeição por ele. Brilhante e doloroso.

SON OF SAUL - Um filme angustiante que venceu o grande prêmio do Júri do último festival de Cannes. Mostra 36 horas em 1944 em Auschwitz. Saul é um húngaro que integra o Sonderkommando, grupo de prisioneiros judeus forçados a ajudar os nazistas no extermínio em larga escala, trabalhando nos crematórios, Saul descobre o corpo de um garoto que acredita ser seu filho. Enquanto os membros do seu grupo planejam uma rebelião, Saul decide se lançar em uma tarefa impossível: salvar o corpo da criança das chamas, encontrar um rabino para rezar a oração do Kadish e dar ao menino um enterro apropriado. O grande destaque do filme, além do roteiro, é a opção da tela quadrada, reforçando a sensação de claustrofobia, e tomadas tendo apenas a perspectiva de Saul, ou tendo Saul sob perspectiva. Segundo críticos é a experiência mais aterrorizante que o cinema produziu em 2015. O diretor László Nemes declarou, apesar da consagração da crítica, que não espera sucesso comercial do seu filme, pois o público quer mesmo é comer pipoca e se divertir com "Velozes e Furiosos". Auschwitz não é Titanic, fuzila Nemes! Na mosca.

FILMES NOTA 9

MEMÓRIAS SECRETAS - Dirigido por um dos cineastas mais instigantes, o canadense de origem armênia Atom Egoyan, essa produção do Canadá e da Alemanha conta com os grandes Christopher Plummer, Martin Landau e Bruno Ganz no elenco e conta a história de Zev e seu melhor amigo, Max, que fazem um pacto para dedicar os últimos dias de suas vidas à conclusão de questões do passado: encontrar e se vingar do comandante nazista que matou suas famílias durante a guerra. Max está muito frágil para deixar o asilo, mas Zev, mesmo com Alzheimer, embarca em uma jornada para encontrar seu algoz. Um final que é uma obra prima do roteiro.

A ESTREITA FAIXA AMARELA - Produção mexicana do ótimo Guilhermo del Toro, o título do filme em espanhol é ainda mais belo:  “La Delgada Linea Amarilla” Um road movie clássico e perfeito que conta a história de cinco homens contratados para pintar a linha central de uma estrada que conecta duas cidades no México. Eles têm 15 dias para pintar 200 quilômetros debaixo de um sol escaldante. Os cinco homens solitários vão perceber que há uma fina linha entre o certo e o errado, entre risadas e choros, entre vida e morte. Um filme que nos primeiros minutos a gente pensa que não vai ter como sair uma boa história dali, na verdade parece que não vai sair história alguma, mas o filme cresce de um modo magistral. É perfeito. Uma obra prima.

ORAÇÃO DO AMOR SELVAGEM – Um filme brasileiro de baixo orçamento mas que consegue se sair muito bem apesar de uma direção de atores na minha opinião um pouco desleixada. Um dos personagens opta por uma interpretação quase caricatural, mas apesar disso o filme me agradou. Não sei porque dou 9, talvez não merecesse tanto mas vale muito pelas ótimas interpretações do sempre ótimo Chico Diaz e da excepcional Sandra Corveloni, que já foi premiada como melhor atriz em Cannes por Linha de Passe, de Walter Salles. A história real de um homem e sua filha pequena que desafiam os representantes das leis divinas no vilarejo onde vivem em Santa Catarina e partem em busca de liberdade. Mas o que poderia ser uma vida abençoada pela felicidade, torna-se um labirinto de ciúmes e violência. Só que nenhum deus pode impedir alguém de ser feliz. Um libelo contra a intolerância religiosa.

A JORNADA DE CHAKUSE – Uma divertidíssima comédia de fantasia japonesa com ótimos atores. Na vida após a morte, escritores ocupados estão criando cenários para a humanidade. O que eles escrevem dita o destino de todos. Chasuke, um servidor de chá celestial, está sempre fazendo o seu trabalho para garantir que os dramaturgos sigam em sua tarefa sem fim. Ele não pode evitar ouvir as conversas, e está especialmente interessado na história da jovem Yuri. Um comentário descuidado muda o destino dela em um acidente de carro fatal. Só Chasuke pode resgatá-la, voltando ao mundo físico.

NINGUÉM AMA NINGUÉM POR MAIS DE DOIS ANOS- Excelente filme nacional adaptação de textos de Nelson Rodrigues e perfeita reconstituição de época do Rio dos anos 60. O filme acompanha a vida de cinco casais, aparentemente convencionais, mas, na vida íntima, com as insatisfações e os desejos latentes fugindo do moralismo. Com ótimas atuações de Gabriela Duarte e Marcelo Faria.

FILMES NOTA 8

UMRIKA – Filme indiano protagonizado pelos atores adolescentes que se destacaram nos filmes As Aventuras de Pi e o Grande Hotel Budapeste. Mostra a vida numa pequena aldeia na Índia que se revigora quando um de seus habitantes viaja para a América (que eles chamam Umrika) e detalha sua jornada por meio de cartas, que provocam esperança e debate em seus conterrâneos. Quando essas mensagens param de chegar, Rama, irmão mais novo do aventureiro, decide sair em uma viagem para encontrá-lo. Com a ajuda de seu melhor amigo, Lalu, o rapaz refaz o trajeto do irmão para encontrar o seu próprio caminho.

O CULPADO – Filme alemão sobre abuso sexual e pedofilia na igreja. Um padre presencia seu colega e melhor amigo ser preso por suspeita de abuso sexual. O que ele descobre é como um teste crucial para sua fé e sua autoconsciência como sacerdote. Ele se revolta contra o silêncio dentro da Igreja e aprende uma lição: a Igreja é uma mãe e ninguém pode bater em sua mãe.

TERRA DE MINAS – Excelente coprodução da Dinamarca e Alemanha que conta episódios pouco conhecidos posteriores à rendição da Alemanha na 2ª Guerra, quando prisioneiros alemães são forçados a desarmar milhares de minas da costa do país. No comando do grupo está um sargento dinamarquês que, como muitos compatriotas, guarda rancor dos alemães após cinco anos de invasão. Ele desconta sua raiva nos prisioneiros até que um trágico acidente o faz mudar seu ponto de vista, mesmo que talvez seja tarde demais.

MAGALLANES- Filme vencedor do prêmio Cinema em Construção no último Festival San Sebastian na Espanha. Na capital do Peru, Magallanes reconhece uma passageira do seu táxi. Ela é uma jovem que ele conheceu há mais de 20 anos em circunstâncias completamente diferentes. Em busca de redenção, ele fará tudo o que puder para ajudá-la a superar a difícil situação pela qual está passando. O que ele não sabe é que ela prefere perder tudo a ser ajudada por ele.

10% MINHA FILHA-ISRAEL – Um filme lírico sobre o relacionamento entre Franny, de sete anos e Nico, de 28 anos, namorado de sua mãe. Para ficar com a mulher que ama, o rapaz tem que ganhar o coração da menina que o detesta. Eles precisam achar uma maneira de conviver, amar e odiar um ao outro. No filme, em nenhum momento é mostrada a mãe ou o pai da garota, apenas ela e Nico. 

A PARTEIRA – História real produzida pela Finlândia e Lituânia sobre a ocupação alemã na Lapônia, conflito entre Alemanha e a Finlândia no rescaldo da 2ª Guerra. Uma parteira finlandesa se apaixona por um oficial do serviço secreto alemão e por esse amor ela enfrenta seus próprios demônios e medos. Um filme que mostra que a força do amor é capaz de enfrentar todos os obstáculos. Imagens fortes do Holocausto judeu.

O NOME DO FILHO- Comédia italiana inteligente e divertidíssima que mostra um grupo de amigos de infância já adultos se reunindo para um jantar. O extrovertido corretor Paolo e a bela Simona, autora de um best-seller, estão esperando um filho. Em um jantar com um casal de esquerda, refinado e culto e um músico excêntrico, uma pergunta gera um debate que agitará a noite: o nome do bebê. Segredos íntimos e conflitos adormecidos são expostos em uma noite de catarse.

NOTA 7

ROSITA- Jovem pescador vice com seu pai, viúvo de meia-idade, em uma pequena cidade da Dinamarca. O pai sente falta do amor e do carinho de uma mulher e, assim como fizeram muitos homens da cidadezinha, providencia para que a bela jovem filipina Rosita seja enviada à Dinamarca. O filho se sente cada vez mais atraído pela nova companheira do pai e isto força o rapaz a assumir a responsabilidade por seus sonhos e por seu futuro.

KRISHA – Um bom filme americano tipicamente independente. Mostra o reencontro de uma família no feriado de Ação de Graças quando, após prolongada batalha contra o vício e a autodestruição, Krisha, a ovelha negra da família, volta para casa mas o encontro, que começa como uma comovente prova da capacidade que a família tem de perdoar, logo se transforma em um dilúvio emocional, com feridas e ressentimentos sendo expostos.

A JOVEM RAINHA – No século 17, a rainha Cristina da Suécia está determinada a modernizar seu país. Criada como um príncipe e sob uma rigorosa educação luterana, ela enfrenta resistência para acabar com a sangrenta Guerra dos Trinta Anos, entre protestantes e católicos. Ela se apaixona por sua dama de companhia e toma uma das decisões mais controversas da história. O personagem já foi retratado no cinema por Greta Garbo em 1933.

NOTA 6


AFERIM – Filme em preto e branco retrata a Romênia do século 19. Um policial e seu filho atravessam o país em busca de um escravo cigano foragido. O filme venceu o Urso de Prata de melhor diretor no Festival de Berlim e mostra como os ciganos sofreram uma brutal perseguição em um regime de servidão cruel na Europa.

BEIRA MAR- Filme brasileiro que mostra um fim de semana de dois adolescentes imersos em um universo próprio. Alternando entre distrações corriqueiras e reflexões sobre suas vidas e sua amizade, os garotos se abrigam em uma casa de vidro, à beira de um mar frio e revolto. Um filme sobre descobertas do amor na adolescência.

CRUEL-Filme francês que aborda a vida de um serial killer que trabalha meio período e vive em uma casa velha com o pai doente. Todos desconhecem sua existência. Suas vítimas são pessoas comuns. Homens e mulheres que vivem, trabalham e sofrem lado a lado, porém nunca de fato juntos, e que formam uma multidão perdida na cidade grande.

NOTA 5

GRANDE PAI, PEQUENO PAI E OUTRAS HISTÓRIAS- Produção do Vietnã. Saigon, início dos anos 2000. Um estudante de fotografia se sente atraído por seu companheiro de quarto, um pequeno traficante. Juntamente com uma dançarina, e os três desenvolvem uma relação cada vez mais ambígua. O filme não deslancha e apesar de boas cenas, se arrasta.


JONAS- Filme brasileiro protagonizado por Jesuíta Barbosa, novo queridinho do cinema nacional, com participação do cantor Criolo. Jonas tem uma paixão de infância pela filha da patroa de sua mãe. Na véspera do Carnaval, ele a sequestre e esconda no interior da baleia, carro alegórico da escola de samba do bairro. Nesse cativeiro, vivem uma história de amor impossível e ele é obrigado a negociar o sequestro, ajudado pelo irmão de 13 anos.

PERVERT PARK- Documentário americano sobre a experiência da Flórida Justice Transitions centro habitacional para 120 condenados por crimes sexuais. Essas pessoas não podem viver próximas de lugares frequentados por crianças. A comunidade retratada no documentário, conhecida também como “Pervert Park” é um exemplo do modo como a sociedade lida com os criminosos sexuais. Achei a visão do filme um pouco parcial

A FLORESTA QUE SE MOVE- O filme é uma interpretação de Macbeth, mas não consegue trazer nada de novo. Filme com cara de produção da Globo, excessivamente limpo, com produção e cenários elegantíssimos e atores globais como Ana Paula Arósio, Gabriel Braga Nunes, Ângelo Antônio e Nelson Xavier. O canastrão Fernando Alves Pinto fazendo suas caretas insuportáveis de sempre.

COMO GANAR ENEMIGOS- Filme argentino que não é, assim uma Brastemp, como costumam ser os filmes argentinos mas é divertido. Poderia ser mais bem resolvido. Certa tarde, Lucas conhece a mulher ideal: linda e leitora. Infelizmente, ela é uma ladra, e ele, uma de suas vítimas. Lucas acredita que alguém de seu entorno foi cúmplice do roubo e não vai descansar antes de descobrir.

NOTA 4

PARA O OUTRO LADO- Filme arrastado e chatinho. Esperava mais porque já havia assistido ao filme anterior do diretor japonês Kiyoshi Kurosawa (Sonata de Tóquio) e por ter sido vencedor do prêmio de direção da mostra Um Certo Olhar de Cannes. Yusuke, marido de Mizuki, afogou-se há três anos e repentinamente volta para casa. Ela, então, aceita ser levada por Yusuke em uma jornada inusitada.

TÚMULOS E OSSOS- Filme de terror islandês. Fui ver pelo inusitado. Nunca havia visto um filme com essa temática da Islândia, mas me decepcionei. Roteiro fraco e não assusta nem criancinha. Na sessão da tarde tem coisa mais forte. A história de um casal que vai cuidar da sobrinha após o suicídio dos seus pais. Com a chegada do casal, coisas estranhas começam a acontecer na casa da menina. Chato.

VOLTANDO PARA CASA- Filme da Noruega sobre uma família disfuncional com uma mãe depressiva e um pai que acaba de voltar da Guerra do Afeganistão. O filho mais velho assume a responsabilidade pelo mais novo quando o pai desaparece durante uma caçada nas montanhas geladas e os irmãos são forçados a procurar seu pai ausente.

PRÍNCIPE- Filme holandês que mostra um adolescente tímido e franzino, crescendo no extremo do submundo do crime. Ele é completamente louco pela a menina mais bonita da vizinhança, mas ela namora o jovem mais perigoso da cidade. O rapaz luta para conquistar o coração de Laura, mas antes que ele possa ser um príncipe ele precisa aprender a ser um homem.

O APÓSTATA- Filme espanhol sobre um jovem que deseja ter seu nome retirado do registro de batismos da Igreja Católica. O filme se arrasta e não chega a lugar algum apesar do tema interessante. A Igreja espanhola é refratária à apostasia. 

O RIO SEM FIM- Filme que é uma coprodução da França e da África do Sul. Após quatro anos de prisão o marido de uma garçonete volta para casa, mas quando a família de um estrangeiro é assassinada brutalmente, a garçonete e o viúvo começam a gravitar em direção ao outro. Presos em um ciclo de violência e sangue, os dois tentam transcender a raiva, a dor e a solidão.

BIZARRE - Maurice é um jovem francês de 18 anos com um passado turbulento que acaba de chegar ao Brooklyn e não tem amigos nem lugar para ficar. Em um encontro casual, o jovem é levado por duas belas jovens e ganha um quarto, alimentação e emprego no Bizarre, um famoso cabaré do submundo nova-iorquino. Lá, ele começa a formar uma nova família. Cenas bonitas dos belos jovens e também imagens chocantes do submundo dos shows de bizarrices do bar. Poderia ser melhor mas claramente o diretor se encantou pelo protagonista e as imagens do belo jovem são tão reiterativas que estragam o filme.

NOTA 3


APENAS JIM- Um filme britânico que poderia ser melhor e que tem no elenco o ótimo Emile Hirsch, além do jovem protagonista-diretor e roteirista de 24 anos Craig Roberts. Jim não é um garoto popular. Seu único amigo o abandonou para se unir à turma dos alunos descolados e a garota por quem está apaixonado nem sabe seu nome. Tudo muda quando um americano misterioso com aparência de galã de cinema muda-se para a casa ao lado, mas Jim é forçado a se questionar se a sua recém-adquirida popularidade vale a pena.

A BRUXA- Um filme produzido por um brasileiro e que recebeu muitos elogios na imprensa, ao ponto de filas enormes se formarem, mas que foi uma decepção. Uma história que poderia ser mais assustadora. Na Nova Inglaterra, 1630, um agricultor ameaçado de excomunhão tem que se mudar com esposa e cinco filhos para um terreno remoto no limite de uma floresta onde se esconde um mal desconhecido. Mortes, bruxarias e mais do mesmo.


NOTA 2

BOAS COISAS NOS AGUARDAM- Documentário dinamarquês sobre o último fazendeiro idealista da Dinamarca. Seu trabalho não é popular entre as autoridades que ameaçam tirar sua licença.





HERA – Filme turco que mostra o desgaste de uma tripulação presa em um navio há meses sem pagamento. Ancorado em uma área isolada, o navio é evacuado, mas seis membros da equipe devem permanecer ali até que a dívida seja paga. Conforme o tempo passa e o estoque de comida diminui, a tensão entre os homens aumenta.

DAVID- Filme da República Tcheca. Aos 20 anos, David está cada vez mais ciente de como sua deficiência intelectual influencia o comportamento de seus pais. Por isso, decide deixar sua casa e fugir para Praga. Em sua jornada, enfrenta a solidão, situações inesperadas e, principalmente, seus próprios pensamentos.


NOTA 1

A ANOS LUZ- Filme inglês chato e arrastado mostra uma família ao longo de um dia, como uma mãe internada num hospital psiquiátrico, um pai ausente e três filhos dispersos com medo de terem a doença da mãe.

VOLTA À TERRA – Documentário português sobre uma pequena comunidade em extinção: os camponeses que praticam agricultura de subsistência.





NOTA 0

RALÉ- Filme com Ney Matogrosso no elenco e direção de Helena Ignes, viúva do cineasta Rogério Sganzella. Fiquei envergonhado, pois Ney Matogrosso estava no cinema atrás de mim e o filme é uma bomba colossal. O roteiro é totalmente vago, a montagem é ridícula, as atuações fraquíssimas e a história é uma bosta. Por falar em bosta há uma cena absurda do diretor José Celso Martinez todo cagado e Ney Matogrosso limpando-o. Não me lembro de ter assistido a nada tão ruim na vida.



MATE-ME POR FAVOR- Outro filme brasileiro péssimo que mostra a Barra da Tijuca passando por uma onda de assassinatos e uma curiosidade mórbida dos jovens habitantes. Ridículo é o termo exato para falar desse filme.




BEM-VINDO AO CLUBE- Filme alemão que me fez dormir metade do tempo e que mostra uma atriz maníaco-depressiva que se hospeda em um “hotel de suicídio” que oferece várias opções de suicídio e promete privacidade total.

12.8.12

À Beira do Caminho


Fui assistir ao terceiro filme do diretor Breno Silveira em pleno domingo do Dia dos Pais: uma crueldade, pois não me lembro de ter chorado tanto em um filme. Não vou esconder o jogo, chorei do começo ao fim.


O filme é descaradamente (no melhor sentido do termo) feito para levar às lágrimas e faz isso magistralmente, com competência e sensibilidade incontestáveis, sem jamais apelar para o melodrama.

A história é um road movie de redenção. A história do caminhoneiro João, um homem marcado por uma profunda dor, que carrega um fardo como uma âncora que o faz mergulhar numa espiral de autodestruição, fuga e alheamento. Este personagem denso e trágico tem na interpretação do sempre talentoso ator baiano João Miguel um tour de force, ou seja, uma ação difícil, executada com grande habilidade.

Poderia fazer um parágrafo inteirinho falando só dos excelentes trabalhos de João Miguel no cinema e no teatro, mas isso me tiraria do foco do filme. Então vamos combinar assim: João Miguel, como sempre, está brilhante desde a primeira cena em que aparece, com uma barba desgrenhada. Solidão é seu nome; desamparo, o sobrenome. Perdido, a bordo de uma boleia, vagando pelas estradas do interior do País na companhia unicamente dos seus fantasmas e das músicas de Roberto Carlos.

E então não há como não falar de Roberto Carlos, mesmo correndo o risco de desviar um pouco da narrativa sobre o filme porque, na verdade, a película foi construída sobre essas canções românticas e descaradamente (essa palavra de novo) sentimentais. E o filme e as canções formam, brilhantemente, um corpo só.

Breno Silveira, que já dirigiu Dois Filhos de Francisco, campeão incontestável de crítica e público, com mais de 5 milhões de expectadores, novamente usa o casal de atores do primeiro longa: Ângelo Antônio e Dira Paes. A atriz está soberba, carregando parte da dor do caminhoneiro João, sua personagem faz parte da luta pelo resgate da alma deste homem e ela faz isso com a mesma competência de sempre: um único olhar seu, de amargura e arrependimento, arranca tantas lágrimas quanto uma pedrada ou um soco no estômago.

Dira é Rosa, que se junta ao personagem do pequeno prodígio baiano Vinícius Nascimento, no papel de Duda, para amolecer o coração do quase destruído João.

Mas, por que o nome do menino só vai aparecer nesse texto depois de tantos parágrafos? Afinal, é ele quem tem as melhores falas, as cenas mais ternas. Vinícius foi visto no cinema pela primeira vez em Ó Paí, Ó, como um dos filhos da beata Joana.

Então aqui vai um parágrafo só para esse garoto que possui um talento mais do que natural, sem qualquer afetação, sem exageros tampouco receios, ele parece saber exatamente o que se espera dele. Milhões de atores profissionais não saberão nunca o que Vinícius tem de sobra: talento e carisma, uma combinação que encanta a plateia e seu rosto não precisa procurar a câmera, pois a câmera não quer perdê-lo de foco. Todas as suas cenas não são menos do que perfeitas e brilhantes. Não temo estar exagerando nos adjetivos, pelo contrário, temo não estar sendo suficientemente justo com ele.

Um filme sobre pais e filhos, perdas e reencontros, sobre amizade e família, amor, arrependimento e sobre segundas chances. Seguindo a tradição dos filmes de estrada, os road movies, À Beira do Caminho trás a memória de Paris Texas, de Wim Wenders, uma preciosa obra prima, além de um tanto de Central do Brasil, de Walter Salles, já que nos dois filmes são narradas histórias de adultos endurecidos em uma jornada pelo interior do país em companhia de crianças que buscam suas famílias. Curiosamente, os atores mirins dos dois filmes têm o mesmo nome: Vinicius Oliveira (o Josué de Central do Brasil) e Vinicius Nascimento (o Duda de à Beira do Caminho).

Impossível, para quem a ele assistiu, não lembrar um pouco do filme argentino Las Acácias, em que um motorista de caminhão faz um trajeto entre Assunção e Buenos Aires, um homem solitário e carrancudo que dá carona a uma mulher e um bebê. Outro road movie sobre redenção e busca pela família e identidade que ganhou o cobiçado prêmio Caméra D'Or em Cannes em 2011 e recebeu muitos elogios na Europa e América Latina.

Mas Las Acácias é praticamente todo construído de silêncios enquanto À Beira do Caminho mescla eloquentes silêncios com diálogos que são quase monólogos feitos aos arranques. O filme tem tantos outros méritos, mas sublinho a fotografia do incomparável Lula Carvalho que traz no currículo a direção de fotografia de filmes como Tropa de Elite 1 e 2,  Budapeste, Feliz Natal, A Festa da Menina Morta, entre muitos outros.

À Beira do Caminho levou merecidamente cinco prêmios no último Festival do Audiovisual em Pernambuco: melhor filme pelos júris oficial e popular, melhor roteiro, melhor ator (João Miguel) e ator coadjuvante (Vinícius Nascimento). Sua narrativa é praticamente toda linear, com alguns flash backs que ajudam a entender o drama do protagonista.

Chamo a atenção para cenas com frases de para-choques de caminhões. São inseridas em momentos chaves, como verdadeiros capítulos da história e que contribuem, sem dúvida, para a narrativa. A última tomada do filme é irretocável, surpeendentemente, um provérbio chinês pendurado na traseira de um caminhão.

Com ela encerro esse texto: “Espere o melhor. Prepare-se para o pior. Aceite o que vier”.