30.12.12

Pietá


Ontem tive uma experiência memorável ao assistir ao filme Pietá, do cultuado diretor coreano Kim-Ki-duk, realizador de filmes impressionantemente belos como  A Casa Vazia e Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera.

Pietá foi o vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza em 2012 e é considerado o melhor filme do diretor Kim-Ki-duk. Uma história muito forte contando a vida solitária de um homem de 30 anos que trabalha para um agiota cobrando dívidas. Ele é cruel e insensível e quando os pobres não podem pagar os juros extorsivos, ele não sente coisa alguma ao aleijar, mutilar, humilhar e matar aqueles que ousam não pagar as dívidas.

Mas eis que surge uma misteriosa mulher em sua vida que afirma ser a mãe que o abandonou na infância. Ele resiste à aproximação dessa mulher que demonstra uma profunda tristeza e arrependimento pelo abandono do filho fazendo de tudo para se reaproximar dele.

A chegada dessa mãe pacata e tristonha provoca uma reviravolta no mundo solitário e violento desse jovem selvagem. Através da persistência feminina, ela traz algo que o rapaz jamais tinha sentido na vida. Amor. Mas é aí que começa de fato o embate entre os sentimentos contraditórios do rapaz que se vê subitamente dependente de um afeto que nunca teve e percebe que não pode mais viver sem a mãe. Algo de que ele nunca sentiu falta consciente de repente mostra-se insubstituível. Em uma passagem ele diz que está com medo que ela suma de novo, pois não sabe mais se vai conseguir viver novamente sem ela.

Medo, amor, dependência, afeto. Tudo que ele nunca sentiu aparece na forma desta mãe misteriosa.

O filme tem muitas cenas de violência e até um estupro, mas todas elas são totalmente contextualizadas e nada é gratuito. É muito curioso como o diretor consegue fazer com que sintamos de repente uma simpatia por um personagem tão cruel e insensível. Duvido que alguém não sinta pena dele mesmo depois de termos o visto cometendo tantas atrocidades.

Em um momento especialmente idílico (o único do filme), em que vemos mãe e filho passando uma tarde feliz juntos, ela diz para um rapaz que faz chacota com o filho dela, sem saber que é um homem violentíssimo. “Você acha graça de ver a alegria de uma mãe e de um filho que pela primeira vez estão juntos em 30 anos?” Para, em seguida, desferir uma série de bofetadas no rosto do rapaz.

O personagem principal e oculto de todo o filme, que move todas as coisas, é, na verdade, o dinheiro. É ele quem leva todos os personagens a agirem como agem. Há uma crítica ao capitalismo selvagem e à ganância sem limites.

O título é homônimo ao da escultura de Michelangelo com uma mãe carregando nos braços seu filho adulto. O próprio cartaz da película retrata isso. O brilhantismo da história está numa reviravolta surpreendente que vemos a partir da metade do filme e que não conto para não estragar a surpresa.

Não sei se Pietá está disponível nas locadoras. Confesso que assisti a uma versão que baixei na internet com legendas em inglês, mas recomendo, pois é uma obra prima.

Tenha estômago e lembre-se da famosa frase de Confúcio: “Antes de embarcar em uma vingança, deixe duas covas abertas”. Ou, eu diria, ao menos prepare uma cova bem espaçosa.

28.12.12

Os Melhores e Piores Filmes de 2012



O ano de 2012 ainda não acabou, faltam apenas uns dias e talvez dê para acrescentar alguns filmes a esta lista dos melhores e piores filmes que vi este ano. 

Os 40 filmes que vi na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo estão numa lista à parte. Aqui estão apenas os filmes que vi em Salvador na salas comerciais e de arte. 

Listo em seguida os filmes que não vi para não parecer que esqueci deles.



Filmes 5 estrelas - OBRAS PRIMAS
Intocáveis
O Último Bailarino de Mao
Habemus Papam
Para Roma, com Amor

Filmes 4 estrelas - EXCELENTES
2 Coelhos
Precisamos Falar Sobre o Kevin 
Shame 
A Invenção de Hugo Cabret 
Um Método Perigoso 
O Palhaço Xingu 
Imortais
A Última Casa da Rua
Bullyng
Entre o Amor e a Paixão
Infância Clandestina
As Palavras
Diário de um Banana – Dias de Cão
O Impossível
Febre do Rato
O Garoto da Bicicleta
Um Conto Chinês
Tudo Pelo Poder (The Ides of March)

Filmes 3 estrelas - ÓTIMOS
O Exótico Hotel Marigold
Tomboy 
Os Descendentes
A Ferrugem e o Osso
À Beira do Caminho
A Dançarina e o Ladrão

Filmes 2 estrelas - BONS
007-Operação Skyfall
Argo
O Artista
A Separação 
Paraísos Artificiais
Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios
Missão Impossível-Protocolo Fantasma
À Beira do Abismo
Histórias Cruzadas

Filmes 1 estrela - REGULAR
O Espião que Sabia Demais
Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres (Versão americana)
Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres (2 e 3 na versão sueca)
As Aventuras de Pi
Pina 3D
A Negociação
O Homem da Máfia
Violeta Foi Para o Céu
Week End

Fimes 0 estrela - RUINS
Magic Mike
360
Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Aqui é o Meu Lugar
Na Estrada - On The Road
O Vingador do Futuro

Dinheiro jogado fora
Elefante Branco
Prometheus
O Que Esperar Quando Você está Esperando
A Sombra do Inimigo
A Mulher de Preto
Fúria de Titãs 2
Noite de Ano Novo
A Garota da Capa Vermelha
Roubo nas Alturas


40 filmes que assisti na Mostra de Cinema de São Paulo

Brutal
Felicidade
Mar da Esperança
A Última Ambulância de Sófia
Arcadia
Crianças de Sarajevo
Bergman & Magnani: A Guerra dos Vulcões
Os Selvagens
Dom - Uma Família Russa
Estudante
Pernamcubanos - O Caribe que nos Une
Perder a Razão
Meu Amigo Cláudia
Quando Vi Você
Renoir
Silêncio na Neve
Reality
Num Lugar Conhecido
Paul Bowles - A Porta da Jaula Está Sempre Aberta
Ditado
25/11-O Dia em que Mishima Escolheu seu Destino
Melhor Não Falar de Certas Coisas
Lawrence Allways
Satélite Boy
Sombra do Mar
A Coleção Invisível
Outrage: Beyond
Rua da Redenção
A Horda
Para Elise
Pedaços de Mim
A Caça
A Bela que Dorme
Um Ato de Caridade
Kill Me
Além das Montanhas
Um Alguém Apaixonado
Mystery
Hot Hot Hot
Nosferatu


12.12.12

COTAS RACIAIS: UM MONSTRENGO- PARTE 3


Eu aposto uma mariola e um picolé de limão com quem acreditar que, no futuro, algum governante vai ter coragem de propor o fim das cotas raciais, independente do que o Supremo registrou quando aprovou a constitucionalidade do monstrengo.

Lembro que o STF declarou que as cotas valeriam por um tempo limitado até que as condições responsáveis pela desigualdade entre negros e brancos fossem reparadas. Eu afirmo: nunca serão! Esta medida é como uma bolsa-família só para negros, pardos e índios com a vantagem de não ter fim. Na bolsa-família, se o beneficiário melhorar sua vida pode deixar de receber o benefício. No sistema de cotas, o negro passa a vantagem para os descendentes. Um cotista negro terá um filho que também será cotista, porque também será negro, e netos, bisnetos...Sempre haverá uma gota de sangue negro nas veias para reivindicar um naco da cota. Sempre haverá um tataravô que foi escravo de um sinhô branco...Se recuassem mais no tempo achariam um tetravô escravizado por outra tribo na própria África, mas não vamos chegar a tanto.

O professor e economista negro americano Walter Williams lembra: "Houve um tempo em que não existiam jogadores de basquete negros nos Estados Unidos. Hoje, sem cota racial nem ação afirmativa, 80% são negros. Por quê? Porque são excelentes jogadores. Se os negros tiverem a mesma habilidade em matemática ou ciência da computação, haverá uma invasão deles nessas áreas. Para isso, bastam boas escolas”.

E afirma: "Não existe igualdade racial absoluta, nem ela é desejável. Há diferenças entre negros e brancos, homens e mulheres, e isso não é um problema. O desejável é que todos sejamos iguais perante a lei. Somos iguais perante a lei, mas diferentes na vida. Nos Estados Unidos, os judeus são 3% da população, mas ganham 35% dos prêmios Nobel. Talvez sejam mais inteligentes, talvez sua cultura premie mais a educação, não interessa. A melhor forma de permitir que cada um de nós – negro ou branco, homem ou mulher, brasileiro ou japonês – atinja seu potencial é o livre mercado. O livre mercado é o grande inimigo da discriminação”

Merece destaque, segundo o Globo noticia que, em 46 de 61 cursos, o melhor colocado dos cotistas tirou nota suficiente para passar pelo sistema normal. E em seis cursos os cotistas tiraram absolutamente a melhor nota. Em outras palavras, as cotas não são necessárias para os bons alunos negros ou formados em escolas públicas.

Gabriel Pinto Nunes, filósofo paulista escreveu a tese: “Uma Breve Discussão Sobre os Sistemas de Cotas No Brasil: Fragilidades e Desafios”. Passo a citá-lo: "Há particularidades na nossa sociedade que a diferenciam de outros países em que houve escravidão. William Du Bois, defensor dos direitos dos negros norte-americanos, diz em sua obra The Negro como o tratamento racial no Brasil e nos Estados Unidos são distintos. Enquanto lá um negro sempre será tratado como inferior ao branco, aqui, dependendo da posição social, o tratamento que receberá será diferente, como se houvesse um branqueamento de sua pele."

Os racialistas que defendem cotas nas universidades públicas ignoram que os principais métodos de avaliação são o do mérito e o da isonomia. Se os jovens negros não têm condições de disputar uma vaga com outros candidatos, isso se deve à precariedade do ensino e não à cor da pele. Nenhum racialista que se empenha tanto em abrir as portas da universidade para o negro, se empenha com 1/10 do esforço  pela melhoria do ensino básico. Darcy Ribeiro alertava para a criação de uma ideologia assimilacionista e ilusória em que o negro se torna branco por adotar as mesmas condutas que o branco bem-sucedido.

Não há mal em desenvolver políticas afirmativas ou transformativas para um determinado grupo, desde que não prejudiquem aqueles que não fazem parte do grupo beneficiado.

As políticas públicas que defendem as cotas raciais se baseiam no fenômeno da hiperinclusão: todo cidadão, independentemente da sua situação, tem igualdade de condições para disputar qualquer cargo ou benefício público e em hipótese alguma pode ser discriminado devido à sua condição, gênero ou credo.

A hiperinclusão prejudica o desenvolvimento e melhoramento do ensino de base, já que os que seguem essa linha não se preocupam em avaliar as condições nas quais as pessoas foram preparadas para enfrentar um processo seletivo, fixam a atenção apenas no processo em si e não apresenta uma solução para os problemas de reconhecimento e redistribuição, não cria condições para que as próximas gerações de afrodescendentes possam ter igualdade nos concursos e vestibulares. Ela simplesmente ignora isso, como se tais problemas se sanassem por si só no futuro.

Ao redor do mundo, as políticas afirmativas revelam que nenhuma experiência conseguiu alcançar os resultados esperados, em especial à diminuição da desigualdade entre os grupos envolvidos. O que se viu foi o acirramento de questões e preconceitos que já existiam nessas sociedades.

Voltando ao renomado intelectual americano e negro, Thomas Sowell, e sua pesquisa sobre as ações afirmativas e cotas na Índia, Malásia, Sri Lanka, Nigéria, EUA e outros países. Ele constatou toda espécie de desonestidades: minorias que apareciam ou cresciam um pouco por toda parte, falsificações de raça etc. Mas o mais grave é que as políticas de preferências étnicas acarretaram ódio racial. Na Índia, devido a tal política, as violências quadruplicaram o número de mortos. Na Nigéria e no Sri Lanka, as preferências raciais originaram guerras civis. Nos EUA, os conflitos raciais só aumentaram. Sowell mostra que as cotas não são necessárias. Estudantes aplicados melhoraram sua situação educaram-se e encontraram bons postos de trabalho

O IBGE adota as classificações: preto (6,2% da população) e pardo (39%). Porém, como a miscigenação no Brasil atingiu todas as formas e graus, os pesquisadores catalogam pretos e pardos como negros. Copiaram o critério one drop (uma gota), adotado pelo governo americano. Basta ter uma gota de sangue preto para ser negro. Mas como classificar uma pessoa quando ela tem origem nipônica, alemã, indígena, italiana? Segundo este critério, se tem uma gota de sangue negro, será um negro, ainda que se pareça muito mais com um japonês.

Darcy Ribeiro dizia: “O Brasil é formado por um povo miscigenado, um mosaico de povos. Todos nós, brasileiros, somos carne de carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos”

COTAS RACIAIS: UM MONSTRENGO - PARTE 2


FANATISMO IDEOLÓGICO- A partir do julgamento da constitucionalidade das cotas raciais nas Universidades, o Supremo encarará o monstrengo que criou.

O tribunal decidiu que as cotas são constitucionais, mas não obrigava as universidades a aplicá-las já que a autonomia universitária garante o direito de escolha. Mas a Caixa de Pandora foi aberta e agora a “discriminação positiva”, segundo a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, será obrigatória não só para graduação, mas também para mestrado, doutorado e concursos públicos.

Ora, seguindo as premissas dos racialistas, consigo ver o seguinte cenário: um negro de classe média e que estudou em escola particular (eles existem) entra na Universidade pelo sistema de cotas e, após graduado, continua na vida acadêmica cursando o mestrado e o doutorado pelo mesmo regime. Em seguida, se submete a um concurso público também se beneficiando das cotas raciais.

A discriminação a que os negros estariam historicamente submetidos os impediriam, supostamente, de disputar com os brancos em condições de igualdade, mas um negro que conclui o ensino universitário, com ou sem cotas já teria ultrapassado tais limitações. Citando um articulista: “Se é absurdo que o desempenho intelectual não seja o único critério a definir quem ingressa ou não numa universidade, é um acinte que se estabeleçam cotas para qualquer categoria naquela que é uma esfera da investigação científica. Quase sempre o que se candidata a doutor já é mestre, já foi longe da vida acadêmica. Haver qualquer outro critério para o doutorado que não seja a qualidade da especulação científica do doutorando é um absoluto despropósito”

Nos concursos, negros teriam pontos a mais, independentemente de sua história. Negro rico levaria vantagem sobre branco pobre, como ocorre nas universidades. E os racialistas do governo querem estender isso aos cargos comissionados, obrigando quem tem poder de nomeação a obedecer a critérios de cor de pele.

COTAS RACIAIS PARA JUÍZES - Quando escrevi que o STF criou um monstrengo e abriu a Caixa de Pandora, houve que visse a afirmação como exagero. Veja só se não foi o ovo da serpente: “CNJ julga cota racial para juízes - O CNJ vai julgar a proposta de criação de cotas para negros e índios nos concursos destinados à seleção de juízes e servidores dos tribunais. A sugestão foi apresentada pela advogada indígena Juliene Vieira Cunha, para quem o CNJ "não pode continuar a fazer vista grossa para o problema racial no Judiciário".

O conselheiro frisou que o órgão poderá estabelecer um grupo de trabalho para debater o tema e "subsidiar uma possível proposição". "Não temos ideia sobre quantos índios são formados em Direito. Há 18 mil cargos de juízes. Se a cota for de 0,1% de vagas e se só houver 100 índios formados em Direito, todos serão juízes". O ministro Marco Aurélio não enxerga possibilidade de mudança no concurso para juiz. "Não se trata de acesso à educação. O concurso da magistratura homenageia o mérito."

Perguntaria ao ministro Marco Aurélio: Ele e todos os seus colegas não votaram pelo acesso à universidade pelo critério racial independentemente do mérito? Só para a magistratura vale o mérito? Abriu a porteira, excelência.

O jornalista João Pereira Coutinho escreve na Folha de São Paulo: “Martin Luther King afirmou que os homens devem ser julgados pelo seu caráter, não pela cor da sua pele. O problema é que uma parte da esquerda quer julgar a cor da pele, não o caráter de um homem. Para essas patrulhas, o objetivo já não está em abolir situações de discriminação racial no acesso a profissões ou universidades. O objetivo agora é voltar a discriminar racialmente de forma a garantir igualdade de resultados, e não apenas de oportunidades. Esse conceito de igualdade é um travesti do original. As cotas raciais, toleradas em universidades americanas e brasileiras são um bom exemplo. Desde logo porque elas começam por imitar o pior do pensamento racista: a diluição da identidade na pigmentação da pele de um grupo”

O sociólogo americano, e negro, Thomas Sowell acompanhou por 30 anos as consequências das "políticas afirmativas" nos Estados Unidos, Índia, Nigéria e Sri Lanka. Sua obra intitula-se: “Políticas Afirmativas pelo Mundo” e ele prova que as vantagens dessas políticas são inferiores aos prejuízos que causam.

Primeiro porque alimentam nos beneficiários a humilhante ideia de que eles voam com asas falsas e o que começa pela valorização da auto-estima torna-se um dano para essa auto-estima.

A sensação de fraude pessoal não se limita ao beneficiário, mas estende-se à sociedade, gerando a hostilidade e o ressentimento que se procurava combater e um instrumento de integração se transforma num mecanismo de exclusão.

Se a cor da pele é critério relevante de admissão universitária, todos os grupos sociais, sejam ou não beneficiados por "políticas afirmativas", perdem o estímulo para realizar o seu máximo potencial.  Para Thomas Sowell, os defensores das "políticas afirmativas" acreditam que estão apenas corrigindo injustiças históricas, mas estão cometendo novas injustiças e empobrecendo a sociedade como um todo, privando-a dos melhores médicos, dos melhores engenheiros, dos melhores professores -independentemente da cor da pele.

Sowell termina seu raciocínio com a afirmação sombria: “As universidades deixaram de ser lugares de excelência para virar laboratórios de fanatismo ideológico”.

ATESTADO DE FALÊNCIA – O Estado assume publicamente sua incapacidade de prover uma educação básica eficiente quando institui cotas para universidades. Assina um documento em que afirma ser incompetente para educar crianças e jovens e prepará-las para uma universidade exigente como devem ser as boas universidades.

Cotas raciais aliviam, para o governo, a pressão de um grupo historicamente sacrificado e criam uma ilusão perigosa, pois não resolvem o problema do ensino público deficiente (ao contrário, indiretamente agrava-o), e dão a impressão de que, independente dessa deficiência, o acesso a uma universidade, também precária, estaria garantido. O ensino tanto nas universidades quanto na escola fundamental é medíocre. E não é só por baixo salários que os professores estão em greve. É também por melhores condições de ensino.

Somos um país com 50% das crianças da 5ª série semianalfabetas. Dos 3,5 milhões de alunos que ingressam no ensino médio, apenas 1,8 milhão se formam e destes só 10% atingem o nível esperado de aprendizado. Nosso país tem um dos cinco piores ensinos entre as 56 nações avaliadas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Este é um dos fatores para a péssima qualidade da mão de obra nacional. Países como a Coréia desde os anos 70 revolucionaram a educação pública fazendo dela prioridade. Isso se refletiu em um salto do PIB que antes era inferior ao brasileiro e hoje equivale ao de países de primeiro mundo. A China seguiu o mesmo caminho e o resultado está aparecendo.

Seria mais honesto o governo publicar um documento atestando sua incapacidade de fornecer uma educação decente, apesar de sermos campeões mundiais de pagamento de impostos e de desvio de dinheiro desses mesmos impostos pelo ralo da corrupção. 

As cotas não resolvem nenhum desses problemas.

COTAS RACIAIS: UM MONSTRENGO


VERGONHA ALHEIA - Há dias, debatia com colegas sobre as cotas raciais referendas por unanimidade pelo Supremo. O debate teve início antes de uma palestra do professor Samuel Vida sobre o tema. Continuou depois da palestra.
            
Deixo claro que sou contra cotas raciais e não é porque o STF foi a favor, por unanimidade, que isto muda minha opinião, até reforça, pois, como dizia Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. Dois colegas, vou chamá-los de: A.R. e C.M., favoráveis às cotas raciais, me fizeram sentir aquilo que se chama vergonha alheia, aquilo que você sente quando uma pessoa devendo, não se envergonha por algo que diz e você se envergonha no lugar dela.

A.R. e C.M sacaram argumentos em que se colocavam como personagens reais de uma história em que vinham de classes sociais baixas e ascenderam porque leram mais livros e estudaram mais, enquanto seus colegas de subúrbio são hoje cobradores de ônibus ou porteiros de prédios. Esse argumento, supostamente, era para defender as cotas raciais. Meus colegas, acreditando estar escrevendo uma tese irrefutável, não percebiam que davam exemplo claro de que não foi por falta de cotas que seus colegas de infância deixaram de subir na vida, mas por mérito pessoal, já que ninguém impediu os tais colegas de subúrbio de lerem os mesmos 15 livros por ano que eles liam ou se dedicarem aos estudos como eles.

Daí minha vergonha alheia, de colegas argumentarem com palavras que dinamitam seus próprios argumentos. Só precisa puxar uma carta para ruir o frágil castelo que construíram com argumentos mal amarrados.

Vergonha alheia também ao ouvir o professor Samuel Vida argumentar em palestra que há uma falácia do mérito do acesso às universidades. Para Vida, o vestibular é feito para medir capacidade de decorar. E citou a prova de Inglês como um dos exemplos de que o vestibular mantém a discriminação aos negros uma vez que, pasmem porque são palavras do professor: “Se, em vez de Inglês, a prova fosse de Iorubá, qualquer menino negro do Curuzu tiraria nota melhor do que um branco”! Diga se não é para sentir vergonha alheia?   

E meu colega A.R. saca essa pérola para municiar seus argumentos, e o outro, C.M. que nem a palestra assistiu afirma que eu inventei a frase. Se eu tivesse inventado seria, em sua opinião, uma mentira, mas ao ser informado de que foram palavras do professor Samuel Vida, o colega C.M. saiu assobiando e olhando para o chão tentando disfarçar que estava nas cordas.

Discordo do argumento de que o vestibular seja construído propositalmente para manter uma estrutura social racialmente discriminatória. Duvido de que qualquer pretinho do Curuzu saiba interpretar um texto em Iorubá. E se soubesse, gostaria de saber onde ele vai aplicar os valiosos conhecimentos de Iorubá na vida real. Quanto ao Inglês, para que aprender essa língua de colonizadores imperialistas, não é mesmo? Para que o Inglês vai servir na universidade em que o negro do Curuzu vai entrar pelas cotas? E não querem que, ouvindo coisas como essas, eu sinta vergonha alheia?

RACISMO DOS NEGROS - Para muitos militantes dos movimentos negros, há um racismo indisfarçável contra os brancos. Tenho um amigo negro que é compositor do Ilê Ayê que não tem nenhum cd de cantor branco na sua casa. Eu perguntei-lhe o porquê e ele me respondeu que não queria valorizar os cantores brancos. Eu disse-lhe que tinha inúmeros cds de cantores negros pois na minha opinião a música não tem cor.

Salta aos olhos quando o professor Samuel Vida, propositalmente omite a contribuição de personagens históricos brancos como Afonso Arinos, Joaquim Nabuco, Castro Alves e tantos outros pela causa abolicionista no Brasil. Para ele, como para a maioria dos militantes raciais, só teriam valor se fossem negros.

Outro exemplo recentíssimo aconteceu com o professor e ativista do movimento negro, Fernando Conceição, que também conheço pessoalmente, e que acaba de lançar um livro recheado de críticas ao fotógrafo Pierre Verger e o poeta Waly Salomão. O autor alega que sua obra está sendo censurada pelo governo que não lhe pagou os R$ 30 mil que faria jus ao vencer edital da Secretaria de Cultura. Segundo o governo, há uma análise técnica da secretaria que condicionou a liberação da verba a um parecer jurídico da Procuradoria-Geral do Estado, pois alguns trechos da obra poderiam ser ofensivos à honra de personalidades públicas reais.

Veja os textos e julgue se são ou não ofensivos:  “um francês como Verger nunca deu um centavo às pessoas do povo fotografadas por ele e usurpou e escancarou para o mundo, por vezes sem autorização dos sacerdotes e sacerdotisas, as imagens dos rituais sagrados, mantidos até então em segredo, dos terreiros nagôs baianos”. Noutro trecho, Verger e Waly são definidos como "bichas burguesas que recrutavam suas presas entre adolescentes cor de bronze nas periferias".

O professor Conceição diz que não é ele quem pensa o que ali escreve, mas um personagem de ficção. Quem conhece Fernando Conceição, e eu fui vítima dele na Faculdade de Jornalismo, sabe da sua homofobia e do seu racismo contra os brancos e sabe que é exatamente assim que ele pensa. Talvez por covardia, tenha preferido por suas próprias palavras na boca de um personagem para escapar da acusação de ofensa à honra de Verger e Waly. Mas, pelo menos, garantiu mais uns minutinhos sob os holofotes e alguns centímetros nas páginas dos jornais. Daqui a pouco vai sacar o velhusco argumento de que está sendo vítima de racismo.


Um detalhe: pouquíssimas pessoas, negras ou brancas, fizeram tanto pela valorização da cultura negra na Bahia e no mundo como Pierre Verger. Atacá-lo, é mais do que oportunismo, é uma vergonha.

COTAS NO SERVIÇO PÚBLICO - O que há em comum com as histórias que aqui relato é o fato de que sempre houve racismo no Brasil. O que temos de novo no horizonte é um debate acalorado sobre uma lei que oficializa a discriminação.

Após as cotas raciais nas Universidades, vem aí novas cotas. Segundo a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, o governo está preparando um programa de ação afirmativa com cotas para negros também no mercado de trabalho. A ideia é ampliar o sistema de cotas para todas as universidades públicas federais, inclusive cursos de mestrado e doutorado, ações relativas aos concursos públicos, cargos comissionados e empresas que prestam serviços ao setor público.

O Supremo verá o monstro que criou. A discriminação positiva passaria a ser obrigatória. Cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado) teriam de adotá-las assim como haveria cotas raciais para concursos públicos.

Quando cantei essa pedra no debate com os colegas A.R e C.M. eles disseram que eu estava fazendo gracejo. Eis aí o gracejo!