30.12.12

Pietá


Ontem tive uma experiência memorável ao assistir ao filme Pietá, do cultuado diretor coreano Kim-Ki-duk, realizador de filmes impressionantemente belos como  A Casa Vazia e Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera.

Pietá foi o vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza em 2012 e é considerado o melhor filme do diretor Kim-Ki-duk. Uma história muito forte contando a vida solitária de um homem de 30 anos que trabalha para um agiota cobrando dívidas. Ele é cruel e insensível e quando os pobres não podem pagar os juros extorsivos, ele não sente coisa alguma ao aleijar, mutilar, humilhar e matar aqueles que ousam não pagar as dívidas.

Mas eis que surge uma misteriosa mulher em sua vida que afirma ser a mãe que o abandonou na infância. Ele resiste à aproximação dessa mulher que demonstra uma profunda tristeza e arrependimento pelo abandono do filho fazendo de tudo para se reaproximar dele.

A chegada dessa mãe pacata e tristonha provoca uma reviravolta no mundo solitário e violento desse jovem selvagem. Através da persistência feminina, ela traz algo que o rapaz jamais tinha sentido na vida. Amor. Mas é aí que começa de fato o embate entre os sentimentos contraditórios do rapaz que se vê subitamente dependente de um afeto que nunca teve e percebe que não pode mais viver sem a mãe. Algo de que ele nunca sentiu falta consciente de repente mostra-se insubstituível. Em uma passagem ele diz que está com medo que ela suma de novo, pois não sabe mais se vai conseguir viver novamente sem ela.

Medo, amor, dependência, afeto. Tudo que ele nunca sentiu aparece na forma desta mãe misteriosa.

O filme tem muitas cenas de violência e até um estupro, mas todas elas são totalmente contextualizadas e nada é gratuito. É muito curioso como o diretor consegue fazer com que sintamos de repente uma simpatia por um personagem tão cruel e insensível. Duvido que alguém não sinta pena dele mesmo depois de termos o visto cometendo tantas atrocidades.

Em um momento especialmente idílico (o único do filme), em que vemos mãe e filho passando uma tarde feliz juntos, ela diz para um rapaz que faz chacota com o filho dela, sem saber que é um homem violentíssimo. “Você acha graça de ver a alegria de uma mãe e de um filho que pela primeira vez estão juntos em 30 anos?” Para, em seguida, desferir uma série de bofetadas no rosto do rapaz.

O personagem principal e oculto de todo o filme, que move todas as coisas, é, na verdade, o dinheiro. É ele quem leva todos os personagens a agirem como agem. Há uma crítica ao capitalismo selvagem e à ganância sem limites.

O título é homônimo ao da escultura de Michelangelo com uma mãe carregando nos braços seu filho adulto. O próprio cartaz da película retrata isso. O brilhantismo da história está numa reviravolta surpreendente que vemos a partir da metade do filme e que não conto para não estragar a surpresa.

Não sei se Pietá está disponível nas locadoras. Confesso que assisti a uma versão que baixei na internet com legendas em inglês, mas recomendo, pois é uma obra prima.

Tenha estômago e lembre-se da famosa frase de Confúcio: “Antes de embarcar em uma vingança, deixe duas covas abertas”. Ou, eu diria, ao menos prepare uma cova bem espaçosa.

28.12.12

Os Melhores e Piores Filmes de 2012



O ano de 2012 ainda não acabou, faltam apenas uns dias e talvez dê para acrescentar alguns filmes a esta lista dos melhores e piores filmes que vi este ano. 

Os 40 filmes que vi na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo estão numa lista à parte. Aqui estão apenas os filmes que vi em Salvador na salas comerciais e de arte. 

Listo em seguida os filmes que não vi para não parecer que esqueci deles.



Filmes 5 estrelas - OBRAS PRIMAS
Intocáveis
O Último Bailarino de Mao
Habemus Papam
Para Roma, com Amor

Filmes 4 estrelas - EXCELENTES
2 Coelhos
Precisamos Falar Sobre o Kevin 
Shame 
A Invenção de Hugo Cabret 
Um Método Perigoso 
O Palhaço Xingu 
Imortais
A Última Casa da Rua
Bullyng
Entre o Amor e a Paixão
Infância Clandestina
As Palavras
Diário de um Banana – Dias de Cão
O Impossível
Febre do Rato
O Garoto da Bicicleta
Um Conto Chinês
Tudo Pelo Poder (The Ides of March)

Filmes 3 estrelas - ÓTIMOS
O Exótico Hotel Marigold
Tomboy 
Os Descendentes
A Ferrugem e o Osso
À Beira do Caminho
A Dançarina e o Ladrão

Filmes 2 estrelas - BONS
007-Operação Skyfall
Argo
O Artista
A Separação 
Paraísos Artificiais
Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios
Missão Impossível-Protocolo Fantasma
À Beira do Abismo
Histórias Cruzadas

Filmes 1 estrela - REGULAR
O Espião que Sabia Demais
Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres (Versão americana)
Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres (2 e 3 na versão sueca)
As Aventuras de Pi
Pina 3D
A Negociação
O Homem da Máfia
Violeta Foi Para o Céu
Week End

Fimes 0 estrela - RUINS
Magic Mike
360
Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Aqui é o Meu Lugar
Na Estrada - On The Road
O Vingador do Futuro

Dinheiro jogado fora
Elefante Branco
Prometheus
O Que Esperar Quando Você está Esperando
A Sombra do Inimigo
A Mulher de Preto
Fúria de Titãs 2
Noite de Ano Novo
A Garota da Capa Vermelha
Roubo nas Alturas


40 filmes que assisti na Mostra de Cinema de São Paulo

Brutal
Felicidade
Mar da Esperança
A Última Ambulância de Sófia
Arcadia
Crianças de Sarajevo
Bergman & Magnani: A Guerra dos Vulcões
Os Selvagens
Dom - Uma Família Russa
Estudante
Pernamcubanos - O Caribe que nos Une
Perder a Razão
Meu Amigo Cláudia
Quando Vi Você
Renoir
Silêncio na Neve
Reality
Num Lugar Conhecido
Paul Bowles - A Porta da Jaula Está Sempre Aberta
Ditado
25/11-O Dia em que Mishima Escolheu seu Destino
Melhor Não Falar de Certas Coisas
Lawrence Allways
Satélite Boy
Sombra do Mar
A Coleção Invisível
Outrage: Beyond
Rua da Redenção
A Horda
Para Elise
Pedaços de Mim
A Caça
A Bela que Dorme
Um Ato de Caridade
Kill Me
Além das Montanhas
Um Alguém Apaixonado
Mystery
Hot Hot Hot
Nosferatu


12.12.12

COTAS RACIAIS: UM MONSTRENGO- PARTE 3


Eu aposto uma mariola e um picolé de limão com quem acreditar que, no futuro, algum governante vai ter coragem de propor o fim das cotas raciais, independente do que o Supremo registrou quando aprovou a constitucionalidade do monstrengo.

Lembro que o STF declarou que as cotas valeriam por um tempo limitado até que as condições responsáveis pela desigualdade entre negros e brancos fossem reparadas. Eu afirmo: nunca serão! Esta medida é como uma bolsa-família só para negros, pardos e índios com a vantagem de não ter fim. Na bolsa-família, se o beneficiário melhorar sua vida pode deixar de receber o benefício. No sistema de cotas, o negro passa a vantagem para os descendentes. Um cotista negro terá um filho que também será cotista, porque também será negro, e netos, bisnetos...Sempre haverá uma gota de sangue negro nas veias para reivindicar um naco da cota. Sempre haverá um tataravô que foi escravo de um sinhô branco...Se recuassem mais no tempo achariam um tetravô escravizado por outra tribo na própria África, mas não vamos chegar a tanto.

O professor e economista negro americano Walter Williams lembra: "Houve um tempo em que não existiam jogadores de basquete negros nos Estados Unidos. Hoje, sem cota racial nem ação afirmativa, 80% são negros. Por quê? Porque são excelentes jogadores. Se os negros tiverem a mesma habilidade em matemática ou ciência da computação, haverá uma invasão deles nessas áreas. Para isso, bastam boas escolas”.

E afirma: "Não existe igualdade racial absoluta, nem ela é desejável. Há diferenças entre negros e brancos, homens e mulheres, e isso não é um problema. O desejável é que todos sejamos iguais perante a lei. Somos iguais perante a lei, mas diferentes na vida. Nos Estados Unidos, os judeus são 3% da população, mas ganham 35% dos prêmios Nobel. Talvez sejam mais inteligentes, talvez sua cultura premie mais a educação, não interessa. A melhor forma de permitir que cada um de nós – negro ou branco, homem ou mulher, brasileiro ou japonês – atinja seu potencial é o livre mercado. O livre mercado é o grande inimigo da discriminação”

Merece destaque, segundo o Globo noticia que, em 46 de 61 cursos, o melhor colocado dos cotistas tirou nota suficiente para passar pelo sistema normal. E em seis cursos os cotistas tiraram absolutamente a melhor nota. Em outras palavras, as cotas não são necessárias para os bons alunos negros ou formados em escolas públicas.

Gabriel Pinto Nunes, filósofo paulista escreveu a tese: “Uma Breve Discussão Sobre os Sistemas de Cotas No Brasil: Fragilidades e Desafios”. Passo a citá-lo: "Há particularidades na nossa sociedade que a diferenciam de outros países em que houve escravidão. William Du Bois, defensor dos direitos dos negros norte-americanos, diz em sua obra The Negro como o tratamento racial no Brasil e nos Estados Unidos são distintos. Enquanto lá um negro sempre será tratado como inferior ao branco, aqui, dependendo da posição social, o tratamento que receberá será diferente, como se houvesse um branqueamento de sua pele."

Os racialistas que defendem cotas nas universidades públicas ignoram que os principais métodos de avaliação são o do mérito e o da isonomia. Se os jovens negros não têm condições de disputar uma vaga com outros candidatos, isso se deve à precariedade do ensino e não à cor da pele. Nenhum racialista que se empenha tanto em abrir as portas da universidade para o negro, se empenha com 1/10 do esforço  pela melhoria do ensino básico. Darcy Ribeiro alertava para a criação de uma ideologia assimilacionista e ilusória em que o negro se torna branco por adotar as mesmas condutas que o branco bem-sucedido.

Não há mal em desenvolver políticas afirmativas ou transformativas para um determinado grupo, desde que não prejudiquem aqueles que não fazem parte do grupo beneficiado.

As políticas públicas que defendem as cotas raciais se baseiam no fenômeno da hiperinclusão: todo cidadão, independentemente da sua situação, tem igualdade de condições para disputar qualquer cargo ou benefício público e em hipótese alguma pode ser discriminado devido à sua condição, gênero ou credo.

A hiperinclusão prejudica o desenvolvimento e melhoramento do ensino de base, já que os que seguem essa linha não se preocupam em avaliar as condições nas quais as pessoas foram preparadas para enfrentar um processo seletivo, fixam a atenção apenas no processo em si e não apresenta uma solução para os problemas de reconhecimento e redistribuição, não cria condições para que as próximas gerações de afrodescendentes possam ter igualdade nos concursos e vestibulares. Ela simplesmente ignora isso, como se tais problemas se sanassem por si só no futuro.

Ao redor do mundo, as políticas afirmativas revelam que nenhuma experiência conseguiu alcançar os resultados esperados, em especial à diminuição da desigualdade entre os grupos envolvidos. O que se viu foi o acirramento de questões e preconceitos que já existiam nessas sociedades.

Voltando ao renomado intelectual americano e negro, Thomas Sowell, e sua pesquisa sobre as ações afirmativas e cotas na Índia, Malásia, Sri Lanka, Nigéria, EUA e outros países. Ele constatou toda espécie de desonestidades: minorias que apareciam ou cresciam um pouco por toda parte, falsificações de raça etc. Mas o mais grave é que as políticas de preferências étnicas acarretaram ódio racial. Na Índia, devido a tal política, as violências quadruplicaram o número de mortos. Na Nigéria e no Sri Lanka, as preferências raciais originaram guerras civis. Nos EUA, os conflitos raciais só aumentaram. Sowell mostra que as cotas não são necessárias. Estudantes aplicados melhoraram sua situação educaram-se e encontraram bons postos de trabalho

O IBGE adota as classificações: preto (6,2% da população) e pardo (39%). Porém, como a miscigenação no Brasil atingiu todas as formas e graus, os pesquisadores catalogam pretos e pardos como negros. Copiaram o critério one drop (uma gota), adotado pelo governo americano. Basta ter uma gota de sangue preto para ser negro. Mas como classificar uma pessoa quando ela tem origem nipônica, alemã, indígena, italiana? Segundo este critério, se tem uma gota de sangue negro, será um negro, ainda que se pareça muito mais com um japonês.

Darcy Ribeiro dizia: “O Brasil é formado por um povo miscigenado, um mosaico de povos. Todos nós, brasileiros, somos carne de carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos”

COTAS RACIAIS: UM MONSTRENGO - PARTE 2


FANATISMO IDEOLÓGICO- A partir do julgamento da constitucionalidade das cotas raciais nas Universidades, o Supremo encarará o monstrengo que criou.

O tribunal decidiu que as cotas são constitucionais, mas não obrigava as universidades a aplicá-las já que a autonomia universitária garante o direito de escolha. Mas a Caixa de Pandora foi aberta e agora a “discriminação positiva”, segundo a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, será obrigatória não só para graduação, mas também para mestrado, doutorado e concursos públicos.

Ora, seguindo as premissas dos racialistas, consigo ver o seguinte cenário: um negro de classe média e que estudou em escola particular (eles existem) entra na Universidade pelo sistema de cotas e, após graduado, continua na vida acadêmica cursando o mestrado e o doutorado pelo mesmo regime. Em seguida, se submete a um concurso público também se beneficiando das cotas raciais.

A discriminação a que os negros estariam historicamente submetidos os impediriam, supostamente, de disputar com os brancos em condições de igualdade, mas um negro que conclui o ensino universitário, com ou sem cotas já teria ultrapassado tais limitações. Citando um articulista: “Se é absurdo que o desempenho intelectual não seja o único critério a definir quem ingressa ou não numa universidade, é um acinte que se estabeleçam cotas para qualquer categoria naquela que é uma esfera da investigação científica. Quase sempre o que se candidata a doutor já é mestre, já foi longe da vida acadêmica. Haver qualquer outro critério para o doutorado que não seja a qualidade da especulação científica do doutorando é um absoluto despropósito”

Nos concursos, negros teriam pontos a mais, independentemente de sua história. Negro rico levaria vantagem sobre branco pobre, como ocorre nas universidades. E os racialistas do governo querem estender isso aos cargos comissionados, obrigando quem tem poder de nomeação a obedecer a critérios de cor de pele.

COTAS RACIAIS PARA JUÍZES - Quando escrevi que o STF criou um monstrengo e abriu a Caixa de Pandora, houve que visse a afirmação como exagero. Veja só se não foi o ovo da serpente: “CNJ julga cota racial para juízes - O CNJ vai julgar a proposta de criação de cotas para negros e índios nos concursos destinados à seleção de juízes e servidores dos tribunais. A sugestão foi apresentada pela advogada indígena Juliene Vieira Cunha, para quem o CNJ "não pode continuar a fazer vista grossa para o problema racial no Judiciário".

O conselheiro frisou que o órgão poderá estabelecer um grupo de trabalho para debater o tema e "subsidiar uma possível proposição". "Não temos ideia sobre quantos índios são formados em Direito. Há 18 mil cargos de juízes. Se a cota for de 0,1% de vagas e se só houver 100 índios formados em Direito, todos serão juízes". O ministro Marco Aurélio não enxerga possibilidade de mudança no concurso para juiz. "Não se trata de acesso à educação. O concurso da magistratura homenageia o mérito."

Perguntaria ao ministro Marco Aurélio: Ele e todos os seus colegas não votaram pelo acesso à universidade pelo critério racial independentemente do mérito? Só para a magistratura vale o mérito? Abriu a porteira, excelência.

O jornalista João Pereira Coutinho escreve na Folha de São Paulo: “Martin Luther King afirmou que os homens devem ser julgados pelo seu caráter, não pela cor da sua pele. O problema é que uma parte da esquerda quer julgar a cor da pele, não o caráter de um homem. Para essas patrulhas, o objetivo já não está em abolir situações de discriminação racial no acesso a profissões ou universidades. O objetivo agora é voltar a discriminar racialmente de forma a garantir igualdade de resultados, e não apenas de oportunidades. Esse conceito de igualdade é um travesti do original. As cotas raciais, toleradas em universidades americanas e brasileiras são um bom exemplo. Desde logo porque elas começam por imitar o pior do pensamento racista: a diluição da identidade na pigmentação da pele de um grupo”

O sociólogo americano, e negro, Thomas Sowell acompanhou por 30 anos as consequências das "políticas afirmativas" nos Estados Unidos, Índia, Nigéria e Sri Lanka. Sua obra intitula-se: “Políticas Afirmativas pelo Mundo” e ele prova que as vantagens dessas políticas são inferiores aos prejuízos que causam.

Primeiro porque alimentam nos beneficiários a humilhante ideia de que eles voam com asas falsas e o que começa pela valorização da auto-estima torna-se um dano para essa auto-estima.

A sensação de fraude pessoal não se limita ao beneficiário, mas estende-se à sociedade, gerando a hostilidade e o ressentimento que se procurava combater e um instrumento de integração se transforma num mecanismo de exclusão.

Se a cor da pele é critério relevante de admissão universitária, todos os grupos sociais, sejam ou não beneficiados por "políticas afirmativas", perdem o estímulo para realizar o seu máximo potencial.  Para Thomas Sowell, os defensores das "políticas afirmativas" acreditam que estão apenas corrigindo injustiças históricas, mas estão cometendo novas injustiças e empobrecendo a sociedade como um todo, privando-a dos melhores médicos, dos melhores engenheiros, dos melhores professores -independentemente da cor da pele.

Sowell termina seu raciocínio com a afirmação sombria: “As universidades deixaram de ser lugares de excelência para virar laboratórios de fanatismo ideológico”.

ATESTADO DE FALÊNCIA – O Estado assume publicamente sua incapacidade de prover uma educação básica eficiente quando institui cotas para universidades. Assina um documento em que afirma ser incompetente para educar crianças e jovens e prepará-las para uma universidade exigente como devem ser as boas universidades.

Cotas raciais aliviam, para o governo, a pressão de um grupo historicamente sacrificado e criam uma ilusão perigosa, pois não resolvem o problema do ensino público deficiente (ao contrário, indiretamente agrava-o), e dão a impressão de que, independente dessa deficiência, o acesso a uma universidade, também precária, estaria garantido. O ensino tanto nas universidades quanto na escola fundamental é medíocre. E não é só por baixo salários que os professores estão em greve. É também por melhores condições de ensino.

Somos um país com 50% das crianças da 5ª série semianalfabetas. Dos 3,5 milhões de alunos que ingressam no ensino médio, apenas 1,8 milhão se formam e destes só 10% atingem o nível esperado de aprendizado. Nosso país tem um dos cinco piores ensinos entre as 56 nações avaliadas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Este é um dos fatores para a péssima qualidade da mão de obra nacional. Países como a Coréia desde os anos 70 revolucionaram a educação pública fazendo dela prioridade. Isso se refletiu em um salto do PIB que antes era inferior ao brasileiro e hoje equivale ao de países de primeiro mundo. A China seguiu o mesmo caminho e o resultado está aparecendo.

Seria mais honesto o governo publicar um documento atestando sua incapacidade de fornecer uma educação decente, apesar de sermos campeões mundiais de pagamento de impostos e de desvio de dinheiro desses mesmos impostos pelo ralo da corrupção. 

As cotas não resolvem nenhum desses problemas.

COTAS RACIAIS: UM MONSTRENGO


VERGONHA ALHEIA - Há dias, debatia com colegas sobre as cotas raciais referendas por unanimidade pelo Supremo. O debate teve início antes de uma palestra do professor Samuel Vida sobre o tema. Continuou depois da palestra.
            
Deixo claro que sou contra cotas raciais e não é porque o STF foi a favor, por unanimidade, que isto muda minha opinião, até reforça, pois, como dizia Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. Dois colegas, vou chamá-los de: A.R. e C.M., favoráveis às cotas raciais, me fizeram sentir aquilo que se chama vergonha alheia, aquilo que você sente quando uma pessoa devendo, não se envergonha por algo que diz e você se envergonha no lugar dela.

A.R. e C.M sacaram argumentos em que se colocavam como personagens reais de uma história em que vinham de classes sociais baixas e ascenderam porque leram mais livros e estudaram mais, enquanto seus colegas de subúrbio são hoje cobradores de ônibus ou porteiros de prédios. Esse argumento, supostamente, era para defender as cotas raciais. Meus colegas, acreditando estar escrevendo uma tese irrefutável, não percebiam que davam exemplo claro de que não foi por falta de cotas que seus colegas de infância deixaram de subir na vida, mas por mérito pessoal, já que ninguém impediu os tais colegas de subúrbio de lerem os mesmos 15 livros por ano que eles liam ou se dedicarem aos estudos como eles.

Daí minha vergonha alheia, de colegas argumentarem com palavras que dinamitam seus próprios argumentos. Só precisa puxar uma carta para ruir o frágil castelo que construíram com argumentos mal amarrados.

Vergonha alheia também ao ouvir o professor Samuel Vida argumentar em palestra que há uma falácia do mérito do acesso às universidades. Para Vida, o vestibular é feito para medir capacidade de decorar. E citou a prova de Inglês como um dos exemplos de que o vestibular mantém a discriminação aos negros uma vez que, pasmem porque são palavras do professor: “Se, em vez de Inglês, a prova fosse de Iorubá, qualquer menino negro do Curuzu tiraria nota melhor do que um branco”! Diga se não é para sentir vergonha alheia?   

E meu colega A.R. saca essa pérola para municiar seus argumentos, e o outro, C.M. que nem a palestra assistiu afirma que eu inventei a frase. Se eu tivesse inventado seria, em sua opinião, uma mentira, mas ao ser informado de que foram palavras do professor Samuel Vida, o colega C.M. saiu assobiando e olhando para o chão tentando disfarçar que estava nas cordas.

Discordo do argumento de que o vestibular seja construído propositalmente para manter uma estrutura social racialmente discriminatória. Duvido de que qualquer pretinho do Curuzu saiba interpretar um texto em Iorubá. E se soubesse, gostaria de saber onde ele vai aplicar os valiosos conhecimentos de Iorubá na vida real. Quanto ao Inglês, para que aprender essa língua de colonizadores imperialistas, não é mesmo? Para que o Inglês vai servir na universidade em que o negro do Curuzu vai entrar pelas cotas? E não querem que, ouvindo coisas como essas, eu sinta vergonha alheia?

RACISMO DOS NEGROS - Para muitos militantes dos movimentos negros, há um racismo indisfarçável contra os brancos. Tenho um amigo negro que é compositor do Ilê Ayê que não tem nenhum cd de cantor branco na sua casa. Eu perguntei-lhe o porquê e ele me respondeu que não queria valorizar os cantores brancos. Eu disse-lhe que tinha inúmeros cds de cantores negros pois na minha opinião a música não tem cor.

Salta aos olhos quando o professor Samuel Vida, propositalmente omite a contribuição de personagens históricos brancos como Afonso Arinos, Joaquim Nabuco, Castro Alves e tantos outros pela causa abolicionista no Brasil. Para ele, como para a maioria dos militantes raciais, só teriam valor se fossem negros.

Outro exemplo recentíssimo aconteceu com o professor e ativista do movimento negro, Fernando Conceição, que também conheço pessoalmente, e que acaba de lançar um livro recheado de críticas ao fotógrafo Pierre Verger e o poeta Waly Salomão. O autor alega que sua obra está sendo censurada pelo governo que não lhe pagou os R$ 30 mil que faria jus ao vencer edital da Secretaria de Cultura. Segundo o governo, há uma análise técnica da secretaria que condicionou a liberação da verba a um parecer jurídico da Procuradoria-Geral do Estado, pois alguns trechos da obra poderiam ser ofensivos à honra de personalidades públicas reais.

Veja os textos e julgue se são ou não ofensivos:  “um francês como Verger nunca deu um centavo às pessoas do povo fotografadas por ele e usurpou e escancarou para o mundo, por vezes sem autorização dos sacerdotes e sacerdotisas, as imagens dos rituais sagrados, mantidos até então em segredo, dos terreiros nagôs baianos”. Noutro trecho, Verger e Waly são definidos como "bichas burguesas que recrutavam suas presas entre adolescentes cor de bronze nas periferias".

O professor Conceição diz que não é ele quem pensa o que ali escreve, mas um personagem de ficção. Quem conhece Fernando Conceição, e eu fui vítima dele na Faculdade de Jornalismo, sabe da sua homofobia e do seu racismo contra os brancos e sabe que é exatamente assim que ele pensa. Talvez por covardia, tenha preferido por suas próprias palavras na boca de um personagem para escapar da acusação de ofensa à honra de Verger e Waly. Mas, pelo menos, garantiu mais uns minutinhos sob os holofotes e alguns centímetros nas páginas dos jornais. Daqui a pouco vai sacar o velhusco argumento de que está sendo vítima de racismo.


Um detalhe: pouquíssimas pessoas, negras ou brancas, fizeram tanto pela valorização da cultura negra na Bahia e no mundo como Pierre Verger. Atacá-lo, é mais do que oportunismo, é uma vergonha.

COTAS NO SERVIÇO PÚBLICO - O que há em comum com as histórias que aqui relato é o fato de que sempre houve racismo no Brasil. O que temos de novo no horizonte é um debate acalorado sobre uma lei que oficializa a discriminação.

Após as cotas raciais nas Universidades, vem aí novas cotas. Segundo a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, o governo está preparando um programa de ação afirmativa com cotas para negros também no mercado de trabalho. A ideia é ampliar o sistema de cotas para todas as universidades públicas federais, inclusive cursos de mestrado e doutorado, ações relativas aos concursos públicos, cargos comissionados e empresas que prestam serviços ao setor público.

O Supremo verá o monstro que criou. A discriminação positiva passaria a ser obrigatória. Cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado) teriam de adotá-las assim como haveria cotas raciais para concursos públicos.

Quando cantei essa pedra no debate com os colegas A.R e C.M. eles disseram que eu estava fazendo gracejo. Eis aí o gracejo!

20.11.12

Minha Pauta: Caetano e Las Vegas


Duas fotos separadas por 12 anos e muitos quilos

Pauta é aquele termo usado em imprensa significando a orientação dada a jornalistas pelos editores para que escrevam sobre determinado assunto. Assim, aqui estou eu, como bom jornalista, sem diploma, obedecendo ao meu editor ad hoc Dida Santiago.

Dida sacou a última coluna cifrada de Caetano Veloso para me perguntar: “Você não acabou de chegar de Las Vegas? Não escreveu nada a respeito! Veja só: Caetano escreveu!”

Dida sabe que Caetano é uma das minhas pautas preferidas (E a favorita do próprio Dida). Sinto-me desafiado. Se Caetano falou de Las Vegas eu preciso também falar sobre Las Vegas e sobre o que Caetano falou de Las Vegas mesmo que as frases randômicas de Caê, atiradas a esmo sobre o jornal, necessitem de algum tipo de decodificação do caetanês para o português.
Caetano foi homenageado no último Grammy Latino (com direito a um beijo caliente de Sonia Braga). O evento ocorreu justamente na Cidade do Pecado, mais conhecida como Las Vegas. E lá foi Caê pela primeira vez para Vegas e retornou tecendo comparações entre ela e Santo Amaro.

Os Velosos adoram essas comparações extremas. Outro dia, Maria Bethânia, dizia que a primeira vez que conheceu Paris achou igualzinha a Santo Amaro. O que será que tinha no leite do peito de Canô que fez isso com a cabeça dos filhos? Bethânia acha Paris igual a Santo Amaro; Caetano acha a mesma coisa de Las Vegas....o que será que Mabel ou Rodrigo Veloso pensam de Viena? Não soltem Mabel ou Rodrigo nas ruas de Viena ou Budapeste que eles vão achar iguaizinhas a Santo Amaro e o Danúbio, o Subaé dedivivo.

Mas já estou divagando. Basta falar de Caetano para eu entrar também no modo randômico.

Caetano conhece Los Angeles e eu não. Em seu artigo ele compara Vegas a Los Angeles e diz: “Tudo em Los Angeles parece um precário esboço de concentração urbana aberto para o céu, o vazio, a rodovia expressa, o deserto, os olhos do coiote”. L.A. já servira de inspiração para Caetano na bela canção “Minhas Lágrimas”, do disco Cê, que diz: “Desolação de Los Angeles,/ a Baixa Califórnia e uns desertos ilhados por um pacífico turvo/ a asa do avião/ o tapete cor de poeira de dentro do avião/a lembrança do branco de uma página/ nada serve de chão onde caiam minhas lágrimas.” 

Finíssima poesia. Pérola bruta.

Caetano sabe o que é uma cidade e Los Angeles não se enquadraria nesses critérios. Assim define uma cidade: “o lugar onde a gente entra e se vê rodeado de sólidas paredes de alvenaria”. Assim seriam Paris, Las Vegas e Santo Amaro.

Minha cidade natal tem semelhanças com o berço dos Veloso, uma cidadezinha cortada por ruas estreitas, casas coloridas ou sem reboco, pracinhas, igrejinha, coreto na praça, um rio...Então assimilo o que Caetano chama de cidade: “território urbano, com calçamento de paralelepípedo e casas coladas umas às outras: o mundo selvagem das matas, dos mangues, dos braços de mar ficando fora dos muros”.

A moça do balcão da Delta no aeroporto de Nova Iorque olhou para o meu bilhete e abriu um enorme sorriso. Lá estava escrito: Las Vegas. Ela me perguntou com um simpático inglês novaiorquino, quase uma contradição entre termos: “Vai para Las Vegas? Me leve junto na mala!” E  continuou em tom amistoso: “Vai lá apostar hein?” Meu acompanhante completou: “Não, vamos ver um show de Madonna”. Foi a senha para que a mulher arregalasse os olhos: “Uau! Madonna! Dê a ela um beijo por mim. Eu A-do-ro Madonna!!!”.

Não pretendia retornar a Vegas depois de 12 anos. Lá estive no ano 2000 com a desculpa esfarrapada de conhecer o Grand Canyon. Madonna novamente serviu de desculpa perfeita, já que nem fui ao Grand Canyon no ano 2000 tampouco no show de Madonna no mês passado.

Procurava algum sinal de vida e poucas vezes vi tanta pulsação de vida num lugar só como Las Vegas, uma cidade improvável construída no meio do deserto. No meio do nada surgindo um oásis de vida, calor e seres humanos. Nunca vi tantas fontes jorrando água, incluindo a maior e mais famosa fonte do mundo, com incríveis e gigantescos jatos d’água que dançam acompanhados de músicas famosas e luzes coloridas.

Difícil, quase impossível descrever o que é Las Vegas. Uma vez tentei fazê-lo num texto caretéssimo que publiquei quando de lá retornei chamando-a de cidade de plástico. Como sempre, Oscar Wilde tinha razão quando disse que “Definir é limitar”. Uma página não dá conta de definir Las Vegas como Caetano não conseguiu nas poucas palavras que usou.

Também não conseguirei, mas não é somente plástico que define Vegas. Vida é mais adequado. Não é por outra razão que existem inúmeros prédios gigantescos, restaurantes deslumbrantes, cassinos fervilhantes, shows diversos acontecendo todos ao mesmo tempo, não é senão por conta da presença das pessoas, de nós, animais humanos, bípedes implumes que tudo aquilo foi construído. Não é por conta de outra coisa que não a imensa fome e sede de luxo, de sexo, de emoções que tantas mulheres e homens se exibem, que se apostam fortunas, que se come demais e se bebe tonéis de álcool, que se fuma e se droga. Frenesi feérico de luzes e excessos de tudo, do mais brega ao mais chique, do mais sofisticado ao mais grotesco convivendo lado a lado.

Fiquei tentando apreender nos olhos tantos signos e sinais, observei o vai e vem interminável de pessoas pela sua avenida principal, a larguíssima Las Vegas Strip que tem cerca de 8 km ladeada por gigantescos hotéis-casino, alguns moderníssimos, de um luxo atordoante: Ária, Bellagio, Mandarin, Encore, Wynn, Trump, Hilton, Venetian, Monte Carlo, Ceasar, Paris, MGM, Escalibur, Vdara, Luxor, Mirage...cada um com uma decoração mais exuberante e um show diferente (pelo menos 5 grupos do Cirque Du Soleil se apresentam diariamente com espetáculos variados). Outros hotéis mais antigos convivendo harmonicamente, mas com evidente inclinação para certa baixaria e um tanto de exagero, exibindo mulheres seminuas: o Flamingo, o Harra’s, O Ilha do Tesouro e outros que assustam um pouco. Parece que algo vai subitamente fugir do controle...
A sensação é de que absolutamente tudo pode acontecer em Las Vegas. Cada hotel é como um mundo à parte, mas é impossível entrar num mundo daqueles sem lembrar que circundando-o existem dezenas de outros mundos vibrando na mesma frequência. Impressionaram-me tantas coisas, mas encontrei um traço comum no meio daquele quase caos: em todos os rostos viam-se olhos brilhando com um tipo urgente de vida, seja pelo reflexo dos milhões de lâmpadas que iluminavam os bulevares, das janelas dos quartos dos hotéis, das luzes dos semáforos ou dos faróis dos carros e limusines, dos painéis gigantescos dos luminosos de neon a exibir seus shows, das placas reluzentes de lojas de grife com roupas que custam fortunas em frente a lojinhas que vendem 5 camisas por U$ 9,99 e infinitas opções de lembrancinhas baratas como chaveiros, canecas, postais...

Ou o brilho nos olhos vinha de alguma chama interna, um desejo vívido de estar bebendo a vida, de estar saboreando todas as possibilidades, de saber que apesar de a cidade oferecer diversões caríssimas, há muito para fazer com  alguns dólares no bolso, um pouco de criatividade, a companhia certa dos amigos mais divertidos e dispostos a tudo.

A cidade é inexplicável. Onde tanta alegria vai parar quando o sol nasce? Onde eu encontro amigos suficientemente loucos, insanos, queridos e divertidos para dividir comigo o prazer de uma noitada em Las Vegas?

Caetano disse no seu artigo que vai levar os filhos e netos para verem com ele o show “Love” dos Beatles, um dos vários espetáculos do Cirque du Soleil. 

Eu não vi “Love”, preferi o “Zumanity”, num hotel-cassino diferente, show do mesmo grupo, mas impróprio para menores de 18 anos que mostra o lado sexual e sensual do Cirque du Soleil. Uma dica para quem deseja ser eletrificado e vibrar no ritmo alucinado de Las Vegas.

Enquanto isso, minha mãe assistia a Madonna no hotel-cassino em frente.

15.11.12

Alemanha Abaixo de Zero


EMBARCANDO RUMO A ALEMANHA

O que leva duas pessoas, supostamente normais, que, podendo desfrutar de vinte dias no verão em uma praia ensolarada, se submetem ao inverno mais  rigoroso já registrado nas últimas décadas na Europa?

A ideia parecia arriscada. Todos preocupados com nossa saúde: “O que vocês vão fazer na Alemanha num frio desses?”; “Não acham melhor deixar para a Primavera?” Essas foram algumas das frases que minha amiga Nete e eu ouvimos, mas quando é que se encontra a companhia de uma amiga nota 10 para uma viagem de graça com milhagens aéreas e hospedagem free?

Nem o frio de 7 graus negativos nos impediu de desfrutar de 19 dias entre Dusseldorf, Berlim e Colônia e um diazinho em Lisboa com uma temperatura ótima de 17 graus

Nossa escala inicial em Lisboa, no dia 30/12, foi esquisita. Duas horas de intervalo para o check in da companhia aérea alemã que nos levaria para Dusseldorf foram quase insuficientes, pois de todos os aeroportos que já conhecemos, o de Lisboa é o mais irracional.

Os atendentes são tão mal humorados e tudo é tão confuso que parece que não foi concebido como aeroporto ou foi sendo ampliado por arquitetos autistas, engenheiros bipolares, pedreiros míopes...

No meio dessa barafunda, somos surpreendidos por um som altíssimo e atendentes da TAP e público, subitamente, dançando no saguão ao som de ABBA, Madonna, Jorge Benjor...Um flash mob! As imagens estão no Youtube!

Finalmente, embarcamos na Germanwings, que vende passagens mais baratas, mas cobra até pela água a bordo. Em duas horas estávamos em Dusseldorf. No dia seguinte era  Reveillon. 


RÉVEILLON COM OS GERMÂNICOS

Noite de réveillon em uma cidade vizinha a Dusseldorf: quatro alemães, três brasileiros, uma portuguesa, duas crianças, um agitado cachorro border collie e um gato magro de 18 anos. E, claro, muito vinho, champanhe e cerveja. 

Todos bebem por horas e a mesa fica repleta de tanta bebida e comida que não tinha espaço para mais um alfinete. Várias panelas de fondue (idal para aquele frio) e dezenas de molhos, pães e batatas...Alemães não sobrevivem por muito tempo sem as suas batatas.

Todos ficam altinhos no decorrer do jantar. Sem muito assunto, imagino que contando piadas poderia me integram mais, mas os alemães não aprovam piadas. Não se pode fazer piada de judeus, por motivos óbvios; nem de português, pois havia uma portuguesa à mesa; não dava para fazer piada com bêbado, pois estavam todos meio bêbados; nem com loura, havia uma loura por lá; não podia fazer piada de humor negro ou politicamente incorretas, o que, convenhamos, é a essência de qualquer piada...Nete encontrou nas duas crianças uma forma de diversão com um jogo eletrônico do qual jamais ouvi falar. Perdeu todas as partidas para as meninas.

À meia-noite todos saem para soltar fogos. Os vizinhos tiveram a mesma ideia e a noite abaixo de zero ficou iluminada por belos fogos de artifício enquanto a neve começava a cair. Na volta para dentro da casa, as piadas foram liberadas e por mais de uma hora dançamos todos, com as crianças e o cachorro incluídos, sucessos dos anos 80. Um dos alemães usava uma farda da Enterprise e fazia a todo instante o gesto do Sr. Spock com os dedos.

Se água mineral embriagasse eu estaria em coma alcoólico. Minha abstinência deveu-se ao fato de que fui escolhido para dirigir o carro dos nossos anfitriões na volta para Dusseldorf. Detalhes: nunca havia dirigido na Alemanha, ainda mais um carro automático, com GPS em alemão e três pessoas que beberam tonéis de vinho me guiando na estrada. Que gente corajosa!

Eram quatro da manhã quando chegamos inteiros em casa, cruzando estradas repletas de neve no primeiro dia do nosso primeiro ano novo na Alemanha.

ANO NOVO NA ALEMANHA

No meu primeiro domingo em Dusseldorf esperava sair da cama após o meio-dia, mas minha anfitriã me acordou às 9h da madrugada para ajudá-la a retirar a neve acumulada durante a noite sobre sua calçada. Por lá, se o proprietário de uma casa não limpar a neve da sua calçada antes das 10h da manhã pode receber uma pesada multa. Os vizinhos já tinham todos limpado as suas.

Com uma pá e uma vassoura de metal retiramos toda a neve da calçada e jogamos sal para não virar gelo. No cinema a neve é linda, mas vá retirá-la, já endurecida, com uma pá e uma vassoura em pleno domingo antes do café da manhã e saído de uma cama quentinha. Minha amiga Nete dormiu como um bebê e foi poupada dessa tarefa.

Por outro lado, ela não teve essa história para contar.

Mas o domingo revelou-se um dia de luxo, pois no final da tarde desfrutamos de horas agradáveis num imenso complexo de piscinas térmicas: Dusselstrand,  com o tamanho de três campos de futebol, várias piscinas aquecidas a 28° (na rua fazia 4 graus negativos), uma piscina olímpica, muitas jacuzis que massageavam com jatos d’água os ombros e as costas, toboáguas de diferentes tamanhos, saunas e lanchonetes. Tudo isso por menos de 4 euros por pessoa. Ainda havia lanchonetes para os clientes  e vários tipos de frequentadores, homens, mulheres e famílias com crianças de variadas idades.

Uma das coisas que me chamaram a atenção é que havia saunas para homens, para mulheres e saunas mistas mas o comum em todas elas é que a pessoa tinha que entrar sem toalha. Nua mesmo. Esses alemães são danadinhos!!!

Um luxo num domingo que não prometia muito quando, naquela manhã, fui acordado faminto para trabalhos forçados de limpeza de neve.


COLÔNIA

Reencontrei, após 15 anos, a enorme catedral gótica de Colônia, local onde a Igreja crê estão enterrados os 3 Reis Magos. Nete e eu a visitamos a catedral na véspera do Dia de Reis e por isso  ela estava ainda mais elegante com iluminação realçada. Seus vitrais são famosos pela incomparável beleza.

Durante a segunda guerra mundial a cidade de Colônia foi praticamente arrasada pelos bombardeio dos aviões aliados, mas incrivelmente a catedral não foi danificada. Há painéis de fotos que mostram a cidade destruída, casas bombardeadas em volta dela, mas a catedral sobrevivendo, cercada de ruínas. 

A catedral tem estrutura gótica impressionante e praticamente é vista de toda a cidade que foi, durante o Império Romano, colônia de Roma, daí seu nome. A região inteira fica sobre sítios históricos. As escavações encontram termas romanas, palácios e sinagogas.
Após o passeio pelas ruas de Colônia e uma visita à imensa catedral, nada melhor que alimentar os corpos famintos. Finalmente, comi eisbein, um enorme joelho de porco cozido. Vem com batatas, como praticamente tudo na Alemanha e um molho parecido com o de churrasco. Na foto ao lado você pode ver, mas não pode imaginar quão delicioso é.

Um passeio no museu do chocolate, em seguida, foi uma boa ideia. Num café do museu, ao lado de grandes janelas, contemplamos o Reno e degustamos chocolate quente, o que combinava com o frio. Ao nosso lado, uma linda vista de Colônia e do rio cortado por pontes e embarcações.

BERLIM!  

Na metade da nossa viagem, chegamos à antiga capital da Alemanha Oriental com sete graus negativos e sensação térmica muito inferior, pois Berlim é repleta de avenidas larguíssimas e muitos parques, além de um  rio, o Speer, que a corta inteira.

Foram seis horas de viagem desde Dusseldorf pelas perfeitas autobans, as estradas alemãs. Foi uma boa ideia termos feito a reserva prévia do Holiday Inn pela internet. É um excelente hotel 4 estrelas, localizado na gigantesca e movimentada Alameda Prenzlauer, que atravessa toda Berlim.

Mas, se sonhávamos com duas camas quentinhas, após uma longa viagem, nossos anfitriões tinham outros planos gelados para nós.

Viajar com um casal de gourmets é uma experiência única. O mundo dos gourmets é algo à parte e gira em um eixo diferente. Os valores são todos gustativos e eles preservam minúcias de sabores. Há códigos próprios e sutilezas incompreensíveis para as línguas dos mortais. Para eles, pagar caro é pagar por uma comida de que não gostaram, mesmo que seu preço seja um décimo do gasto em um prato de que gostaram.

Para nossos anfitriões gourmets, não havia programa melhor do que sair em Berlim à noite, caminhar quase uma hora num frio de rachar, debaixo de neve e sobre ruas congeladas, para chegar a um restaurante de que gostam.

Para essa tarefa, enfrentamos gelo, frio e vento por ruas semidesertas…e eu me perguntando o que faziam nas ruas, naquela temperatura, as raras pessoas  com quem cruzávamos…não podiam ser todas gourmets.

No nosso primeiro jantar em Berlim comemos um prato especial, feito de peito de faisão, nhoque romano (que não é feito de batata, mas de trigo), codorna ao forno, recheada de fígado de galinha, acompanhada de raízes negras, um tipo de raiz saborosíssima que não se encontra no Brasil. Como sobremesa, uma tortinha de pão com recheio de mirtilo e sorvete de uma frutinha que tem umas 200 letras, sendo que metade são consoantes e a outra metade, vogais guturais salpicadas generosamente com tremas. Mas como gourmets não são seres simples, o sorvete era feito não da frutinha, mas da flor da plantinha que dá a fruta, que se chama hollunderbluetten. Bem, não são exatamente 200 letras, mas experimente falar isso sem deslocar a língua.

O MUNDO DOS GOURMETS

Imagino que há três razoes básicas pelas quais os alemães pensam tanto em comida: a primeira, histórica; a segunda, climática; e a terceira, econômica. Eles passaram muitos problemas com as guerras e tinham que comer quando havia comida. No país faz muito frio e eles precisam comer para repor as energias perdidas pela baixa temperatura.  Além, é claro, que muitos deles têm dinheiro de sobra para gastar comendo coisas variadas, com uma infinidade de opções de queijos, pães, vinhos e doces muito sofisticados.

A nossa segunda noite em Berlim desafiou todos os meus limites. Saímos no frio congelante para uma região ao lado do Rio Spree, que canalizava o vento que já era gelado, dando na gente uma sensação de desespero. Por que as coisas têm que ser sempre tão complicadas para mim? Por que não dava para comer um suculento e simples Big Mac? 

Mas a noite foi além de todas as expectativas, tanto no sofrimento para chegar no restaurante, quanto no resultado. Quase quando eu estava sucumbindo ao desespero e à fome e implorando por um táxi ou um abrigo, chegamos ao Bertold Brecht, restaurante onde fomos servidos como reis. Começando com uma sopa  hiper cremosa feita de raízes negras e raviólis de frango. Como cortesia da casa, uma entrada sofisticada com uma polentinha feita com trufas e com espuma de ervas raras. O prato principal foi uma deliciosa vitela empanada, peixe branco com alho poró e batatas recheadas com camarões. A sobremesa foi o golpe mortal: mousse de chocolate amargo com sorvete de pimenta, gomos apimentados de mini-tangerinas, framboesas e amoras.

De tanto comer achei que tinha engordado e encontrei uma balança. Meu peso normal é 77 quilos, mas na balança marcava 79. Não deu para saber se emagreci ou engordei, pois só as roupas de frio que eu usava deviam estar pesando 5 quilos: dois cachecóis, um par de luvas, um gorro, uma calca jeans, uma calca de lã interna para o frio, uma camisa pólo, outra camisa de manga comprida, um pulôver e um casaco para neve.

ÚLTIMO DIA EM BERLIM

No nosso último dia em Berlim, sexta-feira, Nete e eu tiramos parte da tarde para conhecer os famosos museus históricos da cidade. Passamos horas de puro deleite em um conjunto de 5 museus de Berlim localizado numa ilha do Rio Spree. Falando assim, uma ilha do rio, pode parecer pouca coisa, mas é um conjunto de cinco prédios gigantescos, magníficos, em estilo neoclássico com estátuas e colunas imensas. Tudo tombado pela UNESCO como patrimônio da humanidade. Parecia que estávamos em uma ágora grega pelo numeroso conjunto de edifícios majestosos.

Eu imaginava que para ver tantos museus precisaria me deslocar longas distâncias. Em Nova Yorque, o Metropolitan e o Guggenhein ficam próximos, na mesma rua, mas o Museu de História Natural, o MOMA, o Museu The Cloisters e o Frick Collecion, por exemplo, ficam bem separados. Em Paris, não se vai do Louvre ao D`Orsai ou do Museu Rodin ao Museu Picasso andando facilmente. Em Londres, a Galeria Nacional fica afastada do Museu Britânico e em Madri, o Museu do Prado fica longe do Reina Sofia. Mas em Berlim ficam concentrados na Museums Insel o Bode Museum, o Neues Museum, o Alte Nationalgalerie, o Pergamonmuseum e o Altes Museum.

Saímos banhados numa impressionante coleção de arte grega, romana, pré-histórica, egípcia, em galerias extremamente elegantes, bem iluminadas, com bastantes informações em inglês e não só em alemão. Assim, Nete e eu conseguimos ler e entender. Eram pátios internos monumentais, estátuas imensas de todos os deuses gregos, conjuntos de objetos de mármore, salas só para objetos de ouro, outra apenas para os de prata, outra só para filosofia, com bustos dos grandes filósofos, dramaturgos e políticos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Zenão, Aristófanes, Sófocles, Ésquilo, Eurípedes, Péricles, Heródoto, Hesíodo... Inúmeras ânforas e adereços, joias, colunas coríntias, dóricas e jônicas, instrumentos musicais. Foi um banho cultural.

No Alte Nationalgalerie se concentram as pinturas e esculturas dos séculos 19 e 20. Salas e mais salas em três andares com esculturas de Rodin e pinturas de Cézanne, Degas, Van Gogh, Gauguin, Manet, Renoir, Monet.

O mais interessante para mim foi conseguir ver ao vivo o Busto de Nefertiti, uma estátua da rainha egípcia que no Neues Museum tem uma sala exclusiva para ela e é a peça mais importante de todo o conjunto. Em todas as salas se pode fotografar sem flash, mas na sala de Nefertiti as máquinas são proibidas. A foto abaixo é da internet. Ela é a Mona Lisa dos alemães e, talvez, seja um obra de fato mais importante do que a Mona Lisa em si, apesar de não ser tão famosa.

A visita ao Neues Museum tem que ser agendada, pois ele é tão especial que só comporta um determinado número de visitantes pode vez. Na portaria, sem que eu perguntasse nada, uma atendente, gentilmente, me deu um mapa do museu em inglês já com o local marcado onde encontraríamos o Busto de Nefertiti. Certamente a moça está tão acostumada com isso que já vai no automático. Ótimo, pois era exatamente o que estávamos procurando.

Não vou entrar em muitos detalhes sobre essa magnífica peça. O mais significativo, para mim, foi que três meses antes, em São Paulo, quando sequer pensava em visitar a Alemanha, comprei num sebo da Rua Augusta um livro da intelectual americana Camille Paglia que há anos estava procurando sem sucesso, já que está esgotado: Personas Sexuais - Arte e Decadência de Nefertiti a Emily Dickinson. 

Há um capítulo inteiro em que Camille Paglia analisa, com profundidade, o significado simbólico dessa peça para o imaginário do feminino moderno, comparando-a às obras de arte anteriores que representavam a mulher como matronas gordas e peitudas, símbolos atávicos da mãe terra. O capitulo inteiro é brilhante de um livro todo brilhante. Deliciado com a leitura, pude finalmente estar diante do busto verdadeiro. Um privilégio.

Após a visita aos museus, fomos a pé quase ficando congelados no frio e no vento para reencontrar os nossos anfitriões no Checkpoint Charlie que era um posto militar dos aliados durante a Guerra Fria e hoje é uma zona de turismo com diversas lojas vendendo souvenires com referência ao muro de Berlim. Os visitantes disputam fotos embaixo da placa que diz em inglês, russo, alemão e francês que aquele local separava a Alemanha Ocidental da Oriental.

Eu não sabia o que significava o Charlie no nome do Chekpoint Charlie. Achava que era o nome de um soldado que foi importante para a resistência ou algo do gênero até porque há uma grande foto de um soldado exatamente no local em que tem a réplica de uma cabine de controle dos aliados. 

Vi um casal de brasileiros no local tirando fotos e seu filho adolescente perguntar para a mãe quem era o tal Charlie. Ela respondeu apontando para a foto do soldado. O filho retrucou: sim, mas o que foi que esse Charlie fez para merecer a homenagem? 

Não deu para ouvir o que a mãe respondeu, mas certamente ela não deu a resposta certa porque o nome Charlie não tem nada a ver com o soldado. Pesquisando no Google descobri que havia três checkpoints: Alpha, Bravo e Charlie, de acordo com o alfabeto fonético internacional.

VIOLÊNCIA

Deixamos Berlim para trás e chegamos a Dusseldorf após sete horas de viagem de carro. Cruzamos o Rio Elba congelado, dezenas de caminhões limpadores de neve das estradas passaram por nós e, no rádio, acompanhávamos, tensos, as notícias da fortíssima nevasca que isolou o norte do país.

De volta a Dusseldorf, passamos em um supermercado quando presenciamos uma das cenas mais estranhas que já vi. Nossa anfitriã, que mora há 15 anos na Europa, nos disse que nunca viu algo do tipo por lá.

No grande supermercado em que fazíamos as compras, havia um silêncio sepulcral, ainda mais num sábado em que lá fora faziam 2 graus negativos. Foi quando nossa atenção foi atraída por uma gritaria. Naquele silêncio, os gritos pareceram surreais. Então, passou por nós um homem negro correndo em alta velocidade. Passou ao nosso lado, tão perto que podemos reparar nos seus olhos enormes, assustados, como um animal perseguido. Atrás dele vinham dois homens louros, germânicos, saudáveis, fortes.  O que significava aquilo não nos era compreensível no momento.

O negro tentava escapar de alguma coisa, talvez tivesse roubado algo no supermercado. Os dois homens brancos que o perseguiam gritaram e dois outros, à frente, estenderam as pernas derrubando o negro no chão. Ele se levantou com uma agilidade impressionante atirando-se na direção da porta automática que se abriu para ele sair para o meio da rua e da neve. Eram duas portas automáticas para proteger o interior do frio. A cena foi estranhíssima. As duas portas ficaram se abrindo e se fechando enquanto, no espaço entre elas, quatro homens brancos e fortes se debatiam no chão com um negro que tentava, a todo custo, escapar deles. Ele talvez fosse algum imigrante ilegal, talvez soubesse que sua fuga poderia significar sua permanência naquele país gelado, talvez tivesse certeza de que uma prisão representaria uma deportação...

Ele se debatia, as pessoas se aglomeravam em volta. Ninguém falava nada...um silêncio assustador. Nenhum dos quatro brancos dizia ou gritava coisa alguma. O negro também, aparentemente, economizava energia para a fuga. Só se ouvia o som das portas se abrindo e se fechando, se abrindo e se fechando repetidas vezes. Toda a cena tinha um conteúdo simbólico impressionante. Lembrava uma caçada, um animal tentando escapar de uma armadilha...e em volta, vários alemães assistindo a tudo de mãos dadas com os seus filhos, como num processo educativo e pedagógico. Ou simplesmente pelo ineditismo da cena.

Parei de olhar quando começaram os socos.Os homens brancos socavam com forca o rosto do negro. Entendi que a coisa ultrapassou a esfera profissional pois os brancos não estavam mais simplesmente defendendo o patrimônio ou a lei, mas reagindo a alguém que, mesmo praticamente dominado, insistia em tentar fugir...passou para o pessoal quando a fuga representava ferir os brancos..

O sábado foi marcado por essa cena dantesca e saímos a tempo de ver a policia levar o homem dominado.

Minhas amigas não concordam com meu ponto de vista. Acham que eu estou com uma interpretação tendenciosa e que o negro não era totalmente inocente, mas um transgressor. A visão da cena foi compartilhada por nós, mas com pontos de vista diferentes.

DE VOLTA A DUSSELDORF

Fomos ao nosso primeiro museu em Dusseldorf, o Aquazoo, um enorme museu de história natural que fica em um parque gigante coberto de neve. Vimos, maravilhados, diversos aquários com pinguins, tubarões, enguias, crocodilos, tartarugas, todos vivos, e várias salas com ambientes marinhos repletos de todos os tipos de peixes e corais multicoloridos. Eles reproduziram em detalhes o ambiente de uma floresta tropical com ariranhas, pequenas cascatas de rio, laguinhos e uma infinidade de répteis, anfíbios, insetos e mamíferos. Centenas de cobras, aranhas, mariposas e borboletas.Tudo extremamente didático com textos em alemão e inglês na altura dos olhos das crianças. Há uma ala de dinossauros de que gostei bastante, como dá para ver na foto.

No dia seguinte conhecemos o Gazometer, um antigo depósito de gás, uma enorme estrutura de ferro, de mais de 100 metros de altura e quase 70 de diâmetro, na verdade o maior gasômetro da Europa, construído nos anos 30, hoje abriga uma espécie de planetário. Foi severamente bombardeado durante a 2ª Guerra e funcionou até 1988 quando foi transformado em local de exibições. Fica a meia hora de carro de Dusseldorf. Lá dentro fazia um frio do cão, pois deve custar muito caro aquecer aquele lugar.

Em um enorme vão aberto, réplicas dos satélites da NASA, dos primeiros módulos lunares, painéis ilustrando a história das primeiras descobertas dos primeiros astrônomos egípcios e persas, além dos mais famosos: Galileu, Copérnico, Kepler, Giordano Bruno e seus rudimentares aparelhos de observação das estrelas. Também reproduções de todos os planetas ao redor do nosso sol, fotos imensas da via láctea e das luas dos planetas do nosso sistema solar, todas tiradas pelo telescópio Hubble e o grande destaque foi uma lua de 25 metros de diâmetro que pendia do teto, como se flutuasse  no espaço.

Depois dessa orgia de informações precisávamos de um banho quente e nada melhor do que uma piscina aquecida. Desta vez fomos a uma outra, diferente da que visitamos no nosso primeiro domingo aqui: Muensterbad.

Não e como a anterior, um parque aquático, mas um prédio imenso, com pé direito altíssimo, uma única piscina de 50 metros, 72 cabines individuais com armários distribuídas em dois níveis.

No térreo fica a piscina e a sauna. Na parte de cima, como um mezanino que rodeava toda a piscina, a outra metade das cabines. O teto altíssimo demonstrava que o prédio era muito antigo. Foi construído em 1908, portanto tem mais de 100 anos. Obviamente, sofreu com os bombardeios nas guerras e foi restaurado, mas a estrutura básica permaneceu, com a fachada de tijolos aparentes e várias janelas e claraboias dando para o céu.

Do lado de fora do prédio, num pátio externo, havia uma piscina com água quente e salgada, mas para chegar lá tínhamos que atravessar uns 20 metros de frio, molhados e descalços. Mas pareciam uns 50 metros. Enfrentamos o frio e nos atiramos na direção da piscina externa e valeu a pena.

A água quente, em contato com o ar gelado, formava uma nuvem de vapor pairando sobre nós. A neve caía em finos flocos sobre nossas cabeças enquanto desfrutávamos da calor da piscina. A luz das luminárias dos postes exteriores, cobertas pelo vapor, criou uma atmosfera muito especial e única, quase fantasmagórica: exatamente do que estávamos precisando.

Na quinta feira, Nete e eu pegamos o metrô e fomos conhecer o Knunst Palast, um grande museu nas margens do Reno e que ocupa três enormes alas com obras de arte antigas e modernas. Uma das alas abrigava um conjunto fantástico de esculturas sacras em madeira da Idade Média e pinturas representativas do expressionismo alemão.

Também conhecemos a parte do museu que abrigava uma imensa coleção de obras de arte moderna e esculturas feitas unicamente de vidro. Um tanto conceitual, com elementos óticos e cromáticos muito interessantes. Essa parte do museu também tem milhares de vasos de vidro de todas as épocas, acompanhando a história dos primeiros objetos em vidro, desde os gregos e persas, quando eles ainda não dominavam completamente a arte do vidro e as pedrinhas vitrificadas eram consideradas joias.

Acompanhamos a evolução dos vasos de vidro desde os seus primeiros exemplares até os requintados jarros e copos decorados do Renascimento europeu, dos vasos decorativos com incrustações e pinturas de reis, rainhas e nobres aristocratas e exemplares chineses. Eram dezenas de vitrines e prateleiras com milhares de objetos de vidro que nos deixava até tontos.

Depois desse passeio fomos passear na beira do Reno. O frio estava diminuindo, mas ainda ventava muito, a neve já estava descongelando e as pessoas passeavam sozinhas ou aos pares pelo lugar que ainda tinha um tanto de neve mas já alguma lama e poças de água.

Observamos que os alemães têm uma consciência ecológica muito grande e em muitos lugares vemos depósitos de vidro onde eles colocam vidros usados, chegando ao requinte de ter três recipientes grandes para vidros brancos, verdes e escuros. Eles até criaram um prêmio chamado Trenntwende, um trocadilho em alemão com as palavras tendência, separação e transformação para iniciativas que reduzem o desperdício 

Comprovei que há muitos turcos na Alemanha. Mas o que impressiona é que após três gerações de imigrantes, os netos dos primeiros turcos que chegaram têm atitudes e comportamentos mais próximos dos europeus do que dos seus pais e avós, inclusive reduzindo muito o número de filhos. Quanto melhor o padrão econômico e educacional, menos filhos os imigrantes têm.

Os alemães aparentemente, não conhecem as cores, são todos meio daltônicos(?). Nas ruas, todos os agasalhos que se veem são pretos, marrons, beges ou cinzas. Eles desconhecem o verde, o azul, o laranja, o vermelho...Um mar de gente agasalhada de cores pastéis.

Reparei também que todo mundo fica mais charmoso com um cachecol!


No sábado, nossos anfitriões fizeram para nós um jantar de despedida como somente os gourmets sabem fazer. Na verdade, todos os dias havia um jantar especial. Não ousaria tentar descrever os detalhes dos cardápios, pois sei que não conseguiria. Mas sei que Cândida e Carsten foram os melhores anfitriões que poderiam existir. Nos levaram ao aeroporto para uma despedida da Alemanha que nos deixou saudades e onde fomos extremamente bem recebidos e tudo deu certo, mesmo com o que nos cobraram no aeroporto de Dusseldof pelo excesso de bagagem.


DE VOLTA A LISBOA 

Chegamos a Portugal e em 15 minutos de táxi e 17 euros estávamos no Hotel Lisboa, reservado pela intenet. Ficamos muito bem localizados, ao lado da grande Avenida Liberdade, pertinho do imenso monumento ao Marquês de Pombal na praça de mesmo nome. Menos de 80 euros a diária com direito a café da manhã. 

Após dois banhos rápidos, uma vez que só ficaríamos na cidade por um dia, saímos a pé em direção ao bairro de Belém. Descemos a Avenida Liberdade em direção as praças dos Libertadores e da Figueira já no bairro do Rossio. Ali, tomamos o elétrico 15 e passamos pela Baixa, pelas ruas da Alfândega e do Arsenal, pelo Campo das Cebolas, avenida Ribeira das Naus já na beira do Rio Tejo, pelo Cais do Sodré, Alcântara, Junqueira e, finalmente, chegamos a Belém.

Obviamente, não poderíamos perder a oportunidade de comer o legítimo pastelzinho de Belém no local original onde eles são feitos desde 1837. O local é muito concorrido e cheio de turistas. Nos entupimos dos deliciosos pasteizinhos acompanhados de saborosos bolinhos de bacalhau. Nada mais português.

Depois seguimos para o Monumento aos Descobrimentos, na beira do rio Tejo, conhecido como Padrão do Descobrimento. Subimos de elevador até o topo, onde tiramos lindas fotos do rio, do Mosteiro dos Jerônimos, do belo jardim da Praça do Império e da Torre de Belém. 

Não conseguimos entrar na Torre de Belém, pois já estava fechada às 5 da tarde, mas entrar no Mosteiro dos Jerônimos foi indescritível e comprovamos como ele é espetacular com enormes abóbadas, colunas e transeptos. É lá que estão os túmulos de Fernando Pessoa, Vasco da Gama e Luis de Camões, entre várias outras personalidades famosas de Portugal.


O mosteiro foi encomendado pelo rei D. Manoel I depois que Vasco da Gama regressou da viagem à Índia. Construído com os lucros do comércio das especiarias, foi um dos poucos prédios que sobreviveram ao terremoto de 1755 que devastou Lisboa.

Já caía a noite quando tomamos outro elétrico de Belém até o Cais do Sodré e dali fomos caminhando até o Largo do Chiado, atravessando ruas charmosas e cheias de restaurantes e lojas como a Rua Augusta, Rua Áurea e Rua Garret. No Chiado conhecemos o famoso bar A Brazileira, onde o poeta Fernando Pessoa costumava se reunir com os amigos. Há uma estátua dele na porta, ponto de fotografia para os muitos turistas. Corresponde, no caso brasileiro, à estátua de Carlos Drummond de Andrade na orla carioca. Há uma cadeira de bronze para as poses dos fãs e logicamente não dispensamos as nossas fotos com o maior poeta português.

Depois do Chiado voltamos para o hotel com os pés destruídos e contabilizando mais de 5 horas de bete pernas, turismo e compras.

No domingo, nosso último dia em Lisboa, acordamos com uma louca faxineira entrando no nosso quarto as 8:30 da manhã. Quem e que faz faxina num horário desses em pleno domingo? Tudo bem que não colocamos o aviso na porta de não perturbe, mas como iríamos imaginar que alguém faria a faxina num horário insano desses?

Aproveitamos o que restava da manhã para passear a pé pelas vizinhanças do hotel, fomos ao jardim botânico, mas estava fechado, continuamos ate o Museu de Historia Natural com uma exposição sobre os dinossauros, sobre astronomia e sobre minerais, mas não foi nada muito especial, pois havíamos visto museus melhores. Valeu pela visita ao prédio que abriga uma universidade com um estilo que não consegui identificar. Parecia um mosteiro com um pátio interno um tanto abandonado e meio tomado pela grama alta.


Não entendi porquê, mas no museu há uma sala de arte contemporânea com uma placa identificando-a como Sala do Veado! Tenho uma foto com Nete fazendo pose para provar. Aí está!

A temperatura de 17 graus em Lisboa estava extremamente agradável se comparado ao frio abaixo de zero que pegamos na Alemanha. Às duas da tarde estávamos inteirinhos no aeroporto, recebemos sem problemas a devolução do dinheiro do tax free das compras que fizemos na Alemanha e embarcamos sem pagar excesso de bagagem pela TAP.

Comprovamos também que os portugueses tem um estranho senso de localização e identificação. Há uma enorme placa no aeroporto de Lisboa dizendo: "Aeroporto de Lisboa, cada vez mais aeroporto". Hello!! Queriam que ficasse cada vez mais o quê? açougue? boutique? inferninho?

Nove horas depois, a bordo da TAP, estávamos de volta ao calor da Bahia, onde as soleiras das portas das nossas casas se revelaram mais belas do que todos os palácios que visitamos.

É ótimo viajar!

É ótimo retornar!