8.2.13

O Primeiro Concurso de Miss Gay de Barreiras


A cidade de Barreiras fica no extremo Oeste da Bahia, na divisa com Goiás e Tocantins. No começo dos anos 80, a região cresceu muito com a chegada dos inúmeros sulistas atraídos pelo crédito farto e pela enorme quantidade de terra barata do cerrado, tudo disponível para o que acabou sendo o boom da soja, enriquecendo, em pouco tempo, centenas de agricultores.

A cidade passava pelo que costuma acontecer com regiões que se desenvolvem rapidamente: convivia com contradições como pobreza e riqueza e choques culturais entre tradições locais e do Sul e avanços em comportamentos de pessoas mais abertas a novidades, geralmente com uma bagagem cultural ou educacional mais plural, que traziam para Barreiras um frescor de ousadia.

Uma dessas pessoas era a minha amiga Salete. Gaúcha da gema e como todos os gaúchos, extremamente ligada às suas tradições, Salete também era uma inquieta por natureza. Sempre inventando modos novos de agitar as coisas, envolvendo os amigos e conhecidos em eventos e atividades culturais, onde não faltavam os defensores da natureza, artistas plásticos, cantores, poetas, jornalistas, religiosos, empresários, agricultores, políticos...Salete estava sempre envolvida em qualquer coisa que mexesse com a letargia natural de uma cidade do interior.

Um dia, aparentemente sentindo falta de alguma ousadia, eu a encontrei envolvida em um novo projeto. Ela queria realizar o primeiro concurso de Miss Gay de Barreiras.

Todos os amigos sabiam que quando ela colocava uma coisa na cabeça nunca mais tirava até conseguir realizar. De nada adiantaram as ameaças que logo começaram a aparecer. 

“Quem aquela gaúcha pensa que é para vir aqui na nossa terra fazer um concurso que é uma pouca vergonha?”, pensariam alguns. “Agora ela passou dos limites”, resmungariam outros. Mas a minha amiga não desanimava e quando as ameaças começaram a aparecer por telefone, ficando mais sérias, ela só ficou mais animada. Estava conseguindo o que queria: mexer  com as cabeças das pessoas.

Os seus amigos religiosos preferiram se afastar da polêmica. A polícia disse que não poderia dar segurança para o evento e um poderoso grupo ruralista da região, formado por fazendeiros tradicionais, capitaneou uma campanha contrária ao concurso.

Mas minha amiga Salete tinha muitos amigos e acionou seu grupo de admiradores: políticos, empresários, jornalistas e artistas. Era um pessoal jovem e articulado e, em breve, só se falava no concurso na cidade. Mas a sombra da ameaça pairava sobre a festa.

O dia se aproximava e minha amiga Salete fazia questão de divulgar a lista das concorrentes do 1º Miss Gay de Barreiras. Ela tivera um enorme trabalho para convencer as bichinhas a participar da competição, pois  todas temiam as ameaças. 

Dizia-se pela cidade que um dos ruralistas mais ricos e temidos da região soubera que uma das concorrentes revelaria, durante a festa, que tinha um caso com ele. Eu, pessoalmente, duvidava disso, pois o homem era muito poderoso e a bichinha jamais teria coragem de contar uma história assim, fosse ou não verdade, e principalmente em público. As lendas começaram a se formar e a festa começou a ficar cada vez mais interessante antes mesmo de começar. 

Eu comecei a suspeitar de que era a minha amiga mesma quem inventava essas histórias para atrair mais atenção para sua festa. Talvez nem as ameaças existissem mesmo. Afinal, antes de tudo ela era publicitária. Mas eu não esperava a surpresa no dia marcado que superou todas as minhas expectativas. Não sei como não houve mortes.

Estamos falando de uma cidade conservadora do interior em 1990. Estamos falando de uma festa organizada por uma "forasteira" gaúcha em pleno coração da careta sociedade ruralista do Oeste baiano.

Alguns dias antes da festa, viajei com amigos para Brasília, cidade próxima a Barreiras. Lá falamos da festa com um grupo de dez servidores da Caixa Econômica, do Banco Central e da Embaixada dos Estados Unidos e todos acharam que aquela era uma boa razão para eles se deslocarem no final de semana seguinte até Barreiras, uma cidade com excelentes rios para relaxar e uma festa que ameaçava ser inesquecível.

Na noite marcada, o clube de campo onde a festa aconteceria estava superlotado. Centenas de pessoas curiosas pelo evento se aglomeravam em frente ao palco. Minha amiga Salete estava radiante e feliz da vida pela sua ideia finalmente se materializar. Mal sabia ela que dali a pouco começaria o caos.

Meus dez novos amigos de Brasília estavam se divertindo muito. Naquele final de semana eles próprios fizeram muitos amigos novos na cidade. Eu subi numa das dezenas de mangueiras do clube para ver melhor o palco, pois tinha gente demais. Do alto da árvore consegui um ângulo perfeito.

A noite estava quente e cheia de estrelas, como sempre acontece nas noites do cerrado. Minha amiga Salete convidou empresários, vereadores, artistas e jornalistas da cidade para fazerem parte do júri do concurso e a decoração do lugar ficou a cargo das próprias bichinhas que, durante a tarde, enfeitaram o lugar em que, à noite, desfilariam. 

Eram seis as concorrentes ao cetro, ao manto e à coroa de 1ª Miss Gay de Barreiras, quase uma Rainha da Soja Gay. As duas mais cotadas eram La Negra, um cozinheiro queridinho das mulheres que precisavam de uma mão da cozinha (e de homens que precisavam de outras coisas) e sua maior rival, Kátia Flávia, um estudante que não sei bem o que fazia além de rebolar pela cidade e flertar muito nas festas e carnavais. Dizia-se que Kátia Flávia já tinha passado por metade das camas, sofás e assentos de camionetes e de tratores da cidade. La Negra ficaria com a outra metade.

A mestre de cerimônias da festa era Berê Brasil. Ela e Salete eram gaúchas e amigas inseparáveis. Todas as ideias de uma tinham o dedo da outra na execução e vice-versa. Onde uma delas idealizava, a outra realizava; onde uma delirava a outra puxava para o chão. E coube a Berê Brasil anunciar uma a uma as concorrentes e também o respeitável corpo de jurados, a fina flor da classe empresarial, artística e política da cidade.

As bichinhas desfilavam, animadíssimas, em traje de gala, em traje típico e, por fim, de maiô. Berê Brasil anunciava, com irreverência, seus nomes de guerra, suas profissões, as roupas que trajavam e seus sonhos, que sempre envolviam um marido rico. A plateia, animada pela bebida e pela velha rivalidade de La Negra e Kátia Flávia, aplaudia, vaiava, assoviava. Ninguém se lembrava da ameaça que pairava sobre a festa.

Nesse momento, como não poderia deixar de ser, houve um show breguíssimo, que envolveu uma mãe de santo conhecida do lugar e um ritual muito estranho que consistia nas seis bichas, vestidas de maiô arrancando, cada uma, um lenço colorido que formavam o vestido da mãe de santo que parecia mais uma cigana...tinha uma coisa a ver com sete saias ou sete véus, ou sete ruas...algo assim...tinha tambores e uma tigela de barro que alguém dançava segurando com fogo.

Foi quando os tiros começaram. Não dá para confundir tiros com outras coisas. De repente, a multidão estava incontrolável, gente correndo de um lado para o outro. Ninguém sabia para onde ir, pois os tiros vinham de todos os lados. 

Do alto da mangueira onde eu estava, consegui ter uma visão ao mesmo tempo privilegiada e dantesca: meus amigos caindo, outros correndo e tropeçando nas cadeiras que cercavam o palco; amigas de sandálias de salto tropeçando no chão formado de brita; jurados se escondendo debaixo das carteiras escolares que serviam de bancada; a mãe-de-santo (ou cigana), com os olhos esbugalhados, agarrada a uma das concorrentes de maiô, que gritava como uma louca; La Negra de peruca caindo para um lado, saltando, com agilidade surpreendente, por sobre as caixas de alto falantes, com um homem atrás com uma vara comprida batendo em suas costas. 

Foi quando vi que o alvo dos atacantes eram as bichas. Cada uma delas era perseguida por um grupo. A única bichinha que escapou foi a que se agarrou com a mãe de santo. As demais trataram de fugir dos agressores, algo que sabiam muito bem como fazer, pois era uma prática que aprimoraram com o tempo pela necessidade. 

Gritaria, tiros e correria. Foi quando percebi que o alto de uma mangueira não era o local mais seguro para ficar quando costumam dar tiros para cima. Sem pensar duas vezes, me atirei no chão e caí sobre uma cadeira de alumínio dobrável da Brahma que fez aquilo que essas cadeiras são fabricadas para fazer: dobrou sob o peso da minha perna, prendendo-a.

Nesse momento, vi Kátia Flávia passar ao meu lado sendo perseguida por dois homens com varas. Seu sapato alto quebrou uma tira e ela corria claudicando com um pé calçado e outro descalço. Era uma cena que poderia perfeitamente estar num filme de pastelão se não fosse toda a violência real envolvida. 

Meus olhos cruzaram com os de uma das amigas de Brasília que viajaram para ver a festa. Eu tentava, com o olhar, pedir-lhe desculpas por trazê-la de Brasília, aquele lugar civilizado, para o meio de selvagens. Ela me olhou com os olhos brilhando, faiscando de pânico e emoção. Não sabia de me amaldiçoava por trazê-la para aquele tiroteio ou me agradecia por fazê-la viver uma experiência inesquecível. 

Percebi que a segunda opção era a mais possível quando ela, que estava deitada no chão, puxou, discretamente, de debaixo do corpo, o sapato perdido por Kátia Flávia me dizendo sussurrando: “Essa aqui é a prova de que isso tudo existiu. Se eu não levar uma prova, ninguém em Brasília vai acreditar”.

Deixei minha amiga dando a “elza” no sapato de Kátia Flávia e corri para o palco para ver como estava minha amiga Salete. Imaginei como ela devia estar decepcionada, após tanto trabalho, tanto esforço e preparação, por ver sua festa destruída por um bando de arruaceiros.

Ao chegar ao palco vi uma cena que não entendi. Berê Brasil sacudia Salete pelos ombros e gritava alguma coisa com ela repetidas vezes no seu rosto. Não dava para entender o que falavam porque as duas gritavam ao mesmo tempo. Mas logo Salete parou de falar e eu pude ouvir o que dizia Berê, que foi o que acalmou a minha amiga.

Salete gritava repetidamente: _Ai Berê, as minhas meninas! Ai Berê, as minhas meninas! Ai Berê, as minhas meninas!

E só se acalmou quando compreendeu o que Berê dizia: _ Que meninas, Salete? É tudo macho!

OBS: Da última vez que soube, o sapato de Kátia Flávia decorava uma sala na sede da Caixa Econômica Federal, em Brasília.

3.2.13

A Gata


A veterinária nos havia dito que o parto aconteceria no máximo até o final de semana. Apesar de ser o seu primeiro parto, as gatas persas costumam corresponder ao que dizem as veterinárias regiamente pagas e a nossa era a maior especialista em gatos da cidade, ela própria com seis deles no seu apartamento de médio porte que dividia com a mãe idosa e a meia dúzia de felinos das mais finas procedências. Como era o caso da nossa bichana peluda de um azul aveludado.

Nós, ansiosos, nos revezávamos para nunca deixar a gata sozinha em casa naqueles últimos dias já que, como ela tinha um pequeno defeito na mandíbula, coisa pequena, de nascença, nem tínhamos notado isso quando a compramos ainda filhote e por quem pagamos uma pequena fábula, pois esse defeito a impediria de limpar a placenta dos filhotes e evitar que eles sufocassem após o parto. Estava tudo certo, passamos a sexta, o sábado e o domingo sem sair de casa ou saindo apenas um de cada vez. Mas passou o Faustão e o Fantástico e a nossa grávida nem tchum. Ela dormia no nosso quarto para emergências noturnas.

A segunda-feira chegou e teríamos que trabalhar, Mas a empregada estava orientada a ficar de olho na bichana. A qualquer sinal de parto ela deva ligar para um de nós dois que saberíamos o que fazer. Já havíamos lido todo o manual do parto dos felinos. A doméstica humana passou o dia inteiro de sobreaviso. Deixou sopa, cozido, feijão e o apartamento um brinco às seis da tarde. Eu chegaria às oito da noite. Não era possível que fosse esse o intervalo que a minha gata escolheria para parir.

Mas ao entrar na minha sala vi o rastro de sangue. O piso de mármore branco completamente sujo da placenta e os três filhotes mortos. Ela me olhava sentada ao lado do último cadáver. Eu olhava desolado para a cena com um tanto de nojo e perplexidade. Ela trazia nos olhos dourados uma resignação que eu não soube definir, mas não parecia abalada ou envergonhada. Como imaginávamos, ela não conseguiu limpar com a boca as vias respiratórias dos bebezinhos persas, nem comer a placenta. Morreram todos sufocados Deixaram um cheiro doce de sangue novo no piso de mármore branco.