26.5.26

20 LIVROS LIDOS DE JANEIRO A MAIO DE 2026




Continuo, pelo 7º ano a publicar breves resenhas dos livros lidos e divido as postagens em três blocos.

Aqui estão os 20 lidos de Janeiro a Maio deste ano. Esse número ficou na média dos lidos no mesmos cinco meses iniciais dos últimos anos (27 em 2019; 22 em 2020; 20 em 2021; 21 em 2022 e 14 em 2023; 16 em 2024 e 22 em 2025).

Mulheres, brasileiros e não-ficções continuam perdendo a batalha. Foram lidos apenas 1 livro de autora mulher x 19 de homens; 3 de brasileiros x 17 de europeus e norte-americanos e 3 de não-ficção x 17 romances.

1-A ASSUSTADORA HISTÓRIA DO SEXO – Terceiro livro que li de Richard Gordon. Assim como nos anteriores: A Assustadora História da Medicina e Os Grandes Desastres da Medicina, é divertidíssimo, e o autor nos conduz pela história da sexualidade humana, de forma picante e com leve toque de humor, apresentando a verdade por trás dos relacionamentos e hábitos sociais de personagens da história, abordando casos amorosos de personalidades históricas que não constam nos livros oficiais de História como a Rainha Elizabeth I e as várias especulações em torno de sua virgindade, os valores vitorianos, as doenças venéreas e muitas informações saborosas.

2-OS ÚLTIMOS CASOS DE SHERLOCK HOLMES – Este foi, apesar do título, o penúltimo dos nove livros publicados pelo escritor Arthur Conan Doyle com o seu personagem icônico, o detetive Sherlock Holmes que li. Agora só me falta o último desses nove livros.  Aqui temos Holmes vivendo em uma pequena fazenda criando abelhas e com reumatismo e relembrando casos importantes do passado, todos excelentes contos, entre eles: O Caso da Vila Glicínia, O Caso da Caixa de Papelão, O Caso do Círculo Vermelho, O Caso do Detetive Agonizante e O Caso do Pé do Diabo.


3-O FANTASMA -14º livro que li do autor de romances policiais norueguês Jo Nesbo e mais um mistério a ser desvendado pelo trágico e genial detetive alcoólatra Harry Hole.  Nesta obra, que continua a série, Harry carrega uma enorme cicatriz no rosto e uma prótese de titânio num dos dedos. Quando Oleg, filho da sua ex namorada Rakel, é preso como o principal suspeito de um homicídio. Hole decide investigar o mistério já que ele não aceita que o rapaz que ajudou a criar seja um assassino numa Oslo infestada pelo tráfico de drogas de uma substância altamente viciante chamada violino num ambiente de corrupção, assassinatos e jogos de interesses.


4-AS VINHAS DA IRA – Segundo livro que li do autor americano  John Steinbeck depois de Ratos e Homens. Considerado a obra-prima do autor, rendeu-lhe o Prêmio Pulitzer e o Nobel. Steinbeck, durante a Grande Depressão, mesmo não sendo comunista, foi acusado de  sê-lo, ao pondo de o livro ser  queimado e banido das escolas e bibliotecas.  A obra tem início quando Tom Joad deixa a prisão e, chegando em casa, descobre que toda a família e os vizinhos estão deixando as terras, expulsos por bancos que compraram as fazendas de agricultores falidos. A família parte para a Califórnia na esperança de encontrar trabalho após vender todos os pertences em troca de poucos dólares e a história se desenvolve durante este terrível périplo em que o sonho americano é apresentado como um horrível pesadelo.

5-O CLUBE DO CRIME DAS QUINTAS FEIRAS  – Primeiro livro que li do autor Richard Osman e que recentemente virou uma série da Netflix com um elenco de estrelas formado por Pierce Brosnan, Helen Mirren, Ben Kingsley entre outros. Uma história divertida sobre um clube formado por velhinhos que moram em um condomínio de luxo para aposentados na Inglaterra e que se reúnem para resolver crimes jamais solucionados pela polícia. Os velhinhos são bastante interessantes, mas a história me pareceu um tanto confusa com um pouco de idas e vindas ao passado e umas mortes meio forçadas. O autor lançou algumas continuações, mas confesso que não tenho interesse em me aventurar mais nesse universo.


6-O RIO QUE ME CORTA POR DENTRO – Primeiro livro que li do brasileiro Raul Damasceno e que me agradou imensamente com uma prosa rápida e lírica. É pequeno mas caudaloso e intenso, unindo  delicadeza e agressividade.  Uma história de separação, dores, frustrações, desejo e descoberta do amor e da sexualidade, com muitas feridas emocionais. Cícero é um rapaz  mergulhando na ausência materna no interior do Ceará e que é criado pelos avós. Sua mãe mora em Fortaleza e trabalha como doméstica e apenas uma vez por ano visita o filho. Nesse universo partido, ele descobre o carinho do vizinho Luzimar, seu melhor amigo de infância, mas esse amor é, ao mesmo tempo, alívio e nova fonte de sofrimento . Uma das melhores leituras do ano.

7-A ÚLTIMA MULHER – Esse foi o segundo livro que li do escritor brasileiro de romances policiais Luiz Alfredo Garcia-Roza depois de Berenice Procura. Nessa história temos novamente o delegado Espinosa, personagem de vários livros do autor, numa investigação envolvendo os exploradores de mulheres Rato e Japa, no bairro da Lapa. Quando um violento policial decide chantagear o cafetão Ratto, ele desaparece, mas sua namorada Rita, uma prostituta jovem e  inteligente, vê-se em meio a uma caçada pelas ruas e becos escuros da cidade. O delegado Espinosa entra no caso quando começam a surgir mulheres mortas com crueldade.  Não gostei muito da história e não me ambientei muito no universo retratado da marginalidade e boemia cariocas. Não que o universo não me agrade mas não me pareceu bem construído. Não achei que o celebrado delegado Espinosa se sai muito bem dessa investigação, pelo contrário.

8-O PLANETA DOS MACACOS – Primeiro livro que li do autor francês Pierre Boulle e que se tornou uma das mais bem sucedidas histórias de ficção científica após várias adaptações. No ano de 2.500, astronautas da Terra chegam a um planeta dominado por macacos evoluídos onde seres humanos são selvagens tratados como animais.  O protagonista, o jornalista Ulysse Mérou, é capturado por gorilas e levado para um laboratório onde humanos são utilizados em experimentos científicos. No cativeiro, o jornalista entra em contato com cientistas chipanzés que tentam entender o funcionamento do cérebro humano tão diferente dos demais. O final do livro é diferente do final do filme em que vemos o personagem de Charlton Heston encontrando a Estátua da Liberdade tombada numa praia, mas também consegue ser surpreendente e original.

9-AS ORIGENS DO TOTALITARISMO – Primeiro livro que li da filósofa mais influente do século XX, a alemã Hannah Arendt. Uma aula magna com mais de 800 páginas sobre a história do antissemitismo, do imperialismo e sua influência nos  regimes totalitários. Para ela, antissemitismo, pensamento racial e novo imperialismo, lançaram as bases para o totalitarismo no século XX.  No trecho em que relembra o papel do escritor Émile Zola na defesa do capitão judeu Alfred Dreyfus em 1898 citando o estadista Georges Clemenceau: “Já houve homens que resistiram aos mais poderosos monarcas e se recusaram a inclinar-se diante deles, mas tem havido poucos capazes de resistir à multidão, e sozinhos enfrentar as massas mal orientadas, de encarar desarmado o seu implacável frenesi e, de braços cruzados, ousar dizer não!, quando o que a massa exige é um sim. Esse homem foi Zola”

10- OS TRÊS MOSQUETEIROS – Quarto livro que li do escritor francês Alexandre Dumas após O Conde de Monte Cristo, O Colar da Rainha e da sua Biografia Literária de Napoleão Bonaparte. Este livro, com mais de 700 páginas, publicado originalmente como folhetim em 1844 e extremamente adaptado para as telas, descreve as aventuras dos conhecidíssimos Athos, Porthos, Aramis e d’Artagnan que entraram para a Literatura como uma das amizades mais leais já contadas e que se passa na França durante o reinado de Luis XIII, com subtexto histórico em que são personagens o poderoso Cardeal Richelieu e a rainha Ana da Áustria. Esqueça as adaptações juvenis. Apesar do caráter aventureiro, os mosqueteiros frequentemente não são sempre heróis, mas apresentam alguns defeitos, sendo vaidosos, mulherengos e briguentos.

11-WALKING DEAD - A ASCENÇÃO DO GOVERNADOR – Série pós-apocalíptica de Robert Kirkman e Jay Bonansinga, adaptada com sucesso para as telas, e que apesar de possuir os sete volumes, comecei, por engano, a ler a partir do volume 3 A Queda do Governador. Ao descobrir o erro, já tinha terminado o livro de que gostei muito. Então decidi ler o volume 1 - A Ascensão do Governador. Pensei: "esse personagem que será o governador no livro 3 está tendo sua história contada aqui". Mas eis que a história consegue me surpreender como se ela soubesse que eu tinha lido antes o livro 3. Não era o que eu estava pensando. A história começa algumas semanas depois de o mundo colapsar com as pessoas sendo transformadas em zumbis que vagam pela terra. Assustados, os irmãos Brian e Phillip e a filha de um deles de apenas 7 anos, lutam para sobrevier no meio do caos saqueando casas para achar mantimentos e abrigo, passando fome e medo. Aqui descobrimos como o ameaçador vilão na história foi moldado.

12-A SOMBRA DO VENTO – Primeiro livro que li do escritor Carlos Ruiz Zafón. Esperava muito mais, após tantos elogios publicados. Primeira parte da tetralogia: O Cemitério dos Livros Esquecidos. Não me animei para ler os volumes seguintes. O cenário é Barcelona após a Segunda Guerra Mundial. Daniel, de 11 anos e criado amorosamente pelo pai livreiro, leva-o para conhecer o misterioso Cemitério de Livros, onde toda obra literária abandonada espera um leitor. Daniel se encanta pelo romance A Sombra do Vento e fica obcecado pelo autor Julian Carax. Ao procurar outras obras dele e descobrir que alguém estava queimando todos os seus livros, Daniel parte para uma investigação, conhece dezenas de personagens e atravessa lugares e a história de Barcelona. A busca o leva ao amadurecimento e a novos sentimentos. O texto não me encantou. Achei mal amarrado e com personagens demais .

13- A PACIENTE SILENCIOSA – Primeiro livro que li do autor Alex Michaelides e que fez grande sucesso há alguns anos, ficando por muito tempo no topo da lista dos mais vendidos.  A história gira em torno de uma famosa pintora que está num hospital psiquiátrico por ter matado o marido com quem ela levava uma vida perfeita. Desde sua prisão, ela não diz uma só palavra até que um psicoterapeuta aparece determinado a fazê-la falar e descobrir a verdade. À medida que se aprofunda na mente dela e investiga seu passado, segredos vêm à tona. O romance conduz a uma revelação surpreendente e perturbadora, que redefine toda a narrativa e a percepção de quem é a verdadeira vítima. A narrativa é contada em primeira pessoa pelo psicoterapeuta que quebra várias regras para conseguir descobrir a história de sua paciente. O tão falado plot twist do livro é bom, mas não me encheu tanto os olhos.

14- O CORAÇÃO DAS TREVAS- Primeiro livro que li do autor Joseph Conrad que ficou mais conhecido após a aclamada adaptação para o cinema por Francis Ford Coppola como Apocalypse Now. Uma novela publicada originalmente em três capítulos em 1899 e baseada em experiências do autor quando era marinheiro na África. Um mergulho excepcional e apaixonante com uma visão crua e extremamente crítica ao colonialismo europeu no continente africano. Acompanhamos, por meio da narrativa do capitão Charles Marlow, sua terrível experiência quando se candidatou para comandar um barco pelo rio Congo onde teria a missão de localizar o misterioso Kurtz, desviado da sua função de coleta de marfim para o governo belga.

15- ÓPERA DOS MORTOS- Primeiro livro que li do autor brasileiro Autran Dourado e que considero um dos melhores da vida. Fico impressionado por este autor tão premiado não ter a merecida relevância nos dias atuais. Essa obra prima foi lançada no fim dos anos 60, mas continua pouco comentada. O autor foi premiado com as láureas mais importantes da Literatura Brasileira como os prêmios Camões, Jabuti e Machado de Assis, além de ter sua obra reconhecida pela Unesco como obra representativa da literatura universal.  A história se passa no interior de Minas Gerais focada na decadência de uma família mostrando a terceira geração que habita um antigo e imponente casarão centenário. Linguagem com narrativa polifônica com fluxo de consciência que permite um mergulho inebriante e fantástico.

16-O FIM DE EDDY- Primeiro livro que li do badalado autor francês Édouard Louis e seu romance de estreia cujo estilo se insere no que recentemente passou a ser chamada auto-ficção. Acompanhamos as dificuldades da infância do jovem autor com a descoberta conflituosa da sua homossexualidade numa família disfuncional e  violenta num vilarejo da França. Chamou-me atenção os momentos em que o autor relata as cenas de frequentes bullings que sofreu de colegas e como isso o marcou profundamente, sobretudo a vergonha de apanhar e ser humilhado em público, refugiando-se todos os dias num lugar onde apanhava em segredo e a sensação de ser cúmplice desses espancamentos. Anos depois, descobre quão pouco isso significou para os espancadores que nem lembravam desses episódios, sendo que Eddy lhes consagrava todos os seus pensamentos e angústias desde que acordava.

17-O LEITOR – Primeiro livro que li do autor Bernhard Schlink que ficou muito famoso após a adaptação para o cinema com Kate Winslet (que ganhou o Oscar pelo papel) e Ralph Fiennes como protagonistas. A relação complexa entre Michael, adolescente de 15 anos, e Hanna, mulher 21 anos mais velha, na Alemanha pós-guerra. Na primeira parte, acompanhamos a descoberta do sexo e a paixão pela literatura do casal. Na segunda parte, anos depois, Michael assiste ao julgamento de Hanna por colaboração com o nazismo. Achei a narrativa frouxa, apesar do tema delicado. Incomodou-me a dificuldade do autor (e do seu narrador, convenientemente), em abordar as motivações da personagem de Hanna. Isso fica evidente no seu último encontro, onde ela lhe responde sobre o passado: “Não importa o que eu penso. Não importa o que eu sinto. Os mortos continuam mortos”. Pelo contrário, nós os leitores, precisaríamos saber o que ela pensa. Sua não versão seria como a falta da versão de Capitu em Dom Casmurro, com a diferença fundamental de que Machado de Assis faz a ausência da versão  feminina gritar, expondo o descrédito do narrador enquanto no Leitor a falta da versão de Hanna é uma óbvia uma limitação literária.

18- CADERNOS DE LANZAROTE - 
15º livro que li do prêmio Nobel português José Saramago (após 
Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio Sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Caverna, O Homem Duplicado, Ensaio Sobre a Lucidez, As Intermitências da Morte, A Viagem do Elefante, Caim e Claraboia). Esses diários que o autor escreveu ao longo de vários anos em que viveu na ilha de Lanzarote, serão melhor aproveitados pelo leitor mais familiarizado com as suas obras. Aqui ele relata seu cotidiano ao lado da companheira Pilar, narra suas viagens pelo mundo, coleciona suas correspondências com amigos (como Jorge Amado de quem foi muito próximo), suas teses sobre o comunismo e ateísmo, suas premiações, sempre com um insuperável bom seu característico bom humor e pessimismo humanista.    



19 e 20 - DESESPERO E OS JUSTICEIROS– Esses foram respectivamente o 51º e 52º livros que li do mestre do terror Stephen King. O primeiro tem excelente narrativa, personagens bem construídos e história arrepiante. A clássica luta do bem contra o mal que ultrapassa o terror e discute a natureza da bondade e da maldade. Com mais de 560 páginas, a história flui como uma estrada que é o ponto de partida da trama. Desespero é o nome da cidade em que se passa a história onde um estranho policial sequestra e prende viajantes numa rodovia. O mistério envolve uma antiga mina onde morreram vários chineses soterrados há anos e artefatos malignos operados por uma entidade sobrenatural chamada TAK com poderes extraordinários e que se alimenta da dor e do sofrimento. Minha surpresa se deu na leitura do livro seguinte. Os Justiceiros, com metade do tamanho, é um espelho de Desespero como uma espécie de multiverso em que vemos quase todos os personagens do primeiro livro em situações diversas, mas estranhamente familiares. King deixa o início propositalmente confuso quando seis vans muito estranhas aparecem numa rua de uma cidade de Ohio e começam a atirar nos moradores. Aos poucos, descobrimos que a entidade TAK voltou e tudo pode acontecer com a mesma tensão e as mesmas mortes horríveis de que tanto gostamos nas páginas de Stephen King. Detalhe: eu havia abandonado a leitura desse livro até ler Desespero, quando tudo se encaixou e me trouxe de volta ao fantástico Os Justiceiros. As duas capas formam uma só imagem.