Showing posts with label Palma de Ouro. Show all posts
Showing posts with label Palma de Ouro. Show all posts

5.11.25

49ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

Há 23 anos bato ponto na maratona de filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Este continua a ser, como todos os anos, o ponto alto das minhas férias.

Sempre compro passaporte para 40 filmes, o que continua a ser vantagem, já que, por R$ 440,00 pagos antecipadamente, acabo pagando o equivalente a R$ 11,00 por filme (caso assista aos 40) — menos do que o valor da meia-entrada durante a semana. É possível ainda reservar o filme com 5 dias de antecedência e evitar risco de ingressos esgotados, o que acontece muito com os mais concorridos.

A correria é grande, e muitas vezes o cansaço bate, impedindo que eu veja todos os filmes desejados. Este ano foram exibidos 350 filmes de 80 países, em 15 dias (mais os dias da repescagem) em mais de 50 salas. Houve mais de 20 produções brasileiras inéditas e dezenas de filmes premiados em festivais como Cannes, Berlim, Veneza, San Sebastian, Tribeca, Roterdam, Locarno, Sundance, entre outros.

Vi 30 filmes no total. No ano passado, vi 31 (perdi os outros por pura exaustão). Assim, acabei pagando R$ 15,60 por cada filme — uma pechincha. Este ano dei a sorte de ter assistido à maioria dos vencedores da Mostra, algo que normalmente não acontece, pois todo ano os premiados são justamente os filmes que acabei perdendo. Aqui está uma breve avaliação dos 30 filmes a que assisti ordenados por preferência. Triste, mas os três piores foram justamente três produções brasileiras.

DJ AHMET-Prêmio Especial do Juri da Mostra. O jovem pastor Ahmet tem 15 anos e vive numa distante e isolada aldeia muçulmana na Macedônia do Norte. Ele encontra refúgio na música, enquanto lida com as expectativas do pai, a doçura do irmãozinho, que o venera, a rigidez da comunidade conservadora e sua primeira experiência com o amor por uma jovem prometida a outro homem. Vencedor do Prêmio do Público e do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance. Trilha sonora encantadora e atuação impecável do jovem ator Arif Jakup. O Hollywood Reporter elogiou as "atuações sólidas e naturalistas" do elenco, com atenção especial para Jakup, e afirmou que ele "tem uma qualidade elegante e agradável ao público. O filme critica de forma divertida certos costumes muçulmanos, mas nunca de maneira depreciativa.


THE PRESIDENT CAKE-Vencedor do Prêmio do Juri da Mostra de Melhor Filme. No Iraque dos anos 1990, em meio à guerra e à falta de comida, o presidente Saddam Hussein determina que todas as escolas do país façam um bolo em homenagem ao seu aniversário. Lamia, de apenas 9 anos, tenta escapar da tarefa, mas acaba sendo escolhida entre os colegas. A menina precisa recorrer à sua criatividade para conseguir os ingredientes e cumprir a missão de preparar o bolo imposto pelas autoridades. Vencedor do prêmio Caméra d’Or para melhor filme de diretor estreante em Cannes e do prêmio do público da Quinzena dos Cineastas, também em Cannes. Encantador e potente. 

FELIZ ANIVERSÁRIO-Filme egípcio em que a pequena protagonista ganhou o prêmio de melhor atuação dos filmes da Mostra. Ela é Toha, que trabalha como empregada doméstica e enfrenta contratempos para garantir que sua melhor amiga, filha de sua patroa, tenha uma festa de aniversário em troca de uma simples vela para fazer um pedido. Sem nunca ter celebrado o próprio aniversário, Toha assume a organização da festa e torna a celebração possível. Quando tentam impedir Toha de comparecer à festa, sua presença indesejada acaba revelando a outra face da família. Melhor filme, direção e roteiro internacional no Festival de Tribeca.

O AGENTE SECRETO-Excelente produção de Kleber Mendonça Filho. Filme premiado em Cannes pela direção e atuação de Wagner Moura. Em 1977, em Pernambuco, Marcelo é um especialista em tecnologia de pouco mais de 40 anos que está em rota de fuga. Ele chega ao Recife durante a semana do Carnaval para reencontrar o filho e descobre que está jurado de morte. Há tanto a se falar dessa película excepcional que nem ouso resumir em poucas linhas. O filme ainda fará uma belíssima e merecidíssima carreira internacional e ganhará ainda muitos prêmios. Mais um belo acerto do diretor pernambucano e do ator baiano.


FOI APENAS UM ACIDENTE-Um grupo de pessoas organiza um plano de vingança contra um homem que eles acreditam ser seu ex-torturador. Tudo começa quando um mecânico acredita que reconheceu seu torturador pelo som da perna protética que ele ainda ouve nos seus pesadelos. Determinado a se vingar, ele busca ajuda de outros prisioneiros para descobrir se o homem é mesmo o agente que o destruiu emocional e fisicamente. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. O diretor e roteirista Jafar Panahi foi ovacionado pelas plateias que lotaram todas as sessões do filme na Mostra. Ele ficou anos proibido de deixar o Irã e já foi vencedor da Mostra em 1995. É o favorito para o próximo Oscar de filme internacional.

NO CAMINHO-Veneno é um jovem errante e rebelde que frequenta lanchonetes de beira de estrada e faz sexo pago com caminhoneiros. Precisando urgentemente de uma carona, ele conhece Muñeco, um motorista duro e reservado. Ele convence Muñeco a levá-lo para dentro do universo hiper-masculino das longas rotas de caminhão pelo norte do México. Porém, conforme a viagem avança e uma intimidade inesperada surge entre eles, questões do passado de Veneno reaparecem, colocando a vida dos dois em risco. Vencedor do prêmio de melhor filme da seção Horizontes e do Leão Queer no Festival de Veneza. O filme é bastante cru e ousado, com cenas explícitas de sexo sem qualquer traço de leveza ou sutileza. Espetacular.

WHITE SNOW-O jovem e idealista Amir tem seu curta proibido na remota região montanhosa da Caximira após a denúncia do líder religioso local. O grande “erro” foi mostrar o sangue depois do parto. Logo, Amir é preso sob a acusação de incitar agitação social. Sua mãe arrisca a própria vida determinada a realizar o sonho do filho: munida de uma pequena TV e um aparelho de DVD, parte rumo a aldeias distantes para exibir o filme. Resiliente, Fátima segue viagem, observando em silêncio a generosidade dos outros e as condições sociais e econômicas que encontra. O percurso exaustivo, as situações de desespero e os fracassos a destroem física e mentalmente. Até que um acontecimento inesperado e devastador a transforma e liberta.


A HISTÓRIA DO SOM-Um jovem e talentoso estudante de música, Lionel, em 1917, conhece David, um colega inglês num conservatório de Boston onde eles se aproximam pelo profundo amor que compartilham pela música folk popular. Ambos partem para uma viagem pelo interior do Maine para coletar canções folk tradicionais. Este encontro inesperado, o caso de amor que nasce dele e a música que coletam e preservam vão influenciar o curso da vida de Lionel muito além de sua própria consciência. Elenco de primeira com a dupla Paul Mescal (dos perfeitos Aftersun e Todos  Nós Desconhecidos) e Josh O’Connor (dos também maravilhosos Rivais e La Chimera). 

E MAIS ALGUÉM-Tommy é um jovem gay de 17 anos que passa o verão em um emprego entediante na marcenaria do pai. Sua vida se transforma repentinamente quando descobre mensagens sexuais trocadas entre o pai e outro homem por e-mail. Dividido entre a lealdade e a sinceridade, Tommy se vê diante de um dilema que ameaça destruir sua família. Com a crescente tensão e diversos segredos vindo à tona, ele é forçado a enfrentar verdades difíceis e a encarar uma nova e mais complexa visão sobre o amor e o compromisso. O diretor, de carisma e simpatia acachapantes estava na sessão em que assisti ao filme e exultava de emoção.  

SIRÂT-Pai e filho chegam a uma rave nas montanhas do Marrocos à procura da filha e irmã que desapareceu meses antes em uma dessas festas intermináveis. Cercados por música eletrônica e por uma sensação crua e desconhecida de liberdade, eles distribuem a foto da jovem na esperança de achá-la. Os dois seguem um grupo exótico de frequentadores rumo a uma última festa no deserto. Conforme avançam por esse cenário escaldante, a jornada os obriga a confrontar seus próprios limites. Vencedor do prêmio do júri no Festival de Cannes. O filme foi exibido juntamente com o curta-metragem "Como Fotografar um Fantasma" de Charlie Kaufman.

À PAISANA-Lucas é um jovem policial gay no armário que trabalha disfarçado num shopping para prender homens no banheiro por atentado ao pudor depois de seduzi-los até que conhece o padre casado Andrew (o belo ator britânico Russell Tovey, da série gay Looking). Esse vínculo secreto se intensifica enquanto a pressão da polícia para novas prisões aumenta, deixando Lucas dividido entre o dever e o desejo. Com o tempo se esgotando e o passado em seu encalço, a celebração de Ano-Novo em família vira um acerto de contas no qual tudo o que foi reprimido ameaça vir à tona. Vencedor do prêmio especial do júri para o elenco do filme do Festival de Sundance.

GARÇA AZUL-Na década de 1990, um casal com seus quatro filhos se muda para a Ilha de Vancouver, enquanto as dinâmicas internas vão sendo lentamente reveladas pelas experiências da filha caçula. Essa tentativa de recomeço da família é ameaçada pelo comportamento cada vez mais perigoso de Jeremy, o filho mais velho portador de uma condição mental semelhante a esquizofrenia. Vencedor do prêmio de melhor primeiro filme no Festival de Locarno e menção especial no Festival de San Sebastián. Quem já conviveu, como eu, com um parente com esquizofrenia entende perfeitamente bem o drama da família.

RIVERSTONE-Excelente filme do Sri Lanka mostrando como a polícia lida com suspeitos de terrorismo que são mortos sob custódia policial em suposta troca de tiros. O filme é um road movie em que três policiais transportam num carro um homem que será executado secretamente com promessas de possíveis promoções como incentivo. O filme discute as reflexões e preocupações dos policiais enquanto viajam para o assassinato de um suspeito com quem não têm absolutamente nenhum conflito pessoal. Vencedor dos prêmios de melhor roteiro e fotografia do Festival de Xangai.

RAINHA DO ALGODÃO-No Sudão, em uma vila de produtores de algodão, Nafisa é uma adolescente que cresceu ouvindo as histórias heróicas da luta contra os colonizadores britânicos, contadas por sua avó, matriarca do lugar. Com a chegada de um jovem empresário com um novo plano de desenvolvimento e algodão geneticamente modificado, Nafisa se vê no centro de um jogo de poder que determinará o futuro do local. Tomando consciência de sua própria força, ela tenta salvar os campos de algodão — e a si mesma —, em uma jornada que transformará para sempre sua vida e sua comunidade.

MASPALOMAS-Vicente, com 76 anos, assumiu sua homossexualidade e deixou esposa e filha aos 50, passando os últimos 25 anos feliz com seu companheiro em Maspalomas, nas Ilhas Canárias em uma série interminável de festas gays com muita orgia sexual em praias paradisíacas, mas quando sofre um derrame se depara com uma realidade inesperada: foi transferido para uma casa de repouso conservadora no País Basco. Ele decide não falar da sua orientação sexual e aos poucos retorna ao armário, renunciando a tudo que lutou tanto para conquistar. Vencedor do prêmio de melhor atuação, para José Ramón Soroiz, e do prêmio Sebastiane no Festival de San Sebastián.

UMA SEGUNDA VIDA- Elisabeth é uma americana com deficiência auditiva que vive em Paris e com o visto prestes a expirar e aceita um trabalho exaustivo como concierge de Airbnb para continuar na França. É então que conhece Elijah, um californiano de espírito livre. Contra a sua vontade, ela precisa atravessar Paris ao lado dele, justamente durante a complicada cerimônia de abertura das Olimpíadas. No elenco, o excelente ator britânico Alex Lawther, visto em ótimas atuações em O Jogo da Imitação e Black Mirror

ROSEMEAD-Numa corrida contra o tempo, uma mulher com câncer avançado vê seu mundo desmoronar ao descobrir as obsessões violentas de seu querido filho adolescente e ter que ir aos extremos para protegê-lo neste retrato de uma família sino-americana. Inspirado em fatos reais. Com a atriz Lucy Liu (Kill Bill e As Panteras) que vive o drama de estar próxima da morte, com o filho prestes a alcançar a maioridade e poder ser preso a qualquer momento sem qualquer parente para ajudar. Vencedor do prêmio do público no Festival de Locarno. 

URCHIN-Mike, um morador de rua em Londres, se vê preso em um ciclo de autodestruição enquanto tenta mudar de vida. Uma história crua e absurda sobre os estranhos padrões que nos impedem de seguir em frente. O filme retrata com crueza a vida dos viciados, ex-presidiários e desabrigados, bem como a boa qualidade do atendimento feito pelo sistema de seguro social britânico. Vencedor dos prêmios da crítica e de melhor ator, para Frank Dillane, na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes.

BLUE MOON-O lendário letrista gay Lorenz Hart, convivendo com uma crise criativa, está num bar de Nova Yorque enquanto seu antigo parceiro Richard Rodgers comemora a estreia triunfal de seu revolucionário musical “Oklahoma!”. Do diretor Richard Linklater, com seu ator fetiche Ethan Hawke (presente nos seus filmes Boyhood e a trilogia Antes do Amanhecer, Antes da Meia-Noite e Antes do Por do Sol). Vencedor do prêmio de melhor coadjuvante, para Andrew Scott (de Todos Nós Desconhecidos e Ripley) no Festival de Berlim. Só não gostei mais do filme pela sua excessiva verborragia, típico do diretor em todos os seus filmes, mas que aqui me incomodou um pouco talvez pelo cenário mais fechado.


CÃES-Um filme tipicamente argentino, o que sempre é sinal de qualidade de roteiro. Os Saldañas têm uma nova tarefa para aliviar o tédio do verão: cuidar da casa dos vizinhos que viajam de férias mas o desaparecimento do cachorro dos vizinhos desencadeia um confronto violento e de alta tensão psicológica entre essas duas famílias. Vencedor do prêmio de melhor atriz coadjuvante, para María Elena Pérez, no Festival de Cinema de Málaga.

SAUNA-Johan é um jovem que mantém todas as portas abertas quando se trata de amor e sexo. Ele é recepcionista em uma sauna gay de Copenhague, onde também vive encontros com os outros frequentadores. Ele aproveita sua sexualidade livremente em bares, festas e casos de uma só noite, mas quando conhece William, um homem trans, ele vivencia o amor. O relacionamento é colocado à prova, como costuma acontecer em uma sociedade com conceitos rígidos sobre gênero, amor e identidade. Imaginei que seria um filme que trataria da questão gay, mas fiquei bem impressionado sobre a relevância do debate sobre preconceitos entre gays e trans.

QUEERPANORAMA-Um jovem homem gay em Hong Kong se faz passar pelos diferentes homens com quem já fez sexo e leva essas novas personas para seus próximos encontros. Apenas fingindo ser outra pessoa ele consegue ser realmente ele mesmo. Achei muito interessante a questão da identidade e os diálogos em que os parceiros abordam suas experiências e expectativas pessoais. Uma boa história com ponto de vista criativo.

FRANKENSTEIN-Victor Frankenstein, cientista brilhante, dá vida a uma criatura em um experimento monstruoso que acaba levando à ruína tanto do criador quanto de sua trágica criação. Uma releitura do  clássico de Mary Shelley pelo diretor Guillermo del Toro. No elenco os atores Oscar Isaac, Christoph Waltz e Mia Goth. Inegavelmente, fotografia, figurino, desenho de som e cenografia são muito marcantes, mas não me agradou muito a opção do diretor de narrar o filme mesmo que seja uma boa ideia usar a versão do médico e da criatura mas ainda não vi necessidade de narração.

DRUNKEN NOODLES-Adnan, um jovem gay estudante de arte, chega a Nova York para cuidar de um apartamento durante o verão. Ele faz estágio em uma galeria que exibe a obra de um artista mais velho e pouco convencional que conheceu há algum tempo. Enquanto momentos do presente e do passado começam a se entrelaçar, uma série de encontros — tanto artísticos quanto eróticos — desestabilizam a realidade de seu cotidiano.

BUGONIA-Dois jovens obcecados por teorias da conspiração sequestram a poderosa CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é uma alienígena com a intenção de destruir o planeta Terra. Mais um filme do não convencional diretor grego Yorgos Lanthimos. Talvez este seja o filme menos estranho do diretor de Pobres Criaturas, A Favorita, O Lagosta, Tipos de Gentileza e O Sacrifício do Cervo Sagrado. Gostei mais da interpretação de Jesse Plemons do que Emma Stone. Não gostei tanto deste filme.

CIDADE SEM SONHO -Uma história sobre ciganos me atraiu para o filme por não ser algo que se vê frequentemente. Toni é um cigano de 15 anos que vive no maior assentamento irregular da Europa, nos arredores de Madri. Orgulhoso de pertencer à sua família de sucateiros, ele acompanha o avô por todos os lados. Mas, à medida que as demolições se aproximam do terreno onde moram, e com o avô disposto a tudo para permanecer ali, Toni terá de decidir o que deixar para trás e o que sacrificar. Vencedor de melhor roteiro na Semana da Crítica do Festival de Cannes.


DRACULA-Longuíssimo filme de quase 3 horas da Romênia. Uma mistura de histórias do passado e presente sobre o mito de Drácula: uma caça a vampiros, zumbis e Drácula interrompendo uma greve, um conto de ficção científica sobre o retorno de Vlad, o Empalador, uma adaptação da primeira novela romena sobre vampiros, um romance trágico, um conto popular vulgar, histórias kitsch geradas por inteligência artificial. Achei longo e chato com exagerado e fraco uso da IA. Primeiro filme romeno de que não gosto.

ATO NOTURNO-Um ator ambicioso e um político em ascensão vivem um caso gay em sigilo e descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. À medida que se aproximam da fama, mais intenso se torna o desejo de se colocarem em risco. Filipe Matzembacher, Marcio Reolon são os diretores e estavam na sessão a que assisti ao filme. Já havia visto os filmes anteriores da dupla gaúcha (Tinta Bruta e Beira-Mar) sempre abordando o universo gay mas achei que a premissa dessa filme foi muito forçada.

RUAS DA GLÓRIA-Gabriel, um professor gay se muda de Recife para o Rio após a morte da avó querida. Assim que chega na cidade, se apaixona por Adriano, um misterioso garoto de programa uruguaio. Ele também faz novos amigos: uma mulher trans, dona de uma boate gay e sua trupe. Quando Adriano some, Gabriel começa uma jornada de investigação que o faz adentrar cada vez mais o mundo dos garotos de programa e da vida noturna das ruas da Glória. Inicialmente, achei a coreografia dos encontros sexuais muito boa, mas aos poucos foi se tornado repetitiva.

AURORA 15-Uma tentativa canhestra de fazer um filme brasileiro de terror. Praticamente todos os que vi do gênero falham miseravelmente. Um jovem casal prestes a assinar o contrato da casa dos sonhos recebe a invasão do local por um velho e sua filha adolescente seguidos de dois homens buscando matar a moça antes que anoiteça. Logo a noite logo chega e a menina já não possui mais a forma humana. Elenco global: Carolina Diecknann, Humberto Carrão, Juliano Cazarré, Marjorie Estiano e Milhem Cortaz. Não entendo como um filme tão ridículo consegue ter Rodrigo Teixeira da RT Features como produtor.


8.10.19

CORINGA E BACURAU


“Sangue sobre o asfalto e sob o sol do sertão”

             
Se algo liga a poeira do sertão de Bacurau ao asfalto da Gothan City do Coringa são a vingança como ética e a sujeira como estética. Mas há tantas camadas de interpretação das duas películas que é pretensioso avaliar os aspectos que elas têm em comum. Já peço desculpas pela veleidade.

Os rastros de sangue do massacre final de Bacurau e as pegadas sanguinolentas do Coringa no manicômio Arkham marcam uma catarse histérico-coletiva e são os epílogos dos dois filmes. O primeiro, ganhador do Prêmio do Júri do Festival de Cannes; o segundo, vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza.

Há a influência inegável de cineastas geniais como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez sobre Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles nos planos de Bacurau, nos seus diálogos e na própria ausência de um núcleo dramático definido.

E se Bacurau é um duplo twist carpado na carreira dos realizadores dos inspirados Aquarius e O Som ao Redor, o mesmo se pode dizer da virada radical de estilo na direção de Todd Phillips, que antes de Coringa foi responsável pelos três Se Beber Não Case.
               
Assim como encontram-se registros tarantinescos em Bacurau, Coringa traz ecos de Martin Scorsese a Gus van Sant, os três diretores sintomaticamente ganhadores da Palma de Ouro: Tarantino por Pulp Ficcion (1994), Scorcece por Taxi Driver (1976) e Gus van Sant por Elephant (2003). Estamos todos imersos no universo da extrema violência.

Distópicos ambos, Bacurau se passa num nordeste de futuro indefinido enquanto Coringa é retratado num passado recente igualmente brutal. Não há qualquer intenção de pegar leve. Mesmo com uma paleta de cores pálida e lavada em ambos, o sangue será sempre vermelho vivo, seja derramado sobre o asfalto sujo de Gotham City, seja sob a canícula do sertão.

Está na moda falar em viés ideológico. O público nordestino que majoritariamente votou contra Bolsonaro é representado em Bacurau como vítima que se redime no final catártico, assim como em Coringa, os brancos pobres (os white trash*) resolvem a fatura na base do quebra-quebra indiscriminado contra “tudo que está aí”.

Apesar de se afastar um bocado da mitologia estrita do Homem Morcego, o assassinato de Thomas Wayne, consequência da catarse coletiva, gerará um Bruce Wayne/Batman também revoltado que, em uma roda do destino, levará os bandidos como o próprio Coringa para trás das grades. A violência produzindo mais violência.

Impossível não notar que a súbita aparição de um revólver nas mãos do palhaço Arthur Fleck é o estopim da selvageria, assim como a profusão de armas de fogo em Bacurau conduz ao morticínio. Quem se lembrar dos massacres em escolas, boates e igrejas nos Estados Unidos não estará longe de encontrar em comum uma revolta difusa de grupos que se sentem preteridos pela sociedade e que, como em Coringa, geram bandos de ressentidos (os mass shooters) que se vingam na base da bala e da carnificina indiscriminada. É gente que vota em Trump e em Bolsonaro, não?

Seria simplificar demais as coisas ver apenas por essa ótica e um dos méritos do filme de Todd Phillips é mostrar que a violência não parte apenas dos endinheirados e ricos, como os executivos que espancam o palhaço no metrô. Antes disso, o mesmo Arthur Fleck já levara uma sova de moleques delinquentes num beco escuro onde explode a violência.

Aqui se separam Bacurau e Coringa. Enquanto o primeiro deixa um travo amargo de chancela da brutalidade da vingança, o segundo, apesar de certamente estetizar o caos, nega a validação aos atos criminosos dos revoltados, até porque sem direção ou objetivo senão o próprio caos.

O acachapante Coringa me acompanhou por dias. Já sobre o sertão de um raso Bacurau, prefiro continuar com o de Guimarães Rosa: “O sertão é uma espera enorme”.

*White trash (lixo branco) termo em inglês usado para pessoas brancas de baixo estatuto social, pouca educação formal e dependente de serviço social. Grupo que é maioria em todas as classes sociais nos Estados Unidos (Fonte: Wikipedia)

11.11.16

FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO

Uma das minhas atividades favoritas é ir a cinemas e festivais de cinema, onde já cheguei a assistir cinco filmes seguidos e 50 filmes em 15 dias mas aplausos no final de filmes vi poucas vezes. Não é sempre que se ouve aplausos no final de um filme, em Salvador, então, é raríssimo. Isso aconteceu ao final do filme “Fahrenheit 11 de Setembro” , de Michael Moore.

“Fahrenheit 11 de Setembro” é um documentário-libelo extremamente critico ao governo Bush e teve ótima bilheteria no Brasil, país considerado em pesquisa da BBC como dos que mais odeiam os Estados Unidos. Os aplausos do espectadores refletem o espírito antiamericano raivoso que envolve as plateias não somente brasileiras, mas também mundiais.

O filme superou as estimativas, já elevadas para um documentário, com mais de 91 mil espectadores no final de semana de estreia do Brasil. Nos EUA, foi o primeiro documentário a ultrapassar a marca de US$ 100 milhões de bilheteira e ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O documentário anterior de Michael Moore, o excelente “Tiros em Columbine”, já havia ganhado um Oscar. 

Vai me doer muito dizer que o que vou dizer aqui, pois sou fã de Michael Moore, mas “Fahrenheit 11 de Setembro” não é tão bom e não merecia a Palma de Ouro. Ele, na verdade, se revela uma peça de propaganda com qualidades e defeitos. Mesmo a gente gostando do diretor, tendo simpatia e torcendo por ele na sua ferrenha luta contra Bush, o filme não é uma obra-prima e, falando a verdade, seu sucesso deve-se muito ao seu co-protagonista, nosso inimigo favorito, George W. Bush.

Há filmes-propaganda que são artisticamente inovadores, como os que a diretora Leni Riefenstahl fez para o Congresso Nazista de Nuremberg (Triunfo da Vontade) e para as Olimpíadas de 1936 em Berlim (Olympia). A qualidade daquelas películas resistiu aos anos de execração da crítica e hoje são peças de arte que não perderam a aura de beleza nem ficaram datadas. 

Um dos seus principais defeitos é que, diferentemente de “Tiros em Columbine”, ele parece ter sido feito as pressas para aproveitar as eleições americanas. Há muitos momentos desiguais, alguns engraçados e inspirados, outros sensacionalistas e cansativos.

Toda a parte dos votos fraudados da Flórida é ótima e a sequencia de Bush numa sala de aula infantil, por intermináveis sete minutos, abobalhado após receber a notícia do segundo avião (ele já sabia do primeiro) é divertida e, ao mesmo tempo, chocante. A narrativa de Moore ao fundo é deliciosa.

Mas o filme fica didático quando esmiúça as relações da família Bush com os Bin Laden e os sauditas. Em seus livros: “Cara, Cadê O Meu País?” e “Uma Nação de Idiotas”, Best-sellers internacionais, Moore explica isso muito bem, mas a linguagem de cinema, mesmo documental, implica uma agilidade que um livro dispensa. Ser didático num livro-denúncia é mesmo um mérito, mas em cinema diferentes tipos de imagens com diversas texturas de películas para provar uma tese – fotos, jornais, TVs, VHS, 8 mm, 32 mm, infravermelho, etc. – cansam e confundem o espectador que não tem opção de fechar o livro para respirar, absorver as informações ou retornar ao parágrafo anterior.

O filme continua a se arrastar num longo e cansativo natal dos soldados americanos em Bagdá. Fica grotesco, mas ao mesmo tempo encorpado e forte quando mostra cenas chocantes de corpos de bebês iraquianos mutilados e a revolta de um pai segurando o corpo esfacelado da sua criança perguntando que culpa o garotinho tinha ou a revolta impotente da velha iraquiana, cuja casa foi destruída, chorando e gritando para o céu: “Onde você estava, Deus?”

As cenas da dupla de fuzileiros navais abordando jovens negros pobres para alistamento são tão surrealistas e imorais que merecia uma analise de um cientista social sobre o papel das forças armadas na sociedade americana. Os fuzileiros falam com a maior naturalidade sobre as abordagens como se planejassem um estupro. Moore, a seguir, reflete sobre como é extraordinário que justamente negros pobres, que sofrem com um governo discriminatório, aceitem ir a uma guerra em nome desse mesmo governo. Uma parte inspiradora do filme.

Alguns momentos são engraçados, mas constrangedores como as cenas em que Moore tenta convencer congressistas a alistar os filhos. O diretor informa que só um congressista tem filho na guerra, mas, infelizmente, essa é uma informação que esconde uma falsa estatística. Considerado o numero de famílias americanas, a percentagem de filhos de congressistas na guerra é maior do que nas famílias em geral. O que, obviamente, não torna essa guerra estúpida menos imoral.

A leitura feita por Moore do decreto patriótico, que os congressistas apoiaram sem ler, é uma imagem de propaganda que apesar de engraçada é inócua e apelativa. E é quase patética a cena da mãe do soldado morto chorando em frente à Casa Branca, bem como o uso que o diretor faz do soldado, que se recusa a servir no Iraque. O soldado faz uma pálida e triste figuração tornando-se mais um a ser usado por Moore. Por uma boa causa, mas usado.

Não estou entre os que se chocaram em ver Moore também usando e destroçando o já velho e encarquilhado Charlton Heston, presidente da conservadora Associação Nacional de Rifle dos EUA em “Tiros em Columbine”. Como já disse Nelson Rodrigues: “Os canalhas também envelhecem.”.


Apesar de tudo, “Fahrenheit 11 de Setembro” é um filme importantíssimo e necessário nestes tempos bicudos. Como diz na sua propaganda, não é um filme, é um evento. Mesmo com seus defeitos, o audacioso Moore tem já o mérito de erguer o gênero documentário, sempre relegado pelos estudos e espectadores, alçando-os as esferas dos grandes eventos cinematográficos.

31.1.13

Amor

O filme Amor é a mais recente película do diretor austríaco Michael Haneke, famoso pelo estilo seco, cru e duro com que apresenta ao público suas terríveis histórias, sem concessões ou adornos, mas com brutalidade algo sádica que lembra um pouco a crueza do dinamarquês Lars Von Trier. 

Aqui, Haneke conta sua história com um elenco formado pelos monstros do cinema francês Jean-Louis Trintignant (Um Homem, Uma Mulher), Emmanuelle Riva (Iroshima, Mon Amour) e Isabelle Huppert (A Professora de Piano).

Tenho a impressão de que a maioria das pessoas não leem boas críticas de cinema. A maioria diz que não quer ser influenciada pela opinião dos críticos. Então, se vê perfeitamente o que acontece nesses casos com o exemplo de Amor: salas repletas de pessoas de meia idade ou de jovens incomodados com o filme que aborda o drama de um casal de velhos em que o homem tem que lidar com o derrame e o definhamento físico e psicológico da esposa. 

Pessoas deixam as salas de tão mexidas pela história, ou por serem velhos e se anteverem próximos demais daquela realidade ou por serem ainda jovens demais para alcançar a dimensão trágica do que na tela se apresenta. Muitos, que ficam até o final, não escondem o seu desconforto ou o escondem para não parecerem insensíveis ou pouco inteligentes. 

Por que razão essas pessoas vão ao cinema? Por o filme ter sido ganhador da Palma de Ouro e do Globo de Ouro e estar indicado a cinco Oscar, inclusive melhor filme e melhor filme estrangeiro? Por que não leem as críticas? Suponho que se lessem saberiam que não é um filme pipoca nem um melodrama, mas um filme muito difícil, praticamente insuportável, o que não diminui a sua importância.

O filme não flui, como um córrego ou um rio, mas parece ter estagnado como uma lagoa traiçoeira e parece feder como um apartamento úmido e mofado. Com seus planos longuíssimos e poucos cortes ou movimentos de câmera, ele evolui muito lentamente, arrasta-se como um paquiderme, rumo ao desfecho antecipado na primeira cena: o horror a que estão condenadas todas as relações humanas de um modo ou de outro. Não há amor que resista à mixórdia de um corpo que se arruína e de uma mente que quase não está mais lá de tão deteriorada. 

Não há flores, lavandas ou amor que esconda o cheiro de um cadáver. 

Amor poderia ser só um filme, mas é mais um manifesto de Michael Haneke. O diretor não quer a cumplicidade da plateia, quer exibir uma ferida em carne viva: as relações humanas e sua deterioração lenta. Assim ele vem fazendo há anos com seus filmes assustadores como A Professora de Piano, A Fita Branca, Violência Gratuita e Cachê.

Não sei se o filme me acrescentou algo. Não sei se ele pretendia acrescentar. Talvez a sua seja apenas uma história como tantas outras, nem sei se merecia tantos prêmios, mas, inegavelmente, é uma grande coragem contar uma história assim num tempo em que a maioria das pessoas prefere ver casais de vampiros apaixonados. Talvez esse seja um filme dolorosamente necessário, como é necessário e doloroso espremer um furúnculo.

Emmanuelle Riva está indicada ao Oscar e merece o prêmio. Sua atuação é tão soberba e trágica, que se não levar a estatueta será porque a dor que transmite na tela incomoda ao ponto da repulsa. Aqui há uma contradição com a cena em que o personagem de Jean-Louis Trintignant diz à filha, personagem de Isabelle Huppert: “Nada disso merece ser mostrado ou exibido”. 

E, no entanto, estamos lá, na plateia a assistir tudo aquilo.