5.11.15

39ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

Mais uma Mostra Internacional de São Paulo chega ao final. A 39ª, mas a minha 14ª pois não tem programa marcado para outubro que substitua minha concepção de compromisso. Então, nenhum amigo resolva morrer ou se casar em outubro, pois estarei ocupado.

Como uma regra, novamente a Mostra premiou apenas filmes a que não assisti. Com mais de 300 opções, estou sempre escolhendo ver aqueles que os críticos não gostam ou eles só gostam dos que eu não vi ou não gostei.

Este ano não consegui bater minha maca de 51 filmes. Fiquei perto: 43. Destaco 3 obras primas e 3 bombas colossais. Duas delas produções brasileiras a que dou nota zero.



MEUS FAVORITOS: NOTA 10

DHEEPAN, O REFÚGIO - Produção francesa que venceu a Palma de Ouro no último festival de Cannes e que é dirigida por um dos melhores diretores europeus da atualidade, Jacques Audiard, que dirigiu os excepcionais A Ferrugem e o Osso e O Profeta. Aqui ele conta a história de um ex-soldado guerrilheiro do Sri Lanka que para escapar da guerra, foge para a França com uma jovem mulher e uma garota fingindo serr uma família. O trio acaba se estabelecendo em um projeto habitacional nos arredores de Paris. Eles mal se conhecem, mas tentarão construir uma vida juntos. O filme surpreende em três reviravoltas brilhantes na vida do protagonista.

DESDE ALLÁ - Coprodução da Venezuela e México e que venceu o Leão de Ouro no último festival de  Veneza. Um filme corajoso e que não teme falar de temas espinhosos e sem buscar ser politicamente correto. Conta a história tortuosa de Armando, um rico protético que atrai jovens de rua para sua casa com dinheiro. Ele não quer tocá-los, apenas observá-los para se masturbar. Ele também segue um empresário mais velho com quem parece ter tido uma relação traumática. O primeiro encontro de Armando com Elder, líder de uma gangue de rua, é violento, mas isso não diminui sua fascinação pelo belo adolescente. Interesses financeiros fazem com que o rapaz o visite com regularidade e uma intimidade inesperada surge entre eles. Mas o passado de Armando é motivo de preocupação, e Elder empreende o último ato de afeição por ele. Brilhante e doloroso.

SON OF SAUL - Um filme angustiante que venceu o grande prêmio do Júri do último festival de Cannes. Mostra 36 horas em 1944 em Auschwitz. Saul é um húngaro que integra o Sonderkommando, grupo de prisioneiros judeus forçados a ajudar os nazistas no extermínio em larga escala, trabalhando nos crematórios, Saul descobre o corpo de um garoto que acredita ser seu filho. Enquanto os membros do seu grupo planejam uma rebelião, Saul decide se lançar em uma tarefa impossível: salvar o corpo da criança das chamas, encontrar um rabino para rezar a oração do Kadish e dar ao menino um enterro apropriado. O grande destaque do filme, além do roteiro, é a opção da tela quadrada, reforçando a sensação de claustrofobia, e tomadas tendo apenas a perspectiva de Saul, ou tendo Saul sob perspectiva. Segundo críticos é a experiência mais aterrorizante que o cinema produziu em 2015. O diretor László Nemes declarou, apesar da consagração da crítica, que não espera sucesso comercial do seu filme, pois o público quer mesmo é comer pipoca e se divertir com "Velozes e Furiosos". Auschwitz não é Titanic, fuzila Nemes! Na mosca.

FILMES NOTA 9

MEMÓRIAS SECRETAS - Dirigido por um dos cineastas mais instigantes, o canadense de origem armênia Atom Egoyan, essa produção do Canadá e da Alemanha conta com os grandes Christopher Plummer, Martin Landau e Bruno Ganz no elenco e conta a história de Zev e seu melhor amigo, Max, que fazem um pacto para dedicar os últimos dias de suas vidas à conclusão de questões do passado: encontrar e se vingar do comandante nazista que matou suas famílias durante a guerra. Max está muito frágil para deixar o asilo, mas Zev, mesmo com Alzheimer, embarca em uma jornada para encontrar seu algoz. Um final que é uma obra prima do roteiro.

A ESTREITA FAIXA AMARELA - Produção mexicana do ótimo Guilhermo del Toro, o título do filme em espanhol é ainda mais belo:  “La Delgada Linea Amarilla” Um road movie clássico e perfeito que conta a história de cinco homens contratados para pintar a linha central de uma estrada que conecta duas cidades no México. Eles têm 15 dias para pintar 200 quilômetros debaixo de um sol escaldante. Os cinco homens solitários vão perceber que há uma fina linha entre o certo e o errado, entre risadas e choros, entre vida e morte. Um filme que nos primeiros minutos a gente pensa que não vai ter como sair uma boa história dali, na verdade parece que não vai sair história alguma, mas o filme cresce de um modo magistral. É perfeito. Uma obra prima.

ORAÇÃO DO AMOR SELVAGEM – Um filme brasileiro de baixo orçamento mas que consegue se sair muito bem apesar de uma direção de atores na minha opinião um pouco desleixada. Um dos personagens opta por uma interpretação quase caricatural, mas apesar disso o filme me agradou. Não sei porque dou 9, talvez não merecesse tanto mas vale muito pelas ótimas interpretações do sempre ótimo Chico Diaz e da excepcional Sandra Corveloni, que já foi premiada como melhor atriz em Cannes por Linha de Passe, de Walter Salles. A história real de um homem e sua filha pequena que desafiam os representantes das leis divinas no vilarejo onde vivem em Santa Catarina e partem em busca de liberdade. Mas o que poderia ser uma vida abençoada pela felicidade, torna-se um labirinto de ciúmes e violência. Só que nenhum deus pode impedir alguém de ser feliz. Um libelo contra a intolerância religiosa.

A JORNADA DE CHAKUSE – Uma divertidíssima comédia de fantasia japonesa com ótimos atores. Na vida após a morte, escritores ocupados estão criando cenários para a humanidade. O que eles escrevem dita o destino de todos. Chasuke, um servidor de chá celestial, está sempre fazendo o seu trabalho para garantir que os dramaturgos sigam em sua tarefa sem fim. Ele não pode evitar ouvir as conversas, e está especialmente interessado na história da jovem Yuri. Um comentário descuidado muda o destino dela em um acidente de carro fatal. Só Chasuke pode resgatá-la, voltando ao mundo físico.

NINGUÉM AMA NINGUÉM POR MAIS DE DOIS ANOS- Excelente filme nacional adaptação de textos de Nelson Rodrigues e perfeita reconstituição de época do Rio dos anos 60. O filme acompanha a vida de cinco casais, aparentemente convencionais, mas, na vida íntima, com as insatisfações e os desejos latentes fugindo do moralismo. Com ótimas atuações de Gabriela Duarte e Marcelo Faria.

FILMES NOTA 8

UMRIKA – Filme indiano protagonizado pelos atores adolescentes que se destacaram nos filmes As Aventuras de Pi e o Grande Hotel Budapeste. Mostra a vida numa pequena aldeia na Índia que se revigora quando um de seus habitantes viaja para a América (que eles chamam Umrika) e detalha sua jornada por meio de cartas, que provocam esperança e debate em seus conterrâneos. Quando essas mensagens param de chegar, Rama, irmão mais novo do aventureiro, decide sair em uma viagem para encontrá-lo. Com a ajuda de seu melhor amigo, Lalu, o rapaz refaz o trajeto do irmão para encontrar o seu próprio caminho.

O CULPADO – Filme alemão sobre abuso sexual e pedofilia na igreja. Um padre presencia seu colega e melhor amigo ser preso por suspeita de abuso sexual. O que ele descobre é como um teste crucial para sua fé e sua autoconsciência como sacerdote. Ele se revolta contra o silêncio dentro da Igreja e aprende uma lição: a Igreja é uma mãe e ninguém pode bater em sua mãe.

TERRA DE MINAS – Excelente coprodução da Dinamarca e Alemanha que conta episódios pouco conhecidos posteriores à rendição da Alemanha na 2ª Guerra, quando prisioneiros alemães são forçados a desarmar milhares de minas da costa do país. No comando do grupo está um sargento dinamarquês que, como muitos compatriotas, guarda rancor dos alemães após cinco anos de invasão. Ele desconta sua raiva nos prisioneiros até que um trágico acidente o faz mudar seu ponto de vista, mesmo que talvez seja tarde demais.

MAGALLANES- Filme vencedor do prêmio Cinema em Construção no último Festival San Sebastian na Espanha. Na capital do Peru, Magallanes reconhece uma passageira do seu táxi. Ela é uma jovem que ele conheceu há mais de 20 anos em circunstâncias completamente diferentes. Em busca de redenção, ele fará tudo o que puder para ajudá-la a superar a difícil situação pela qual está passando. O que ele não sabe é que ela prefere perder tudo a ser ajudada por ele.

10% MINHA FILHA-ISRAEL – Um filme lírico sobre o relacionamento entre Franny, de sete anos e Nico, de 28 anos, namorado de sua mãe. Para ficar com a mulher que ama, o rapaz tem que ganhar o coração da menina que o detesta. Eles precisam achar uma maneira de conviver, amar e odiar um ao outro. No filme, em nenhum momento é mostrada a mãe ou o pai da garota, apenas ela e Nico. 

A PARTEIRA – História real produzida pela Finlândia e Lituânia sobre a ocupação alemã na Lapônia, conflito entre Alemanha e a Finlândia no rescaldo da 2ª Guerra. Uma parteira finlandesa se apaixona por um oficial do serviço secreto alemão e por esse amor ela enfrenta seus próprios demônios e medos. Um filme que mostra que a força do amor é capaz de enfrentar todos os obstáculos. Imagens fortes do Holocausto judeu.

O NOME DO FILHO- Comédia italiana inteligente e divertidíssima que mostra um grupo de amigos de infância já adultos se reunindo para um jantar. O extrovertido corretor Paolo e a bela Simona, autora de um best-seller, estão esperando um filho. Em um jantar com um casal de esquerda, refinado e culto e um músico excêntrico, uma pergunta gera um debate que agitará a noite: o nome do bebê. Segredos íntimos e conflitos adormecidos são expostos em uma noite de catarse.

NOTA 7

ROSITA- Jovem pescador vice com seu pai, viúvo de meia-idade, em uma pequena cidade da Dinamarca. O pai sente falta do amor e do carinho de uma mulher e, assim como fizeram muitos homens da cidadezinha, providencia para que a bela jovem filipina Rosita seja enviada à Dinamarca. O filho se sente cada vez mais atraído pela nova companheira do pai e isto força o rapaz a assumir a responsabilidade por seus sonhos e por seu futuro.

KRISHA – Um bom filme americano tipicamente independente. Mostra o reencontro de uma família no feriado de Ação de Graças quando, após prolongada batalha contra o vício e a autodestruição, Krisha, a ovelha negra da família, volta para casa mas o encontro, que começa como uma comovente prova da capacidade que a família tem de perdoar, logo se transforma em um dilúvio emocional, com feridas e ressentimentos sendo expostos.

A JOVEM RAINHA – No século 17, a rainha Cristina da Suécia está determinada a modernizar seu país. Criada como um príncipe e sob uma rigorosa educação luterana, ela enfrenta resistência para acabar com a sangrenta Guerra dos Trinta Anos, entre protestantes e católicos. Ela se apaixona por sua dama de companhia e toma uma das decisões mais controversas da história. O personagem já foi retratado no cinema por Greta Garbo em 1933.

NOTA 6


AFERIM – Filme em preto e branco retrata a Romênia do século 19. Um policial e seu filho atravessam o país em busca de um escravo cigano foragido. O filme venceu o Urso de Prata de melhor diretor no Festival de Berlim e mostra como os ciganos sofreram uma brutal perseguição em um regime de servidão cruel na Europa.

BEIRA MAR- Filme brasileiro que mostra um fim de semana de dois adolescentes imersos em um universo próprio. Alternando entre distrações corriqueiras e reflexões sobre suas vidas e sua amizade, os garotos se abrigam em uma casa de vidro, à beira de um mar frio e revolto. Um filme sobre descobertas do amor na adolescência.

CRUEL-Filme francês que aborda a vida de um serial killer que trabalha meio período e vive em uma casa velha com o pai doente. Todos desconhecem sua existência. Suas vítimas são pessoas comuns. Homens e mulheres que vivem, trabalham e sofrem lado a lado, porém nunca de fato juntos, e que formam uma multidão perdida na cidade grande.

NOTA 5

GRANDE PAI, PEQUENO PAI E OUTRAS HISTÓRIAS- Produção do Vietnã. Saigon, início dos anos 2000. Um estudante de fotografia se sente atraído por seu companheiro de quarto, um pequeno traficante. Juntamente com uma dançarina, e os três desenvolvem uma relação cada vez mais ambígua. O filme não deslancha e apesar de boas cenas, se arrasta.


JONAS- Filme brasileiro protagonizado por Jesuíta Barbosa, novo queridinho do cinema nacional, com participação do cantor Criolo. Jonas tem uma paixão de infância pela filha da patroa de sua mãe. Na véspera do Carnaval, ele a sequestre e esconda no interior da baleia, carro alegórico da escola de samba do bairro. Nesse cativeiro, vivem uma história de amor impossível e ele é obrigado a negociar o sequestro, ajudado pelo irmão de 13 anos.

PERVERT PARK- Documentário americano sobre a experiência da Flórida Justice Transitions centro habitacional para 120 condenados por crimes sexuais. Essas pessoas não podem viver próximas de lugares frequentados por crianças. A comunidade retratada no documentário, conhecida também como “Pervert Park” é um exemplo do modo como a sociedade lida com os criminosos sexuais. Achei a visão do filme um pouco parcial

A FLORESTA QUE SE MOVE- O filme é uma interpretação de Macbeth, mas não consegue trazer nada de novo. Filme com cara de produção da Globo, excessivamente limpo, com produção e cenários elegantíssimos e atores globais como Ana Paula Arósio, Gabriel Braga Nunes, Ângelo Antônio e Nelson Xavier. O canastrão Fernando Alves Pinto fazendo suas caretas insuportáveis de sempre.

COMO GANAR ENEMIGOS- Filme argentino que não é, assim uma Brastemp, como costumam ser os filmes argentinos mas é divertido. Poderia ser mais bem resolvido. Certa tarde, Lucas conhece a mulher ideal: linda e leitora. Infelizmente, ela é uma ladra, e ele, uma de suas vítimas. Lucas acredita que alguém de seu entorno foi cúmplice do roubo e não vai descansar antes de descobrir.

NOTA 4

PARA O OUTRO LADO- Filme arrastado e chatinho. Esperava mais porque já havia assistido ao filme anterior do diretor japonês Kiyoshi Kurosawa (Sonata de Tóquio) e por ter sido vencedor do prêmio de direção da mostra Um Certo Olhar de Cannes. Yusuke, marido de Mizuki, afogou-se há três anos e repentinamente volta para casa. Ela, então, aceita ser levada por Yusuke em uma jornada inusitada.

TÚMULOS E OSSOS- Filme de terror islandês. Fui ver pelo inusitado. Nunca havia visto um filme com essa temática da Islândia, mas me decepcionei. Roteiro fraco e não assusta nem criancinha. Na sessão da tarde tem coisa mais forte. A história de um casal que vai cuidar da sobrinha após o suicídio dos seus pais. Com a chegada do casal, coisas estranhas começam a acontecer na casa da menina. Chato.

VOLTANDO PARA CASA- Filme da Noruega sobre uma família disfuncional com uma mãe depressiva e um pai que acaba de voltar da Guerra do Afeganistão. O filho mais velho assume a responsabilidade pelo mais novo quando o pai desaparece durante uma caçada nas montanhas geladas e os irmãos são forçados a procurar seu pai ausente.

PRÍNCIPE- Filme holandês que mostra um adolescente tímido e franzino, crescendo no extremo do submundo do crime. Ele é completamente louco pela a menina mais bonita da vizinhança, mas ela namora o jovem mais perigoso da cidade. O rapaz luta para conquistar o coração de Laura, mas antes que ele possa ser um príncipe ele precisa aprender a ser um homem.

O APÓSTATA- Filme espanhol sobre um jovem que deseja ter seu nome retirado do registro de batismos da Igreja Católica. O filme se arrasta e não chega a lugar algum apesar do tema interessante. A Igreja espanhola é refratária à apostasia. 

O RIO SEM FIM- Filme que é uma coprodução da França e da África do Sul. Após quatro anos de prisão o marido de uma garçonete volta para casa, mas quando a família de um estrangeiro é assassinada brutalmente, a garçonete e o viúvo começam a gravitar em direção ao outro. Presos em um ciclo de violência e sangue, os dois tentam transcender a raiva, a dor e a solidão.

BIZARRE - Maurice é um jovem francês de 18 anos com um passado turbulento que acaba de chegar ao Brooklyn e não tem amigos nem lugar para ficar. Em um encontro casual, o jovem é levado por duas belas jovens e ganha um quarto, alimentação e emprego no Bizarre, um famoso cabaré do submundo nova-iorquino. Lá, ele começa a formar uma nova família. Cenas bonitas dos belos jovens e também imagens chocantes do submundo dos shows de bizarrices do bar. Poderia ser melhor mas claramente o diretor se encantou pelo protagonista e as imagens do belo jovem são tão reiterativas que estragam o filme.

NOTA 3


APENAS JIM- Um filme britânico que poderia ser melhor e que tem no elenco o ótimo Emile Hirsch, além do jovem protagonista-diretor e roteirista de 24 anos Craig Roberts. Jim não é um garoto popular. Seu único amigo o abandonou para se unir à turma dos alunos descolados e a garota por quem está apaixonado nem sabe seu nome. Tudo muda quando um americano misterioso com aparência de galã de cinema muda-se para a casa ao lado, mas Jim é forçado a se questionar se a sua recém-adquirida popularidade vale a pena.

A BRUXA- Um filme produzido por um brasileiro e que recebeu muitos elogios na imprensa, ao ponto de filas enormes se formarem, mas que foi uma decepção. Uma história que poderia ser mais assustadora. Na Nova Inglaterra, 1630, um agricultor ameaçado de excomunhão tem que se mudar com esposa e cinco filhos para um terreno remoto no limite de uma floresta onde se esconde um mal desconhecido. Mortes, bruxarias e mais do mesmo.


NOTA 2

BOAS COISAS NOS AGUARDAM- Documentário dinamarquês sobre o último fazendeiro idealista da Dinamarca. Seu trabalho não é popular entre as autoridades que ameaçam tirar sua licença.





HERA – Filme turco que mostra o desgaste de uma tripulação presa em um navio há meses sem pagamento. Ancorado em uma área isolada, o navio é evacuado, mas seis membros da equipe devem permanecer ali até que a dívida seja paga. Conforme o tempo passa e o estoque de comida diminui, a tensão entre os homens aumenta.

DAVID- Filme da República Tcheca. Aos 20 anos, David está cada vez mais ciente de como sua deficiência intelectual influencia o comportamento de seus pais. Por isso, decide deixar sua casa e fugir para Praga. Em sua jornada, enfrenta a solidão, situações inesperadas e, principalmente, seus próprios pensamentos.


NOTA 1

A ANOS LUZ- Filme inglês chato e arrastado mostra uma família ao longo de um dia, como uma mãe internada num hospital psiquiátrico, um pai ausente e três filhos dispersos com medo de terem a doença da mãe.

VOLTA À TERRA – Documentário português sobre uma pequena comunidade em extinção: os camponeses que praticam agricultura de subsistência.





NOTA 0

RALÉ- Filme com Ney Matogrosso no elenco e direção de Helena Ignes, viúva do cineasta Rogério Sganzella. Fiquei envergonhado, pois Ney Matogrosso estava no cinema atrás de mim e o filme é uma bomba colossal. O roteiro é totalmente vago, a montagem é ridícula, as atuações fraquíssimas e a história é uma bosta. Por falar em bosta há uma cena absurda do diretor José Celso Martinez todo cagado e Ney Matogrosso limpando-o. Não me lembro de ter assistido a nada tão ruim na vida.



MATE-ME POR FAVOR- Outro filme brasileiro péssimo que mostra a Barra da Tijuca passando por uma onda de assassinatos e uma curiosidade mórbida dos jovens habitantes. Ridículo é o termo exato para falar desse filme.




BEM-VINDO AO CLUBE- Filme alemão que me fez dormir metade do tempo e que mostra uma atriz maníaco-depressiva que se hospeda em um “hotel de suicídio” que oferece várias opções de suicídio e promete privacidade total.

14.7.15

O QUE ACONTECEU, SENHORITA SIMONE ?


A Netflix disponibilizou, há algumas semanas, o imperdível documentário What Happened, Miss Simone? Ninguém deve perder a oportunidade de mergulhar na surpreendente história da vida e da carreira da inigualável Nina Simone.

O filme revela a diva norte-americana do jazz e do blues a partir da sua origem pobre no sul profundo dos Estados Unidos, passando pela sua transformação em uma das maiores cantoras e pianistas do mundo, incluindo o período dramático em que militou ferrenhamente em prol dos direitos civis dos negros dos EUA até seu autoexílio na África e na Europa.

Um grande achado do filme é a exibição de trechos inéditos dos diários pessoais da artista e fotos nunca vistas antes. Tem-se a sensação de entrar na intimidade da cantora, algo que qualquer fã irá considerar um privilégio com uma pontinha envergonhada de voyeurismo.

A partir de um texto da ativista e poeta negra Maya Angelou, também amiga, como Nina Simone, de Martin Luther King e Malcolm X, o documentário ganhou o seu enigmático título. Maya Angelou, natural da mesma Carolina do Norte que Nina Simone, perguntava no seu artigo: “Senhorita Simone, a senhora é idolatrada, mesmo amada, por milhões hoje em dia. Mas o que aconteceu, senhorita Simone?".


Essa resposta está no filme. Assistir a ele foi como relembrar o momento em que, muitos
anos atrás, ouvi, pela primeira vez, a voz rouca, forte e, à primeira vista, estranha, de uma deusa negra do blues e do jazz, uma voz que nunca mais me abandonou, ficou nos meus ouvidos, grudou na minha alma e me acompanhou em momentos bons e ruins na vida.

Desde que descobri que existia alguém como Nina Simone, deixei de ter vergonha de me sentir melhor do que os outros, pelo menos melhor do que os que não a conheciam. Parei de negar que sou mesmo um privilegiado por ter vivido para ouvi-la.

Houve momentos da minha vida que foram melhores e inesquecíveis porque Nina Simone estava lá cantando Here Comes The Sun, dos Beatles, e o sol vinha de algum lugar quente, como a sua voz, para tornar sonoramente insubstituíveis esses momentos. Muitas das minhas tristezas mais banais tornaram-se tristezas únicas porque eram embaladas pela voz de Nina Simone cantando Ne Me Quitte Pas e eu tentava adivinhar, por trás de cada palavra, um mar inteiro de dor e abandono.

A melodia da sua voz em Wild is the Wind sempre me lembrará uma paisagem do litoral da França onde comprei o primeiro dos seus vários CDs. Black is the Collor of My True Love’s Hair, um blues carregado de sentimento na voz e na alma, é repleto de verdade e de entrega. I Put a Spell On You, um soul suavíssimo, estará permanentemente, para mim, envolto na sensualidade de uma conquista. Sua versão definitiva do clássico da dance music Don’t Let Me Be Misunderstood é insubstituível, com todo suingue e sensualidade das deusas negras da soul music.


Mas é My Baby Just Cares For Me que me completa. Quem gosta de cinema, como eu, terá ouvido a canção nas trilhas dos filmes Todos Dizem: Eu Te Amo, de Woody Allen; Beleza Roubada, de Bernardo Bertolucci; Cova Rasa, de Denny Boyle; ou Para o Resto das Nossas Vidas, de Kenneth Branagh. Quando ouço essa música minha mente vagueia pela Toscana, entre as montanhas azuladas do filme de Bertolucci; passeia pelos canais de Veneza, onde a lua deslumbra o coração mais duro e, sob a neve, patina no Central Park ou dança sob uma ponte de Paris, como no filme de Woody Allen; respira a atmosfera do fog em pubs escoceses entre cervejas e cigarros, como no claustrofóbico filme de Danny Boyle.

Nina Simone tornou a mim uma pessoa mais metida a besta, mas o que ela fez de mais importante, apenas com o poder de sua voz e do seu piano mais do que perfeito, foi, sendo mulher, pobre e negra, representar um símbolo das lutas dos negros americanos pelos direitos civis numa época, não tão distante, em que crianças negras eram queimadas vivas. Nina Simone compôs e cantou a música Mississippi Goddamn (Maldito Mississippi) em protesto contra o racismo norte-americano. Os versos Alabama's got me so upset,/ Tennessee's made me lose my rest, /and everybody knows about Mississippi goddameram tapas sonoros e diretos na face feia e racista dos Estados Unidos. 

Na sua versão amarga para Strange Fruits, ela soluça contra o linchamento covarde de negros pendurados em árvores, como frutas escuras e sangrentas: "As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto/ Sangue nas folhas e sangue na raiz/Um corpo negro balançando na brisa sulista/Um estranho fruto pendurado nos álamos"

Ela jamais esqueceu a dor de ver seus pais, que tanto lutaram para que ela estudasse piano, serem obrigados, por serem negros, a se retirar da primeira fila do teatro onde ela fazia a sua primeira apresentação. Rejeitada em escolas de música apesar do enorme talento simplesmente por causa da cor, viveu uma vida repleta de dramas e bruscas reviravoltas do destino.

No documentário What Happened, Miss Simone? descobrimos o preço que essa mulher magnífica precisou pagar para estar ao lado dos deuses. Não foi nada barato. Mas se fosse, não seria a obra de uma deusa.  




17.5.15

UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA

Assisti a este filme no ano passado durante a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Foi uma daquelas sessões em que, por sorte, a gente consegue o ingresso, pois era um filme muito concorrido, com todas as salas lotadas.

Confesso que não conhecia o seu diretor, o sueco Roy Andersson, e fui assistir à película em razão dos elogios que havia lido dos críticos e pelo fato de as sessões estarem sempre lotadas, além da sua premiação com o Leão de Ouro no festival de Veneza em 2014.

Taí um exemplo de que prêmios, elogios de críticos e salas lotadas às vezes não significam nada, pois esse “Pombo” utiliza-se do recurso de ser um filme esquisito para tentar ser um “esquisito do bem”, ao invés de ser somente um filme chatíssimo e com graça próxima de zero.

Pelo que li, o “Pombo” é o final da trilogia formada pelos filmes “Vocês, Os Vivos” e “Canções do Segundo Andar”.  Baseado em fatos banais do dia a dia, “Pombo” não transcende sobre essa banalidade. Simplesmente a traz para a tela sem com isso acrescentar qualquer coisa. Há, reiterativamente, no filme, dois vendedores ambulantes entediados que só conseguem entediar o espectador. Talvez o objetivo fosse esse mesmo. Não sei os demais espectadores, mas eu não suportava mais vê-los aparecerem na tela entre as micro histórias sem continuidade ou sentido.

Li elogios como: É um grito de loucura que vai chegando ao seu brilhantismo quando conseguimos aos poucos reunir as peças desse quebra-cabeça comportamental”. Eu digo uau, como esse crítico deve gostar mesmo de quebra cabeças comportamentais e de gritos de loucura....Os críticos do festival de Veneza, que deram-lhe o Leão de Ouro, com certeza pensam o mesmo. Eu só vi chatice sem fim.

Houve quem dissesse que o “Pombo” lembra os filmes do Monty Phyton com suas esquetes irônicas. Mas há muitas e enormes diferenças a apontar, e uma delas é que o Monty Phyton era formado pelos grandes e carismáticos atores/roteiristas Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones e Terry Gilliam, enquanto que o “Pombo” não tem qualquer ator que valha o ingresso.

Outra diferença gritante entre os esquetes do "Pombo" e do Monty Phyton é a insuperável anarquia dos atores britânicos. Mesmo o seu nonsense abrigava sátiras ácidas à política e à sociedade britânica. A metalinguagem, enriquecida pelo talento dos roteiristas-atores, transcendia o banal e buscava o surreal. Os exemplos são tantos que não vale à pena mencionar. Os dvds da série televisiva Flying Circus estão disponíveis para qualquer comparação. E nem falo dos filmes como A Vida de Brian, Em Busca do Cálice Sagrado e O Sentido da Vida, o que já seria injustiça demais.

De volta ao "Pombo" Crítica à mesquinhez da vida, niilismo, humor negro? Ai que preguiça dessa gente...Há poucas coisas que se salvam, mas mesmo essas, alongam-se mais do que o necessário, cansando também, como o episódio (?) da invasão do bar pela cavalaria onde o diretor pretensamente almeja abordar, de uma só vez, uma crítica à guerra, ao absolutismo, ao genocídio, à escravidão e ao colonialismo. Pretensão tão grande torna a cena que poderia ser a menos pior do filme, a mais pretensiosa.

E há outras tão breves e tão chatas que parece que duram melancólicas horas. E eu pergunto onde está o mérito em se usar apenas e unicamente tomadas de câmera fixa e enquadramentos imóveis? Qual a originalidade disso? Talvez o fato de dispensar um operador de câmera. Os personagens, unidimensionais, têm os rostos previsivelmente pintados de branco, como verdadeiros clowns, uma vez que são meras caricaturas da solidão, da pobreza, da feiura, do desemprego, da velhice e da morte.

Parece que pega bem elogiar o “Pombo”, parece que demonstra que o espectador é aberto às formas não usuais de narrativa; que não é prisioneiro dos clichês hollywoodianos e que é fã do não convencional e do original. Quase não se verá críticas negativas a esse “Pombo” na imprensa. Na sala de cinema em que vi houve até aplausos no final.

Bem, tem um povo que aplaude por de sol não é mesmo? E se tem uma coisa mais previsível do que por do sol só mesmo as pessoas que os aplaudem.

3.3.15

NÃO CRUCIFIQUEM (DEMAIS) 50 TONS DE CINZA


Havia prometido não escrever sobre 50 Tons de Cinza, já que não li os livros, não vi o filme, e nem pretendo fazê-lo. Já que não conheço as obras, não tenho condições de falar sobre suas eventuais qualidades ou defeitos.


Não é sobre a dramaturgia das obras que me interessa falar, mas sobre a reação que elas têm provocado. Especificamente me motiva a última coluna do psicanalista Contardo Calligaris na Folha.

Calligaris explica que não escreveria sobre o filme se não fossem as bizarras críticas que choveram sobre a obra, inclusive com campanhas contrárias de líderes católicos e evangélicos pela suposta “visão degradante do sexo e contrária aos ensinamentos da igreja” ou "glorificação da excitação sexual sem amor" e "o culto ao hedonismo" ou mesmo "o sexo sem compromisso".

O autor aponta o paradoxo desse argumento lembrando que justamente o que livro e filme mostram é o compromisso, condição para que haja uma relação. Parece que há até um termo de compromisso lavrado e assinado pelos protagonistas.

Sadomasoquismo é um tema que muito me interessa. Já assisti, ao vivo algumas sessões SM e frequentei a famosa Folsom Steet Fair, feira sadomasoquista que acontece há anos em plena rua Folsom, em São Francisco, Califórnia, onde tirei as fotos que ilustram um site que criei sobre o assunto quando estudava Jornalismo na UFBA e que provocou certa polêmica na época, com debates acalorados em listas de cybercultura e matérias em sites da internet, na Tarde e no Correio da Bahia. 

O mais curioso sobre as relações SM é o seu inerente caráter consensual. Será praticamente impossível haver uma dupla adepta da prática que não siga regras rígidas que preveem cuidados que as pessoas nem imaginam. Enfim, é algo muito seguro. O grande barato da coisa é a ideia de ultrapassar limites, enfrentar a dor e descobrir-se livre, totalmente à mercê do outro. É muito libertador e embriagante.

Não poderia, em poucas linhas, tratar do tema com o aprofundamento que ele merece, mas me parece que os livros e o filme tratam mesmo é de uma história de amor. As pessoas não sabem, como diz Calligaris, que um casal sadomasoquista é, quase sempre, amoroso, duradouro e unido por um raro respeito recíproco. É paradoxal que o tema mobilize pessoas preocupadas com a violência doméstica contra a mulher. Acreditem: uma relação entre um casal SM se limita à dominação sexual. Restringe-se à alcova. Não se confunde com a esfera doméstica e nem invade a rotina das pessoas. 

Em quase 100% das vezes, é o masoquista quem de fato determina os limites, cabendo ao sádico o papel de objeto da execução dos desejos do masoquista. Por isso, é tão comum que se pague pelo trabalho do sádico e ninguém paga a um masoquista. Este é um mercado bastante rentável para dominatrixes e mestres.

Em uma entrevista que publiquei no meu site com uma famosa dominatrix, ela revela que quase todos os seus clientes são homens que no dia a dia são empresários com grande responsabilidade, pessoas que tiveram que amadurecer muito cedo e encontram como poderosa válvula de escape esses momentos de submissão nas mãos de uma dominadora. Nem sempre envolve sexo, mas rituais de humilhação e dominação. Clientes revelam como saem aliviados dessas sessões, pois se sentem livres de responsabilidade, totalmente entregues, por algum tempo, nas mãos de outra pessoa em quem confiam plenamente. 

Por tudo que li sobre o livro e o filme, me parece que a verdadeira bola fora foi a explicação, desnecessária e tosca de que o tal Christian Grey é daquele jeito por ter sido abusado na adolescência. A psicologia já cansou de provar que tal relação se dá quando os pais provocam nas crianças dissociações cognitivas durante o desenvolvimento da sexualidade, levando os pequenos (futuros masoquistas e não futuros sádicos) a confundirem os momentos de castigo corporal com o necessário e saudável contato físico com os pais. Pais pouco afetivos que batem nos filhos e logo se arrependem costumam dizer para eles que fazem aquilo “para o seu bem” ou “papai faz isso porque te ama”. Este sim é o fermento para o desenvolvimento de uma parafilia, nome real para o que alguns chamam de transtorno. Ao crescerem, os petizes vão associar momentos de dor a momentos de alívio em um círculo de gratificação dissociativa.
Outro ponto que me interessa discutir e que Calligaris sabiamente aponta é outro paradoxo que envolve as críticas dos religiosos sobre a tal glorificação da dor. Como psicanalista, Calligaris já cuidou provavelmente de inúmeros casos em que o erotismo na nossa cultura cristã está intimamente ligado ao prazer visual obtido pela glorificação do corpo supliciado de Jesus Cristo ou São Sebastião, entre outros.

Não é por outra razão que a representação iconográfica e pictórica dos corpos supliciados desses mártires é tão próxima de um ideal de beleza estética e física. Calligaris relata que conheceu dezenas de adolescentes cujas primeiras solitárias experiências sexuais eram justamente inspiradas pelas abundantes imagens da martirologia cristã, com sua suspeitíssima carga erótica.

Calligaris escreve ainda sobre a ironia de a bilheteria de "Cinquenta Tons" concorrer logo com a "Paixão de Cristo", de Mel Gibson, que, desde 2004, era a melhor bilheteria de estreia para um mês de fevereiro. "Cinquenta Tons" passou a Paixão de Cristo e eu me lembro de um artigo que escrevi quando vi a Paixão no cinema em 2004 intitulado: “Pornografia no Calvário: A Paixão Samomasoquista de Mel Gibson” Ali eu comentava sobre o profundo asco que me levou a abandonar a sala após meia hora de exibição da película.


Eu dizia naquele texto: “Estou assistindo a uma cena em que Jesus é chicoteado com uma ferocidade desumana por sádicos que riem da sua desgraça. Qual a necessidade, jamais vou entender, de expor, em câmera super lenta, degradação tamanha de um ser humano. Já vi muitos filmes pornográficos e até com cenas de sadomasoquismo mas nada me revirou tanto o estômago quanto aquela sequência de desgraça suprema de uma pessoa. Há toda uma construção coreográfica visando ao máximo de horror no detalhismo da explosão da crueldade”.

Após louvarem o supremo horror sadomasoquista da Paixão de Cristo, líderes cristãos agora querem crucificar 50 Tons de Cinza? Que hipocrisia! Como quero manter muita distância de qualquer associação com qualquer religião, eu bem poderia, só de birra, falar maravilhas das peripécias do casal Gray e Anastácia.

Mas nem meu masoquismo chega a tanto.

9.2.15

BOYHOOD X BIRDMAN



BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE

Ao assistir a Boyhood, fiquei encantado com a proposta ousada do diretor Richard Linklater (da adorável série:
Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-sol e Antes da Meia-Noite) em filmar durante doze anos a vida de um menino, dos 8 aos 15 anos, usando todo o tempo os mesmos atores. Mas quando assisti a Birdman, não teve como Boyhood permanecer no topo da minha admiração.

Na verdade, com o passar das semanas desde que assisti a Boyhood em outubro do ano passado, comecei a achar que o filme talvez estivesse sendo incensado demais. Não entendia bem o porquê, mas o fato de todo mundo estar elogiando tanto o filme me incomodava. Alguma coisa ele tinha feito de errado para agradar a tanta gente. 

Até que li a primorosa análise de Marcelo Coelho na Folha de São Paulo. Ele já começa o texto lamentando parecer antipático e avisa logo que talvez seja o único, entre todas as pessoas que conhece, que não se entusiasmou tanto pelo filme.

Concordo com Coelho, Boyhood parece um documentário devido ao seu insuperável tom hiper-realista. Tal realismo extremo é consequência da própria biologia: os personagens envelhecem com os atores. A beleza de ser uma ficção talvez esmaeça diante do tom excessivamente tendendo para o real, uma vez que esse é um paradoxo: ninguém é tão real assim e a ficção tem sim que dar um salto além do mero documental.

Boyhood, por mais belo que seja acaba sendo quase um registro comum na vida de um menino americano e isso não basta para construir um personagem. O que ele pensa? Quais são seus planos? Seus medos e dúvidas? O que ele aprende nessa jornada? Não sabemos nada quando o filme começa e ele é uma criança e continuamos sem nada saber após quase três horas e doze anos de filmagens.  Como diz Coelho, o garoto é totalmente passivo, apenas o campo de provas para mudanças hormonais.

Tudo bem, Patricia Arquette e Ethan Hawke são dois fofos e o casal de atores que faz seus filhos é outra lindeza, mas desculpe ser estraga prazeres: finalmente encontrei a razão para apenas gostar de Boyhood. É só fofura. 

BIRDMAN OU A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA

Já Birdman é feito de outra liga. É cinema de gente grande. É metalinguagem na veia. Não sei nem mesmo por onde começar..Talvez pela direção segura do mexicano Alejandro González Iñárritu, que já provou tudo que precisaria, e muito mais, nos excepcionais Amores Brutos, Babel, 21 Gramas e Biutiful.

Se nos seus extraordinários filmes anteriores Iñárritu já realizava um cinema maduro e autoral, em Birdman ele foge da suas conhecidas estética dramática, narrativa circular e atmosfera desesperançada para, longe da sua zona de conforto, lançar-se em uma comédia com generosas doses de drama e crítica mordaz, não somente à indústria do cinema e do entretenimento, mas a toda a rede de neuroses que envolve as pessoas que se deixam enredar pelo desejo voraz de ser amado, admirado, prestigiado, reconhecido.

Também não sei em que ponto do meu texto louvar a corajosa opção do diretor em realizar um filme inteirinho praticamente em um plano-sequência, com cortes quase imperceptíveis. E como esquecer a trilha sonora arrebatadora, praticamente composta de um onipresente e impactante solo de bateria, com direito ao próprio baterista em cena. 

Confesso que o filme só me ganhou pela metade, mas também não me largou mais. Em certo ponto, eu já estava sorrindo, como um besta, no escuro do cinema. O diretor me tinha em suas mãos e a partir dali, o filme só foi me arrebatando mais e quando eu não esperava ainda mais, ele me traz um diálogo entre uma crítica teatral e o personagem de Michael Keaton que ouso dizer que é um dos diálogos mais inteligentes e repletos de significados que já vi no cinema.

Como não ir ao delírio com as cenas em que o personagem do personagem (The Birdman, itself) avança filme adentro, mostrando-se a encarnação da neurastenia. Ou a cena de finíssimo sarcasmo em que Keaton se pendura num parapeito e uma mulher pergunta da sacada em frente se aquilo é um filme ou vida real: Keaton responde: um filme. E a graça toda está ali. Trata-se de um filme, afinal de contas.

E como não lembrar que a escolha de Michael Keaton para o papel é, em si, um achado, pois ele é um ator marcado pela sombra de um personagem de um super-herói que ele abandonou (Batman) e que o persegue, como o Birdman (do filme dentro do filme). Uma mistura louca de um superego com um alter-ego. Briga boa. Freud adoraria participar.

Maravilhosa toda a sequência de cuecas pela Broadway. Todas as pessoas que reconhecem o personagem de Keaton, insistem em tirar fotos com ele, mas não com o personagem, mas com o ex-Birdman. Enquanto ele está em uma busca desesperada pelo prestígio que nunca teve, o que todos querem dele é apenas que seja um personagem, um clichê. Como lutar essa luta?  

Há uma cena que me encantou profundamente. De uma enorme sutileza e força. Quando um dos atores recita, na rua, como um louco ou um mendigo, o monólogo final de Macbeth, de Shakespeare: “A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa”. Que texto da história do teatro poderia representar mais intensamente o desejo completamente irrealizável de um ator pelo amor do seu público? Qual o simbolismo mais forte do que tanto som e fúria para nada?

E não bastassem tanta maestria que me deixou completamente chapado, percebo em certo momento, que o teatro da Broadway em que os personagens do filme ensaiam e se apresentam é o St. James, onde eu tive o privilégio de assistir, alguns anos atrás, completamente em êxtase, à peça Mary Stuart. 

Como não se render a Birdman?

11.1.15

Onde o sol se escondeu de minha alma?

Outro dia, revendo velhas fotografias, me deparei com um retrato meu tirado nos anos 80. Não posso precisar exatamente o ano, era uma foto daquelas máquinas em que a gente tem que revelar o filme para só depois ver se ficou boa.

Pois bem, a foto mostrava um jovem mais de trinta anos mais novo do que eu hoje, bem mais magro, sentado em uma poltrona. Eu vestia a minha camisa favorita de então que trazia a estampa do rosto da criatura de Frankenstein.

Como poderia ter-me esquecido daquela camisa esses anos todos? Era a minha favorita e de tanto que a usava praticamente havia se tornado um traço da minha personalidade. Era vermelha viva com a sombra do rosto da criatura em negro. Como eu gostava daquela camisa! De tanto que usei acabou se estragando e em algum momento se perdeu.

O que havia de mim naquela camisa com o desenho da criatura? Por que eu me identificava tanto com ela? Era de um vermelho vivo e se eu me lembro bem de mim naquele tempo, eu não era uma pessoa muito solar. Pelo contrário, sempre fui avesso ao dia claro e gostava muito de me enfurnar em livros e bibliotecas. O sol não era meu amigo. Mas à noite eu ardia nas sombras.

Então por que a camisa vermelha? Um leonino que se refugia do sol não parece algo muito promissor. O rosto do monstro era como uma efígie dos conflitos que me aturdiam, como se eu pedisse socorro em silêncio, exibindo a figura como um sinal de fumaça, um SOS em código morse para quem pudesse interpretar sem que eu precisasse dizer, talvez até mesmo porque eu não soubesse verbalizar o que acontecia. Por que o sol se escondia da minha alma? Ou para onde ele foi que eu não poderia segui-lo?

Eram perguntas difíceis para um jovem de pouco mais de vinte anos cheio de perguntas difíceis ligadas a áreas da vida muito confusas. O monstro de Frankenstein, olhando o mundo por mim na camisa vermelha, era meu hóspede sombrio, ele próprio feito de partes avulsas, que praticamente não se combinavam e cheio de questões,

Era um tempo de busca angustiada pela construção da própria identidade no meio de pedaços de outras identidades, uma busca por erigir algo de si próprio e um baita receio de que talvez isso não fosse possível sem copiar o que viera antes. Afinal, se éramos feitos do que tinham escolhido para nós, como impor-se único diante do mar de identidades? Um sentimento ao mesmo tempo vago e inevitável de que não restava muito para fazer quando éramos feitos da montagem de outras histórias, histórias talvez muito mais fascinantes do que qualquer uma que poderia construir.

Pode ser tudo isso, pode não ser nada disso, mas certamente o tempo fez seu serviço para o qual o tempo foi criado. A camisa se foi: o tempo a levou. As respostas às muitas perguntas ou se tornaram desimportantes ao longo dos anos ou se revelaram para mim também com o tempo. E eu me tornei o que sou.

Ainda não me dou muito bem ao sol. Minha alma pegou o gosto da noite, as sombras se afeiçoaram à minha pele pois, de algum modo, o monstro ainda habita lá no interior, confinado, dominado. Olhando hoje para a foto, a camisa, o meu rosto de trinta e tantos anos atrás, sinto certa nostalgia que o tempo também transformou, dessa vez em palavras.



Não tenho saudades da criatura besta que eu era então, mas um certo orgulho de não precisar mais me esconder nas sombras e não mais precisar da efígie da outra criatura para falar por mim.

19.12.14

MOMMY


Em Mommy, quinto filme do canadense Xavier Dolan, estamos no mesmo país dos seus filmes anteriores, mas aqui temos um Canadá fictício, um país cuja lei permite que os pais possam internar os filhos em hospitais públicos com facilidade. Tirando esse detalhe, o filme pode ser muito bem assistido como um drama realista.

Antes, porém um parêntesis para falar desse jovem diretor, ator, roteirista, figurinista, produtor e editor que tem apenas 25 anos de idade e já carrega consigo um curriculum invejável.

Dolan chamou a atenção do mundo quando dirigiu e atuou aos 20 anos no seu filme de estreia: Eu matei a minha mãe filme premiado no Festival de Cannes. No ano seguinte, o prolífico artista novamente dirigiu e atuou no maravilhoso Amores Imaginários. E, de novo, foi premiado em Cannes.

Seus dois filmes seguintes seguiram a mesma linha provocativa: Laurence Anyways e Tom na Fazenda. Assim como nos dois primeiros filmes, Dolan, gay assumido, aborda aqui, com muita propriedade e visão de esteta, esse universo no qual ele se sente bastante confortável.

Esse texto poderia perfeitamente gastar todas as suas linhas disponíveis para falar de cada um dos quatro primeiros filmes de Xavier Dolan, incluindo suas ótimas trilhas sonoras, mas o fim da pauta se aproxima e ainda não falei de Mommy que mantém a tradição dos filmes do diretor, ganhando o prêmio do júri do último festival de Cannes, ou melhor, dividindo-o com o veteraníssimo Jean-Luc Godard. O rapaz não é fraco, não.

A primeira coisa que, logo de cara, chama a atenção do espectador é o formato da tela: quadrado, chamado 1:1,  como no instagram. E essa escolha mostra a coragem e a ousadia do jovem diretor, que dessa vez não atua no filme. A ideia é deixar o público com a sensação de falta de espaço, de desconforto.

Esse formato de tela não é exatamente uma novidade, já tendo sido usado no filme O Homem das Multidões, de 2013, dirigido por Cao Guimarães e 
Marcelo Gomes, com a mesma intenção de transmitir a sensação de aprisionamento.

O não ineditismo, entretanto, não tira os aplausos para Dolan, até porque ele utiliza-se de um recurso muito inteligente e criativo e que não foi sequer imaginado pela dupla de diretores brasileiros: em certo momento do filme, a tela se abre aos poucos para o formato tradicional, como pelo esforço das mãos do adolescente protagonista, mostrando, como belíssima metáfora visual, o sucesso na tentativa de ampliação dos horizontes e libertação das limitações impostas. É um daqueles momentos que merecem ser eternizados na história do cinema. E isso tudo vindo ainda por cima pelas mãos de um rapaz de 25 anos.

Impossível não comparar com outro gênio da sétima arte, também ele ator, diretor, produtor e roteirista. Mantidas as devidas proporções, falo de Orson Welles que com 26 anos, praticamente a mesma idade de Dolan, trouxe ao mundo Cidadão Kane, renovando para sempre a estética do cinema com ângulos de câmera ousados e exploração do campo.

A história do filme gira em torno de um trio disfuncional: Diane, uma mãe solteira desempregada; seu filho Steve, um adolescente de 15 anos hiperativo e com déficit de atenção agudo; e Kyla, a vizinha deprimida com problema de auto-afirmação presa num casamento monótono. Esse trio improvável é responsável pelo precário equilíbrio da situação dos personagens. 

Dá um prazer danado acompanhar o progresso da carreira do talentoso  Xavier Dolan, perceber que ele já era brilhante quando nos presentou com o seu primeiro filme e que, a cada obra, ele se aperfeiçoa ainda mais, atinge mais maturidade, beirando o sublime.  As suas inúmeras premiações ao redor do mundo lhe fazem merecida justiça.

Um filme excepcional para se admirar e refletir.

14.12.14

O PINTASSILGO

O Pintassilgo é uma espécie de saga contemporânea, quase como se, em vez de acompanharmos durante anos os infortúnios do seu protagonista, o pré-adolescente Theo Decker, envolvido com uma pintura roubada de valor inestimável, alongássemos as desventuras do também impúbere Holden Caulfield da obra máxima de J.D.Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio. Passamos apenas um fim de semana com o angustiado Holden pelas ruas de Nova Yorque, mas com Theo somos arrastados por anos numa espécie de limbo niilista.

Há diferenças cruciais entre os dois protagonistas. Se Holden virou ídolo de gerações de jovens pelo seu inconformismo e rebeldia, Theo é levado a um abatimento profundo quando vaga sem destino, arrastado pelas marés da fatalidade.

É pelas mãos da sua mãe (o destino) que é levado a um museu onde uma explosão terrorista lhe mata justamente a mãe nas primeiras páginas do livro. Dá para sentir o que virá a seguir nas palavras de Theo: “As coisas teriam sido melhores se ela estivesse viva. Mas minha mãe morreu quando eu era criança; e, embora tudo o que aconteceu comigo desde então seja exclusivamente culpa minha, quando a perdi também perdi de vista qualquer farol que poderia ter me conduzido a algum lugar mais feliz, a uma vida mais plena e agradável”.

E tudo que se segue a esse atentado é movido pelo roubo de uma obra valiosíssima do museu, exatamente o quadro que dá título ao romance. Todas as pessoas com quem Theo se envolve ao longo de vários anos são fugidias e escapam-lhe como água entre os dedos. Mortes sucessivas acontecem à sua volta, perdas físicas e emocionais, e ele permanece à margem, escapando dos vícios em álcool e jogo, destino do seu pai, mas envolvendo-se com todo tipo de drogas pesadíssimas, viciando-se em remédios, sempre à busca do oblívio e flertando com o irremediável. 

O Pintassilgo é a única chama de vida que ele possui, um quadro pintado em 1654 e o único sobrevivente de toda a obra do genial Carel Fabritius, aluno de Rembrandt, destruída no atelier do artista num incêndio que matou o próprio pintor, assim como a explosão do museu levou embora a única pessoa viva que Theo realmente amava. Tudo lhe é tomado e a única coisa que ele pode dizer que realmente possui não é de fato dele, mas roubado. E ele não pode dividir essa informação ou a beleza da obra com pessoa alguma.

Em outro paralelo entre Theo e Holden, dois adolescentes perdidos nas impiedosas ruas de Manhattan, parece até que Theo ouviu o último conselho de Holden na última linha do romance de Salinger: "Nunca conte nada a ninguém. Se você o fizer, mal acaba de contar e começa a sentir saudade de todo mundo". Theo sabe que o seu segredo é algo inconfessável e que pode custar-lhe a liberdade.

O Pintassilgo é o que faz com que ele não sucumba por completo ao destino de muitos niilistas extremos. Nos momentos de maior desespero basta que Theo contemple o quadro por alguns minutos para que o pássaro, sobrevivente de séculos, de dois incêndios e de várias mortes, o faça desejar viver. Um pássaro pintado mas com uma dignidade extrema, indiferente ao fato de estar preso por uma argola no pé.

Mas o livro é difícil de transpor. Longe de ser monótono, é talvez excessivamente caudaloso, recheado de digressões e descrições. Algumas vezes páginas e mais páginas são gastas para descrever uma sala ou narrar as sensações de uma viagem narcótica.

A luz no fim do túnel que pode ser a salvação de Theo ou a locomotiva que vai destruí-lo de vez, aparece na figura do seu praticamente único amigo, o também adolescente Bóris. Se esse fosse um livro sobre o russo Bóris, seria um relato solar, repleto de aventuras, música, vodka, mulheres loucas, assassinos perigosos, prostituição, tráfico de drogas e muito sexo, mas como é um livro sobre Theo, temos uma atmosfera oposta. Tudo é sombra e amargura. Em alguns momentos chega-se a ficar de saco cheio de Theo que parece que atrai desgraças para onde vai. Percebemos que Theo é um chato de galocha na primeira das 728 páginas e vamos ter que aguentar sua chatice até o fim. Ainda bem que Bóris aparece para dar um pouco de cor a esse rapaz perdido, nem que seja levando-o para porres espetaculares.

Há quem ache que a obra não mereceu o Pulitzer. Não me decidi ainda, mas fico feliz que Theo tenha finalmente encontrado a solução para os seus problemas. O Pintassilgo vai me levar adiante, e é isso que a arte faz, e tem tudo a ver com a frase da autora no final da obra: “No meio do nosso morrer, enquanto saímos do orgânico e afundamos ignominiosamente de volta nele, é uma glória e um privilégio amar o que a Morte não toca. Pois se desastre e esquecimento seguiram essa pintura através do tempo, o amor também o fez”.

5.12.14

RELATOS SELVAGENS

         
   Mais um filme argentino chega às nossas telas para reforçar a tradição de que o cinema feito pelos nossos hermanos consegue ser muito melhor do que o nosso. Utilizando-se de ótimos roteiros, diálogos naturais, excelente direção e uma linguagem de apelo universal, o cinema argentino dá sempre um show e nos faz perguntar por que não conseguimos fazer igual.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, sempre atilado, aponta como uma das causas a nossa predileção pelas fórmulas fáceis e batidas: as comédias escrachadas, o amor neurótico e o “coitadismo” (coitado do pobre, do bandido, do drogado ou pobre é lindo, bandido é lindo, drogado é lindo), a chamada crítica social. A gente não corre o risco de ver essas baboseiras no cinema argentino, sempre muito mais maduro do que o nosso.

Relatos Selvagens, dirigido por Damián  Szifron,  é dividido em seis excelentes episódios e isso é raro nesse tipo de filme, nos quais costumamos ver alguns episódios bons e outros ruins, como na série I Love New York, I Love Paris e I Love Rio. No caso do último, talvez chame a atenção o fato de que, ao contrário dos seus predecessores, todos os episódios são ruins.

Para não ser injusto, não dá para não mencionar outros grandes filmes divididos em episódios, como Dolls, do diretor Takeshi Kitano, com suas três belas histórias retratadas com delicadeza tipicamente oriental; ou Contos de Nova Yorque, dirigido pelo trio Scorsese,  Coppola e Woody Allen; ou o belíssimo Eros, também de um trio de diretores de peso: Antonioni, Steven Soderbergh e Wong Kar-Wai.

O leitor deve estar se perguntando se o autor dessas mal traçadas vai passar o texto inteiro falando de outros filmes ou vai começar, afinal, a falar de Relatos Selvagens...Que bom que o leitor lembrou. O autor se empolgou e se desculpa.

A primeira história de Relatos Selvagens é quase uma vinhetona, já que precede os créditos. Em um avião todos os passageiros descobrem que conhecem a mesma pessoa e que todos a prejudicaram no passado. O episódio termina com o cinema inteiro em uma grande gargalhada de nervoso. Ah como a vingança pode ser doce. Mas é puro humor negro pois o subconsciente, esse intrometido pronto para estragar qualquer farra, sopra nos ouvidos a famosa frase de Confúcio: “Ao embarcar para uma vingança prepare duas covas” Duas?

E as histórias se sucedem. Uma garçonete vê a chance de se vingar do gângster que destruiu sua família. Afinal, um veneno de rato que está vencido é mais letal ou menos? Dois homens se desentendem numa estrada e o arranhão no verniz que nos separa da civilização para a barbárie logo mostra que o homem é mais do que o lobo do homem e a gente não consegue deixar de lembrar a célebre frase de Sartre: “O inferno são os outros”. Como um episódio tão simples pode ser tão brilhante? E, afinal porque ninguém pensou em filmar uma cena dessas antes?

O quarto episódio, no qual um pai rico tenta livrar o filho de ser preso pelo atropelamento de uma mulher grávida é um verdadeiro tratado de sociologia, ou melhor, de patologia social. A propósito desse episódio, Luiz Felipe Pondé aponta sabiamente: “as classes menos favorecidas sabem muito bem como manipular seus ‘ganhos’ no esquema de corrupção. Um cínico diria que a corrupção também pode ser inclusiva”.

O maior astro do cinema argentino, Ricardo Darin, não poderia estar de fora desse filme. No penúltimo episódio ele interpreta um homem em uma luta desigual contra um estado burocrático que ameaça fazer da sua vida uma tragédia kafkiana. A violência explode e nos faz lembrar Michael Douglas em Um Dia de Fúria.

Palmas redobradas, vivas e hurras para o último e unanimemente considerado melhor episódio dos seis, uma verdadeira torrente de emoções em torno de um casal no dia do casamento. Esse episódio certamente deve ter sido o que levou o cineasta Pedro Almodóvar a decidir produzir Relatos Selvagens já que todo o episódio do casamento é puro cinema almodovariano, inclusive com a montagem frenética e a excepcional trilha sonora a cargo do ótimo Gustavo Santaolalla, que já ganhou dois Oscars seguidos.

Anárquico, histérico, brilhante, surpreendente, divertido...Não é preciso economizar nos adjetivos. Relatos Selvagens merece todos.


25.11.14

GAROTA EXEMPLAR



Garota Exemplar, o mais novo filme do competente diretor norte-americano David Fincher, chegou às telas coberto de expectativas por ser uma adaptação do best seller homônimo e que, inclusive contou com a participação do seu próprio autor, Gillian Flynn, como roteirista na adaptação para as telas.

David Fincher tem atração por tipos problemáticos e anti-heróis, como se viu nos seus personagens masculinos de Seven (Kevin Spacey e Brad Pitt) e Clube da Luta (de novo Brad Pitt e Edward Norton), bem como adora mulheres fortes, como a tenente Ripley (Sigourney Weaver) de Alien 3 e a hacker punk  Lisbeth Salander (Rooney Mara) de Millenium. Sem contar o casal machbethiano (Kevin Spacey e Robin Wright) do excepcional House of Cards.

Pois Fincher está de volta com uma dessas mulheres “chave de cadeia” na pele de Rosamund Pike (a ex-Bond Girl de Die Another Day), que interpreta a insuportavelmente certinha Amy Dunne, a tal Garota Exemplar do título. Pois essa mala loura sem alça simplesmente some da história no dia do seu aniversário de casamento com o marido Nick, papel de Ben Affleck, dando início ao calvário do pobre do Nick (será?) obrigado a lidar com as suspeitas de ter matado a belíssima Amy. Ele é escolhido pela imprensa como o bode expiatório da vez — e a mídia sabe muito bem como moer em pedacinhos seus “favoritos”. Nick não tem a menor chance contra a tal “opinião pública” açulada pelas redes de tv.

Então temos a chance de acompanhar em flashbacks a linda história de amor de Nick e Amy que, pelo jeito, não é tão linda assim, já que sobram esqueletos escondidos nos armários. E eles vão saindo aos poucos.

Afinal de contas Nick matou ou não matou Amy? Por que ele entra em tantas contradições e não tem um álibi? Ele traía a devotada esposa? Ela era mesmo devotada? São perguntas demais e é isso que prende o espectador. O diretor lida, e bem, com todas essas questões, como aqueles malabaristas que tentam manter todos os pratos girando sem deixar nenhum deles parar e cair.

Não sou muito fã dessas histórias sobre a comoção das massas mobilizadas pela mídia contra ou a favor de alguém. Acho que é quase uma fórmula clichê e também não me atrai essa coisa de filme querer passar uma “mensagem” sobre como a mídia malvada usa uma pessoa. Aliás, depois de A Montanha dos Sete Abutres (1951), de Billy Wilder com Kirk Douglas como o jornalista inescrupuloso, toda representação da parcialidade da mídia é conto da carochinha.

Então, pulando a parte em que a mídia insufla o povo contra Nick, fica-se muito limitado a contar mais sobre o filme pelo risco de spoiler. A gente deve tomar cuidado com essas coisas depois daquele fã de Harry Potter, de 32 anos, de Ohio (EUA) que cometeu suicídio após, sem querer, ouvir como seria o  final do 6º filme da série.

Ainda bem que não estamos falando de Harry Potter. Garota Exemplar é um legítimo thriller, com um belíssimo twist, que não vou ser besta de contar, e que faz a gente perceber que está vendo praticamente um novo filme dentro do filme. Isso é muito revigorante, pois as pessoas adoram ser surpreendidas, mesmo que seja por uma visão sombria e praticamente subversiva da santificada instituição do matrimônio. 

Destaques: a trilha sonora de primeira, a cargo de Trent Reznor, do Nine Inch Nails, que já trabalhou com Fincher em A Rede Social (e levou o Oscar pela trilha daquele filme); a montagem perfeita, que consegue manter o clima se suspense mesmo com o uso de flashbacks; a interpretação minimalista de Ben Affleck, que cai como uma luva para o seu personagem pouco expressivo, exemplo de que o menos é mais e, sem dúvida alguma, a louraça belzebu de Rosamund Pike.