26.11.11

Os Amores Imaginários

Assisti a Amores Imaginários no ano passado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Somente agora ele estreia em Salvador. Antes tarde do que nunca, pois o filme é uma pequena joia. Você não deve deixar passar a oportunidade de conferir o trabalho do diretor canadense Xavier Dolan, que também atua no filme, premiado em Cannes e indicado ao Cesar (o Oscar francês) como filme estrangeiro.

Xavier Dolan não é apenas uma carinha bonita no cinema (se bem que ele tem uma bela estampa). O moço já dirigira o ousado Eu Matei Minha Mãe, sua estreia como diretor de um filme que ele também roteirizou com apenas 16 anos. Um fenômeno precoce.

O rapaz (hoje ele tem 22 anos) demonstra grande ousadia ao pegar um tema extremamente batido como o do triângulo amoroso e conseguir extrair dele algum frescor.

A delicadeza com que o jovem diretor trata o tema é talvez reflexo da sua juventude e da sua sexualidade (Dolan é gay). Muitos jovens passam pelos mesmos dissabores que os personagens atravessam nos dois filmes.

Aqui, o triângulo amoroso tem como foco uma relação platônica entre a descolada Marie e seu melhor amigo gay (papel do diretor Dolan) pelo angelical Nicolas que, pelo jeito, quer mesmo é só a amizade enquanto os dois amigos se engalfinham pelo belo querubim de cachinhos dourados que flerta com os dois sem garantir o principal.

Vemos que a relação dos inseparáveis amigos passa a sofrer um duro revés. Será que vão superar o angelical (ou diabólico) Nicolas?

O filme já seria interessante se mostrasse apenas essa história, mas ele fica ainda melhor e ganha força quando insere depoimentos de outras pessoas que contam suas tragédias amorosas particulares. Há depoimentos bizarros, há sentimentos em borbotões, há dor legítima, há loucuras por amor e fracassos românticos. E ainda, como cereja do bolo, belas cenas em câmara lenta ao som de Bang Bang, sucesso original de Nancy Sinatra (da trilha de Kill Bill), mas aqui interpretada em italiano pela cantora Dalida, cult como um Tarantino, kitsch como um Almodóvar.

Desculpem os críticos amargos e cheios de fel, mas só alguém muito azedo para não se deixar deslumbrar por cada cena deste filme delicado. Por que se preocupam tanto em apontar uma suposta pretensão do jovem diretor e se esquecem dos diálogos bem elaborados e das interpretações cheias de nuances? Dolan, além de tudo, sabe dirigir bem seus atores.

Um filme, como não poderia deixar de ser, repleto de exageros, exagero de dor, de amor, de amizades e rupturas. A fotografia, a cenografia, a trilha sonora, o figurino e a direção de arte mostram esse exagero estético com um cenário belíssimo, repleto de objetos vintage. Referências explícitas aos ícones James Dean e Audray Hepburn dão um toque ainda mais camp.

O que muitos críticos condenam no filme é, em minha opinião, exatamente o que ele tem de melhor. Dolan assume sua estética gay (se é que se pode classificar assim) e exagera mesmo. Afinal, o filme trata dos exageros. Críticos dizem que ele abusa de um virtuosismo redundante e se esquecem de que o filme trata exatamente da repetição de erros amorosos, das reiteradas armadilhas em que caímos quando nos apaixonamos, e como nos colocamos sempre nas mesmas arapucas. E por que se malha tanto Dolan por abusar das câmaras lentas quando para Wong Kar Wai (meu diretor favorito) só há elogios para as mesmas tomadas ao som de baladas tão melosas (e belas) quanto? Dá vontade de, ao sair do cinema, comprar correndo a trilha sonora.

Um crítico do jornal A Tarde assina um atestado de fel nas entranhas na sua coluna do jornal em que comenta o filme. Praticamente não há uma linha que não seja dedicada a falar mal da obra. Desde a primeira linha diz: “Na pressa para apontar novos talentos, a imprensa celebrou o jovem diretor canadense Xavier Dolan, que, aos 20 anos, cometeu Eu Matei Minha Mãe (2009), assinando o roteiro, a direção e trabalhando como ator e coprodutor. A obra tem momentos de apelo dramático, mas sucumbe diante de uma superficialidade mal disfarçada”.

Ora, para um filme (Eu Matei Minha Mãe) conquistar três prêmios na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, o Prêmio Internacional do Júri na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o Prêmio da crítica no Palm Springs Internacional Film Festival e ainda representar o seu país no Oscar com apenas 20 anos de idade e já no primeiro filme e o crítico dizer que o diretor “cometeu” o filme....Esse crítico parece que sabe mais do que o pessoal de Cannes e do Oscar.

O amargo crítico continua: “...a câmera de Dolan se dedica ao onanismo pseudo esteta, que derrama influências as mais diversas, desde o viés romântico do italiano Bernardo Bertolucci até a arte minimalista do cineasta Wong Kar-Wai (de Hong Kong), passando por idealizações que lembram, por exemplo, Jules e Jim (1962), do francês François Truffaut”. Então eu pergunto: Todas essas são influências ótimas, de grandes diretores e que se o filme traz referências a esses mestres, melhor do que se derramar por porcarias que andam por aí nos circuitões. Mas “onanismo pseudo esteta” é de lascar!!!! onde esse homem foi encontrar isso?!!!

O crítico chama de perfumaria as cenas que norteiam a narrativa e afirma que o diretor as forja sem qualquer efeito prático senão o de provocar algum prazer visual. Quero crer que o crítico prefere cenas em que o visual cause desprazer. Ora, as cenas a que ele se refere são retratos da vida de personagens que têm, sim, uma existência afetada e que vivem em festas, mas essa é a vida deles. As cenas que o crítico reclama de não terem efeito prático são exatamente as cenas que mostram a circularidade dessa vida. Se fosse assim, cenas de grande filmes que exibem momentos de “pouco efeito prático”, deveriam ser abolidas, mesmo que integrem organicamente o próprio filme como, só para citar um, o clássico O Deserto dos Tártaros, em que acompanhamos um personagem durante longas tomadas em que praticamente nada “de efeito prático” acontece e que nos faz, como ele, personagem, esperar que algo aconteça e quebre a sua monotonia pela espera permanente de algo que não acontece nunca.

Esse crítico de A Tarde estava mesmo num dia ruim. Para ele, as questões existenciais de Amores Imaginários “cabem na profundidade de um pires e as pretensões de Dolan incomodam pela maneira como descambam num desarranjo sem qualquer horizonte de consistência”.

Ora, leitor, não seja amargo assim e deixe esse filme leve e suave te conquistar e você pode se divertir sem exigir a profundidade de um abismo ou a consistência de uma areia movediça. Deixe-se envolver nesse tal “pires” mas cheio de uma colorida, divertida e sonora película que pode até ter a consistência de uma gelatina de morango com chantilly, mas vai ser doce e agradável se você não for alérgico a amores reais ou imaginários.

A Pele que Habito


De Pedro Almodóvar já vi tudo. Até seu obscuro livro: “Fogo nas Entranhas” já li. Em todos os seus trabalhos há um tema predileto: as mulheres, esses seres misteriosos que aparentemente são originárias de um planeta diferente do planeta de onde vêm os homens. Pedro Almodóvar aponta para lá sua lente.
O problema começa a se complicar quando se sabe que orbitam nesse universo humano, espécimes de planetas menores, de onde se originam os transexuais, os bissexuais, os hermafroditas, os trangêneros, os crosdressers…um universo de possibilidades. E se o sabido doktor Freud, do alto do seu divã vienense, já se perguntava “Afinal, o que querem as mulheres?”
Dito isto, vamos à Pele que Habito, novo filme de Pedro Almodóvar. A película é baseada no livro Tarântula, de Thierry Jonquet, e dá para entender porque o espanhol escolheu adaptá-lo em vez de ser autor do próprio roteiro. É que os temas caros de Almodóvar estão todos por lá: traições, incesto, estupro, relações intrincadas, bizarrices…o universo almodovariano é uma salada um tanto colorida, e às vezes indigesta.
Talvez aqui ele tenha cometido vários pecados. Deixou sua zona de conforto, com sua multicolorida estética kitsch, o que não deixa de ser uma façanha quando se trata de alguém que tem uma marca reconhecida. O filme tem um lado sombrio que obscurece o que Almodóvar tem de mais marcante: o escracho e o humor, mesmo que seja o humor negro. Aqui vemos Antonio Banderas, como vimos poucas vezes, como um excelente ator (ele só atuou bem quando foi dirigido por Almodóvar, só fazendo bobagens depois de abandonar a tutela do mestre).
Aqui Banderas é um cirurgião plástico que, após o acidente de carro da esposa, cria uma pele artificial com a qual poderia tê-la salvo das trágicas queimaduras. Ele, finalmente, como Dr. Frankenstein, cruza todos os campos da ética e, com os avanços da ciência, desenvolve a tal pele usando um ser humano como cobaia. E este é apenas um dos seus crimes.
O filme avança e retrocede levando o espectador a adentrar o universo do médico-monstro. Infelizmente, a estética muito limpa foge da marca dos sucessos anteriores de Almodóvar e mesmo as cenas de sexo ficam muito aquém de ousadias sensuais de muitos filmes dele. Só para citar exemplos: o estupro em Kika (1993) ganha muito em coreografia sexual em relação ao estupro na Pele que Habito. E Banderas exibe sua nudez sem pudor seja em Ata-me (1990), seja em A Lei do Desejo (1987), mas aqui, pudicamente, se cobre com um cobertor. Almodóvar avança por um lado e recua por outro. Onde estão a coragem e a ousadia de sempre?
Há outros problemas como um vestido que surge após anos sem que se saiba como, alguns erros básicos de continuísmo, personagens que nada acrescentam à trama e que poderiam ser perfeitamente dispensáveis como, paradoxalmente a própria estrela Marisa Paredes (soberba em Tudo Sobre Minha Mãe) em um papel que se for espremido não tem nenhuma importância na trama, além de uma referência descarada e desnecessária ao carnaval da Bahia (Almodóvar é amigo de Caetano Veloso e não se cansa de homenagear o santamarense). A música, que sempre foi um ingrediente destacado dos filmes do diretor, perde bastante na escolha da cantora espanhola Ana Mena para interpretar, em português, a fraquinha canção Pelo Amor de Amar.
Uma falha enorme é o não desenvolvimento psicológico do personagem Vicente. Fundamental para a trama, a ausência do aprofundamento no universo do rapaz demonstra um descuido que parece ser proposital para que o espectador não tenha tempo de ter empatia suficiente com ele.
Mas o filme tem méritos e o principal deles é incomodar a plateia. Isso não é pouca coisa e nesse mister Almodóvar continua um craque. Pena que seu bisturi está menos afiado.

Balada do Amor e do Ódio


A figura do palhaço sempre foi um arquétipo poderoso no cinema (assim como no teatro, na ópera e na arte em geral). Foi com essa espécie de obsessão em mente que o diretor espanhol Alex de La Iglesia dirigiu Balada do Amor e do Ódio, levando os prêmios de direção e roteiro no Festival de Veneza de 2010. O filme é o típico exemplo de cinema fantástico (no sentido do grotesco).


A história tem início na década de 30, durante a guerra civil espanhola, num ambiente de uma família circense cujo elenco é forçado pela milícia a lutar contra o governo. Logo a seguir vemos uma sequência ao mesmo tempo plasticamente bela, mas de uma estética bruta e suja, em que um palhaço, vestido de mulher, com cachos dourados e nariz vermelho empunha um facão e destroça os atacantes munidos de fuzis até ser dominado. Preso e condenado a trabalhos forçados, ele vê seu filho, o garoto Javier (o ator mirim é muito fraco) tentar seguir seus passos já que sonha ser também palhaço, como todos na sua família. Mas o pai, na cadeia, o aconselha a assumir o papel do palhaço triste já que jamais seria engraçado pois não tivera infância. Para ser feliz deveria buscar a vingança.

O filme dá um salto de mais de 30 anos e, sob a ditadura de Franco, vemos o garoto Javier, já um homem adulto, buscando um papel de palhaço triste num circo vagabundo, num ambiente semelhante àquele da sua infância, dominado pelo personagem grotesco, viril e violento do palhaço Sérgio, amante extremamente ciumento da trapezista Natália.

O título desse filme bem poderia ser: “Mulher de malandro é chave de cadeia!” Desde o momento em que Javier vê a moça, que é belíssima, notamos que dali não vai sair coisa boa. Os críticos identificam no amor dividido de Natália (paixão por um Sérgio violento e amor pelo calmo Javiercomo metáfora da própria Espanha, dividida entre fascistas e republicanos.

Impossível não se lembrar de Quentin Tarantino e Guillermo Del Toro em seus filmes mais trash (Pulp Fiction, Bastardos Inglórios e O Labirinto do Fauno). Em certo momento da narrativa percebe-se que o filme rompe todos os rótulos e o diretor claramente viaja na maionese. Passa de uma narrativa política a alegórica e em seguida ao cômico, ao grotesco puro e simples, ao gótico fantástico e termina em um anunciado final trágico. Nunca mais vou ver um palhaço sem esquecer das cenas desse filme.

21.9.11

Melancolia e A Árvore da Vida

No momento em que escrevo esse texto, os filmes Melancolia e A Árvore da Vida estão em cartaz em apenas três salas de cinema de Salvador. Não sei quanto tempo continuarão em cartaz. Acho difícil que permaneçam muito tempo, pois apesar de serem filmes de diretores famosos e polêmicos — Lars Von Trier e Terrence Malick — podem ser substituídos perfeitamente por um bom lexotan. E ambos estão ligados ao mesmo tema: a vida é uma Graça de Deus ou é um presente da própria Natureza?

Sou fã dos dois diretores. De Lars Von Trier sou macaco de auditório, admirador de todos os seus filmes desde que fui apresentado, em 1991, à experiência única da sua película “Europa”. Não perdi uma única aventura do polêmico cineasta que este ano perdeu a Palma de Ouro de Cannes por conta de sua proverbial língua e do seu imensurável ego, quando bateu boca com jornalistas em torno de uma piada de péssimo gosto envolvendo nazismo. Em sua filmografia, há verdadeiras joias como Ondas do Destino, Os Idiotas, Dançando no Escuro, Dogville, Manderley e Anticristo. Esse longo parágrafo é para dizer como fiquei triste por não ter gostado de Melancolia.

Acontece que Melancolia é resultante de uma crise depressiva na vida do diretor. O crítico e psicanalista Contardo Calligaris escreveu na Folha de São Paulo que a personagem Justine, de Kirsten Dunst (a referência à heroína homônima do Marques de Sade não é à toa) sofre de um mal que transborda o próprio sentimento dos melancólicos. Estes, na sua tragédia pessoal, podem até querer acabar com a própria vida, mas nenhum deles concebe, como a Justine de Trier, o fim da “vida” em si. Da existência da espécie humana. E é isso que o diretor parece querer mostrar com o seu ego de um cinismo monumental. “Se não dou a mínima para a humanidade, essa que se exploda”. E para tal, o enorme planeta Melancolia fará o serviço sujo se chocando com a Terra, como um iceberg abalroando o Titanic, e levando embora, num apocalipse hiperbólico, desde Guantánamo até a Capela Sixtina, desde Bangu I e Angra II até o Santo Sudário e a Esfinge de Gizé.

Belas imagens, sem dúvida, abrem a película, como é do feitio do talento inquestionável do diretor dinamarquês. Belíssimos oito minutos de um lirismo tão lindo que quase dói: um comercial do apocalipse em slow motion, como aponta em brilhante artigo o crítico Antônio Gonçalves Filho no Estadão.

Já A Árvore da Vida levou a Palma de Ouro de Cannes, uma premiação bastante questionada pois, entre os críticos, diz-se que o filme não está à altura dos trabalhos anteriores de Malick, como Terra de Ninguém, Cinzas no Paraíso e Além da Linha Vermelha. Fui para sua pré-estreia na sessão para jornalistas no Multiplex.

Se fosse analisá-lo como um todo, diria que não gostei dele. Falo como uma obra integral, apesar de seus pontos positivos, como a excelente cenografia, belíssimas interpretações dos atores (Brad Pitt e Sean Penn sempre excelentes), trilha sonora e fotografias primorosas. Mas vejo isso como um exemplo de que o todo pode ser inferior à soma das partes.

Há alguns anos li um comentário jocoso a respeito do que definiria um “filme de arte”. Isso me pereceu, naquela época, uma gozação infeliz, mas hoje eu concordo com a frase que é a seguinte: “Filme de arte é aquele que acaba de repente!”.

Esse filme é exatamente isso. Em vários momentos, você percebe que ele pode acabar a qualquer momento que isso não faria a menor diferença. E, de fato, ele acaba numa cena igual a várias outras. Muito bonita, mas igual em beleza a todas as outras. Além disso, há muito de uma coisa que costuma se criticar em cinema que é a tal reiteração, aquela inclusão desnecessária de cenas que nada acrescentam ao enredo ou à trama, mas apenas repetem o que já foi dito ou mostrado. Além disso, há uma irritante narrativa sussurrante. Para narrar qualquer coisa tem que ser sussurrando? E o filme também pressupõe que você vá embarcar no questionamento espiritual que ele desenvolve (desenvolve?) sobre Graça e Natureza, a primeira compreendida no sentido filosófico cristão.

A história não é amarrada, mas entremeada de inúmeras cenas plasticamente bonitas e que caberiam melhor em um documentário do National Geographic, imagens grandiloqüentes, do Big Bang, à criação do universo, das águas-vivas, dos dinossauros....Tudo com uma música altíssima emoldurando cada cena com uma grandiosidade que se não era pretensiosa, chegava muito perto disso. O final, com todo mundo numa praia, vivos e mortos, me deixou constrangido pela pieguice e pela breguice.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, na Bravo, analisa os dois filmes e identifica na Graça, o encanto e seu conceito, ao lado de Deus, uma das maiores criações da filosofia ocidental. A Graça seria generosa e dá vida enquanto a Natureza é egoísta e escrava da fisiologia. Essa premissa, que julgo algo rasteira, me obriga a me identificar com a crítica de Isabela Boscov na Veja: “O diretor não tem algo menos superficial do que essa dicotomia filosoficamente discutível entre a indiferença da natureza e a generosidade do espírito — como se a espiritualidade humana não fosse, ela própria uma resposta à violência casual da natureza”.

O crítico da Folha Inácio Araújo gostou. Para ele o filme é uma saga familiar contada de forma não-linear, por fragmentos ou estilhaços de vida que se projetam no tempo. Afirma ele: “Esse filme dispensa maior erudição ou esforço intelectual para ser compreendido: ter uma alma já basta”. Pergunto eu: ter compreendido significa ter gostado? Minha alma compreendeu o filme, apesar dos meus esforços intelectuais para não achá-lo pretensioso. Mas, por favor, não exija demais da minha alma.

16.7.11

Minhas cenas inesquecíveis

   

 Todo mundo gosta de listas. O escritor Umberto Eco até lançou um belíssimo livro sobre elas: "A Vertigem das Listas". Há listas para tudo e esta é minha lista de 20 cenas inesquecíveis de cinema. Não há ordem, mas uma organização sentimental de minhas cenas favoritas. Afinal, o que torna um grande filme são as suas cenas inesquecíveis.

Blade Runner (1982) - A perseguição final - A sequência final é impecável. O replicante (Rutger Hauer) e o caçador de androides (Harrisson Ford) estão em uma alucinante perseguição. O replicante, no fim da jornada sangrenta em uma noite repleta de neon e chuva ácida. O monólogo final é irretocável: “Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataques em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar, no escuro, na Comporta Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva.”.

A Morte em Veneza (1971) - O maestro e seu destino - Como Ridley Scott, Visconti retrata a busca pela vida. Como o replicante que só deseja viver, o velho maestro descobre no efebo Tadzio um elixir da juventude. Na cena final, em uma Veneza semi-evacuada pela peste, o velho, em uma cadeira de praia, estende as mãos para Tadzio ao longe. A cena ilumina as palavras do livro: “Aschenbach sentiu dolorosamente que a linguagem pode apenas louvar, mas não reproduzir, a beleza que toca os sentidos”. E ao morrer, um filete de suor, tinta negra, derretida pelo sol — um escárnio da beleza sobre o tempo — escorre da sua têmpora.

O Chamado (2002) - O cavalo na balsa - Pode parecer heresia incluir um filme de terror B, refilmagem de um horror gótico japonês, numa série de grandes filmes, mas esta é uma lista eclética. O filme não é grande coisa, mas a sequencia em que um cavalo rompe aos coices uma jaula em um ferry e se solta enlouquecido pelo meio dos carros, acabando por se atirar ao mar, é qualquer coisa de espetacular. Uma pequena joia.

Ó Paí Ó (2007) - A morte das crianças - Não falei que era uma lista eclética? Aqui há uma sequência perfeita em que a atriz baiana Luciana Souza, como a evangélica Joana, atira-se Pelourinho abaixo, vestido branco esvoaçando na noite, gritando a plenos pulmões em busca dos filhos que já sabe mortos. É de cortar o coração. A cena tem uma tomada aérea e a câmara abre, lenta, com as imagens de mulheres correndo em direção à tela. Um crítico famoso declarou que ela deve entrar para a história das cenas ícones do cinema mundial.

O Encouraçado Potemkim (1925) – A escadaria de Odessa - Aqui também uma mãe em desespero não consegue salvar o filho. O diretor Sergei Eisenstein fez deste um filme que entrou para a história pela famosa sequência do massacre da população nas escadarias de Odessa em que um balé de imagens se sucede na tela com uma longa descarga eletrizante. Impossível esquecer a imagem do carrinho com o bebê, despencando escadaria abaixo, após a morte da mãe.

Filhos do Paraíso (1997) – A corrida - Há uma tradição de os filmes iranianos mostrarem cenas memoráveis com crianças. Aqui, o diretor Majid Majidi conquista a plateia com uma bela história de um casal de irmãos que divide um único par de sapatos. Como os dramas infantis sempre lhes parecem insuperáveis, o diretor, habilmente, conduz o filme como uma criança. Toda a sequência da corrida que, para o ultra carismático Ali é a solução dos seus problemas, já que ele pretende tirar o terceiro lugar e ganhar um novo par de tênis, é magnetizante. Para ver com o coração e um lenço nas mãos.

Sindicato de Ladrões (1954) - O diálogo dos irmãos – Marlon Brando memorável e sempre perfeito, no auge do seu talento e beleza, Oscar de melhor ator pelo papel do boxeador que abandonou os ringues, envolvido pela máfia. Brando é Terry, dominado pela mágoa e culpa pela morte de um amigo. Ele abre a alma para o irmão desonesto no banco de trás de um táxi: “Eu poderia ter tido classe. Eu poderia ter sido um lutador. Eu poderia ter sido alguém, ao invés do vagabundo que sou”. Não se fazem mais atores nem cenas assim.

O Iluminado (1980) - No corredor do hotel – Esta foi eleita a cena mais assustadora da história do cinema. O filme traz Jack Nicholson eternamente histriônico, mas quem rouba o filme é o garotinho. Em um hotel isolado pela neve, é magistral a filmagem em travelling do menino no velocípede percorrendo uma sucessão de corredores desertos. Stanley Kubrick segue o mestre Stephen King e manipula com habilidade nossa apreensão. A imagem, aterradora, das irmãs mortas assusta qualquer marmanjo.

As Pontes de Madisson (1995) – O momento de decisão – Clint Eastwood e Meryl Streep são um luxo. Ele, um fotógrafo de meia idade e ela uma dona de casa, vivem um breve romance outonal. É dilacerante a cena em que ela tem que decidir entre o marido e os filhos e o fotógrafo. Dentro do carro, mãos crispadas na maçaneta, olhando o amor da sua vida sumir no carro da frente. São segundos para decidir toda uma vida e ela traduz no olhar toda a carga de dúvidas enquanto o marido sequer imagina o turbilhão por que passa a esposa ao seu lado.

A Marca da Maldade (1958) – Plano-sequência inicial - Um longo plano único de mais de três minutos abre esta obra prima de Orson Welles mais lembrado por Cidadão Kane, realizado 17 anos antes. Aqui ele demonstra novamente a obra do gênio que foi, com um complexo trabalho de câmera em grua e nos faz percorrer a fronteira mexicana onde sabemos que uma bomba explodirá em um carro. Um filme noir que merece todos os elogios.

Pacto Sinistro (1951) – A partida de tênis – O mestre do suspense Alfred Hitchcock tem dezenas de películas com inúmeras cenas inesquecíveis, como a clássica do chuveiro em Psicose. Mas, em Pacto Sinistro, o diretor esgarça cada fibra dos nervos do expectador até o seu limite durante uma partida de tênis em que um dos personagens tenta desesperadamente encerrar o set enquanto o vilão se dirige para o local do crime, para deixar um isqueiro que incriminaria o jogador. Somente um gênio conseguiria transformar uma partida de tênis numa sessão de tortura para os nervos.

A Bruxa de Blair (1999) – A lanterna na barraca – Considero este um dos filmes mais assustadores a que já assisti. Haverá quem torça o nariz, mas a ideia é genial. De custo irrisório, tornou-se a película mais lucrativa do cinema. A versão original tem cenas verdadeiramente arrepiantes, como a da moça sozinha, rosto iluminado apenas por uma lanterna, aos gritos, em pânico legítimo, em uma barraca numa floresta cheia de ruídos apavorantes e todos nós querendo muito acreditar que não se trata de uma atriz. A enigmática cena final das mãozinhas na parede são puro horror.

Matrix Reloaded (2003) - A sequência da auto-estrada - A trilogia Matrix é um divisor de águas no cinema por inúmeras razões. Toda a mitologia que cerca o filme, a pletora de referências a inúmeros livros, a outros filmes, à cultura pop e o estabelecimento de um novo paradigma de efeitos especiais. Para quem gosta de cenas de perseguição, a sequência da auto-estrada é a cereja mais doce do topo de um bolo. Dura 15 minutos, envolvendo artes marciais, perseguições de carro, moto e caminhão na contramão do tráfego intenso, personagens saltando entre veículos em movimento e um show de batidas e explosões.

Um Corpo que Cai (1958) – O cemitério de Mission Dolores – Este filme tem para mim um sabor especial porque se passa em São Francisco, cidade que amo, e há uma cena especialmente bela em que a personagem Madeleine visita o cemitério de Mission Dolores. Sou louco por cemitérios e nas três vezes que estive na Califórnia, fui ao mesmo cemitério e ao mesmo túmulo que Kim Novak visita no filme. O detalhe interessante é que a igrejinha e o seu cemitério foram das poucas construções que ficaram em pé no grande terremoto que destruiu São Francisco em 1906.

Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987) - A cena final – O diretor iraniano Abbas Kiarostami mostra o garotinho Ahmad envolto numa pequena odisseia pessoal para devolver ao colega de classe um caderno esquecido na escola. A tarefa é como uma missão que Ahmad fará tudo para cumprir e a película é como um conto de fadas ao contrário. São inúmeros os percalços que Ahmad precisa atravessar e parece que tudo foi em vão, mas a última cena é pura poesia em uma única e rapidissima imagem: uma florzinha miúda dentro do caderno do amigo.

Toda Nudez Será Castigada (1973) – A fuga com o ladrão boliviano – Arnaldo Jabor dirigindo Nelson Rodrigues só podia dar samba e censura. O universo rodrigueano em seu esplendor: taras, incesto, perversões e crítica à hipocrisia da classe média. Darlene Glória, no papel ícone da sua carreira, é a prostituta Geni. A cena em que o enteado Serginho, por quem ela se apaixona, após ser violentado na cadeia por um ladrão boliviano, foge do país com o próprio ladrão a tiracolo não poderia ser um tapa mais direto no rosto da moral familiar burguesa e patriarcal. Uma contribuição inquestionável para a dramaturgia e para o cinema nacional.

Magnólia (1999) – A chuva de sapos – Este filme é uma pequena joia do cinema dos anos 90. Nas três horas em que se desenrolam as histórias de nove pessoas em planos temporais diferentes, sentimos como se estivéssemos nos embriagando com nove tipos diferentes de bebidas. Tom Cruise nunca esteve tão bem como nesse filme. Foi indicado ao Oscar de coadjuvante, mas, injustamente, não ganhou. O elenco é fabuloso: Julianne Moore, William Macy e Philip Seymour Hoffman. A antológica chuva de sapos final é uma catarse, uma overdose com referências espalhadas em códigos pelo filme.

Dançando no Escuro (2000) – A “dança” final de Selma – O diretor dinamarquês Lars Von Trier é um sádico e misógino, mas é um gênio e tudo que toca é ouro puro em cinema. Esse foi o primeiro (e último) filme da cantora Bjork que pela interpretação ganhou a Palma de Ouro em Cannes de melhor atriz. Ela é Selma, uma imigrante quase cega que atravessa verdadeiros horrores para salvar o filho do mesmo destino. Para escapar da mediocridade, Selma sonha acordada com precários musicais arriscando a vida em cada passo. A “dança” final de Selma no vazio leva o cinema às lágrimas.

Anticristo (2009) – A sequência de abertura – Para provar que eu gosto do “louco” Lars Von Trier, incluo mais uma cena irretocável de uma das suas obras. O filme Anticristo em si não me agradou tanto, me chocou até. Cenas de mutilação genital e tortura são excessivas até para mim. Mas a abertura em câmara lenta, ao som da ária Lascia Ch'io Pianga de Handel, é êxtase puro. Quase dá para esquecer de que estamos vendo a morte de uma criança.

Amor à Flor da Pele (2000) – Todas as tomadas em slow motion sob a chuva e ao som de “Aquellos Ojos Verdes”, na voz de Nat King Cole - Wong Kar-wai é o meu diretor preferido e nesta lista poderia incluir outras cenas de qualquer um dos seus filmes. Aqui vemos um casal traído e abandonado pelos seus respectivos cônjuges, tentando sobreviver com a dignidade possível. A descoberta lentíssima do afeto, uma crescente tensão sexual quase incontida, a beleza dos pequenos gestos e da onipresente fumaça dos cigarros são para serem vistos várias vezes.

19.11.10

O Ovo Estragado da Serpente


Nas últimas semanas estive de férias e, como faço quase religiosamente há quase uma década, me dedico a assistir ao maior número possível de filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que este ano completa sua 34ª edição. Esta é a minha concepção de sagrado...Mas não é sobre isso que pretendo falar aqui, sobre os 39 filmes que vi, as exposições e museus que visitei, as peças de teatro a que assisti...apesar de que a ideia original era essa, no meio do caminho a história se complicou um pouco.

Antes preciso dizer que fui convidado por um amigo responsável pelo blog de cinema do portal do Ibahia.com (www.portalibahia.com.br/blogs/cinema) para ser uma espécie de “correspondente” daquele site na Mostra de Cinema de São Paulo. Como meu amigo sabe que escrevo comentários sobre os filmes a que assisto, pediu que eu alimentasse o seu blog com as resenhas. Estava tudo indo bem, os comentários estavam sendo publicados normalmente quando eis que cometi o pecado mortal de falar mal de um certo filme. Entre os filmes que vi neste ano, alguns não mereceram elogios e outros foram verdadeiras obras primas. Então eu deveria aqui estar falando dos bons filmes que vi não é? Mas também não é sobre esses que pretendo falar.

Reproduzo o comentário que fiz (ele está lá no site do ibahia.com.) antes de introduzir o conflito que ele gerou: “AGRESTES foi uma decepção. Metade da sala deixou o filme na metade da projeção. Como deixei no meio, pode ser que mais gente tenha saído depois e olhe que a sala estava bem vazia. Esperava mais porque o filme é sobre uma atriz de quem eu gosto muito, Marcélia Cartaxo que foi premiada em Cannes há vários anos pelo papel de Macabeia em A Hora da Estrela. Depois disso ela nunca mais fez nenhum papel de destaque no Brasil, o que é um crime, pois ela é uma atriz fantástica. A diretora do filme Paula Gaitan apresentou à plateia seu “rebento” e ainda ficou para assistir. Esse é o tipo de trabalho em que o autor não consegue se separar da obra. O filme é de uma pretensão desmedida...a mulher filmou cabras, montanhas, bandeirolas, mais cabras....mais bandeirolas e uma hora se passava e só se ouviam algumas histórias de Marcélia, uma cabras berrando...uns troncos de árvore...uma chatice sem fim”

Qual a minha surpresa quando recebo do meu amigo administrador do blog o comentário abaixo, feito pela diretora do filme, Paula Gaitan por meio do Facebook: “Paula Maria Gaitán-30 de outubro de 2010 às 01:36-Assunto: denuncia - vou denunciar vc e seu blog pra policia e enviar um comunicado oficial pra mostra de sp falando sobre as grosserias e ofensas em relacao a minha pessoa , e ao secretario de cultura da bahia”.

Através do próprio blog, ela enviou o texto que segue em parte: “Revise seus comentários, e debata ideias quando vc estiver escrevendo bem o mal sobre um filme, e nao ofenda as pessoas principalmente, para abrir assim um espaço interessante de reflexão , do jeito que esta nao passa de uma grosseira desonesta participação , um desserviço, ” crónicas de um cinéfilo amargo e ignorante”, seja +humilde…..outra coisa é muito bom cuidar do “rebento” como vc diz, cuidar da projecção, dos aspectos técnicos ,é uma pratica que eu e muitos do meus colegas fazemos por respeito ao publico, estamos exibindo nossos filmes praticamente pela primeira vez nesses festivais….ironia+ignorância = esse lugar reaccionário que vc habita com sua mediocridade”

E é esse o ponto que quero chegar. Estamos vivendo no nosso país um período perigoso. Durante os últimos anos do governo do PT, temos visto diversas iniciativas por parte dos dirigentes petistas para censura aos meios de comunicação. O ministro da supressão da verdade, Franklin Martins e o seu chefe, o presidente Lula, tentam, a todo custo, implantar uma forma de controlar o conteúdo do que é noticiado na imprensa e também inclui aí a internet e suas redes sociais A imprensa livre não interessa aos petistas na medida em que a liberdade implica tanto denunciar a corrupção no governo quanto opinar livremente sobre alguma coisa, seja ela os hábitos etílicos do presidente (o que gerou uma quase deportação do repórter do New York Times) seja sobre qualquer opinião que se tenha.

A presidenta Dilma é cria do mesmo ovo estragado dessa serpente. Minha intuição tem me servido muito e sinto cheiro de censura de longe. Algo me dizia que essa tal Paula Gaitan (que ameaça me denunciar à polícia) devia ter uma veia petista ou provavelmente seria uma a ter assinado aquele grotesco manifesto em que um grupelho de artistas defendia o voto na então candidata Dilma. Ao digitar os nomes das duas no Google....adivinhe: a mulher estava lá, apoiando Dilma. Minha intuição não falha. Todos eles são iguais. Não podem ser contrariados que sacam suas velhas ameaças de censura e denúncia. Sinto o cheiro deles de longe. E o mais fascinante de tudo é que os apoiadores da então candidata Dilma, hoje eleita, são artistas que sofreram com a censura no passado como Chico Buarque e a própria Paula Gaitan que, soube depois, vem a ser viúva de Glauber Rocha.

Ora, estamos entrando num terreno realmente pantanoso. Sem nem de longe me comparar a Monteiro Lobato, há poucos dias vimos uma censura oficial a obras do criador de Emília, Narizinho e Dona Benta pelo Conselho Nacional de Educação que publicou no Diário Oficial parecer contrário à adoção de textos de Lobato nas escolas públicas. O autor da frase: “Um país se faz com homens e livros” e que criou o personagem Jeca Tatu para denunciar o atraso, as doenças e o primitivismo brasileiro, se estivesse vivo teria vergonha de ser brasileiro. Aliás, se algo de bom vem nos próximos meses é que deixaremos de reverenciar um homem que afirma reiteradamente detestar ler. Lobato não deve ser mesmo do agrado dessa gente.

No Falajuf de 19 de agosto de 2004 escrevi um artigo com o nome “O ovo da Serpente”. Ali eu comentava que um regime autoritário não se molda da noite para o dia, mas se faz em um processo de passos contínuos nessa direção. Dizia ali: “Os ladrões da liberdade do PT estão se espalhando. Sem que percebamos eles já pisaram no nosso jardim, já sujaram nossas soleiras, deixaram pegadas enlameadas nas nossas salas e quando menos esperamos, eles é decidem o que podemos e o que não podemos ler e escrever”. O ovo da serpente não se incuba rápido, mas cuidado quando ele tiver eclodido de vez.

E para não dizer que não falei sobre cinema, já que a premissa de todo este texto é um “delito de opinião sobre um filme”, recomendo a película do genial diretor sueco Ingmar Bergman, não por acaso intitulado “O Ovo da Serpente”, em que é revelado um painel de um país em que aos poucos criam-se as condições que levam uma nação ao obscurantismo e à adoração de falsos heróis.

9.10.10

Tropa de Elite 2 - Aguenta, Nascimento!

Assisiti ao lançamento do esperadíssimo filme Tropa de Elite 2 na última sexta-feira, dia da sua estreia nacional. No Iguatemi está em cinco salas; em Salvador está em 20 cinemas e no Brasil são 636 salas. Fiquei imensamente feliz em constatar que todas as sessões tinham lotação esgotada. Após longa espera na fila, adquiri meu ingresso e desfrutei da segunda parte da alegria: o filme é ainda melhor do que o primeiro, que já era ótimo.

Tropa de Elite 2 traz de volta o polêmico Capitão Nascimento, agora Coronel, encarnado soberbamente pelo ator Wagner Moura, dez anos mais velho e mais intenso ainda do que no primeiro filme. Nascimento agora foi alçado a um cargo na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro e lá do alto enfrenta inimigos mais perigosos do que os traficantes dos morros e favelas cariocas que o infernizavam e a corrupção da PM. Agora, como diz o subtítulo do filme: "O inimigo é outro".

Se o inimigo é outro, é mais forte e peigoso. Os políticos!

O filme radiografa com todas as suas cores sórdidas a relação promíscua entre políticos oportunistas com as milícias paramilitares e os traficantes cariocas. O filme não é maniqueísta. Nascimento não é um santo e Wagner Moura revela em inúmeras cenas o porquê do sucesso do personagem: sua sinceridade. Nascimento consegue a proeza de ser transparente mesmo fugindo da dicotomia bom ou mau; preto ou branco; bandido ou mocinho. Está muito mais em uma zona cinzenta mas é justamente aí que mais revela sua translucidez. Em uma cena muito forte de um filme repleto delas, revela num discurso: "Meu filho, aos dez anos, me perguntou porque a minha profissão era matar. E eu não soube como responder".

O filme do diretor José Padilha é espetacular. Normalmente fico com o pé atrás quando o filme tem narativa em off. Entendo que uma obra dramaturgica deve se sustentar pelas próprias imagens, cenas, edição, efeitos, fotografia, iluminação e diálogos. Narrativa é para literatura. Mas em Tropa de Elite 2 a narrativa do protagonista é precisa, sem redundância, entra nos momentos e pontos certos. Cirúrgica!

Nascimento está mais experiente, separou-se da mulher, está em conflito com o filho, em conflito com antigos companheiros do BOPE, em conflito consigo mesmo. Um homem a ponto de explodir. Um homem a ser eliminado. Esse perfil psicológico muito mais profundo torna o protagonista dono de uma densidade inquestionável. Impossível não vibrar com ele a cada fibra de sua amargura.

José Padilha escolheu um elenco afiadissimo, uma edição ágil, sonoplastia de primeira e uma trilha sonora pancadão: "Tropa de Elite/Osso duro de roer/Pega um, pega geral/Também vai pegar você". Bate no coração, no ritmo de marcha acelerada. Aguenta, Nascimento!

O crítico de cinema Luiz Carlos Mertem escreveu que se o filme fosse lançado antes da realização do 1º turno, teria causado um estrago muito grande no processo eleitoral. "Dilma e Serra vão ter que encarar o problema da segurança e discutir o Tropa de Elite 2 no segundo turno. O filme pega essa questão do legislativo, do político ficha suja, do deputado federal, do estadual...e no final ele amplia isso para Brasília".

Para contribuir um pouco para tal alálise, sugiro ao leitor que verifique no site: Mapa da Violência(www.institutosangari.org.br/mapadaviolencia) que é uma verdadeira anatomia dos homicídios no Brasil, uma série publicada desde 1998 que se tornou referência internacional sobre o tema.

Ali você verá que na cidade de São Paulo, a violência cresce menos do que no Brasil. Entre 2002 e 2007, os homicídios por cada 100 mil habitantes no Nordeste cresceram 32,4%. Na Bahia, o aumento foi de 97% enquanto em São Paulo a queda foi de 60,5%. A redução de 11,57% no país como um todo se deveu a São Paulo.

Na cidade do Rio de Janeiro a taxa de homicídios é 35,1. Salvador fica em 152º posição no ranking de cidades mais violentas do pais enquanto São Paulo, que tem a maior população do Brasil está com índice de 17,4 e fica em 1,358º lugar no ranking de violencia. Se em Salvador a violencia só aumenta a cada ano: 2003 (730); 2004 (739); 2005 (1.062); 2006 (1.187); 2007(1.357). São Paulo registra queda constante 2003 (5.591); 2004 (4.275); 2005 (3.096); 2006 (2.556); 2007 (1.927).

Números são áridos. Melhor é falar em cinema e política. Vá assistir a Tropa de Elite 2 e depois vá votar.

1.10.10

Caim e o preconceito da crítica


Recentemente terminei a leitura de Caim, último livro do escritor José Saramago. Costumo ler todos os artigos a respeito dos livros que estou lendo no momento e, com relação à última obra de Saramago, impressionou-me a quantidade de críticas preconceituosas.

A maioria das críticas acusa Saramago de fazer em Caim um livro menor, de ter deixado de lado a literatura para fazer um libelo ateísta, de transformar a arte em panfleto ou um manifesto. Vejo intolerância da parte desses críticos. É como se Saramago fizesse do ateísmo uma profissão
de fé (desculpe o trocadilho).

O escritor já publicou 26 livros que tratam de temas diversos como em A Caverna, Memorial do Convento, Ensaio Sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Jangada de Pedra, Ensaio Sobre a Lucidez, O Homem Duplicado, A Viagem do Elefante, As Intermitências da Morte... todos eles livros espetaculares. Só no incomparável O Evangelho Segundo Jesus Cristo Saramago demonstra fartamente sua implicância com a religião. E o faz de modo brilhante em livro memorável.

Caim é um romance de ficção como todos os demais do Nobel Saramago, com o mesmo estilo de escrita bem humorado e único, com parágrafos imensos e pontuação original. A narrativa pode ser fantasiosa ou fantástica, mas isso não destoa do seu tipo de ficção que tanto agrada a milhões.

Creio que quase todos que lêem Saramago sabem do seu comunismo e do seu ateísmo e não se incomodam com isso, pois seus livros vendem muito. O que me impressiona não é nem a má vontade da crítica com o livro, mas o evidente preconceito dos que ao escreverem a respeito, não percebem que deixam escapar sua intolerância com o direito desse brilhante escritor de abordar ao seu modo, uma história com todos os ingredientes da boa ficção.

Entre várias críticas na mesma linha, selecionei a de João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo, que dá ao título da sua coluna o nome Ensaio sobre o Fanatismo. Diz que Saramago não somente não crê em Deus, mas detesta-o com a força de um fanático. Diz, com ironia, que Saramago é a criatura mais religiosa da literatura contemporânea. Uau. E o homem só escreveu dois livros sobre o tema entre 26 obras.

Talvez o problema seja que faltem autores que escrevam com a coragem de Saramago. Se ele tivesse mais concorrentes não seria...como é mesmo... “a criatura mais religiosa da literatura contemporânea”.

E o crítico desfia seu rosário: “A narrativa é pobre, sobretudo nas descrições sexuais, vulgar e risível... o Deus de Saramago é uma caricatura das divindades pagãs, colérico, mesquinho, traiçoeiro, cruel”. Para Coutinho, Caim é pintado como um terrorista disposto a sabotar um sistema absurdo e demencial. “Uma visão dessas só é possível na cabeça maniqueísta de um fanático", opina.

Para o crítico estão enganados os que dizem que a ideologia política de Saramago deve ser separada da sua criação literária. “Em Saramago, ideologia e literatura cumprem o mesmo papel. Doutrinar.” E vemos a seguir uma defesa de quem? Da Bíblia. Previsível!

Saramago expõe sem meias palavras ou retoques as chagas de Jó, as misérias de Abraão e o sacrifício de Isaque; as carnificinas perpetradas por Josué e Moisés em suas limpezas étnicas no Sinai, em Jericó e Canaã; o genocídio dos inocentes de Sodoma...O trecho seguinte é da mais fina ironia: “Naquela época as maldições eram autênticas obras-primas literárias, tanto pela força da intenção como pela expressão formal em que se condensavam. Não fosse Josué a crudelíssima pessoa que foi, até o poderíamos tomá-lo como modelo estilístico pelo menos no importante capítulo das pragas e maldições, tão pouco freqüentado pela modernidade”.


As qualidades ou defeitos do livro deveriam ser analisados unicamente no campo da literatura. A
crítica à personalidade do autor não deveria interferir na fruição do texto. Eu prefiro Saramago a Deus, mas muita gente pode ter uma escala de preferência diferente e ainda assim gostar de Caim, principalmente na hilária parte em que ele ensina ao criador o princípio de Arquimedes e explica porque a arca de Noé não flutuaria se construída no seco, forçando deus (assim mesmo, em minúscula), a mudar toda a engenharia do dilúvio. São só 172 páginas, não vai matar ninguém.

*Ilustrando este texto, quadro do pintor expressionista alemão Lovis Corinth. Em Caim e Abel, o artista congela o dramático momento do fratricídio. A pintura está no Kunst Palast Museum de Dusseldorf. A foto foi tirada por mim em janeiro deste ano em visita ao museu.

26.9.10

A bênção da bolsa e a maldição da memória


“Um povo que abre mão de um pouco de liberdade por um pouco de segurança, certamente não merece nenhuma das duas”. Lembrei-me desta frase do intelectual Benjamin Franklin ao refletir sobre o eleitor brasileiro nesta campanha para a Presidência em que, ao que tudo indica, elegerá a candidata do presidente Lula.

Está evidente que a grande maioria do eleitorado brasileiro está agindo como o povo da frase de Benjamin Franklin. Está pensando como consumidor e não como cidadão. Parafraseando-o eu diria: um eleitorado que troca um pouco da sua consciência por um pouco de dinheiro, certamente não faz jus a nenhum dos dois.

E é pensando com o bolso (ou com o estômago) e não com o cérebro, que o País elegerá a candidata de Lula. Não importam as bravatas do presidente da República e o descarado e escancarado uso da máquina pública em favor da sua candidata. Não importa que eles se aliem à escória da política nacional, que instalem um balcão de negociatas na Casa Civil, que reneguem seu passado, que aparelhem o Estado, cooptem organizações como UNE e sindicatos, que esgarcem as instituições e se iluda a população com informações falsas, que se apropriem da história e das conquistas do governo anterior, que se afaguem ditadores, que se tente calar a imprensa livre. Para eles, quem não bajula o governo é necessariamente ruim e deve ser calado, exterminado, censurado. Tentaram sempre e tentarão sempre controlar a produção cultural e intelectual. Só lhes interessa a louvação e o elogio. Estamos tratando do mais puro populista, que é o oposto do estadista. Um estadista pensa nas próximas gerações. O populista pensa nas próximas eleições.

Tudo se permite àquele que é popular, que passou a mão pela cabeça de todos os corruptos do seu governo, que debocha da Justiça Eleitoral. As coisas ficam mais interessantes quando se constata que se há quem deva realmente pensar com o bolso são os banqueiros, corruptos, aloprados, mensaleiros e especuladores, pois nunca passou tanto dinheiro por baixo desses panos, sejam de cuecas, meias ou bolsas. Estão semre recheados.

Entretanto, como se constata, a maior parte dos eleitores de Lula e da sua criatura é oriunda dos grotões, são os menos escolarizados e com renda mais baixa. O cineasta Claude Chabrol já dizia: “A estupidez é infinitamente mais interessante que a inteligência. A inteligência tem limites, mas a estupidez não”. É lógico que se trata de uma ironia, uma frase de efeito que guarda uma verdade cinematográfica. Pena que estamos falando da vida real e não de um filme. Na vida real tudo deveria ter um limite.

Em cinema diz-se que um filme precisa apenas obedecer a uma verdade interna. Na tela se pode fazer os maiores absurdos, pode-se respirar um ar irrespirável, saborear o insuportável, digerir o inconcebível..mas sempre com a tal verdade interna.

Se na vida real houvesse o mesmo código do cinema, não veríamos impunemente posar de estadista aquele mesmo PT que sabotou o Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves, que expulsou do partido três deputados que votaram em Tancredo...e lá está Dilma Roussef fazendo proselitismo no túmulo de Tancredo. Foi esse mesmo partido que tachou a Constituição de tramóia das elites; que não homologou a Carta Magna. Foi o PT que após a renúncia de Collor e durante o governo Itamar Franco, expulsou Luiza Erundina e Walter Barelli por participarem como ministros do governo da reconstrução dos cacos do país. Foi o PT que garantiu que o Plano Real era contra os trabalhadores, que se opôs ao programa de reestruturação de bancos, chamando-o de mamata para banqueiros, sendo que foi graças ao Proer que solidificou o sistema bancário brasileiro, que escapamos da crise mundial. O mesmo PT negou-se a participar do programa de reestruturação dos bancos estaduais, opôs-se às privatizações, às reformas constitucionais e depois, já no poder, as implantou, como a Reforma da Previdência.
Quem lembra que foi o PT quem recorreu ao Supremo contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Reforma da Previdência? E quem se lembra de Lula chamando a Bolsa Escola de FHC de esmola? Ninguém lembra? Por que não consigo esquecer essas coisas? É algum tipo de maldição da memória? Fico lembrando...lembrando...E penso naquele personagem de Matrix: “A ignorância é uma bênção”.

4.9.10

Me engana que eu gosto


NÓS E A CRIATURA

Há uma máxima em Hollywood que diz: “Jamais alguém perdeu dinheiro por subestimar a inteligência da plateia”. Essa é, com certeza, uma daquelas verdades sagradas que deveriam ser gravadas em mármore, uma vez que a imensa maioria das pessoas é, por natureza, propensa ao escapismo quando se trata do entretenimento. O mundo é feito muito mais de gente disposta a gastar seu dinheiro num cd de pagode ou sertanejo do que num disco de música mais elaborada ou com menos créus e rebolations. Há dez parangolés para cada João Gilberto; quinze lacraias para cada Débora Colker; vinte Siricoticos para cada Hamlet.

A mesma lógica que se aplica ao mundo do entretenimento pode ser verificada no universo da propaganda política. Há uma avalanche de empulhação que, a crer no que dizem as pesquisas, as pessoas querem continuamente ser enganadas. É como se dissessem: “ok, trabalhei o dia todo, estou cansado, quero que você me dê a papinha na boca para eu não precisar mastigar; cedo-lhe meu raciocínio crítico em troca de alguns minutos de escapismo e enganação.
A infantilização das mentes das plateias e dos eleitores jamais atingiu tamanho grau de profissionalização. Ninguém jamais perdeu votos por subestimar a inteligência dos eleitores e isso se comprova quando o partido do governo e do presidente da República mais popular nestepaiz está prestes a eleger a sucessora. Não duvido de que o faça, como não duvido da capacidade infinita de que as coisas fiquem sempre pior e de que desçamos sempre um pouco mais abaixo do fundo. Paulo Mendes Campos disse, sabiamente: “Antigamente as coisas eram piores, mas depois foram piorando”.

Antes eram mensaleiros, aloprados, invasores de sigilo fiscal, aparelhadores do Estado, fabricantes de dossiês, portadores de dólares nas cuecas, depois se aliaram a Sarney, Collor, Renan, Jader Barbalho, ACM, Maluf, Garotinho...Tenho certeza: sempre se pode piorar mais.
Não existe vacina para este mal. É da natureza das pessoas buscar a banalidade e o auto-engano. O jeito é ver as coisas como se olha num microscópio uma placa de petri. É como uma grande experiência de caldo de cultura. Dá para usar tanto na Sociologia quanto na Patologia. Tanto na Psicanálise quanto na Publicidade. Sem falar na Criminalística.
Então tá combinado: somos todos netinhos de Dona Lindu, bebezões alimentados pelas bolsas famílias, resultado do cruzamento de um metalúrgico paternalista, populista e auto-indulgente com uma...como vou chamar a criatura? Mary Shelley não deu nome à sua, por que eu daria?
Somos todos filhotes de alguém que elogia o regime do Irã (que apedreja mulheres e mata os gays); aquele que compara os presos políticos de consciência em greve de fome em Cuba ao estupradores e assaltantes paulistas; que exalta a Venezuela do perigoso canastrão e censor da imprensa Chaves; que afaga ditadores, arrota arrogância, mente com a pureza dos inocentes ou com o cinismo dos canalhas. Mas, creia, as coisas sempre podem piorar mais.
Acho muito divertido quando converso com meus vários amigos petistas que defendem essa gente de estrelas vermelhas no lugar dos neurônios. Se eu prestar atenção posso ouvir as sinapses dos seus cérebros rangendo enquanto buscam argumentos sofistas ou retóricos ou quando fogem das questões mais espinhosas com contra-argumentos tão banais que só por amizade não encaro como agressões físicas à minha inteligência. São tão previsíveis quanto os cachorrinhos de Pavlov.

Na verdade, acho divertido nos primeiros minutos de conversa, mas logo fica cansativo e preocupante, pois eles não se indignam com quebras de sigilos fiscais ilegais e mentiras escancaradas, não se escandalizam, não se revoltam. Vibram e aceitam tudo. Na maior parte das vezes, evito esse assunto para preservar a amizade. São todos tão inteligentes, mas tão inocentes...

Um dia nós seremos todos Francenildos.

31.7.10

Deixe Lisbeth, a hacker punk, pegar você!

Há quem considere os romances policiais um gênero menor dentro da literatura, como se fosse uma literatura classe B. Não quero comparar nada, não estou reduzindo Dostoievsky, Proust, Balzac ou Cervantes, mas é uma pena que ainda haja leitores com preconceitos em relação aos bons romances policiais.

Há uma tradição dentro da literatura policial de levar grandes histórias para o cinema roteirizando livros de excelentes autores como Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes, presente em dezenas de produções); Edgar Allan Poe, com seu lendário Os Crimes da Rua Morgue, entre outros clássicos, além de James Ellroy, criador dos livros Dália Negra e Los Angeles Cidade Proibida adaptados para o cinema por Brian de Palma e Curtis Hanson. O segundo deu o Oscar a Kim Basinger.

Não poderia esquecer a intensa literatura de Patricia Highsmith, criadora do célebre personagem e vilão mais charmoso da literatura policial, Tom Ripley, que aparece em seis livros e diversos filmes, além de ser a autora de uma obra prima adaptada para o cinema por ninguém menos do que o mestre do suspense Alfred Hitchcock. Estou falando do genial Pacto Sinistro (Strangers on a Train), cujo roteiro foi de outro grande escritor policial: Raymond Chandler, criador do detetive Philip Marlowe encarnado por Humphrey Bogart nas telas no clássico À Beira do Abismo (The Big Sleep), contracenando com Lauren Bacal no auge da sua beleza.

Bogart também viveu outro detetive famoso no cinema em Relíquia Macabra. Tratava-se de Sam Spade, criação do escritor policial Dashiell Hammet. O título no original era O Falcão Maltês e a película tem direção do inigualável John Huston. Grande parte dessas obras fez parte do ciclo de cinema noir americano.

Quase perto do fim da lista de escritores de fantásticos livros policiais, Denis Lehane, com três livros já adaptados para o cinema: Sobre Meninos e Lobos (Mistic River), Medo da Verdade (Gone, Baby Gone) e Ilha do Medo (Shutter Island). Três filmes onde brilham astros como Sean Penn, Tim Robbins, Kevin Bacon, Laurence Fishburne, Ed Harris, Morgan Freeman, Leonardo DiCaprio, Max von Sydow e Ben Kingsley e diretores como Clint Eastwood e Martin Scorsese.

E não poderia terminar a lista sem falar da rainha do policial, Agatha Christie, criadora genial de personagens como o detetive belga Hercule Poirot e o alter ego da autora: Miss Marple. São mais de 90 livros com varias adaptações para o cinema, com destaque para os insuperaveis Assassinato no Expresso do Oriente, Morte Sobre o Nilo, O Assassinato de Roger Ackroyd e O Caso dos Dez Negrinhos.

Ok, se você leitor chegou até este sétimo parágrafo deste texto saiba que tudo o que está escrito acima é para introduzir o que vem abaixo. É uma pena que seja preciso uma longa explanação sobre a história do romance policial e sua tradição de sucesso nas telas de cinema para dar mais de credibilidade, no texto, a uma série de livros que criou legiões de fãs pelo mundo e merece ser lido sem restrições. Falo da série Millenium, do jornalista sueco Stieg Larsson.

A obra já foi traduzida para mais de 40 idiomas e é um sucesso internacional com mais de 25 milhões de livros no mundo. O que é mais do que impressionante, pois são três livros totalizando 1.874 páginas. O primeiro volume: Os homens que não amavam as mulheres, tem 522 páginas; o segundo: A menina que brincava com fogo, tem 667 e A rainha do castelo de ar, totaliza 685. E a saga tem vendido tanto que a editora brasileira Cia das Letras lançou uma segunda linha da série a preços mais baratos. Só posso lhe dizer uma coisa. Acabe com seus preconceitos e vá correndo comprar os três livros. Você vai virar fã também.

E como não poderia deixar de acontecer com as grandes obras policiais, esta também já foi adaptada para o cinema. O primeiro livro ganhou as telas e nos cinemas brasileiros ficou poucos dias em cartaz. Certamente por ser um filme sueco, com atores desconhecidos e cuja distribuidora não tem o cacife dos estúdios americanos.

Mas Hollywood, que não é boba, já comprou os direitos de filmagem e o ator Daniel Craig interpretará o jornalista Mikael Blomkvist, protagonista da série. Escolha acertada pois Blomkvist encarna um personagem que tem muito de James Bond. Não se sabe ainda quem fará o papel da anti-heroína hacker punk e lésbica Lisbeth Salander por quem todos os leitores da série acabam se apaixonando apesar de ela levar a expressão anti-social ao seu paroxismo. Todos nós embarcamos na garupa da moto de Salander; todos nos angustiamos com as perseguições a que ela é submetida; todos exultamos quando ela consegue se vingar dos que a sacanearam; todos nos perguntamos se valeu à pena diante do seu sofrimento e todos chegamos ao final com a sensação de que o autor não nos deixou na mão e a resposta está no último capítulo da série.

Após terminar a leitura do terceiro volume senti uma espécie de orfandade, de repente eu, que convivera por semanas com os personagens de Stieg Larsson, estava irremediavelmente abandonado. Não haveria mais histórias com Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander, já que a série que estava prevista para ter 10 volumes encerrou-se no terceiro, pois o auto Stieg Larsson morrera com 50 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Fumava 60 Marlboros por dia e trabalhava 14 horas seguidas para nos trazer as intrigantes histórias de Salander e seus perseguidores.

Se você aceitar meu convite e se deixar levar pelos três livros, prepare-se, pois eles grudam. Depois de iniciada a leitura, você não conseguirá largar, já que a trama é muito bem urdida, os personagens e os diálogos são bem construídos, o ritmo é extremamente ágil. Os ingredientes são de primeira: um sumiço de uma herdeira milionária; pedofilia; perseguições; tortura; tráfico de mulheres; espionagem industrial; acobertamento de crimes pelo Estado sueco; incesto; pirataria cibernética; sexo, dinheiro e poder.

Deixe Lisbeth Salander, a hacker punk, pegar você! Dá uma agonia danada mas, acredite, valerá à pena!

25.7.10

O Dia da Toalha


Escrevi no Google o título deste artigo: “O Dia da Toalha” e encontrei mais de 600 mil referências. Perde feio para os nomes “Neymar” com quase 25 milhões de citações e “Anitta” com mais de 5 milhões de resultados, só para ficar em dois exemplos.
 
Mas que diabos é esse tal Dia da Toalha. Ninguém é obrigado a saber, já que também não somos constantemente bombardeados com notícias a seu respeito, como acontece com Neymar e em grau menor com Anitta. Então, para não ser injusto, joguei no Google os nomes: “Douglas Adams” e “O Guia do Mochileiro das Galáxias” e encontrei, respectivamente, 1,4 milhões e 800 mil resultados. Credito a superação do número de referências à obra em relação ao nome do seu autor à existência dos homônimos.

Pois Douglas Adams é o autor da série de livros mais hilária que já li. São 5 volumes: “O Guia do Mochileiro das Galáxias” e as continuações: “O Restaurante no Fim do Universo”; “A Vida, o Universo e Tudo Mais”; “Até Mais, e Obrigado pelos Peixes” e “Praticamente Inofensiva”. Os livros venderam milhões de exemplares pelo mundo todo, já tendo sido adaptados para o cinema. O filme, aliás, é até muito bom.
 
Adams tem uma legião de fãs tão grande (o renomado cientista Richard Dawkins, autor de Deus é um Delírio, dedicou a ele seu livro), que o Dia da Toalha, uma homenagem a ele, é comemorado pelos aficionados no mundo inteiro no dia 25 de maio desde 2001 quando Adams morreu precocemente aos 49 anos. No Facebook, há diversas comunidades relacionadas sempre com milhares de membros. Uma pesquisa na internet mostra fotos de “mochileiros das galáxias” usando toalhas no metrô de Tókio, na Times Square de Nova Yorque; na Trafalgar Square de Londres, na Torre Eiffel de Paris, no Cristo Redentor....
 
Nesta data, fãs de Adams passam o dia inteiro carregando uma toalha, seja como turbante, seja pendurada no ombro, como capa, amarrada da cintura, seja de qualquer modo, essa é uma forma que encontraram de homenagear o criador da divertida série. 25 de maio é considerado como Dia do Orgulho Nerd, pois muitos nerds são fãs de Douglas Adams e muitos tatuam o número 42 no corpo, uma referência aparentemente boba, mas que todos os fãs entendem como uma das peças fundamentais da obra. Fã que é fã se reconhece assim.
 
Recentemente, na Alemanha, hospedado na casa de um casal amigo, vi no seu banheiro um exemplar da série em alemão (Einmal Rupert und zurück­). Passaria despercebido se o nome do autor não estivesse lá, no original: Douglas Adams. Corri para perguntar se os meus anfitriões eram fãs e ficamos um bom tempo nos divertindo lembrando partes loucas dos livros.
 
O Guia diz: “A toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; Pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas do rio Moth; Pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você – estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); Você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; E naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa. Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um não-mochileiro descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc., etc. O que o não mochileiro vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.”

Caso você não seja nerd o suficiente para usar uma toalha no próximo 25 de maio, espero que já tenha dado uma chance para Douglas Adams entrar na sua vida e você vai me agradecer por conhecer o atrapalhado terráqueo Artur Dent; o extraterrestre Ford Perfect, cujo nome verdadeiro é impronunciável inclusive para ele próprio; Marvin, o robô depressivo que tem um QI 30 bilhões de vezes maior que o de um ser humano, mas só é designado para funções banais como abrir portas, escoltar visitantes e sentar num canto e ser ignorado, o que o deixa em completo desprezo pela vida.
 
A galeria de personagens é exuberante, como os atrapalhados e terríveis vogons; o peixe babel que introduzido no ouvido traduz qualquer língua para qualquer outra; o gerador de probabilidades infinitas e muito mais. Cada página é uma surpresa delirante de uma mente divertidíssima, uma torrente interminável de histórias surreais e loucas. Difícil dizer qual dos cinco livros é mais engraçado, mas você pode comprar os cinco de uma vez numa promoção do site Submarino esta semana por apenas R$ 30,00.
 
Reproduzo aqui dois trechos inspiradíssimos: “Nada viaja mais rápido do que a velocidade da luz, exceto, talvez, as más notícias, mas estas obedecem a leis especiais. Tentaram construir naves espaciais movidas a más notícias mas elas não funcionavam bem e eram extremamente mal recebidas sempre que chegavam a algum lugar” e “Uma das coisas mais extraordinárias da vida é o tipo de lugares nos quais ela está preparada para sobreviver como entocada no intestino grosso de um rato pela mais pura diversão, a vida encontra uma maneira de ir levando as coisas em qualquer lugar”.

Então, se você permitir que Adams e seus personagens entrem em sua vida, talvez você não tatue 42 no corpo nem use uma toalha por todo o dia no próximo 25 de maio, mas se divertirá tanto quanto como aqueles que o fazem. Por Zarquon, que falta faz Douglas Adams...

21.7.10

A Realidade, essa Desconhecida


Uma das maiores ilusões que existem é o que se entende por Realidade. Seu conceito é algo tão vago que há milênios filósofos têm se debruçado sobre esta verdadeira desconhecida. Seria Realidade o mesmo que Verdade? A crer nisso a mentira ou a ilusão não seriam reais. De fato, por mais estranho que pareça, o real não existe, ou ao menos não existe numa escala de entendimento “realmente” compreensível.

Realidade significaria a propriedade do que é tangível e que existe fora da mente. Mas, o que existe dentro da mente também é real e muitas vezes pode parecer (e ser) mais real do que o que existe fora dela pois a ilusão, a imaginação, embora realidades intangíveis, podem criar objetos tangíveis a partir da idealização e da ideia pura. Do ireal nasce o real, sendo o primeiro tão verdadeiro quanto o último. Da ideia, por mais paradoxal que seja, surge mesmo o oposto do ideal.

Toda essa longa introdução apenas para falar de dois livros que acabei de ler, ambos do mesmo autor, o jornalista e físico inglês Nigel Cawthorne: “A Vida Sexual dos Ídolos de Hollywood” e “A Vida Sexual dos Papas”.

O que mais me chamou a atenção nessas duas obras é o fato de que poucas áreas da atuação humana, desse grande palco de sombras que é a nossa existência, são tão ilusórias quanto o cinema e a religião. O fato de alguém lançar luzes sobre a vida sexual de papas e ídolos de cinema é uma tentação. E, como dizia o jamais suficientemente louvado escritor irlandês Oscar Wilde, resisto a tudo menos às tentações.

A fonte de pesquisa dos dois livros é colossal. Cawthorne, que já publicou mais de 60 obras, utilizou na elaboração desses dois volumes simplesmente 82 livros (sobre os atores e atrizes de Hollywood) e 49 obras (para o livro dos papas, incluindo documentos oficiais do Vaticano).

O que é uma pena é que a maioria dos astros, cujas saborosíssimas histórias sexuais são contadas, já estejam mortos há tempos e muita gente não tem muito interesse em saber detalhes de como os grandes estúdios como Paramount, Warner ou MGM se descabelavam para esconder as peripécias sexuais das suas estrelas. O livro narra detalhadamente a promiscuidade nas festas de Hollywood e não poupa Charlie Chaplin, Rodolfo Valentino, Greta Garbo, Marlene Dietrich, Clark Gable, James Dean, Rock Hudson, Ava Gardner, Rita Hayworth, Cary Grant, Grace Kelly, Errol Flynt, Marilyn Monroe e dezenas de outros.

Outra pena é que as histórias sobre as orgias, torturas, massacres e crimes perpetrados por centenas de papas (já tivemos mais de 300 deles) seja algo que tão convenientemente fica perdido nas brumas do passado e hoje em dia a Igreja Católica consiga manter uma aura de pureza e ainda por cima impor um código de conduta moral quando sua própria história não seria adequada para menores de 18 anos, aliás, é abaixo dessa idade que os padres preferem suas imberbes e impúberes presas.

Mas, voltando ao início e antes de continuar, cinema e religião vivem de vender imagens de um ideal. A Igreja nos vende o mais sofisticado produto de todos os criados: o Paraíso, a vida eterna após a morte, bastando que lhe entreguemos em troca nossas almas e consciências. Também somos tentados todo o tempo a buscar uma realidade mais satisfatória e a telona nos mostra ídolos perfeitos, maquiados, glamourosos, vivendo a vida que queríamos ter. E quando descobrimos (quando descobrimos) que um desses ídolos não é o que imaginamos o resultado nunca é bom para os negócios. Por isso os chefões dos grandes estúdios gastavam tanta energia protegendo os astros da realidade para o grande público.

Charlie Chaplin será eternamente lembrado pelo seu Carlitos e jamais como o ator que gostava de garotinhas de 14 anos, que engravidou aos 16 uma jovem atriz com quem foi obrigado a se casar e que a traía com inúmeras aspirantes a atrizes. Chaplin, que se gabava do seu insuperável desempenho sexual, chegou a ser preso por estupro e por pouco escapou de uma pena de 23 anos de cadeia.

Seria cansativo listar todas as barbaridades constantes de um livro de 350 páginas, mas garanto que a leitura será saborosa, principalmente os capítulos dedicados às grandes lésbicas do cinema e os galãs que os estúdios vendiam ao público como exemplos de virilidade e que participavam em festas privês de grandes orgias gays.

Já a leitura do livro sobre a vida sexual dos papas pode ser revoltante quando sabemos como a Igreja Católica prega outra coisa em seus altares. Este livro também tem 350 páginas e recomendo especialmente a leitura de alguns capítulos como os da história dos infames e assassinos Bórgias (família devassa que deu ao mundo Lucrécia Borgia e seu pai o papa Alexandre VI). Leia também a história do celibato na Igreja, do comércio de indulgências, dos crimes dos papas, da homossexualidade reinante entre cardeais e bispos, do comércio do perdão, dos lucros da Igreja com a taxação da prostituição em Roma, das torturas macabras nos calabouços da Basílica de São Pedro, dos anti-papas, da papisa Joana, da loucura coletiva que foi a Inquisição e muito mais.

Para encerrar, volto ao terceiro parágrafo onde digo que o autor Nigel Cawthorne é também físico e recomendo o filme Quem Somos Nós, um documentário interessantíssimo sobre física quântica que trata do que convencionamos chamar de real. Cada vez me convenço mais de que a realidade não passa de uma grande e duradoura ilusão.