7.9.14

DE REPENTE, SALMAN RUSHDIE!



       No ano 2000 tive uma estranha experiência ao lado de um amigo enquanto caminhava uma tarde em Nova Iorque, saindo do Museu Metropolitan a caminho do Guggenheim. Subindo a 5ª avenida, ao lado do Central Park, nossa visão foi atraída por um movimento estranho do outro lado da rua. Subitamente, três carros pretos pararam em uma esquina e fecharam a rua. De um furgão, também preto, saiu um homem meio calvo que rapidamente entrou num prédio enquanto dois outros homens com escopetas faziam sua segurança.
        
          Uma cena surreal como aquela no meio da tarde em pleno coração de Manhattan deixou a mim e meu amigo Jorge Barreto, aturdidos. Imediatamente vimos de quem se tratava: Salman Rushdie, o escritor britânico que vivia sob a proteção das autoridades, pois estava condenado à morte pelo aiatolá Khomeini em uma fatwa por apostasia.
          
          Àquela altura eu não tinha lido nenhum dos livros de Rushdie, mas achei que estava na hora de me livrar daquela omissão, uma vez que tive chance de ver o célebre escritor ao vivo em sua jornada de semiobscuridade. Tive o privilégio de vê-lo novamente e ouvi-lo neste ano de 2014, na sua brilhante palestra no Teatro Castro Alves, na série Fronteiras do Pensamento.

Essa longa introdução sobre a visão surreal do escritor perseguido numa tarde qualquer na 5ª avenida é para descrever a atmosfera meio fantástica dos seus livros. Lembrei-me disso quando ouvi Rushdie falar sobre a influência do realismo mágico de Garcia Márquez na sua literatura. A visão de dois brasileiros paralisados diante de uma equipe de policiais garantindo a vida de um homem que ousava defender suas ideias sob o risco de morte parece sair de uma das páginas escritas pelo próprio autor.

O Último Suspiro do Mouro e Vergonha são dois livros impressionantes e que deveriam ser lidos por todos que desejarem iniciar-se no que é a Índia e o Paquistão, dois países que desafiam todos os conceitos que nós ocidentais temos.
            
          A literatura de Rushdie tem uma marca inconfundível: a mistura de ficção com a História, e sua própria origem mista (indiana e britânica) serve perfeitamente para retratar temas como o multiculturalismo, o pós-colonialismo e a construção de uma identidade nacional.

Tanto em Vergonha como em O Último Suspiro do Mouro vemos o estilo do autor em mostrar intrincadas histórias genealógicas fabulares, como em Cem Anos de Solidão, de Garcia Márquez, que mais do que metáforas ou alegorias, atravessam o universo real, avançam pelo onírico, sem deixar de retratar o universo político da Índia e do Paquistão com seus golpes de estado e corrupção política, sua religiosidade opressiva, seu odioso sistema de castas (são mais de 3 mil castas e 25 mil subcastas), sua pobreza e atraso material e também sua inigualável riqueza cultural.

Rushdie é cultíssimo, como se pode ver em sua palestra e pela leitura dos seus livros e seu brilhantismo é emoldurado por um bom humor extraordinário e o humor é uma das maiores formas de inteligência, uma força inquebrantável diante da mesquinhez dos poderosos e da ignorância dos medíocres.

VERGONHA é o terceiro romance de Rushdie e retrata a história intrincada de três famílias com seus destinos entrelaçados pela violência da criação do Paquistão após sua separação da Índia.

Vamos acompanhando em uma narrativa não linear, histórias de três irmãs misteriosas que se excluem do mundo, prisioneiras voluntárias de uma mansão gigantesca, “mães” de Omar Khayyam, um anti-herói gordo e pervertido, sem religião, política ou vergonha; seguimos também a luta pelo poder de dois primos autoritários: Iskander Harappa, um playboy milionário, e Raza Hyder, um oficial do Exército; além de uma série de mulheres estranhas como Sufiya Zinobia, que cora tanto de vergonha que chega a queimar as mãos de quem a toca; sua irmã Navid Hyder, que dá à luz 27 filhos em séries de gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos....Mães, filhas e avós com uma profusão de sentimentos contraditórios de honra, vergonha e medo, um cenário tecido habilmente pelo autor como uma burca ou um véu para cobrir ou vestir uma teia de corrupção e intriga, metáforas vivas da história violenta do Paquistão, país em que Rushdie viveu parte da sua infância.

O trecho a seguir mostra um pouco da singularidade da vergonha inerente ao sentimento enigmático do povo do Paquistão. Em um momento em que um grupo de pescadores chantageia um casal que foi flagrado em pleno ato sexual, algo ultrajante e vergonhoso aos olhos "puros" dos devotos pescadores, o chantagista líder diz, para justificar a extorsão: "Uma atitude tão ímpia é ruim para nossa paz de espírito. Alguma compensação, algum conforto tem de ser fornecido". Brilhante! 

            O ÚLTIMO SUSPIRO DO MOURO foi a resposta de Rushdie à sua sentença de morte pelos fundamentalistas islâmicos, seu primeiro livro após a publicação do quase fatal “Versos Satânicos”.

Aqui, ele faz uma vigorosa defesa da tolerância e da pluralidade cultural em uma história fantástica iniciada na Índia após a chegada de Vasco da Gama, passamos pelo período da independência do país e sua separação do Império Britânico.

Como em uma fábula, o livro continua pelas décadas de 80 e 90 retratando uma Bombaim (hoje Mumbai) multicultural e multifacetada até terminar em um olival ao sul da Espanha, na Andaluzia, à sombra do Palácio de Alhambra. Toda a história é contada no estilo das Mil e Uma Noites e gira em torno da riquíssima personagem de Moraes Zogoiby, o Mouro, como uma Xerazade que narra suas histórias para continuar vivendo, adiando o que será, inexoravelmente, seu último suspiro de exaustão.

Conhecemos Mouro próximo da sua morte e com ele voltamos à sua infância, em cujas veias corre sangue português, judeu, árabe e indiano, metáfora personificada daqueles que, como o próprio autor Salman Rushdie, escapam de definições rasas de nacionalismos, e sectarismos religiosos, étnicos e culturais.

Aqui também, como em Vergonha, temos ficção e história amalgamadas em uma grande família, descendentes por um lado de Vasco da Gama e por outro do último sultão de Granada. O livro é como uma aula de História, mostrando uma Índia caleidoscópica, com pinceladas generosas de cultura, pintura, cinema e literatura.

Como em Vergonha, temos aqui uma família repleta de paixões e intrigas para acompanhar em uma narrativa não linear, com muitas idas e vindas temporais, mas com uma fluidez impressionante. Seguimos os passos dos bisavós de Mouro: Francisco e Epifânia, seus avós Camões e Isabela, seus pais Aurora e Abraham, e as irmãs Inamorata e Filomena.
           
           Salman Rushdie, com sua literatura repleta de misticismo, tem, ao mesmo tempo, um texto muito realista. Nada mais adequado do que incluí-lo entre os autores realistas-fantásticos, com seus personagens belissimamente retratados com todas as nuances daquilo que faz o ser humano ser, paradoxalmente, tão macabro e tão belo.

23.6.14

SEXO OU BENZETACIL?

Quando eu tinha 8 anos de idade desenvolvi um doença complicada chamada Coreia de Syndeham, conhecida popularmente como dança-de-são-vito, moléstia causada por estreptococos oriundos de infecção das amígdalas. Foi um dificílimo período da minha infância e perdurou até os 14 anos, quando finalmente aprendi a andar de bicicleta e ter uma vida normal após doloroso tratamento à base de injeções semanais de benzetacil por vários anos. Por conta dos sintomas da doença, movimentos espasmódicos  involuntários e irregulares com fases mais graves e outras menos intensas, nunca pude jogar futebol ou praticar qualquer outro esporte na infância. Muitas vezes tive que faltar à escola por dias quando a doença atingia um pico e sequer me permitia andar. Comer, só com colher, pois com o garfo eu me feria.

Bem, toda essa introdução dramática é na verdade para tentar dar um retrato de como minha família lidou com esse problema no interior da Bahia nos ano 70. Minha mãe ficou devastada e buscou todo tipo de tratamento. Como sempre acontece nesses casos, alguns a fizeram de boba com prescrições erradas como banhos de ervas fedorentas e cirurgias espirituais. Nada disso foi muito complicado ou gerou qualquer problema mais grave, mas a minha mãe sempre foi muito crédula, em demasia até, e um dos médicos que ela procurou fez uma recomendação muito estranha. Disse-lhe que eu só ficaria curado quando tivesse minha primeira relação sexual com uma mulher.

Minha mãe não teve a menor dúvida. Não importava se eu tinha apenas 8 anos, ela iria dar um jeito de arrumar uma mulher para eu transar. Ela não contou isso pra ninguém, nem para meu pai, mas ficou atenta à primeira oportunidade, uma vez que não podia simplesmente levar uma criança num puteiro.

A oportunidade surgiu quando eu estava com 10 anos e ela ficou sabendo, não sei como, que a empregada da vizinha já tinha transado com todos os filhos dos patrões. Logo ela ofereceu um salário maior para a moça para levá-la para nossa casa. O objetivo era me desvirginar o mais rápido possível e me curar com esse tratamento heterodoxo e alternativo.

Não sei se minha mãe orientou a moça, mas ela me dava uma atenção muito especial, trocava minha roupa e me dava banho. Bem, a situação foi ficando bem íntima e finalmente a natureza fez seu trabalho e a coisa acabou acontecendo lá pelos meus 11 anos. Sem eu saber, minha mãe ia coordenando tudo às escondidas. Meu irmão estava sempre de olho e contava a ela tudo que via pelo buraco da fechadura do quarto da empregada. 

Ainda bem que eu não sabia dessa história na época pois certamente não teria reagido bem e não sei quanto dinheiro eu haveria de gastar com psicanalista.

Até hoje minha mãe tem certeza absoluta de que ela me fez um enorme favor me curando dessa doença complicadíssima. As mais de 50 injeções de benzetacil não tiveram lá muita participação no tratamento.

18.5.14

PRAIA DO FUTURO



Se o novo filme do cearense Karin Ainouz encanta alguns pela sua errância, suas elipses e os longos silêncios, a mim gerou certa sensação de incompletude. Nada tenho contra esses recursos narrativos. Adoro, por exemplo, os silêncios e os longuíssimos planos do cinema iraniano, mas Praia do Futuro me pareceu algo ermo. Seus espaços ocos na história, os saltos temporais e as imagens vagas, mesmo belíssimas, me deram a sensação de um filme arredio do qual eu insistia em querer gostar, querer apreender, como um belo pássaro que se tem à mão, mas que se debate para fugir, resistindo a se deixar desfrutar, de uma beleza que não se pode fruir. Fugidio.

Antes devo dizer que gosto demais da filmografia de Karin Ainouz. Já assisti, mais de uma vez, aos seus filmes Madame Satã, O  Céu de Suely, Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo e Abismo Prateado e tinha muita expectativa sobre Praia do Futuro. Talvez o problema seja o excesso de expectativa, mas o que se pode fazer quando se acompanha a carreira de um diretor? A gente sempre espera algo tão bom quanto seus filmes anteriores.

Pois ali estava eu, há mais de uma hora dentro do cinema e o filme insistia em não me encantar. Eu queria muito gostar dele, mas o filme parecia não querer o mesmo de mim. Pensei comigo: ele foge, como os personagens de Ainouz....Donato foge para Berlim; Suely foge para o mais distante que seu dinheiro possa pagar; Violeta, de Abismo Prateado, tenta fugir do Rio, como seu marido fugiu dela; Madame Satã busca fugir de si mesmo e da sua sordidez inventando uma nova persona; José Renato (o abandonado geólogo de Viajo Porque Preciso) foge sertão adentro em uma busca do isolamento; e Tonho (de Abril Despedaçado, roteiro de Ainouz), foge da sina da vingança familiar.

Essa obsessão escapista de despertencimento e autoexílio dos personagens de Ainouz se traduz na própria forma do diretor filmar, mas aqui ele radicalizou talvez excessivamente, pois essa impermanência cheira a despersonalização e priva o filme de certa fibra necessária para torná-lo coeso e priva o expectador de um momento de encantamento. A todo instante, eu buscava aquele ponto do filme em que viria um momento sublime, mesmo que fosse apenas um, uma breve epifania que valesse o tempo dentro do cinema. Todos esses momentos sublimes podem ser vistos nos filmes anteriores de Ainouz, mas senti falta desse instante em Praia do Futuro.

Recentemente, o diretor deu uma entrevista ao programa Metrópolis em que falava dessa sua inclinação para filmar silêncios. Dizia que as palavras podem ser desnecessárias e que, por isso, não gostava dos filmes de Woody Allen, a quem chamava de chato. Para alguém que se encanta tanto com imagens, as palavras podem ser redundantes. Então foi por isso que ele retratou homens que falam idiomas diferentes? Por isso optou por filmar o que corpos dizem quando dançam, fazem sexo, nadam ou pilotam motocicletas? Pouco se pode dizer quando se está em alguma dessas atividades. Elas são autoexplicativas, dispensam palavras.

Palavras....Em certo momento do filme, praticamente não se entende o que os dois personagens principais falam pois, além da música alta que invade a cena, um deles fala um português quase incompreensível e as ondas do mar arrebentando cobrem as falas. Seria mais uma opção do diretor em prescindir da palavra? Se for isso, é uma mudança muito grande, pois a radicalização no sentido oposto já havia sido feita no seu magistral filme anterior: Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, todo ele praticamente um único monólogo com a voz do ator Irandhir Santos que não aparece na tela. Imagens apenas as vistas através do vidro de um carro.

Praia do Futuro é bem sucedido ao mostrar a busca por redenção nas almas contraditórias dos personagens: a utopia de Berlim versus a distopia de Fortaleza; o passado em ruínas das praias do Ceará contra uma Alemanha cosmopolita que aponta para o futuro; um herói que se reinventa fugindo da sua terra para buscar algo que nem sabe o que é diante de um passado na forma de um irmão que insiste em trazê-lo de volta para uma terra abandonada.  

Praia do Futuro, entretanto, falha ao optar em mostrar a homossexualidade dos personagens principais como uma não-questão. Isso não é objeto de conflito interno de Donato e Konrad e nem do irmão Airton. Ao mesmo tempo em que exibe cenas de sexo, o filme se esforça em fugir dessa questão ao mostrar seus personagens num universo extremamente masculino: Konrad, um militar que lutou na guerra do Afeganistão, pilota e trabalha com motos; Donato, um bombeiro salva-vidas. Mesmo as cenas fortes de sexo têm uma abordagem extremamente viril e sem qualquer ternura.

Por que, me pergunto até agora, fazer os personagens serem homossexuais e não avançar na abordagem dessa condição. Parece que isso não é importante, mas parece também que o diretor não quis decifrar as profundas repercussões narrativas oriundas dessa questão. Limitando-se a mostrar dois homens que fazem sexo, não precisa adentrar o terreno dramaturgicamente fértil que isso poderia resultar. As elipses, fartas no filme, são muito úteis nesse ponto, revelando-se mais uma estratégia de fuga (de novo) e menos uma opção estética.

Wagner Moura declarou em uma entrevista: “Temos que ter a responsabilidade de não fazer isso virar um assunto. É preciso ver essa relação entre eles com naturalidade. Se fosse um homem e uma mulher, ninguém estaria falando sobre isso. Um filme em que dois homens podem se amar não é um problema”.  Não creio que o problema seja a forma como as pessoas veem o filme, elas podem achar bom ou ruim o fato de dois homens se amarem. É exatamente este o ponto. Do lado de fora da tela, há um mundo em que as pessoas têm visões distintas sobre esse assunto. No filme, isso nem é tangenciado, sequer é problematizado.

Seria ingênuo acreditar que a homossexualidade é algo sem importância e que prescinda de um olhar que decifre os enigmas dessa condição. Falta estofo aos diálogos, todos muito vazios. O diretor escapole das palavras para mostrar imagens, mas quando precisa do texto utiliza diálogos fracos e sem substância. Poderia ser um filme mudo e não sentiríamos muita diferença. 

Ao contrário do mundo heteronormativo em que ainda vivemos, fico a imaginar que, segundo Praia do Futuro, habitamos um planeta em que dois homens gays podem viver plenamente suas vidas e isso não ser uma questão para eles. Seria como acreditar que uma mulher negra possa viver sem qualquer percalço ligado ao seu gênero e à sua cor num mundo que privilegia o homem branco. 

Tudo bem, eu entendo que um filme realista é um recorte de uma realidade, mas Praia do Futuro é um recorte do recorte.

17.5.14

Cuba e Che Guevara: uma história de revirar o estômago

O que você pensaria se daqui a 60 anos, as pessoas estampassem camisetas com a foto de Suzane Von Richthofen, lembra-se dela, aquela moça que matou os pais? Imagine que ela se tornasse um exemplo de virtude e amor filial? Ou então imagine as madrastas da menina Izabella Nardone ou do menino Bernardo Boldrini, daqui a meio século, estampando pôsteres como exemplos de amor maternal.

Então você sabe o que aconteceu com Che Guevara. Você que, como eu, vestiu camisetas ou decorou as paredes do quarto com a efígie do guerrilheiro argentino que sacrificara sua vida pela luta pelos oprimidos, que combateu os poderosos em Cuba, na África e nas selvas da Bolívia. Pois saiba que o mito heróico do Che equivale exatamente ao de uma maternal madrasta da menina Nardone ou uma Richthofen vendida como filha modelo. Exatamente isso!

Novamente estou no Guia Politicamente Incorreto da America Latina. No capítulo inicial do livro, descobri estarrecido, que a imagem de Ernesto Che Guevara pilotando sua moto pela América Latina, sua experiência com a revolução cubana e sua vida como um todo foi uma construção ideológica.

O livro mostra, com inúmeras fontes bibliográficas, que a Cuba pré-revolução, sempre apresentada como o bordel dos americanos repleto de miseráveis e prostitutas, na verdade tinha qualidade de vida muito superior à média latino-americana.

Nos anos 50, após a 2ª Guerra Mundial os EUA viviam um surto de crescimento e otimismo e a economia se recuperava. O turismo em Cuba viveu um apogeu pela posição estratégica da ilha há 150 quilômetros de Miami. Havia 28 voos diários entre Havana e cidades norte-americanas e até ferryboats levavam americanos de carro da Flórida até Cuba. Isso garantia emprego para garçons, guias de turismo, cozinheiros, motoristas, camareiras, donos de restaurantes e inúmeros trabalhadores ligados ao turismo. E também às prostitutas, é claro. O crescimento impulsionava a classe média e a construção civil. O alto preço internacional da cana de açúcar atraía muito dinheiro para o país.

Ocorre que no seu segundo mandato, o presidente Fulgêncio Batista impôs uma ditadura e tornou-se comum a tortura e o desaparecimento de opositores. Nessa cena de protestos e greves, Fidel teve apoio de todas as classes e chegou a receber entre inúmeras doações, 50 mil dólares do maior barão do açúcar cubano e 38 mil dólares da destilaria Bacardi. Quando Fidel tomou o poder, tanto empresários quanto trabalhadores comemoraram por vislumbrar a democracia no horizonte, mas logo a verdadeira face da revolução mostrou-se. Os aliados mais moderados e democráticos foram presos ou expulsos de Cuba.

Uma grande ironia é que Batista, antes de se tornar ditador, era simpatizante do comunismo e Fidel, antes de também se tornar ditador, era anti-comunista. Batista, ao derrubar o governo anterior, realizou muitas reformas trabalhistas como férias, seguro e outras vantagens além de legalizar o Partido Comunista em Cuba. O principal jornal comunista no país defendia o governo de Batista.

Já Fidel fizera o caminho oposto e acusava Batista justamente de ser comunista. Escreveu Fidel em 1956: “Qual é o direito moral que o senhor Batista tem de falar em comunismo, quando ele era o candidato presidencial do Partido Comunista  e seus ministros e colaboradores são importantes membros do Partido Comunista?” E numa entrevista ao New York Times o hoje Fidel vermelho dizia: “Não concordo com o comunismo. Nós somos democráticos e contra todo tipo de ditadores e por isso somos contra o comunismo”. Após se aliar a Che Guevara é que Fidel percebeu que se travestir do vermelho comunista era uma boa maneira de controlar o poder em Cuba e eliminar os adversários.

Logo, o regime castrista começou a banir roqueiros e hippies como ameaças do imperialismo. Bandas não podiam comprar instrumentos, artistas eram perseguidos, campos de trabalhos forçados eram criados para gays, católicos, testemunhas de Jeová, alcoólatras, portadores de HIV e sacerdotes do candomblé para libertar o país da influência do capitalismo. Homofóbicos, os castristas pregavam em jornais que o homossexualismo logo terminaria em Cuba como uma das vantagens do socialismo: “curar comportamentos e doenças sociais”. Uma lei proibia qualquer homossexual de ocupar cargos públicos pelo risco de converter a juventude.

Tornou-se comum ler sobre Che Guevara palavras de ternura. Leia as palavras seguintes, do mesmo homem: “O ódio como fator de luta, o ódio intransigente ao inimigo, que converte o ser humano em uma violenta, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim; um povo sem ódio não pode triunfar sobre um inimigo brutal. Há que se levar a guerra até onde o inimigo a leve: à sua casa, a seus lugares de diversão, torná-la total. Há que impedi-lo de ter um minuto de tranquilidade, fazê-lo sentir-se uma fera acossada onde quer que esteja”. Terno, não?

O meiguíssimo Che Guevara foi responsável direto pela morte de 144 cubanos entre colegas guerrilheiros, menores de idade, policiais executados na frente dos filhos e opositores políticos. Che escreve em seus diários detalhes das execuções perpetradas por ele próprio com tiros nas têmporas das vítimas e como roubou o relógio de um dos homens que ele mesmo matou. Relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos mostra que de cada preso a ser executado eram extraídos três litros de sangue vendidos por cerca de 300 dólares. Os condenados eram fuzilados desmaiados e inconscientes.

Em um discurso em 1964, nas Nações Unidas, Che declarou: “Fuzilamentos? Sim, temos fuzilado. Fuzilamos e seguiremos fazendo isso enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta de morte”

O Guia Politicamente Correto da América Latina está repleto de relatos dos horrores perpetrados pelos revolucionários cubanos. Che Guevara tem um capítulo dedicado somente a ele. Aqui está apenas 1% do que o livro relata. Convido você a se enojar um pouco. Você vai sair daquelas páginas com outra visão do mito Che Guevara.

13.5.14

Guia Politicamente Incorreto da América Latina

Há alguns dias, escrevi sobre minha enorme surpresa ao ler o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, impressionadíssimo pela constatação de que sempre fui um perfeito imbecil por acreditar em tantas lorotas construídas ideologicamente ao longo dos anos pelas aulas de História.

Mas qual a minha surpresa, lendo o volume seguinte da série, ao perceber que a matriz ideológica que servia para nos venderem um peixe estragado sobre nossa história não é exclusividade da narrativa brasileira, mas se dissemina pelas veias abertas da nossa América Latina, irresistível alusão a um livro muito apreciado por onze em cada dez militantes de esquerda.

Esqueça tudo aquilo que você aprendeu (e eu também) sobre como os malvados espanhóis chegaram à America Latina tocando o terror. A coisa foi feia, mas se foi feia por parte dos europeus que aqui chegaram, o horror aqui encontrado não foi menos horrendo.

Entre os políticos populistas que chegam ao poder no nosso continente como os bolivarianos Morales, Chaves e Maduro...os peronistas argentinos e os filhos de la revolunción cubana, tornou-se comum exaltar o caráter de explorado dos nossos antepassados: espoliados, humilhados, massacrados, roubados... Novamente, é a ideologia contaminando a narrativa histórica.

Um século antes de os espanhóis chegarem aqui, incas, maias, astecas e outros povos locais praticavam alegremente a arte do extermínio mútuo. As cidades-estados lutavam umas contra as outras ou faziam alianças para derrotar a mais forte. Os vencidos pagavam altos tributos, eram obrigados a migrar para regiões inóspitas ou eram usados em sangrentos rituais de sacrifício.

Há inúmeras fontes bibliográficas no Guia para que não pensem que se trata de uma obra de viés revisionista e aventureira. O livro, assim como o anterior, ficou muito tempo na lista dos mais vendidos e é uma obra de grande credibilidade.

Claro que os espanhóis não são santos e muito mal fizeram quando aqui chegaram, mas sob uma perspectiva com menos contaminação ideológica, os europeus, a princípio, eram apenas um novo povo que chegava e com quem algumas tribos locais faziam acordos para derrotar os adversários do império vizinho. Mesmo sem conhecerem a escrita, foram deixados inúmeros registros de pactos entre os europeus e os índios, como grandes tapeçarias e pinturas mostrando a união em prol de conquistas comuns.

Claro que os primeiros relatos da conquista eram assustadores e muito disso se atribui ao interesse dos colonizadores de aumentar o grau das suas façanhas em cartas ao rei repletas de detalhes sangrentos de batalhas épicas e descobertas surpreendentes com o objetivo de receber pensões, cargos, títulos de nobreza e de propriedade dos soberanos.

Muitas dessas cartas acabaram por ser publicadas por editoras europeias e, sabendo desse interesse extra, os conquistadores exageravam nas façanhas para atender a um público leitor ávido de aventuras. Eu mesmo, na adolescência, li, cheio de profunda revolta, o livro “A Conquista do México”, de autoria do próprio Hernán Córtez, que passou para a história como um dos maiores sanguinários de todos os tempos, o mais brutal conquistador espanhol na América, um grandessíssimo fdp responsável pela morte de Montezuma...Lembro-me de ler esse relato e como tomei profundo nojo dos colonizadores....qualquer colonizador... Ninguém me disse o que vem à frente.

A prisão e execução de índios inimigos era fato corriqueiro. Inúmeros líderes mandavam matar os irmãos, sobrinhos e cunhadas para não serem destronados por estes. Quando os europeus por aqui aportaram os incas haviam dominado dezenas de povos vizinhos, escravizando os derrotados e enforcando os chefes em praças públicas. Muito se acusa os espanhóis de impor sua religião aos dominados, mas ninguém lembra que os incas fizeram o mesmo. Houve uma imposição cultural violenta e os derrotados eram obrigados a abandonar sua cultura, falar a língua quéchua e adotar a religião inca que adorava o sol e a lua e a figura do próprio imperador inca como um semideus.

Mas o mais grotesco eram os rituais sagrados de sacrifício de incas, astecas e maias. Você sabe aquelas belas pirâmides que vemos nos programas do National Geografic? Nelas, eram realizadas cerimônias diárias de matança de jovens e crianças. Sacerdotes usavam afiadas facas de sílex e, com a vítima ainda viva, imobilizada e de barriga para cima, faziam um corte profundo no osso externo, nas costelas ou abaixo do diafragma. Enfiavam a mão no espaço aberto e arrancavam o coração ainda pulsante. Aparentemente, havia uma regra de que a coisa tinha que seguir esse rito macabro.

A plateia desses sacrifícios não faltava ao holocausto que, como se tornava comum, perdia a graça. Então, para incrementar a coisa, os sacerdotes aumentavam cada vez mais o número de vítimas, reduziam as idades dos escolhidos, ofereciam belas virgens à matança ou arrancavam os corações de inimigos poderosos.

Tudo era motivo para a carnificina. Para o sol nascer todo dia, matavam crianças. Para o sol se pôr, idem. Matavam se havia chuva demais ou se chovera de menos, extraiam corações aos montes se tinha terremoto ou furacão. Arqueólogos encontraram em escavações inúmeras valas com esqueletos de crianças incas com as costelas arrebentadas. As pirâmides tinham uma constante mancha marrom escura pela quantidade de sangue que manchava os seus degraus.

O Códice Telleriano-Remensis, uma reunião de pinturas narrativas dos astecas criada no século XVI fala da matança de 4 mil pessoas sacrificadas em honra dos deuses para a inauguração do Templo Maior de Tenochitilán. A arma usada pelos astecas era o macauitl, um tacape com cacos de vidro vulcânico incrustados. Era usado para matar ou ferir os inimigos usados nos sacrifícios.

A antropóloga austríaca Estela Weiss-Krejci resume: “Cenas de decaptação e desentranhamento, a retirada das vísceras das vítimas ainda vivas, em cerâmicas funerárias, totens, altares e murais parecem complementar alguns corpos encontrados sem cabeça e membros em tumbas individuais e coletivas”.

Este é apenas um dos capítulos do livro. Encerro essa “linda e edificante” história da América Pré-Colombiana para, no próximo relato, falar da também horrorosa e real história politicamente incorreta de Cuba, Fidel e Che Guevara.

8.4.14

QUE ÓDIO DOS PROFESSORES DE HISTÓRIA

Sempre que folheava o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil nas livrarias me batia uma raiva. Eu o achava deselegante por atacar algumas verdades consolidadas nas aulas de História aprendida nas escolas. Mas por que então, sempre estava lendo um capítulo ou outro? Para me martirizar? Masoquismo?


O próprio autor da obra, Leandro Narloch afirma: “Este livro é uma provocação. Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias, irritantes e desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos”. 

O Guia ficou na lista do livros de não-ficção mais vendidos no Brasil por mais de três anos, mas já que eu tanto vacilava em comprar o meu, salvou-me da incerteza a colega Luzineide, que me emprestou gentilmente seu exemplar. Entre alguns inconvenientes fatos da nossa História, o Guia prova que a escravidão no Brasil teve traços bastante diferentes daqueles que aprendemos. Contextualizando a escravidão naquele período,  nota-se que ela não tinha o caráter que a ela hoje se atribui. Afinal, ao longo da História, a escravidão foi, por muito mais tempo, regra em vez de exceção e esteve muito mais disseminada do que imaginamos.

Tanto é que muitos escravos libertos ou alforriados tornavam-se, eles próprios, comerciantes de escravos. A escravidão era uma prática muito comum na África ao ponto de que os portugueses, quando lá chegaram, já encontraram prisioneiros escravizados por tribos inimigas. Nas guerras tribais, era corriqueiro os vencedores escravizarem e venderem os cativos das tribos vencidas. Vários reis africanos tinham escravos e na África havia quilombos antes mesmo de o Brasil ser descoberto.

Durante o Brasil Colônia e no período do Império, reis africanos mandavam seus filhos e embaixadores ao Brasil. Esses “nobres” africanos vinham para cá confortavelmente instalados nos camarotes dos mesmos navios negreiros que traziam os escravos, amontoados  nos porões. Muitas vezes, reis africanos se correspondiam com os reis de Portugal. O Guia traz cópias dessas cartas em que os reis se tratam com todo respeito.

O livro mostra que o herói na nossa Pátria, Zumbi dos Palmares, tinha, ele próprio, seus escravos e que, entre 1500 e 1800, reinos árabes africanos capturaram mais de 1 milhão de escravos brancos no litoral do Mediterrâneo. Ninguém se assustava com isso, afinal era uma prática banal. Caravanas de comércio de escravos na África profunda existiram por séculos antes de os portugueses aportarem no seu litoral.

Sobre os nossos índios, as coisas não caminharam diferente. Os índios brasileiros guerreavam frequentemente entre si ao ponto em que a guerra era um ritual, praticamente uma regra. Matavam-se, escravizavam-se e devoravam-se rotineiramente. Havia uma compreensão, entre eles, de que o paraíso era reservado para aqueles que matavam ou morriam em uma guerra.

Com a chegada dos europeus ao Brasil, os índios se aliaram a eles para capturarem outros índios para trocar por mercadorias.  Isto não exime os portugueses, mas quem desejava os índios como escravos usava a desculpa de que se não os aceitassem como mercadoria, eles seriam mortos ou comidos.  Índios tinham o hábito de vender não só outros índios capturados, mas seus próprios parentes como tios, sobrinhos e avós.

Muito se fala sobre os objetos trocados entre portugueses e índios: quinquilharias por riquezas, diz-se. Entretanto, o Guia mostra que, para quem estava na Idade da Pedra e não conhecia sequer a roda, os portugueses ofereciam, na verdade, riquezas e costumes selecionados por milênios que os isolados índios jamais conheceriam de outro modo. “Para eles era como trocar uma roupa velha por uma espada Jedi”, diz o inspirado autor.

O anzol, o machado e  a faca de aço deram aos índios um ganho de milênios. Até que eles dominassem a metalurgia, algo que só aconteceu muito tempo depois do primeiro contato com o branco, um anzol era um salto de séculos, pois eles dependiam apenas da pontaria para pescar seu alimento. O machado reduzia imensamente o trabalho que tinham para derrubar uma árvore e fazer lenha ou canoas. Uma faca de aço era uma riqueza incalculável para quem só dispunha de pedras afiadas. Os europeus jogaram em pouquíssimo tempo habitantes da Idade da Pedra em plena Idade do Ferro.
 
Sempre se lembra dos índios como bons selvagens, idealização clássica de Rousseau, e a letra do hit Todo Dia era Dia de Índio: “Amantes da natureza / Eles são incapazes/ Com certeza/De maltratar uma fêmea/Ou de poluir o rio e o mar/Preservando o equilíbrio ecológico/Da terra, fauna e flora”. Sinto desapontar, mas não era bem assim. Os índios matavam mulheres e crianças e frequentemente botavam fogo na floresta para facilitar a caçada dos animais. Eles viviam em aldeias instaladas em campos desmatados. Era difícil viver na mata, à mercê de animais perigosos como onças, cobras e mosquitos. Mesmo nos campos, eles mantinham fogueiras acessas para afugentar os bichos.

Então eles não preservavam a floresta e quase levaram à extinção algumas espécies. Estima-se que para alimentar cada índio era necessário devastar 2 mil m² por ano já que não conheciam a agricultura, exceto o plantio de mandioca e amendoim. Para caçar poucos animais eles destruíam uma enorme área de mata. Eles derrubavam, frequentemente, árvores frutíferas e foram os portugueses que proibiram esta prática. Também não domesticavam animais, o que só foi feito a partir do contato com o branco.

Continuando a ler o livro passamos por mais decepções e aborrecimentos. Nossos ídolos como Zumbi, Prestes, Aleijadinho, Santos Dumont, Euclides da Cunha, Gregório de Matos, Gilberto Freyre, Jorge Amado, José de Alencar e Graciliano Ramos e muitos outros não são bem aquilo que nos ensinaram. O livro é repleto de referências bibliográficas para ninguém pensar que é uma obra qualquer de algum aventureiro. Dá uma raiva danada, mas pelo menos ainda estamos em tempo de aprender algumas verdades inconvenientes.

Ainda estou, até agora, com raiva dos meus professores de História, do primário ao colegial, que me enganaram tanto tempo. Quem sabe, também eles foram enganados? Se bem que eis aí um privilégio que professores não deveriam ter.

16.3.14

NINFOMANÍACA VOL.2 - HIPÓCRITAS, TREMEI

Há algumas semanas escrevi sobre o volume 1 de Ninfomaníaca, do diretor dinamarquês Lars Von Trier. Ali, eu comentava que qualquer análise seria incompleta sem a estreia da parte 2.  Dizia: “É muito incômodo falar a respeito de um filme que se assistiu até a metade. Como falar sobre a obra se ela não está completa? É como ver um quadro semiacabado ou ler um livro até o meio. Qualquer coisa que se diga é também incompleta”.
 
 
Pois agora, com a estreia da segunda parte, pode-se desnudar um pouco mais do véu que cobre (cobre?) esta obra cinematográfica e desvendar o que Trier já não mais esconde.
 
Menos que esconde, escancara, expõe, esfrega na face da plateia e certamente incomoda muita gente. A mim, só me faltou levar a testa até o chão e render todas as honras à coragem desse genial dinamarquês. Só não aplaudi ao final por puro estupor e porque as camadas de interpretação iam caindo uma a uma, como uma série de fichas caindo em uma velha jukebox.
 
Aqui é preciso que se diga que a obra precisa ser vista completa para extrair dela o seu melhor. Dividida em duas partes, por razões mercadológicas, não será devidamente fruída sem a sua integridade, o que certamente evita prejuízos para quem analisa as duas partes separadas. Não é que um volume é melhor ou pior do que o outro. Eles são, simplesmente, uma coisa só.
 
Nesta segunda parte, vemos a continuação da história, mas isso não significa uma sequência linear, pois aqui encontraremos fatos anteriores aos vistos no volume 1. E somente no final é que entendemos como Joe (Charlotte Gainsbourg) foi parar totalmente arrebentada naquele beco de onde foi resgatada por Seligman, personagem de  Stellan Skarsgård.
 
Aqui descobrimos que Joe se casou e teve um filho com Jerôme, personagem do excelente Shia LaBeouf. Consciente de que não era capaz de satisfazê-la sexualmente, Jerôme permite que Joe explore como quiser suas possibilidades eróticas com outros homens. E isso, desculpe a analogia vulgar, é praticamente como oferecer banana a um macaco: Joe cai literalmente na roda e se atira a uma espiral de sexo e perversões.

 
Lars Von Trier chega ao requinte de aludir, neste filme, a uma famosa cena da sua película anterior: O Anticristo, em que a mesma Charlotte Gainsbourg, durante uma relação sexual, vê, sem reagir, seu filhinho cair para a morte ao som da belíssima ária Lascia ch'io pianga. Estamos diante de um bebê, como o bebê do filme anterior, descendo de um berço e dirigindo-se para a mesma neve que cai ao som da mesma canção. O suspense é inegável.
 
Uma surpreendente interpretação é apresentada pelo ator Jamie Bell (o eternamente adorável Billy Elliot) como um sombrio K, um mestre do sadismo que “trata” Joe como um saco de pancadas e ainda dá a ela o nome de um cachorro. Ao receber dele 40 chibatadas, ela de fato supera o próprio Jesus Cristo, que aguentou 39.
 
O filme transita sobre analogias religiosas, discussões sobre pecado, culpa e expiação. Em um momento, quando Joe imagina ter tido a visão da Virgem Maria durante um orgasmo na infância, acaba descobrindo que se tratava, na realidade, da imagem da imperatriz Messalina, conhecida como a maior ninfomaníaca da história, e para acompanha-la, na visão, ninguém menos do que a imagem bíblica da Prostituta da Babilônia cavalgando uma besta.
 
E tome-lhe embate teórico com inúmeras cenas da degradação brutal de Joe transformadas em metáforas e analogias pelo intelectual Seligman: uma ninfomaníaca e um assexuado é uma combinação que não dá nenhuma liga. Dois extremos em busca de algum tipo de resgate. Ela, afirmando-se uma pessoa má e ele tentando, a todo custo, provar que ela não é má coisíssima nenhuma e chegando a conjecturar se um homem, no lugar de Joe, sofreria as mesmas críticas.

O diretor toca o dedo direto na ferida da hipocrisia quando coloca na boca de Joe palavras consideradas politicamente incorretas como "negro" e "ninfomaníaca". Em ambas as cenas, ela é admoestada para substituí-las por afrodescendente e viciada em sexo. Para Joe, quando algo atormenta a sociedade, em vez de ela tratar o problema, enfrenta-lo, simplesmente suprime a palavra. Isso tem nome: hipocrisia.
 
E se qualquer um imagina que Lars Von Trier pretendia excitar alguém com esse festival de órgãos sexuais e taras pode se desapontar. Acho mesmo que ele deve estar até agora rindo dos incautos que esperavam extrair algum prazer físico. Posso dizer que nunca imaginei um ménage à troir mais sem graça e mais chocho na minha vida. Estamos diante de uma jovem tarada e especialista em perversões nas mãos de dois jovens e fortes negros excepcionalmente bem dotados: um clichê do clichê. Se dessa combinação podia sair algum prazer, o anticlímax é total. Ah, esse Trier não vale nada!!!
 
Um filme de fato mais verborrágico do que erótico e nem por isso menos político. O final é puro Trier atirando um jato de inconveniente verdade, um tiro seco de luz no escuro e sujo coração da hipocrisia. Uma cena de inegável choque. Machistas, moralistas e hipócritas, tremei. Trier chegou para desorganizar o puteiro.

9.3.14

AS FOGUEIRAS E A POSTERIDADE


Dois filmes a que assisti durante o Carnaval me chamaram a atenção por tratarem, com muita elegância, de temas que não têm hoje em dia muito charme e apelo para as gerações mais novas, aquela turma que prefere a sala ao lado, onde passam as séries Eclipse e Velozes e Furiosos (vê que agradei as mocinhas e os moleques). Pois bem, os filmes do meu Carnaval foram A Menina que Roubava Livros e Caçadores de Obras de Arte.  

De fato, os temas tratados em ambos não são de grande apelo para a galerinha. Afinal, entre um bom livro e um show mixo de pagode, quem há de negar que este lhe é superior? E entre uma exposição de Monet e um Ba-Vi quem aposta um picolé de limão na primeira opção?

Em comum, os dois filmes contam com atores de primeiro time. Em A Menina...temos Emily Watson e Geoffrey Rush. Em Caçadores...temos George Clooney, Matt Damon, Cate Blanchet, Bill Murray, John Goodman e  Jean Dujardin. Ambos se baseiam em livros de sucesso e são grandes produções. Em comum também o fato de que o nazismo é o pano de fundo das duas obras e que ambas falam do amor dos homens pelos livros e pelas obras de arte.

Uma ideia permeia os dois filmes e isso me chamou especialmente a atenção. O amor por esses objetos feitos pelo homem vale o sacrifício de uma vida? Sua preservação vale arriscar uma vida?

Antes que você responda, e se não leu o artigo de Contardo Calligaris na Folha de 6/3, certamente você deve pensar que nenhuma vida vale o sacrifício, mesmo que seja para salvar uma obra de arte ou um livro. Ok, falaremos sobre isso no final. Aguarde.

Estou lendo agora, com bastante atraso A Menina que Roubava Livros já que desde 2007 o seu autor Markus Zusak o lançou no Brasil e o fenômeno editorial permaneceu 99 semanas seguidas em primeiro lugar em listas de mais vendidos. Nele, acompanhamos a vida da pré-adolescente alemã Liesel durante o período da segunda guerra mundial. Ela vê o irmão bebê morrer de fome e frio, é separada da mãe logo no início da história e vai viver com uma família desconhecida. Logo, Liesel percebe que somente através dos livros ela encontrará uma salvação fugaz, uma fuga breve para toda a miséria do seu país, perseguição e matança de judeus e comunistas, racionamento de alimentos, fome, delações e espancamentos, o medo a veste como uma roupa que se recusa a deixar o corpo pela falta de outra.
Todo o livro é uma poesia em forma de prosa, e cada página surpreende pela delicadeza. Livro e filme têm um requinte: são narrados pela morte. Sim, a morte, a ceifadora de almas é a narradora da história e se isso lhe parece estranho, também a mim me pareceu, mas esse estranhamento passou na primeira página porque a ceifadora é uma narradora de primeira.

Então eu que tenho um amor quase sagrado pelos livros, entendo o que levaria essa menina faminta a arriscar a vida invadindo casas para roubar livros ou mesmo arriscando-se a resgatar um livro que estava sendo queimado em uma fogueira nazista.
Fogueira nazista!

Os nazistas eram obcecados em queimar coisas. E pessoas. É esse também o tema de Os Caçadores de Obras de Arte: uma equipe de curadores de várias partes do mundo se junta para salvar obras de arte que estavam sendo roubadas ou destruídas pelos nazistas. E novamente voltamos à pergunta que o filme faz algumas vezes: a vida de um homem vale uma obra de arte?

Certamente você, um humanista, dirá que não, que por melhor que seja a obra de arte, ela não vale a vida de um homem. Então, sem hipocrisia, como diz Calligaris, você, católico ou evangélico, tem nas mãos o livro mais precioso do mundo: a Bíblia original de Gutemberg (de 1455) e pode escolher entre salvá-la de um incêndio ou a vida de Fernandinho Beira Mar. Você relativiza seus conceitos?

Pode também escolher entre salvar de um incêndio ou o esplêndido “O Beijo”, de Gustav Klimt, ou o deputado Marco Feliciano; ou a “Pietá”, de Michelangelo, ou Jair Bolsonaro. O que você faria? Talvez você prefira deixar “Guernica”, de Picasso, arder para salvar a vida de Ricardo Lewandovski.
Sobre a influência da arte e particularmente de Guernica (aquela obra que você deixou queimar para salvar Ricardo Lewandovski), recomendo que assista ao belo filme Basquiat que, na abertura, mostra uma cena que influenciou decisivamente o interesse de Jean Michel Basquiat pela pintura. Quando criança pobre, ele era levado pela mãe toda semana para ver Guernica. O menino não entendia nada de arte, mas se impressionava ao ver, constantemente, a mãe se debulhar em lágrimas em frente àquela tela que retrata os horrores da guerra. Anos depois, aquelas tardes com a mãe no museu moldaram o gosto e transformaram a vida do artista que é hoje um dos mais respeitados e caros do mundo.

A posteridade fez muito por Michelangelo, Klimt, Picasso e Basquiat. O que fará por Bolsonaro, Feliciano, Lewandovski e Beira Mar?
Você decide.

6.3.14

ROBOCOP

Antes de qualquer coisa, confesso que estava com enorme preconceito contra este filme. Tinha prometido que não iria a ele assistir, mas, aos poucos, fui diminuindo a resistência que, afinal, caiu por terra ao ver uma entrevista do seu diretor, o brasileiro José Padilha.

Padilha, como é de conhecimento de todos, é o diretor dos dois excelentes Tropa de Elite e do excepcional Ônibus 174. Muito se pode falar e bastante já se falou das três películas, então, foco em Robocop.

Quem conhece o estilo do brasileiro vai reconhecê-lo de cara em Robocop. Uma obra praticamente autoral, o que é uma grande façanha, tratando-se do primeiro filme dirigido por Padilha em um grande estúdio americano (MGM) e com um orçamento de 130 milhões de dólares. Façanha dupla pelo fato de Padilha ter conseguido impor um trio respeitável de brasileiros para dividir o trabalho com ele: o diretor de fotografia Lula Carvalho (Budapeste e Tropa de Elite), o montador Daniel Resende (Cidade de Deus e A Árvore da Vida) e o compositor dos dois Tropa de Elite, Pedro Bromfman. Enfim, como disse o próprio diretor, um blockbuster com alma brasileira.

Em uma das suas muitas entrevistas, Padilha teoriza, com muita razão, que o Brasil possui excelente equipe técnica em parte devido à limitação de recursos para fazer um filme no Brasil, o que estimula a criatividade dos brasileiros, rendendo boas histórias que chamam atenção pelo mundo. E o povo que tem dinheiro sabe reconhecer esses méritos chamando os técnicos para trabalhar na Meca do cinema mundial.

Não me recordo bem da primeira versão de Robocop, ainda nos idos de 1987 com direção do holandês Paul Verhoeven (O Vingador do Futuro e Instinto Selvagem), mas, apesar de ter se tornado um filme cult, sempre me pareceu uma produção extremamente datada. Não imaginava que algo a mais pudesse ser dito a respeito.

Mas a ideia do remake foi bastante acertada, pois o filme, apesar de passados tanto tempo, trata de um tema extremamente atual diante de toda a violência no mundo e as guerras contemporâneas que têm um componente a mais a diferi-las de todas as anteriores: o fenômeno dos temíveis drones, armamentos mortíferos tripulados à distância, a automatização das armas.

Chamou-me muito a atenção o tom geral do filme que é bastante crítico ao militarismo americano, à paranoia daquele país e do seu povo com relação à segurança pública. Lembramos que os Estados Unidos têm uma emenda sagrada na sua constituição que permite a todos os cidadãos a posse de uma arma. O lobby das armas é um dos mais poderosos do país e a indústria bélica é a mais poderosa. Dificilmente um filme com esse tom seria feito por um diretor norte americano. Palmas merecidíssimas para Padilha.

Nos três primeiros dias no Brasil a bilheteria de Robocop foi a segunda maior do ano, atingiu o formidável número de 600 mil espectadores e mais de R$ 8 milhões arrecadados. Ficou em primeiro lugar em dez países, incluindo os da Ásia e Europa. Talvez não tenha empolgado tanto nos EUA exatamente pelo seu tom político e até mesmo por não subestimar a inteligência das plateias, afinal há uma máxima no cinema americano: “nunca se perde dinheiro por subestimar a inteligência da audiência”. Soou-me bastante instigante um comentário do diretor: "Todo adolescente quer ser o Homem de Ferro, ninguém quer ser o Robocop. Ele é muito mais próximo do Frankenstein do que do homem". Descontando o fato de que Frankenstein é o nome do médico e não da sua criatura, Padilha deu corretamente o seu recado.

O filme tem apenas uma única falha e é no roteiro. Há uma contradição na premissa de que a automatização da polícia levaria ao fim da violência e isso mobiliza a bilionária indústria que cria e comercializa as máquinas que acabarão com os crimes. Ora, se o crime acabar não haverá necessidade de mais máquinas, mas são as máquinas que acabarão com o crime. Paradoxal, como é o paradoxo do queijo suíço (*). Uma falha interna que o filme não resolve.

Mas o filme me conquistou de cara, nos primeiros minutos. Em uma espécie de prólogo do que se assistirá, vemos um homem que teve o braço amputado e recebeu uma prótese de última geração. Preocupado se voltará a tocar, o vemos pegar um violão. Aos primeiros acordes, ouve-se não qualquer música, mas “A música”. Peço que desculpem por não disfarçar meu deslumbramento, mas o homem toca simplesmente a minha canção favorita de todos os tempos. Nenhuma música supera a beleza do Concierto de Aranjuez, obra prima do espanhol Joaquim Rodrigo, considerada como a melodia espanhola mais interpretada em todo o mundo, com especial destaque para o seu sublime adagio.

Intimamente, eu ouvia os primeiros e belíssimos acordes da canção de Joaquim Rodrigo e entregava todas as minhas bestas resistências, quase agradecendo a Padilha por aquele momento. Mas eis que o violonista amputado se emociona e erra os acordes seguintes da canção. O médico lhe diz que ele errou por se emocionar, que deveria deixar que a mente comandasse o braço cibernético. Então o homem diz a frase que, certamente, resume a ideia do filme: “Sem emoção eu não posso tocar”. Paradoxal: sem a razão ele não comandaria o braço para trocar corretamente e para tocar corretamente não poderia sentir a música. Resultado: a emoção, o que o tornava humano, era um empecilho. Mas como apreciar uma canção sem senti-la?

É isso que o filme tenta responder: o que nos torna humanos? Até que ponto a razão fria é um substituto para a vida? Afinal, o que é mesmo a vida? Convenhamos, para tentar responder a essas questões intrigantes a gente bem aguenta um bocado de tiroteio,  perseguição de moto e explosões. Uma troca justa.

*Paradoxo do queijo suíço (O queijo suíço tem buracos. Quanto mais queijo, mais buracos. Mas se os buracos ocupam o lugar do queijo, quanto mais buracos menos queijo. Então, quanto mais queijo, menos queijo).