17.5.15

UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA

Assisti a este filme no ano passado durante a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Foi uma daquelas sessões em que, por sorte, a gente consegue o ingresso, pois era um filme muito concorrido, com todas as salas lotadas.

Confesso que não conhecia o seu diretor, o sueco Roy Andersson, e fui assistir à película em razão dos elogios que havia lido dos críticos e pelo fato de as sessões estarem sempre lotadas, além da sua premiação com o Leão de Ouro no festival de Veneza em 2014.

Taí um exemplo de que prêmios, elogios de críticos e salas lotadas às vezes não significam nada, pois esse “Pombo” utiliza-se do recurso de ser um filme esquisito para tentar ser um “esquisito do bem”, ao invés de ser somente um filme chatíssimo e com graça próxima de zero.

Pelo que li, o “Pombo” é o final da trilogia formada pelos filmes “Vocês, Os Vivos” e “Canções do Segundo Andar”.  Baseado em fatos banais do dia a dia, “Pombo” não transcende sobre essa banalidade. Simplesmente a traz para a tela sem com isso acrescentar qualquer coisa. Há, reiterativamente, no filme, dois vendedores ambulantes entediados que só conseguem entediar o espectador. Talvez o objetivo fosse esse mesmo. Não sei os demais espectadores, mas eu não suportava mais vê-los aparecerem na tela entre as micro histórias sem continuidade ou sentido.

Li elogios como: “É um grito de loucura que vai chegando ao seu brilhantismo quando conseguimos aos poucos reunir as peças desse quebra-cabeça comportamental”. Eu digo uau, como esse crítico deve gostar mesmo de quebra cabeças comportamentais e de gritos de loucura....Os críticos do festival de Veneza, que deram-lhe o Leão de Ouro, com certeza pensam o mesmo. Eu só vi chatice sem fim.

Houve quem dissesse que o “Pombo” lembra os filmes do Monty Phyton com suas esquetes irônicas. Mas há muitas e enormes diferenças a apontar, e uma delas é que o Monty Phyton era formado pelos grandes e carismáticos atores/roteiristas Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones e Terry Gilliam, enquanto que o “Pombo” não tem qualquer ator que valha o ingresso.

Outra diferença gritante entre os esquetes do "Pombo" e do Monty Phyton é a insuperável anarquia dos atores britânicos. Mesmo o seu nonsense abrigava sátiras ácidas à política e à sociedade britânica. A metalinguagem, enriquecida pelo talento dos roteiristas-atores, transcendia o banal e buscava o surreal. Os exemplos são tantos que não vale à pena mencionar. Os dvds da série televisiva Flying Circus estão disponíveis para qualquer comparação. E nem falo dos filmes como A Vida de Brian, Em Busca do Cálice Sagrado e O Sentido da Vida, o que já seria injustiça demais.

De volta ao "Pombo" Crítica à mesquinhez da vida, niilismo, humor negro? Ai que preguiça dessa gente...Há poucas coisas que se salvam, mas mesmo essas, alongam-se mais do que o necessário, cansando também, como o episódio (?) da invasão do bar pela cavalaria onde o diretor pretensamente almeja abordar, de uma só vez, uma crítica à guerra, ao absolutismo, ao genocídio, à escravidão e ao colonialismo. Pretensão tão grande torna a cena que poderia ser a menos pior do filme, a mais pretensiosa.

E há outras tão breves e tão chatas que parece que duram melancólicas horas. E eu pergunto onde está o mérito em se usar apenas e unicamente tomadas de câmera fixa e enquadramentos imóveis? Qual a originalidade disso? Talvez o fato de dispensar um operador de câmera. Os personagens, unidimensionais, têm os rostos previsivelmente pintados de branco, como verdadeiros clowns, uma vez que são meras caricaturas da solidão, da pobreza, da feiura, do desemprego, da velhice e da morte.

Parece que pega bem elogiar o “Pombo”, parece que demonstra que o espectador é aberto às formas não usuais de narrativa; que não é prisioneiro dos clichês hollywoodianos e que é fã do não convencional e do original. Quase não se verá críticas negativas a esse “Pombo” na imprensa. Na sala de cinema em que vi houve até aplausos no final.

Bem, tem um povo que aplaude por de sol não é mesmo? E se tem uma coisa mais previsível do que por do sol só mesmo as pessoas que os aplaudem.

3.3.15

NÃO CRUCIFIQUEM (DEMAIS) 50 TONS DE CINZA


Havia prometido não escrever sobre 50 Tons de Cinza, já que não li os livros, não vi o filme, e nem pretendo fazê-lo. Já que não conheço as obras, não tenho condições de falar sobre suas eventuais qualidades ou defeitos.


Não é sobre a dramaturgia das obras que me interessa falar, mas sobre a reação que elas têm provocado. Especificamente me motiva a última coluna do psicanalista Contardo Calligaris na Folha.

Calligaris explica que não escreveria sobre o filme se não fossem as bizarras críticas que choveram sobre a obra, inclusive com campanhas contrárias de líderes católicos e evangélicos pela suposta “visão degradante do sexo e contrária aos ensinamentos da igreja” ou "glorificação da excitação sexual sem amor" e "o culto ao hedonismo" ou mesmo "o sexo sem compromisso".

O autor aponta o paradoxo desse argumento lembrando que justamente o que livro e filme mostram é o compromisso, condição para que haja uma relação. Parece que há até um termo de compromisso lavrado e assinado pelos protagonistas.

Sadomasoquismo é um tema que muito me interessa. Já assisti, ao vivo algumas sessões SM e frequentei a famosa Folsom Steet Fair, feira sadomasoquista que acontece há anos em plena rua Folsom, em São Francisco, Califórnia, onde tirei as fotos que ilustram um site que criei sobre o assunto quando estudava Jornalismo na UFBA e que provocou certa polêmica na época, com debates acalorados em listas de cybercultura e matérias em sites da internet, na Tarde e no Correio da Bahia. 

O mais curioso sobre as relações SM é o seu inerente caráter consensual. Será praticamente impossível haver uma dupla adepta da prática que não siga regras rígidas que preveem cuidados que as pessoas nem imaginam. Enfim, é algo muito seguro. O grande barato da coisa é a ideia de ultrapassar limites, enfrentar a dor e descobrir-se livre, totalmente à mercê do outro. É muito libertador e embriagante.

Não poderia, em poucas linhas, tratar do tema com o aprofundamento que ele merece, mas me parece que os livros e o filme tratam mesmo é de uma história de amor. As pessoas não sabem, como diz Calligaris, que um casal sadomasoquista é, quase sempre, amoroso, duradouro e unido por um raro respeito recíproco. É paradoxal que o tema mobilize pessoas preocupadas com a violência doméstica contra a mulher. Acreditem: uma relação entre um casal SM se limita à dominação sexual. Restringe-se à alcova. Não se confunde com a esfera doméstica e nem invade a rotina das pessoas. 

Em quase 100% das vezes, é o masoquista quem de fato determina os limites, cabendo ao sádico o papel de objeto da execução dos desejos do masoquista. Por isso, é tão comum que se pague pelo trabalho do sádico e ninguém paga a um masoquista. Este é um mercado bastante rentável para dominatrixes e mestres.

Em uma entrevista que publiquei no meu site com uma famosa dominatrix, ela revela que quase todos os seus clientes são homens que no dia a dia são empresários com grande responsabilidade, pessoas que tiveram que amadurecer muito cedo e encontram como poderosa válvula de escape esses momentos de submissão nas mãos de uma dominadora. Nem sempre envolve sexo, mas rituais de humilhação e dominação. Clientes revelam como saem aliviados dessas sessões, pois se sentem livres de responsabilidade, totalmente entregues, por algum tempo, nas mãos de outra pessoa em quem confiam plenamente. 

Por tudo que li sobre o livro e o filme, me parece que a verdadeira bola fora foi a explicação, desnecessária e tosca de que o tal Christian Grey é daquele jeito por ter sido abusado na adolescência. A psicologia já cansou de provar que tal relação se dá quando os pais provocam nas crianças dissociações cognitivas durante o desenvolvimento da sexualidade, levando os pequenos (futuros masoquistas e não futuros sádicos) a confundirem os momentos de castigo corporal com o necessário e saudável contato físico com os pais. Pais pouco afetivos que batem nos filhos e logo se arrependem costumam dizer para eles que fazem aquilo “para o seu bem” ou “papai faz isso porque te ama”. Este sim é o fermento para o desenvolvimento de uma parafilia, nome real para o que alguns chamam de transtorno. Ao crescerem, os petizes vão associar momentos de dor a momentos de alívio em um círculo de gratificação dissociativa.
Outro ponto que me interessa discutir e que Calligaris sabiamente aponta é outro paradoxo que envolve as críticas dos religiosos sobre a tal glorificação da dor. Como psicanalista, Calligaris já cuidou provavelmente de inúmeros casos em que o erotismo na nossa cultura cristã está intimamente ligado ao prazer visual obtido pela glorificação do corpo supliciado de Jesus Cristo ou São Sebastião, entre outros.

Não é por outra razão que a representação iconográfica e pictórica dos corpos supliciados desses mártires é tão próxima de um ideal de beleza estética e física. Calligaris relata que conheceu dezenas de adolescentes cujas primeiras solitárias experiências sexuais eram justamente inspiradas pelas abundantes imagens da martirologia cristã, com sua suspeitíssima carga erótica.

Calligaris escreve ainda sobre a ironia de a bilheteria de "Cinquenta Tons" concorrer logo com a "Paixão de Cristo", de Mel Gibson, que, desde 2004, era a melhor bilheteria de estreia para um mês de fevereiro. "Cinquenta Tons" passou a Paixão de Cristo e eu me lembro de um artigo que escrevi quando vi a Paixão no cinema em 2004 intitulado: “Pornografia no Calvário: A Paixão Samomasoquista de Mel Gibson” Ali eu comentava sobre o profundo asco que me levou a abandonar a sala após meia hora de exibição da película.


Eu dizia naquele texto: “Estou assistindo a uma cena em que Jesus é chicoteado com uma ferocidade desumana por sádicos que riem da sua desgraça. Qual a necessidade, jamais vou entender, de expor, em câmera super lenta, degradação tamanha de um ser humano. Já vi muitos filmes pornográficos e até com cenas de sadomasoquismo mas nada me revirou tanto o estômago quanto aquela sequência de desgraça suprema de uma pessoa. Há toda uma construção coreográfica visando ao máximo de horror no detalhismo da explosão da crueldade”.

Após louvarem o supremo horror sadomasoquista da Paixão de Cristo, líderes cristãos agora querem crucificar 50 Tons de Cinza? Que hipocrisia! Como quero manter muita distância de qualquer associação com qualquer religião, eu bem poderia, só de birra, falar maravilhas das peripécias do casal Gray e Anastácia.

Mas nem meu masoquismo chega a tanto.

9.2.15

BOYHOOD X BIRDMAN



BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE

Ao assistir a Boyhood, fiquei encantado com a proposta ousada do diretor Richard Linklater (da adorável série:
Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-sol e Antes da Meia-Noite) em filmar durante doze anos a vida de um menino, dos 8 aos 15 anos, usando todo o tempo os mesmos atores. Mas quando assisti a Birdman, não teve como Boyhood permanecer no topo da minha admiração.

Na verdade, com o passar das semanas desde que assisti a Boyhood em outubro do ano passado, comecei a achar que o filme talvez estivesse sendo incensado demais. Não entendia bem o porquê, mas o fato de todo mundo estar elogiando tanto o filme me incomodava. Alguma coisa ele tinha feito de errado para agradar a tanta gente. 

Até que li a primorosa análise de Marcelo Coelho na Folha de São Paulo. Ele já começa o texto lamentando parecer antipático e avisa logo que talvez seja o único, entre todas as pessoas que conhece, que não se entusiasmou tanto pelo filme.

Concordo com Coelho, Boyhood parece um documentário devido ao seu insuperável tom hiper-realista. Tal realismo extremo é consequência da própria biologia: os personagens envelhecem com os atores. A beleza de ser uma ficção talvez esmaeça diante do tom excessivamente tendendo para o real, uma vez que esse é um paradoxo: ninguém é tão real assim e a ficção tem sim que dar um salto além do mero documental.

Boyhood, por mais belo que seja acaba sendo quase um registro comum na vida de um menino americano e isso não basta para construir um personagem. O que ele pensa? Quais são seus planos? Seus medos e dúvidas? O que ele aprende nessa jornada? Não sabemos nada quando o filme começa e ele é uma criança e continuamos sem nada saber após quase três horas e doze anos de filmagens.  Como diz Coelho, o garoto é totalmente passivo, apenas o campo de provas para mudanças hormonais.

Tudo bem, Patricia Arquette e Ethan Hawke são dois fofos e o casal de atores que faz seus filhos é outra lindeza, mas desculpe ser estraga prazeres: finalmente encontrei a razão para apenas gostar de Boyhood. É só fofura. 

BIRDMAN OU A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA

Já Birdman é feito de outra liga. É cinema de gente grande. É metalinguagem na veia. Não sei nem mesmo por onde começar..Talvez pela direção segura do mexicano Alejandro González Iñárritu, que já provou tudo que precisaria, e muito mais, nos excepcionais Amores Brutos, Babel, 21 Gramas e Biutiful.

Se nos seus extraordinários filmes anteriores Iñárritu já realizava um cinema maduro e autoral, em Birdman ele foge da suas conhecidas estética dramática, narrativa circular e atmosfera desesperançada para, longe da sua zona de conforto, lançar-se em uma comédia com generosas doses de drama e crítica mordaz, não somente à indústria do cinema e do entretenimento, mas a toda a rede de neuroses que envolve as pessoas que se deixam enredar pelo desejo voraz de ser amado, admirado, prestigiado, reconhecido.

Também não sei em que ponto do meu texto louvar a corajosa opção do diretor em realizar um filme inteirinho praticamente em um plano-sequência, com cortes quase imperceptíveis. E como esquecer a trilha sonora arrebatadora, praticamente composta de um onipresente e impactante solo de bateria, com direito ao próprio baterista em cena. 

Confesso que o filme só me ganhou pela metade, mas também não me largou mais. Em certo ponto, eu já estava sorrindo, como um besta, no escuro do cinema. O diretor me tinha em suas mãos e a partir dali, o filme só foi me arrebatando mais e quando eu não esperava ainda mais, ele me traz um diálogo entre uma crítica teatral e o personagem de Michael Keaton que ouso dizer que é um dos diálogos mais inteligentes e repletos de significados que já vi no cinema.

Como não ir ao delírio com as cenas em que o personagem do personagem (The Birdman, itself) avança filme adentro, mostrando-se a encarnação da neurastenia. Ou a cena de finíssimo sarcasmo em que Keaton se pendura num parapeito e uma mulher pergunta da sacada em frente se aquilo é um filme ou vida real: Keaton responde: um filme. E a graça toda está ali. Trata-se de um filme, afinal de contas.

E como não lembrar que a escolha de Michael Keaton para o papel é, em si, um achado, pois ele é um ator marcado pela sombra de um personagem de um super-herói que ele abandonou (Batman) e que o persegue, como o Birdman (do filme dentro do filme). Uma mistura louca de um superego com um alter-ego. Briga boa. Freud adoraria participar.

Maravilhosa toda a sequência de cuecas pela Broadway. Todas as pessoas que reconhecem o personagem de Keaton, insistem em tirar fotos com ele, mas não com o personagem, mas com o ex-Birdman. Enquanto ele está em uma busca desesperada pelo prestígio que nunca teve, o que todos querem dele é apenas que seja um personagem, um clichê. Como lutar essa luta?  

Há uma cena que me encantou profundamente. De uma enorme sutileza e força. Quando um dos atores recita, na rua, como um louco ou um mendigo, o monólogo final de Macbeth, de Shakespeare: “A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa”. Que texto da história do teatro poderia representar mais intensamente o desejo completamente irrealizável de um ator pelo amor do seu público? Qual o simbolismo mais forte do que tanto som e fúria para nada?

E não bastassem tanta maestria que me deixou completamente chapado, percebo em certo momento, que o teatro da Broadway em que os personagens do filme ensaiam e se apresentam é o St. James, onde eu tive o privilégio de assistir, alguns anos atrás, completamente em êxtase, à peça Mary Stuart. 

Como não se render a Birdman?

11.1.15

Onde o sol se escondeu de minha alma?

Outro dia, revendo velhas fotografias, me deparei com um retrato meu tirado nos anos 80. Não posso precisar exatamente o ano, era uma foto daquelas máquinas em que a gente tem que revelar o filme para só depois ver se ficou boa.

Pois bem, a foto mostrava um jovem mais de trinta anos mais novo do que eu hoje, bem mais magro, sentado em uma poltrona. Eu vestia a minha camisa favorita de então que trazia a estampa do rosto da criatura de Frankenstein.

Como poderia ter-me esquecido daquela camisa esses anos todos? Era a minha favorita e de tanto que a usava praticamente havia se tornado um traço da minha personalidade. Era vermelha viva com a sombra do rosto da criatura em negro. Como eu gostava daquela camisa! De tanto que usei acabou se estragando e em algum momento se perdeu.

O que havia de mim naquela camisa com o desenho da criatura? Por que eu me identificava tanto com ela? Era de um vermelho vivo e se eu me lembro bem de mim naquele tempo, eu não era uma pessoa muito solar. Pelo contrário, sempre fui avesso ao dia claro e gostava muito de me enfurnar em livros e bibliotecas. O sol não era meu amigo. Mas à noite eu ardia nas sombras.

Então por que a camisa vermelha? Um leonino que se refugia do sol não parece algo muito promissor. O rosto do monstro era como uma efígie dos conflitos que me aturdiam, como se eu pedisse socorro em silêncio, exibindo a figura como um sinal de fumaça, um SOS em código morse para quem pudesse interpretar sem que eu precisasse dizer, talvez até mesmo porque eu não soubesse verbalizar o que acontecia. Por que o sol se escondia da minha alma? Ou para onde ele foi que eu não poderia segui-lo?

Eram perguntas difíceis para um jovem de pouco mais de vinte anos cheio de perguntas difíceis ligadas a áreas da vida muito confusas. O monstro de Frankenstein, olhando o mundo por mim na camisa vermelha, era meu hóspede sombrio, ele próprio feito de partes avulsas, que praticamente não se combinavam e cheio de questões,

Era um tempo de busca angustiada pela construção da própria identidade no meio de pedaços de outras identidades, uma busca por erigir algo de si próprio e um baita receio de que talvez isso não fosse possível sem copiar o que viera antes. Afinal, se éramos feitos do que tinham escolhido para nós, como impor-se único diante do mar de identidades? Um sentimento ao mesmo tempo vago e inevitável de que não restava muito para fazer quando éramos feitos da montagem de outras histórias, histórias talvez muito mais fascinantes do que qualquer uma que poderia construir.

Pode ser tudo isso, pode não ser nada disso, mas certamente o tempo fez seu serviço para o qual o tempo foi criado. A camisa se foi: o tempo a levou. As respostas às muitas perguntas ou se tornaram desimportantes ao longo dos anos ou se revelaram para mim também com o tempo. E eu me tornei o que sou.

Ainda não me dou muito bem ao sol. Minha alma pegou o gosto da noite, as sombras se afeiçoaram à minha pele pois, de algum modo, o monstro ainda habita lá no interior, confinado, dominado. Olhando hoje para a foto, a camisa, o meu rosto de trinta e tantos anos atrás, sinto certa nostalgia que o tempo também transformou, dessa vez em palavras.



Não tenho saudades da criatura besta que eu era então, mas um certo orgulho de não precisar mais me esconder nas sombras e não mais precisar da efígie da outra criatura para falar por mim.

19.12.14

MOMMY


Em Mommy, quinto filme do canadense Xavier Dolan, estamos no mesmo país dos seus filmes anteriores, mas aqui temos um Canadá fictício, um país cuja lei permite que os pais possam internar os filhos em hospitais públicos com facilidade. Tirando esse detalhe, o filme pode ser muito bem assistido como um drama realista.

Antes, porém um parêntesis para falar desse jovem diretor, ator, roteirista, figurinista, produtor e editor que tem apenas 25 anos de idade e já carrega consigo um curriculum invejável.

Dolan chamou a atenção do mundo quando dirigiu e atuou aos 20 anos no seu filme de estreia: Eu matei a minha mãe filme premiado no Festival de Cannes. No ano seguinte, o prolífico artista novamente dirigiu e atuou no maravilhoso Amores Imaginários. E, de novo, foi premiado em Cannes.

Seus dois filmes seguintes seguiram a mesma linha provocativa: Laurence Anyways e Tom na Fazenda. Assim como nos dois primeiros filmes, Dolan, gay assumido, aborda aqui, com muita propriedade e visão de esteta, esse universo no qual ele se sente bastante confortável.

Esse texto poderia perfeitamente gastar todas as suas linhas disponíveis para falar de cada um dos quatro primeiros filmes de Xavier Dolan, incluindo suas ótimas trilhas sonoras, mas o fim da pauta se aproxima e ainda não falei de Mommy que mantém a tradição dos filmes do diretor, ganhando o prêmio do júri do último festival de Cannes, ou melhor, dividindo-o com o veteraníssimo Jean-Luc Godard. O rapaz não é fraco, não.

A primeira coisa que, logo de cara, chama a atenção do espectador é o formato da tela: quadrado, chamado 1:1,  como no instagram. E essa escolha mostra a coragem e a ousadia do jovem diretor, que dessa vez não atua no filme. A ideia é deixar o público com a sensação de falta de espaço, de desconforto.

Esse formato de tela não é exatamente uma novidade, já tendo sido usado no filme O Homem das Multidões, de 2013, dirigido por Cao Guimarães e 
Marcelo Gomes, com a mesma intenção de transmitir a sensação de aprisionamento.

O não ineditismo, entretanto, não tira os aplausos para Dolan, até porque ele utiliza-se de um recurso muito inteligente e criativo e que não foi sequer imaginado pela dupla de diretores brasileiros: em certo momento do filme, a tela se abre aos poucos para o formato tradicional, como pelo esforço das mãos do adolescente protagonista, mostrando, como belíssima metáfora visual, o sucesso na tentativa de ampliação dos horizontes e libertação das limitações impostas. É um daqueles momentos que merecem ser eternizados na história do cinema. E isso tudo vindo ainda por cima pelas mãos de um rapaz de 25 anos.

Impossível não comparar com outro gênio da sétima arte, também ele ator, diretor, produtor e roteirista. Mantidas as devidas proporções, falo de Orson Welles que com 26 anos, praticamente a mesma idade de Dolan, trouxe ao mundo Cidadão Kane, renovando para sempre a estética do cinema com ângulos de câmera ousados e exploração do campo.

A história do filme gira em torno de um trio disfuncional: Diane, uma mãe solteira desempregada; seu filho Steve, um adolescente de 15 anos hiperativo e com déficit de atenção agudo; e Kyla, a vizinha deprimida com problema de auto-afirmação presa num casamento monótono. Esse trio improvável é responsável pelo precário equilíbrio da situação dos personagens. 

Dá um prazer danado acompanhar o progresso da carreira do talentoso  Xavier Dolan, perceber que ele já era brilhante quando nos presentou com o seu primeiro filme e que, a cada obra, ele se aperfeiçoa ainda mais, atinge mais maturidade, beirando o sublime.  As suas inúmeras premiações ao redor do mundo lhe fazem merecida justiça.

Um filme excepcional para se admirar e refletir.

14.12.14

O PINTASSILGO

O Pintassilgo é uma espécie de saga contemporânea, quase como se, em vez de acompanharmos durante anos os infortúnios do seu protagonista, o pré-adolescente Theo Decker, envolvido com uma pintura roubada de valor inestimável, alongássemos as desventuras do também impúbere Holden Caulfield da obra máxima de J.D.Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio. Passamos apenas um fim de semana com o angustiado Holden pelas ruas de Nova Yorque, mas com Theo somos arrastados por anos numa espécie de limbo niilista.

Há diferenças cruciais entre os dois protagonistas. Se Holden virou ídolo de gerações de jovens pelo seu inconformismo e rebeldia, Theo é levado a um abatimento profundo quando vaga sem destino, arrastado pelas marés da fatalidade.

É pelas mãos da sua mãe (o destino) que é levado a um museu onde uma explosão terrorista lhe mata justamente a mãe nas primeiras páginas do livro. Dá para sentir o que virá a seguir nas palavras de Theo: “As coisas teriam sido melhores se ela estivesse viva. Mas minha mãe morreu quando eu era criança; e, embora tudo o que aconteceu comigo desde então seja exclusivamente culpa minha, quando a perdi também perdi de vista qualquer farol que poderia ter me conduzido a algum lugar mais feliz, a uma vida mais plena e agradável”.

E tudo que se segue a esse atentado é movido pelo roubo de uma obra valiosíssima do museu, exatamente o quadro que dá título ao romance. Todas as pessoas com quem Theo se envolve ao longo de vários anos são fugidias e escapam-lhe como água entre os dedos. Mortes sucessivas acontecem à sua volta, perdas físicas e emocionais, e ele permanece à margem, escapando dos vícios em álcool e jogo, destino do seu pai, mas envolvendo-se com todo tipo de drogas pesadíssimas, viciando-se em remédios, sempre à busca do oblívio e flertando com o irremediável. 

O Pintassilgo é a única chama de vida que ele possui, um quadro pintado em 1654 e o único sobrevivente de toda a obra do genial Carel Fabritius, aluno de Rembrandt, destruída no atelier do artista num incêndio que matou o próprio pintor, assim como a explosão do museu levou embora a única pessoa viva que Theo realmente amava. Tudo lhe é tomado e a única coisa que ele pode dizer que realmente possui não é de fato dele, mas roubado. E ele não pode dividir essa informação ou a beleza da obra com pessoa alguma.

Em outro paralelo entre Theo e Holden, dois adolescentes perdidos nas impiedosas ruas de Manhattan, parece até que Theo ouviu o último conselho de Holden na última linha do romance de Salinger: "Nunca conte nada a ninguém. Se você o fizer, mal acaba de contar e começa a sentir saudade de todo mundo". Theo sabe que o seu segredo é algo inconfessável e que pode custar-lhe a liberdade.

O Pintassilgo é o que faz com que ele não sucumba por completo ao destino de muitos niilistas extremos. Nos momentos de maior desespero basta que Theo contemple o quadro por alguns minutos para que o pássaro, sobrevivente de séculos, de dois incêndios e de várias mortes, o faça desejar viver. Um pássaro pintado mas com uma dignidade extrema, indiferente ao fato de estar preso por uma argola no pé.

Mas o livro é difícil de transpor. Longe de ser monótono, é talvez excessivamente caudaloso, recheado de digressões e descrições. Algumas vezes páginas e mais páginas são gastas para descrever uma sala ou narrar as sensações de uma viagem narcótica.

A luz no fim do túnel que pode ser a salvação de Theo ou a locomotiva que vai destruí-lo de vez, aparece na figura do seu praticamente único amigo, o também adolescente Bóris. Se esse fosse um livro sobre o russo Bóris, seria um relato solar, repleto de aventuras, música, vodka, mulheres loucas, assassinos perigosos, prostituição, tráfico de drogas e muito sexo, mas como é um livro sobre Theo, temos uma atmosfera oposta. Tudo é sombra e amargura. Em alguns momentos chega-se a ficar de saco cheio de Theo que parece que atrai desgraças para onde vai. Percebemos que Theo é um chato de galocha na primeira das 728 páginas e vamos ter que aguentar sua chatice até o fim. Ainda bem que Bóris aparece para dar um pouco de cor a esse rapaz perdido, nem que seja levando-o para porres espetaculares.

Há quem ache que a obra não mereceu o Pulitzer. Não me decidi ainda, mas fico feliz que Theo tenha finalmente encontrado a solução para os seus problemas. O Pintassilgo vai me levar adiante, e é isso que a arte faz, e tem tudo a ver com a frase da autora no final da obra: “No meio do nosso morrer, enquanto saímos do orgânico e afundamos ignominiosamente de volta nele, é uma glória e um privilégio amar o que a Morte não toca. Pois se desastre e esquecimento seguiram essa pintura através do tempo, o amor também o fez”.

5.12.14

RELATOS SELVAGENS

         
   Mais um filme argentino chega às nossas telas para reforçar a tradição de que o cinema feito pelos nossos hermanos consegue ser muito melhor do que o nosso. Utilizando-se de ótimos roteiros, diálogos naturais, excelente direção e uma linguagem de apelo universal, o cinema argentino dá sempre um show e nos faz perguntar por que não conseguimos fazer igual.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, sempre atilado, aponta como uma das causas a nossa predileção pelas fórmulas fáceis e batidas: as comédias escrachadas, o amor neurótico e o “coitadismo” (coitado do pobre, do bandido, do drogado ou pobre é lindo, bandido é lindo, drogado é lindo), a chamada crítica social. A gente não corre o risco de ver essas baboseiras no cinema argentino, sempre muito mais maduro do que o nosso.

Relatos Selvagens, dirigido por Damián  Szifron,  é dividido em seis excelentes episódios e isso é raro nesse tipo de filme, nos quais costumamos ver alguns episódios bons e outros ruins, como na série I Love New York, I Love Paris e I Love Rio. No caso do último, talvez chame a atenção o fato de que, ao contrário dos seus predecessores, todos os episódios são ruins.

Para não ser injusto, não dá para não mencionar outros grandes filmes divididos em episódios, como Dolls, do diretor Takeshi Kitano, com suas três belas histórias retratadas com delicadeza tipicamente oriental; ou Contos de Nova Yorque, dirigido pelo trio Scorsese,  Coppola e Woody Allen; ou o belíssimo Eros, também de um trio de diretores de peso: Antonioni, Steven Soderbergh e Wong Kar-Wai.

O leitor deve estar se perguntando se o autor dessas mal traçadas vai passar o texto inteiro falando de outros filmes ou vai começar, afinal, a falar de Relatos Selvagens...Que bom que o leitor lembrou. O autor se empolgou e se desculpa.

A primeira história de Relatos Selvagens é quase uma vinhetona, já que precede os créditos. Em um avião todos os passageiros descobrem que conhecem a mesma pessoa e que todos a prejudicaram no passado. O episódio termina com o cinema inteiro em uma grande gargalhada de nervoso. Ah como a vingança pode ser doce. Mas é puro humor negro pois o subconsciente, esse intrometido pronto para estragar qualquer farra, sopra nos ouvidos a famosa frase de Confúcio: “Ao embarcar para uma vingança prepare duas covas” Duas?

E as histórias se sucedem. Uma garçonete vê a chance de se vingar do gângster que destruiu sua família. Afinal, um veneno de rato que está vencido é mais letal ou menos? Dois homens se desentendem numa estrada e o arranhão no verniz que nos separa da civilização para a barbárie logo mostra que o homem é mais do que o lobo do homem e a gente não consegue deixar de lembrar a célebre frase de Sartre: “O inferno são os outros”. Como um episódio tão simples pode ser tão brilhante? E, afinal porque ninguém pensou em filmar uma cena dessas antes?

O quarto episódio, no qual um pai rico tenta livrar o filho de ser preso pelo atropelamento de uma mulher grávida é um verdadeiro tratado de sociologia, ou melhor, de patologia social. A propósito desse episódio, Luiz Felipe Pondé aponta sabiamente: “as classes menos favorecidas sabem muito bem como manipular seus ‘ganhos’ no esquema de corrupção. Um cínico diria que a corrupção também pode ser inclusiva”.

O maior astro do cinema argentino, Ricardo Darin, não poderia estar de fora desse filme. No penúltimo episódio ele interpreta um homem em uma luta desigual contra um estado burocrático que ameaça fazer da sua vida uma tragédia kafkiana. A violência explode e nos faz lembrar Michael Douglas em Um Dia de Fúria.

Palmas redobradas, vivas e hurras para o último e unanimemente considerado melhor episódio dos seis, uma verdadeira torrente de emoções em torno de um casal no dia do casamento. Esse episódio certamente deve ter sido o que levou o cineasta Pedro Almodóvar a decidir produzir Relatos Selvagens já que todo o episódio do casamento é puro cinema almodovariano, inclusive com a montagem frenética e a excepcional trilha sonora a cargo do ótimo Gustavo Santaolalla, que já ganhou dois Oscars seguidos.

Anárquico, histérico, brilhante, surpreendente, divertido...Não é preciso economizar nos adjetivos. Relatos Selvagens merece todos.


25.11.14

GAROTA EXEMPLAR



Garota Exemplar, o mais novo filme do competente diretor norte-americano David Fincher, chegou às telas coberto de expectativas por ser uma adaptação do best seller homônimo e que, inclusive contou com a participação do seu próprio autor, Gillian Flynn, como roteirista na adaptação para as telas.

David Fincher tem atração por tipos problemáticos e anti-heróis, como se viu nos seus personagens masculinos de Seven (Kevin Spacey e Brad Pitt) e Clube da Luta (de novo Brad Pitt e Edward Norton), bem como adora mulheres fortes, como a tenente Ripley (Sigourney Weaver) de Alien 3 e a hacker punk  Lisbeth Salander (Rooney Mara) de Millenium. Sem contar o casal machbethiano (Kevin Spacey e Robin Wright) do excepcional House of Cards.

Pois Fincher está de volta com uma dessas mulheres “chave de cadeia” na pele de Rosamund Pike (a ex-Bond Girl de Die Another Day), que interpreta a insuportavelmente certinha Amy Dunne, a tal Garota Exemplar do título. Pois essa mala loura sem alça simplesmente some da história no dia do seu aniversário de casamento com o marido Nick, papel de Ben Affleck, dando início ao calvário do pobre do Nick (será?) obrigado a lidar com as suspeitas de ter matado a belíssima Amy. Ele é escolhido pela imprensa como o bode expiatório da vez — e a mídia sabe muito bem como moer em pedacinhos seus “favoritos”. Nick não tem a menor chance contra a tal “opinião pública” açulada pelas redes de tv.

Então temos a chance de acompanhar em flashbacks a linda história de amor de Nick e Amy que, pelo jeito, não é tão linda assim, já que sobram esqueletos escondidos nos armários. E eles vão saindo aos poucos.

Afinal de contas Nick matou ou não matou Amy? Por que ele entra em tantas contradições e não tem um álibi? Ele traía a devotada esposa? Ela era mesmo devotada? São perguntas demais e é isso que prende o espectador. O diretor lida, e bem, com todas essas questões, como aqueles malabaristas que tentam manter todos os pratos girando sem deixar nenhum deles parar e cair.

Não sou muito fã dessas histórias sobre a comoção das massas mobilizadas pela mídia contra ou a favor de alguém. Acho que é quase uma fórmula clichê e também não me atrai essa coisa de filme querer passar uma “mensagem” sobre como a mídia malvada usa uma pessoa. Aliás, depois de A Montanha dos Sete Abutres (1951), de Billy Wilder com Kirk Douglas como o jornalista inescrupuloso, toda representação da parcialidade da mídia é conto da carochinha.

Então, pulando a parte em que a mídia insufla o povo contra Nick, fica-se muito limitado a contar mais sobre o filme pelo risco de spoiler. A gente deve tomar cuidado com essas coisas depois daquele fã de Harry Potter, de 32 anos, de Ohio (EUA) que cometeu suicídio após, sem querer, ouvir como seria o  final do 6º filme da série.

Ainda bem que não estamos falando de Harry Potter. Garota Exemplar é um legítimo thriller, com um belíssimo twist, que não vou ser besta de contar, e que faz a gente perceber que está vendo praticamente um novo filme dentro do filme. Isso é muito revigorante, pois as pessoas adoram ser surpreendidas, mesmo que seja por uma visão sombria e praticamente subversiva da santificada instituição do matrimônio. 

Destaques: a trilha sonora de primeira, a cargo de Trent Reznor, do Nine Inch Nails, que já trabalhou com Fincher em A Rede Social (e levou o Oscar pela trilha daquele filme); a montagem perfeita, que consegue manter o clima se suspense mesmo com o uso de flashbacks; a interpretação minimalista de Ben Affleck, que cai como uma luva para o seu personagem pouco expressivo, exemplo de que o menos é mais e, sem dúvida alguma, a louraça belzebu de Rosamund Pike.

9.11.14

AHHH!!!! FÉRIAS

Acabaram.

Um ano na expectativa das férias e agora, de volta ao batente, previsível que sou, ao cabo de cada outubro tenho um só assunto: a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Mas o que fazer se todos os anos, no balanço do melhor que fiz nos 365 dias passados, a maratona de filmes na Mostra ocupa sempre os primeiros lugares?

Dessa vez foi especial, pois finalmente consegui comprar o passaporte que dá direito a 40 filmes. Esses passaportes acabam no primeiro dia de venda e os jornais  mostraram a fila de cinéfilos que se formou a partir das 6h da manhã na frente da Central da Mostra com centenas de pessoas dispostas a comprar os tais passaportes (limitados) que dão direito a assistir 20, 40 ou quantos filmes a pessoa quiser, pagando valores mais baixos do que pagaria na bilheteria.
       
A 38ª Mostra de São Paulo é a minha 12ª consecutiva e este ano homenageou Pedro Almodóvar com a exibição de quase todos os seus filmes. Em 15 dias foram apresentados 331 filmes entre documentários, ficções, curtas e animações, a maioria inéditos, em 34 cinemas, auditórios e anfiteatros espalhados por toda capital, além do vão livre do MASP e o Parque do Ibirapuera. Em muitos lugares o acesso é grátis. Tive o privilégio, este ano de ter uma foto minha publicada no Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, em uma coluna sobre os Humanos na Mostra que a cada dia escolhia um cinéfilo para contar sua história.

Com o passaporte para 40 filmes garantido não precisei enfrentar filas, o que é um adianto, além de ter a chance de pegar os ingressos com dias de antecedência, escapando do risco de salas lotadas. Outra tranquilidade é aproveitar filmes de salas mais distantes do centro sem medo de encontrar lotação esgotada e perder a viagem.

Entre os grandes baratos da Mostra estão os filmes de países longínquos como Geórgia, Macedônia, Azerbaijão entre outros que fatalmente nunca passarão do Brasil sendo essa a única chance de assistir a eles. Mesmo filmes espetaculares de países como Espanha, Equador, China e Venezuela, que vi há anos, jamais passaram em Salvador.

Sempre comento sobre a fauna da Mostra, sobre os tipos humanos curiosos que todo ano vejo. Cada um renderia uma reportagem, de tão exóticos, ricos em experiências ou de comportamentos extravagantes. O ano passado escrevi sobre o velhinho que a cada ano fica mais decrépito e que frequenta a Mostra deste a primeira edição. Este ano achei que ele não tinha resistido à velhice e morrido, até que senti um fortíssimo cheiro de urina na sala do SESC e logo imaginei que ele estava por ali. Há algum tempo ele sofre de incontinência urinária mas sabe quais os melhores filmes. O fato de uma sala da Mostra cheirar a urina significam duas coisas: Sérgio está lá e o filme será bom.

Emagreci alguns quilos, pois durante essas semanas conto nos dedos os dias em que não pulei o almoço ou o jantar, me conformando com sanduiches, cafés e pães de queijo. Para ver o maior número de filmes, comer corretamente se torna um luxo a que o cinéfilo da Mostra não pode se dar. Nessas horas a mochila, velha companheira, abrigava catálogo e guia da mostra, celular (desligado), barras de cereais, tabletes de chocolate e tudo que pudesse ser mastigado com praticidade. Há os que levam garrafonas de água ou frutas. Tem um cara que come pencas de banana. Tem de tudo.

Bem, acabaram sendo 41 filmes se eu contar os três insuportáveis que larguei na metade. Entre as 17 diferentes premiações, dos filmes que vi destaco os que conquistaram:
Prêmio do Público de melhor ficção internacional RELATOS SELVAGENS.
Prêmio da Crítica de melhor filme: LEVIATÃ.
Menção Honrosa da Crítica: A ILHA DOS MILHARAIS.
Menção Honrosa da Crítica: O PEQUENO QUINQUIN.
Prêmio ABRACCINE:  CASA GRANDE.
Prêmio Associação Autores de Cinema de Melhor Roteiro: A GANGUE

Segue abaixo minha seleção pessoal na ordem dos melhores para os piores.

NOTA 10

O PRÍNCIPE – Filme iraniano que na minha opinião é uma perfeita tradução da capacidade do cinema de transformar a vida de uma pessoa. Trata-se de um docudrama quase metalinguístico que conta a história de Jalil Nazari,  em 1997, então um garoto de 17 anos que deixa o Afeganistão controlado pelo Talibã e busca refúgio no Irã, onde sobrevive de pequenos trabalhos. Um dia ele ganha o papel principal num filme iraniano pois todos sabemos que os diretores iranianos são famosos por trabalharem com não atores. O filme, Djomeh, é selecionado para o Festival de Cannes de 2000 e vence o prêmio Caméra D’Or, abrindo novos horizontes para o rapaz. Toda a história que se segue acompanha as dificuldades reais de Jalil em sair do Irã e viver na Alemanha como um refugiado mesmo tendo recebido importantes prêmios em vários festivais europeus. A história da solidão dele no Irã, longe da família, é praticamente a cópia da solidão do seu personagem no cinema e depois a sua solidão como refugiado em Hamburgo. Para mim, um dos melhores filmes da Mostra.


DANCING ARABS – Esse filme israelense levou várias pessoas do cinema em que eu estava às lágrimas. É de uma delicadeza impressionante. Dirigido por Eran Rikilis, o mesmo dos ótimos Noiva Síria e Lemon Tree mostra Israel nos anos 90 e a história do menino Eyad, um palestino-israelense que é aceito numa prestigiosa escola judaica em Jerusalém. Ele é extremamente inteligente e por isso conquista a bolsa de estudos, mas logo enfrenta problemas com a língua, a cultura e a religiosidade. Ao tentar encontrar o seu próprio caminho em meio aos conflitos entre Israel e árabes, ele se torna amigo de um menino judeu com distrofia muscular e se apaixona por uma garota judia. Ele percebe que para ser aceito como um igual, dissipar os preconceitos, poder trabalhar e amar, terá que fazer sacrifícios pessoais. O diretor trata todos esses dilemas e as decisões difíceis de Eyad quase com amor. Prepare o lenço. Do meu lado no cinema um casal chorava muito e quando fui reparar era o homem quem chorava enquanto a mulher o abraçava dando apoio. Achei linda a cena. Uma lição para a convivência de culturas aparentemente inconciliáveis.

RELATOS SELVAGENS- Uma preciosidade produzido por Pedro Almodóvar com participação do ator Ricardo Darin. Seis histórias de humor negro em torno da vingança. Diante de uma realidade cruel e imprevisível, os personagens caminham sobre a linha tênue que separa a civilização da barbárie. Uma traição amorosa, o retorno do passado, uma tragédia ou mesmo a violência de um pequeno detalhe cotidiano são capazes de empurrar estes personagens ao inegável prazer de perder o controle.

NOTA 9

WINTER SLEEP – Um filme que tem mais de três horas de duração mas com diálogos tão inteligentes e ricos que em momento algum chega a cansar. Já vi filmes de meia hora que me fizeram dormir de tédio e este aqui não me fez piscar o olho. Uma produção da Turquia, Alemanha, França conta a história de um homem que administra um pequeno hotel na Anatólia com sua esposa bem mais jovem com quem tem uma relação turbulenta, e com sua irmã que ainda sofre com o recente divórcio. No inverno, com a neve cobrindo pouco a pouco a paisagem da estepe, o hotel torna-se um refúgio, mas também o teatro dos seus conflitos. Muitos conflitos e muitos questionamentos sobre ética e valores. Foi o ganhador da Palma de Ouro e do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes.

A ILHA DOS MILHARAIS- Uma pequena joia co-produzida pela Geórgia, Alemanha, França, Casaquistão e Hungria – Uma história aparentemente simples: o rio Enguri forma a fronteira entre Geórgia e a República separatista da Abecásia com permanente tensão entre as duas nações. Toda primavera, o rio cria pequenas ilhas férteis, terras de ninguém. Um velho agricultor constrói uma cabana para ele e sua neta adolescente numa dessas ilhas. Juntos eles plantam milho, mas assim como sua neta adolescente se transforma em uma mulher e assim como o milho amadurece, o velho agricultor se depara com o inescapável ciclo da vida.

NOTA 8

MATEO- Filme colombiano conta a história de um garoto de 16 anos que trabalha para seu tio criminoso e usa o dinheiro para ajudar a mãe, que aceita o dinheiro contra a vontade e por necessidade. Eles vivem numa região pobre e violenta na Colômbia. Para provar seu valor, Mateo se infiltra num grupo de teatro local e investigar suas atividades políticas. Ao mesmo tempo em que se sente fascinado com a liberdade de seus novos colegas, ele deve fazer escolhas difíceis e enfrentar os perigos de questionar a organização do conflito armado na Colômbia.


A GANGUE – Filme Ucraniano extremamente corajoso por usar surdos mudos, linguagem de sinais e não se utilizar de legenda ou narração alguma. Conta a história de um jovem surdo-mudo que começa a estudar num internato especializado que abriga secretamente uma rede de crime e prostituição onde ele é forçado a aceitar as duras regras da gangue e participa de vários assaltos, o que lhe garante o respeito dos colegas. Tudo se complica quando ele se apaixona pela prostituta que é uma das amantes do líder da gangue. Extremamente violento com uma cena fortíssima de aborto. Vencedor do Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes.

NOTA 7

O CÍRCULO – Filme suíço meio documentário sobre a primeira revista gay fundada nos anos 40 que foi responsável pela única organização gay a sobreviver ao regime nazista. Ela floresceu durante os anos do pós-guerra num clube underground de renome internacional. Seus lendários bailes de máscaras em Zurique eram um espaço secreto e seguro para lidar naturalmente com a homossexualidade. É lá que o tímido professor Ernst se apaixona pela drag queen Röbi. Eles foram o primeiro casal gay a se casar na Suiça quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi autorizado.

LEVIATÃ- Filme que trata dos conflitos em uma pequena cidade no norte da Rússia. O prefeito da cidade (uma figura que lembra o presidente Putin) pretende se apropriar de um terreno e tenta subornar em vão seu proprietário Kolia. As relações descambam para uma violência institucional que leva toda a história para um final kafkiano. Vencedor de melhor roteiro no Festival de Cannes.




NOTA 6 

CASA GRANDE- O filme brasileiro que mostra questões de classe e privilégio através da história de um adolescente rico que luta para escapar da superproteção dos pais, secretamente falidos. Enquanto a família entra em decadência, os empregados enfrentam as demissões. O filme é bonito pela honestidade em mostrar a busca da descoberta da sexualidade e a importância disso em meio aos demais conflitos.




POR UM PUNHADO DE BEIJOS- Um filme bonitinho da Venezuela sobre um casal jovem e sensual: Sol e Dani. Ela quer viver a vida ao máximo e que o amor era mais uma necessidade, o que a levou a procurar uma alma gêmea com quem poderia passar o maior tempo possível. Porém, Dani guarda um segredo que pode destruir seus sonhos. Clássico tema garoto encontra garota etc mas aqui esse segredo é um gancho muito bem bolado que nunca vi em filmes anteriores e que dá uma volta na ideia do preconceito.


10 MIL NOITES EM LUGAR NENHUM – Filme espanhol sobre um filho que tem medo de tudo e que, oprimido por sua vida entediante, decide fugir. Ele começa então uma jornada para lugar nenhum, vivendo outras vidas. E descobre que, se um dia você decide não crescer, não é algo tão ruim assim. Você apenas tem que aprender a voar, a voar para bem longe. Uma história sobre tomar decisões importantes; e sobre como cada vez que fazemos uma escolha, em algum lugar dentro de nós fazemos exatamente o oposto


NOTA 5

HERÓIS IMPROVÁVEIS- Bonito filme suíço que conta a história de Sabine cujos filhos saíram de férias, o marido a abandonou e as coisas não vão bem no trabalho nem com as amigas. Durante o Natal, ela se torna voluntária num campo de refugiados e decide preparar uma peça de teatro com os moradores do local a tempo para o Ano Novo. Enquanto ela se concentra em dirigir o grupo, eles precisam lidar com outros problemas, como arranjar um jeito de ficar no país, o amor, a família e, é claro, a língua alemã. Um grande achado a ideia dos refugiados de escolher a peça Guilherme Tell, herói nacional suíço que lutou pela liberdade, algo que os refugiados buscam na Suiça. O final poderia ser mais bem resolvido.

FUGA DA REALIDADE – Filme alemão que mostra a história de um garoto cujo pai é esquizofrênico. Ele tem medo de ter herdado a mesma doença do pai ao tempo em que se apaixona por uma bela e divertida jovem. Ele vive um conflito entre escolher ajudar a família ou aceitar a saída de casa para conseguir crescer. Ao descobre que não pode mudar a vida de ninguém, a não ser a própria o filme tem um final bonito mas talvez um pouco óbvio.



CHRIEG-EM GUERRA- Outro filme da Suiça sobre a dificuldade das famílias em lidar com filhos rebeldes. Esta é a história de Matteo, de  15 anos cujos pais, decidem à força interna-lo num hotel fazenda com trabalhos braçais para passar o verão mas o local é uma armadilha que vai levar Matteo a um tipo de inferno pessoal que mudará completamente sua vida, sua mente, levando-o a um conflito interno sem limites. Um filme bem niilista e desencantado mas com uma mensagem muito forte.

A PEQUENA CASA- Filme japonês bonito mas talvez um tanto acadêmico, com excelentes atuações e boa direção de arte. Após a morte de uma velha senhora solteira e sem filhos, um sobrinho descobre seu diário e a verdade sobre a juventude dela trabalhando como empregada doméstica e babá. O filme alterna uma narrativa no presente, outra no passado e ainda uma terceira intermediária. Uma boa direção e foi o vencedor do Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim.


DETETIVE D: O DRAGÃO DO MAR – Filme na linha de lutas como O Tigre e o Dragão e o Clã das Adagas Voadoras. O filme é uma sequência de Detetive D e o Império Celestial. A história de um detetive japonês que investiga relatos de um monstro do mar aterrorizando a cidade, revela uma sinistra conspiração traiçoeira, que chega até os cargos mais altos da Família Imperial. Bela fotografia e direção de arte. 

OS FENÔMENOS – Neneta vive sem responsabilidades ou planos num trailer na Espanha. Quando seu parceiro desaparece sem explicação, ela decide voltar para a sua terra natal. Com grandes dificuldades em achar um trabalho, até que consegue uma oferta para trabalhar como operária numa construção. Seu grupo é logo conhecido como “Os Fenômenos”, os construtores mais rápidos da região. Quando Lobo volta, Neneta tem que decidir se foge com ele ou se fica com sua nova vida.



QUEEN AND COUNTRY- Filme bonitinho de época na Inglaterra. Sequência de Esperança e Glória, de 1987. Bill Rohan agora é um feliz jovem de 18 anos que tem os sonhos interrompidos pela Guerra da Coreia. No campo militar, ele conhece Percy, que se torna um bom amigo. Os dois logo viram instrutores e conspiram contra um sargento desagradável. Enquanto explora o mundo longe de casa, Bill se apaixona por uma jovem indomável. Um final meloso e súbito.



AS NOITES BRANCAS DO CARTEIRO – Filme Russo ganhador do prêmio de melhor direção no Festival de Veneza. Num vilarejo distante de tudo, a única maneira de alcançar o continente por um lago de barco. O lugar é uma comunidade fechada, onde as pessoas vivem do passado. Um carteiro se torna a única ligação com o mundo exterior. O filme usa apenas os próprios habitantes do local que fazem seus próprios papéis. Destaque para o único garoto do grupo, um menino extremamente carismático.

ESTRELA CADENTE – Filme espanhol que é difícil classificar. Com nudez explícita e cenas ousadas de masturbação. Do nada, os personagens deixam a interpretação realista para começar a cantar canções modernas. Um olhar quase alucinatório pelo mundo de Amadeu de Saboia, rei da Espanha de 1870 até 1873, uma época ingovernável no país. Este episódio intrigante da história é transformado numa elegia à beleza, à criatividade e à alegria.

NOTA 4

ADORÁVEL LOUISE – História de um homem de cinquenta e poucos anos que mora com a mãe de 80 anos chamada Louise, uma ex-atriz. Ele leva uma vida boa e pacata - é motorista de táxi e se dedica ao hobby de pilotar aviões. Tem dificuldade em se aproximar de uma mulher atraente e mais jovem que vende salsichas no aeródromo. Um dia, um homem estranho bate à sua porta e vira sua vida tranquila de cabeça para baixo. Um final bonito mas um pouco forçado.



PAIXÃO MÓRBIDA- Filme meio noir do Japão dirigido por Noboru Nakamura, homenageado na Mostra . Yoshie é uma garota de 19 anos que trabalha numa fábrica, mas sonha com uma vida diferente. No bar onde trabalha de noite, ela conhece um membro da Yakuza. Eles começam um relacionamento. Mas o amante se mostrar um sujeito violento. Ele tem dívidas de jogo e começa a pressionar Yoshie para que ela se torne uma prostituta. Yoshie se vê então presa numa espiral de brutalidade e humilhação. Final corajoso. Fatal!

GIRAFFADA- Uma co-produção da França e Palestina - Ziad, um menino de dez anos da Cisjordânia, fascinado por duas girafas do zoológico. Ele gosta de ajudar seu pai veterinário viúvo e trabalha duro para proteger o zoológico como um refúgio para as crianças locais. Quando uma das amadas girafas de Ziad sofre as consequências de um ataque aéreo, Yacine faz de tudo para conseguir trazer outra girafa de Israel. Inspirado numa história real mas que na minha opinião pecou pelo maniqueísmo mostrando os israelenses como vilões. Se bem que eles não são exatamente mocinhos.

ACIMA DAS NUVENS- Filme elogiadíssimo e concorrido dirigido pelo aclamado Olivier Assayas com Juliette Binoche e Kristen Stewart. No auge da carreira, a personagem de Binoche é convidada para atuar numa remontagem da peça que a tornou famosa há 20 anos. Naquela primeira versão, ela atuou no papel de uma jovem sedutora que leva sua chefe apaixonada por ela ao suicídio. Agora ela é convidada para o outro papel para contracenar com uma jovem estrela em ascensão em Hollywood com uma inclinação para polêmicas. Não achei toda essa coca cola e me pareceu um final forçado.

NOTA 3 

INSEGURO – Filme francês sobre um imigrante do Oriente Médio que almeja ser enfermeiro, mas fracassa em testes anteriores. Além de estudar, ele trabalha como segurança de uma loja de eletrônicos, mas é importunado permanentemente por jovens delinquentes barra-pesada o que ameaça fazer ele perder o emprego. Ele bola um plano para se livrar dos garotos, mas no curso da noite sua vida toma um rumo inesperado. Não gostei do final muito aberto e súbito demais.

PROFECIA - A AFRICA DE PASOLINI- Um documentário-ensaio de apenas 77 minutos que reúne as ideias e previsões políticas do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini. Citando a influência da cultura do continente nos subúrbios ao redor de Roma, suas ideias ainda são relevantes para Europa de hoje, uma vez que Pasolini acreditava que os dois continentes iam ser cada vez mais unidos. Pasolini era um poeta, ativista político da esquerda italiana, homossexual assumido e libertário e autor de clássicos do cinema italiano e mundial Apesar de eu adorar o diretor o documentário não me acrescentou nada de novo. 


NOTA 2


UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA – Terceira parte de uma trilogia do diretor Roy Anderson mas apesar de todas as sessões estarem lotadas achei o filme um Monty Python fraco. Dois homens cansados da vida estão numa viagem de negócios, vendendo artefatos engraçados que mostram uma percepção sobre o mundo caótico do presente, o passado e o futuro – um mundo de sonhos e fantasias. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza.


AS BRUXAS DE ZUGARRAMURDI- o diretor espanhol Alex de la Iglesia gosta de histórias absurdas e aqui ele até que se sai bem na primeira parte do filme mas do meio para o fim desanda com excesso de clímaxes. A história de José, pai solteiro com dificuldades financeiras após seu divórcio, planeja roubar uma loja junto com um grupo de ladrões. Eles fogem de Madri, chegando na estranha cidade de Zugarramurdi onde enfrentam uma irmandade de bruxas Vencedor de oito Prêmios Goya. Participação estranha da estrela espanhola Carmem Maura.


O RETORNO DE ANTÍGONA – Filme grego bem fraco. Depois de muitos anos de ausência, Antígona retorna a uma pacata cidade na Grécia onde reencontra velhos amigos, arranja um emprego e num namorado. Mas a sua busca por tranquilidade acaba se tornando uma tarefa complicada. A cidade está vivendo uma onda de violência e parece reinar uma regra de cumplicidade entre vítimas e perpetradores. Na chance que Antígona tem para mudar seu destino, será que ela vai assistir a tudo calada?


JAMIE MARKS NÃO ESTÁ MORTO – Um filme americano com a enganadora participação da atriz Liv Tyler num papel ridículo. Em uma cidade pequena e fria, o corpo do adolescente Jamie Marks é encontrado perto do rio. Um jovem atleta, Adam, desenvolve uma obsessão por Jamie, garoto que era vítima de bullying. Quando o fantasma de Jamie começa a visitar Adam ele fica preso entre dois mundos. Ele sente uma ligação profunda com Jamie, que lhe o aproxima do mundo dos mortos. Há uma certa insinuação gay mas é um filme mal aproveitado.

NOTA 1


PEQUENAS ATRAÇÕES – Filme polonês que merecia render mais. A história de duas moças que dividem um apartamento, um carro e fazem faxinas nas casas de recém-falecidos e vendem o que encontram de valor. Peter trabalha em uma fábrica enroscando tampas em jarras, e lida com o divórcio recente e a mãe instável. Quando ele se junta às garotas no negócio, ele logo se sente atraído por Asia, mas isso causa problemas na nova amizade entre os três, já que Kasia também está apaixonada. Dormi metade do filme.


O PEQUENO QUINQUIM Filme francês na minha opinião chatíssimo como costumam ser essa comédias francesas sem timming. Um capitão de polícia cheio de tiques que chegam a irritar o expectador e seu parceiro investigam a descoberta de uma vaca morta preenchida com restos humanos. Enquanto buscam respostas, eles são seguidos pelo pequeno Quinquin, um menino que cria confusão por onde passa. Originalmente exibida como uma minissérie da TV francesa. Li que lembrava Twin Peaks. Só se for na Conchichina.


O MEDO – Filme espanhol muito tenso sobre um casal de adolescentes que vivem sob o jugo de um pai opressor que espanca a mãe. O silencio petrificante expressa muito mais do que qualquer palavra explicando o medo que o pai lhes causa. O filme é opressivo e consegue manter a tensão até o fim. Sente-se que nada daquilo vai acabar bem. O final é como um soco no estômago.



OPIUM- Apesar de ser muito aplaudido no final pela plateia, certamente formada de artistas, é um  musical situado no começo dos anos 20, mostrando os dias em que Jean Coteau era um poeta que desfrutava da vida noturna em cabarés de Paris. Ele se apaixona profundamente por Raymond Radiguet, o jovem escritor de “O Diabo no Corpo”. Quando Radiguet morre, Cocteau se afunda no vício, descobrindo que amor e ópio são as drogas mais poderosas. As músicas do filme usam os poemas de Cocteau. Imagens surrealistas e psicodélicas demais.


JIA ZHANGKE- UM HOMEM DE FENYANG – Documentário de Walter Salles - Um retrato afetivo do jovem realizador chinês que, para muitos, se tornou um dos mais importantes cineastas de nosso tempo. Para este documentário, Jia Zhangke volta aos locais de rodagem de seus filmes, junto com seus atores e colaboradores mais próximos e relembra as fontes de inspiração de filmes. Posso estar cometendo um sacrilégio mas ainda não vi um único filme deste diretor que não fosse um porre.


MAUS HÁBITOS- Um dos primeiro filmes de Almodóvar, um dos poucos que eu ainda não tinha visto. História de uma cantora que foge da polícia após seu namorado morrer de uma overdose e busca refúgio num convento para mulheres desamparadas. Lá, se torna amiga de várias freiras incomuns: uma autora de romances baratos que escreve usando um pseudônimo, uma cozinheira masoquista e uma defensora de animais que cria um tigre. Com as estrelas Marisa Paredes, Carmem Maura e Cecília Roth. Roteiro muito fraco apesar das boas ideias que mereciam tratamento mais cuidadoso


CICLO – Filme turco. Feramus é um professor de filosofia que retorna à sua terra natal para vender terras da família após a morte de seu pai. Ele acaba se perdendo em meio à burocracia e as autoridades locais. Betül é a diretora do teatro local, que tem que parar de trabalhar por causa da nova realidade política da Turquia. Uma sátira ácida da vida moderna, que também envolve o moderno mas nunca usado aeroporto da cidade. O final é bonito e de certo modo redime o filme arrastado demais.

NOTA 0


ADEUS À LUA- Filme holandês pretensioso e fraco do qual sai na metade No verão de 1972, um garoto tem duas obsessões: a missão da Nasa para a lua e espiar sua vizinha Mary, uma linda modelo viciada em Valium. Quando o pai dele conhece uma artista que está morando ao lado começa sair com ela e logo decide morar com a moça. Enquanto a mãe do garoto coloca os filhos contra o pai, o garoto começa a contar com Mary como sua maior companhia. 



A NOITE ACALMOU- Filme americano, o segundo que deixei no meio sobre um garoto de 13 anos que não vê a hora de entrar no mundo de sexo, drogas e álcool de Nova York. Um dia, ele fica traumatizado com o derrame de Aida, sua empregada chilena de 65 anos. Com sua verdadeira figura materna ausente, o que deveria ser um rito de passagem alegre logo se torna um grande pesadelo.




VENTOS DE AGOSTO - Outro filme, desta vez um brasileiro que abandonei no meio. Apesar de ter ganho a menção Honrosa no Festival de Locarno para mim não passavam de imagens bonitas sem roteiro ou história. Até onde vi a história de uma moça que trabalha numa plantação de coco e tem um caso com um rapaz que trabalha na fazenda e faz pesca subaquática de lagosta e polvo. Não vi nada que prestasse.