9.11.14

AHHH!!!! FÉRIAS

Acabaram.

Um ano na expectativa das férias e agora, de volta ao batente, previsível que sou, ao cabo de cada outubro tenho um só assunto: a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Mas o que fazer se todos os anos, no balanço do melhor que fiz nos 365 dias passados, a maratona de filmes na Mostra ocupa sempre os primeiros lugares?

Dessa vez foi especial, pois finalmente consegui comprar o passaporte que dá direito a 40 filmes. Esses passaportes acabam no primeiro dia de venda e os jornais  mostraram a fila de cinéfilos que se formou a partir das 6h da manhã na frente da Central da Mostra com centenas de pessoas dispostas a comprar os tais passaportes (limitados) que dão direito a assistir 20, 40 ou quantos filmes a pessoa quiser, pagando valores mais baixos do que pagaria na bilheteria.
       
A 38ª Mostra de São Paulo é a minha 12ª consecutiva e este ano homenageou Pedro Almodóvar com a exibição de quase todos os seus filmes. Em 15 dias foram apresentados 331 filmes entre documentários, ficções, curtas e animações, a maioria inéditos, em 34 cinemas, auditórios e anfiteatros espalhados por toda capital, além do vão livre do MASP e o Parque do Ibirapuera. Em muitos lugares o acesso é grátis. Tive o privilégio, este ano de ter uma foto minha publicada no Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, em uma coluna sobre os Humanos na Mostra que a cada dia escolhia um cinéfilo para contar sua história.

Com o passaporte para 40 filmes garantido não precisei enfrentar filas, o que é um adianto, além de ter a chance de pegar os ingressos com dias de antecedência, escapando do risco de salas lotadas. Outra tranquilidade é aproveitar filmes de salas mais distantes do centro sem medo de encontrar lotação esgotada e perder a viagem.

Entre os grandes baratos da Mostra estão os filmes de países longínquos como Geórgia, Macedônia, Azerbaijão entre outros que fatalmente nunca passarão do Brasil sendo essa a única chance de assistir a eles. Mesmo filmes espetaculares de países como Espanha, Equador, China e Venezuela, que vi há anos, jamais passaram em Salvador.

Sempre comento sobre a fauna da Mostra, sobre os tipos humanos curiosos que todo ano vejo. Cada um renderia uma reportagem, de tão exóticos, ricos em experiências ou de comportamentos extravagantes. O ano passado escrevi sobre o velhinho que a cada ano fica mais decrépito e que frequenta a Mostra deste a primeira edição. Este ano achei que ele não tinha resistido à velhice e morrido, até que senti um fortíssimo cheiro de urina na sala do SESC e logo imaginei que ele estava por ali. Há algum tempo ele sofre de incontinência urinária mas sabe quais os melhores filmes. O fato de uma sala da Mostra cheirar a urina significam duas coisas: Sérgio está lá e o filme será bom.

Emagreci alguns quilos, pois durante essas semanas conto nos dedos os dias em que não pulei o almoço ou o jantar, me conformando com sanduiches, cafés e pães de queijo. Para ver o maior número de filmes, comer corretamente se torna um luxo a que o cinéfilo da Mostra não pode se dar. Nessas horas a mochila, velha companheira, abrigava catálogo e guia da mostra, celular (desligado), barras de cereais, tabletes de chocolate e tudo que pudesse ser mastigado com praticidade. Há os que levam garrafonas de água ou frutas. Tem um cara que come pencas de banana. Tem de tudo.

Bem, acabaram sendo 41 filmes se eu contar os três insuportáveis que larguei na metade. Entre as 17 diferentes premiações, dos filmes que vi destaco os que conquistaram:
Prêmio do Público de melhor ficção internacional RELATOS SELVAGENS.
Prêmio da Crítica de melhor filme: LEVIATÃ.
Menção Honrosa da Crítica: A ILHA DOS MILHARAIS.
Menção Honrosa da Crítica: O PEQUENO QUINQUIN.
Prêmio ABRACCINE:  CASA GRANDE.
Prêmio Associação Autores de Cinema de Melhor Roteiro: A GANGUE

Segue abaixo minha seleção pessoal na ordem dos melhores para os piores.

NOTA 10

O PRÍNCIPE – Filme iraniano que na minha opinião é uma perfeita tradução da capacidade do cinema de transformar a vida de uma pessoa. Trata-se de um docudrama quase metalinguístico que conta a história de Jalil Nazari,  em 1997, então um garoto de 17 anos que deixa o Afeganistão controlado pelo Talibã e busca refúgio no Irã, onde sobrevive de pequenos trabalhos. Um dia ele ganha o papel principal num filme iraniano pois todos sabemos que os diretores iranianos são famosos por trabalharem com não atores. O filme, Djomeh, é selecionado para o Festival de Cannes de 2000 e vence o prêmio Caméra D’Or, abrindo novos horizontes para o rapaz. Toda a história que se segue acompanha as dificuldades reais de Jalil em sair do Irã e viver na Alemanha como um refugiado mesmo tendo recebido importantes prêmios em vários festivais europeus. A história da solidão dele no Irã, longe da família, é praticamente a cópia da solidão do seu personagem no cinema e depois a sua solidão como refugiado em Hamburgo. Para mim, um dos melhores filmes da Mostra.


DANCING ARABS – Esse filme israelense levou várias pessoas do cinema em que eu estava às lágrimas. É de uma delicadeza impressionante. Dirigido por Eran Rikilis, o mesmo dos ótimos Noiva Síria e Lemon Tree mostra Israel nos anos 90 e a história do menino Eyad, um palestino-israelense que é aceito numa prestigiosa escola judaica em Jerusalém. Ele é extremamente inteligente e por isso conquista a bolsa de estudos, mas logo enfrenta problemas com a língua, a cultura e a religiosidade. Ao tentar encontrar o seu próprio caminho em meio aos conflitos entre Israel e árabes, ele se torna amigo de um menino judeu com distrofia muscular e se apaixona por uma garota judia. Ele percebe que para ser aceito como um igual, dissipar os preconceitos, poder trabalhar e amar, terá que fazer sacrifícios pessoais. O diretor trata todos esses dilemas e as decisões difíceis de Eyad quase com amor. Prepare o lenço. Do meu lado no cinema um casal chorava muito e quando fui reparar era o homem quem chorava enquanto a mulher o abraçava dando apoio. Achei linda a cena. Uma lição para a convivência de culturas aparentemente inconciliáveis.

RELATOS SELVAGENS- Uma preciosidade produzido por Pedro Almodóvar com participação do ator Ricardo Darin. Seis histórias de humor negro em torno da vingança. Diante de uma realidade cruel e imprevisível, os personagens caminham sobre a linha tênue que separa a civilização da barbárie. Uma traição amorosa, o retorno do passado, uma tragédia ou mesmo a violência de um pequeno detalhe cotidiano são capazes de empurrar estes personagens ao inegável prazer de perder o controle.

NOTA 9

WINTER SLEEP – Um filme que tem mais de três horas de duração mas com diálogos tão inteligentes e ricos que em momento algum chega a cansar. Já vi filmes de meia hora que me fizeram dormir de tédio e este aqui não me fez piscar o olho. Uma produção da Turquia, Alemanha, França conta a história de um homem que administra um pequeno hotel na Anatólia com sua esposa bem mais jovem com quem tem uma relação turbulenta, e com sua irmã que ainda sofre com o recente divórcio. No inverno, com a neve cobrindo pouco a pouco a paisagem da estepe, o hotel torna-se um refúgio, mas também o teatro dos seus conflitos. Muitos conflitos e muitos questionamentos sobre ética e valores. Foi o ganhador da Palma de Ouro e do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes.

A ILHA DOS MILHARAIS- Uma pequena joia co-produzida pela Geórgia, Alemanha, França, Casaquistão e Hungria – Uma história aparentemente simples: o rio Enguri forma a fronteira entre Geórgia e a República separatista da Abecásia com permanente tensão entre as duas nações. Toda primavera, o rio cria pequenas ilhas férteis, terras de ninguém. Um velho agricultor constrói uma cabana para ele e sua neta adolescente numa dessas ilhas. Juntos eles plantam milho, mas assim como sua neta adolescente se transforma em uma mulher e assim como o milho amadurece, o velho agricultor se depara com o inescapável ciclo da vida.

NOTA 8

MATEO- Filme colombiano conta a história de um garoto de 16 anos que trabalha para seu tio criminoso e usa o dinheiro para ajudar a mãe, que aceita o dinheiro contra a vontade e por necessidade. Eles vivem numa região pobre e violenta na Colômbia. Para provar seu valor, Mateo se infiltra num grupo de teatro local e investigar suas atividades políticas. Ao mesmo tempo em que se sente fascinado com a liberdade de seus novos colegas, ele deve fazer escolhas difíceis e enfrentar os perigos de questionar a organização do conflito armado na Colômbia.


A GANGUE – Filme Ucraniano extremamente corajoso por usar surdos mudos, linguagem de sinais e não se utilizar de legenda ou narração alguma. Conta a história de um jovem surdo-mudo que começa a estudar num internato especializado que abriga secretamente uma rede de crime e prostituição onde ele é forçado a aceitar as duras regras da gangue e participa de vários assaltos, o que lhe garante o respeito dos colegas. Tudo se complica quando ele se apaixona pela prostituta que é uma das amantes do líder da gangue. Extremamente violento com uma cena fortíssima de aborto. Vencedor do Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes.

NOTA 7

O CÍRCULO – Filme suíço meio documentário sobre a primeira revista gay fundada nos anos 40 que foi responsável pela única organização gay a sobreviver ao regime nazista. Ela floresceu durante os anos do pós-guerra num clube underground de renome internacional. Seus lendários bailes de máscaras em Zurique eram um espaço secreto e seguro para lidar naturalmente com a homossexualidade. É lá que o tímido professor Ernst se apaixona pela drag queen Röbi. Eles foram o primeiro casal gay a se casar na Suiça quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi autorizado.

LEVIATÃ- Filme que trata dos conflitos em uma pequena cidade no norte da Rússia. O prefeito da cidade (uma figura que lembra o presidente Putin) pretende se apropriar de um terreno e tenta subornar em vão seu proprietário Kolia. As relações descambam para uma violência institucional que leva toda a história para um final kafkiano. Vencedor de melhor roteiro no Festival de Cannes.




NOTA 6 

CASA GRANDE- O filme brasileiro que mostra questões de classe e privilégio através da história de um adolescente rico que luta para escapar da superproteção dos pais, secretamente falidos. Enquanto a família entra em decadência, os empregados enfrentam as demissões. O filme é bonito pela honestidade em mostrar a busca da descoberta da sexualidade e a importância disso em meio aos demais conflitos.




POR UM PUNHADO DE BEIJOS- Um filme bonitinho da Venezuela sobre um casal jovem e sensual: Sol e Dani. Ela quer viver a vida ao máximo e que o amor era mais uma necessidade, o que a levou a procurar uma alma gêmea com quem poderia passar o maior tempo possível. Porém, Dani guarda um segredo que pode destruir seus sonhos. Clássico tema garoto encontra garota etc mas aqui esse segredo é um gancho muito bem bolado que nunca vi em filmes anteriores e que dá uma volta na ideia do preconceito.


10 MIL NOITES EM LUGAR NENHUM – Filme espanhol sobre um filho que tem medo de tudo e que, oprimido por sua vida entediante, decide fugir. Ele começa então uma jornada para lugar nenhum, vivendo outras vidas. E descobre que, se um dia você decide não crescer, não é algo tão ruim assim. Você apenas tem que aprender a voar, a voar para bem longe. Uma história sobre tomar decisões importantes; e sobre como cada vez que fazemos uma escolha, em algum lugar dentro de nós fazemos exatamente o oposto


NOTA 5

HERÓIS IMPROVÁVEIS- Bonito filme suíço que conta a história de Sabine cujos filhos saíram de férias, o marido a abandonou e as coisas não vão bem no trabalho nem com as amigas. Durante o Natal, ela se torna voluntária num campo de refugiados e decide preparar uma peça de teatro com os moradores do local a tempo para o Ano Novo. Enquanto ela se concentra em dirigir o grupo, eles precisam lidar com outros problemas, como arranjar um jeito de ficar no país, o amor, a família e, é claro, a língua alemã. Um grande achado a ideia dos refugiados de escolher a peça Guilherme Tell, herói nacional suíço que lutou pela liberdade, algo que os refugiados buscam na Suiça. O final poderia ser mais bem resolvido.

FUGA DA REALIDADE – Filme alemão que mostra a história de um garoto cujo pai é esquizofrênico. Ele tem medo de ter herdado a mesma doença do pai ao tempo em que se apaixona por uma bela e divertida jovem. Ele vive um conflito entre escolher ajudar a família ou aceitar a saída de casa para conseguir crescer. Ao descobre que não pode mudar a vida de ninguém, a não ser a própria o filme tem um final bonito mas talvez um pouco óbvio.



CHRIEG-EM GUERRA- Outro filme da Suiça sobre a dificuldade das famílias em lidar com filhos rebeldes. Esta é a história de Matteo, de  15 anos cujos pais, decidem à força interna-lo num hotel fazenda com trabalhos braçais para passar o verão mas o local é uma armadilha que vai levar Matteo a um tipo de inferno pessoal que mudará completamente sua vida, sua mente, levando-o a um conflito interno sem limites. Um filme bem niilista e desencantado mas com uma mensagem muito forte.

A PEQUENA CASA- Filme japonês bonito mas talvez um tanto acadêmico, com excelentes atuações e boa direção de arte. Após a morte de uma velha senhora solteira e sem filhos, um sobrinho descobre seu diário e a verdade sobre a juventude dela trabalhando como empregada doméstica e babá. O filme alterna uma narrativa no presente, outra no passado e ainda uma terceira intermediária. Uma boa direção e foi o vencedor do Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim.


DETETIVE D: O DRAGÃO DO MAR – Filme na linha de lutas como O Tigre e o Dragão e o Clã das Adagas Voadoras. O filme é uma sequência de Detetive D e o Império Celestial. A história de um detetive japonês que investiga relatos de um monstro do mar aterrorizando a cidade, revela uma sinistra conspiração traiçoeira, que chega até os cargos mais altos da Família Imperial. Bela fotografia e direção de arte. 

OS FENÔMENOS – Neneta vive sem responsabilidades ou planos num trailer na Espanha. Quando seu parceiro desaparece sem explicação, ela decide voltar para a sua terra natal. Com grandes dificuldades em achar um trabalho, até que consegue uma oferta para trabalhar como operária numa construção. Seu grupo é logo conhecido como “Os Fenômenos”, os construtores mais rápidos da região. Quando Lobo volta, Neneta tem que decidir se foge com ele ou se fica com sua nova vida.



QUEEN AND COUNTRY- Filme bonitinho de época na Inglaterra. Sequência de Esperança e Glória, de 1987. Bill Rohan agora é um feliz jovem de 18 anos que tem os sonhos interrompidos pela Guerra da Coreia. No campo militar, ele conhece Percy, que se torna um bom amigo. Os dois logo viram instrutores e conspiram contra um sargento desagradável. Enquanto explora o mundo longe de casa, Bill se apaixona por uma jovem indomável. Um final meloso e súbito.



AS NOITES BRANCAS DO CARTEIRO – Filme Russo ganhador do prêmio de melhor direção no Festival de Veneza. Num vilarejo distante de tudo, a única maneira de alcançar o continente por um lago de barco. O lugar é uma comunidade fechada, onde as pessoas vivem do passado. Um carteiro se torna a única ligação com o mundo exterior. O filme usa apenas os próprios habitantes do local que fazem seus próprios papéis. Destaque para o único garoto do grupo, um menino extremamente carismático.

ESTRELA CADENTE – Filme espanhol que é difícil classificar. Com nudez explícita e cenas ousadas de masturbação. Do nada, os personagens deixam a interpretação realista para começar a cantar canções modernas. Um olhar quase alucinatório pelo mundo de Amadeu de Saboia, rei da Espanha de 1870 até 1873, uma época ingovernável no país. Este episódio intrigante da história é transformado numa elegia à beleza, à criatividade e à alegria.

NOTA 4

ADORÁVEL LOUISE – História de um homem de cinquenta e poucos anos que mora com a mãe de 80 anos chamada Louise, uma ex-atriz. Ele leva uma vida boa e pacata - é motorista de táxi e se dedica ao hobby de pilotar aviões. Tem dificuldade em se aproximar de uma mulher atraente e mais jovem que vende salsichas no aeródromo. Um dia, um homem estranho bate à sua porta e vira sua vida tranquila de cabeça para baixo. Um final bonito mas um pouco forçado.



PAIXÃO MÓRBIDA- Filme meio noir do Japão dirigido por Noboru Nakamura, homenageado na Mostra . Yoshie é uma garota de 19 anos que trabalha numa fábrica, mas sonha com uma vida diferente. No bar onde trabalha de noite, ela conhece um membro da Yakuza. Eles começam um relacionamento. Mas o amante se mostrar um sujeito violento. Ele tem dívidas de jogo e começa a pressionar Yoshie para que ela se torne uma prostituta. Yoshie se vê então presa numa espiral de brutalidade e humilhação. Final corajoso. Fatal!

GIRAFFADA- Uma co-produção da França e Palestina - Ziad, um menino de dez anos da Cisjordânia, fascinado por duas girafas do zoológico. Ele gosta de ajudar seu pai veterinário viúvo e trabalha duro para proteger o zoológico como um refúgio para as crianças locais. Quando uma das amadas girafas de Ziad sofre as consequências de um ataque aéreo, Yacine faz de tudo para conseguir trazer outra girafa de Israel. Inspirado numa história real mas que na minha opinião pecou pelo maniqueísmo mostrando os israelenses como vilões. Se bem que eles não são exatamente mocinhos.

ACIMA DAS NUVENS- Filme elogiadíssimo e concorrido dirigido pelo aclamado Olivier Assayas com Juliette Binoche e Kristen Stewart. No auge da carreira, a personagem de Binoche é convidada para atuar numa remontagem da peça que a tornou famosa há 20 anos. Naquela primeira versão, ela atuou no papel de uma jovem sedutora que leva sua chefe apaixonada por ela ao suicídio. Agora ela é convidada para o outro papel para contracenar com uma jovem estrela em ascensão em Hollywood com uma inclinação para polêmicas. Não achei toda essa coca cola e me pareceu um final forçado.

NOTA 3 

INSEGURO – Filme francês sobre um imigrante do Oriente Médio que almeja ser enfermeiro, mas fracassa em testes anteriores. Além de estudar, ele trabalha como segurança de uma loja de eletrônicos, mas é importunado permanentemente por jovens delinquentes barra-pesada o que ameaça fazer ele perder o emprego. Ele bola um plano para se livrar dos garotos, mas no curso da noite sua vida toma um rumo inesperado. Não gostei do final muito aberto e súbito demais.

PROFECIA - A AFRICA DE PASOLINI- Um documentário-ensaio de apenas 77 minutos que reúne as ideias e previsões políticas do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini. Citando a influência da cultura do continente nos subúrbios ao redor de Roma, suas ideias ainda são relevantes para Europa de hoje, uma vez que Pasolini acreditava que os dois continentes iam ser cada vez mais unidos. Pasolini era um poeta, ativista político da esquerda italiana, homossexual assumido e libertário e autor de clássicos do cinema italiano e mundial Apesar de eu adorar o diretor o documentário não me acrescentou nada de novo. 


NOTA 2


UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA – Terceira parte de uma trilogia do diretor Roy Anderson mas apesar de todas as sessões estarem lotadas achei o filme um Monty Python fraco. Dois homens cansados da vida estão numa viagem de negócios, vendendo artefatos engraçados que mostram uma percepção sobre o mundo caótico do presente, o passado e o futuro – um mundo de sonhos e fantasias. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza.


AS BRUXAS DE ZUGARRAMURDI- o diretor espanhol Alex de la Iglesia gosta de histórias absurdas e aqui ele até que se sai bem na primeira parte do filme mas do meio para o fim desanda com excesso de clímaxes. A história de José, pai solteiro com dificuldades financeiras após seu divórcio, planeja roubar uma loja junto com um grupo de ladrões. Eles fogem de Madri, chegando na estranha cidade de Zugarramurdi onde enfrentam uma irmandade de bruxas Vencedor de oito Prêmios Goya. Participação estranha da estrela espanhola Carmem Maura.


O RETORNO DE ANTÍGONA – Filme grego bem fraco. Depois de muitos anos de ausência, Antígona retorna a uma pacata cidade na Grécia onde reencontra velhos amigos, arranja um emprego e num namorado. Mas a sua busca por tranquilidade acaba se tornando uma tarefa complicada. A cidade está vivendo uma onda de violência e parece reinar uma regra de cumplicidade entre vítimas e perpetradores. Na chance que Antígona tem para mudar seu destino, será que ela vai assistir a tudo calada?


JAMIE MARKS NÃO ESTÁ MORTO – Um filme americano com a enganadora participação da atriz Liv Tyler num papel ridículo. Em uma cidade pequena e fria, o corpo do adolescente Jamie Marks é encontrado perto do rio. Um jovem atleta, Adam, desenvolve uma obsessão por Jamie, garoto que era vítima de bullying. Quando o fantasma de Jamie começa a visitar Adam ele fica preso entre dois mundos. Ele sente uma ligação profunda com Jamie, que lhe o aproxima do mundo dos mortos. Há uma certa insinuação gay mas é um filme mal aproveitado.

NOTA 1


PEQUENAS ATRAÇÕES – Filme polonês que merecia render mais. A história de duas moças que dividem um apartamento, um carro e fazem faxinas nas casas de recém-falecidos e vendem o que encontram de valor. Peter trabalha em uma fábrica enroscando tampas em jarras, e lida com o divórcio recente e a mãe instável. Quando ele se junta às garotas no negócio, ele logo se sente atraído por Asia, mas isso causa problemas na nova amizade entre os três, já que Kasia também está apaixonada. Dormi metade do filme.


O PEQUENO QUINQUIM Filme francês na minha opinião chatíssimo como costumam ser essa comédias francesas sem timming. Um capitão de polícia cheio de tiques que chegam a irritar o expectador e seu parceiro investigam a descoberta de uma vaca morta preenchida com restos humanos. Enquanto buscam respostas, eles são seguidos pelo pequeno Quinquin, um menino que cria confusão por onde passa. Originalmente exibida como uma minissérie da TV francesa. Li que lembrava Twin Peaks. Só se for na Conchichina.


O MEDO – Filme espanhol muito tenso sobre um casal de adolescentes que vivem sob o jugo de um pai opressor que espanca a mãe. O silencio petrificante expressa muito mais do que qualquer palavra explicando o medo que o pai lhes causa. O filme é opressivo e consegue manter a tensão até o fim. Sente-se que nada daquilo vai acabar bem. O final é como um soco no estômago.



OPIUM- Apesar de ser muito aplaudido no final pela plateia, certamente formada de artistas, é um  musical situado no começo dos anos 20, mostrando os dias em que Jean Coteau era um poeta que desfrutava da vida noturna em cabarés de Paris. Ele se apaixona profundamente por Raymond Radiguet, o jovem escritor de “O Diabo no Corpo”. Quando Radiguet morre, Cocteau se afunda no vício, descobrindo que amor e ópio são as drogas mais poderosas. As músicas do filme usam os poemas de Cocteau. Imagens surrealistas e psicodélicas demais.


JIA ZHANGKE- UM HOMEM DE FENYANG – Documentário de Walter Salles - Um retrato afetivo do jovem realizador chinês que, para muitos, se tornou um dos mais importantes cineastas de nosso tempo. Para este documentário, Jia Zhangke volta aos locais de rodagem de seus filmes, junto com seus atores e colaboradores mais próximos e relembra as fontes de inspiração de filmes. Posso estar cometendo um sacrilégio mas ainda não vi um único filme deste diretor que não fosse um porre.


MAUS HÁBITOS- Um dos primeiro filmes de Almodóvar, um dos poucos que eu ainda não tinha visto. História de uma cantora que foge da polícia após seu namorado morrer de uma overdose e busca refúgio num convento para mulheres desamparadas. Lá, se torna amiga de várias freiras incomuns: uma autora de romances baratos que escreve usando um pseudônimo, uma cozinheira masoquista e uma defensora de animais que cria um tigre. Com as estrelas Marisa Paredes, Carmem Maura e Cecília Roth. Roteiro muito fraco apesar das boas ideias que mereciam tratamento mais cuidadoso


CICLO – Filme turco. Feramus é um professor de filosofia que retorna à sua terra natal para vender terras da família após a morte de seu pai. Ele acaba se perdendo em meio à burocracia e as autoridades locais. Betül é a diretora do teatro local, que tem que parar de trabalhar por causa da nova realidade política da Turquia. Uma sátira ácida da vida moderna, que também envolve o moderno mas nunca usado aeroporto da cidade. O final é bonito e de certo modo redime o filme arrastado demais.

NOTA 0


ADEUS À LUA- Filme holandês pretensioso e fraco do qual sai na metade No verão de 1972, um garoto tem duas obsessões: a missão da Nasa para a lua e espiar sua vizinha Mary, uma linda modelo viciada em Valium. Quando o pai dele conhece uma artista que está morando ao lado começa sair com ela e logo decide morar com a moça. Enquanto a mãe do garoto coloca os filhos contra o pai, o garoto começa a contar com Mary como sua maior companhia. 



A NOITE ACALMOU- Filme americano, o segundo que deixei no meio sobre um garoto de 13 anos que não vê a hora de entrar no mundo de sexo, drogas e álcool de Nova York. Um dia, ele fica traumatizado com o derrame de Aida, sua empregada chilena de 65 anos. Com sua verdadeira figura materna ausente, o que deveria ser um rito de passagem alegre logo se torna um grande pesadelo.




VENTOS DE AGOSTO - Outro filme, desta vez um brasileiro que abandonei no meio. Apesar de ter ganho a menção Honrosa no Festival de Locarno para mim não passavam de imagens bonitas sem roteiro ou história. Até onde vi a história de uma moça que trabalha numa plantação de coco e tem um caso com um rapaz que trabalha na fazenda e faz pesca subaquática de lagosta e polvo. Não vi nada que prestasse.

7.9.14

DE REPENTE, SALMAN RUSHDIE!



       No ano 2000 tive uma estranha experiência ao lado de um amigo enquanto caminhava uma tarde em Nova Iorque, saindo do Museu Metropolitan a caminho do Guggenheim. Subindo a 5ª avenida, ao lado do Central Park, nossa visão foi atraída por um movimento estranho do outro lado da rua. Subitamente, três carros pretos pararam em uma esquina e fecharam a rua. De um furgão, também preto, saiu um homem meio calvo que rapidamente entrou num prédio enquanto dois outros homens com escopetas faziam sua segurança.
        
          Uma cena surreal como aquela no meio da tarde em pleno coração de Manhattan deixou a mim e meu amigo Jorge Barreto, aturdidos. Imediatamente vimos de quem se tratava: Salman Rushdie, o escritor britânico que vivia sob a proteção das autoridades, pois estava condenado à morte pelo aiatolá Khomeini em uma fatwa por apostasia.
          
          Àquela altura eu não tinha lido nenhum dos livros de Rushdie, mas achei que estava na hora de me livrar daquela omissão, uma vez que tive chance de ver o célebre escritor ao vivo em sua jornada de semiobscuridade. Tive o privilégio de vê-lo novamente e ouvi-lo neste ano de 2014, na sua brilhante palestra no Teatro Castro Alves, na série Fronteiras do Pensamento.

Essa longa introdução sobre a visão surreal do escritor perseguido numa tarde qualquer na 5ª avenida é para descrever a atmosfera meio fantástica dos seus livros. Lembrei-me disso quando ouvi Rushdie falar sobre a influência do realismo mágico de Garcia Márquez na sua literatura. A visão de dois brasileiros paralisados diante de uma equipe de policiais garantindo a vida de um homem que ousava defender suas ideias sob o risco de morte parece sair de uma das páginas escritas pelo próprio autor.

O Último Suspiro do Mouro e Vergonha são dois livros impressionantes e que deveriam ser lidos por todos que desejarem iniciar-se no que é a Índia e o Paquistão, dois países que desafiam todos os conceitos que nós ocidentais temos.
            
          A literatura de Rushdie tem uma marca inconfundível: a mistura de ficção com a História, e sua própria origem mista (indiana e britânica) serve perfeitamente para retratar temas como o multiculturalismo, o pós-colonialismo e a construção de uma identidade nacional.

Tanto em Vergonha como em O Último Suspiro do Mouro vemos o estilo do autor em mostrar intrincadas histórias genealógicas fabulares, como em Cem Anos de Solidão, de Garcia Márquez, que mais do que metáforas ou alegorias, atravessam o universo real, avançam pelo onírico, sem deixar de retratar o universo político da Índia e do Paquistão com seus golpes de estado e corrupção política, sua religiosidade opressiva, seu odioso sistema de castas (são mais de 3 mil castas e 25 mil subcastas), sua pobreza e atraso material e também sua inigualável riqueza cultural.

Rushdie é cultíssimo, como se pode ver em sua palestra e pela leitura dos seus livros e seu brilhantismo é emoldurado por um bom humor extraordinário e o humor é uma das maiores formas de inteligência, uma força inquebrantável diante da mesquinhez dos poderosos e da ignorância dos medíocres.

VERGONHA é o terceiro romance de Rushdie e retrata a história intrincada de três famílias com seus destinos entrelaçados pela violência da criação do Paquistão após sua separação da Índia.

Vamos acompanhando em uma narrativa não linear, histórias de três irmãs misteriosas que se excluem do mundo, prisioneiras voluntárias de uma mansão gigantesca, “mães” de Omar Khayyam, um anti-herói gordo e pervertido, sem religião, política ou vergonha; seguimos também a luta pelo poder de dois primos autoritários: Iskander Harappa, um playboy milionário, e Raza Hyder, um oficial do Exército; além de uma série de mulheres estranhas como Sufiya Zinobia, que cora tanto de vergonha que chega a queimar as mãos de quem a toca; sua irmã Navid Hyder, que dá à luz 27 filhos em séries de gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos....Mães, filhas e avós com uma profusão de sentimentos contraditórios de honra, vergonha e medo, um cenário tecido habilmente pelo autor como uma burca ou um véu para cobrir ou vestir uma teia de corrupção e intriga, metáforas vivas da história violenta do Paquistão, país em que Rushdie viveu parte da sua infância.

O trecho a seguir mostra um pouco da singularidade da vergonha inerente ao sentimento enigmático do povo do Paquistão. Em um momento em que um grupo de pescadores chantageia um casal que foi flagrado em pleno ato sexual, algo ultrajante e vergonhoso aos olhos "puros" dos devotos pescadores, o chantagista líder diz, para justificar a extorsão: "Uma atitude tão ímpia é ruim para nossa paz de espírito. Alguma compensação, algum conforto tem de ser fornecido". Brilhante! 

            O ÚLTIMO SUSPIRO DO MOURO foi a resposta de Rushdie à sua sentença de morte pelos fundamentalistas islâmicos, seu primeiro livro após a publicação do quase fatal “Versos Satânicos”.

Aqui, ele faz uma vigorosa defesa da tolerância e da pluralidade cultural em uma história fantástica iniciada na Índia após a chegada de Vasco da Gama, passamos pelo período da independência do país e sua separação do Império Britânico.

Como em uma fábula, o livro continua pelas décadas de 80 e 90 retratando uma Bombaim (hoje Mumbai) multicultural e multifacetada até terminar em um olival ao sul da Espanha, na Andaluzia, à sombra do Palácio de Alhambra. Toda a história é contada no estilo das Mil e Uma Noites e gira em torno da riquíssima personagem de Moraes Zogoiby, o Mouro, como uma Xerazade que narra suas histórias para continuar vivendo, adiando o que será, inexoravelmente, seu último suspiro de exaustão.

Conhecemos Mouro próximo da sua morte e com ele voltamos à sua infância, em cujas veias corre sangue português, judeu, árabe e indiano, metáfora personificada daqueles que, como o próprio autor Salman Rushdie, escapam de definições rasas de nacionalismos, e sectarismos religiosos, étnicos e culturais.

Aqui também, como em Vergonha, temos ficção e história amalgamadas em uma grande família, descendentes por um lado de Vasco da Gama e por outro do último sultão de Granada. O livro é como uma aula de História, mostrando uma Índia caleidoscópica, com pinceladas generosas de cultura, pintura, cinema e literatura.

Como em Vergonha, temos aqui uma família repleta de paixões e intrigas para acompanhar em uma narrativa não linear, com muitas idas e vindas temporais, mas com uma fluidez impressionante. Seguimos os passos dos bisavós de Mouro: Francisco e Epifânia, seus avós Camões e Isabela, seus pais Aurora e Abraham, e as irmãs Inamorata e Filomena.
           
           Salman Rushdie, com sua literatura repleta de misticismo, tem, ao mesmo tempo, um texto muito realista. Nada mais adequado do que incluí-lo entre os autores realistas-fantásticos, com seus personagens belissimamente retratados com todas as nuances daquilo que faz o ser humano ser, paradoxalmente, tão macabro e tão belo.

23.6.14

SEXO OU BENZETACIL?

Quando eu tinha 8 anos de idade desenvolvi um doença complicada chamada Coreia de Syndeham, conhecida popularmente como dança-de-são-vito, moléstia causada por estreptococos oriundos de infecção das amígdalas. Foi um dificílimo período da minha infância e perdurou até os 14 anos, quando finalmente aprendi a andar de bicicleta e ter uma vida normal após doloroso tratamento à base de injeções semanais de benzetacil por vários anos. Por conta dos sintomas da doença, movimentos espasmódicos  involuntários e irregulares com fases mais graves e outras menos intensas, nunca pude jogar futebol ou praticar qualquer outro esporte na infância. Muitas vezes tive que faltar à escola por dias quando a doença atingia um pico e sequer me permitia andar. Comer, só com colher, pois com o garfo eu me feria.

Bem, toda essa introdução dramática é na verdade para tentar dar um retrato de como minha família lidou com esse problema no interior da Bahia nos ano 70. Minha mãe ficou devastada e buscou todo tipo de tratamento. Como sempre acontece nesses casos, alguns a fizeram de boba com prescrições erradas como banhos de ervas fedorentas e cirurgias espirituais. Nada disso foi muito complicado ou gerou qualquer problema mais grave, mas a minha mãe sempre foi muito crédula, em demasia até, e um dos médicos que ela procurou fez uma recomendação muito estranha. Disse-lhe que eu só ficaria curado quando tivesse minha primeira relação sexual com uma mulher.

Minha mãe não teve a menor dúvida. Não importava se eu tinha apenas 8 anos, ela iria dar um jeito de arrumar uma mulher para eu transar. Ela não contou isso pra ninguém, nem para meu pai, mas ficou atenta à primeira oportunidade, uma vez que não podia simplesmente levar uma criança num puteiro.

A oportunidade surgiu quando eu estava com 10 anos e ela ficou sabendo, não sei como, que a empregada da vizinha já tinha transado com todos os filhos dos patrões. Logo ela ofereceu um salário maior para a moça para levá-la para nossa casa. O objetivo era me desvirginar o mais rápido possível e me curar com esse tratamento heterodoxo e alternativo.

Não sei se minha mãe orientou a moça, mas ela me dava uma atenção muito especial, trocava minha roupa e me dava banho. Bem, a situação foi ficando bem íntima e finalmente a natureza fez seu trabalho e a coisa acabou acontecendo lá pelos meus 11 anos. Sem eu saber, minha mãe ia coordenando tudo às escondidas. Meu irmão estava sempre de olho e contava a ela tudo que via pelo buraco da fechadura do quarto da empregada. 

Ainda bem que eu não sabia dessa história na época pois certamente não teria reagido bem e não sei quanto dinheiro eu haveria de gastar com psicanalista.

Até hoje minha mãe tem certeza absoluta de que ela me fez um enorme favor me curando dessa doença complicadíssima. As mais de 50 injeções de benzetacil não tiveram lá muita participação no tratamento.

18.5.14

PRAIA DO FUTURO



Se o novo filme do cearense Karin Ainouz encanta alguns pela sua errância, suas elipses e os longos silêncios, a mim gerou certa sensação de incompletude. Nada tenho contra esses recursos narrativos. Adoro, por exemplo, os silêncios e os longuíssimos planos do cinema iraniano, mas Praia do Futuro me pareceu algo ermo. Seus espaços ocos na história, os saltos temporais e as imagens vagas, mesmo belíssimas, me deram a sensação de um filme arredio do qual eu insistia em querer gostar, querer apreender, como um belo pássaro que se tem à mão, mas que se debate para fugir, resistindo a se deixar desfrutar, de uma beleza que não se pode fruir. Fugidio.

Antes devo dizer que gosto demais da filmografia de Karin Ainouz. Já assisti, mais de uma vez, aos seus filmes Madame Satã, O  Céu de Suely, Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo e Abismo Prateado e tinha muita expectativa sobre Praia do Futuro. Talvez o problema seja o excesso de expectativa, mas o que se pode fazer quando se acompanha a carreira de um diretor? A gente sempre espera algo tão bom quanto seus filmes anteriores.

Pois ali estava eu, há mais de uma hora dentro do cinema e o filme insistia em não me encantar. Eu queria muito gostar dele, mas o filme parecia não querer o mesmo de mim. Pensei comigo: ele foge, como os personagens de Ainouz....Donato foge para Berlim; Suely foge para o mais distante que seu dinheiro possa pagar; Violeta, de Abismo Prateado, tenta fugir do Rio, como seu marido fugiu dela; Madame Satã busca fugir de si mesmo e da sua sordidez inventando uma nova persona; José Renato (o abandonado geólogo de Viajo Porque Preciso) foge sertão adentro em uma busca do isolamento; e Tonho (de Abril Despedaçado, roteiro de Ainouz), foge da sina da vingança familiar.

Essa obsessão escapista de despertencimento e autoexílio dos personagens de Ainouz se traduz na própria forma do diretor filmar, mas aqui ele radicalizou talvez excessivamente, pois essa impermanência cheira a despersonalização e priva o filme de certa fibra necessária para torná-lo coeso e priva o expectador de um momento de encantamento. A todo instante, eu buscava aquele ponto do filme em que viria um momento sublime, mesmo que fosse apenas um, uma breve epifania que valesse o tempo dentro do cinema. Todos esses momentos sublimes podem ser vistos nos filmes anteriores de Ainouz, mas senti falta desse instante em Praia do Futuro.

Recentemente, o diretor deu uma entrevista ao programa Metrópolis em que falava dessa sua inclinação para filmar silêncios. Dizia que as palavras podem ser desnecessárias e que, por isso, não gostava dos filmes de Woody Allen, a quem chamava de chato. Para alguém que se encanta tanto com imagens, as palavras podem ser redundantes. Então foi por isso que ele retratou homens que falam idiomas diferentes? Por isso optou por filmar o que corpos dizem quando dançam, fazem sexo, nadam ou pilotam motocicletas? Pouco se pode dizer quando se está em alguma dessas atividades. Elas são autoexplicativas, dispensam palavras.

Palavras....Em certo momento do filme, praticamente não se entende o que os dois personagens principais falam pois, além da música alta que invade a cena, um deles fala um português quase incompreensível e as ondas do mar arrebentando cobrem as falas. Seria mais uma opção do diretor em prescindir da palavra? Se for isso, é uma mudança muito grande, pois a radicalização no sentido oposto já havia sido feita no seu magistral filme anterior: Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, todo ele praticamente um único monólogo com a voz do ator Irandhir Santos que não aparece na tela. Imagens apenas as vistas através do vidro de um carro.

Praia do Futuro é bem sucedido ao mostrar a busca por redenção nas almas contraditórias dos personagens: a utopia de Berlim versus a distopia de Fortaleza; o passado em ruínas das praias do Ceará contra uma Alemanha cosmopolita que aponta para o futuro; um herói que se reinventa fugindo da sua terra para buscar algo que nem sabe o que é diante de um passado na forma de um irmão que insiste em trazê-lo de volta para uma terra abandonada.  

Praia do Futuro, entretanto, falha ao optar em mostrar a homossexualidade dos personagens principais como uma não-questão. Isso não é objeto de conflito interno de Donato e Konrad e nem do irmão Airton. Ao mesmo tempo em que exibe cenas de sexo, o filme se esforça em fugir dessa questão ao mostrar seus personagens num universo extremamente masculino: Konrad, um militar que lutou na guerra do Afeganistão, pilota e trabalha com motos; Donato, um bombeiro salva-vidas. Mesmo as cenas fortes de sexo têm uma abordagem extremamente viril e sem qualquer ternura.

Por que, me pergunto até agora, fazer os personagens serem homossexuais e não avançar na abordagem dessa condição. Parece que isso não é importante, mas parece também que o diretor não quis decifrar as profundas repercussões narrativas oriundas dessa questão. Limitando-se a mostrar dois homens que fazem sexo, não precisa adentrar o terreno dramaturgicamente fértil que isso poderia resultar. As elipses, fartas no filme, são muito úteis nesse ponto, revelando-se mais uma estratégia de fuga (de novo) e menos uma opção estética.

Wagner Moura declarou em uma entrevista: “Temos que ter a responsabilidade de não fazer isso virar um assunto. É preciso ver essa relação entre eles com naturalidade. Se fosse um homem e uma mulher, ninguém estaria falando sobre isso. Um filme em que dois homens podem se amar não é um problema”.  Não creio que o problema seja a forma como as pessoas veem o filme, elas podem achar bom ou ruim o fato de dois homens se amarem. É exatamente este o ponto. Do lado de fora da tela, há um mundo em que as pessoas têm visões distintas sobre esse assunto. No filme, isso nem é tangenciado, sequer é problematizado.

Seria ingênuo acreditar que a homossexualidade é algo sem importância e que prescinda de um olhar que decifre os enigmas dessa condição. Falta estofo aos diálogos, todos muito vazios. O diretor escapole das palavras para mostrar imagens, mas quando precisa do texto utiliza diálogos fracos e sem substância. Poderia ser um filme mudo e não sentiríamos muita diferença. 

Ao contrário do mundo heteronormativo em que ainda vivemos, fico a imaginar que, segundo Praia do Futuro, habitamos um planeta em que dois homens gays podem viver plenamente suas vidas e isso não ser uma questão para eles. Seria como acreditar que uma mulher negra possa viver sem qualquer percalço ligado ao seu gênero e à sua cor num mundo que privilegia o homem branco. 

Tudo bem, eu entendo que um filme realista é um recorte de uma realidade, mas Praia do Futuro é um recorte do recorte.

17.5.14

Cuba e Che Guevara: uma história de revirar o estômago

O que você pensaria se daqui a 60 anos, as pessoas estampassem camisetas com a foto de Suzane Von Richthofen, lembra-se dela, aquela moça que matou os pais? Imagine que ela se tornasse um exemplo de virtude e amor filial? Ou então imagine as madrastas da menina Izabella Nardone ou do menino Bernardo Boldrini, daqui a meio século, estampando pôsteres como exemplos de amor maternal.

Então você sabe o que aconteceu com Che Guevara. Você que, como eu, vestiu camisetas ou decorou as paredes do quarto com a efígie do guerrilheiro argentino que sacrificara sua vida pela luta pelos oprimidos, que combateu os poderosos em Cuba, na África e nas selvas da Bolívia. Pois saiba que o mito heróico do Che equivale exatamente ao de uma maternal madrasta da menina Nardone ou uma Richthofen vendida como filha modelo. Exatamente isso!

Novamente estou no Guia Politicamente Incorreto da America Latina. No capítulo inicial do livro, descobri estarrecido, que a imagem de Ernesto Che Guevara pilotando sua moto pela América Latina, sua experiência com a revolução cubana e sua vida como um todo foi uma construção ideológica.

O livro mostra, com inúmeras fontes bibliográficas, que a Cuba pré-revolução, sempre apresentada como o bordel dos americanos repleto de miseráveis e prostitutas, na verdade tinha qualidade de vida muito superior à média latino-americana.

Nos anos 50, após a 2ª Guerra Mundial os EUA viviam um surto de crescimento e otimismo e a economia se recuperava. O turismo em Cuba viveu um apogeu pela posição estratégica da ilha há 150 quilômetros de Miami. Havia 28 voos diários entre Havana e cidades norte-americanas e até ferryboats levavam americanos de carro da Flórida até Cuba. Isso garantia emprego para garçons, guias de turismo, cozinheiros, motoristas, camareiras, donos de restaurantes e inúmeros trabalhadores ligados ao turismo. E também às prostitutas, é claro. O crescimento impulsionava a classe média e a construção civil. O alto preço internacional da cana de açúcar atraía muito dinheiro para o país.

Ocorre que no seu segundo mandato, o presidente Fulgêncio Batista impôs uma ditadura e tornou-se comum a tortura e o desaparecimento de opositores. Nessa cena de protestos e greves, Fidel teve apoio de todas as classes e chegou a receber entre inúmeras doações, 50 mil dólares do maior barão do açúcar cubano e 38 mil dólares da destilaria Bacardi. Quando Fidel tomou o poder, tanto empresários quanto trabalhadores comemoraram por vislumbrar a democracia no horizonte, mas logo a verdadeira face da revolução mostrou-se. Os aliados mais moderados e democráticos foram presos ou expulsos de Cuba.

Uma grande ironia é que Batista, antes de se tornar ditador, era simpatizante do comunismo e Fidel, antes de também se tornar ditador, era anti-comunista. Batista, ao derrubar o governo anterior, realizou muitas reformas trabalhistas como férias, seguro e outras vantagens além de legalizar o Partido Comunista em Cuba. O principal jornal comunista no país defendia o governo de Batista.

Já Fidel fizera o caminho oposto e acusava Batista justamente de ser comunista. Escreveu Fidel em 1956: “Qual é o direito moral que o senhor Batista tem de falar em comunismo, quando ele era o candidato presidencial do Partido Comunista  e seus ministros e colaboradores são importantes membros do Partido Comunista?” E numa entrevista ao New York Times o hoje Fidel vermelho dizia: “Não concordo com o comunismo. Nós somos democráticos e contra todo tipo de ditadores e por isso somos contra o comunismo”. Após se aliar a Che Guevara é que Fidel percebeu que se travestir do vermelho comunista era uma boa maneira de controlar o poder em Cuba e eliminar os adversários.

Logo, o regime castrista começou a banir roqueiros e hippies como ameaças do imperialismo. Bandas não podiam comprar instrumentos, artistas eram perseguidos, campos de trabalhos forçados eram criados para gays, católicos, testemunhas de Jeová, alcoólatras, portadores de HIV e sacerdotes do candomblé para libertar o país da influência do capitalismo. Homofóbicos, os castristas pregavam em jornais que o homossexualismo logo terminaria em Cuba como uma das vantagens do socialismo: “curar comportamentos e doenças sociais”. Uma lei proibia qualquer homossexual de ocupar cargos públicos pelo risco de converter a juventude.

Tornou-se comum ler sobre Che Guevara palavras de ternura. Leia as palavras seguintes, do mesmo homem: “O ódio como fator de luta, o ódio intransigente ao inimigo, que converte o ser humano em uma violenta, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim; um povo sem ódio não pode triunfar sobre um inimigo brutal. Há que se levar a guerra até onde o inimigo a leve: à sua casa, a seus lugares de diversão, torná-la total. Há que impedi-lo de ter um minuto de tranquilidade, fazê-lo sentir-se uma fera acossada onde quer que esteja”. Terno, não?

O meiguíssimo Che Guevara foi responsável direto pela morte de 144 cubanos entre colegas guerrilheiros, menores de idade, policiais executados na frente dos filhos e opositores políticos. Che escreve em seus diários detalhes das execuções perpetradas por ele próprio com tiros nas têmporas das vítimas e como roubou o relógio de um dos homens que ele mesmo matou. Relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos mostra que de cada preso a ser executado eram extraídos três litros de sangue vendidos por cerca de 300 dólares. Os condenados eram fuzilados desmaiados e inconscientes.

Em um discurso em 1964, nas Nações Unidas, Che declarou: “Fuzilamentos? Sim, temos fuzilado. Fuzilamos e seguiremos fazendo isso enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta de morte”

O Guia Politicamente Correto da América Latina está repleto de relatos dos horrores perpetrados pelos revolucionários cubanos. Che Guevara tem um capítulo dedicado somente a ele. Aqui está apenas 1% do que o livro relata. Convido você a se enojar um pouco. Você vai sair daquelas páginas com outra visão do mito Che Guevara.

13.5.14

Guia Politicamente Incorreto da América Latina

Há alguns dias, escrevi sobre minha enorme surpresa ao ler o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, impressionadíssimo pela constatação de que sempre fui um perfeito imbecil por acreditar em tantas lorotas construídas ideologicamente ao longo dos anos pelas aulas de História.

Mas qual a minha surpresa, lendo o volume seguinte da série, ao perceber que a matriz ideológica que servia para nos venderem um peixe estragado sobre nossa história não é exclusividade da narrativa brasileira, mas se dissemina pelas veias abertas da nossa América Latina, irresistível alusão a um livro muito apreciado por onze em cada dez militantes de esquerda.

Esqueça tudo aquilo que você aprendeu (e eu também) sobre como os malvados espanhóis chegaram à America Latina tocando o terror. A coisa foi feia, mas se foi feia por parte dos europeus que aqui chegaram, o horror aqui encontrado não foi menos horrendo.

Entre os políticos populistas que chegam ao poder no nosso continente como os bolivarianos Morales, Chaves e Maduro...os peronistas argentinos e os filhos de la revolunción cubana, tornou-se comum exaltar o caráter de explorado dos nossos antepassados: espoliados, humilhados, massacrados, roubados... Novamente, é a ideologia contaminando a narrativa histórica.

Um século antes de os espanhóis chegarem aqui, incas, maias, astecas e outros povos locais praticavam alegremente a arte do extermínio mútuo. As cidades-estados lutavam umas contra as outras ou faziam alianças para derrotar a mais forte. Os vencidos pagavam altos tributos, eram obrigados a migrar para regiões inóspitas ou eram usados em sangrentos rituais de sacrifício.

Há inúmeras fontes bibliográficas no Guia para que não pensem que se trata de uma obra de viés revisionista e aventureira. O livro, assim como o anterior, ficou muito tempo na lista dos mais vendidos e é uma obra de grande credibilidade.

Claro que os espanhóis não são santos e muito mal fizeram quando aqui chegaram, mas sob uma perspectiva com menos contaminação ideológica, os europeus, a princípio, eram apenas um novo povo que chegava e com quem algumas tribos locais faziam acordos para derrotar os adversários do império vizinho. Mesmo sem conhecerem a escrita, foram deixados inúmeros registros de pactos entre os europeus e os índios, como grandes tapeçarias e pinturas mostrando a união em prol de conquistas comuns.

Claro que os primeiros relatos da conquista eram assustadores e muito disso se atribui ao interesse dos colonizadores de aumentar o grau das suas façanhas em cartas ao rei repletas de detalhes sangrentos de batalhas épicas e descobertas surpreendentes com o objetivo de receber pensões, cargos, títulos de nobreza e de propriedade dos soberanos.

Muitas dessas cartas acabaram por ser publicadas por editoras europeias e, sabendo desse interesse extra, os conquistadores exageravam nas façanhas para atender a um público leitor ávido de aventuras. Eu mesmo, na adolescência, li, cheio de profunda revolta, o livro “A Conquista do México”, de autoria do próprio Hernán Córtez, que passou para a história como um dos maiores sanguinários de todos os tempos, o mais brutal conquistador espanhol na América, um grandessíssimo fdp responsável pela morte de Montezuma...Lembro-me de ler esse relato e como tomei profundo nojo dos colonizadores....qualquer colonizador... Ninguém me disse o que vem à frente.

A prisão e execução de índios inimigos era fato corriqueiro. Inúmeros líderes mandavam matar os irmãos, sobrinhos e cunhadas para não serem destronados por estes. Quando os europeus por aqui aportaram os incas haviam dominado dezenas de povos vizinhos, escravizando os derrotados e enforcando os chefes em praças públicas. Muito se acusa os espanhóis de impor sua religião aos dominados, mas ninguém lembra que os incas fizeram o mesmo. Houve uma imposição cultural violenta e os derrotados eram obrigados a abandonar sua cultura, falar a língua quéchua e adotar a religião inca que adorava o sol e a lua e a figura do próprio imperador inca como um semideus.

Mas o mais grotesco eram os rituais sagrados de sacrifício de incas, astecas e maias. Você sabe aquelas belas pirâmides que vemos nos programas do National Geografic? Nelas, eram realizadas cerimônias diárias de matança de jovens e crianças. Sacerdotes usavam afiadas facas de sílex e, com a vítima ainda viva, imobilizada e de barriga para cima, faziam um corte profundo no osso externo, nas costelas ou abaixo do diafragma. Enfiavam a mão no espaço aberto e arrancavam o coração ainda pulsante. Aparentemente, havia uma regra de que a coisa tinha que seguir esse rito macabro.

A plateia desses sacrifícios não faltava ao holocausto que, como se tornava comum, perdia a graça. Então, para incrementar a coisa, os sacerdotes aumentavam cada vez mais o número de vítimas, reduziam as idades dos escolhidos, ofereciam belas virgens à matança ou arrancavam os corações de inimigos poderosos.

Tudo era motivo para a carnificina. Para o sol nascer todo dia, matavam crianças. Para o sol se pôr, idem. Matavam se havia chuva demais ou se chovera de menos, extraiam corações aos montes se tinha terremoto ou furacão. Arqueólogos encontraram em escavações inúmeras valas com esqueletos de crianças incas com as costelas arrebentadas. As pirâmides tinham uma constante mancha marrom escura pela quantidade de sangue que manchava os seus degraus.

O Códice Telleriano-Remensis, uma reunião de pinturas narrativas dos astecas criada no século XVI fala da matança de 4 mil pessoas sacrificadas em honra dos deuses para a inauguração do Templo Maior de Tenochitilán. A arma usada pelos astecas era o macauitl, um tacape com cacos de vidro vulcânico incrustados. Era usado para matar ou ferir os inimigos usados nos sacrifícios.

A antropóloga austríaca Estela Weiss-Krejci resume: “Cenas de decaptação e desentranhamento, a retirada das vísceras das vítimas ainda vivas, em cerâmicas funerárias, totens, altares e murais parecem complementar alguns corpos encontrados sem cabeça e membros em tumbas individuais e coletivas”.

Este é apenas um dos capítulos do livro. Encerro essa “linda e edificante” história da América Pré-Colombiana para, no próximo relato, falar da também horrorosa e real história politicamente incorreta de Cuba, Fidel e Che Guevara.

8.4.14

QUE ÓDIO DOS PROFESSORES DE HISTÓRIA

Sempre que folheava o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil nas livrarias me batia uma raiva. Eu o achava deselegante por atacar algumas verdades consolidadas nas aulas de História aprendida nas escolas. Mas por que então, sempre estava lendo um capítulo ou outro? Para me martirizar? Masoquismo?


O próprio autor da obra, Leandro Narloch afirma: “Este livro é uma provocação. Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias, irritantes e desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos”. 

O Guia ficou na lista do livros de não-ficção mais vendidos no Brasil por mais de três anos, mas já que eu tanto vacilava em comprar o meu, salvou-me da incerteza a colega Luzineide, que me emprestou gentilmente seu exemplar. Entre alguns inconvenientes fatos da nossa História, o Guia prova que a escravidão no Brasil teve traços bastante diferentes daqueles que aprendemos. Contextualizando a escravidão naquele período,  nota-se que ela não tinha o caráter que a ela hoje se atribui. Afinal, ao longo da História, a escravidão foi, por muito mais tempo, regra em vez de exceção e esteve muito mais disseminada do que imaginamos.

Tanto é que muitos escravos libertos ou alforriados tornavam-se, eles próprios, comerciantes de escravos. A escravidão era uma prática muito comum na África ao ponto de que os portugueses, quando lá chegaram, já encontraram prisioneiros escravizados por tribos inimigas. Nas guerras tribais, era corriqueiro os vencedores escravizarem e venderem os cativos das tribos vencidas. Vários reis africanos tinham escravos e na África havia quilombos antes mesmo de o Brasil ser descoberto.

Durante o Brasil Colônia e no período do Império, reis africanos mandavam seus filhos e embaixadores ao Brasil. Esses “nobres” africanos vinham para cá confortavelmente instalados nos camarotes dos mesmos navios negreiros que traziam os escravos, amontoados  nos porões. Muitas vezes, reis africanos se correspondiam com os reis de Portugal. O Guia traz cópias dessas cartas em que os reis se tratam com todo respeito.

O livro mostra que o herói na nossa Pátria, Zumbi dos Palmares, tinha, ele próprio, seus escravos e que, entre 1500 e 1800, reinos árabes africanos capturaram mais de 1 milhão de escravos brancos no litoral do Mediterrâneo. Ninguém se assustava com isso, afinal era uma prática banal. Caravanas de comércio de escravos na África profunda existiram por séculos antes de os portugueses aportarem no seu litoral.

Sobre os nossos índios, as coisas não caminharam diferente. Os índios brasileiros guerreavam frequentemente entre si ao ponto em que a guerra era um ritual, praticamente uma regra. Matavam-se, escravizavam-se e devoravam-se rotineiramente. Havia uma compreensão, entre eles, de que o paraíso era reservado para aqueles que matavam ou morriam em uma guerra.

Com a chegada dos europeus ao Brasil, os índios se aliaram a eles para capturarem outros índios para trocar por mercadorias.  Isto não exime os portugueses, mas quem desejava os índios como escravos usava a desculpa de que se não os aceitassem como mercadoria, eles seriam mortos ou comidos.  Índios tinham o hábito de vender não só outros índios capturados, mas seus próprios parentes como tios, sobrinhos e avós.

Muito se fala sobre os objetos trocados entre portugueses e índios: quinquilharias por riquezas, diz-se. Entretanto, o Guia mostra que, para quem estava na Idade da Pedra e não conhecia sequer a roda, os portugueses ofereciam, na verdade, riquezas e costumes selecionados por milênios que os isolados índios jamais conheceriam de outro modo. “Para eles era como trocar uma roupa velha por uma espada Jedi”, diz o inspirado autor.

O anzol, o machado e  a faca de aço deram aos índios um ganho de milênios. Até que eles dominassem a metalurgia, algo que só aconteceu muito tempo depois do primeiro contato com o branco, um anzol era um salto de séculos, pois eles dependiam apenas da pontaria para pescar seu alimento. O machado reduzia imensamente o trabalho que tinham para derrubar uma árvore e fazer lenha ou canoas. Uma faca de aço era uma riqueza incalculável para quem só dispunha de pedras afiadas. Os europeus jogaram em pouquíssimo tempo habitantes da Idade da Pedra em plena Idade do Ferro.
 
Sempre se lembra dos índios como bons selvagens, idealização clássica de Rousseau, e a letra do hit Todo Dia era Dia de Índio: “Amantes da natureza / Eles são incapazes/ Com certeza/De maltratar uma fêmea/Ou de poluir o rio e o mar/Preservando o equilíbrio ecológico/Da terra, fauna e flora”. Sinto desapontar, mas não era bem assim. Os índios matavam mulheres e crianças e frequentemente botavam fogo na floresta para facilitar a caçada dos animais. Eles viviam em aldeias instaladas em campos desmatados. Era difícil viver na mata, à mercê de animais perigosos como onças, cobras e mosquitos. Mesmo nos campos, eles mantinham fogueiras acessas para afugentar os bichos.

Então eles não preservavam a floresta e quase levaram à extinção algumas espécies. Estima-se que para alimentar cada índio era necessário devastar 2 mil m² por ano já que não conheciam a agricultura, exceto o plantio de mandioca e amendoim. Para caçar poucos animais eles destruíam uma enorme área de mata. Eles derrubavam, frequentemente, árvores frutíferas e foram os portugueses que proibiram esta prática. Também não domesticavam animais, o que só foi feito a partir do contato com o branco.

Continuando a ler o livro passamos por mais decepções e aborrecimentos. Nossos ídolos como Zumbi, Prestes, Aleijadinho, Santos Dumont, Euclides da Cunha, Gregório de Matos, Gilberto Freyre, Jorge Amado, José de Alencar e Graciliano Ramos e muitos outros não são bem aquilo que nos ensinaram. O livro é repleto de referências bibliográficas para ninguém pensar que é uma obra qualquer de algum aventureiro. Dá uma raiva danada, mas pelo menos ainda estamos em tempo de aprender algumas verdades inconvenientes.

Ainda estou, até agora, com raiva dos meus professores de História, do primário ao colegial, que me enganaram tanto tempo. Quem sabe, também eles foram enganados? Se bem que eis aí um privilégio que professores não deveriam ter.