2.11.12

36ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO CHEGA AO FIM


A 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chegou hoje ao seu final e mais uma vez marquei minha presença. 

Esse foi o 10º ano seguido que frequento as salas paulistas do festival que este ano teve mais de 350 filmes à disposição dos cinéfilos espalhados por dezenas de salas de exibição pela capital paulista. Uma verdadeira orgia cinematográfica. Este ano cravei 40 filmes.




A programação de hoje foi uma experiência inesquecível. Como nos anos anteriores houve um encerramento especial ao vivo e de graça em pleno Parque do Ibirabuera com a exibição do clássico mudo do expressionismo alemão NOSFERATU, de F.W.Murnau, de 1922. Nosferatu foi a primeira adaptação para o cinema do livro Drácula, de Bram Stoker e este ano a obra completa 90 anos. A cópia exibida sofreu uma restauração especial e teve um luxuoso acompanhamento da orquestra da Petrobrás com 80 instrumentistas e coro sob a regência do maestro alemão Pierre Oser que criou a partitura que acompanhou a exibição do filme especialmente para a obra em 2012 em homenagem ao centenário da morte de Bram Stoker, autor de Drácula, romance no qual o filme foi inspirado. Foi uma apresentação especial porque foi a segunda vez que a trilha foi exibida no mundo, composta para coral, percussão e orquestra de cordas. A primeira vez foi na Indonésia e a segunda aqui em São Paulo.

Foi realmente uma experiência especial e única estar sentado em frente ao auditório do Ibirapuera num gramado cercado de centenas de cinéfilos e amantes da Mostra de Cinema de São Paulo. O gramado inteiro foi tomado por jovens e adultos, casais e grupos de amigos que se reuniram para durante 94 minutos desfrutar de um privilégio único. Um clima de profundo respeito e ao mesmo tempo de congraçamento envolveu a todos na noite que desceu fria sobre a cidade que nesta semana bateu todos os recordes de calor da sua história. O obelisco do Ibirapuera era a única coisa iluminada além da tela onde o filme era exibido. Vez por outra eu olhava para os lados e juntamente com meus seis queridos amigos paulistas que me acompanharam na experiência eu via centenas de admiradores da 7ª arte deitados, lado a lado, sob o céu nublado da capital paulista. Uma experiência que estou certo de jamais esquecer.

Além do ato final luxuoso com Nosferatu no Ibirapuera, dezenas de eventos paralelos, debates, shows, festas, premiação e o encontro festivo de milhares de pessoas nas imensas filas que se formavam nas portas dos cinemas foram a marca da Mostra. Gente correndo de uma sala para outra para tentar pegar uma sessão aguardada, decepções com alguns filmes muito esperados, alguns poucos atrasos nas exibições ou problemas com ar condicionado ou legendagem, mudanças de programação em cima da hora com substituição de alguns filmes...tudo coisa que sempre acontece. No mais a Mostra foi a maravilha de sempre. Comentei no post anterior sobre os primeiros 17 filmes a que assisti. Agora falo dos demais. 

DITADO – Um filme espanhol meio na linha de suspense quase terror light. Não tem cara de filme da Mostra, mas do circuito comercial na linha dos filmes de Guilermo del Toro. Conta uma história sobre dois amigos de infância que causam a morte de uma garota e anos depois a filha de um deles dá mostras de ser a reencarnação da menina morta. Após o suicídio do pai da garota ela vai parar justamente na casa do casal cujo marido foi o segundo responsável pela morte da jovem. Com a presença assustadora da nova menina as lembranças que o jovem queria sepultar lhe retornam e ele tenta em vão se livrar da garota adotada mas a esposa já se apegou à menina. A razão começa a desaparecer mas o final é um tanto óbvio apesar de que há uma conveniente explicação que afasta o sobrenatural e demonstra que há uma lógica racional. Um filme médio, mas que pode fazer sucesso com o grande público ou em locadoras.

NUM LUGAR CONHECIDO – Uma produção Canadense e um filme estranho como os filmes estranhos dos irmãos Coen. Uma história arrastada de um casal de irmãos meio lerdos que não se sabe  porque, não se adequam ao mundo das pessoas produtivas e racionais. A moça vive com um marido que a trata bem e o irmão com o pai meio doente, mas ainda bastante ativo e produtivo. Um bando de gente estranha que tem atitudes esquisitas e um homem que vem do futuro para anunciar uma tragédia...é coisa de filme experimental ou algo assim. Não ganhei nada assistindo.

PAUL BOWLES -A PORTA DA JAULA ESTÁ  SEMPRE ABERTA – Um documentário da Suiça que me agradou muitíssimo pois desde que assisti ao filme O Céu que Nos Protege, de Bernardo Bertolucci me interessei muito pela vida do autor do livro, Paul Bowles, um escritor e músico americano extremamente talentoso e que morreu em 1999. Ele foi um artista de enorme carisma que influenciou muita gente boa que o visitou quando ele se mudou para Tanger no Marrocos em 1949. Por lá apareceram gente como Tennessee Williams, Truman Capote, Jack Kerouac, Alan Ginsberg e William Burroughs. Homossexual assumido, casou-se com a escritora lésbica Jane Bowles. Ambos eram muito diferentes, mas construíram um mundo só deles. Foram percussores dos hippies e dos beatniks e o documentário foi muito feliz em conseguir uma das últimas entrevistas do próprio Bowles já muito velho e doente mas muito lúcido e de gente que conviveu com ele e a esposa como Gore Vidal, Bertolucci, Edmund Willson e um sem número de biógrafos e amigos. Com muitas fotografias interessantes, só lamentei a sala estar com pouca gente pois poucos sabem quem foi esse homem genial e fantástico que foi Paul Bowles.

25\11-O DIA EM QUE MISHIMA ESCOLHEU SEU DESTINO – Um docudrama japonês bem acadêmico e pouco inspirado sobre o escritor japonês Yukio Mishima, um homem extremamente polêmico e escritor de sucesso cotado para o prêmio Nobel e tudo que no dia 25 de novembro de 1970 cometeu suicídio ritual abrindo a barriga com uma faca no quartel-general do exército japonês em Tóquio. Gosto muito dos livros de Mishima, principalmente Cores Proibidas, que li recentemente e a história dele é muito interessante, mas o filme não está à altura da história. Pena que não segui o conselho do crítico da folha e deixei de ver o filme já que a película se foca demais em fatos restritos da vida de Mishima se concentrando burocraticamente na questão da fixação do escritor pela honra do Japão e a restauração do poder do imperador após a segunda guerra mundial. A sua assumida homossexualidade sequer é tocada no filme como se não fosse algo relevante. E todos que conhecem a sua história sabem que é um ponto crucial da sua estética.

MELHOR NÃO FALAR DE CERTAS COISAS – Um bom filme do Equador, país que tem tido pouco espaço nos cinemas que conta a história de dois irmãos, Paco e Luis,  que vivem vidas desregradas com consumo de álcool e drogas. Após uma briga trágica que envolve a morte de um parente e o roubo de um objeto valioso as vidas de ambos seguem numa espiral de decadência e violência que anuncia um final ainda mais trágico. Mas há um final diferente do que se esperava e essa chave é a grande chave do filme que sem ser panfletário serve como uma denúncia sobre a política com que temos que conviver, seja no Equador seja em qualquer lugar e nesse ponto um filme universal. Gostei bastante.

LAWRENCE ANYWAYS – Se gostei do filme acima, desse aqui que eu esperava muito mais eu gostei bem menos, pois é o terceiro filme de Xavier Dolan,  um diretor muito jovem, de apenas 23 anos e que nas suas duas películas anteriores, as duas primeiras, fez trabalhos elogiadíssimos. Eu Matei a Minha Mãe e Amores Imaginários. Adoro os dois filmes dele com uma estética bastante exagerada, coloridíssimos, kitsch, com uma marca própria nas câmeras lentíssimas e nas trilhas sonoras marcantes. Aqui achei que ele se repetiu nos seus mesmos truques e fetiches contando uma história longuíssima, que mereceria ter ao menos 40 minutos a menos. Um homem nos anos 90 decide manter um relacionamento com a mulher apesar de decidir trocar de sexo. Fora dos padrões como Dolan gosta, mas achei que a massa do bolo desandou. Pontos fortes nas cenas que ele mais sabe fazer, mas não funcionou 100% . A atriz Suzanne Clément estava na apresentação do filme para a plateia. Ela ganhou o prêmio de melhor atriz na mostra Um Certain Regard do Festival de Cannes e o filme levou o prêmio de melhor filme canadense no Festival de Toronto. Acho que não deve ter havido muitos concorrentes canadenses melhores....Ou será que eu estou de má vontade porque assisti ao filme na sala do cinema Reserva Cultural, na Avenida Paulista e na porta do cinema havia um trio elétrico com os petistas que ganharam a prefeitura paulista comemorando a vitória de Fernando Haddad....e me vi cercado de militantes....mas desconfio que não, não seria tão influenciável assim. O filme não é uma coca cola nem uma Brastemp como os dois anteriores de Dolan.

SATELLITE BOY  -  Filme australiano de que gostei que conta uma história de um rito de passagem de um  garoto aborígene da infância para a fase adulta enquando empreende com um amigo  também criança uma viagem pelas terras desérticas australianas em  busca de uma mãe e a salvação da terra do avô ameaçada por uma mineradora inescrupulosa. A ideia é ao mesmo tempo encontrar a mãe e resgatar um antigo cinema abandonado. Um road movie de bicicleta e à pé pelos desertos da Austrália. Um bom filme. Um final redentor e lírico.

SOMBRA DO MAR – Como o filme anterior, da Austrália, esse que é dos Emirados Árabe também conta uma história de amadurecimento e passagem da adolescência para a fase adulta de dois jovens que vivem numa pequena comunidade à beira-mar nos Emirados Árabes. Aqui um rapaz, Mansour, um belo adolescente se apaixona por uma outra adolescente mas enfrenta as dificuldades das limitações financeiras, religiosas, as tradições e convenções. Um final belo como uma libertação dolorosa de um jovem que tem que aprender a sofrer para crescer. Mas a vida adulta também oferece seus encantos.

A COLEÇÃO INVISÍVEL – Um filme brasileiro com atores baianos. Ele se passa parte em salvador e parte na cidade do sul da Bahia, Itajuípe e tem no elenco Walmor Chagas, sempre excelente e vários atores baianos com destaque para Vladimir Brichta que tem, certamente, muitas limitações como ator reveladas na tela grande, mas até que ele se esforça e não se sai muito mal. Ele interpreta um jovem que busca resolver a crise financeira da família que tem um antiquário semi falido e parte em busca de gravuras raras que seu pai vendera a um cacauicultor. Também no elenco o ator baiano Frank Menezes, sempre bom, aqui bastante econômico e contido na sua habitual verve cômica num papel de um taxista. O filme mostra a decadência da outrora rica e opulenta cacauicultura do sul da Bahia. Inspirado em um conto de Stepnah Zweig.

OUTRAGE: BEYOND – Um filme com a marca do japonês Takeshi Kitano. Aqui, como sempre, ele é o autor do roteiro, diretor e ator principal. Narra a disputa pelo poder entre famílias de mafiosos japoneses enquanto um detetive articula uma repressão forte e estimula os conflitos e as mortes dos mafiosos. Muita violência e morte, mas bastante estilizada, no estilo dos filmes que marcaram a carreira do diretor Kitano. O excesso de diálogos e muitos personagens com complicados nomes japoneses confundem. Um final abrupto demais.

RUA DA REDENÇÃO – Filme sérvio que me impressionou positivamente. O ator principal e também  produtor estava na sala para apresentar a película. Conta a história de um procurador bastante jovem e idealista que coordena uma investigação de crimes de guerra nos Bálcãs. Ele vai se defrontar com um perigoso grupo paramilitar que atuou no extermínio e limpeza étnica na Croácia, Bósnia e Kosovo. Ele desconfia que um dos líderes do grupo que foi exterminado, ainda está vivo e quer leva-lo a julgamento. Até que o encontro com um homem misterioso muda todas as suas certezas e convicções e o desafia a um encontro com seus valores e sua coragem. Um final à altura dos tempos atuais de julgamento de mensalão.

A HORDA – Filme russo que se passa no século 14 quando quase metade da Ásia e Europa são dominadas pelos mongóis, um fato pouco conhecido. A história gira em torno da sucessão ao trono do império chamado Horda de Ouro. Um líder é morto após o outro e a Europa e principalmente Moscou e os estados papais temem um iminente ataque dos cruéis guerreiros mongóis. Gostei porque mostra fatos históricos que eu desconhecia, mas é um filme escuro e excessivamente sujo, focado em tramas internas das sucessões. Os atores russos têm uma linha de interpretação bastante diferente e à qual não estou acostumado e por isso um estranhamento é compreensível.

PARA ELISE – Mais um filme da Alemanha. Acho que os filmes que mais vi nessa Mostra foram alemães. Este aqui é excelente e mostra a angústia da adolescente Elise, de apenas 15 anos, após a morte do pai quando ela fica com uma mãe, uma baladeira que está sempre com aluguel e contas atrasadas e enchendo a cara e chegando bêbada e dando festas em casa. A mãe de Elise está sempre buscando novos homens e se decepcionando com eles e se embriagando e cabe à menina, que já sofre com a morte do pai e os problemas na escola, ajudar a carregar a mãe bêbada para a cama. De uma hora para outra parece que a menina é que tem que ser a adulta e a mãe a dependente. Até que a mãe conhece um homem espetacular que pelo jeito se interessa mais pela garota do que por ela. Os conflitos que já existiam se acirram ainda mais pois Elise quer o amor do homem mais velho como se fosse um substituto do pai e compete com a mãe por ele. Em determinado ponto isso tudo vai explodir quando a sexualidade inexistente na moça se defrontar com o inevitável desejo não desperto do homem que até então a via como uma espécie de filha que precisava de ajuda. Um final com um tanto de esperança apesar de tudo. Bela trilha sonora.

PEDAÇOS DE MIM – Um filme francês pelo qual eu não apostava muito, mas me agradou. A história de uma família com um pai omisso, uma mãe dominadora e uma filha adolescente despertando para a vida sexual. A moça passa todo o tempo filmando tudo. Tem 4 amigos meio perturbados que vivem cometendo pequenos delitos e com quem ela se diverte bastante fugindo do regime forte da própria casa. Há uma descoberta da sexualidade, há a volta da irmã que fugiu de casa e retorna casada e grávida e uma tentativa da moça mais jovem de encontrar um caminho próprio para si no meio de um ambiente hostil. Um rito de passagem com final que mostra a escolha da moça por um mundo de novas descobertas.

A CAÇA – Um dos filmes mais badalados da Mostra, todas as sessões lotadas e para conseguir comprar o ingresso tive que chegar muito cedo ao cinema e ficar numa fila. É o último filme do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, companheiro de Lars von Trier no famoso movimento Dogma. Uma história muito bem narrada que mostra uma pequena e próspera comunidade dinamarquesa abalada com uma denúncia falsa de uma menina de que foi abusada por um professor. De repente a vida do homem que era pacata e bem estruturada se transforma num inferno e uma histeria coletiva toma conta dos seus antigos colegas e amigos. Sua família acaba sendo envolvida e o homem, além de ser preso, vai ter que lutar pela sua inocência e recuperar sua dignidade. Uma história muito bem elaborada, mas me lembrou o bom documentário Na Captura dos Friedmans, que trata do mesmo tema. Mas aqui, o dinamarquês foi melhor até porque é uma ficção e não um documentário.

A BELA QUE DORME- Outro filme muito badalado e com sessões lotadas. É o mais novo filme do prolífico diretor italiano Marco Bellocchio com a insuperável atriz francesa Isabelle Huppert. Aqui ele mostra quatro histórias em torno da questão da eutanásia e o frenesi que tomou conta da Itália durante um famoso e polêmico caso de uma mulher: Eluana Englaro, que estava em coma há 17 anos e cuja família finalmente decide desligar os aparelhos. Em uma das histórias um senador precisa decidir tem de decidir se vai votar de acordo com seu partido ou com sua consciência numa votação às pressas para proibir a eutanásia. Em outra história, a sua filha que faz parte do movimento católico pró-vida se apaixona por um militante que defende a eutanásia. A terceira história mostra uma atriz (Isabelle Huppert) que espera um milagre para que a filha com morte cerebral acorde e para isso abandona a carreira e sacrifica os relacionamentos com o marido e o filho, ambos vivos e carentes do seu amor. Há ainda uma quarta história, a mais fraca das quatro, sobre uma mulher desesperada, viciada em drogas que tenta se matar e é impedida por um enfermeiro que não aceita a eutanásia. O que me chamou a atenção foi a atriz Alba Rohrwacher, que interpreta a filha do senador. Aqui ela fala italiano e está com cabelo curto mas durante todo o filme achei que era a mesma atriz que fez o segundo filme que vi nessa mostra: Felicidade, onde ela interpreta uma moça da Macedônia que se prostitui em Berlim e obviamente fala no filme alemão e a língua que falam lá na Macedônia. Ao final do filme consultei o guia da mostra e constatei que de fato é a mesma atriz. Consultando depois no Google vi que ela é italiana e tem pai alemão e já foi indicada duas vezes e premiada outras duas com o cobiçado prêmio do cinema italiano, David di Donatello, além de ser premiada no festival de Berlim

UM ATO DE CARIDADE – Um daqueles ótimos filmes iranianos. Um casal sai pelas estradas semi desertas e montanhas geladas do Irã distribuindo aos pobres sacos cheios com milhões de notas em dinheiro vivo. Eles são educados e elegantes, o homem está com o braço engessado. A gente não sabe qual o objetivo daquela jornada aparentemente caridosa e quais os métodos e interesses deles mas o que parecia ser apenas um ato de caridade se revela aos poucos um perigoso jogo em que valores éticos e morais estão em jogo. Um filme estranho e que não sai na minha cabeça até hoje. Muitas camadas de interpretação e muitas perguntas sem resposta. Atordoante e impressionante.

KILL ME -  Uma produção da França, Alemanha e Suiça que mostra uma moça adolescente que tenta há tempos se matar mas não consegue se atirar de um precipício para se livrar de uma vida medíocre em que mora com os pais frios e insensíveis e onde ela apenas trabalha como uma empregada. A solução para seus problemas aparece na figura de um homem que foge da prisão e se esconde no celeiro da fazenda dos seus pais. Ela aceita ajudá-lo na fuga mas em troca em tem que mata-la. O homem aceita a proposta e a partir dali veremos uma fuga dos dois pelas montanhas e florestas para chegar em Marselha onde ele pretende fugir num navio para a África. Como eu imaginava ao ler a sinopse, nessa jornada a moça e o prisioneiro vão descobrir muitas coisas e reavaliar várias das suas escolhas. Um filme que mostra um lado humano muito bonito.

ALÉM DAS MONTANHAS – Uma produção da Romênia, França e Bélgica que lotou todas as salas. O filme levou a Palma de melhor roteiro para o diretor Cristian Mungiu e as duas atrizes protagonistas (Cristina Flutur e Cosmina Stratan) dividiram o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes. Aliás, o diretor romeno já havia ganho a Palma de Ouro pelo seu filme de estreia: "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias". Aqui ele conta a história de Alina, uma órfã romena que volta da Alemanha para ficar com a amiga que é a única pessoa que já amou e por quem foi amada. Mas a amiga está voltada para Deus pois se tornou freira num mosteiro ortodoxo nas montanhas e Aline descobre que competir com Deus é muito difícil. Há uma crítica ao modelo religioso ortodoxo e uma encruzilhada impossível de transpor na vida de Alina que levará a um desfecho terrível.

UM ALGUÉM APAIXONADO – Uma grande decepção que eu não esperava para um filme de um diretor do qual sou fã: Abbas Kiarostami que já dirigiu obras primas como Através das Oliveiras, Onde Fica a Casa do Meu Amigo, O Vento nos Levará e Dez, e já levou até a Palma de Ouro em Cannes por Gosto de Cereja e também o Leão de Ouro em Berlim. O que ele tinha de delicado nos filmes anteriores aqui é apenas burocrático com a história de um velho e uma prostituta. Nada acontece e nada se desenvolve. Apenas diálogos fúteis, dramas esquemáticos e personagens mais esquemáticos ainda. Um final ridículo.

MYSTERY- Um filme coproduzido pela China e França que mostra um homem que tem duas famílias e ainda trai as duas mulheres com uma amante. Essa moça morre poucas horas depois que as duas mulheres veem o homem sair com ela de um hotel. As circunstancias estranhíssimas dessa morte violenta em um atropelamento mais estranho e violento ainda vai ser investigado pelo chefe de polícia. Para ocultar esse crime há uma verdadeira rede de acobertamento. Muito bom e com final bastante coerente. Um filme que merecia uma refilmagem com um elenco mais ocidental pois a trama é bem urdida e a única coisa que incomoda é ser chinês com um tema que é universal. Dá vontade de vê-lo com atores americanos. Será que estou sendo muito etnocêntrico? Acho que não, é que estamos acostumados a ver filmes chineses com temática chinesa. Com essa temática universal fica estranho ver um filme assim falado em chinês.


HOT HOT HOT – Um dos filmes mais engraçados, senão o mais engraçado que vi na Mostra. Foi até aplaudido no final. O primeiro filme que vi de Luxemburgo, mas estranhamente é dublado em alemão o que fica estranho pois parece que é falado em inglês originalmente. Um daqueles filmes meio maluquinhos sobre pessoas estranhas. Conta a história de Ferdinand, um virgem de mais de 40 anos, introspectivo e cheio de manias e cuja vida é unicamente dedicada aos peixes do aquário em que trabalha. Sua vida dá uma reviravolta quando tem que trabalhar em um centro aquático novo em que funciona um spa cheio de saunas turco finlandesas. A nudez natural naquele ambiente choca Ferdinand que é pudico ao extremo. Mas não é que o danado acaba se dando bem e sua vida aos poucos dá uma reviravolta. Destaque para a trilha sonora repleta de óperas, jazz e belas e velhas canções que Ferdinand seleciona para tocar no spa e que encanta os clientes e os expectadores do filme. Um filme lindinho e que lava a alma. 

26.10.12

MEUS 10 ANOS DE MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO


Aqui estou, no meu terreno sagrado, minha definição de liturgia: a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Definitivamente, cheguei à conclusão depois de dez anos frequentando as salas de cinema da Mostra, de que esta é a melhor coisa que faço a cada ano. O ambiente que respira cinema é como oxigênio puro para mim. Não há nada que se compare à orgia cultural que São Paulo oferece, principalmente quando, além da Mostra, há a Bienal de Artes e tantas peças de teatro imperdíveis. O dia deveria ter 48 horas para poder aproveitar tudo. 

Bem, já estou há 7 dias na Mostra e só agora arranjei tempo para escrever. Hoje me preparo novamente para a maratona que deve começar com um filme às 14h e terminar com o quinto filme que começa a meia noite terminando às 2 da madrugada.

A Mostra continua com a mesma cara, apesar da morte, no ano passado, do seu organizador nesses anos todos: Leon Cakoff. Mas sua companheira de anos, Renata de Almeida, tem tocado o barco direitinho, sempre com o patrocínio da Petrobrás. Este ano, como sempre, um cineasta foi escolhido para fazer o cartaz da Mostra. Essa é uma ideia interessante porque ficamos desde o cartaz (que envolve catálogos, vinhetas, guias, canecas, blocos de anotações, camisetas etc.) envolvidos pela atmosfera de cinema. Este ano, o cineasta escolhido foi Andrei Tarkóvski, que fez uma opção para o cartaz bastante parecida com o tipo de filme que ele faz. 

Também há retrospectivas e homenagens ao próprio Tarkóvski a aos cineastas Sergei Loznitsa e Minoru Shibuya (não me perguntem quem são, pois nunca tinha ouvido falar deles. O público mais cinéfilo radical é que sabe quem eles são. Os filmes deles parece que são meio obscuros). A Mostra tem dessas coisas. Todo ano escolhe uns cineastas assim para homenagear ao lado dos figurões. Isso tem seu lado bom, pois traz  para o grande público gente mais ousada e fora do circuito, mesmo o circuito de arte. Tem também algumas apresentações especiais de filmes restaurados e como todo ano, uma apresentação gratuita de um filme mudo ao vivo no Parque do Ibirapuera, acompanhado pela orquestra sinfônica da Petrobrás e coro, regidos pelo maestro Pierre Oser. O ano passado foi o filme Metrópolis e este ano é o  clássico Nosferatu.

Como sempre digo, a maior angústia de um cinéfilo que tenta acompanha a mostra é muito menos escolher os filmes que irá ver, mas selecionar os que irá perder, afinal são 350 longas e inúmeros curtas em 30 salas de cinema espalhadas por São Paulo. Com tantas opções, vemos muitas vezes os nossos filmes selecionados chocando horários, salas com lotação esgotada e mudanças de programação que fazem com que os frequentadores andem de um lado para o outro com o caderninho de anotações todo rabiscado fazendo malabarismo para encaixar os filmes nos horários disponíveis. 

Uma das coisas chatas da Mostra é que com tanto filme para passar e em tantos locais, é necessária uma logística muito boa, pois ainda tem a questão das legendas eletrônicas já que muitos filmes são falados numa língua, com legenda em outra e que precisam de uma segunda legenda eletrônica em português. É muito chato quando um filme atrasa pois muitas vezes se faz uma programação fechadinha como por exemplo 5 filmes e o começo de cada um deles está ligado ao final do anterior. Se forem na mesma sala não tem problemas pois se o anterior atrasa o seguinte irá atrasar também mas se forem salas diferentes muitas vezes a opção é sair do filme anterior antes do fim ou pegar o filme seguinte já começado ou pedir a devolução do dinheiro.

A Mostra é um ambiente em que vemos os mesmos tipos todos os anos. As pessoas já se conhecem pelo nome e trocam opiniões o tempo  todo. Sempre tem alguém falando se o filme x é bom ou ruim etc. Isso muitas vezes ajuda a escolher e eu mesmo já me peguei pedindo opinião a estranhos ou a velhos conhecidos de outras mostras. O ruim é quando alguns mais exaltados, e tem muitos desses, resolvem falar aos berros como se todos fossem surdos. Nessas horas me amaldiçoo por  não ter trazido meu MP3.

Algo que me incomoda um pouco é quando o filme acaba de terminar e sempre tem alguém perguntando ao vizinho: “Gostou?”. Por essas e outras é que gosto de ver um filme sozinho pois, muitas vezes eu não sei se gostei ou não do filme assim que ele acaba. Muitas vezes ele continua a passar em minha cabeça e eu posso sempre passar a entender certas nuances depois do fim. A história vai sendo digerida e assimilada aos poucos. Cinema devia ser considerado um prazer solitário e deviam fazer salas apenas para pessoas desconhecidas. Nessas salas, certamente paulistas, deveria haver uma placa com a frase de Nelson Rodrigues alertando: “A pior solidão que existe é a companhia de um paulista”. Não se pode dizer isso dos baianos, para quem não existe solidão, pois sempre haverá algum interativo por perto para reclamar atenção.

Pois bem, depois de seis dias de Mostra aqui vai o meu saldo parcial: 17 filmes vistos. Numa média aproximada dá quase 3 por dia. Espero melhorar essa média nos próximos dias mas ainda não fui a qualquer teatro nem na Bienal então não garanto....

Os três primeiros filmes foram coincidentemente alemães e girando em torno da temática do amor de um homem por uma mulher com algum nível de estranheza entre eles.

BRUTAL conta uma história bastante seca sobre a relação de um rapaz de 15 anos que vive em uma pequena vila rural da Alemanha. Uma artista conhecida de 43 anos aparece naquele local isolado para escapar de uma relação que terminara e para descansar. O encontro desses dois é recheado por atração mútua, estranhamento e uma forte carga de tensão sexual. O rapaz não é bem visto pela família nem pelos amigos e a artista sofre rejeição da comunidade. Ambos são seres carentes de afeto e ela decide roubar o rapaz da sua família. Algo que tinha tudo para dar errado, revela-se, de algum estranho modo, promissor quando ela, uma mulher dura como pedra, acostumada a fazer os homens sofrer, revela ao garoto que nunca soube como dar amor para ninguém. E pede, com genuíno desejo, que ele a ajude. É a cena final, crua, sim, seca, sem dúvida, mas é alguma luz, mesmo fria, num inverno de possibilidades.

FELICIDADE - O segundo filme alemão é também a história de um casal diferente. As primeiras cenas são de um lirismo arrebatador. Imagens de uma família (pai, mãe e filha jovem) numa aldeia da Macedônia, cuidando dos carneiros, preparando potes de mel, tomando banho de rio ou comendo numa mesa de jantar. Tudo belíssimo com fotografia e trilha sonora perfeitas. Imagens que de tão bonitas chegam a quase congelar na tela como um quadro. Mas aos poucos tudo isso se transforma quando a guerra atinge aquela aldeia. Mortes, estupro e desgraça. Irina, a moça, é violentada por vários soldados em frente aos corpos dos seus pais e deixada para morrer. Ela foge e logo a vemos se prostituindo nas ruas de Berlim. Eis que ela conhece Kalle, um jovem e belo punk alemão. Esses dois seres acabam descobrindo o amor e farão de tudo para defender o que conquistaram. Constroem um apartamento para eles e o amor é tão forte que os fará sobreviver a tudo. E tudo ameaça desabar quando um cliente de Irina morre enquanto faz sexo com ela. Em pânico ela não sabe o que fazer quando Kalle chega em casa e encontra o morto. O que ele decide fazer é a maior prova de amor que ele será capaz por alguém. Há uma cena especialmente bonita ao som de Non, je ne regrette rien, na voz de Edith Piaf. Um final redentor para alegrar todos os corações.

MAR DA ESPERANÇA foi o terceiro filme alemão também com um fundo sobre o amor de um casal diferente:um jovem estivador alemão oriental, Cornelis, e uma jovem vietnamita nos anos 80 antes do fim do comunismo na Alemanha Oriental. Cornelis e Andreas são dois amigos que sonham o impossível na época: deixar o país. Pensam em fugir pelo mar e se empregam num estaleiro, mas acabam sendo cooptados pela temível Stasi, a polícia secreta alemã e para fugir precisam dedurar um dos seus colegas para a polícia. Tudo desanda e fica cada vez mais dramático quando Cornelis volta atrás no plano e foge com a vietnamita pela fronteira Tcheca. Ele é capturado e ela escapa. Enquanto isso, o amigo Andreas se torna colaborador e fará de tudo para sobreviver, nem que tenha que denunciar o amigo, separar o casal e manipular a todos. Um filme com roteiro bem amarrado, com doses certas de tensão. Quem não gosta de uma boa história de amor impossível que luta contra tudo e contra todos para sobreviver?

A ÚLTIMA AMBULÂNCIA DE SÓFIA - Taí  um filme a que eu poderia muito bem não ter assistido. Uma produção da Alemanha, Bulgária e Croácia que mostra uma cidade com pouquíssimas ambulâncias para atender a 2 milhões de pessoas e a rotina de dois paramédicos que fazem de tudo para salvar vidas. A sinopse, quando li, parecia interessante, mas o diretor fez uma opção muito antipática, talvez querendo ser estiloso: o filme inteiro é mostrado apenas com closes no casal de médicos e no motorista da ambulância. Nem original é, pois Abbas Kiarostami já fez isso muito melhor em seu filme “Dez”. Não há música e os diálogos são ridiculamente banais. Nenhuma vez há uma tomada externa da ambulância ou dos pacientes atendidos. Se fosse apenas um pudor de não mostrar os pacientes eu até entenderia, mas não mostram os interlocutores, sejam policiais, enfermeiros ou familiares dos pacientes. É irritante, exaustivo e faltando dez minutos para acabar deixei a sala pois, felizmente, tinha um filme que ia começar naquele momento e para o qual eu já tinha comprado o ingresso. 

ARCADIA – Um filme americano, um road  movie em que um pai e seus três filhos empreendem uma longa viagem de carro de vários dias até a cidade de Arcadia, na Califórnia. Eles estão de mudança, mas a mãe não está presente. A filha do meio, de 12 anos, decide descobrir o que houve com a mãe e torna a viagem uma via crucis para todos, tanto o pai quanto a irmã mais velha e o irmão mais novo. A cada dia a tensão fica maior até que eles chegam à Califórnia a trancos e barrancos e a verdade vem à tona. Um filme que mostra como é difícil ser pai de adolescentes.

CRIANÇAS DE SARAJEVO- Um filme que é uma coprodução da Bósnia-Herzegovina, Alemanha, França e Turquia e é o candidato da Bósnia ao Oscar de filme estrangeiro. Uma história de luta de uma moça de 23 anos, para criar o seu irmão de 14,ambos órfãos da guerra da Bósnia. Vivendo em Sarajevo em uma época em que a guerra abriu um fosso moral e aqueles que lutaram na guerra para defender o país não encontram acolhida na sociedade que busca o lucro e a exploração. Um incidente infeliz na escola põe os irmãos em conflito e a irmã fará de tudo para unir o resto de família que lhe resta, enfrentando a todos para proteger o irmão que não está ajudando, mas aprofundando um fosso e ameaçando ser recolhido pelo serviço social já que flerta com a marginalidade. Um filme humano dentro dos limites do que o humano pode ser.

BERGMAN & MAGNANI: A GUERRA DOS VULCÕES – Um documentário italiano bastante interessante apesar de curto, apenas 62 minutos, mas agradável para quem gosta da história recente do cinema. O documentário recupera imagens de dois filmes feitos na mesma época (1950) na Itália e nas mesmas ilhas: Vulcano, com Anna Magnani, que tinha acabado de se separar de Roberto Rossellini, e Stromboli, filme que marcou o relacionamento de Ingrid Bergman e Rossellini. O documentário traz material de arquivo sobre o amor da atriz mais famosa do mundo (Ingrid Bergman), que era casada com um sueco, o diretor internacional mais admirado por Hollywood na época (Rossellini) e a atriz mais querida da Itália (Magnani). Foi por conta dessa relação que Bergman acabou com seu casamento e foi praticamente banida de Hollywood. O interessante é que ambos os filmes foram mal vistos e a imprensa italiana também se ressentiu do abandono de Magnani por Rosselini. E foi uma grande pena, pois ambos tinham feito filmes memoráveis juntos como Roma Cidade Aberta e ganhado prêmios internacionais. As cenas do documentário mostram os bastidores das duas filmagens que foram feitas simultaneamente para competirem uma com a outra como as duas atrizes competiram pelo amor do diretor.

OS SELVAGENS- Esse foi um filme argentino bastante cotado e elogiado pelos jornais que me lembrou o filme O Senhor das Moscas. Um grupo de cinco adolescentes infratores escapa de um reformatório numa região isolada. Na fuga matam pessoas e empreendem uma jornada trágica pela região inóspita. Durante dias andam muitos quilômetros a pé, atravessam montanhas e rios em busca de um lar. Caçam, matam, usam drogas, brigam e fazem sexo. Aos poucos a irmandade vai se esfacelando e resta a solidão e o desespero. Um filme sem redenção possível, ou pelo menos não sem sacrifício extremo.

DOM-UMA FAMÍLIA RUSSA – Um filme russo com uma história de uma família extremamente trágica. Como dizia o russo Liev Tolstói em Anna Karenina: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira". E é exatamente isso que este filme retrata: uma família russa que vive isolada num casarão numa estepe com um pai cruel e violento, eles se encontram para uma festa familiar, o aniversario do avô. Alguns dos filhos estão ausentes há 25 anos. Muitas tensões, conflitos e brigas vêm à tona e o filho mais velho está fugindo de um passado e de assassinos perigosos. Tudo isso vai acumulando uma tensão tremenda que leva a plateia a imaginar o pior. E o pior é pouco. Esses russos nunca decepcionam.

ESTUDANTE – Fui assistir a este filme do Cazaquistão por duas razões, a primeira pela sua nacionalidade pois não lembro do último filme do Cazaquistão que eu vi (Tulpan, que ganhou uma vez a Mostra é de lá mas eu não vi). O segundo motivo foi que a sinopse dizia ser inspirado ou baseado em Crime e Castigo de Dostoiévski. Um erro. Se o filme se baseia na novela russa está anos luz de atingir um milésimo do seu valor. Já vi outros filmes melhores inspirados em Crime e Castigo como o brasileiro Nina, de Heitor Dhalia com Guta Stresser e a grande Myriam Muniz (seu último trabalho).  Sem falar em Match Point, de Woody Allen. Aqui a história de um estudante de filosofia sem nome que aluga um quarto no porão de uma mulher e pela falta de dinheiro assaltar uma loja e mata duas pessoas. Como a sensação de culpa é grande ele acaba se entregando. Ocorre que não sei se os atores são muito ruins ou a escola de interpretação do Cazaquistão é diferente daquela a que nós estamos acostumados, mas o ator principal tem cara de paisagem o tempo todo. Não é nem de longe indicado para demonstrar surpresa, culpa, remorso, covardia, audácia, medo ou qualquer sentimento que não seja o de um autista em crise catatônica.

PERNAMCUBANOS - O CARIBE QUE NOS UNE – Um documentário brasileiro e cubano que mostra as identidades culturais, musicais e religiosas africanas que unem Cuba e Pernambuco. É  um documentário sob os olhares de uma atriz de teatro cubana e de uma mãe de santo pernambucana, uma visitando o país da outra. Não vi nada demais, um documentário bem bobinho e banal que não acrescenta nada ao que eu já sabia. Perda de tempo, mas não de dinheiro pois recebi o ingresso de graça já que aparentemente o filme foi apresentado para ocupar o espaço de outro que não pode passar e como eu tinha uma hora vaga entre dois filmes aproveitei a oportunidade mas como dizem que nada de graça vale à pena...

PERDER A RAZÃO- Uma coprodução da Bélgica, Luxemburgo, França e Suíça. Esse filme, que até agora foi o que mais gostei na Mostra, me interessou não apenas pela sinopse, mas por ser do diretor e roteirista Joachim Lafosse, que me impressionou muito na 32ª Mostra com o polêmico filme Lições Particulares em que tratava do tema da pedofilia com um olhar muito ousado. Aqui temos uma pequena história de terror familiar. Um drama trágico que se anuncia logo no começo. Na verdade fiquei até o final me perguntando porque o diretor optou por antecipar o desfecho do filme, perdendo assim a força da surpresa. No final entendi que a ideia era exatamente mostrar uma tragédia anunciada e para que ninguém pudesse depois dizer que a decisão final foi exagerada.  Aqui temos a história de um casal apaixonado, mas o rapaz vive há anos com um médico que lhe proporciona uma vida confortável, já que se casou com a irmã marroquina desse rapaz para que ela tivesse cidadania belga e também adotou o moço. Quando os jovens se casam e têm quatro filhos em sequência, a dependência do médico passa dos limites e a generosidade vira opressão. Em uma profunda crise emocional, a mãe é vítima de uma arapuca que a leva a uma atitude desesperada. Um final chocante mas, como disse, uma tragédia anunciada.

MEU AMIGO CLÁUDIA- Normalmente sou refratário a documentários mas este brasileiro valeu à pena, tanto que até agora foi o único filme que vi que foi aplaudido no final. Tudo bem que tinha muita gente militante na plateia, pois o filme é sobre a ativista, atriz, cantora e travesti Claudia Wonder, que nos anos 80 foi uma grande agitadora cultural em São Paulo. Por meio de entrevistas da própria Cláudia e depoimentos de pessoas que conviveram com ela antes da sua morte, como Glauco Matoso, Grace Gianloukas, José Celso Martinez, Kid Vinil, Leão Lobo e Sérgio Mamberti, o filme mostra a efervescência criativa dos anos 80 antes da era Collor. Cláudia fez de tudo, de filme pornô a prostituição, de show de transformista a shows performáticos com uma banda de rock punk em que cantava como uma louca no estilo Lou Reed e terminava tomando banho nu(a) em uma banheira com “sangue” numa época em que o sangue passou a ser uma substância maldita em plena era da AIDS. Discussões interessantes sobre liberdade sexual, drogas, música, comportamento e política. Um panorama importante do que o Brasil passou nessas áreas nos últimos 30 anos. Saímos do filme com a sensação de que hoje somos mais caretas, menos ousados e culturalmente mais pobres e sexualmente mais reprimidos do que já fomos. O título do filme é o título de uma crônica de Caio Fernando Abreu que catapultou Cláudia Wonder para o topo da vida cultural antes do seu ostracismo e morte.
QUANDO VI VOCÊ - Coprodução da Palestina e Jordânia conta a história dos refugiados palestinos na  fronteira da Jordânia em 1967 no auge do conflito com Israel. O filme pode estar no Oscar de filme estrangeiro deste ano já que é o quinto título escolhido para representar a Palestina na disputa pelo prêmio de Hollywood. Aqui vemos o garoto Tarek (alter ego da diretora que esteve nas mesmas condições) que vive com a mãe num campo de refugiados pois perderam a terra em que viviam durante a guerra com os israelenses. O menino é brilhante em matemática, mas não consegue ler e está sempre à espera do pai que nunca chega. O menino não se acostuma à vida no acampamento principalmente quando descobre que há refugiados ali há 20 anos. Foge para encontrar o pai e no caminho encontra os guerrilheiros palestinos com quem passa a viver. Há uma cena que pode ser considerada antológica quando os guerrilheiros dançam e a câmera focaliza seus coturnos e em seguida, numa brilhante fusão, as mesmas botas estão em plena marcha com o mesmo ângulo da câmera. A opção de mostrar a guerra pelo olhar de uma criança já foi usada por vários diretores como Spielberg em Império do Sol e por Louis Malle em Adeus Meninos, o que humaniza o conflito, mas arrefece o alcance do drama. Como disse a Folha, a cena final é um momento dos mais bonitos do cinema atual, termina melhor do que o próprio filme. Apesar do final aberto, como dizem que nenhuma cena de cinema é à-toa, tive a impressão de que o fato de o menino ser exímio em matemática não terá sido em vão e terá um papel importante  no seu destino. 

RENOIR - Um filme francês que conta os últimos dias do pintor Auguste Renoir na Côte d'Azur durante a 1ª Guerra Mundial. Renoir perdera a esposa, sofria com forte artrite que dificultava sua pintura e seu filho Jean fora ferido na guerra. Uma bela jovem, Andrée, aparece para ser sua modelo e traz uma fonte de rejuvenescimento para Renoir. O filme mostra a fase áurea das belíssimas pinturas de Renoir ao ar livre em pleno período impressionista. Quando o jovem Jean volta da guerra também se apaixona pela modelo do pai. O filme é interessante por mostrar também a juventude de Jean Renoir, filho do grande pintor que viria depois a se tornar um cineasta famoso cujos filmes são considerados hoje obra máximas da arte cinematográfica, conforme declarou Orson Welles.  Suas maiores obras foram A Regra do Jogo e A Grande Ilusão, sobre a vida dos prisioneiros franceses e seus captores alemães durante a I Guerra Mundial.

SILÊNCIO NA NEVE- Esta coprodução da Espanha e Lituânia me interessou pela sinopse e não me decepcionou. Um batalhão espanhol durante a 2ª guerra está do lado dos alemães contra os russos e encontra um esquadrão de cavalaria congelado num lago. Um dos corpos tem a garganta cortada e na pele está escrito com sangue: “Cuidado, Deus está te vigiando!” Um  soldado ex-inspetor de polícia, se encarrega do caso e prossegue com a investigação até descobrir que todos são suspeitos. Há um serial killer matando soldados? Outras mortes aparecem do mesmo modo. Há um segredo que todos querem guardar e o investigador descobrirá de qualquer modo. O interessante é a tentativa de descobrir o responsável por um crime em plena frente de batalha onde tantas mortes acontecem a todo instante. Lembrou-me um episódio de Law and Order ou um filme de detetive transportado para a frente russa da 2ª Guerra. Um final frio e sombrio como a paisagem e as circunstâncias. Um ótimo trabalho.


REALITY- Assisti a este filme por sorte pois a sessão estava quase esgotando de tanto que ele era aguardado. Uma produção da França e Itália que conta a história de Luciano, um peixeiro napolitano meio golpista. Ele é bonito, simpático, comunicativo e tem uma bela esposa e uma família divertida. Encorajado pelos três filhos ele se inscreve em um reality show italiano, o Gran Fratelo, cópia do Big Brtother. E aos poucos na atmosfera da espera pelo chamado para o show ele começa a perder o senso de realidade. O diretor Matteo Garrone é o mesmo de Gomorra e o filme venceu o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes. O interessante é que o ator principal é extremamente carismático, mas é um presidiário na vida real, um pistoleiro da máfia napolitana condenado a prisão perpétua e que recebeu licença especial para atuar  nesta produção.

12.9.12

Intocáveis


Quatro ótimos filmes franceses estão em cartaz atualmente em Salvador. São eles: Intocáveis, Para Poucos, Um Verão Escaldante e Polissia.

Hoje falarei do primeiro, que acaba de se tornar o filme francês mais visto no mundo, superando o recorde anterior que era de O Fabuloso Destino de Amelie Poulin com 23 milhões de expectadores.

Pois Intocáveis já foi visto por mais de 25 milhões de pessoas. Mais de 200 mil delas só no Brasil. Trata-se de um filme simplesmente irretocável. Aquele tipo de película em que, por mais que a gente queira, não encontra um único defeito.

Trata-se de uma comédia, mas ouso dizer que falar isso é muito pouco, pois corre-se o risco de fazer associações com bobagens fabricadas em série para levar o público ao riso fácil. Aqui a coisa é muito mais sutil e inteligente, sem perder a leveza e o bom humor. E olhe que não sou chegado a comédias francesas, sinto que há um timming diferente, sei lá. Mas aqui dou o braço a torcer. Intocáveis é simplesmente um filme perfeito.

O que pode sair da ligação de um negro pobre, imigrante senegalês, morador dos tumultuados subúrbios de Paris, caldo de cultura de conflitos sociais e um  milionário branco e culto? E quando esse milionário é um tetraplégico que precisa de cuidados permanentes e este inculto imigrante não tem o menor tato, talento ou preparo para cuidar desse homem? O que pode sair dessa mistura? E quando ficamos sabendo que a história é baseada em fatos reais a coisa fica ainda mais interessante.

Aqui, o negro é Driss, interpretado pelo excepcional ator Omar Sy, enquanto o branco é Philippe, papel de François Cluzet. O que Driss tem de físico, performático e exuberante, Phillipe tem de contido e introspectivo. Driss dança, canta, exala sensualidade e gargalha. Phillipe, estático, observa, e ambos, surpreendentemente, diante da barreira de intolerância que construíram para eles, extraem dessa relação improvável, praticamente impossível, um sopro de novidade na monótona vida do ricaço Phillipe e no beco sem saída, à beira da marginalidade, que se tornou a pura sobrevivência sem expectativas da vida de Driss.

O destino ligou esses dois homens em um momento especialmente sensível da vida de ambos já que cada um atravessava, por razões próprias e totalmente distintas, por exaustões ligadas às suas condições psicológicas, sociais ou materiais. E o filme extrai o humor (e jamais o humor negro ou escatológico) justamente das improváveis e dramáticas circunstâncias que os une.

Faço menção especialmente honrosa à opção dos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano em abrir o filme com uma inspirada, insana e divertida cena que mostra que os dois homens já desenvolveram uma ligação pessoal. Louvável, porque se o filme vai mostrar o progresso dessa relação, óbvio seria narrar do começo até o fim, mas, já que sabemos que eles vão se tornar amigos, porque não abrir o filme já com um momento adiantado da amizade para em seguida narrar como ela foi construída? Bela sacada.

Intocáveis, facilmente poderia apelar para clichês, mas nunca o faz, não cede ao fácil e ao previsível. É exatamente nas deficiências que a relação desses homens é construída e é realmente tocante quando vemos como um, aos poucos, vai influenciando e enriquecendo o universo do outro.

E são tantas e tão tocantes as interfaces em que a vida desses dois homens se interrelacionam, que passamos a nos deliciar na expectativa de cada vez novas e inúmeras facetas que eles descobrem. E essa descoberta comum (nossa e deles) deixa-nos fascinados, pois é como se fôssemos os cúmplices do desvendar de dois verdadeiros continentes humanos, com todas as suas fraquezas, frustrações e tantas possibilidades inexploradas ainda a serem desvendadas. Mundos inteiros buscando talvez aquilo que Guimarães Rosa chamava de "felicidade, que se acha em horinhas de descuido".

Sinto-me completamente incapaz de selecionar uma única cena memorável, pois todo o filme é como se fosse uma única cena perfeita, como uma sinfonia em que sequer uma nota está fora do lugar.

Não deixe de se deliciar com essa verdadeira história de amizade entre dois homens que descobrem que só têm a ganhar aceitando suas fraquezas, aprendendo a valorizar o que o outro tem de rico e percebendo como pode ser bom e fácil ajudar um amigo. E você ainda de quebra dá boas gargalhadas com isso.

O que você pode querer mais? 

6.9.12

Joias orientais nas locadoras



As locadoras de DVD possuem vários tesouros escondidos nas suas prateleiras. Na verdade, essas preciosidades não estão exatamente escondidas, já que estão bem visíveis, ao lado de milhares de filmes de praticamente todos os gêneros. Destaco 11 joias que fazem parte do meu gosto pessoal. Nem todos são do agrado da maioria mas, se eu fosse você, tentaria dar uma chance e ver a beleza desses filmes. São joias do leste. 11 belíssimos filmes de diretores orientais.


Quatro diamantes lapidados de Hong Kong- O diretor Wong Kar-Wai é, definitivamente, meu cineasta preferido. Pouco reconhecido no Brasil, suas obras são repletas de poesia, lirismo, beleza e desencanto. Quase sempre tratando dos dramas do amor, as locadoras têm do diretor ao menos quatro joias.

Amor à Flor da Pele -  Um editor de jornal descobre que sua esposa tem um caso com o marido de uma vizinha. Após o choque, o casal traído acaba se envolvendo emocionalmente em um crescendo de lirismo. Uma delicadeza extrema, uma trilha sonora arrebatadora e uma câmera lenta que é a mais fina poesia cinematográfica.
Felizes Juntos é um belíssimo road movie em que dois homens chineses procuram na cidade de Buenos Aires uma redenção, uma esperança para o fim do seu relacionamento amoroso, para o fim do afeto e da paixão que os unira em algum momento. Trilha sonora repleta de tangos de Astor Piazzolla e Frank Zapa e a marca registrada do diretor, uma câmara lenta encantadora. Uma curiosidade é a voz melodiosa de Caetano Veloso subitamente com a canção Cucurucucu Paloma.
Cinzas do Passado – Mais uma vez Kar-Wai conta histórias de amor não correspondido. Fala sobre como se pode perder chances na vida e o sonho de querer recuperar essas chances perdidas. A crítica é unânime em considerá-lo uma obra de narrativa genial sobre um espadachim que ganha a vida contratando assassinos de aluguel. Impiedoso e cínico, seu coração há muito tem sido ferido por um amor que ele negligenciou e perdeu. Sua solidão é a memória. Fotografia deslumbrante e imagens arrebatadoras.
Um Beijo Roubado foi o primeiro filme de Kar-Wai rodado nos Estados Unidos com elenco americano. Ao contrário dos três acima citados e de outros filmes do diretor de Hong Kong, não tem a participação do seu ator fetiche Tony Leung. Aqui vemos Jude Law, Norah Jones e Natalie Portman envolvidos novamente na obsessão suprema do diretor, a paixão, a desilusão e a busca permanente e incorrigível e do amor. Trilha sonora com canções sublimes interpretadas pela própria cantora e atriz Norah Jones e por belíssimos blues.


Três pérolas da Coréia -  Old Boy, Mr. Vingança e Lady Vingança são três filmes do diretor sul coreano Park Chan-Wook e formam a trilogia da vingança. Películas sofisticadas e visualmente elaboradas com uma visão pessoal, rica, esteticamente única e premiada. Os três filmes foram bastante premiados pelo mundo inteiro, mas no Brasil o diretor ainda é estranhamente esnobado. Os três filmes são ao mesmo tempo líricos e perturbadores, belos e amargos, chocantes e visualmente espetaculares. Veja os três na ordem em que foram produzidos.

Old Boy é um homem que foi sequestrado e é solto após 15 anos preso sem qualquer explicação. Sua vingança deve ser realizada em cinco dias, o tempo que ele tem para capturar seu seqüestrador. Mas as coisas são muito mais complicadas do que ele pensava. O espectador jamais imagina o que o espera.
Mr. Vingança é um surdo-mudo que cuida da irmã que necessita urgentemente de um transplante de rim. Ele é demitido e enganado em uma negociação em que perde o próprio rim Ao seqüestrar a filha do ex-patrão, gera uma espiral de violência e vingança.
Lady Vingança é a jovem de 19 anos presa injustamente pelo assasinato de uma criança. Na prisão ela conquista a confiança das companheiras e prepara sua vingança contra o verdadeiro assassino. Após 13 anos de prisão ela está pronta para colocar seu plano em prática com a ajuda de uma ex-colega de cela.






Três esmeraldas japonesas - Do renomado diretor Takeshi Kitano aqui estão três joias
Dolls conta três histórias diferentes sobre amor eterno: Ligados por uma corda vermelha, um casal jovem vagueia em busca de algo perdido. Um mafioso no final da vida retorna ao parque onde se encontrava no passado com a sua namorada a quem jurou amor eterno. Uma estrela pop desfigurada vê-se surpreendida pela devoção do seu maior fã. Um magnífico filme repleto de simbolismos sobre o amor verdadeiro e o sentido da vida.
Zatoichi conta a história de um império governado pelo medo em que um samurai cego e nômade é a única esperança do povo. Uma resposta aos vários filmes recentes que adotam o estilo chinês de filmar artes marciais em que a beleza estão na agilidade e nos voos impossíveis. Para Kitano, a poesia está na precisão que beira a imobilidade. Até as gotas de sangue das vítimas parecem resistir à gravidade. Kitano reforça aqui o que mostrou em Dolls: seu olhar apurado para a composição e para as cores.
Hana Bi- Fogos de Artifício - O próprio Kitano interpreta um policial cujo melhor amigo foi vítima da máfia e cuja mulher sofre de leucemia. Ele quer vingar o amigo e, ao mesmo tempo, viajar com a mulher para aliviar sua dor. Duelam dentro de si a violência e o lirismo humano. Uma metáfora entre o mundo ideal contra o mundo real. Foi o vencedor do Leão de Ouro de Veneza como melhor filme e recebeu o prêmio da crítica na 21ª Mostra de São Paulo. 

Um rubi chinês
Balzac e a Costureirinha Chinesa - Do diretor Dai Sijie. Dois jovens de 17 anos nos anos 70 da China comandada por Mao Tsé-Tung. Como os seus pais são intelectuais, eles são considerados inimigos do povo e burgueses reacionários sendo encaminhados para um campo de reeducação em uma vila isolada no Tibet. Lá os amigos conhecem uma costureirinha por quem ambos se apaixonam. Os três vão desafiar as regras lendo livros proibidos de Flaubert, Tolstói, Victor Hugo e Balzac. Uma ode ao amor, à amizade, à liberdade e à literatura.

2.9.12

"Carnaval" no Sul do Chile - Parte 3


Visitamos duas cidades do litoral do Chile: Valparaíso e Viña del Mar. Separadas por apenas uma rua, Valparaíso é tombada pela UNESCO e foi um porto importante no passado, antes da construção do Canal do Panamá, por onde todos os navios que iam do Pacífico para o Atlântico (e vive versa) tinham que parar. Foi muito rica e desenvolvida, mas depois caiu na pobreza e hoje é a cidade com maior índice de desemprego do Chile. Tem certo orgulho do passado, mas é uma cidade de muitos contrastes com um porto depauperado e muitas casas dependuradas e construídas sobre os morros que cercam a costa.

Viña del Mar, por outro lado, apesar de ter a mesma população de Valparaíso, é rica devido aos cassinos e à economia mais aquecida e turística. As duas cidades têm belíssimas vistas uma da outra e da enorme baía que as separa.

Embarcamos para uma pequena cidade turística no sul do Chile: Puerto Varas, localizada à beira do imenso lago Llanquihue, o terceiro maior do continente. Ficamos em um hotel lindo, o Cabañas del Lago, em um quarto grande com uma linda vista para o lago e para o grande vulcão Ozorno, em forma de um cone perfeito com o cume coberto pela neve.

Fizemos um belo passeio até o Lago Esmeralda, cujas águas têm a cor daquela joia e seguimos até o meio do vulcão Ozorno, numa estação de esqui onde almoçamos. Subimos num teleférico, em cadeirinhas dependuradas no vazio, atravessamos as nuvens acima de dois mil metros de altura ladeando toda a encosta de bassalto negro da montanha, de onde apreciamos a mais linda vista da infinita cordilheira que tocava o céu, lagos gigantescos azuis-turquesa e outros vulcões que pontilhavam a paisagem naturalmente mágica.

Em nenhum momento, lembramos de algo de nome Carnaval.  Escapamos de novo!

"Carnaval" no Sul do Chile - Parte 2


Passei quatro noites em Santiago e quatro outras no sul do Chile juntamente com minha mãe e uma prima. Era a segunda vez que as resgatava dos horrores do carnaval baiano.

Na primeira manhã fizemos o clássico city your e fiquei feliz em descobrir que Santiago é uma cidade limpíssima, extremamente organizada, cheia de praças, parques, jardins, museus e igrejas e muita história de um povo educado, hospitaleiro e muito orgulhoso. Fiquei impressionado com a riqueza cultural de um país que já teve dois prêmios Nobel de Literatura (Pablo Neruda e Gabriela Mistral). O Brasil ainda tem zerinho.

Além desses dois importantes escritores, o Chile ainda é a pátria de Isabel Allende e de Violeta Parra, autora da famosa canção Gracias a la Vida. Apesar de exaltar a vida na letra da música, ela se matou em 1967, em razão de problemas amorosos e fracassos artísticos.

Santiago tem o primeiro jornal da América Latina e ainda está em atividade, e também foi a cidade que teve a primeira linha de trem do continente. O país tem taxa de analfabetismo de 3%, desemprego em 7%, inflação de 4% ao ano e salário mínimo de 350 dólares. Chegamos no dia em que acabaram as férias escolares e me chamou a atenção que o fardamento dos estudantes é o mesmo, sejam de escolas públicas ou particulares. Uma forma de evitar qualquer discriminação. Todos os meninos usam gravatas como parte do uniforme. Na foto acima estou ao lado da escultura El Caballo Gordo, a única do escultor colombiano Ferando Botero em Santiago

A cidade sofreu há um ano com um terremoto que deixou milhares de mortos no país. Ainda se vê o resultado do sismo em casas e edifícios com rachaduras e reboco partido. Pelo que nos contaram, pior ainda do que o terremoto foi o tsunami que varreu cidades litorâneas inteiras deixando um rastro de destruição.

Vimos a troca da guarda do Palácio de La Moneda (bombardeado em 1973 quando Pinochet, com apoio norte-americano, derrubou Salvador Allende). Durante a troca da guarda notei que eles têm o cuidado de manter um lixeiro de prontidão com uma pá, uma vassoura e uma lixeira com rodinhas para o caso de os cavalos da guarda defecarem durante a cerimônia.

        Conhecemos o Parque Metropolitano de Santiago, localizado numa grande montanha arborizada, com piscinas públicas, zoológico e muita área de lazer e pistas de corrida. Do alto, tivemos uma visão panorâmica de toda a cidade que se localiza num enorme vale entre a Cordilheira dos Andes e outra cordilheira, a da Costa, que a separa do Oceano Pacífico

"Carnaval" no Sul do Chile - Parte 1






Escrevi alguns capítulos sobre minha  viagem para Paris onde enfrentei duas semanas de frio de rachar. O que não contei é que emendei aquela viagem com outra para o Chile, que me livrou, pelo menos neste ano, do mais grotesco espetáculo da Terra: o Carnaval baiano.

No voo da Air France que me trouxe para São Paulo, e onde fiquei apenas uma noite antes de embarcar para Santiago, me sentei numa daquelas cadeiras do corredor da fileira do meio. Do outro lado do corredor, sentados em duas das três poltronas disponíveis, um baiano na janela e uma uruguaia no corredor com um assento vazio entre eles. 

A partir de um determinado tempo comecei a ouvir a voz grave, metálica, alta e irritante do baiano que puxava conversa com a uruguaia. Ela teve que parar de ver o filme a que assistia para dar atenção ao baiano que falava como uma matraca. Até eu estava incomodado com aquela voz chatíssima, mesmo com meus fones de ouvido no volume máximo, imagino a moça. Ela demonstrava que queria ver o filme, mas o chato não notava e contava detalhes da sua vida, histórias intermináveis das suas viagens, minúcias de fatos tão banais que precisavam de muito para beirar o irrelevante.

Fiquei pensando como ajudar a moça e me poupar daquele incômodo. Ele tinha uma expressão de cachorro, um rosto inexpressivo e a moça era bela e educada. Como é que algumas mulheres são capazes de suportar homens assim? Como é que homens desses acham que podem ser sedutores falando sobre si mesmos sem parar, sem demonstrar qualquer interesse verdadeiro sobre a mulher com quem conversam e sem o mínimo desconfiômetro sobre sua própria falta de graça e chatice? 

Ele não tinha interesse em nenhuma das dúzias de filmes disponíveis no avião, pois ficava o tempo todo checando o mapa do voo na tela da sua frente, como se houvesse algo muito interessante no meio do Atlântico. Olhava dados de altura e tempo de voo com extrema atenção, acompanhando a mudança ínfima do nada para coisa alguma.

Quando ele fez silêncio por alguns segundos bati no ombro da moça e disse alto para que ele ouvisse: “Esse filme é muito bom!” Ela pareceu sacar meu intento em ajudá-la. Repeti:. “É muito bom mesmo. Assista!” Foi quando o tagarela percebeu que ela queria ver o filme e a partir dali não se falaram mais e ele se deitou e dormiu de modo deselegante, em posição fetal, usando a cadeira vazia entre os dois, empurrando a moça com os pés ou virando-se com as nádegas voltadas para ela. Ao acordar, tomou várias cervejas, ficou semi-bêbado e teve uma crise de espirros durante uma turbulência. Perdi a conta depois do vigésimo espirro.

31.8.12

Por que outro Vingador do Futuro ?

Li que O Vingador do Futuro (Total Recall) superou o terceiro "Batman", levando a bilheteria do morcego para a segunda posição. Isto não seria suficiente para me levar ao cinema e assistir a este remake, mas tenho uma grande simpatia pelo filme original de 1990, de Paul Verhoven, em que Arnold Schwarzenegger encarna muito bem o papel do protagonista do excelente conto de ficção científica "Lembramos para você a preço de atacado" de Phillip K.Dick, autor, entre outros, dos contos que deram origem a filmes como Minority Report, Blade Runner e O Pagamento.

Então, que graça teria ver uma refilmagem já sabendo dos segredos que o roteiro guardava para apresentar como surpresa no desenrolar da trama?

Então lá estava eu na sala 8 do Cinemark. Lotada de adolescentes se empanturrando de pipoca e casais...por que não fazem uma sala onde adolescentes sejam barrados e só entrem pessoas sozinhas....se um dia eu me candidatar a algum cargo, vou defender essa plataforma: cinema deveria ser um outro prazer solitário.

 Bem, mas voltando ao Cinemark. Eis que o diabo do filme começa a dar problema. O som teimava em, subitamente, se mostrar abafado e quase só se ouviam os diálogos dos atores e nada dos efeitos sonoros, um dos pontos mais importantes de uma boa ficção. Os ruídos de fundo, os barulhos dos carros espaciais e os efeitos vinham, ficavam alguns minutos e sumiam. Depois ficavam indo e voltando sem parar.

 Isso me irritou de tal modo que me levantei da cadeira e fui procurar algum responsável para exigir meu dinheiro de volta, afinal havia perdido a vontade de assistir ao filme àquela altura. Felizmente, o gerente foi muito educado, devolveu o valor do ingresso, disse que ia providenciar o conserto e afirmou que o que importava não era o dinheiro, mas minha satisfação. Mas o que me irritou mesmo foi que ninguém naquela sala lotada se dispôs a reclamar. Por eles, o som podia ficar assim até o fim do filme que ninguém se incomodaria.

 Dias depois, me dirijo ao cinema do shopping Barra para tentar terminar de ver o filme que tinha deixado na metade e fiquei impressionado com a imundície da sala. A vigilância sanitária precisava fazer uma visita urgente lá. Além de um cheiro insuportável de mofo no carpete das paredes, as cadeiras são sujas e velhas e o chão, cascudo de cimento, parece que nunca viu uma vassoura. Trata-se de uma sala antiga, com sistema de som defasado e nem sequer a projeção presta.A imagem é fosca e o som, abafado.

 Para completar, havia uma criança de uns dois anos na sala com um casal que, suponho, fossem os seus pais. A criança, obviamente, não devia estar ali, pois o filme tem censura de 14 anos. Vira e mexe um dos pais tinha que sair da sala com a menina que fazia barulho e isso me perturbava. Como ainda estava na parte do filme que eu já tinha visto, me submeti a ir até a portaria para saber do responsável pelo cinema se não era proibido manter uma criança na sala. Parecia que eu estava vivendo um flash back, mas, desta vez, cinco moças fardadas do cinema me olharam como se eu fosse um  doido. A resposta que ouvi foi que se a criança estava com os pais elas não podiam proibir a entrada.

 Eu perguntei se a censura não era de 14 anos e elas ficaram se olhando como se eu estivesse fazendo uma pergunta de trigonometria ou propondo discutir o Bóson de Higgs. Decidi apelar para a respiração Sudarshan Kriya,  como me ensinaram no curso de respiração da Arte de Viver para reduzir o estresse e a ansiedade.

 Mas e o filme mesmo? Afinal era para isso que eu estava ali

 Sinto dizer, mas esta refilmagem perde bastante para o original apesar de ser um bom entretenimento com emocionantes sequências de perseguição e ótimos efeitos visuais. Diferentemente do primeiro filme, aqui toda a ação se passa na Terra e não mais em Marte. Apesar de passados mais de 20 anos da primeira versão, ela jamais envelheceu, como acontece com filmes de ficção que contam com boas direções e bons roteiros.

 Paul Verhoven, diretor do primeiro filme, não gostou do remake e menos ainda de ouvir os novos produtores tacharam o original de brega e Colin Farrell chamá-lo de kitsch. Aí é que está o busílis. Porque ser kitsch é ser necessariamente ruim? Um filme pode ser adoravelmente kitsch e ser ótimo. E isso é uma das melhores coisas do Vingador do Futuro original.

 O crítico Érico Borgo, sabiamente, lembra que “Colin Farrell é bom ator, mas não tem o carisma necessário para segurar um filme assim. Enquanto Schwarzenegger fazia caras e bocas e gritava com seu sotaque carregado, Farrell se esforça para parecer perdido e aflito, o que ajuda a dar a impressão que este O Vingador do Futuro se leva a sério demais. É mais sombrio, mais realista, mas muito menos divertido. A versão genérica tira do clássico tudo o que o tornou memorável”

 O protagonista Doug Quaid deixou a pele de Schwarzenegger e agora encarna em Colin Farrell como o mesmo operário com rotina frustrante que procura a tal companhia Recall ou Rekall (não entendi porque a mudança do nome), para viver memórias alheias. Tudo igual ao original, nada de novo sob o céu. É uma pena que falte a Colin Farrell o que sobra a Schwarzenegger: um porte poderoso que justifique levar tantas porradas e tombos sem fraturar várias costelas e vértebras.

 Outra pena é a falta enorme que faz Sharon Stone que, no original, interpretou a esposa do protagonista. No seu lugar está Kate Beckinsale. Sinceramente, Stone, mesmo com mais de 50 anos, está inteiraça para repetir o papel, além de ser muito melhor atriz do que Beckinsale, esposa do diretor Len Wiseman desde que filmaram juntos os bobos Anjos da Noite. Se Stone não conseguisse a mesma agilidade física da quase quarentona Beckinsale, sobra, à louraça, carisma e talento. E para cenas de ação já inventaram uma coisa bem moderna chamada dublê!

 Enfim, vale a pipoca. E nada mais.

21.8.12

PARIS SEM GLAMOUR


Paris me surpreendeu de diversas maneiras e uma delas não foi positiva. Após alguns dias entre museus, templos, passeios, praças e pontos turísticos, minha ficha caiu e percebi que havia escapado de várias situações estranhas.

A primeira cena assustadora foi logo na minha chegada vindo do aeroporto Charles De Gaulle. Ainda no metrô, na estação do Arco do Triunfo, vi um jovem negro dando socos no rosto de um rapaz louro. Um segurava o outro pela gola enquanto desferia uma saraivada de socos no seu rosto. E isso acontecia na maior naturalidade enquanto as pessoas caminhavam. Quando passei, puxando minha mala, olhei, surpreso, a cena. O agressor me encarou como quem diz: vai encarar! Logicamente, desviei o olhar e me afastei antes que sobrasse algum para mim.

Surpreendi-me com o número de mendigos nas calçadas da cidade. Naquele frio eles dormem ao relento ou sob a chuva com pouco agasalho. No metrô também tem mendigos. Tirei duas fotos, uma do mendigo da Rue du Rivoli por onde eu passava todos os dias em direção à Toulherias. Ele tinha um cachorro e um celular. O outro tinha dois gatinhos e seu ponto era ao lado da Igreja Madaleine, era o mendigo da Rue Royale. 

Outra experiência assustadora foi quando quase fui depenado ao desembarcar da Gare du Nord chegando de trem da Alemanha. Eu, desorientado como sou, saí da estação pela porta onde os táxis deixam os passageiros e não pela porta em que os passageiros pegam os táxis. Estava com minha mala e tentava pegar um táxi, mas nenhum parava. Não conseguia entender a razão, até que um rapaz estranhamente solícito (parisiense solícito é para se desconfiar) me abordou dizendo que se eu queria um táxi deveria segui-lo. Caminhei atrás dele por alguns segundos, mas algo me disse que aquilo era uma roubada. Além disso, ele parecia mais marroquino do que francês. Rapidamente, voltei para a estação e vi a placa indicando o ponto de táxi. O meu “solícito” ajudante demonstrou seu desapontamento e sumiu atrás de outra vítima. Fiquei me imaginando sem mala, sem roupas, sem passaporte ou dinheiro. Isso no centro de Paris.

Presenciei mais três cenas seguidas desconcertantes. A primeira, ao cruzar a catraca do metrô Les Halles. Só dá pra passar uma pessoa por vez após inserir o bilhete. Estava passando quando um cara completamente estranho se encostou em mim e me empurrou para a frente. Deu um sorriso sem graça e seguiu. Só então percebi que ele passou junto comigo na catraca para não pagar. Às vezes as pessoas que não têm dinheiro usam esse método, mas achei estranho ele fazer isso comigo sem me pedir ou me conhecer. Depois pensei que ele poderia ter roubado a carteira do meu bolso. Passei a levar a carteira na mochila.

Logo após essa cena, quando eu e dois colegas de viagem entramos num mercado para comprar leite, pão, frios, essas coisas, vimos um homem mal encarado entrar e sair tranquilamente com uma coisa grande no bolso do casaco, tipo um produto caro. Só tinha a moça do caixa e ela não viu nada. Ele roubou na maior facilidade e ainda deu uma risadinha para mim.

E imediatamente após essa cena passamos pela frente de um restaurante na Rue Saint Honoré, onde ficava nosso apartamento, carregando as compras, quando vimos um grupo de três jovens jantando do lado de fora, como é comum em Paris. Achei estranho, pois estava chovendo e apesar de haver um toldo, eles preferiam comer do lado de fora em vez de ficar no interior com aquecimento. Confesso também que desconfiei dos três caras pelos seus tipos meio desleixados e largados comendo num restaurante daqueles. De repente, quando estávamos mais à frente, ouvimos uma gritaria e eram os três caras desembestados, pela calçada, para não pagar a conta do restaurante. Entraram à toda pela estação do Metrô do Louvre e sumiram. Isso também é Paris

Travei lutas difíceis também com um guarda-volumes no primeiro dia que fiquei no Albergue da Juventude (tem algo com menos glamour do que ficar num albergue nos arredores de Paris?). Pois o maldito guarda volumes do lugar é a solução para a política do albergue de não se responsabilizar por objetos deixados nos quartos. Eles deixam isso tão claro na chegada que fica-se com a impressão de que a gente deve mesmo tomar cuidado e usar os guarda volumes se não quiser surpresas desagradáveis. O sistema do tal guarda volumes do albergue é bem prático, com todas as instruções, inclusive em inglês, o que é raro na França, o que me facilita já que não entendo praticamente nada de francês. Mas meu maior talento é não entender instruções seja em que língua for.

Precisava guardar uma mala grande e uma sacola em dois guarda volumes com preços diferentes. Quando as portas se abrem, a gente tem que enfiar as malas e fechar. Então de cada uma das portas saí um cartão que a gente usa para retirar a mala de novo quando precisar. O tal cartão vale por 24 horas e se você não tirar a bagagem nesse tempo a porta se abre e sua bagagem fica exposta.

Só que resolvi abrir de novo um dos compartimentos para guardar meu netbook e não fiquei atento à regra que diz que só se pode abrir uma vez por 10 segundos ou algo assim. Não sei o que aconteceu, talvez eu tenha demorado demais com a porta aberta, mas a maldita máquina engoliu meu cartão e sem ele eu não conseguiria mais abrir a porta. Fui pedir ajuda ao rapaz da recepção e como todo francês, ele demonstrou, com sua eloquência blasé, uma grave irritação e um profundo desprezo por ter que abrir a porta para mim. Fiquei com medo de apanhar.
            Para encerrar o capítulo Paris sem glamour, após um passeio pelo Montmarte e a Sacre Coeur, finalizamos uma tarde agradável em pleno Pigale, onde está localizado o famoso Moulin Rouge e onde se concentram as maiores sex shops da cidade. Exploramos as maiores, um ambiente que cheira a sexo e decadência. Não recomendo uma visita noturna, apesar de que em 1995 e em 1998 eu já havia estado lá à noite.

Saímos de lá no final da tarde com os neóns das fachadas pornôs já ligados e o Moulin Rouge acesso, todo iluminado de vermelho. A noite fria e chuvosa chegou e nos apanhou comendo fatias de pizza vegetariana embrulhadas em papel alumínio em um banco de jardim, com latas de coca cola. Três hereges em Paris, a capital do vinho e da gastronomia, comendo fatias de... Bem, como dizem os insuportáveis parisieneses quando querem ser mais insuportáveis do que o habitual: “Je sui désolé”.

Mais falta de glamour, impossível.