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2.9.12

"Carnaval" no Sul do Chile - Parte 2


Passei quatro noites em Santiago e quatro outras no sul do Chile juntamente com minha mãe e uma prima. Era a segunda vez que as resgatava dos horrores do carnaval baiano.

Na primeira manhã fizemos o clássico city your e fiquei feliz em descobrir que Santiago é uma cidade limpíssima, extremamente organizada, cheia de praças, parques, jardins, museus e igrejas e muita história de um povo educado, hospitaleiro e muito orgulhoso. Fiquei impressionado com a riqueza cultural de um país que já teve dois prêmios Nobel de Literatura (Pablo Neruda e Gabriela Mistral). O Brasil ainda tem zerinho.

Além desses dois importantes escritores, o Chile ainda é a pátria de Isabel Allende e de Violeta Parra, autora da famosa canção Gracias a la Vida. Apesar de exaltar a vida na letra da música, ela se matou em 1967, em razão de problemas amorosos e fracassos artísticos.

Santiago tem o primeiro jornal da América Latina e ainda está em atividade, e também foi a cidade que teve a primeira linha de trem do continente. O país tem taxa de analfabetismo de 3%, desemprego em 7%, inflação de 4% ao ano e salário mínimo de 350 dólares. Chegamos no dia em que acabaram as férias escolares e me chamou a atenção que o fardamento dos estudantes é o mesmo, sejam de escolas públicas ou particulares. Uma forma de evitar qualquer discriminação. Todos os meninos usam gravatas como parte do uniforme. Na foto acima estou ao lado da escultura El Caballo Gordo, a única do escultor colombiano Ferando Botero em Santiago

A cidade sofreu há um ano com um terremoto que deixou milhares de mortos no país. Ainda se vê o resultado do sismo em casas e edifícios com rachaduras e reboco partido. Pelo que nos contaram, pior ainda do que o terremoto foi o tsunami que varreu cidades litorâneas inteiras deixando um rastro de destruição.

Vimos a troca da guarda do Palácio de La Moneda (bombardeado em 1973 quando Pinochet, com apoio norte-americano, derrubou Salvador Allende). Durante a troca da guarda notei que eles têm o cuidado de manter um lixeiro de prontidão com uma pá, uma vassoura e uma lixeira com rodinhas para o caso de os cavalos da guarda defecarem durante a cerimônia.

        Conhecemos o Parque Metropolitano de Santiago, localizado numa grande montanha arborizada, com piscinas públicas, zoológico e muita área de lazer e pistas de corrida. Do alto, tivemos uma visão panorâmica de toda a cidade que se localiza num enorme vale entre a Cordilheira dos Andes e outra cordilheira, a da Costa, que a separa do Oceano Pacífico

"Carnaval" no Sul do Chile - Parte 1






Escrevi alguns capítulos sobre minha  viagem para Paris onde enfrentei duas semanas de frio de rachar. O que não contei é que emendei aquela viagem com outra para o Chile, que me livrou, pelo menos neste ano, do mais grotesco espetáculo da Terra: o Carnaval baiano.

No voo da Air France que me trouxe para São Paulo, e onde fiquei apenas uma noite antes de embarcar para Santiago, me sentei numa daquelas cadeiras do corredor da fileira do meio. Do outro lado do corredor, sentados em duas das três poltronas disponíveis, um baiano na janela e uma uruguaia no corredor com um assento vazio entre eles. 

A partir de um determinado tempo comecei a ouvir a voz grave, metálica, alta e irritante do baiano que puxava conversa com a uruguaia. Ela teve que parar de ver o filme a que assistia para dar atenção ao baiano que falava como uma matraca. Até eu estava incomodado com aquela voz chatíssima, mesmo com meus fones de ouvido no volume máximo, imagino a moça. Ela demonstrava que queria ver o filme, mas o chato não notava e contava detalhes da sua vida, histórias intermináveis das suas viagens, minúcias de fatos tão banais que precisavam de muito para beirar o irrelevante.

Fiquei pensando como ajudar a moça e me poupar daquele incômodo. Ele tinha uma expressão de cachorro, um rosto inexpressivo e a moça era bela e educada. Como é que algumas mulheres são capazes de suportar homens assim? Como é que homens desses acham que podem ser sedutores falando sobre si mesmos sem parar, sem demonstrar qualquer interesse verdadeiro sobre a mulher com quem conversam e sem o mínimo desconfiômetro sobre sua própria falta de graça e chatice? 

Ele não tinha interesse em nenhuma das dúzias de filmes disponíveis no avião, pois ficava o tempo todo checando o mapa do voo na tela da sua frente, como se houvesse algo muito interessante no meio do Atlântico. Olhava dados de altura e tempo de voo com extrema atenção, acompanhando a mudança ínfima do nada para coisa alguma.

Quando ele fez silêncio por alguns segundos bati no ombro da moça e disse alto para que ele ouvisse: “Esse filme é muito bom!” Ela pareceu sacar meu intento em ajudá-la. Repeti:. “É muito bom mesmo. Assista!” Foi quando o tagarela percebeu que ela queria ver o filme e a partir dali não se falaram mais e ele se deitou e dormiu de modo deselegante, em posição fetal, usando a cadeira vazia entre os dois, empurrando a moça com os pés ou virando-se com as nádegas voltadas para ela. Ao acordar, tomou várias cervejas, ficou semi-bêbado e teve uma crise de espirros durante uma turbulência. Perdi a conta depois do vigésimo espirro.