23.10.13

11 ANOS BATENDO PONTO NA MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

E, finalmente, chegou outubro! Como faço há 11 anos, desde que descobri a existência da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que este ano chega a 37ª edição, programo minhas férias com um ano de antecedência e bato ponto na capital paulista. Esta é a minha definição de liturgia sagrada e a melhor coisa que faço a cada ano. Não há nada que se compare à orgia cultural que São Paulo exibe com seus inúmeros espaços culturais entre cinemas, teatros, museus, exposições, shows e bienais.

Quase não dá tempo para escrever, afinal tenho que comer, dormir e tomar banho....o resto do tempo é passado nos escurinhos dos cinemas ou em deslocamentos entre as salas. Mas arrumei um tempo não sei como e agora posso comentar os primeiros filmes.

Digo sempre que a agonia dos cinéfilos da Mostra é menos escolher os filmes que verá e mais decidir aqueles que perderá. Como sempre, com um leque de mais de 350 longas e curtas em dezenas de salas de São Paulo, fatalmente os filmes selecionados se chocam e fazem os frequentadores andarem de um lado para o outro com o caderninho de anotações todo rabiscado fazendo malabarismo para encaixar os filmes nos horários disponíveis.

A logística de cada cinéfilo é uma coisa individualíssima. Não há uma que seja igual a outra. Cada um tem seu método particular, indecifrável para o vizinho. As coisas podem até, em teoria, funcionar direito quando se programa cinco filmes em sequência, mas há várias armadilhas no caminho do cinéfilo. Às vezes o filme atrasa, a legenda não funciona ou não chega a tempo, o a sessão lotou e como entre cada sessão o intervalo é de 20 minutos, um atraso mínimo pode comprometer a programação ou uma sessão lotada deixa o cinéfilo perdido. Ou ele encaixa um filme que não havia programado ou fica cerca de duas horas roendo as unhas. Então é comum ver gente fazendo alternativas mirabolantes, planos B e C...gente saindo da sala antes do fim do filme para pegar o próximo, se o próximo for imperdível e o atual não merecer...

Na Mostra vemos os mesmos tipos dos anos anteriores. As pessoas já se conhecem pelos nomes e trocam opiniões. Isso ajuda a escolher e eu mesmo já me peguei pedindo opinião a estranhos ou a velhos conhecidos de outras mostras. O lado ruim são os caras, quase sempre mais velhos e cinéfilos de carteirinha e crachá que falam alto como se todos quisessem ouvir suas opiniões. Já escolado, não deixo de sacar meu MP3.

Outros chatinhos são aqueles estudantes de cinema que ficam trocando ideias sobre planos e enquadramentos ou os que adoram exibir conhecimentos sobre diretores cabeções e seus filmes mais obscuros...onde essa gente tem tempo pra ver tanto filme assim ?

Quando a gente tenta conversar um pouco mais com esse povo da Mostra dá logo para perceber que não são pessoas, digamos, muito normais. E certamente estou entre os estranhos. Sempre tem alguém com uma idiossincrasia séria. É comum perceber que cada um tem um mundo meio periférico em que vive. Gente com os dois pés muito firmes no chão não fica tão envolvida assim com esse mundo cinematográfico. Que o digam esses caras que assistem a filmes de 8,  9 ou 11 horas seguidas.

Um dos frequentadores mais conhecidos da Mostra esse ano está bem velhinho. Ele já esteve até no Jô Soares. Sabe tudo de cinema e todo ano vai para o Festival do Rio em setembro e para o de São Paulo em outubro. Ele deve ter algum problema urinário, pois o cheiro de urina que o acompanha é de conhecimento de todos. Lembro-me dele, mais novo e falante, com voz possante...hoje quase se arrasta e fala baixo, caminha meio sujo e fedendo a urina. Mas como ele sempre sabe dos melhores filmes, sentir o cheiro de urina numa sala é sinal de que o filme será bom. Ele sempre fica isolado por causa do cheiro, deve usar fralda geriátrica ou então talvez seja pela falta do uso que ele cheire tão mal.

Perdi os filmes do primeiro dia, 18/10, pois havia manifestação na Paulista e o ônibus que saía de Guarulhos para a Avenida Paulista, próximo do meu hotel, não estava funcionando. Cansado demais, só queria descansar e me preparar devidamente para a maratona.

Nos 4 primeiros dias vi 14 filmes. Em grande parte deles, os diretores estavam presentes para apresentar os filmes para as plateias.

CONFISSÃO DE ASSASSINATO – Este ano, a Mostra faz uma homenagem especial ao cinema da Coreia do Sul e este é um excelente filme daquele país. Trata de história de um homem que publica um livro em que confessa uma série de brutais assassinatos de dez mulheres. Como o crime prescreveu o livro é um best seller instantâneo e ele vira uma celebridade também pela sua bela aparência. O detetive responsável pelo caso faz de tudo para lidar com o tema até porque sua esposa foi uma das vítimas. Enquanto isso um grupo de parentes das vítimas planeja vários modos de matar o assassino inclusive sequestrando-o. Como acontece sempre com o cinema sul coreano, um filme frenético, com muitas lutas coreografadas, câmera lenta bem estilosa e atuações surpreendentes com roteiro bem elaborado e trama bem urdida e reviravoltas da história. As cenas de perseguição a pé e de carro são das melhores que já vi.

BENDS – Na fronteira de Hong Kong e da China, uma madame rica tenta manter a fachada de seu estilo de vida após ser abandonada pelo marido enquanto seu motorista tenta levar a esposa grávida para Hong Kong a fim de evitar a pesada multa pelo segundo filho na China. Cada um, ao seu modo, tenta lidar com a pressão da situação em que a única coisa que têm em comum é o carro. E ele será fundamental para o desenvolvimento e o desfecho da história. Um filme bom e honesto.

A GAROTA DO 14 DE JULHO – Este foi o pior filme da Mostra até agora. Insuportavelmente chato, deixei-o na metade. Além de ser uma comédia francesa, e eu detesto comédias francesas de um modo geral, esse filme traz muitas gags e piadinhas bobas que somente quem conhece o estilo de vida e de humor francês entende e aprecia, o que definitivamente não é o meu caso, nem conheço, nem entendo, nem aprecio. Vi que muita gente deixou o filme também no meio e esperei para perguntar a algumas pessoas que saíram no final se tinham gostado. Uma mulher a quem perguntei disse que adorou e quando eu disse que detestei ela ficou surpresa. Quando eu comentei que achava que aquelas piadas só eram compreensíveis por que morou na França ela acabou concordando comigo e revelou que de fato ela morou na França. Na mosca! Trata-se de uma bobagem sem fim sobre um grupo de parisienses que resolve viajar no feriado para o litoral. Só idiotice.

A FULLER LIFE- Um bom documentário americano sobre o fabuloso escritor, diretor e jornalista Samuel Fuller que ficou conhecido e respeitadíssimo no cinema. O filme mostra cenas dos seus filmes e se baseia em sua autobiografia The Third Face. São 12 segmentos, cada um com um admirador de Sam Fuller lendo suas memórias. O filme é dirigido pela sua filha Samantha Fuller, presente na sessão. Fuller é considerado por críticos como um dos maiores cineastas americanos de todos os tempos. Como eu não vi nenhum dos seus filmes, o documentário me deu vontade de assistir a eles. A Mostra tem essa característica importante de nos mostrar, mesmo a quem acha que conhece muita coisa, coisas que nós ainda não conhecíamos.

PARADJANOV- Outro filme sobre um diretor consagrado de cinema, mas desta vez não é um documentário, mas uma co-produção da Armênia, França, Geórgia e Ucrânia. Baseado na história verídica do cineasta soviético de origem armênia Sergei Paradjanov, de quem eu nunca ouvi falar antes e que foi um gênio provocador que criou grandes filmes e ganhou respeito internacional, mas por ser muito rebelde, foi preso com acusações falsas. Mesmo banido do mundo do cinema, seu amor pela beleza lhe dá forças para continuar a criar mesmo preso. Um dos atores do filme, também produtor, italiano, estava na sala. No filme ele interpreta Marcello Mastroiani.

A BELA VIDA – Um filme francês de que gostei muito por não ser uma comédia. Conta a história de dois irmãos adolescentes, vivendo nas montanhas, criando ovelhas e criados escondidos pelo pai, meio cigano, que os sequestrou da mãe. Como o pai deles é condenado pela justiça, ele não pode se apresentar, sob pena de ser preso. Os dois irmãos se adoram e gostam muito do pai, mas começam a sentir necessidade de contato com pessoas da idade deles, de conhecer moças. Um dia eles são descobertos e são forçados a se mudarem mais uma vez. O irmão mais velho desaparece e o mais novo tem que optar entre quatro destinos: ficar com o pai, voltar para a mãe, reencontrar o irmão ou ficar com a sua linda primeira garota e primeira paixão que promete a ele uma vida nova.

ESTRADA PARA O NORTE – Um road movie finlandês mas com uma pegada de filme internacional pois poderia se passar em qualquer país. Conta a história do reencontro de um respeitado pianista com o pai que ele não conheceu. Ambos viajam rumo ao norte onde ambos descobrem coisas sobre o outro que não imaginavam. Reencontram pessoas importantes da vida de ambos que estavam à margem das suas vidas. Os cinéfilos da Mostra, aqueles de cabelos brancos comentaram depois da sessão que este até que é um filme leve desse diretor de quem eu nunca ouvi falar antes mas pelo jeito esses cinéfilos da Mostra sabem de tudo...

EXÉRCITO DA SALVAÇÃO – Filme franco-marroquino que conta a vida do primeiro escritor árabe e marroquino a assumir publicamente sua homossexualidade. O filme mostra sua vida em Casablanca, quando o jovem Abdellah passa seus dias em casa, com uma família complicada e tendo relações sexuais com homens pelas ruas da cidade. Dez anos depois, ele vive com seu amante suíço, deixa Marrocos e vai para Genebra, rompe com o amante e começa uma nova vida, pedindo abrigo em um posto do Exército da Salvação. O filme merecia um roteiro mais intenso já que trata da vida de um escritor. O garoto não exibe nenhuma emoção, é extremamente passivo e mesmo depois de adulto não exibe emoção. A única cena em que se emociona é exatamente a última cena do filme quando ouve um conterrâneo marroquino cantar para ele uma canção do seu país.

LA PARTIDA - Outro filme com a temática da homossexualidade. O diretor espanhol estava na sessão para apresentar o filme e debater com a plateia. A história se passa em Cuba sobre dois rapazes cubanos que adoram futebol e vivem quase na marginalidade e lutam para levar uma vida juntos quando se descobrem apaixonados. Mas a vida é muito difícil para ambos. Um trabalha cobrando e batendo em pessoas que devem ao seu sogro e o outro, casado e com um filho pequeno, se prostitui nas ruas de Havana para pagar as contas de sua família que sabe que ele se prostitui. Ambos são muito jovens e nada para eles é fácil. O amor é um complicador nessa equação tão dolorosamente difícil. Quase dá para resumir o filme na famosa frase da música: “Love hurts” ou na canção de Chico Buarque “Viver do Amor”, da Ópera do Malandro: “ O amor/Jamais foi um sonho/O amor, eu bem sei/Já provei/E é um veneno medonho”

LIÇÕES DE HARMONIA – Um filme do Cazquistão que conta a história de um menino de 13 anos que  vive com a avó numa fazenda e estuda numa escola onde uma gang de alunos explora e humilha os colegas. Nesse ambiente de violência e criminalidade o garoto, executa um plano para livrar a escola da gang mas o resultado não é o que ele espera e a violência assume contornos assustadores. Gostei do filme que mostra que se faz bom cinema em todo o mundo.

OBRIGADO POR NADA- Um excelente filme, co-produção Suíça-Alemanha e um dos melhores que vi na Mostra. Um grupo de 3 deficientes físicos em graus diversos planejam roubar um posto de gasolina para provar que não são perdedores. Uma tarefa que já seria difícil para pessoas comuns torna-se uma odisseia para quem vive em cadeiras de rodas. O personagem principal é um rapaz que foi um atleta, mas ficou preso a uma cadeira de rodas após um acidente com esqui na neve. Durante uma temporada em uma instituição para deficientes físicos ou mentais ele se vê apaixonado por uma bela enfermeira e decide bola um plano para assaltar o posto de gasolina onde trabalha o namorado da moça. Enquanto isso o grupo ensaia para uma apresentação de Hamlet para deficientes com um diretor visionário.

SOMENTE EM NOVA YORQUE - Um filme americano-palestino muito divertido com muitas semelhanças com as comédias de Woody Allen. Um jovem palestino vive em Nova Yorque com os pais e está ficando desesperado para arrumar uma namorada. Completamente viciado em sexo, está cansado de os pais tentarem arrumar para ele uma noiva palestina até que conhece uma judia israelense que precisa de um green card. Para desespero da família, ele resolve se casar com a moça não para ajuda-la mas pelo sexo. Até que as coisas assumem outros contornos e eles descobrem que gostam mesmo um do outro e outros obstáculos aparecem. O ator principal não me pareceu no começo muito carismático mas no decorrer do filme vi que ele é muito engraçado e tem piadas muito boas, dignas dos diálogos dos filmes cômicos de Woody Allen com a mesma temática ligada a religião e sexo.

ESCUDO DE PALHA- Um filme japonês muito bem produzido, com ótimo roteiro (lembra um pouco o triller 16 Quadras com Bruce Willys), mas é melhor. Muito bem dirigido, conta a história de um assassino de crianças que precisa ser escoltado até Tóquio para ser julgado pelos seus crimes quando um multibilionário oferece pelos jornais 1 bilhão de ienes a quem matar o assassino da sua neta. Todo mundo se torna um matador em portencial, inclusive todos os policiais, médicos e pessoas comuns. Um grupo de policiais de elite tem que escoltar o assassino arriscando para isso as próprias vidas numa viagem de mais de mil quilômetros de carro e trem. Uma perseguição infernal onde qualquer pessoa pode ser um matador, inclusive os próprios membros da escolta.

UMA VIDA COMUM – Produção britânica de um diretor de quem nunca ouvi falar: Uberto Pasolini e o melhor filme a que assisti este ano. Simplesmente uma perfeição, uma pequena obra prima. A história de um homem sozinho, sem amigos ou família que é obcecado por organização e meticuloso ao extremo. Ele trabalha em um departamento do governo encarregado de encontrar parentes de pessoas que morreram sozinhas. Como quase nunca aparece alguém, ele é o único a assistir aos funerais. Como não tem amigos, ele coleciona, em um álbum, as fotos dos mortos enquanto eram vivos. São imagens de pessoas felizes. Mas o departamento em que ele trabalha é extinto para reduzir despesas e ele é demitido. Só tem um último caso para resolver e ele decide levar até o fim a busca por familiares de um morto que morava em frente à janela do seu apartamento e deixou apenas alguns discos e fotos. Na busca pela família e amigos deste homem, ele descobre que a vida pode ser muito mais surpreendente do que ele imaginava. Até que o destino mostra-se muito mais caprichoso do que ele poderia imaginar. Final triste e belíssimo. Um filme para ver e chorar muito tamanha a sua beleza e simplicidade. Uma história das mais comoventes que já vi. Conversando com outros frequentadores da Mostra percebo que é uma unanimidade.


2.10.13

Para que serve mesmo um smartphone? – 2ª parte



Há algumas semanas, escrevi um artigo intitulado: “Para que serve mesmo um smartphone?”. Desde que o publiquei, pretendia continuar em uma segunda parte abordando dois aspectos do vício nos smartphones: a falsa noção de urgência e a auto-indulgência em relação à própria importância. Antes disso, algumas considerações.

Um edição recentíssima da revista Istoé, 27/9/2013, publicou uma grande reportagem de capa com o título: “Vítimas da dependência digital”. Com um conteúdo similar ao meu texto, a Istoé  afirma: “Com a explosão dos smartphones, cerca de 10% dos brasileiros já são viciados digitais. A medicina aprofunda o estudo do transtorno e anuncia o surgimento de novas opções de tratamento, como a primeira clínica de reabilitação especializada.”


A revista divulga pesquisa da Universidade de Maryland que investigou o que sentiam jovens de dez países em cinco continentes após 24 horas longe dos smartphones e tablets. As descrições dos sentimentos foram idênticos aos de viciados em álcool e outras drogas em crise de abstinência. Esse fenômeno já tem nome: nomofobia, que é a ansiedade de indivíduos longe dos celulares.

O Grupo de Dependências Tecnológicas do Hospital das Clínicas de São Paulo descreve as consequências dessa dependência: os usuários se distraem com facilidade e têm dificuldade de controlar o tempo gasto com o aparelho. Em breve, com a disseminação dos óculos inteligentes como o Google Glass, o número de dependentes irá aumentar ainda mais.

A dependência já é tratada como questão de saúde pública no Japão, China e Coreia do Sul que investem na psicoterapia de mais de 500 mil adolescentes incentivando-os a frequentar espaços abertos, aumentar o convívio social e praticar esportes. Na Coreia do Sul, 30% dos adolescentes são viciados e o tratamento leva os os jovens a ficarem 12 dias internados longe dos telefones viciantes.

Pesquisas mostram que o vício digital aciona o sistema cerebral de recompensa, o mesmo estimulado pelas drogas. Quanto mais se cede à compulsão, mais sensação de prazer o cérebro produz. E isso vai até um ponto no qual a pessoa não consegue mais ficar sem essa sensação, tornando-se dependente de seu foco de compulsão.

 A falsa noção de urgência e a auto-indulgência em relação à própria importância -  Já contei o episódio em que um colega ligou para o meu celular enquanto eu conversava com amigos em um café pedindo-me que entrasse imediatamente no Facebook para ler um texto que ele postara. Expliquei-lhe que não tinha acesso à internet via celular, ao que o amigo replicou, incrédulo, que achava inadmissível, usou mesmo esta palavra, que eu não usasse um smartphone.

Fatos assim vivem acontecendo à minha volta e quanto mais acontecem mais eu insisto em me manter à margem dessa onda. Resistirei ao falso imediatismo que as pessoas se auto impuseram. Nada pode ser tão urgente assim que precise de um smartphone. Minha colega de sala vive me exibindo o seu ultra-mega-super-ultra-plus moderno como se fosse o último negresco do pacote. Há poucos meses a mesma colega me exibia a ex-versão mais recente, hoje já ultrapassada e daqui a alguns meses me exibirá a nova versão turbinada, que deixará para trás a atual.

 Outro dia, essa colega me mostrava as mil e uma vantagens do seu smartphone e a cada “vantagem” eu demonstrava que nada daquilo me serviria para coisa alguma. Ela retrucou que o aparelho era importante para mandar mensagens e pareceu surpresa quando eu disse que meu velho Nokia também mandava mensagens. Disse-me que podia conversar online com amigos e pareceu desapontada quando eu disse que não havia nenhuma urgência nessas conversas e que, se realmente fosse algo importante, eu poderia ser contactado com um telefonema, algo que esses aparelhinhos ainda fazem. Ao argumento último que usou para me convencer dos prodígios do bicho, o acesso ao Facebook (cada vez mais Face e cada vez menos Book), realmente surpreendeu-lhe meu contraargumentento de que já tinha acesso no meu computador de casa.

Se um dia eu viesse a possuir um smartphone seria para usar os recursos que ele oferece, mas exatamente porque não quero ser mais uma vítima dessa falsa noção de urgência auto imposta é que não me rendo a esses argumentos. Estou muito bem no meu próprio ritmo.

Outra coisa que me incomoda nos viciados em smartphones é a necessidade constante de auto-exposição e sua auto-indulgência em relação à sua própria importância. Cada prato de comida consumido em restaurante é postado nas redes sociais com a “relevância” de um passo do homem na lua; cada por-do-sol, “dividido” com os amigos com a urgência de um momento a ser eternizado; cada foto na praia, revestindo-se de uma aura antológica.

Veja só se vou querer um aparelho que me escravize, me deixe mais pilhado, ainda mais egocêntrico e autocentrado do que naturalmente eu já sou? Recomendo a todos os meus amigos que torçam para que eu continue afastado desses “aparelhos inteligentes”. Se longe deles já sou insuportável...


25.8.13

Para que serve mesmo um smartphone?

Há algum tempo venho me perguntando por que as fabricantes dos celulares inteligentes, os smartphones, gastam dinheiro com propaganda. Elas poderiam economizar uma fortuna, pois os maiores garotos propagandas das maravilhas dos smartphones são seus próprios usuários. Então, se alguém ainda não tem um smartphone não terá sido por falta de coleguinhas martelando seu juízo para fazer você se sentir uma espécie de Neandertal por ainda não ter aderido (ou sucumbido) aos tais aparelhinhos.

Para mim, na medida em que os telefones se tornam mais inteligentes, seus usuários se tornam mais burros. Outro dia, num programa de televisão, quatro mulheres falavam sobre os tais aplicativos e como eram felizes por terem à mão aparelhos que medem batimentos cardíacos, identificam uma música, servem como trenas, lembram-lhe a hora de tomar remédio, tiram fotos, postam em redes sociais....o diabo. Uma delas chegou a dizer: hoje em dia todo mundo tem um smartphone. Senti-me o último dos moicanos a quem só restou um velho Nokia que tem uma câmera que nunca usei e que dá para ouvir rádio, o que nunca fiz.

Eu nem precisaria ler uma pesquisa que mostra que as pessoas estão dependentes dessas máquinas, eu vejo isso cotidianamente. Mas chamou-me a atenção que está comprovado, com base em estudo dos sites Gazelle, Nielsen ComScore, PRNewswire, Pew Internet e MSNBC, que 65% dos portadores de iPhones dizem não conseguir viver sem os celulares, 40% deixariam o cafezinho de lado e 18% deixariam de tomar banho todos os dias. E veja que incrível: 15% preferem passar o final de semana com seus smartphones a fazer sexo.

Não achei nenhuma novidade saber que 58% dos smartphonedependentes usam seus celulares em festas ou outros eventos. Vejo isso na minha academia, observo pessoas hipnotizadas pelos seus aparelhos. Já cheguei a ver pelo menos dez pessoas, simultaneamente, sentadas nos seus respectivos aparelhos ou correndo em esteiras e bicicletas, todas futucando alguma coisa nos seus bichinhos de estimação portáteis. Se tivesse um smartphone, fotografaria a cena e publicaria imediatamente numa das redes sociais em que pululam fotos de shows, pratos de comida ou gatinhos fofuchos.

Um dia, num show, ao meu lado vi uma moça fotografar o artista que cantava para, em seguida, passar os longos minutos de uma música inteirinha totalmente desconectada do que acontecia no palco, pois se dedicava a postar em uma rede social a foto que acabara de tirar, provavelmente retocando alguma coisa (creio que esses aparelhos inteligentes devem servir para isso também), acrescentar algum comentário com a interjeição “u-hu”, ou similar e, imediatamente, responder a comentários feitos online. Enquanto isso, Gilberto Gil e Zeca Baleiro cantavam uma canção linda, da qual a moça estava totalmente alienada. Aquilo me incomodou e eu passei a observar o desenrolar da cena que nunca terminava já que mais comentários pipocavam, exigindo dela respostas. Não resisti e toquei no seu ombro dizendo: “Ei, o show é ali”, apontando para o palco. Juro que ela me olhou com uma expressão totalmente vazia, como se não compreendesse o alcance do meu comentário. Voltou para o que interessava: seu smartphone, deixando Gil só para mim e os poucos Neandertais que restaram e a quem os smartphone não abduziram.

Na Coréia do Sul, líder mundial do mercado de celulares e terra da Samsung, o governo está preocupado com a crescente dependência das pessoas. "São escravos sem cérebro", diz Kim Nam-Hee, um dos especialistas que tentam sensibilizar os estudantes sul-coreanos sobre os perigos dos telefones inteligentes, que viciam crianças cada vez mais novas. Há casos de crianças que ameaçam se suicidarem se os pais confiscarem seus aparelhos. Na Coréia foi preciso um esforço conjunto dos ministérios da saúde e da educação para criarem acampamentos de férias e desintoxicar alunos viciados cujos sintomas são: ansiedade ou depressão quando não podem ter os aparelhos em mãos, tentativas frustradas de diminuir o tempo gasto com o aparelho e sensação de felicidade quando se está conectado. Alguma semelhança com o crack?

Voltando à minha academia, sempre me intrigou como as pessoas não se preocupam ao deixarem seus telefones caros no chão ou em cima de uma máquina. Não têm medo de os esquecerem? Depois me toquei: isso jamais aconteceria com pessoas assim, pois elas não são capazes de se afastar demais do bicho. Deve haver alguma espécie de ímã ou um aplicativo que emite sinais diretamente para seus cérebros, impedindo-os de se separarem dos seus smartphones.

A Universidade americana de Stanford, também comprovou a dependência afirmando que 69% dos jovens disseram ser mais provável esquecer a carteira do que o celular, 75% já tinham adormecido com o iPhone na cama, 71% disseram já ter usado o aparelho para evitar fazer contato visual. Estudo da Rutgers University, de Nova Jersey, revelou que um terço dos usuários mostrava sinais de vício similares aos de alcoólatras.

Outro dia, na TV vi um inventor feliz da vida porque criou um aplicativo em que o próprio usuário programa seu aparelho para ficar desligado. Só assim, segundo ele, muitos estudantes puderam terminar um trabalho, escrever uma dissertação ou concluir um mestrado. Fiquei intrigado. A pessoa precisa usar um aplicativo que a impeça de usar o aparelho? O que aconteceu com o botão de desliga? Será que esses aparelhos não possuem esse botão? É capaz mesmo de não serem possíveis de desligar e exigirem um aplicativo para isso, na falta de um cérebro que os manuseiem.


20.8.13

Flores Raras

Há quase 20 anos, fui “apresentado” por um amigo à poeta americana Elizabeth Bishop através do livro “Flores Raras e Banalíssimas”, de Carmem Oliveira. Até então, jamais ouvira falar de Bishop ou da sua companheira, a brasileira Lota Soares ou sequer imaginava que no Rio de Janeiro dos anos 50 duas mulheres tão importantes para a poesia e a arquitetura pudessem ter vivido uma relação de amor tão intensa por quase duas décadas.

A partir da leitura do livro, fiquei fã de ambas. Em seguida, comprei o livro “Uma Arte”, em que a Cia das Letras publicava, em mais de 700 páginas, parte da enorme correspondência da poeta. São registros preciosos e precisos da visão de uma estrangeira sensível do Brasil dos anos 50 e 60, período em que Elizabeth Bishop viveu por aqui, entre Rio de Janeiro e Ouro Preto. Li as sete centenas de páginas como se estivesse recebendo as cartas de uma amiga, pois passei a admirar enormemente aquela mulher que ganhou todos os maiores prêmios da literatura americana, incluindo o prestigiado Pulitzer. Quando a atriz Regina Braga encenou o monólogo Um Porto Para Elizabeth Bishop, lá estava eu nas primeiras fileiras do TCA para reverenciá-la.

Todos esses longos parágrafos introdutórios são para explicar porque aguardei por quase 20 anos que alguém filmasse essa belíssima história, levando para mais pessoas a vida dessas duas mulheres já que o Brasil não lhes dá o devido valor. Uma mulher extremamente forte, Lota, e outra incrivelmente frágil, Elizabeth, ambas vivendo no auge das suas potencialidades, crescendo juntas graças ao seu amor.

O pouco conhecimento no Brasil sobre ambas se deve, provavelmente, ao fato de Lota ser mais conhecida (e talvez nem tanto quanto mereceria) no Rio de Janeiro, por ter sido a idealizadora, realizadora e defensora do impressionante Parque do Aterro do Flamengo; e por Bishop ser mais conhecida por quem gosta de poesia.

O diretor Bruno Barreto, com seu filme: Flores Raras, traz a história de amor das duas mulheres para um público maior, já que livro e poesia, urbanismo e teatro não são tão populares no Brasil quanto cinema.

Li de um crítico que o filme é um tanto acadêmico com tomadas e ângulos pouco inspirados e muito sóbrios. De fato, Bruno Barreto não ousou nos enquadramentos, mas isso não diminui a beleza do filme. Esse mesmo crítico afirma que a película lembra propaganda da Embratur ao mostrar o Rio que estamos acostumados a ver, com a praia de Copacabana ao som de uma música da Bossa Nova. Fiquei atento à tal cena. Trata-se de praticamente um quase frame de segundos mostrando Copacabana em ângulo aberto quando já se passava mais de 40 minutos do filme e não mais se vê outra vez. Sobre a Bossa Nova, afinal qual o estilo musical e a praia eram símbolos internacionais do Rio de Janeiro naquela época?

Outra crítica que li é quanto à forma como Glória Pires interpretou Lota: como uma lésbica machona. Outra falha do crítico, pois a verdadeira Lota era ainda mais masculinizada do que Glória Pires a interpretou e não seria uma mulher delicada que enfrentaria de igual para igual um político experiente como o governador Carlos Lacerda, e homens como o paisagista Burle Marx, que trabalhou sob o tacão de Lota que nem arquiteta formada era.

Glória Pires e Miranda Otto estão muito bem nos seus papéis. As cenas de sexo entre ambas são elegantes sem perder o erotismo e o filme consegue mostrar bem a extrema timidez de Bishop, sua relação intensa com a poesia (levava meses e até anos para concluir um poema) e sua carga de problemas com o alcoolismo, a asma, o trauma da orfandade e a depressão.

De fato, não vemos um filme muito arrojado podendo até ser conservador em alguns pontos, mas vale à pena pela beleza da história contada.

Chamo a atenção para o início do filme, quando a poeta lê para seu melhor amigo, o também poeta americano Robert Lowell, ainda em Nova Yorque, o até então incompleto poema Uma Arte (A arte de perder não é nenhum mistério/tantas coisas contém em si o acidente/de perdê-las, que perder não é nada sério./Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,/a chave perdida, a hora gasta bestamente./A arte de perder não é nenhum mistério./Depois perca mais rápido, com mais critério:/lugares, nomes, a escala subsequente/da viagem não feita. Nada disso é sério./Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero/lembrar a perda de três casas excelentes./A arte de perder não é nenhum mistério./Perdi duas cidades lindas. Um império/que era meu, dois rios, e mais um continente./Tenho saudade deles. Mas não é nada sério./Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)/não muda nada. Pois é evidente/que a arte de perder não chega a ser um mistério/por muito que pareça (escreve) muito sério.)

No final, vemos Elizabeth ler o final do mesmo célebre poema para o mesmo melhor amigo, no mesmo banco do Central Park, após todos os tumultuados anos vividos no Brasil quando foi muito amada e amou demais, já reconhecida e multipremiada. Um fechamento perfeito para um final de um ciclo, de uma história, retratando quanto tempo ela demorava para terminar um poema, quantas perdas viveu e ainda conseguiu, mesmo com toda a sua enorme fragilidade, sobreviver graças ao seu talento e o seu amor à poesia.


19.7.13

A machodependência e a piriguetagem


Chamou-me a atenção, há alguns dias, uma matéria da Folha de São Paulo com o seguinte título: "Paulistanas reclamam da falta de homens na balada dispostos a um relacionamento sério”

O repórter relatava que o mulherio paulista estava carente e frustrado com a escassez do produto masculino pela selva de pedra da paulicéia desvairada. Várias moças foram ouvidas, assim como os seus possíveis “alvos” de cobiça: “os bofes” e a conclusão tirada é que as mulheres, ao trocarem o antigo papel de caça para o novo, de caçadora, perceberam que não foi uma mudança, digamos assim, muito proveitosa.

A macharia é um produto que anda em falta ou a lei de oferta e procura, mais uma vez, mostra sua validade também no mercado das relações humanas devido à disseminação da piriguetagem? A concorrência anda braba nas hostes femininas.

Mas uma das coisas que mais me chamaram a atenção é que a maioria das mulheres reclama da falta de homem justamente nas baladas, detalhe: homem para relacionamento sério! Repetindo: relacionamento sério na balada!!!

Fico a me perguntar se isso não é uma contradição entre termos. Seria como procurar um tricolor no meio da torcida do Vitória ou vasculhar num grupo de petistas algum que não seja fã da Carta Capital. Mais fácil cavar um poço num deserto.

A Folha diz tudo: “Do clube moderninho ao boteco no centro, a noite paulistana não é mais terreno fértil para encontrar "bofes" com pretensões de engatar um relacionamento sério”.

Pelo censo de 2010 do IBGE, há quase 600 mil homens a menos em relação ao número de mulheres...e olhe que ainda há os gays, em torno de 10%, o que reduz ainda mais as chances do mulherio...sem contar os casados...a coisa começa a tomar contornos de drama porque homens morrem mais cedo do que mulheres por diversas razões genéticas, inclusive porque cuidam menos da saúde.

Quando começa a bater o desespero inicia-se também uma maior vulgarização das mulheres. Como muitas recorrem, por uma inclinação natural, à piriguetagem; as demais tendem a perceber aí uma espécie de nicho de mercado e acabam apelando, mesmo tangencialmente, ao mesmo recurso que já provou dar frutos e resultados.

A reportagem aborda um aspecto interessante. As mulheres se colocam como fáceis, modernas, dispostas a “ficar” sem compromisso e até abordam os homens, mas, com o tempo, voltam ao papel de mulher das antigas. Acontece que os homens sabem reconhecer a jogada e não caem fácil nessa estratégia.

A conquista da independência feminina, a liberdade que elas tanto buscaram é, finalmente, uma realidade. E elas estão aproveitando bem isso, se divertido a valer. Poucas assumem que não buscam de fato nada sério, mas esperam que os homens as vejam como caça enquanto elas agem do mesmo modo. Alguém vai perder nesse jogo.

A psicóloga Lúcia Petri afirma que a necessidade de encontrar alguém leva algumas mulheres a um comportamento desesperado, apressado, que, em muitas vezes, quebra o encanto e o desejo de um novo encontro. As mulheres reclamam de que ninguém quer nada sério, mas elas querem? Se querem, precisam repensar suas ações.

A vida real é uma selva brutal, uma luta bem distante, por exemplo, do idílio da canção "Futuros Amantes", de Chico Buarque que diz: "Não se afobe, não/ Que nada é pra já/ O amor não tem pressa/ Ele pode esperar em silêncio/ Num fundo de armário/Na posta-restante/Milênios, milênios/No ar..." Quem é que, nos tempos de hoje, pode esperar esse tempo todo por um futuro amante?

Depoimentos de três homens ouvidos pela Folha: Estudante de 24 anos: “As mulheres estão um pouco atiradas. Isso tira o barato. Fica fácil demais. Se foi assim comigo, imagina com os outros. Fora que tem muita mulher no mercado”. Gerente de restaurante de 32 anos: “Elas estão buscando algo sério em lugar errado. Quem está na noite só quer mesmo diversão. Eu mesmo estou fazendo test drive por aí”. Bartender de 31 anos: “Os homens estão com o pé atrás. Falta inteligência às mulheres. Geralmente elas só sabem falar de consumo. Ainda não conheci a mulher ideal”.

O psicólogo clinico Irineu Deliberalli, em seu blog questiona a máxima feminina de que faltam homens no mercado. Ele reflete que a maior independência financeira feminina que faz com que a mulher dirija a própria vida, também faz com que ela fique cada vez mais sozinha, principalmente as mulheres acima dos 35 anos e solteiras ou à procura de um segundo casamento e que têm boa condição profissional e financeira. Estas são as que mais reclamam.

A alma feminina sempre é mais sensível que a alma masculina. Assim são fabricados esses dois seres, com objetivos basicamente diferentes. Claro que ambos querem ser felizes e realizados, mas cada um busca isso ao seu modo. Atualmente, a realização pessoal e profissional das mulheres é importantíssima para ela e para sua família, mas isso cria um dilema.

Para Deliberalli, houve um pequeno desvio no roteiro feminino, em cumprir sua função específica junto à humanidade e este fator leva a mulher a ficar cada vez mais distante do seu ideal afetivo e do homem de maneira geral. A energia feminina é receptiva, acolhedora, é a que forma o lar, o interior, é o princípio passivo da vida. A energia masculina é o princípio ativo criativo que vai para fora em busca da criação e da conquista.

Mesmo sem abdicar da feminilidade, as mulheres ativas se aproximam do modelo masculino tradicional e agem como os homens sem se perceberem com tal energia masculinizada e não com a energia feminina. Fala-se aqui de energia e não de condição, preferência ou inclinação sexual.

As mulheres que reclamam que os homens só querem sexo e nada mais não percebem que esses homens fogem de mulheres fortes. O homem é um animal besta, que se sente frágil diante de uma mulher assertiva e decidida. Ao se sentir desejado, seu instinto é copular apenas. Isto fortalece seu padrão masculino de conquista. O instinto masculino de caçador não é atiçado para além do sexo. A mulher desafiadora, que merece ser conquistada, não é aquela que emula o papel masculino, mas a que estimula o instinto básico do homem como a fêmea que ele aprendeu a distinguir dos machos.

A antropóloga Mirian Goldenberg concorda. Ela diz que como há muito mais mulheres do que homens no mundo, elas devem buscar menos o príncipe encantado se quiserem encontrar um parceiro. "É contraditório, para não dizer pouco inteligente, que num mercado afetivo-sexual tão desfavorável elas exijam tanto", diz Goldenberg.

Ela lembra que antigamente o homem era o provedor, o protetor, o chefe de família e que hoje há vários modelos masculinos: o sensível, o delicado, o romântico, o vaidoso, o mais jovem, o que ganha menos e as mulheres exigem do homem coisas que não exigiam antes. Ele não tem que ser só o provedor bem-sucedido e poderoso. Também tem que cuidar do seu corpo, vestir-se bem, ser romântico, carinhoso. A mulher quer tudo isso numa só pessoa.

            Em Salvador parece que a coisa é ainda pior do que São Paulo. Aqui há 100 mulheres para cada 85,6 homens, na faixa de 20 a 39 anos. Isto coloca a capital baiana como a pior do país para se arranjar um companheiro para relacionamento sério.

Outro dia estava observando, na minha academia, o comportamento dos homens e das mulheres que a frequentam. O ambiente da academia é um excelente termômetro para análise de comportamento humano. Todos os homens ali estavam focados no objetivo de malharem e mesmo quando batiam papo com os amigos, o assunto das conversas costumava girar, pelo menos ali dentro, em torno dos próprios exercícios. Já as mulheres agiam de modo oposto, primeiro porque as mulheres conseguem, naturalmente, fazer várias coisas ao mesmo tempo, ao contrário dos homens. Pois eis que elas conseguem tomar cuidado para não estragar o esmalte nos halteres, ajeitar os mais diversos itens do vestuário para estarem sempre atraentes mesmo levemente suadas, falar várias vezes ao celular, selecionar a música que querem ouvir, checar a própria imagem nos inúmeros espelhos e, é claro, malhar. Tudo isso enquanto os olhinhos, devidamente retocados com rímel, rodam em busca da caça masculina que costuma estar concentrada na malhação.

Uma luta inglória....


2.6.13

Mulher é um bicho esquisito – Parte 3

O velho doktor Freud, entre uma baforada e outra de charuto, se perguntava “Afinal o que querem as mulheres?” Danuza Leão escreveu num artigo da Folha : “Ah, as mulheres”. 

Danuza ecoa as questões do criador da Psicanálise e relata casos frequentes de homens que tratam bem e amam suas mulheres, as valorizam, são ótimos pais, puxam conversas para assuntos de que elas gostam, reparam em sua aparência, as elogiam sempre, não se esquecem de todos os aniversários etc. No entanto, são desprezados como objeto de desejo e paixão.

Danuza dá uma pista do complexo labirinto da psique feminina: “o homem com quem se sonha não tem nada a ver com o homem que se ama. Nenhuma mulher vai se apaixonar por um homem que esteja de quatro por ela, adivinhando seus pensamentos, realizando seus desejos, antes mesmo de ela saber que desejos são esses. Ela pode gostar, sim, mas durante 24 horas, 48, enquanto existir aquela dúvida fundamental: que talvez não seja para sempre. É insuportável ser amada acima de todas as coisas o tempo todo, e pior ainda ter uma pessoa ao lado que nos tem como sua prioridade”.

Eis uma coisa que as mulheres deveriam ter coragem de dizer. No entanto, estão sempre reclamando que não são compreendidas, que os homens não lhes dão atenção e que falta homem no mercado. O sonho do príncipe encantado é ou não é uma constante no imaginário das nossas plebeias desde a adolescência? O “Eles foram felizes para sempre” ainda não anima os desejos da mulherada e os roteiros de todos os folhetins, novelas e filmes românticos para os quais elas tanto adoram arrastar os namorados?

O amor não tem manual de instruções, mas Danuza Leão é uma símia idosa (para quem não entendeu a ironia, é só um equivalente ao epíteto valorativo: “macaca velha). E ela reflete: “Para que o amor dure, é preciso que exista a dúvida se ele vai sobreviver, até mesmo àquela noite; não saber se ele vai ligar, não saber em que está pensando quando está calado, e sobretudo -sobretudo- saber que ele jamais vai lembrar de nenhuma das datas fatídicas, de quando se conheceram etc. etc., e jantar num restaurante especial e tomar um vinho no Dia dos Namorados. Para um homem ser amado é preciso que ele tenha um mundo particular --ou vários-- só dele, e no qual ela não consiga, jamais, penetrar”

Três grandes heroínas trágicas da literatura mostram o mesmo viés para com seus maridos. Emma Bovary, de Gustave Flaubert; Ana Karenina, de Liev Tolstoi; e Therese Desqueyroux, de François Mauriac. As três já foram retratadas em inúmeros filmes. Em comum, o fato de que todas trocam seus excelentes e bondosos maridos (bondosos e entediantes, é claro), por amantes reais ou potenciais. Como foram textos escritos por homens, as três protagonistas passam por belas enrascadas, mas deixam os maridos com o mesmo sentimento de: “o que eu fiz de errado?”.

Dona Flor, de Jorge Amado, quando teve a chance de um amor tranquilo, quando Teodoro, trouxe a paz de que o cafajeste Vadinho nunca foi capaz, não hesita em ficar com ambos. 

Afinal, elas gostam é dos cafajestes?  

26.5.13



Nada mais adequado do que assistir ao novo filme da franquia Star Trek em pleno dia 25 de maio, Dia Internacional do Orgulho Nerd, mesmo porque os nerds são, e felizmente não apenas eles, fãs de carteirinha, aficionados pela turma da Enterprise e Cia.

Então bati meu ponto no Cine Glauber Rocha e me vi com aqueles insuportáveis óculos 3D. E aqui vou repetir até que me provem o contrário: detesto filmes 3D. Até hoje nunca vi um cujas qualidades do 3D superassem seus defeitos. Eles, invariavelmente, ficam mais artificiais e escuros, meio nublados como se houvesse uma tela de filó sobre a tela do cinema e a tal profundidade de campo para mim não acrescenta lhufas. Mas que jeito? Todas as sessões eram com o maldito 3D!


Tirando esse efeito artificial, o filme tem inúmeras qualidades e eu, como trekker (sem carteirinha ou patente da Federação), fiquei fascinado com o roteiro, os diálogos e as cenas de ação, explosões e tensão e duplamente feliz ao saber que Kirk e seus amigos tiraram da liderança das bilheterias dos cinemas americanos, O Homem de Ferro 3, ao qual não assisti pois acho ridículos todos esses Homens de Ferro ou de Aço com seus uniformes collants coloridos, super armaduras, teias e corpos esverdeados).

O novo Star Trek repetiu a bilheteria da estreia do filme anterior de 2009 com arrecadação de mais de 70 milhões de dólares. Estas são boas notícias, pois a série sempre gerou muito mais paixão do que dinheiro. Dá um salto e avança do Cult para o Blockbuster sem perder a velha aura. Isso não é pouco!


Nessa nova missão vemos, inicialmente, numa espécie de aventura-prólogo do filme que se segue, como o capitão Kirk (Chris Pine) acaba perdendo o comando da Enterprise ao desobedecer a regra número 1 da frota estelar para salvar o amigo Spock (Zachary Quinto) da morte dentro de um vulcão em erupção.

Esse é apenas o começo da série de percalços que os oficiais da Enterprise enfrentarão até encontrar um vilão dos mais cascas grossas: John Harrison (Benedict Cumberbatch), cuja identidade real será revelada mais adiante no filme e que os verdadeiros fãs da série irão lembrar de episódios da primeira série. Nada digo agora para não estragar a possível surpresa, mas, inegavelmente, ele supera o vilão do filme anterior: Nero, papel de Eric Bana. 


O filme usa o gancho da rivalidade-amizade de Kirk e Spock de modo brilhante em cenas de carinho fraternal que são prelúdios de pancadaria das boas entre vilão e heróis (e não estou falando de super-heróis).


Após ataques e explosões na Terra, Kirk persegue o vilão até um planeta do Império Klingon, que, até os rebites da Sala de Engenharia sabem, é inimigo da Federação. 
Lá estão todos os tripulantes de quem aprendemos a gostar ao longo dos anos e com espaço suficiente na trama para explorar seus talentos e não apenas atuando como figurantes de luxo.  Spock, McCoy, Chekov, Scotty, Sulu e Uhura, todos audaciosamente indo aonde ninguém jamais esteve a procura de novas vidas e novas civilizações.  


Eu, que particularmente tenho um carinho especial com a nave Enterprise — e como aqui a pobrezinha sofre —, sempre me vejo virtualmente em perigo quando ocorrem problemas no reator de dobra ou quando algum torpedo de fótons ameaça os seus escudos e tremo ao ouvir: “escudos a 40%”, sinto certo prazer sutil com frases como: “capitão na ponte”, “vida longa e próspera” e todo aquele palavreado que adornou as minhas tardes de adolescente em frente à TV imaginando o espaço: a fronteira final

20.3.13

Divagações de um Ex-sedentário


Há dois meses venho frequentando um ambiente que sempre me causou estupor e, porque não dizer, certa repulsa. Não, caro leitor, não estou falando de festas de pagode ou aniversários de criança, muito menos de jogos do Ba-Vi. O lugar em que me vejo imerso seis vezes por semana é a academia.

Minha resignação a esta nova realidade se deveu a uma brutal repreensão da minha médica, escandalizada diante do resultado do meu exame de sangue, no qual o mau colesterol aparentemente tinha tomado Viagra e o colesterol bom se mandou para Caixa Pregos. Desaforos atirados na minha cara e alusões sinistras a uma morte precoce me levaram à sinvastatina, à aveia, às frutas e, enfim, à academia.

Uma coisa não se pode negar: a academia de ginástica é um ambiente perfeito para a perda de peso, o ganho de músculos e a exibição de egos inflacionados. Ah, os corpões que essas mentezinhas exibem. Quanto de psicologia caberia entre supinos e esteiras, halteres e bicicletas ergométricas; quanta análise antropológica está se esvaindo junto com litros de suor e de gordura.

Ali do alto da minha esteira divago: onde eu estava que não fui avisado que as panturrilhas masculinas passaram a exibir, obrigatoriamente, todo tipo de tatuagem? Há uma verdadeira poluição visual formada por símbolos tribais e grafismos aborígenes ou polinésios. Este pode ser um grande filão para arrecadação de imposto se as tatuagens nas panturrilhas forem incluídas entre os fatos geradores de tributos. Eu poderia, por exemplo, tatuar o símbolo da Petrobrás ou da Nike na minha panturrilha, ganharia um dinheiro dos anunciantes e assim estaria configurada a hipótese de incidência do tributo. Se é para exibir as panturrilhas e poluir o visual, que pelo menos se pague por isso.

Aliás, a academia que frequento pertence ao prefeito de Salvador. Estou me acostumando a correr com o alcaide na esteira vizinha. Pretendo apresentar a Neto esta sugestão: cobrar uma taxa dos tatuados e caso isto seja visto como discriminação ele pode dar exemplo e reduzir as mensalidades dos não-tatuados, repassando a diferença para os cofres da Prefeitura. Já pensou no impacto midiático? Ave, Neto!

Outra coisa que me chama a atenção é que as pessoas não largam seus smartphones para nada. A cada série de flexões ou abdominais, param para conferir quem postou o quê no Facebook ou quem curtiu o post de quem. Andam a esmo, sem olhar para frente, quase trombando uns nos outros com o olhar preso às suas telinhas portáteis. Parece que se se separarem demais dos telefones, vão definhar ou explodir, como naquele filme em que prisioneiros usam uma coleira e, ao se afastarem de certo ponto, a cabeça explode.

Aliás, essa obsessão das pessoas por estarem ininterruptamente plugadas ou eternamente online já beira o caso clínico. Outro dia, um amigo me ligou pedindo que entrasse imediatamente no Facebook para curtir um post que ele publicou. Informei que não dispunha de um computador e que estava no agradável café do Cine Glauber Rocha batendo papo com amigos, ao que ele retrucou que achava inadmissível (usou essa palavra) que eu não tivesse um celular com acesso à internet.

Pois eu resistirei enquanto puder a essa detestável pressão. Em casa ou no trabalho estou sempre com um computador à mão com acesso à internet. Será que no intervalo entra esses dois lugares eu preciso estar hiper-conectado como esses malucos? Minha maluquice é reservada para outras coisas. Tenho que me dar certo luxo e, hoje, o maior luxo é não permitir a invasão inoportuna por informações irrelevantes durante um bate-papo com amigos, nos minutos antes de começar o filme no cinema ou mesmo entre um aparelho e outro na academia.

A academia é uma terra de malucos funcionais. Os egos estão eternamente inflados e se houver cinco espelhos no espaço de 10 metros, o indivíduo se olhará em cada um deles, checando e re-checando os gomos do abdômen, a largura do peitoral ou a circunferência dos glúteos. Isso tudo sem largar o celular numa mão e a garrafinha de água na outra. Não importa que a academia tenha cinco bebedouros com água geladinha à disposição, o indivíduo não dispensará sua maldita garrafinha e sorve a água a cada 5 minutos enquanto confere as últimas do “Face” como se, ao não repetir o ritual, fosse morrer subitamente: desidratado e offline.

3.3.13

Indomável Sonhadora

A péssima escolha do título em português para este belíssimo filme é plenamente recompensado pela espetacular atuação de Quvenzhané Wallis, uma pequena grande atriz que, a esta altura, todo mundo já sabe que foi a mais nova a ser indicada ao Oscar (e a que tem o nome mais complicado). Além disso, o filme e seu diretor e roteiro também concorreram à estatueta máxima de Hollywood sem contar os prêmios nos festivais de Cannes e Sundance.

A tradução mais fiel ao original “Beasts of the Southern Wild”, Bestas do Sul Selvagem, refletiria muito mais fielmente o espírito do filme: a vida dificílima de famílias semiabandonadas, mas extremamente unidas, de uma comunidade pobre do sul dos Estados Unidos, na região alagada do rio Mississipi.

Nesse lugar devastado, insalubre e completamente enlameado, conhecido como A Banheira, habitam pessoas que poderiam perfeitamente estar num daqueles lixões que estamos acostumados a ver nas grandes cidades brasileiras ou em imagens de favelas indianas e miseráveis aldeias da África, mas é estranho ver esse tipo de pobreza no país mais rico do mundo.

A pequena Hushpuppy, de apenas 6 anos, é uma das crianças da comunidade, onde praticamente todos os adultos buscam no álcool uma fuga para as dores da sobrevivência. Ela vive apenas com o pai doente. A vida de Hushpuppy é uma sucessão de perdas: a mãe a abandonou quando ela era muito nova, os amigos vivem morrendo com as constantes inundações do rio e em breve o pai também irá morrer.

Do mesmo modo como os adultos da Banheira buscam uma fuga no álcool, Hushpuppy, como toda criança, encontra na imaginação e nas fantasias, uma saída equivalente, como nos diálogos com a mãe ausente.

Não basteassem a pobreza e tantas privações, Hushpuppy e seu pai doente enfrentam uma forte tempestade que inunda toda a comunidade e eles passam a viver em um barco precário com alguns amigos sobreviventes. O drama poderia parecer forte demais, quase insuportável de assistir, mas nas mãos inspiradas do diretor novato Benh Zeitlin, a película assume um tom lírico e quase de realismo fantástico.

A relação da menina e seu pai é o motor do filme. Como o pai de Hushpuppy sabe que vai morrer e que a filha ficará sozinha, ele a cria para ser uma sobrevivente, quase um pequeno animal, como aqueles que eles estão habituados a comer. E assim, nesse ambiente de hostilidades, não há espaço para demonstrações de afeto, para fragilidades ou para lágrimas.

É realmente espantoso que um diretor tão jovem (30 anos) tenha conseguido construir, com esse material, um filme tão terno e utilizando não atores. A princípio, duvidei que ele conseguisse, pois desde a primeira tomada, com uma câmera nervosa e nenhuma beleza aparente, o filme parece convidar o espectador para uma rejeição. Mas logo vemos que a ternura está nos pequenos momentos, nos gestos simples da menina, nas suas fantasias e na sua narração de criança diante das adversidades, em sequências de beleza improvável.

Há cenas de grande impacto como duas particularmente especiais. Em uma delas, o momento sempre adiado em torno do segredo da doença do pai, quando dá uma tremenda tristeza ver que tanta inocência não resiste à crua realidade ao vermos Hushpuppy gritar no rosto do seu pai: “Você pensa que eu não sei?” Mas não se permitem lágrimas por ali.  Nenhuma criança deveria passar por algo assim. É como amadurecer a fórceps.

Em um dos momentos mais líricos, a menina atira-se ao mar, como teria feito a sua mãe para fugir daquele local. Acompanhada de três outras meninas, são resgatadas por um barco e levadas para uma espécie de bordel flutuante, onde elas recebem algo que nunca tiveram, o carinho das mulheres que ali vivem e que poderiam ser suas mães, como poderia ser sua mãe, a mulher que nina Hushpuppy.

Ao fundo, emoldurando toda a cena, uma canção, um belo e triste blues, como devem ser os melhores blues, na belíssima voz de uma daquelas cantoras negras sulistas, com seu inconfundível timbre anasalado. A letra da canção diz: “Eu posso ser um escravo para você/Eu posso ser um patife para você/Se isso não é amor/Faça de conta que é/Enquanto o verdadeiro amor não chega”.

Que pena que as palavras no papel não tragam, junto, a melodia da canção. Só assim se poderia compartilhar o sentimento de que a letra da música é o retrato fiel da relação daquele pai e daquela filha que fazem de conta que não tem um pelo outro um amor verdadeiro, já que o amor é um luxo a que não se permitem as bestas do sul selvagem, um local em que tudo pode se perder a qualquer instante.

Mas ele está lá, pronto para ser perdido de todas as maneiras possíveis e então é melhor fingir que ele é outra coisa. Mas seu nome é amor e não se perde algo precioso assim sem muitas lágrimas.




8.2.13

O Primeiro Concurso de Miss Gay de Barreiras


A cidade de Barreiras fica no extremo Oeste da Bahia, na divisa com Goiás e Tocantins. No começo dos anos 80, a região cresceu muito com a chegada dos inúmeros sulistas atraídos pelo crédito farto e pela enorme quantidade de terra barata do cerrado, tudo disponível para o que acabou sendo o boom da soja, enriquecendo, em pouco tempo, centenas de agricultores.

A cidade passava pelo que costuma acontecer com regiões que se desenvolvem rapidamente: convivia com contradições como pobreza e riqueza e choques culturais entre tradições locais e do Sul e avanços em comportamentos de pessoas mais abertas a novidades, geralmente com uma bagagem cultural ou educacional mais plural, que traziam para Barreiras um frescor de ousadia.

Uma dessas pessoas era a minha amiga Salete. Gaúcha da gema e como todos os gaúchos, extremamente ligada às suas tradições, Salete também era uma inquieta por natureza. Sempre inventando modos novos de agitar as coisas, envolvendo os amigos e conhecidos em eventos e atividades culturais, onde não faltavam os defensores da natureza, artistas plásticos, cantores, poetas, jornalistas, religiosos, empresários, agricultores, políticos...Salete estava sempre envolvida em qualquer coisa que mexesse com a letargia natural de uma cidade do interior.

Um dia, aparentemente sentindo falta de alguma ousadia, eu a encontrei envolvida em um novo projeto. Ela queria realizar o primeiro concurso de Miss Gay de Barreiras.

Todos os amigos sabiam que quando ela colocava uma coisa na cabeça nunca mais tirava até conseguir realizar. De nada adiantaram as ameaças que logo começaram a aparecer. 

“Quem aquela gaúcha pensa que é para vir aqui na nossa terra fazer um concurso que é uma pouca vergonha?”, pensariam alguns. “Agora ela passou dos limites”, resmungariam outros. Mas a minha amiga não desanimava e quando as ameaças começaram a aparecer por telefone, ficando mais sérias, ela só ficou mais animada. Estava conseguindo o que queria: mexer  com as cabeças das pessoas.

Os seus amigos religiosos preferiram se afastar da polêmica. A polícia disse que não poderia dar segurança para o evento e um poderoso grupo ruralista da região, formado por fazendeiros tradicionais, capitaneou uma campanha contrária ao concurso.

Mas minha amiga Salete tinha muitos amigos e acionou seu grupo de admiradores: políticos, empresários, jornalistas e artistas. Era um pessoal jovem e articulado e, em breve, só se falava no concurso na cidade. Mas a sombra da ameaça pairava sobre a festa.

O dia se aproximava e minha amiga Salete fazia questão de divulgar a lista das concorrentes do 1º Miss Gay de Barreiras. Ela tivera um enorme trabalho para convencer as bichinhas a participar da competição, pois  todas temiam as ameaças. 

Dizia-se pela cidade que um dos ruralistas mais ricos e temidos da região soubera que uma das concorrentes revelaria, durante a festa, que tinha um caso com ele. Eu, pessoalmente, duvidava disso, pois o homem era muito poderoso e a bichinha jamais teria coragem de contar uma história assim, fosse ou não verdade, e principalmente em público. As lendas começaram a se formar e a festa começou a ficar cada vez mais interessante antes mesmo de começar. 

Eu comecei a suspeitar de que era a minha amiga mesma quem inventava essas histórias para atrair mais atenção para sua festa. Talvez nem as ameaças existissem mesmo. Afinal, antes de tudo ela era publicitária. Mas eu não esperava a surpresa no dia marcado que superou todas as minhas expectativas. Não sei como não houve mortes.

Estamos falando de uma cidade conservadora do interior em 1990. Estamos falando de uma festa organizada por uma "forasteira" gaúcha em pleno coração da careta sociedade ruralista do Oeste baiano.

Alguns dias antes da festa, viajei com amigos para Brasília, cidade próxima a Barreiras. Lá falamos da festa com um grupo de dez servidores da Caixa Econômica, do Banco Central e da Embaixada dos Estados Unidos e todos acharam que aquela era uma boa razão para eles se deslocarem no final de semana seguinte até Barreiras, uma cidade com excelentes rios para relaxar e uma festa que ameaçava ser inesquecível.

Na noite marcada, o clube de campo onde a festa aconteceria estava superlotado. Centenas de pessoas curiosas pelo evento se aglomeravam em frente ao palco. Minha amiga Salete estava radiante e feliz da vida pela sua ideia finalmente se materializar. Mal sabia ela que dali a pouco começaria o caos.

Meus dez novos amigos de Brasília estavam se divertindo muito. Naquele final de semana eles próprios fizeram muitos amigos novos na cidade. Eu subi numa das dezenas de mangueiras do clube para ver melhor o palco, pois tinha gente demais. Do alto da árvore consegui um ângulo perfeito.

A noite estava quente e cheia de estrelas, como sempre acontece nas noites do cerrado. Minha amiga Salete convidou empresários, vereadores, artistas e jornalistas da cidade para fazerem parte do júri do concurso e a decoração do lugar ficou a cargo das próprias bichinhas que, durante a tarde, enfeitaram o lugar em que, à noite, desfilariam. 

Eram seis as concorrentes ao cetro, ao manto e à coroa de 1ª Miss Gay de Barreiras, quase uma Rainha da Soja Gay. As duas mais cotadas eram La Negra, um cozinheiro queridinho das mulheres que precisavam de uma mão da cozinha (e de homens que precisavam de outras coisas) e sua maior rival, Kátia Flávia, um estudante que não sei bem o que fazia além de rebolar pela cidade e flertar muito nas festas e carnavais. Dizia-se que Kátia Flávia já tinha passado por metade das camas, sofás e assentos de camionetes e de tratores da cidade. La Negra ficaria com a outra metade.

A mestre de cerimônias da festa era Berê Brasil. Ela e Salete eram gaúchas e amigas inseparáveis. Todas as ideias de uma tinham o dedo da outra na execução e vice-versa. Onde uma delas idealizava, a outra realizava; onde uma delirava a outra puxava para o chão. E coube a Berê Brasil anunciar uma a uma as concorrentes e também o respeitável corpo de jurados, a fina flor da classe empresarial, artística e política da cidade.

As bichinhas desfilavam, animadíssimas, em traje de gala, em traje típico e, por fim, de maiô. Berê Brasil anunciava, com irreverência, seus nomes de guerra, suas profissões, as roupas que trajavam e seus sonhos, que sempre envolviam um marido rico. A plateia, animada pela bebida e pela velha rivalidade de La Negra e Kátia Flávia, aplaudia, vaiava, assoviava. Ninguém se lembrava da ameaça que pairava sobre a festa.

Nesse momento, como não poderia deixar de ser, houve um show breguíssimo, que envolveu uma mãe de santo conhecida do lugar e um ritual muito estranho que consistia nas seis bichas, vestidas de maiô arrancando, cada uma, um lenço colorido que formavam o vestido da mãe de santo que parecia mais uma cigana...tinha uma coisa a ver com sete saias ou sete véus, ou sete ruas...algo assim...tinha tambores e uma tigela de barro que alguém dançava segurando com fogo.

Foi quando os tiros começaram. Não dá para confundir tiros com outras coisas. De repente, a multidão estava incontrolável, gente correndo de um lado para o outro. Ninguém sabia para onde ir, pois os tiros vinham de todos os lados. 

Do alto da mangueira onde eu estava, consegui ter uma visão ao mesmo tempo privilegiada e dantesca: meus amigos caindo, outros correndo e tropeçando nas cadeiras que cercavam o palco; amigas de sandálias de salto tropeçando no chão formado de brita; jurados se escondendo debaixo das carteiras escolares que serviam de bancada; a mãe-de-santo (ou cigana), com os olhos esbugalhados, agarrada a uma das concorrentes de maiô, que gritava como uma louca; La Negra de peruca caindo para um lado, saltando, com agilidade surpreendente, por sobre as caixas de alto falantes, com um homem atrás com uma vara comprida batendo em suas costas. 

Foi quando vi que o alvo dos atacantes eram as bichas. Cada uma delas era perseguida por um grupo. A única bichinha que escapou foi a que se agarrou com a mãe de santo. As demais trataram de fugir dos agressores, algo que sabiam muito bem como fazer, pois era uma prática que aprimoraram com o tempo pela necessidade. 

Gritaria, tiros e correria. Foi quando percebi que o alto de uma mangueira não era o local mais seguro para ficar quando costumam dar tiros para cima. Sem pensar duas vezes, me atirei no chão e caí sobre uma cadeira de alumínio dobrável da Brahma que fez aquilo que essas cadeiras são fabricadas para fazer: dobrou sob o peso da minha perna, prendendo-a.

Nesse momento, vi Kátia Flávia passar ao meu lado sendo perseguida por dois homens com varas. Seu sapato alto quebrou uma tira e ela corria claudicando com um pé calçado e outro descalço. Era uma cena que poderia perfeitamente estar num filme de pastelão se não fosse toda a violência real envolvida. 

Meus olhos cruzaram com os de uma das amigas de Brasília que viajaram para ver a festa. Eu tentava, com o olhar, pedir-lhe desculpas por trazê-la de Brasília, aquele lugar civilizado, para o meio de selvagens. Ela me olhou com os olhos brilhando, faiscando de pânico e emoção. Não sabia se me amaldiçoava por trazê-la para aquele tiroteio ou me agradecia por fazê-la viver uma experiência inesquecível. 

Percebi que a segunda opção era a mais possível quando ela, que estava deitada no chão, puxou, discretamente, de debaixo do corpo, o sapato perdido por Kátia Flávia me dizendo sussurrando: “Essa aqui é a prova de que isso tudo existiu. Se eu não levar uma prova, ninguém em Brasília vai acreditar”.

Deixei minha amiga dando a “elza” no sapato de Kátia Flávia e corri para o palco para ver como estava minha amiga Salete. Imaginei como ela devia estar decepcionada, após tanto trabalho, tanto esforço e preparação, por ver sua festa destruída por um bando de arruaceiros.

Ao chegar ao palco vi uma cena que não entendi. Berê Brasil sacudia Salete pelos ombros e gritava alguma coisa com ela repetidas vezes no seu rosto. Não dava para entender o que falavam porque as duas gritavam ao mesmo tempo. Mas logo Salete parou de falar e eu pude ouvir o que dizia Berê, que foi o que acalmou a minha amiga.

Salete gritava repetidamente:  - "Ai Berê, as minhas meninas! Ai Berê, as minhas meninas! Ai Berê, as minhas meninas!"

E só se acalmou quando compreendeu o que Berê dizia: - "Que meninas, Salete? É tudo macho!"

OBS: Da última vez que soube, o sapato de Kátia Flávia decorava uma sala na sede da Caixa Econômica Federal, em Brasília.

3.2.13

A Gata


A veterinária nos havia dito que o parto aconteceria no máximo até o final de semana. Apesar de ser o seu primeiro parto, as gatas persas costumam corresponder ao que dizem as veterinárias regiamente pagas e a nossa era a maior especialista em gatos da cidade, ela própria com seis deles no seu apartamento de médio porte que dividia com a mãe idosa e a meia dúzia de felinos das mais finas procedências. Como era o caso da nossa bichana peluda de um azul aveludado.

Nós, ansiosos, nos revezávamos para nunca deixar a gata sozinha em casa naqueles últimos dias já que, como ela tinha um pequeno defeito na mandíbula, coisa pequena, de nascença, nem tínhamos notado isso quando a compramos ainda filhote e por quem pagamos uma pequena fábula, pois esse defeito a impediria de limpar a placenta dos filhotes e evitar que eles sufocassem após o parto. Estava tudo certo, passamos a sexta, o sábado e o domingo sem sair de casa ou saindo apenas um de cada vez. Mas passou o Faustão e o Fantástico e a nossa grávida nem tchum. Ela dormia no nosso quarto para emergências noturnas.

A segunda-feira chegou e teríamos que trabalhar, Mas a empregada estava orientada a ficar de olho na bichana. A qualquer sinal de parto ela deva ligar para um de nós dois que saberíamos o que fazer. Já havíamos lido todo o manual do parto dos felinos. A doméstica humana passou o dia inteiro de sobreaviso. Deixou sopa, cozido, feijão e o apartamento um brinco às seis da tarde. Eu chegaria às oito da noite. Não era possível que fosse esse o intervalo que a minha gata escolheria para parir.

Mas ao entrar na minha sala vi o rastro de sangue. O piso de mármore branco completamente sujo da placenta e os três filhotes mortos. Ela me olhava sentada ao lado do último cadáver. Eu olhava desolado para a cena com um tanto de nojo e perplexidade. Ela trazia nos olhos dourados uma resignação que eu não soube definir, mas não parecia abalada ou envergonhada. Como imaginávamos, ela não conseguiu limpar com a boca as vias respiratórias dos bebezinhos persas, nem comer a placenta. Morreram todos sufocados Deixaram um cheiro doce de sangue novo no piso de mármore branco.