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26.9.22

LEITURAS DE JUNHO A SETEMBRO



A cada ano publico a lista de livros lidos entre Janeiro a Maio, Junho a Setembro e Outubro a Dezembro. A primeira parte dos lidos deste ano já está publicada aqui no blog. Foram 21 lidos nos primeiros cinco meses do ano e outros 21 nessa segunda parte do ano, totalizando 42. Foram 18 físicos e 24 e-books.

Tenho procurado ler mais livros de autoras mulheres e finalizei as duas partes desse ano com a leitura de 10 livros das escritoras: Mary Shelley (Frankenstein),  Jane Austen (Mansfield Park), Lisa Hilton (Elizabeth I), Léa Messina (100 Autores Que Você Precisa Ler), Philippa Gregory (A Filha do Fazedor de Reis), Shirley Jackson (A Assombração da Casa da Colina), Margaret Atwood (Os Testamentos), Virginia Woolf (Rumo ao Farol), Harper Lee (Vá, Coloque um Vigia) e Liane Moriarty (Pequenas Grandes Mentiras).

Eis os 21 lidos de Junho a Setembro.


1
-UM HOMEM SÓ - Clássico da literatura moderna de Christopher Isherwood, aborda o envelhecimento e a solidão de um homem gay, um professor inglês na Califórnia dos anos 1960 após a morte trágica de seu jovem parceiro.  Publicado pela primeira vez em 1964, o livro chocou leitores com seu retrato franco de um homem gay na maturidade.  Uma narrativa comovente sobre amor e solidão com prefácio do escritor e ativista João Silvério Trevisan. Foi adaptado para o cinema com Colin Firth (indicado ao Oscar pelo papel) e Julianne Moore no elenco. Escrevi um texto inteiro sobre o livro no blog.

2-NO CAMINHO DE SWAN- Livro inicial da colossal empreitada de 7 volumes da série Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.  Obra prima que todos deveriam ler um dia na vida, mas que são difíceis pela complexidade do tema e do estilo. Li para poder ler o capítulo sobre ele da obra Lições de Literatura, de Vladimir Nabokov (texto abaixo), o que foi um excelente motivo para começar a ler Proust que cria dezenas de personagens e ambientes da França do início do século XX e trata da memória como visão filosófica do tempo com as recordações intercalando o passado e o presente, o que tornou-se uma revolução para o romance em todos os  tempos.

3-LIÇÕES DE LITERATURA - O autor russo Vladimir Nabokov, após migrar da Rússia para os EUA ensinou literatura em universidades antes do sucesso do seu livro Lolita.  Os manuscritos das suas aulas foram publicados em dois volumes e neste ele examina os clássicos Mansfield Park (Jane Austen), A Casa Soturna (Charles Dickens), O Médico e o Monstro (Robert Louis Stevenson) e No Caminho de Swann (Marcel Proust). Li os quatro livros para poder ler depois os capítulos sobre eles. Nabokov também analisa Madame Bovary (Gustave Flaubert) e A Metamorfose (Franz Kafka), que eu já havia lido antes, além  de Ulysses, de James Joyce, livro para o qual ainda não reuni coragem suficiente para ler.

4-NÓS - Escrito pelo dissidente russo Iêvgueni Zamiátin, esta é a distopia original que inspirou os clássicos: Admirável Mundo Novo, 1984, Laranja Mecânica, Fahrenheit 451, O Conto da Aia e Jogos Vorazes. Relançado no Brasil após ter estado esgotado por anos, em uma edição de luxo, acompanhada de resenha escrita por George Orwell e uma carta do próprio autor a Stálin pedindo para sair da União Soviética, onde todas as suas publicações estavam sofrendo perseguição política. O livro descreve um governo totalitário que privou a população de direitos fundamentais como individualidade e liberdade de expressão até que um engenheiro começa a duvidar das suas convicções ao conhecer uma mulher que o contamina com a doença chamada imaginação.

5-UM ESTUDO EM VERMELHO- Primeiro livro de Arthur Conan Doyle em que o autor introduz o detetive mais popular da literatura mundial Sherlock Holmes. Publicado em 1887, nessa primeira história, Holmes conhece seu melhor amigo Watson. A polícia de Londres pede auxílio a Holmes para desvendar um crime: um homem é encontrado morto, sem ferimentos e cercado de manchas de sangue com expressão de pavor no rosto. Na segunda parte do livro é apresentada a curiosa vida dos Mórmons no interior dos EUA e os motivos iniciais que levaram o assassino a cometer o crime.

6-O SINAL DOS QUATRO – Segundo volume das histórias do Sherlock Homes, também encontrado com o título de O Signo dos Quatro, traz o famoso detetive como sempre autoconfiante e atraído pelas agruras da cliente Mary Morsan, uma bela mulher atormentada por um passado nebuloso. O curioso é que Watson conhece nessa história a futura esposa que irá aparecer nos livros seguintes. Aqui encontramos uma aventura cheia de elementos dramáticos, uma caça ao tesouro com direito a um pigmeu e um pirata com perna de pau, terminando em uma caçada desesperada com perseguição de barco pelo Tâmisa. Aqui vemos Holmes lutando contra o seu vício em cocaína.

7-AVENTURAS DE SHERLOCK HOLMES Terceiro volume das histórias de Arthur Conan Doyle, esse livro reúne os doze primeiros contos de Sherlock Holmes, publicados originalmente com enorme sucesso na década de 1890 na revista britânica Strand Magazine. Entre esses contos estão as histórias mais conhecidas como A Liga dos Cabeças Vermelhas, Escândalo na Boêmia, O Diadema de Berilos e A Banda Malhada. Uma ótima maneira de se aventurar junto com o famoso detetive de Baker Street por histórias mais rápidas mas igualmente instigantes.

8-MEMÓRIAS DE SHERLOCK HOLMES - Outro livro de contos de Holmes, assim como o anterior, com doze histórias entre elas Silver Blaze (sobre o desaparecimento de um cavalo de corrida), A Caixa de Papelão (sobre uma caixa misteriosa contendo duas orelhas), O Ritual Musgrave (sobre o desaparecimento o mordomo de um amigo de Holmes), O Intérprete Grego (envolvendo um poliglota grego e sequestro onde pela primeira vez aparece Mycroft, o irmão mais velho de Holmes) e O Problema Final (na qual Doyle, cansado do detetive, mata Holmes. Depois ele o “ressuscitaria” devido à insistência dos fãs e da editora. Aqui conhecemos o Professor Moriarty famoso arqui-inimigo de Holmes).

9-A FILHA DO FAZEDOR DE REIS – Primeiro livro que li da autora Philippa Gregory, famosa pelos romances históricos adaptados para as telas.  Quarto livro da autora sobre a Guerra das Duas Rosas (já li vários livros sobre o tema e nunca me canso deles). Novamente uma protagonista feminina: a filha do Conde de Warwick, o conhecido “Fazedor de Reis”, o homem mais poderoso da Inglaterra no século XV. Sua filha Anne se torna uma mulher corajosa ao acompanhar o pai numa guerra contra o rei da Inglaterra que pôs o herdeiro de Henrique VI no trono, com quem Anne é casada. Após a morte do rei, ela se casa com o futuro rei Ricardo III, assassino do seu ex-marido.

10-ASSOMBRAÇÃO DA CASA DA COLINA - Primeiro livro que li de Shirley Jackson e considerado um clássico de histórias de casas mal assombradas. Tenho que dar razão a Stephen King que afirmou: “Essa é a história de casa mal-assombrada mais próxima da perfeição que eu já li.” Adaptado pela Netflix na série A Maldição de Hill House. “A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta. Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho”.

11-AS CZARINAS, AS MULHERES QUE FIZERAM A RÚSSIA – Após ler onze livros seguidos de ficção, consegui encaixar uma história de biografias para dar uma respirada. Aqui, um tema que adoro desde que li Os Romanov, do premiado historiador Simon Sebag Montefiore. As czarinas, escrita pelo historiador e diplomata russo, Vladimir Fedorovski, aborda a história da Rússia não pelos nomes e feitos dos czares, mas pela atuação das várias mulheres que estavam no poder ao longo de muitas décadas. As czarinas russas têm histórias repletas de rivalidades, conspirações, traições e assassinatos e é surpreendente que tão poderosas mulheres comandassem os destinos de um país tão grandioso, machista e conservador.

12-TROCAS MACABRAS - 41º livro que li do metre Stephen King.  Li numa edição capa dura de luxo da editora Suma de Letras com 650 páginas. Estamos de volta à cidadezinha de Castle Rock, cenário  de outros livros do autor onde uma nova loja de nome “Artigos Indispensáveis”, é aberta e dirigida por um estranho homem: Leland Gaunt, que se tornou um dos maiores vilões de King. Para cada cliente, Gaunt tem algo perfeito por um preço camarada. Mas, junto com a pechincha, há um pedido estranho e o que começa com aparentes pegadinhas inocentes sai do controle e transforma a cidade em palco de mortes brutais. Na adaptação para as telas temos Ed Harris e Max von Sydow nos papéis principais.

13-CAÇANDO CARNEIROS – 6º livro que li do escritor japonês Haruki Murakami. Escrevi um texto só sobre este livro no blog. A obra tornou o autor famoso mundialmente e confesso que não gostei do livro, assim como não havia gostado da leitura anterior “Kafka à Beira-Mar”. Aqui temos uma espécie de thriller em que um protagonista insosso e sem nome recebe um telefonema estranho, conhece pessoas inesperadas, parte para uma jornada em busca de pistas sobre um carneiro desaparecido no meio rural do Japão e acaba descobrindo a si mesmo, como acontece em toda road story.

14-OS TESTAMENTOS Continuação do excelente O Conto da Aia, obra-prima distópica da canadense Margaret Atwood, de quem eu já havia lido o excelente Vulgo Grace, também adaptada para as telas. Escrito quinze anos após O Conto da Aia, ainda estamos na teocrática República de Gilead, mesmo após tentativas de insurgência. Aqui, temos as histórias de três mulheres que irão se encontrar de modo explosivo. Uma delas cresce em Gilead, filha de um Comandante e outra, no Canadá, participando de protestos contra Gilead. Os testamentos dessas duas jovens são entrelaçados pelo revelador manuscrito da mais implacável executora do regime, a odiosa Tia Lydia, cuja obra de terror já vimos no livro anterior.

15-O TELEFONE PRETO E OUTRAS HISTÓRIAS – Terceiro livro que li do ótimo Joe Hill, filho de ninguém menos do que Stephen King. Os anteriores foram A Estrada da Noite e NOS4A2 (Nosferatu), que virou série com duas temporadas. Este livro de contos foi publicado anteriormente sob o título Fantasmas do Século XX. O conto que dá título à nova edição recentemente foi adaptado sem muita inspiração para o cinema com Ethan Hawke como o vilão que sequestra e mata crianças. O The Washington Post considerou Hill um dos "maiores escritores de ficção fantástica do século XXI". Aqui temos 16 contos sendo que alguns são excepcionais, como Melhor Estreia de Terror, Fantasmas do Século XX, Os Filhos de Abraham, O Café da Manhã da Viúva e Internação Voluntária.

16-RUMO AO FAROL Segundo livro que li de Virginia Woolf após Mrs. Dalloway. A história uma família que passava as férias de verão em uma casa de praia de onde avistava o farol da ilha próxima.  Não é um livro fácil já que é narrada em fluxo de consciência e discurso indireto livre: “Na sala em ruínas, pessoas em piquenique teriam aquecido suas chaleiras; amantes teriam ali buscado abrigo, deitados nas tábuas nuas; e o pastor teria guardado sua comida em cima dos tijolos caídos, e o vagabundo teria dormido enrolado no casaco para se proteger do frio. Então teto teria caído; urzes e cicutas teriam fechados os corredores, os degraus e as janelas; teriam crescido desigual, mas luxuriosamente, sobre o entulho, até que um intruso, tendo se perdido, poderia ter dito, apenas por causa de um lírio-tocha misturado às urtigas, ou um caco de porcelana no meio das cicutas, que aqui, alguém, uma vez vivera”.

15-VÁ, COLOQUE UM VIGIA- Segundo romance de Harper Lee, ambientado duas décadas depois de sua obra-prima O Sol é Para Todos. Estamos nos anos 1950 em meio à questão da segregação racial. Para grande surpresa de todos que esperaram anos por uma segunda obra de Harper Lee, que após o sucesso do primeiro e premiado livro jamais escreveu outro por 65 anos, vemos uma surpreendente abordagem sobre os personagens que aprendemos a amar: “Se um homem diz ‘essa é a verdade’ e você acredita, mas depois descobre que é mentira, fica desapontada e toma cuidado para nunca mais ser enganada por ele. Mas quando você se decepciona com um homem que sempre se pautou pela verdade – e em cuja maneira de encarar as coisas você acreditava -, você não fica apenas ressabiada, fica sem nada.”

18-ME ENCONTRE- Terceiro livro de André Aciman e continuação de “Me Chame Pelo Seu Nome” (premiado no cinema com o Oscar de melhor roteiro adaptado). Os personagens do primeiro livro, Elio, seu pai Samuel e seu primeiro amor Oliver estão de volta às páginas. Samuel, a caminho de Roma para encontrar seu filho que se tornou um pianista renomado.  Elio se muda para Paris, onde vive mais um romance, enquanto Oliver, pai de família e professor nos EUA, planeja reencontrar o amor do passado na Europa. O livro está muito distante da beleza do primeiro e há até mesmo uma falha temporal levando-se em conta os acontecimentos narrados no segundo livro, Variações Enigma, onde Elio e Oliver se encontraram, mas que aqui o autor passa batido por esse detalhe.

19- RAVENSPUR – Quarto livro que li do britânico Conn Iggulden sobre a icônica Guerra das Rosas envolvendo os descendentes da família de reis Plantagenetas da Inglaterra (os ramos York, Lancaster e Tudor). Continuação dos volumes: Pássaro da Tempestade, Trindade e Herança de Sangue que li no ano passado. Neste quarto volume, acompanhamos o rei Eduardo IV ser expulso da Inglaterra enquanto esposa e filhos se refugiam para se escapar dos Lancaster. Eduardo retorna com um poderoso exército e recupera a coroa. Mas Henrique Tudor irá reivindicar o trono, levando a uma das batalhas mais sangrentas e resultando na morte seguida de três reis. O autor é elogiado por duas outras séries que pretendo ler: O Imperador, sobre Júlio Cesar, e O Conquistador, sobre Genghis Khan, ambos com cinco volumes cada.

20-UM SONHO FEBRIL- O primeiro livro que li de George R.R. Martin fora dos seus 7 volumes da série Game of Thrones e dos 9 volumes da série Wild Cards. Aqui uma reinvenção original das histórias de vampiros que se passa no meio do século 19 no sul escravagista dos EUA. O falido capitão de navios a vapor Abner Marsh recebe uma oferta de sociedade do rico aristocrata Joshua York para construção do belíssimo e potente Sonho do Fevre. A embarcação navega pelo rio Mississipi deixando pelo caminho uma coleção de histórias sombrias com interessantíssimas discussões sobre o que nos torna como seres humanos não tão diferentes assim dos vampiros que tratam a humanidade do mesmo modo como tratamos os animais e os negros escravizados.

21- PEQUENAS GRANDES MENTIRAS
- Primeiro livro que li da escritora Liane Moriarty e adorei, mas teria apreciado mais se já não tivesse assistido à série Big Little Lies com duas temporadas na HBO e soubesse o grande final. Muito bem escrita e focada na amizade de três mulheres fortes com filhos na mesma escola primária. Madeline (na série vivida por  Reese Witherspoon) está no segundo casamento e arrasada porque a filha do primeiro relacionamento decidiu morar com o pai que as abandonou na infância. Celeste (na série, Nicole Kidman) mãe de gêmeos e com um marido que promove frequentes abusos físico e mental, e Jane uma jovem mãe solteira que tem o filho, fruto de uma violência sexual. O livro é narrado em dois tempos alternados. Já sabemos que houve uma morte mas não quem morreu nem como até o final.

12.6.22

NÓS

 

A Mãe de todas as distopias

Acabei de ler NÓS, do escritor russo Ievguêni Zamiátin, considerado a mãe de todas as distopias na Literatura. A obra foi publicada nos anos 1920, precursora de todas as famosas distopias literárias: Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), 1984 (George Orwell), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), O Conto da Aia (Margaret Atwood) e Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), além dos mais recentes Batlle Royalle, Jogos Vorazes e Divergente, todas tendo NÓS como fonte primordial. É curioso que todas as distopias posteriores geraram filmes impactantes, continuações e refilmagens, mas NÓS continua a ser pouco reconhecido.

A obra estava esgotada há anos no Brasil, mas retornou pelas mãos da Editora Aleph, numa edição de luxo, que traz duas leituras complementares: uma resenha de George Orwell de 1946 e a tocante carta enviada pelo autor Zamiátin ao superpoderoso dirigente Stálin, pedindo permissão para deixar a União Soviética por conta da perseguição política e censura feroz.

Em NÓS temos, como nas distopias seguintes, um governo totalitário, aqui chamado Estado Único, que, em nome do bem estar geral, privou a população de toda liberdade, uma sociedade na qual a inspiração é um tipo de epilepsia e a imaginação, uma doença que pode ser erradicada com uma lobotomia.  Temos também aqui uma figura masculina central dominante: o “Benfeitor”, o “pai” do futuro “Grande Irmão”, de 1984, e sob o jugo de quem todos estão irremediavelmente presos.

Estamos no século 26 e não há nenhuma liberdade de expressão nem privacidade. As casas são de vidro transparente e as pessoas têm direito a apenas 1 hora por dia para assuntos particulares, quando podem abaixar as persianas. Nessa única hora está incluído o sexo, que deve ser requisitado através de um formulário. As pessoas não têm filhos particulares e nem mesmo nome, mas números.

O protagonista, o engenheiro D-503, está “feliz” com sua vida genérica até que uma mulher aparece na sua vida, I-330, que o faz questionar tudo em que acreditava. Ao ver-se completamente abalado por um novo sentimento, é diagnosticado por um médico como uma doença fatal: “Você desenvolveu uma alma”.

A ideia tem referências na expulsão do Jardim do Paraíso e George Orwell diz em sua resenha de NÓS: “O princípio condutor do Estado é que felicidade e liberdade são incompatíveis. No Éden, o homem era feliz, mas na sua loucura ele exigiu liberdade e foi expulso. Agora o Estado Único restaurou sua felicidade ao retirar a liberdade”. Mas então reaparece a mulher, qual uma nova Eva, para bagunçar tudo de novo.

O livro não chega a ser tão bom quanto as obras posteriores que incomodam muito pela contundência e mobilizam muito mais os leitores para os horrores das políticas totalitárias de Estado, mas aqui temos a relevância de tratar-se do primeiro livro distópico escrito, surgindo em plena ditadura soviética sob o tacão de Stálin e é incrível saber que Zamiátin que foi prisioneiro no regime czarista, voltou para o mesmo corredor da mesma prisão pelas mãos justamente dos bolcheviques, após a revolução.

NÓS merece ser lido quase como uma obrigação moral de todos que valorizam a liberdade de pensamento na Literatura. A obra, que tinha sido banida do seu país natal por mais de 60 anos, só podendo ser publicada em outras línguas, apenas conseguiu o direito de tradução em russo em 1988, graças à abertura promovida por Mikhail Gorbatchov.

Trata-se de um atestado sobre a importância da liberdade de pensamento crítico e o ofício de um escritor e é comovente ler na nova edição a carta-apelo de Zamiátin a Stálin: “Como escritor, ser privado de escrever é como uma sentença de morte. Não posso continuar meu trabalho pois nenhuma atividade criativa é possível numa atmosfera de perseguição sistemática que aumenta de intensidade ano após ano”.

20.3.18

O CONTO DA AIA E O VILAREJO


Acabei ontem de ler dois livros: O Conto da Aia, da canadense Margaret Atwood, e O Vilarejo, do brasileiro Raphael Montes. Recomendo vivamente a leitura de ambos.

O Conto da Aia vem de uma tradição de narrativa de distopia que remete a Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e 1984, de George Orwell, todos eles obras primas da literatura moderna adaptados com sucesso para o cinema.

A história se passa em um futuro próximo onde todo o Congresso e o presidente da República foram assassinados por fundamentalistas, a Constituição foi abolida e um grupo cristão radical assumiu o poder  instaurando uma ditadura que retira aos poucos todos os direitos das mulheres, tornando-as meras escravas reprodutoras.

As Aias, mulheres férteis (a minoria, em razão da contaminação do meio ambiente) são capturadas para serem estupradas uma vez por mês e gerar filhos para os Comandantes com a conivência das esposas inférteis que participam do ritual mensal. O objetivo seria repovoar o país que foram os Estados Unidos e que passou a ser a República de Gilead.

O livro, lançado há mais de 30 anos, voltou a ser popular após a eleição de Donald Trump com retorno de ideais radicais e graças também à bem sucedida adaptação para minissérie que foi a grande vencedora do último Emmy, faturando cinco prêmios (melhor roteiro, série dramática, direção, atriz e atriz coadjuvante).

A narradora — cujo nome real não sabemos, já que todas as Aias têm como nomes os prefixo dos nomes dos seus donos —, descreve a atmosfera sufocante e de extremo medo em que vivem as mulheres obrigadas a se vestirem totalmente de vermelho, com toucas brancas na cabeça com uma espécie de antolhos,  que as impedem de verem e serem vistas ao redor.

Nesse ambiente hostil vivem os Comandantes, suas Esposas, Os Olhos, que são espiões, os Anjos, um tipo de infantaria militar, as Marthas, responsáveis pela limpeza e comida das casas dos Comandantes, e as Tias, mulheres sádicas que cuidam da “educação” das Aias, leiam-se: lavagem cerebral, humilhações e torturas.

O livro deve ser lido como um alerta contra as tentativas de hierarquizar o patriarcado e fortalecer o poder do Estado contra os direitos das minorias.

Selecionei um trecho que revela o terror da narradora ao tentar encontrar um tipo tênue de barganha com o seu algoz para evitar a submissão mental total durante um dos inúmeros estupros disfarçados de cópula ritual: “Finja! Berro para mim mesma dentro da minha cabeça. Você deve se lembrar como. Vamos acabar logo com isso. Senão você ficará aqui a noite inteira. Movimente-se. Mexa esta carne um pouco, respire de maneira audível. É o mínimo que você pode fazer”.

Não sou mulher e jamais poderei imaginar esse tipo de brutalidade contra o corpo e contra o espírito de uma mulher. Não faço sequer ideia. Deste lado desse abismo, resta o meu estupor.

O VILAREJO

O Vilarejo é um livro relativamente pequeno, com menos de 120 páginas, que narra sete contos interligados e tenebrosos que se passam numa remota vila fictícia tomada pela fome e pelo rigorosíssimo inverno, num país assolado por uma guerra civil. 

O suspense tem início logo no prefácio e tem um arremate, do mesmo modo sombrio, no posfácio. De presente para o leitor, mais de uma dezena de belíssimas ilustrações de Marcelo Damm (sobrenome que, curiosamente, significa “maldito”, em inglês.)

Raphael Montes é um jovem autor que desponta com ótimos livros que vem fazendo sucesso como Dias Perfeitos e Suicidas e neste O Vilarejo demonstra um excelente domínio da narrativa de terror.

Os sete contos são curtos e de leitura ágil, mas nem por isso são rasos. Cada um deles tem como título os nomes dos demônios responsáveis por cada pecado capital: Asmodeus (luxúria), Belzebu (gula), Mammon (ganância), Belphegor (preguiça), Satan (ira), Leviathan (inveja) e Lúcifer (soberba) e cada conto narra a história de um habitante do Vilarejo relacionado a cada pecado e demônio. A narrativa não linear dá um sabor a mais. Apenas no último conto somos apresentados à cronologia dos trágicos eventos, o que nos faz entender de fato toda a história.

As narrativas são de um terror repulsivo, mas não apelativo, apesar das descrições sanguinolentas já que o contexto está bem adequado à atmosfera sombria da ambientação. Em algumas páginas, as várias manchas de sangue parecem nos lembrar de que estamos imersos na maldade humana.

Como diz o crítico Rodolfo Lucena, na Folha de São Paulo: “As histórias de "O Vilarejo" não deveriam ser lidas, e sim contadas em voz soturna em torno de uma fogueira, em noite de lua cheia”.

Recomendo a leitura da versão impressa, pois na forma digital o livro perde muito da sua beleza e do prazer ritual de desfrutar de uma edição caprichada e elegante.