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8.5.20

NOVEMBRO DE 63


“O Passado é Obstinado!”

Em torno da frase acima se desenrola a trama do excepcional livro “Novembro de 63”, obra de quase 730 páginas do mestre do terror Stephen King, que acabei de devorar.

Quem gosta do estilo do autor vai encontrar quase tudo que ele aborda nas suas obras. Digo quase tudo porque não estarão aqui monstros perigosos ou psicopatas assustadores que fizeram a fama do mestre e deliciaram os leitores dos livros de King. No entanto, há uma pitada saborosa para os fãs do universo do autor: parte da obra se passa na cidadezinha de Derry, cenário de medonhas cenas descritas por King, inclusive com a citação de um certo palhaço matador de crianças.

Aqui o universo é outro e tem como base a Teoria do Caos, segundo a qual uma pequena variação nas condições em determinado ponto de um sistema dinâmico pode ter consequências de proporções inimagináveis. Em termos mais gerais e que tornaram famosa a teoria, o bater de asas de uma borboleta na China pode provocar um furacão no México.

Nosso protagonista é Jake Epping, professor de uma pequena cidade do Maine (cenário de quase todos os livros de King), uma pessoa comum que é convencido por um amigo a voltar no tempo para impedir o assassinato do ex-presidente John Kennedy. Segundo esse amigo, muitas das piores coisas que ocorreram no mundo se deram em razão da morte de JFK.

Aqui, se você quer realmente apreciar uma boa história, vai ter que lançar mão do que é conhecido como: “Suspensão voluntária de descrença”, que tem esse nome porque se requer de um leitor ou espectador aceitar como verdadeiras as premissas de uma obra de ficção, mesmo que elas sejam fantásticas. Aceita-se a suspensão do julgamento em troca da premissa do entretenimento.

Você precisa então aceitar a premissa do livro que é a existência de um portal misterioso que leva Jake, nosso herói, do ano de 2010 até 1958, cinco anos antes da morte do ex-presidente Kennedy. Jake terá como missão abortar esse crime, mudar o passado e, por consequência, o futuro.

Mas as coisas não serão fáceis quando ele descobre que o passado não quer ser mudado e assim Jake encontra uma série de dificuldades Quanto mais mudanças possivelmente forem geradas, mais problemas Jake terá para conseguir alterar o passado. Assim, tempos como verdadeiro antagonista neste inspirado livro, não um indivíduo monstruoso ou um psicopata assassino. O inimigo é o passado em si.

Apesar de Stephen King ter imensa facilidade em criar histórias, descrever cenários, situações e personagens, fiquei com a sensação de que o livro é excessivamente caudaloso. Demora pra chegar ao clímax, mas compensa quando após cinco anos de aventuras, nosso herói finalmente chega a Dallas, se aproxima do infame Lee Oswald, o assassino de Kennedy.

Mas não se esqueça: O Passado é Obstinado!

Durante a leitura, eu me perguntava como o autor resolveria o seguinte dilema: se ele não impedisse o assassinato de JFK, toda a trama seria em vão e anti-climática; mas se salvasse Kennedy da morte, como explicar que vivemos num futuro em que o presidente morreu de fato? A solução desse dilema é um primor de elegância. King demonstra mais uma vez porque é o mestre.

Uma passagem do livro me deixou especialmente emocionado:

“Na Carolina do Norte, parei para abastecer num posto e depois dei a volta para usar o banheiro. Havia duas portas e três placas. HOMENS estava escrito com letras cuidadosamente pintadas com estêncil numa das portas, DAMAS na outra.

A terceira placa era uma seta numa vara. Apontava a encosta coberta de mato atrás do posto. Dizia DE COR. Curioso, andei pelo caminho, com cuidado para contornar alguns pontos onde as folhas oleosas do sumagre-venenoso, num verde fugindo para o marrom, eram inconfundíveis. Torci para que os papais e mamães que pudessem levar os filhos até aquelas instalações lá embaixo soubessem identificar o que eram aqueles arbustos problemáticos, porque no final dos anos cinquenta a maioria das crianças usava calças curtas.

Não havia nenhuma instalação. O que encontrei no fim do caminho foi um riachinho estreito com uma tábua atravessada em cima, sobre dois suportes de concreto dilapidado. O homem que precisasse urinar podia apenas ficar à margem, baixar o zíper e deixar sair. A mulher poderia se segurar num arbusto (supondo que não fosse urtiga nem sumagre-venenoso) e se agachar. A tábua era onde a gente se sentava se tivesse de cagar. Talvez sob chuva torrencial.

Se lhe dei a ideia de que 1958 era perfeito como um seriado de televisão, basta lembrar o caminho, ok? Aquele ladeado de sumagre-venenoso. E a tábua sobre o riacho.”.

Não fosse por ser um grande escritor, eu teria extrema simpatia por Stephen King pela sua incansável crítica a Donald Trump, seu apoio a Obama e sua coragem quando defendeu um dos meus escritores favoritos, o premiadíssimo Salman Rushdie, britânico de origem indiana, quando ele foi perseguido com ordem de assassinato pelos aiatolás do Irã quando publicou Os Versos Satânicos.

Rushdie escreveu diversos livros maravilhosos e li todos, mas ao ler sua biografia, que descreve seu sofrimento durante mais de uma década escondido para não ser morto, proibido de viajar em quase todas as companhias aérea e com livros boicotados, quando vários intelectuais, editoras e políticos de todo o mundo lhe viraram as costas, quando ele precisava urgentemente publicar seus livros para conseguir se sustentar, vejo que veio exatamente de Stephen King, um autor que ele nem conhecia, uma ajuda fundamental. Rushdie narra o episódio na sua biografia.

“À época da publicação de Os Versos Satânicos, foi a colaboração dos escritores que possibilitou sua comercialização nas grandes redes de livrarias. Stephen King entrou em contato com as editoras e as ameaçou dizendo que, se o meu livro não fosse comercializado, seus títulos também não seriam. King ainda os advertiu dizendo que outros autores fariam o mesmo, e Os versos satânicos foi então distribuído nas redes.”

20.3.18

O CONTO DA AIA E O VILAREJO


Acabei ontem de ler dois livros: O Conto da Aia, da canadense Margaret Atwood, e O Vilarejo, do brasileiro Raphael Montes. Recomendo vivamente a leitura de ambos.

O Conto da Aia vem de uma tradição de narrativa de distopia que remete a Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e 1984, de George Orwell, todos eles obras primas da literatura moderna adaptados com sucesso para o cinema.

A história se passa em um futuro próximo onde todo o Congresso e o presidente da República foram assassinados por fundamentalistas, a Constituição foi abolida e um grupo cristão radical assumiu o poder  instaurando uma ditadura que retira aos poucos todos os direitos das mulheres, tornando-as meras escravas reprodutoras.

As Aias, mulheres férteis (a minoria, em razão da contaminação do meio ambiente) são capturadas para serem estupradas uma vez por mês e gerar filhos para os Comandantes com a conivência das esposas inférteis que participam do ritual mensal. O objetivo seria repovoar o país que foram os Estados Unidos e que passou a ser a República de Gilead.

O livro, lançado há mais de 30 anos, voltou a ser popular após a eleição de Donald Trump com retorno de ideais radicais e graças também à bem sucedida adaptação para minissérie que foi a grande vencedora do último Emmy, faturando cinco prêmios (melhor roteiro, série dramática, direção, atriz e atriz coadjuvante).

A narradora — cujo nome real não sabemos, já que todas as Aias têm como nomes os prefixo dos nomes dos seus donos —, descreve a atmosfera sufocante e de extremo medo em que vivem as mulheres obrigadas a se vestirem totalmente de vermelho, com toucas brancas na cabeça com uma espécie de antolhos,  que as impedem de verem e serem vistas ao redor.

Nesse ambiente hostil vivem os Comandantes, suas Esposas, Os Olhos, que são espiões, os Anjos, um tipo de infantaria militar, as Marthas, responsáveis pela limpeza e comida das casas dos Comandantes, e as Tias, mulheres sádicas que cuidam da “educação” das Aias, leiam-se: lavagem cerebral, humilhações e torturas.

O livro deve ser lido como um alerta contra as tentativas de hierarquizar o patriarcado e fortalecer o poder do Estado contra os direitos das minorias.

Selecionei um trecho que revela o terror da narradora ao tentar encontrar um tipo tênue de barganha com o seu algoz para evitar a submissão mental total durante um dos inúmeros estupros disfarçados de cópula ritual: “Finja! Berro para mim mesma dentro da minha cabeça. Você deve se lembrar como. Vamos acabar logo com isso. Senão você ficará aqui a noite inteira. Movimente-se. Mexa esta carne um pouco, respire de maneira audível. É o mínimo que você pode fazer”.

Não sou mulher e jamais poderei imaginar esse tipo de brutalidade contra o corpo e contra o espírito de uma mulher. Não faço sequer ideia. Deste lado desse abismo, resta o meu estupor.

O VILAREJO

O Vilarejo é um livro relativamente pequeno, com menos de 120 páginas, que narra sete contos interligados e tenebrosos que se passam numa remota vila fictícia tomada pela fome e pelo rigorosíssimo inverno, num país assolado por uma guerra civil. 

O suspense tem início logo no prefácio e tem um arremate, do mesmo modo sombrio, no posfácio. De presente para o leitor, mais de uma dezena de belíssimas ilustrações de Marcelo Damm (sobrenome que, curiosamente, significa “maldito”, em inglês.)

Raphael Montes é um jovem autor que desponta com ótimos livros que vem fazendo sucesso como Dias Perfeitos e Suicidas e neste O Vilarejo demonstra um excelente domínio da narrativa de terror.

Os sete contos são curtos e de leitura ágil, mas nem por isso são rasos. Cada um deles tem como título os nomes dos demônios responsáveis por cada pecado capital: Asmodeus (luxúria), Belzebu (gula), Mammon (ganância), Belphegor (preguiça), Satan (ira), Leviathan (inveja) e Lúcifer (soberba) e cada conto narra a história de um habitante do Vilarejo relacionado a cada pecado e demônio. A narrativa não linear dá um sabor a mais. Apenas no último conto somos apresentados à cronologia dos trágicos eventos, o que nos faz entender de fato toda a história.

As narrativas são de um terror repulsivo, mas não apelativo, apesar das descrições sanguinolentas já que o contexto está bem adequado à atmosfera sombria da ambientação. Em algumas páginas, as várias manchas de sangue parecem nos lembrar de que estamos imersos na maldade humana.

Como diz o crítico Rodolfo Lucena, na Folha de São Paulo: “As histórias de "O Vilarejo" não deveriam ser lidas, e sim contadas em voz soturna em torno de uma fogueira, em noite de lua cheia”.

Recomendo a leitura da versão impressa, pois na forma digital o livro perde muito da sua beleza e do prazer ritual de desfrutar de uma edição caprichada e elegante.