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26.9.22

LEITURAS DE JUNHO A SETEMBRO



A cada ano publico a lista de livros lidos entre Janeiro a Maio, Junho a Setembro e Outubro a Dezembro. A primeira parte dos lidos deste ano já está publicada aqui no blog. Foram 21 lidos nos primeiros cinco meses do ano e outros 21 nessa segunda parte do ano, totalizando 42. Foram 18 físicos e 24 e-books.

Tenho procurado ler mais livros de autoras mulheres e finalizei as duas partes desse ano com a leitura de 10 livros das escritoras: Mary Shelley (Frankenstein),  Jane Austen (Mansfield Park), Lisa Hilton (Elizabeth I), Léa Messina (100 Autores Que Você Precisa Ler), Philippa Gregory (A Filha do Fazedor de Reis), Shirley Jackson (A Assombração da Casa da Colina), Margaret Atwood (Os Testamentos), Virginia Woolf (Rumo ao Farol), Harper Lee (Vá, Coloque um Vigia) e Liane Moriarty (Pequenas Grandes Mentiras).

Eis os 21 lidos de Junho a Setembro.


1
-UM HOMEM SÓ - Clássico da literatura moderna de Christopher Isherwood, aborda o envelhecimento e a solidão de um homem gay, um professor inglês na Califórnia dos anos 1960 após a morte trágica de seu jovem parceiro.  Publicado pela primeira vez em 1964, o livro chocou leitores com seu retrato franco de um homem gay na maturidade.  Uma narrativa comovente sobre amor e solidão com prefácio do escritor e ativista João Silvério Trevisan. Foi adaptado para o cinema com Colin Firth (indicado ao Oscar pelo papel) e Julianne Moore no elenco. Escrevi um texto inteiro sobre o livro no blog.

2-NO CAMINHO DE SWAN- Livro inicial da colossal empreitada de 7 volumes da série Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.  Obra prima que todos deveriam ler um dia na vida, mas que são difíceis pela complexidade do tema e do estilo. Li para poder ler o capítulo sobre ele da obra Lições de Literatura, de Vladimir Nabokov (texto abaixo), o que foi um excelente motivo para começar a ler Proust que cria dezenas de personagens e ambientes da França do início do século XX e trata da memória como visão filosófica do tempo com as recordações intercalando o passado e o presente, o que tornou-se uma revolução para o romance em todos os  tempos.

3-LIÇÕES DE LITERATURA - O autor russo Vladimir Nabokov, após migrar da Rússia para os EUA ensinou literatura em universidades antes do sucesso do seu livro Lolita.  Os manuscritos das suas aulas foram publicados em dois volumes e neste ele examina os clássicos Mansfield Park (Jane Austen), A Casa Soturna (Charles Dickens), O Médico e o Monstro (Robert Louis Stevenson) e No Caminho de Swann (Marcel Proust). Li os quatro livros para poder ler depois os capítulos sobre eles. Nabokov também analisa Madame Bovary (Gustave Flaubert) e A Metamorfose (Franz Kafka), que eu já havia lido antes, além  de Ulysses, de James Joyce, livro para o qual ainda não reuni coragem suficiente para ler.

4-NÓS - Escrito pelo dissidente russo Iêvgueni Zamiátin, esta é a distopia original que inspirou os clássicos: Admirável Mundo Novo, 1984, Laranja Mecânica, Fahrenheit 451, O Conto da Aia e Jogos Vorazes. Relançado no Brasil após ter estado esgotado por anos, em uma edição de luxo, acompanhada de resenha escrita por George Orwell e uma carta do próprio autor a Stálin pedindo para sair da União Soviética, onde todas as suas publicações estavam sofrendo perseguição política. O livro descreve um governo totalitário que privou a população de direitos fundamentais como individualidade e liberdade de expressão até que um engenheiro começa a duvidar das suas convicções ao conhecer uma mulher que o contamina com a doença chamada imaginação.

5-UM ESTUDO EM VERMELHO- Primeiro livro de Arthur Conan Doyle em que o autor introduz o detetive mais popular da literatura mundial Sherlock Holmes. Publicado em 1887, nessa primeira história, Holmes conhece seu melhor amigo Watson. A polícia de Londres pede auxílio a Holmes para desvendar um crime: um homem é encontrado morto, sem ferimentos e cercado de manchas de sangue com expressão de pavor no rosto. Na segunda parte do livro é apresentada a curiosa vida dos Mórmons no interior dos EUA e os motivos iniciais que levaram o assassino a cometer o crime.

6-O SINAL DOS QUATRO – Segundo volume das histórias do Sherlock Homes, também encontrado com o título de O Signo dos Quatro, traz o famoso detetive como sempre autoconfiante e atraído pelas agruras da cliente Mary Morsan, uma bela mulher atormentada por um passado nebuloso. O curioso é que Watson conhece nessa história a futura esposa que irá aparecer nos livros seguintes. Aqui encontramos uma aventura cheia de elementos dramáticos, uma caça ao tesouro com direito a um pigmeu e um pirata com perna de pau, terminando em uma caçada desesperada com perseguição de barco pelo Tâmisa. Aqui vemos Holmes lutando contra o seu vício em cocaína.

7-AVENTURAS DE SHERLOCK HOLMES – Terceiro volume das histórias de Arthur Conan Doyle, esse livro reúne os doze primeiros contos de Sherlock Holmes, publicados originalmente com enorme sucesso na década de 1890 na revista britânica Strand Magazine. Entre esses contos estão as histórias mais conhecidas como A Liga dos Cabeças Vermelhas, Escândalo na Boêmia, O Diadema de Berilos e A Banda Malhada. Uma ótima maneira de se aventurar junto com o famoso detetive de Baker Street por histórias mais rápidas mas igualmente instigantes.

8-MEMÓRIAS DE SHERLOCK HOLMES - Outro livro de contos de Holmes, assim como o anterior, com doze histórias entre elas Silver Blaze (sobre o desaparecimento de um cavalo de corrida), A Caixa de Papelão (sobre uma caixa misteriosa contendo duas orelhas), O Ritual Musgrave (sobre o desaparecimento o mordomo de um amigo de Holmes), O Intérprete Grego (envolvendo um poliglota grego e sequestro onde pela primeira vez aparece Mycroft, o irmão mais velho de Holmes) e O Problema Final (na qual Doyle, cansado do detetive, mata Holmes. Depois ele o “ressuscitaria” devido à insistência dos fãs e da editora. Aqui conhecemos o Professor Moriarty famoso arqui-inimigo de Holmes).

9-A FILHA DO FAZEDOR DE REIS – Primeiro livro que li da autora Philippa Gregory, famosa pelos romances históricos adaptados para as telas.  Quarto livro da autora sobre a Guerra das Duas Rosas (já li vários livros sobre o tema e nunca me canso deles). Novamente uma protagonista feminina: a filha do Conde de Warwick, o conhecido “Fazedor de Reis”, o homem mais poderoso da Inglaterra no século XV. Sua filha Anne se torna uma mulher corajosa ao acompanhar o pai numa guerra contra o rei da Inglaterra que pôs o herdeiro de Henrique VI no trono, com quem Anne é casada. Após a morte do rei, ela se casa com o futuro rei Ricardo III, assassino do seu ex-marido.

10-ASSOMBRAÇÃO DA CASA DA COLINA - Primeiro livro que li de Shirley Jackson e considerado um clássico de histórias de casas mal assombradas. Tenho que dar razão a Stephen King que afirmou: “Essa é a história de casa mal-assombrada mais próxima da perfeição que eu já li.” Adaptado pela Netflix na série A Maldição de Hill House. “A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta. Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho”.

11-AS CZARINAS, AS MULHERES QUE FIZERAM A RÚSSIA – Após ler onze livros seguidos de ficção, consegui encaixar uma história de biografias para dar uma respirada. Aqui, um tema que adoro desde que li Os Romanov, do premiado historiador Simon Sebag Montefiore. As czarinas, escrita pelo historiador e diplomata russo, Vladimir Fedorovski, aborda a história da Rússia não pelos nomes e feitos dos czares, mas pela atuação das várias mulheres que estavam no poder ao longo de muitas décadas. As czarinas russas têm histórias repletas de rivalidades, conspirações, traições e assassinatos e é surpreendente que tão poderosas mulheres comandassem os destinos de um país tão grandioso, machista e conservador.

12-TROCAS MACABRAS - 41º livro que li do metre Stephen King.  Li numa edição capa dura de luxo da editora Suma de Letras com 650 páginas. Estamos de volta à cidadezinha de Castle Rock, cenário  de outros livros do autor onde uma nova loja de nome “Artigos Indispensáveis”, é aberta e dirigida por um estranho homem: Leland Gaunt, que se tornou um dos maiores vilões de King. Para cada cliente, Gaunt tem algo perfeito por um preço camarada. Mas, junto com a pechincha, há um pedido estranho e o que começa com aparentes pegadinhas inocentes sai do controle e transforma a cidade em palco de mortes brutais. Na adaptação para as telas temos Ed Harris e Max von Sydow nos papéis principais.

13-CAÇANDO CARNEIROS – 6º livro que li do escritor japonês Haruki Murakami. Escrevi um texto só sobre este livro no blog. A obra tornou o autor famoso mundialmente e confesso que não gostei do livro, assim como não havia gostado da leitura anterior “Kafka à Beira-Mar”. Aqui temos uma espécie de thriller em que um protagonista insosso e sem nome recebe um telefonema estranho, conhece pessoas inesperadas, parte para uma jornada em busca de pistas sobre um carneiro desaparecido no meio rural do Japão e acaba descobrindo a si mesmo, como acontece em toda road story.

14-OS TESTAMENTOS – Continuação do excelente O Conto da Aia, obra-prima distópica da canadense Margaret Atwood, de quem eu já havia lido o excelente Vulgo Grace, também adaptada para as telas. Escrito quinze anos após O Conto da Aia, ainda estamos na teocrática República de Gilead, mesmo após tentativas de insurgência. Aqui, temos as histórias de três mulheres que irão se encontrar de modo explosivo. Uma delas cresce em Gilead, filha de um Comandante e outra, no Canadá, participando de protestos contra Gilead. Os testamentos dessas duas jovens são entrelaçados pelo revelador manuscrito da mais implacável executora do regime, a odiosa Tia Lydia, cuja obra de terror já vimos no livro anterior.

15-O TELEFONE PRETO E OUTRAS HISTÓRIAS – Terceiro livro que li do ótimo Joe Hill, filho de ninguém menos do que Stephen King. Os anteriores foram A Estrada da Noite e NOS4A2 (Nosferatu), que virou série com duas temporadas. Este livro de contos foi publicado anteriormente sob o título Fantasmas do Século XX. O conto que dá título à nova edição recentemente foi adaptado sem muita inspiração para o cinema com Ethan Hawke como o vilão que sequestra e mata crianças. O The Washington Post considerou Hill um dos "maiores escritores de ficção fantástica do século XXI". Aqui temos 16 contos sendo que alguns são excepcionais, como Melhor Estreia de Terror, Fantasmas do Século XX, Os Filhos de Abraham, O Café da Manhã da Viúva e Internação Voluntária.

16-RUMO AO FAROL – Segundo livro que li de Virginia Woolf após Mrs. Dalloway. A história uma família que passava as férias de verão em uma casa de praia de onde avistava o farol da ilha próxima.  Não é um livro fácil já que é narrada em fluxo de consciência e discurso indireto livre: “Na sala em ruínas, pessoas em piquenique teriam aquecido suas chaleiras; amantes teriam ali buscado abrigo, deitados nas tábuas nuas; e o pastor teria guardado sua comida em cima dos tijolos caídos, e o vagabundo teria dormido enrolado no casaco para se proteger do frio. Então teto teria caído; urzes e cicutas teriam fechados os corredores, os degraus e as janelas; teriam crescido desigual, mas luxuriosamente, sobre o entulho, até que um intruso, tendo se perdido, poderia ter dito, apenas por causa de um lírio-tocha misturado às urtigas, ou um caco de porcelana no meio das cicutas, que aqui, alguém, uma vez vivera”.

15-VÁ, COLOQUE UM VIGIA- Segundo romance de Harper Lee, ambientado duas décadas depois de sua obra-prima O Sol é Para Todos. Estamos nos anos 1950 em meio à questão da segregação racial. Para grande surpresa de todos que esperaram anos por uma segunda obra de Harper Lee, que após o sucesso do primeiro e premiado livro jamais escreveu outro por 65 anos, vemos uma surpreendente abordagem sobre os personagens que aprendemos a amar: “Se um homem diz ‘essa é a verdade’ e você acredita, mas depois descobre que é mentira, fica desapontada e toma cuidado para nunca mais ser enganada por ele. Mas quando você se decepciona com um homem que sempre se pautou pela verdade – e em cuja maneira de encarar as coisas você acreditava -, você não fica apenas ressabiada, fica sem nada.”

18-ME ENCONTRE- Terceiro livro de André Aciman e continuação de “Me Chame Pelo Seu Nome” (premiado no cinema com o Oscar de melhor roteiro adaptado). Os personagens do primeiro livro, Elio, seu pai Samuel e seu primeiro amor Oliver estão de volta às páginas. Samuel, a caminho de Roma para encontrar seu filho que se tornou um pianista renomado.  Elio se muda para Paris, onde vive mais um romance, enquanto Oliver, pai de família e professor nos EUA, planeja reencontrar o amor do passado na Europa. O livro está muito distante da beleza do primeiro e há até mesmo uma falha temporal levando-se em conta os acontecimentos narrados no segundo livro, Variações Enigma, onde Elio e Oliver se encontraram, mas que aqui o autor passa batido por esse detalhe.

19- RAVENSPUR – Quarto livro que li do britânico Conn Iggulden sobre a icônica Guerra das Rosas envolvendo os descendentes da família de reis Plantagenetas da Inglaterra (os ramos York, Lancaster e Tudor). Continuação dos volumes: Pássaro da Tempestade, Trindade e Herança de Sangue que li no ano passado. Neste quarto volume, acompanhamos o rei Eduardo IV ser expulso da Inglaterra enquanto esposa e filhos se refugiam para se escapar dos Lancaster. Eduardo retorna com um poderoso exército e recupera a coroa. Mas Henrique Tudor irá reivindicar o trono, levando a uma das batalhas mais sangrentas e resultando na morte seguida de três reis. O autor é elogiado por duas outras séries que pretendo ler: O Imperador, sobre Júlio Cesar, e O Conquistador, sobre Genghis Khan, ambos com cinco volumes cada.

20-UM SONHO FEBRIL- O primeiro livro que li de George R.R. Martin fora dos seus 7 volumes da série Game of Thrones e dos 9 volumes da série Wild Cards. Aqui uma reinvenção original das histórias de vampiros que se passa no meio do século 19 no sul escravagista dos EUA. O falido capitão de navios a vapor Abner Marsh recebe uma oferta de sociedade do rico aristocrata Joshua York para construção do belíssimo e potente Sonho do Fevre. A embarcação navega pelo rio Mississipi deixando pelo caminho uma coleção de histórias sombrias com interessantíssimas discussões sobre o que nos torna como seres humanos não tão diferentes assim dos vampiros que tratam a humanidade do mesmo modo como tratamos os animais e os negros escravizados.

21- PEQUENAS GRANDES MENTIRAS
- Primeiro livro que li da escritora Liane Moriarty e adorei, mas teria apreciado mais se já não tivesse assistido à série Big Little Lies com duas temporadas na HBO e soubesse o grande final. Muito bem escrita e focada na amizade de três mulheres fortes com filhos na mesma escola primária. Madeline (na série vivida por  Reese Witherspoon) está no segundo casamento e arrasada porque a filha do primeiro relacionamento decidiu morar com o pai que as abandonou na infância. Celeste (na série, Nicole Kidman) mãe de gêmeos e com um marido que promove frequentes abusos físico e mental, e Jane uma jovem mãe solteira que tem o filho, fruto de uma violência sexual. O livro é narrado em dois tempos alternados. Já sabemos que houve uma morte mas não quem morreu nem como até o final.

30.7.22

CAÇANDO CARNEIROS

Este foi o sexto livro que li do badaladíssimo escritor japonês Haruki Murakami e já havia escrito aqui sobre o único livro dele do qual não gostei: “Kafka à Beira-Mar”. Agora, junto a essa seleta lista “Caçando Carneiros”, que se não chega a ser tão ruim, está anos luz distante da qualidade dos outros que li: "Norwegian Wood, Minha Querida Sputnik, Sono e O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação".

Reconheço, porém, o potencial de Caçando Carneiros para se igualar a Kafka à Beira-Mar em ruindade porque Kafka tem insuperáveis 576 páginas da mais pura chatice, enquanto Caçando Carneiros conseguiu parar em 336 páginas. Ficaria melhor com um corte de 25%.

Aqui temos um personagem jovem e sem nome (e sem qualquer carisma), publicitário dos mais banais, que recebe uma incumbência estranha de encontrar um misterioso carneiro desaparecido no interior do Japão. E mais não digo, pois não há qualquer necessidade já que é tudo uma enrolação. 

Se o livro tem uma pegada de realismo fantástico, fica devendo muito à tradição que nos deu Gabriel Garcia Márquez e Salman Rushdie, encravado entre o que se chama de literatura de enigma e literatura do fantástico, vertentes das histórias com solução racional ou com solução fantasiosa. Murakami fica na metade do caminho de ambas.

Apesar de ainda faltar uma imensidão de livros do autor para ler, percebo nele os mesmos maneirismos, como o uso recorrente de diálogos desnecessários e criação de expectativas na narrativa que não se concretizam em desfechos satisfatórios, chegando a gastar dúzias de páginas e capítulos inteiros em descrições detalhistas sem sentido para a trama ou narrações de atividades banais como o que os personagens comem ou bebem. São verdadeiros inventários de mastigação e deglutição que desrespeitam por completo o conceito da “Arma de Thekhov”, princípio dramático mais do que clássico que define que todos os elementos presentes em uma história devem ser necessários sendo que os irrelevantes devem ser removidos para não produzir falsas promessas.

Este livro, que foi responsável pela grande divulgação do autor pelo mundo e o transformou num fenômeno literário, foi escrito em 1982, quando Murakami ainda não tinha 30 anos, e fica claro sua atmosfera juvenil, que difere dos seus trabalhos seguintes mais amadurecidos, já que, felizmente, ele é um escritor muito prolífico.

O trecho a seguir mostra o tom juvenil que retrata o niilismo do protagonista: “Eu tinha vinte e nove anos. Dentro de seis meses, diria adeus à casa dos vinte. Uma década vazia. Nada do que eu conquistara tinha valor, nada do que eu realizara tinha sentido. Tédio era tudo que eu obtivera.” A presença desse elemento niilista blasé soa bastante datado no estilo que se convencionou chamar de ficção pós-moderna, conceito ele próprio também datado e que consiste basicamente em atirar meio aleatoriamente nas páginas da obra imagens e falas sem muito sentido, confiando que o leitor por si só dará alguma coesão a tudo. Seria ótimo se a narrativa não passasse de uma sucessão de banalidades.  

Na internet circula uma imagem conhecida como “Bingo de Murakami” (reproduzo) em que bem humoradamente (ou não) vemos aquelas ideias que são obsessões do autor e aparecem frequentemente em suas obras como gatos, telefonemas misteriosos, longas viagens de trem, um milionário enigmático, sexo estranho, cabana isolada, comida, solidão, música pop, jazz e suicídio.

Murakami todo ano entra na lista dos candidatos ao Nobel de Literatura e arrasta uma multidão de fãs pelo mundo inteiro, sendo o autor japonês mais celebrado pelo planeta. Curiosamente, no próprio Japão seus conterrâneos não entendem esse sucesso comentando que há no país muitos autores tão bons quanto e que não têm tanta repercussão. Mas não há o que se fazer. O jeito é ler os outros livros do autor para tentar encontrar o mesmo prazer de ter lido O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação e Minha Querida Sputnik. Por sorte, há muitos ainda nas prateleiras.



26.9.20

Leituras de Junho a Setembro

 


Aqui estão as minhas últimas leituras nos meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro. 

Foram 18 livros, 8 deles foram lidos em formato digital e 10 em formato físico. Somente 4 livros foram de não-ficção, sendo dois deles biografias.

Eis a lista:

1 - QUATRO ESTAÇÕES, de Stephen King - Dos quase 80 livros escritos pelo mestre do terror, cerca de 10 são de contos. Quatro Estações é um dos seus melhores livros de contos. Três deles foram adaptados com sucesso para o cinema: os filmes Um Sonho de Liberdade (com Tim Robbins e Morgan Freeman) baseado em "A Primavera Eterna – Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank"; Conta Comigo (com River Phoenix e Kiefer Sutherland), baseado em "Outono da Inocência – O Corpo"; e O Aprendiz (com Ian McKellen), baseado em "Verão da Corrupção – Aluno Inteligente", além do excelente O Método Respiratório, que apesar de não ter virado filme é tão bom que merecia ter crescido para um romance tal seu fôlego.  

2- WILD CARDS 7-A MÃO DO HOMEM MORTO, série editada por George R R Martin (de Game of Thrones) e que dá sequencia às ótimas histórias dos volumes anteriores onde um vírus alienígena atingiu a Terra dando superpoderes a alguns indivíduos (os Ases) e provocando bizarras deficiências em outros (os Curingas). Esse volume transcorre em parte paralelamente ao livro anterior que se passa em Atlanta durante a campanha presidencial. Aqui, uma das curingas mais interessante da série, Chrysalis foi morta (tinha sido morta no livro anterior e aqui há a sequência da história) e um detetive e um policial caçam o assassino. A identidade do criminoso é uma baita surpresa.

 

3- CINCO ESCRITOS MORAIS, de Umberto Eco. Após ter lido quatro romances do autor (O Nome da Rosa, Baudolino, O Cemitério de Praga e A Ilha do Dia Anterior), estava na hora de ler uma das suas obras de não-ficção. Aqui ele reúne cinco ensaios em que discute questões atuais. Em “Pensar a Guerra”, põe em perspectiva as diferenças entre guerras atuais e passadas. Em “O Fascismo Eterno”, chama a atenção para as novas roupagens com que o fascista se apresenta. Em “Sobre a Imprensa” ele mostra como a informação escrita está a reboque da televisão. Em “Quando Entra em Cena o Outro”, discute como a crença na vida eterna condiciona os comportamentos. E no quinto ensaio, “Migrações, Tolerância e Intolerável” trata do racismo e da xenofobia.


4- O CEMITÉRIO, de Stephen King. Também publicado no Brasil com o título O Cemitério Maldito, ficou famoso pelas suas três adaptações para o cinema, mas com abordagens diferentes entre si e também em relação ao livro que as originou. A história do médico Louis que se muda de Chicago com a esposa e o casal fofo de filhos (e um gato. O gato é importante) para uma pequena cidade do Maine (cenário de grande parte das obras de King). Apesar do lugar idílico, a sua bela casa fica num terreno onde existe um cemitério indígena antigo e misterioso que trás de volta à vida entes queridos mortos ali enterrados. Um dos livros mais angustiantes do autor.

5- COLUNA DE FOGO, de Ken Follet. Fechamento da trilogia iniciada com Os Pilares da Terra e que continuou com Mundo Sem Fim. Os três livros são tijolos de quase mil paginas cada. Os dois primeiros foram adaptados para premiadas minisséries. Vários dos romances policiais de Follet já viraram filmes, como O Buraco da Agulha, Na Toca do Leão, a Chave de Rebeca, mas ele não se prende a narrativas policiais, como demonstra esta trilogia histórica que se inicia no reinado de Henrique II, o primeiro rei plantageneta inglês, continua no período de Eduardo III durante a Guerra dos 100 anos e termina na disputa entre as rainhas Mary Stuart e sua prima Elizabeth I.

6- A GAROTA MARCADA PARA MORRER, de David Lagercrantz - Esse é o sexto e último volume da série Millennium e o mais fraco de todos, o que é uma grande pena, pois sou fã da hacker Lisbeth Salander, já vista nas telonas em duas adaptações para o cinema. A série originalmente foi criada por Stieg Larsson que escreveu os três primeiros livros antes de morrer (seriam dez). O trabalho foi assumido depois por David Lagercrantz que concluiu a sequência. Aqui temos uma intrincada história fracamente desenvolvida que começa com um homem encontrado morto num parque de Estocolmo e que desperta o interesse do jornalista Mikael Blomkvist, personagem que divide com Lisbeth o protagonismo de todos os livros. Aqui Salander vai finalmente acertar suas diferenças com a sua perigosa irmã Camilla.

7- OS TRES IMPERADORES, de Miranda Carter. Uma biografia fascinante de mais de 600 páginas sobre três governantes das grandes potências europeias: Grã-Bretanha, Alemanha e Rússia, comandadas por três primos: Jorge V (rei-imperador da Inglaterra, do Império Britânico e da Índia); Guilherme II (o último kaiser alemão) e Nicolau II (o último tzar russo). Juntos, reinaram sobre os últimos anos da Europa dinástica, até a Primeira Guerra Mundial. A biógrafa recheou a obra com dezenas de fotografias da época e farta correspondência trocada entre os primos (netos da rainha Vitória). Para os três imperadores a guerra seria um desastre, acabando seu relacionamento familiar em traições, assassinatos e abdicações.

 

8- JOYLAND, de Stephen King. Livro diferente do que se costuma ler de Stephen King. História de um universitário que decide passar parte das férias em um trabalho temporário no parque de diversões Joyland para esquecer a namorada que partiu seu coração. Em Joyand, um parque no estilo dos anos 70, ele se envolve no mistério da vítima de um serial killer que foi morta ali há muitos anos, e cujo espírito assombra o trem fantasma. Um personagem que rouba a história é Mike, um menino com um dom especial e uma doença incurável. Um livro carregado com toques e nostalgia, drama e algum mistério. Em algumas partes chega mesmo a dar um nó na garganta. King mostra que não é craque apenas no terror puro.

9- A DIVINA COMÉDIA, de Dante Alighieri. Há anos, desejava ler a obra máxima de Dante, mas sempre pensei em qual o melhor momento. Até que uma pessoa próxima começou a se exibir dizendo que estava lendo a obra e tomei isso como um desafio pessoal. Decidi não só ler no formato original em versos traduzidos, mas descobri o incrível site do estudioso Helder da Rocha que fez uma adaptação em prosa com inúmeras notas explicativas muito úteis. Foi uma experiência muito particular e enriquecedora. A obra épica foi escrita no século XIV, não em latim, mas no italiano vulgar, o dialeto de Florença, o que popularizou enormemente o livro. Repleto de simbolismo, dividido em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso) e composto de 100 cantos e 14.233 versos, é considerado o maior poema escrito no Ocidente. Na história acompanhamos os poetas Dante e Virgílio no caminho do Inferno e do Purgatório até chegarmos ao Paraíso, onde Dante encontra sua musa Beatriz.

10- CLARICE, UMA BIOGRAFIA - de Benjamin Moser - A mais completa biografia da escritora Clarice Lispector, com quase 500 páginas e escrita com brilhantismo pelo norte-americano Benjamin Moser (que recentemente escreveu a biografia da genial Susan Sontag). Moser reconstitui a história de Clarice desde os tempo dos seus pais na Ucrânia, perseguidos por serem judeus e obrigados a fugir do país para não morrerem. É um privilégio acompanhar o brilhantismo de Clarice e sua vida difícil, sua personalidade complexa, o drama da esquizofrenia do filho, a sífilis da sua mãe, adquirida num estupro na Ucrânia, o incêndio que quase a matou, a sua dependência de remédios para dormir....A obra de Moser, que a considera a maior escritora judia depois de Kafka, foi responsável por divulgar enormemente o trabalho de Clarice no mundo inteiro. Ele coordena a publicação das suas antologias nos EUA.

       

11, 12 e 13 - O HEREGE, O ARQUEIRO e O ANDARILHO, de Bernard Corwnell. Li os três livros em sequência. Já havia lido do autor sua trilogia das Crônicas de Artur: O Rei do Inverno, O Inimigo de Deus e Excalibur, além das obras Stonehenge e Azincourt. Os três volumes que li agora são integrantes da trilogia: A Busca do Graal. Por ironia, resolvi ler outro livro antes: 1356. Mal sabia que estava lendo o quarto volume da trilogia (uma trilogia com quatro volumes?). Então, ao começar a história do arqueiro inglês Thomas de Hookton, já sabia o que havia acontecido com o Graal, objeto do quarto volume. Independente disso, a história é recheada de batalhas de tirar o fôlego e é tão boa quanto todas as obras do prolífico inglês Bernard Cornwell (tenho 25 livros dele para ler ainda, entre eles os 12 volumes da série das Guerras Napoleônicas e outros 11 das Guerras Saxônicas).

14- O VELHO E O MAR, de Ernest Hemingway – Foi o último livro publicado por Hemingway e o primeiro dele que li. É de uma novela de quase 130 páginas e que infelizmente já conhecia o final, não somente por já ter assistido ao filme adaptado a partir da obra (com a interpretação magnífica de Spencer Tracy), bem como porque no exemplar já se diz o que vai acontecer na história. Mesmo assim, não deixa de ser emocionante acompanha a luta do velho pescador cubano Santiago na sua tentativa desesperada de pescar o maior peixe da sua vida após uma maré de azar. O pequeno Manoin, menino que ajuda o velho pescador é o elemento de vida e emoção que faz um contraponto perfeito com a dureza e a secura do personagem principal. É uma obra que foi citada quando o autor ganhou o Nobel de Literatura em 1954.

 

 15- A MALDIÇÃO DO CIGANO, de Stephen King. Também lançado no Brasil com o título de A Maldição, este foi o 22º livro que li de King e de todos, o de que menos gostei. Tem menos de 300 páginas, mas é um tanto arrastado. Também já havia assistido ao filme que é muito datado. Assim, também já conhecia o final e não me emocionou nem assustou. O livro foi um dos escritos por King com o pseudônimo de Richard Bachman e o título original é “Emagrecido”, em inglês, “Tinner”. A história de um advogado obeso que após atropelar e matar a filha de um velho cigano recebe deste a maldição de emagrecer sem parar independentemente do quanto ele coma.

16- KAFKA À BEIRA-MAR, de Haruki Murakami. Uma decepção. Já li cinco livros de Murakami e gosto de todos, mas fiquei impressionado com a chatice dessa obra. O autor arrasta uma história boba por mais de 500 páginas, em que o excessivo detalhismo e os fracos diálogos chegam a ser constrangedores. Murakami está todo ano cotadíssimo para o Nobel de Literatura com fãs pelo mundo inteiro, inclusive eu, mas aqui achei uma tortura ler o livro até o fim e mesmo o realismo fantástico que sempre me agrada nos livros de Garcia Márquez e Salman Rushdie, aqui soa forçado. Ainda não entendo como esse livro tem mais de 90% de aprovação. Suspeito fortemente que há pessoas que não têm coragem de dizer que não gostaram e querem passar a impressão de descolados. Esse cara não sou eu.


17- EM NOME DE DEUS, de Karen Armstrong
. Após ler vários romances em sequência gosto de variar um pouco e ler uma biografia ou um livro de não ficção e há tempos este livro da ex-freira católica Karen Armstrong, considerada uma das principais autoridades em história das religiões estava na minha lista. Nesse livro ela analisa os movimentos fundamentalistas surgidos das três principais religiões monoteístas. Ela parte do ano de 1492, quando ocorreram episódios históricos decisivos para cristãos, muçulmanos e judeus. O livro se apoia em ampla documentação e bibliografia e a leitura flui facilmente. O tema da história das religiões me agrada muito. 

18 - DEUSES AMERICANOS, de Neil Gaiman. É pura coincidência ler um livro sobre deuses logo em seguida de outro. Há tempos me devia a leitura de uma obra de Neil Gaiman, um autor que tem uma legião de adoradores, mas sempre suspeitei que não era minha praia. Dito e feito: o livro é muito chato e a narrativa não me agradou. Isso parecerá heresia para muita gente, mas não comprei a história nem os personagens me agradaram, principalmente os dois principais. Como há uma série de tv aclamada baseada no livro, aproveitei o embalo para assistir à série também, mas se não fosse pela beleza da produção visual e da ótima trilha sonora o audiovisual não fica muito à frente do livro. Chatíssimos ambos. Acho que não pretendo ler mais nada desse autor. Só ficou uma frase na memória: “Todas as horas ferem. A última mata”.