28.9.18

OS ROMANOV - 300 ANOS DE CZARES RUSSOS


Após duas semanas e 920 páginas, finalizei “Os Romanov”, livro-tijolo do historiador Simon Montefiore, uma embriagante biografia dos 300 anos da dinastia de 20 czares da Rússia, encerrada dramaticamente com a revolução comunista e a chacina de toda a família imperial do czar Nicolau II.

Durante 300 anos de sangue e violência de 20 czares Romanov — seis deles assassinados por estrangulamento, tiros, bombas ou punhaladas —, a Rússia se expandia e milhões de servos e soldados eram mortos em guerras, torturas e massacres. Se a saga dos Romanov não fosse real, poderia perfeitamente ser uma ficção macabra recheada de carnificinas em que pais torturavam filhos, que matavam seus pais e czares e czarinas que traíam seus cônjuges com inúmeros amantes.

Nesses três séculos sob á égide de imperadores que governavam 1/6 do planeta, entre eles Pedro, o Grande; Ivan, O Terrível; e Catarina, a Grande, a Rússia acumulou uma notável coleção de arte, tornou-se uma potência, engoliu países e territórios, modernizou-se e implantou ferrovias gigantescas como a Transiberiana, com mais de 9 mil km. Foi uma era dourada para a arte russa que produziu sofisticadas obras na Literatura e Música, por meio de artistas como Tolstói, Dostoievski, Chékhov, Gógol e Tchaikóvski.

O autor transcreve trechos picantes de cartas de czares e czarinas a seus amantes com conteúdo muito explícito fazendo acreditar que os Romanov eram um imenso clã mafioso de depravados sexuais com libido à flor da pele. Há relatos de médicos da corte que recomendavam que governantes moderassem o número diário de relações sexuais porque isso estava afetando a saúde. O autor chegou a censurar trechos transcritos das cartas por receio de a obra se transformar em um livro erótico.

Para a pesquisa do livro, Montefiore utilizou quantidade gigantesca de relatórios oficiais, documentos inéditos e correspondências de aristocratas, militares, revolucionários como Stálin, Trótsky e Lênin, cortesãos, religiosos, monarcas como a rainha Vitória e Napoleão Bonaparte, aventureiros, charlatões, assassinos e prostitutas. O livro ainda é belissimamente ilustrado com dezenas de fotos das famílias dos czares e seus palácios suntuosos.

A corte dos czares era um circo de aberrações repleta de anões nus maquiados como velhos, gigantes vestidos de bebês, hermafroditas e deficientes físicos, mulheres extremamente obesas, bobos da corte e uma infinidade de cortesões dedicados ao divertimento dos nobres. Orgias tinham início ao meio-dia e duravam até a manhã seguinte. A farra incluía carruagens puxadas por bodes, porcos e ursos e cardeais cavalgando jumentos e bois com adereços fálicos.

A imperatriz Anna Romanov reduziu seus aristocratas ao status de bobos e obrigou príncipes e condes a integrar sua corte de bobos. Um desses nobres sempre se fantasiava de galinha e se sentava num cesto de palha durante horas cacarejando diante da corte.

O livro relata com riqueza de informações a invasão napoleônica na Rússia, quando o czar Alexandre I, escondido em Petersburgo, viu sua capital Moscou ser incendiada por seis dias, evacuada por seus 500 mil habitantes em fuga desesperada.

Simon Montefiore avalia que Napoleão cometeu o maior erro de sua vida ao ficar um mês no Kremlin esperando a rendição de Alexandre. Nesse ínterim, o rigoroso inverno russo se abateu sobre os franceses invasores que fugiram sendo perseguidos e perdendo incalculável número de homens.

Nicolau II, o último Romanóv, um governante muito débil e antisemita, estimulava a perseguição, deportação e o massacre de centenas de milhares de judeus russos (os odiosos pogroms), organizados e apoiada pela famigerada Okhrana, sua polícia secreta. Um czar completamente  manipulado pela esposa Alexandra, que por sua vez era marionete de vários oportunistas, entre eles o famoso monge Rasputin, um charlatão de origem camponesa, místico, tarado e meio louco, com uma influência  junto à corte que nenhum escritor seria capaz de imaginar numa obra ficção. 

Rasputin era tão poderoso que mesmo com provas cabais de que estuprava damas de honra da imperatriz e tráfico de influência, gozava de tamanha confiança da família real que chegava a nomear e  demitir primeiros ministros. Seu assassinato é descrito no livro com toques de thriller policial.

O czar Nicolau a tal ponto alienado do que acontecia fora dos seus suntuosos palácios, que enquanto o povo protestava às portas dos castelos, assassinando autoridades, destruindo edifícios em plena 1ª Guerra Mundial, o governante dedicava-se a prosaicas partidas de dominó. Era tão pródigo em nomear os ministros mais incapazes e corruptos e dar ordens contraditórias, que alguns ministros destruíam seus próprio telefones e telégrafos para que o czar não voltasse atrás em uma ordem dada.

Em um diálogo com o embaixador inglês, Nicolau inquiriu: “Você me diz que eu preciso reconquistar a confiança do povo. Não é antes meu povo que tem de reconquistar minha confiança?”. Essa é uma frase exemplar de um autocrata alienado.

Em outro diálogo com um dos seus conselheiros, o czar perguntou: “Será possível que por 22 anos eu tenha tentado agir pelo melhor e por 22 anos tenha sido um equívoco completo?”.Ouviu uma resposta sincera que jamais ouviria se as coisas não estivessem no caminho do desastre: “Sim, vossa majestade por 22 anos tomou o curso errado”.

O livro tem no seu capítulo final uma análise sobre o período de terror da União Soviética comunista e sobre a Rússia moderna e uma série de correlações entre o período absolutista dos Romanov com o governo autoritário de Vladimir Putin num paralelismo assombroso com o uso do poder do Estado e da repressão e na violência. Um livro importante para se compreender o passado e entender como um estado autoritário se forma e se perpetua.

5.9.18

OS COMPLEXOS PERSONAGENS DE HARUKI MURAKAMI


O escritor japonês Haruki Murakami é o mais popular entre os eternamente favoritos ao Prêmio Nobel de Literatura, aparecendo, a cada ano, em todas as apostas para levar a láurea máxima, mas sendo constantemente esnobado pela Academia Sueca, para tristeza dos seus milhões de fãs no mundo, entre os quais, com orgulho, me incluo.

Talvez Murakami, fã de música e maratonista, não tenha o perfil sisudo ou engajado que se espera dos autores premiados com o Nobel. Ele transita com desenvoltura no universo pop e cotidiano, talvez com desenvoltura excessiva para os padrões acadêmicos. Murakami, traduzido em mais de 40 idiomas, considera mais relevante abordar questões íntimas e pessoais dos seus complexos personagens do que fazer recortes sociais e políticos nos seus romances.

Este ano li três deles: “Minha Querida Sputnik”, “Norwegian Wood” e “O Incolor Tsukuro Tazaki e seus Anos de Peregrinação”, considerado um de seus melhores livros, que na primeira semana de lançamento vendeu 1 milhão de cópias no Japão, já tendo superado os 4 milhões de exemplares no país.

As três obras têm em comum jovens protagonistas sensíveis demais para os ambientes das metrópoles em que se encontram. Outsiders introvertidos, chicoteados pelo espicaçar da consciência, lê-los é como olhar por um buraco de fechadura o interior desnudo de pessoas prestes a saltar para fora do mundo. É um olhar que fascina e incomoda.

Em Minha Querida Sputnik, acompanhamos Sumire, uma adolescente apaixonada por Miu, mulher 17 anos mais velha. Sumire erra pelas páginas de Murakami, vagando à procura de uma identidade própria, repleta de um grande vazio interno. O autor, enquanto nos envolve nas questões íntimas da personagem, faz com que tenhamos a necessária empatia para nos dedicarmos à narrativa, ao mesmo tempo em que nos impele a defrontar com os defeitos de Sumire, com o distanciamento mínimo para sentirmos certa compulsão pelo desenvolvimento da história.

Quem sabe o que nos atraí mais: os dramas ou os defeitos? Em que medida esses defeitos e questionamentos já nos habitaram quando éramos jovens como os personagens de Murakami. “Por que será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Por quê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?”

Norwegian Wood – Toru Watanabe narra-nos a sua história dos 16 aos 20 anos. Sabemos que seu melhor amigo de infância se suicida enquanto a namorada deste, aos poucos, aparenta perder também a sanidade. Enquanto estuda Arte Dramática na universidade, Toru lida com a dificuldade de se relacionar com os demais colegas. Praticamente sem amigos, ele busca desenvolver algum tipo de relacionamento humano e encontrar uma espécie de brecha para uma identidade minimamente própria. A lacuna deixada pela morte do amigo e a alienação da amiga são um espinho cravado em sua alma.

Caso Murakami não tivesse apontado no próprio livro, seria de se espantar se os leitores não notassem as inegáveis similitudes de Toru com o personagem Holden Caufield de “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J.D.Salinger ou as várias referências a “O Grande Gatsby” de F. Scott Fitzgerald, lido e relido por Toru ao longo do romance.

O livro tem o título homônimo de uma canção dos Beatles e aqui vemos uma das obseções de Murakami: a música. Ele não se cansa de incluir em seus romances inúmeras referências musicais. Houve quem encontrasse mais de 3 mil títulos de canções espalhadas pelos seus livros. O próprio autor possui mais de 10 mil discos de vinil na sua coleção.

No último capítulo, a personagem Reiko, como em uma bela e pungente cerimônia de réquiem, toca simplesmente de enfiada 51 canções para o protagonista, entre elas: Norwegian Wood, Eleanor Rigby, Yesterday, Michelle, Something, Here Comes the Sun, Fool on the Hill, Penny Lane, Blackbird, Julia, When I’m Sixty-Four, Nowhere Man, And I Love Her e Hey Jude, todas dos Beatles. E a lista continua com canções de Burt Bacharach, Tom Jobim, Harry Mancini, Gershwin, Bob Dylan, Ray Charles, Carole King, The Beach Boys, Stevie Wonder...É ou não uma ode à cultura pop mundial?

Os personagens reagem movidos mais pelo imprevisível do que pelas suas buscas pessoais. A libertação vem através do incontrolável, do confronto inevitável com o universo do outro. É como se ouvíssemos o eco de um poema de Fernando Pessoa: “Grandes são os desertos, e as almas desertas e grandes. Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!”.

O Incolor Tsukuro Tazaki e seus Anos de Peregrinação tem no personagem título mais um dos solitários protagonistas de Murakami vivendo um drama do passado. Quando estudante, seus quatro amigos inseparáveis eram o seu Norte: Akamatsu, o “pinheiro vermelho”, Ômi, o “mar azul”, Shirane, “a raiz branca”, e Kurono, o “campo preto”.  O único deles sem uma cor no nome era justamente Tsukuro. Anos depois, adulto, ele não consegue se libertar do trauma ocorrido quinze anos antes, quando foi expulso do grupo de amigos.

Tsukuro é impelido a reencontrar os quatro amigos do passado para saber por que foi inexplicavelmente expulso do grupo. Sua busca, se fosse um filme, seria um road movie, já que a jornada quase espiritual o leva a perscrutar o passado e tentar descobrir a jornada pessoal de cada um e de si mesmo. O desconhecido pode ser ameaçador, mas também é libertador.

Aqui novamente encontramos o eco da musicalidade de Murakami com as diversas citações ao longo do romance do compositor húngaro Franz Liszt, autor das sinfonias intituladas exatamente "Os Anos de Peregrinação".

Todos os desfechos das obras de Murakami possuem em comum o uso das narrativas abertas em finais beirando o inconcluso. Não se verá uma ruptura abrupta ou uma catarse, longe disso. Se as buscas dos personagens aparentemente terminam, a estrada finaliza apenas para inferir-se que haverá novas buscas e novos caminhos a percorrer, desta vez com uma bagagem nova, adquirida ao longo do percurso. Bagagem que ironicamente encontrará um peregrino mais leve, repleto de autodescobertas e feridas lancetadas.

Ao reler o texto acima, temo ter dado a impressão de que os livros de Murakami são muito densos ou lúgubres demais. Não poderia haver engano maior. A narrativa fluida e o uso de elementos da cultura pop contemporânea se aliam a um humor um tanto ácido, mas ainda assim, humor. Tudo isso dá o toque de imensa humanidade que se vê derramar ao longo de cada uma das suas páginas.

Longa vida aos complexos personagens de Murakami.

31.8.18

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios e Maurice


Finalizei, quase simultaneamente, dois excelentes livros que estavam, há tempos na fila, aguardando a leitura. Em comum, ambos terem sido adaptados para o cinema e contarem histórias de amores difíceis. O primeiro: Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, do escritor brasileiro Marçal Aquino; o segundo: Maurice, do britânico E.M. Forster.

As semelhanças acabam aqui. Eu Receberia as Piores Notícias... foi adaptado para o cinema pelo brasileiro Beto Brandt; e Maurice, pelo diretor inglês James Ivory. Enquanto a primeira obra gira em torno de relações amorosas repletas de conflitos e tensões em um triângulo amoroso heterossexual com conclusões dramáticas, a obra britânica aborda o amor que não ousa dizer o nome (para citar o irlandês Oscar Wilde), com uma brisa de esperança.

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios - Há uma dupla potente e premiadíssima por trás deste livro e da sua adaptação para a telona: o escritor e roteirista Marçal Aquino e o diretor Beto Brandt, ambos também responsáveis pelos livros/filmes Os Matadores, O Invasor e Ação Entre Amigos, todos com ótimas críticas.

Esse originalíssimo título, composto por simplesmente nove palavras, entrega aos leitores uma paixão visceral e asfixiante do casal Lavínia (Camila Pitanga, mais linda do que jamais esteve, na versão cinematográfica) e Cauby, fotógrafo paulista responsável por partes da narrativa.

A história se desenrola no interior do Pará, onde Cauby praticamente se isola após ter viajado pelo mundo. Ali, ele se dedica a plantar e fumar maconha, ouvir música clássica, cuidar de um tatu de estimação e fazer bicos como fotógrafo de um jornal local. Cauby rasga o peito como se usasse luvas: “Quando estou com você, eu me perdoo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse.”


Intercalando narrativas em flashbacks, mergulhamos raso na alma sem fundo da misteriosa Lavínia, uma personagem que fascina o fotógrafo Cauby pela sua beleza fora do comum, por sua forte temperatura sexual, além de um comportamento bipolar e seu estranho casamento com Ernani, pastor evangélico 40 anos mais velho.

As transbordantes cenas de paixão física — o inferno de um seduzido pelo inferno do outro — ao som de música erudita e poesia são emolduradas pelo calor asfixiante e pegajoso do ambiente ribeirinho paraense, o prenúncio do caos que por todo o ambiente paira, seja pela latente ameaça de um conflito armado entre pistoleiros de mineradoras, garimpeiros e sindicatos, seja pela insegurança trazida pela condição mentalmente precária de uma Lavínia ex-prostituta e ex-viciada.

O livro e também o filme têm uma construção minimalista, seja na descrição exterior da suja e ameaçadora paisagem, seja do caótico interior dos personagens. Somos testemunhas do desenrolar das consequências que até podem parecer previsíveis, mas jamais menos impactantes, sem abrir mão da poética, mas também sem fugir da angústia de um amor impossível: “Uma felicidade sem futuro, como qualquer felicidade que se preze”.


Maurice, ao contrário da obra acima comentada, não se passa no quente e úmido Pará contemporâneo, mas em uma fria Londres no início do século passado e também aborda as dificuldades do amor, mas desta vez entre jovens rapazes da aristocracia britânica. O livro de Edward Morgan Forster, de 1912, foi adaptado para o cinema pelo premiado diretor James Ivory, responsável por levar às telas dois outros livros de Forster (Retorno a Howards End e Uma Janela Para o Amor).

A adaptação de Maurice para as telas conquistou de cara três dos prêmios principais no Festival de Veneza em 1987: o Leão de Prata, para o diretor James Ivory; melhor trilha sonora e o troféu de melhor ator que foi dividido por James Wilby e Hugh Grant, este ainda no início da sua carreira de sucesso no cinema.

O livro trata de modo tipicamente britânico sobre as dificuldades de aceitação da homossexualidade na  aristocracia rural e acadêmica inglesa. Maurice e Clive (James Wilby e Hugh Grant, no cinema) se conhecem na universidade de Cambridge e após um período de intensa paixão juvenil e um cálido romance clandestino, Clive decide finalizar o idílio e viver uma farsa, casando-se com uma mulher e refreando qualquer relacionamento físico e afetivo com homens, sufocando o próprio desejo e legando ao apaixonado Maurice, por anos, uma vida de amor platônico e auto-repulsa por não conseguir debelar sua paixão, algo pouco viril numa sociedade rigidamente hierarquizada e machista.

A história, entretanto, revela uma esperança à altura do sofrimento suportado pelo gentil Maurice quando ele, rompendo as amarras da sua condição social, decide viver uma paixão por um rapaz de classe inferior, um duplo golpe na hierarquia e no machismo. Não há quem possa ter um coração de pedra para não torcer pelo amor desses dois rapazes tão diferentes e com tudo contra eles, que decidem enfrentar tantos dogmas da fria sociedade da época onde,  até 1967, a homossexualidade era um crime punido com prisão. 


Encerro com o trecho final do trabalho acadêmico "O Helenismo em Maurice", de José Ailson de Souza, doutor em literatura: "Muitas características apontadas pela crítica como defeitos do romance, são na verdade de onde a narrativa tira sua força. Refiro-me ao amplo emprego da sentimentalidade, na linguagem e na temática, para tratar do amor entre homens. É de certo modo óbvio que o autor procura abordar a questão de modo delicado, recorrendo a idealizações românticas, para valorizá-la, além de não ser acusado de promover pornografia, mesmo que postumamente – um receio expresso pelo autor. Em todo caso, considerando suas circunstâncias, e sua capacidade de reverberar entre nós, o romance de Forster é, assim como o seu protagonista, de uma coragem admirável, um feito intelectual e literário verdadeiramente heroico”.

6.7.18

O COMPLEXO DE PORTNOY E O TEATRO DE SABBATH



Os dois títulos acima fazem parte das 31 obras geniais do polêmico norte americano Phillip Roth, morto em maio último.

Roth foi um dos escritores mais prestigiados no mundo, o único americano em vida a ter suas obras completas publicadas pela Library of America, instituição que objetiva preservar a herança cultural americana. Oito dos seus livros foram adaptados para o cinema e o número de prêmios é respeitável, só tendo lhe faltado o Nobel, o que sempre motivou críticas unânimes à academia sueca.

O Complexo de Portnoy é a terceira obra de Roth e quando do seu lançamento, em 1969, foi uma bomba em termos de repercussão e polêmica. O livro levou o autor ao patamar dos grandes escritores e deixou-o milionário. Em 1972 o livro foi adaptado para o cinema

Toda a narrativa do livro é uma grande sessão de terapia do judeu americano Alexander Portnoy, — todos os protagonistas dos livros de Roth são judeus, como ele, espécies de alteregos — e aqui o narrador expõe ao analista suas pulsões sexuais incontroláveis e as obsessões com as quais não sabe lidar e que tenta, sem sucesso, reprimir.

Ao mesmo tempo o livro é obsceno e divertido e Portnoy tornou-se símbolo de uma cultura, um feito e tanto para um autor que ainda escreveria, com grande sucesso, dezenas de livros depois deste.

Quase meio século após seu lançamento, O Complexo de Portnoy mantém sua força, mesmo não chocando tanto como nos anos 70 e 80, quando a contracultura e a luta pelos direitos civis eram mais vibrantes.

Portnoy, o atormentado pelo seu forte Complexo de Édipo e culpa, não terá facilidade para se livrar das suas neuroses e da fortíssima influência da mãe judia — mãe judia é um clássico: "Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. Assim que tocava o sinal ao final das aulas, eu voltava correndo para casa, na esperança de chegar ao apartamento em que morávamos antes que ela tivesse tempo de se transformar. Invariavelmente ela já estava na cozinha, preparando leite com biscoitos para mim. No entanto, em vez de me livrar dessas ilusões, essa proeza só fazia crescer minha admiração pelos poderes dela”.

Com linguagem vulgar e narrativa sem cronologia, quase fluxo de pensamento, já que se trata de uma grande sessão catártica com um terapeuta, Roth não economiza nas tintas e percebemos um Portnoy repleto de autoironia, inteligência e sagacidade. Em certas passagens, como já foi relatado por vários leitores, fui tomado por gargalhadas. Despudorado e engraçado, esse livro conquista. Não pede licença nem perdoa.

Leia-o com deleite e sem culpa. Deixe toda culpa para o pobre Portnoy, pois ele já a tem de sobra.

 


O Teatro de Sabbath, de 1995, era o livro favorito do próprio Phillip Roth, entre todas as suas obras. Mais polêmico ainda do que O Complexo de Portnoy, a obra tornou-se de imediato um fenômeno em termos de adoração ou aversão. As feministas mais ferrenhas chegaram a colocá-lo no índice dos livros mais odiosos e seu personagem principal, o cínico e imoral  Mickey Sabbath, considerado a epítome do porco chauvinista.

O judeu quase septuagenário Mickey Sabbath é um artista de fantoches aposentado apresentado ao leitor em plena crise existencial e decadência física e moral. Acompanhamos seu declínio graças ao talento para criar conflitos e buscar situações limites que o levem cada vez mais para baixo. Nesse caminho, ele vê seus pouquíssimos amigos morrendo e em alguns momentos temos a impressão de que este homem é um bólido desgovernado que só é capaz de sentir e causar amargor.

Ledo engano. Sabbath, contra todo seu instinto canalha, mantém forte melancolia com algumas pessoas: o irmão mais velho, herói aviador abatido pelos japoneses na 2ª Guerra; a mãe, força da natureza e esteio da família, em demência senil após não superar a morte do filho. Após a morte da mãe, o pai de Sabbath segue o mesmo destino.

Sozinho, esse homem faz sua jornada rumo a um prometido, mas improvável suicídio. No caminho, conquistando prisão por indecência, demissão da Universidade por assédio sexual a uma aluna graças à férrea recusa em integrar uma sociedade onde há convenções e regras, Sabbath é incoercível seja pela lei, pelos costumes, pela moral ou pelo remorso. Trai, rouba, mente, subjuga, corrompe e estraga tudo à sua volta.

Mesmo atormentado pelos fantasmas do passado — em certos trechos há vários diálogos com a mãe morta (uma imagem extremamente judaica) — uma metáfora da sua solidão, ele vive cercado de mulheres com quem divide a sexualidade desregrada.

Mas Sabbath não é um personagem óbvio, um vilão raso, pois sob um olhar mais cuidadoso do leitor, exibe talvez um envergonhado verniz de ternura. Isso fica evidente na sua busca desesperada por um sentido final para sua vida após a morte de todos os seus parentes e mesmo após o câncer levar a sua amante, alguém tão importante para ele quanto foi a própria mãe.

Após Sabbath perder tudo e todos, já totalmente à deriva, Phillip Roth, como que emulando Machado de Assis ao defender seu Bentinho em Dom Casmurro, diz diretamente para o seu leitor: “Não seja tão duro com Sabbath, Leitor”. E defende seu protagonista a seguir, refletindo sobre qual homem resistiria a uma oferta sedutora, repetida várias vezes por uma moça com um terço da sua idade: “Nem o turbulento debate interior, nem a superabundância de autossubversão, nem os anos de leitura sobre a morte, nem a amarga experiência da aflição, da perda, da injustiça e da dor tornam mais fácil fazer bom uso dos seus miolos quando confrontado com uma oferta como aquela”.

Para o leitor brasileiro, sobretudo baiano, o livro reserva alguns momentos mais divertidos quando o protagonista relembra seu período de marinheiro, onde só lhe importava chegar a um porto qualquer para se deleitar nos prostíbulos do lugar. Sobre Salvador, Sabbath afirma que havia uma igreja e um bordel para cada dia do ano: “Lugar propício à imaginação, a Bahia” e recomenda a um dos poucos amigos deixar sua jovem filha virgem vir para cá: “Ela aprenderia muito mais sobre o texto criativo em um mês na Bahia do que em quatro anos na Universidade Brown”. E ao revirar as gavetas da moça e só encontrar objetos que denotam seu recato, o bruto sentencia sobre ela: “Você não sobreviveria cinco minutos na Bahia”.


Tudo bem que só li "O Teatro de Sabbath" este mês, mas estou sobrevivendo na Bahia há 55 anos. Não podem me acusar de recato!

5.6.18

DOIS GAROTOS SE BEIJANDO


Narrado por uma miríade de vozes de uma geração que morreu vítima da Aids, Dois Garotos Se Beijando, de David Levithan, é um livro de rasgar o coração. Intercala-se a leitura de suas páginas com lágrimas.

Acompanhamos Harry e Craig, dois adolescentes de 17 anos, ex-namorados, na sua tentativa de passar 32 horas se beijando para figurar no Livro dos Recordes. O desafio é fazer desse um ato público e político, em frente à escola em que ambos estudam e assim dar visibilidade a um tema tabu e ampliar o espaço da luta contra a homofobia e o preconceito.

Curiosamente, essa história é inspirada em um fato real. Os universitários Matty Daley e Bobby Canciello se beijaram sem parar por 32 horas, 30 minutos e 47 segundos no campus da Universidade de Nova Jersey.

Pelas regras do Guinness, o ato tinha que ser público e eles não podiam se sentar, usar o sanitário ou fraldas de adultos e tiveram que suportar o calor, o desconforto e as fortíssimas dores musculares sem desgrudarem os lábios por sequer um segundo.

Mas o livro ainda conta três outras histórias paralelamente: a de Peter e Neil, dois jovens que estão juntos há um ano; a de Ryan e Avery, que se conhecem num baile gay e um deles tem que se decidir como revelar que é transexual; e Cooper, um garoto solitário que atravessa suas noites em salas de bate papos na internet com homens desconhecidos e precisa enfrentar o drama de ter seu segredo descoberto pelos pais da pior maneira.

Todos os narradores unem-se em uma só voz para contar as histórias desses adolescentes. Eles, os narradores, já conhecem todas aquelas emoções por já terem vivido os mesmos dramas e afetos, enfrentaram os mesmos preconceitos e sentiram as mesmas dores quando estavam vivos. Somos os fantasmas da geração mais velha que sobrou. Você conhece algumas das nossas músicas. Não queremos assombrar você com melancolia demais. Nós te ensinamos a dançar.” Dizem.

Ao mesmo tempo em que os narradores demonstram empatia pelos dramas dos novos jovens, recordam a ironia do seu próprio tempo, refletindo “quando paramos de querer nos matar, começamos a morrer. Quando estávamos sentindo força, ela foi tirada de nós. Isso não deve acontecer com vocês.”

O conhecidíssimo poema Filtro Solar, versão do original de Mary Schmich diz: “Conselho é uma forma de nostalgia. Compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado do lixo, esfregá-lo, repintar as partes feias e reciclar tudo por mais do que vale.”

É isso que se vê em Dois Garotos se Beijando. Há uma dor subjacente ao fato de que estamos diante de conselhos de homens mortos tentando ajudar jovens vivos, evitando assim que eles passem pelos mesmos dissabores. Mas sabemos que isso é inútil não apenas porque os conselheiros estão mortos e nada podem fazer, mas porque conselhos são meras formas de nostalgia vã.

Por outro lado, há uma beleza imensa em poder ler essas páginas, esses conselhos mesmos, como se ainda houvesse alguma esperança. Mas eles, os narradores reconhecem: “Raramente somos unânimes em relação a alguma coisa. Alguns de nós amaram. Alguns não conseguiram. Alguns foram amados. Alguns não foram. Alguns nunca entenderam para que tanta confusão. Alguns queriam tanto que morreram tentando. Alguns juram que morreram de coração partido, não de AIDS”

Ao final da história, uma espécie de grito de desafio, uma ode à visibilidade com a qual não vejo outra forma mais perfeita de encerrar esse comentário: “Se juntarmos armários suficientes, temos o espaço de um quarto. Se juntarmos quartos suficientes, temos o espaço de uma casa. Se juntarmos casas suficientes, temos o espaço de uma aldeia, de uma cidade, de uma nação, do mundo”.


1.6.18

OS POLICIAIS GELADOS DE JO NESBØ



Há um ano eu nunca tinha ouvido falar no escritor norueguês Jo Nesbø. Somente com o lançamento do filme “O Boneco de Neve”, passei a prestar atenção à sua literatura policial e consumi-la como um faminto. Recentemente, li três livros da sua série sobre o detetive alcoólatra e viciado Harry Hole (Morcego, Baratas e Boneco de Neve). Há ainda quase dez títulos para serem degustados com o mesmo protagonista.


A literatura policial escandinava é quase um subgênero à parte na galeria de livros de suspense, envolvendo complicadas investigações e tramas policiais na linhagem dos mestres Agatha Christie (e seu detetive com TOC Hercule Poirot); Edgar Alan Poe (e o pai de todos os detetives de ficção, Auguste Dupain); Georges Simenon (com seu comissário Jules Maigret); Raymond Chandler (com seu detetive pinguço Philip Marlowe) e Arthur Conan Doyle (com o mais famoso de todos, Sherlock Holmes). Assim como o detetive Harry Hole, de Jo Nesbø, os protagonistas dessas novelas policiais são poços de idiossincrasias e dramas pessoais carregando cérebros brilhantes.

Autores suecos, dinamarqueses, finlandeses e noruegueses, como comprovam o sucesso da Série Millenium e vários outros, estão ganhando notoriedade no mundo inteiro com suas obras de forte impacto e seus personagens cheios de dores e amargores internos com seus próprios fantasmas para exorcizar. Os livros de Nesbø são traduzidos em mais de quarenta línguas e ele já chegou a ter três livros, simultaneamente, no topo da lista dos mais vendidos na Noruega.

Infelizmente, as adaptações das suas obras para o cinema não têm sido felizes. O filme baseado em “Headhunters” teve má recepção e Nesbø só aceitou vender os direitos porque os royalties iriam para sua fundação que ajuda crianças carentes a ler e escrever. A adaptação para as telas de Boneco de Neve também foi um fiasco como roteiro, edição e atuações e nem mesmo a presença de Michael Fassbender (X-Men e Shame) no papel do icônico detetive Harry Hole salvou a empreitada.

Em O Morcego, como nas obras seguintes, a editora Record refez o projeto gráfico das capas nas cores branco, preto e vermelho com detalhes em relevo e os livros passaram a ter melhor qualidade editorial. Aqui, Hole é enviado de Oslo para desvendar um misterioso assassinato de uma jovem norueguesa na Austrália. No meio da trama, o detetive luta contra seu alcoolismo e a tendência à autodestruição e enfrenta boxeadores aborígenes, traficantes, maníacos sexuais e a corrupção policial. Nesbø se esmera na contextualização da atmosfera da cultura australiana com seu passado colonial e racista.

No livro seguinte, Baratas, o detetive Hole é enviado para a Tailândia para investigar, com o máximo de brevidade e sigilo, a morte de um embaixador norueguês apunhalado em um motel barato de Bangkok. A missão no fundo é evitar um escândalo diplomático. Em uma atmosfera de trânsito barulhento e caótico e calor e umidades asfixiantes, Hole vê-se em uma trama que envolve antros de ópio, bares vagabundos de striptease, templos budistas e pedofilia. No decorrer da investigação, após um rastro de crimes, ele percebe que pode ser a próxima vítima do assassino. 

E finalmente, em Boneco de Neve, o policial norueguês enfrenta um serial killer em Oslo que mata mulheres, aparentemente de modo aleatório, no primeiro dia de inverno de cada ano e deixa um boneco de neve no jardim de suas casas usando uma peça de roupa da pessoa morta. O jornal inglês The Guardian considerou este o livro mais ambicioso de Jo Nesbø. O The Times o comparou ao Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris. Cada capítulo é eletrizante, como costumam ser todas as aventuras de Harry Hole.

Boneco de Neve é o sétimo romance de Nesbø e vendeu 160 mil exemplares apenas na semana do lançamento e é o romance policial norueguês mais vendido até hoje. 
Todos os livros têm em comum finais surpreendentes, que fazem valer cada minuto da leitura e desejar mais livros com o atormentado Harry Hole.



14.5.18

A TETRALOGIA NAPOLITANA DE ELENA FERRANTE

A escritora italiana Elena Ferrante é um sucesso na literatura mundo afora, mas eu, por preconceito, sempre achei que o seu seria um tipo de leitura mais feminina, talvez um tanto devido à escolha das ilustrações para as capas dos seus livros que a Editora Biblioteca Azul - Editora Globo fez para o Brasil.

Não sei como, venci o preconceito e após terminar de devorar as mais de 1.500 páginas dos quatro volumes da sua Tetralogia Napolitana, posso dizer que estou viciado na escrita de Ferrante.

            Apesar de ainda considerar péssimas as capas dos quatro livros, inadequadas ao conteúdo áspero e sujo da ambientação da história narrada em Nápoles ou no ambiente acadêmico e político ao longo de mais de 50 anos da Itália pós-guerra, confesso que ultrapassei a barreira das ilustrações infantis das capas para desfrutar de uma das melhores narradoras dos últimos anos.

         
            A tetralogia, que já vendeu quase 6 milhões de exemplares pelo mundo, é formada pelos romances: A Amiga Genial,  História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida. Tive o privilégio de ler os quatro livros de enfiada, um após o outro, ao contrário daqueles que começaram a lê-los na medida em que foram sendo publicados sucessivamente, ano a ano de 2012 a 2015.

           As obras narram as vidas de duas amigas de infância em um bairro pobre de Nápoles. Lenu e Lila. A primeira, a narradora, escreve já na maturidade sobre o desenrolar das histórias de ambas, os caminhos que percorreram, suas dores, a maternidade, os amores e os ódios.

A história nos faz ora admirar ora detestar uma ou outra, torcendo pelo sucesso de Lenu no mundo acadêmico e na literatura ou pela libertação de Lila da miséria social do bairro pobre de Nápoles, representação do microcosmo da Itália pós-guerra, com os assassinatos políticos, a luta sindical e partidária e a máfia napolitana, a Camorra.

A relação das duas amigas é o foco narrativo dos quatro volumes e Ferrante, habilmente, alterna as histórias de uma e de outra, fazendo com que os leitores fiquem presos ao vínculo único que as une que é desenvolvido nos muitos episódios em que, ao longo da vida, elas convivem em momentos diferentes, da infância à vida adulta, já casadas e com filhos.

          Há uma notável construção sobre a ambivalência das amigas Lenu e Lila, suas passionalidades napolitanas, a insuperável competitividade de ambas e seus rancores, mas também a ternura, os vínculos familiares e mesmo os amores divididos por ambas.

A crítica tem feito seguidos elogios à escrita de Ferrante que se insere na tradição da literatura feminina sem apelar para aspectos mais fáceis e de leitura rápida. As obras alcançam ainda a esfera do romance histórico, pois perpassam pela vida das duas amigas todo o panorama político e social da Itália na segunda metade do século passado.

No bojo de toda a história, vemos uma profunda crítica ao universo machista e retrógrado e uma elegia sobre a busca da voz própria e feminina, que inclui a tetralogia napolitana no chamado “romance de formação”, tradição em que estão obras que acompanham as transições da vida de um personagem não apenas ao longo dos anos, da infância à velhice, mas sua evolução psicológica e crítica que muito o definem em um antes e um depois, como acontece em David Copperfield, de Charles Dickens; Um Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce e O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D.Salinger, entre outros.

        Que seja bem-vinda a adaptação da obra para as telas pela HBO, mas, se eu fosse você, não esperaria e começaria logo a devorar os livros para ao menos poder também dizer, como sempre acontece: o livro é muito melhor.

11.4.18

ABRIL DESPEDAÇADO e LAVOURA ARCAICA

 Esta semana acabei de ler dois livros excelentes, ambos adaptados para o cinema por dois diretores brasileiros: Abril Despedaçado — dirigido por Walter Salles e com Rodrigo Santoro como protagonista—, e Lavoura Arcaica, do brasileiro Raduan Nassar, filmado por Luiz Fernando Carvalho e com Selton Mello no papel principal. Os dois livros foram publicados originalmente na década de 70 e giram em torno de profundas tradições familiares.

ABRIL DESPEDAÇADO – Obra do escritor albanês Ismail Kadaré, foi adaptado no cinema para o sertão brasileiro e aborda um círculo infinito de vinganças entre membros de duas famílias rivais. Um dos temas mais caros da dramaturgia universal é o da vingança e se o livro se passa nas montanhas da Albânia, a transposição da trama para a aridez sertaneja, no cinema, não lhe fica nada a dever. É o mesmo orgulho estéril. A mesma mesquinhez patriarcal.

Nas montanhas da Albânia, resiste por cinco séculos até hoje o código de conduta conhecido como Kanum, costume arraigado na vida dos agricultores, que prevê regras estritas sobre o direito das famílias de ter as mortes de seus entes vingadas à bala. Trata-se de um romance, mas o Kanum existe realmente e estima-se que mais de 20 mil pessoas se envolveram em lutas entre famílias, com quase 10 mil mortos somente a partir de 1991 com o fim do regime comunista na região, quando houve um ressurgimento das rixas.

Acompanhamos um mês na vida do jovem Gjorg desde o momento em que ele se vê imerso na rede de vingança, obrigado a cobrar de uma família rival a morte do irmão, matando também ele um membro do clã inimigo e assim submetido ao circulo de vendetas. Ele morrerá após 30 dias, a trégua chamada de bessa. Mas, na prática, sua vida já acabou, ou acabará em algum dia do mês de abril. É impossível não recordar do notável romance do Nobel colombiano Gabriel Garcia Márquez, Crônica de Uma Morte Anunciada, também adaptada para o cinema.

No seu derradeiro mês de vida, Gjorg vislumbra, por uma única e breve oportunidade, a bela jovem Diana e entre os dois se instala uma urgente e súbita paixão silenciosa. Para Gjorg, será uma busca desesperada pela carruagem que transporta Diana pelas montanhas e para a jovem letrada, a estupefação diante de tradições que ceifam a vida de centenas de jovens numa sociedade em que o nascimento de um menino é saudado com o seguinte desejo: “Que ele viva muito. E morra de bala!”

LAVOURA ARCAICA - Também um livro duro, difícil, construído a partir de uma narrativa que se assemelha a um mergulho em apneia ou a um caleidoscópio de cicatrizes abertas.

A história segue os caminhos — ou os descaminhos — de André, filho do meio de uma família religiosa de agricultores imigrantes, uma verdadeira metáfora invertida sobre a parábola bíblica do filho pródigo. Já na primeira página, André é encontrado pelo irmão mais velho Pedro (não à toa, nomes de dois irmãos apóstolos) em um quarto sujo de pensão após ter fugido da opressiva família cristã sobre a qual o pai, libanês rígido, impunha uma disciplina feroz, em contraste com a mãe, pura ternura e afeto.

O jovem André sofre sob essa pressão e se sente cindir nas tensões desses polos em permanente disputa por sua alma. Em torno dele, gravitam os demais irmãos, entre eles a meiga Ana (Simone Spoladore, nas telas), que desperta em André convulsivos desejos incestuosos. 

O livro tem uma construção não linear de prosa poética como um jorro de fluxo de consciência, levando o leitor a mergulhar nas suas páginas sem qualquer garantia. Um clássico obrigatório que precisa ser lido sem pressa, com o devido tempo.

E sobre o tempo, sobre a virtude da paciência, transcrevo trecho de um dos discursos do patriarca da família, belissimamente interpretado no cinema por Raul Cortez: “... rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira...”

28.3.18

ME CHAME PELO SEU NOME

“Se houver dor, cuide dela com carinho


O filme "Me Chame Pelo Seu Nome” foi o vencedor do último Oscar de Roteiro Adaptado, tendo sido ainda indicado a três outras premiações da Academia como melhor filme, ator e canção. Assim que saí do cinema, fui correndo comprar o livro, que devorei em três dias. A obra, que conquistou a comunidade gay, venceu o Lambda Literary Award, maior premiação mundial de ficção LGBT. Ainda embriagado pela atmosfera do romance, dividido minhas fortes impressões.

Não fossem pelas descrições da paradisíaca vila da Riviera italiana, debruçada sobre o Mediterrâneo com suas idílicas tardes de mormaço e aromas de lavandas e pessegueiros, não fosse por uma infinidade de outras experiências sensuais trazidas pela obra do escritor Andre Aciman e dirigida pelo italiano Luca Guadagnino, bastaria o diálogo final entre o ator Timothée Chalamet (um dos mais jovens a serem indicados ao Oscar), no papel do adolescente Elio, e seu pai, o ator Michael  Stuhlbarg, para carimbar a história com a marca de uma catarse em defesa do respeito ao amor.

Diferentemente do filme, o livro é construído com uma narrativa de um Elio mais velho, relembrando um verão no sul da Itália em que, aos 17 anos, conheceu o belíssimo americano Oliver, de 24, hóspede dos seus pais, acadêmicos que habitualmente recebiam estudantes de outros países para temporadas em uma cidadezinha que sabemos apenas que tem a inicial B.

A história é tecida em uma espécie de novelo em que os dois personagens principais se aproximam e se esquivam como em uma corte. Nem o adolescente Elio nem o jovem Oliver são exatamente homossexuais, pois no livro e no filme fica claro que eles têm interesses por mulheres, mas há uma curiosidade imanente, uma busca por uma experiência mais íntima que eles não conseguem evitar e, no caso de Elio, aliada à admiração pela beleza do louro americano, um inegável encantamento pela sua formação erudita, fruto do interesse por temas comuns a pessoas crescidas em meio à atmosfera acadêmica com destaque para música clássica, literatura e artes plásticas.

Estamos em algum momento dos anos 80 e as limitações tecnológicas de comunicação que a época impunha e o isolamento do local em que a história de amor se passa, contribuem para o clima de intimismo que favorece o enlevo. Nesse sentido, a história poderia ser vivida por um casal qualquer, não necessariamente gay. É, na verdade, um hino ao amor. Qualquer amor. Com sabedoria, dizia Guimarães Rosa: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.

No livro, que se estende para além do verão onde os jovens se conhecem, há uma atmosfera de desejo físico, com narrativa de forte sexualidade e luxúria, como na icônica cena do pêssego maduro, enquanto o filme opta por uma sensualidade mais difusa, de menos urgência da satisfação desse mesmo desejo que habita nos protagonistas. Ah sim, o pêssego continua lá.

Há quem torça o nariz e adote um tom moralista para tachar de pedofilia o envolvimento de um rapaz de 17 anos com um jovem de 24. Acho engraçado esse tipo de crítica quando se tratam de dois homens. Lembro, por exemplo, que na clássica película “Houve Uma Vez Um Verão", de 1971, um adolescente de 14 anos se apaixona e se relaciona intimamente com uma mulher mais velha e jamais se fez alusão à pedofilia neste caso.


Talvez o que mesmo tenha incomodado algumas pessoas seja que Me Chame Pelo Seu Nome finalize com uma mensagem positiva em relação ao que resulta de um primeiro amor, ao contrário de outras obras com temática semelhante sobre o amor entre homens com finais trágicos ou tristes, como O Segredo de Brokeback Mountain, Moonlight e tantos outros.

Encerro com o diálogo final entre pai e filho a que me referi no terceiro parágrafo. Qualquer filho que tenha enfrentado uma situação como a de Elio deveria ouvir o que o pai lhe diz: “Vocês tiveram uma amizade linda. Talvez mais que uma amizade. E eu invejo você. A maioria dos pais, se estivesse em meu lugar, torceria para isso tudo acabar, rezaria para seu filho acabar se endireitando. Mas eu não sou um pai assim. Em seu lugar, eu diria: se houver dor, cuide dela com carinho. E, se há uma chama, não a apague. Não seja brutal com ela. Arrancamos tanta coisa de nós mesmos para nos curarmos mais rapidamente das coisas que aos 30 anos já estamos falidos e temos menos a oferecer cada vez que começamos com uma pessoa nova. Mas insensibilizar-se para evitar qualquer dor – que desperdício!”.