30.1.21
Miami, Uma Pocilga ao Sol
PERDIDOS NO QUEENS
14.1.21
ONDE OS VELHOS NÃO TÊM VEZ
Tenho o hábito de ler sempre os autores de que gosto, que escrevem livros que combinam com meu gosto literário. A vantagem disso é se aprofundar no estilo daquele escritor e a certeza de uma boa experiência. Porém, isso me priva, às vezes, de descobrir grandes autores a quem ainda não tinha dado uma chance. E é sempre uma espécie de epifania cruzar com um escritor assim. Foi o que acabou de acontecer.
Ainda estou sob o impacto da leitura de Onde os Velhos Não Têm Vez (No Country for Old Men), do norte americano Cormac McCarthy. No Brasil, o filme adaptado do livro recebeu o título: Onde os Fracos Não Têm Vez. Um balaço no juízo do leitor.
Fico me perguntando por que ainda não tinha lido Cormac McCarthy, unanimemente reconhecido como um dos maiores escritores da atualidade e laureado com o prêmio Pulitzer pelo romance pós-apocalíptico A Estrada, também já adaptado para o cinema com Viggo Mortensen e Charlize Theron. Vai ser minha próxima leitura, pois McCarthy acabou de me viciar.
Uma das características do autor é a maneira única de escrever, com um texto direto, fluido que lembra José Saramago quando não usa sinais para indicar os diálogos que costumam ter início no meio de uma frase. No começo a leitura pode parecer estranha, mas logo me acostumei a esse estilo peculiar e ao invés de ser um texto difícil na verdade é o contrário. É muito simples, com frases curtas em orações coordenadas, quase como a transcrição literal de pensamentos e falas dos personagens. Uma coisa viciante que não dá para parar. Seria como querer parar um pensamento.
Impossível não associar ao filme dos irmãos Coen, de 2008, indicado para 8 Oscar e que levou 4 estatuetas (inclusive filme, roteiro e direção, todos para as mãos dos Coen), além de ator coadjuvante para o assustador vilão interpretado por Javier Bardem.
A história segue três personagens: o xerife Bell (Tommy Lee Jones no cinema); o desafortunado Moss (Josh Brolin, na tela); e o já citado Javier Bardem, que encarna Chigurh, um dos antagonistas mais enigmáticos que já vi nas telas ou na literatura e que traz a marca da maldade gratuita de um psicopata com um ego gigantesco. Ele carrega um cilindro de oxigênio e costuma matar suas vítimas não com um revólver, mas com um único e mortal jato de ar comprimido na cabeça.
Acompanhamos, num fôlego só, a busca do xerife Bell e do vilão Chigurh pelo soldador Moss, que encontrou (por azar) uma sacola com milhões de dólares em pleno deserto ao lado de carros varados de balas e traficantes mortos em uma disputa de dois cartéis de drogas. O roubo do dinheiro leva Moss a uma fuga desesperada e um rastro de mortes que se seguem.
As reflexões internas do xerife Bell são um contraponto às ações frenéticas, interrompidas por elipses inesperadas e diálogos afiados. Transcrevo um trecho, mas poderia selecionar inúmeros outros: “Fechou os olhos sim. Fechou os olhos e virou a cabeça e ergueu uma das mãos para desviar o que não podia ser desviado. Chigurh atirou em seu rosto. Tudo o que Wells já tinha sabido ou pensado ou amado escorreu devagar pela parede atrás dele. O rosto de sua mãe, sua primeira comunhão, mulheres que tinha conhecido. Os rostos dos homens enquanto morriam de joelhos aos seus pés. O corpo de uma criança morta num barranco junto à estrada em outro país. Ficou caído parcialmente sem cabeça na cama com os braços abertos, a maior parte da mão direita faltando”.
Recomendo muito a leitura com sua sonoridade rara e fácil de acostumar. Em pouco tempo, a gente percebe que aspas, travessões e vírgulas não fazem mesmo a menor falta e a agilidade da narrativa e os diálogos irão hipnotizar o leitor que não sairá o mesmo após a última página.
31.12.20
LEITURAS DE OUTUBRO A DEZEMBRO
2 - HOMO DEUS – Instigado pelo livro anterior, li o livro seguinte de Yuval Harari em que ele combina ciência, história e filosofia para entender nosso destino e os próximos passos da evolução humana além de entender quais caminhos tomamos para chegar onde estamos. “No século 18, Maria Antonieta aconselhou os pobres a comerem brioche. Hoje eles seguem seu conselho e se os ricos de Beverly Hills comem salada com tofu, nos cortiços e guetos se empanturram de bolinhos recheados, salgadinhos artificiais, hambúrgueres e pizzas. ”
3 - O HOMEM DO CASTELO ALTO – Este premiado livro de Philip K. Dick gerou uma série de tv já com quatro temporadas. Vários livros do autor já foram adaptados para o cinema como Blade Runner, O Vingador do Futuro e Minority Report. Nesta distopia, estamos em 1962, os EUA perderam a 2ª Guerra Mundial e os nazistas e japoneses dividem os Estados Unidos. Há diferenças entre livro e série. Apesar de muito elogiado, nem livro nem série me agradaram muito.
4 - WILD CARDS 8 - LUTA DE VALETES – Na sequência de Wild Cards, incrível série de realidade alternativa. Editada por George R. R. Martin, acompanhamos o caos se instalar em Manhattan, quando aparecem os Saltadores, gangue com integrantes que transferem suas mentes a outros corpos. A série tem mais de 120 personagens e aqui conhecemos melhor alguns deles, o que não pode ser aprofundada nos livros anteriores como Estranheza, uma espécie de coringa monstro fortíssimo formado pela fusão de dois homens e uma mulher que estavam em uma relação sexual a três quando o vírus carta selvagem os contaminou.
5 - WILD CARDS 9 - GUERRA AOS CURINGAS – Até agora este foi o último volume da saga lançado no Brasil (a série tem mais de 20 volumes). Acompanhamos os conflitos criados pela gang do violento Blaise e seus saltadores, e Bomba, um coringa disforme que se alimenta de matéria orgânica em decomposição (com tubos de esgoto ligados ao seu corpo gigantesco para alimentá-lo continuamente). Bomba governa Ellis Island em Nova York e luta pelos direitos dos curingas. Vários personagens queridos da saga morrem neste volume e outros tantos têm destinos surpreendentes.
6 - IMPERIUM - Primeiro volume da Trilogia de Cícero, romance histórico do autor inglês Robert Harris (mais famoso pelos livros Pompeia e O Fantasma), é focado na figura do futuro senador e cônsul romano Marco Túlio Cícero. Narrado pelo seu escravo e biógrafo Tiro, introduz o talento extraordinário de advogado e orador Cícero. Com incrível verossimilhança, o livro nos conduz ao violento e traiçoeiro mundo da política romana. No primeiro volume vamos acompanhar os primeiros passos de Cícero ao defende uma vítima do corrupto e poderosos Verres, governador da Sicília.
7 - LUSTRUM - Segundo romance da Trilogia de Cícero, foca no período em que a República de Roma está expandindo sua influência pelo mundo. Vários homens lutam pelo poder, entre eles Cícero, o poderoso cônsul; César, seu jovem e cruel rival; Pompeu, o principal general; Catão, um político fanático; e o psicopata Catilina. Cícero precisa usar toda a sua astúcia para evitar que Roma mergulhe em uma ditadura. Aqui temos
9 - MEMÓRIAS DO SUBSOLO - Otto Maria Carpeaux disse que Dostoiévski é o mais poderoso escritor do século XIX; ou do século XX, pois sua obra é o marco entre dois séculos de literatura. Aqui temos uma obra-prima, uma pequena e sombria novela que traz temas da fase madura de Dostoiévski. Seu protagonista, um funcionário que vive no subsolo de um edifício em São Petersburgo, expõe a sua visão de mundo num discurso explosivo. Já tem início com a frase: “Sou um homem doente…Um homem mau. Um homem desagradável”.
10 - COM SANGUE – Dos quase 80 livros de Stephen King, 12 volumes são de contos e este é o mais recente lançado. O mestre do suspense aborda temas como amor, amizade, talento e justiça e suas deturpações em quatro contos com protagonistas, como sempre, complexos, com suas vidas comuns transformadas por elementos inexplicáveis. Num dos contos temos de volta a estranha detetive Holly Gibney, personagem intrigante do livro Outsider e da trilogia Mr. Mercedes.
11 - A DANÇA DA MORTE- Foram quase 1.250 páginas para vencer esse calhamaço de Stephen King sobre um vírus que mata 99% da população, destruindo instituições e gerando o caos. Os sobreviventes se dividem nos clássicos lados do bem e do mal. De um lado a frágil Mãe Abigail, de 108 anos. Do outro, o mal incorporado pelo terrível Randall Flagg, personagem também da saga A Torre Negra, de King, considerado um dos maiores vilões do autor. Há uma série na Amazon Prime com Whoopi Goldberg num dos papéis principais. Li com muita voracidade, mas achei excessivamente arrastado e com um final ao mesmo tempo preguiçoso e caudaloso, apesar da aparente contradição entre esses dois termos.
12-PRIMEIRO AMOR - Obra magistral de Ivan Turguêniev, autor do clássico Pais e Filhos que ainda não li e foi considerado o primeiro divulgador da literatura russa no Ocidente. A história é contada a um grupo de amigos por Vladímir Petróvitch sobre sua paixão de infância por uma exuberante Zinaida, filha de sua vizinha que usa a atração que exerce em vários homens para manipular as armas de sedução. O autor era publicamente admirado por escritores como Henry James e Gustave Flaubert.
13 - LADY MACBETH DO DISTRITO DE MTZENSK – O primeiro livro que li do russo Nikolai Leskov e considerada sua obra-prima. O autor era contemporâneo de Dostoiévski e Tolstói, tido como grande retratista dos costumes e da alma de seu povo. Nesta impressionante narrativa, acompanhamos a transformação de Catierina Lvovna, jovem e entediada esposa de um velho comerciante, em uma cruel assassina. Inspirada na história de uma das maiores vilãs da literatura, da peça Macbeth de Shakespeare.
14 - PÁSSARO DA TEMPESTADE - Primeiro volume da série sobre a Guerra das Rosas, do britânico Conn Iggulden. Acompanhamos o rei Henrique VI alçado ao trono da Inglaterra com o reino abalado pela saúde frágil e que decide se casar com uma nobre francesa para selar o armistício com a França pondo fim à Guerra dos Cem Anos. O acordo gera forte oposição de Ricardo Plantageneta, duque de York, que planeja destronar o rei e ocupar seu lugar. É o início de um período sangrento na Inglaterra, uma guerra civil com alianças e traições com vívidas descrições de batalhas que parecem ficção de tão ferozes e intrincadas, mas que foram reais.
15 - TRINDADE – O volume 2 da saga de quatro livros sobre a Guerra das Rosas volta a mostrar batalhas sangrentas e mostra que o duque de York assumiu o poder como protetor do reino após prender o rei Henrique VI. Com os condes de Salisbury e de Warwick, ele forma uma trindade com poder inigualável. A figura mais notável é a rainha Margarida de Anjou, que conduz batalhas sangrentas pelo poder e retorno do rei fazendo alianças quase impossíveis.
16-HERANÇA DE SANGUE- Terceiro volume da série Guerra das Rosas retrata a vitória do exército da rainha Margarida de Anjou e do rei Henrique VI contra os Yorks, mas com a morte do duque de York, seu filho invade Londres e se coroa rei como Eduardo IV, o primeiro da dinastia York. Há uma reviravolta que parece um romance de ficção se não fosse de fato História, quando a ambiciosa esposa do rei o joga contra os antigos nobres aliados Neville. O que se segue é a prisão de Eduardo e a Inglaterra se vê com dois reis no cativeiro. Há um quarto volume da série: A ascensão dos Tudors, mas ainda não li.
17-UMA CIDADEZINHA DISTANTE – Um livrinho da talentosa e premiada poeta americana Elizabeth Bishop, que viveu 15 anos no Brasil e traduziu o célebre volume de memórias de Helena Morley, Vida de Menina, também já adaptado para o cinema. Aqui Bishop narra sua viagem a Diamantina, Minas Gerais para conhecer de perto o cenário do livro que traduziu e tornou um sucesso internacional, revelando o olhar original de uma estrangeira que observou como ninguém o Brasil, nossos costumes e tradições.
18- MR MERCEDES – No primeiro volume da trilogia Bill Hodges, o mestre do terror Stephen King conta a história de um psicopata que atropela e mata diversas pessoas com um Mercedes roubado. Meses depois, o detetive agora aposentado Bill Hodges, atormentado pelo fracasso na resolução do caso, recebe uma carta de alguém que assume ser o Assassino do Mercedes. Hodges passa a investigar o crime novamente e acompanhamos uma caçada ao assassino. A série foi adaptada para a Amazon Prime com três temporadas.
13.11.20
A BELEZA
A BELEZA
O corpo,
vivo, respira
E rola sobre a grama morna.
Verde, grama e corpo, um só.
O sol conspira, o corpo cobre
de luz,
E o corpo transpira...
Olhos, sobre o verde, buscam,
vagabundos,
Buscam ao redor,
Boiando em um mar de verde cobre,
Narinas e boca aspiram o
aroma de papoulas onipresentes
Arrebentando em cor,
Em luz e
em cor.
Então a Beleza passa de colete e
botas de couro preto,
A Beleza passa...
Olhos seguem quase cegos a Beleza
Que, bela, não se disfarça.
A boca se enche de saliva
doce,
A boca, ou narinas, suspiram,
A Beleza para, senta-se na grama.
Poucos metros.
Eis uma grama feliz!
Colete e botas de couro preto.
Nada mais adequado, vez que Beleza é,
Mas nem precisava ter esse peito tão belo.
A Beleza, esqueci de dizer, tirou o colete!
26.9.20
Leituras de Junho a Setembro
Aqui estão as minhas últimas leituras nos meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro.
Foram 18 livros, 8 deles foram lidos em formato digital e 10 em formato físico. Somente 4 livros foram de não-ficção, sendo dois deles biografias.
Eis a lista:
1 - QUATRO ESTAÇÕES, de Stephen King - Dos quase 80 livros escritos pelo mestre do terror, cerca de 10 são de contos. Quatro Estações é um dos seus melhores livros de contos. Três deles foram adaptados com sucesso para o cinema: os filmes Um Sonho de Liberdade (com Tim Robbins e Morgan Freeman) baseado em "A Primavera Eterna – Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank"; Conta Comigo (com River Phoenix e Kiefer Sutherland), baseado em "Outono da Inocência – O Corpo"; e O Aprendiz (com Ian McKellen), baseado em "Verão da Corrupção – Aluno Inteligente", além do excelente O Método Respiratório, que apesar de não ter virado filme é tão bom que merecia ter crescido para um romance tal seu fôlego.
2- WILD CARDS 7-A MÃO DO HOMEM MORTO, série editada por George R R Martin (de Game of Thrones) e que dá sequencia às ótimas histórias dos volumes anteriores onde um vírus alienígena atingiu a Terra dando superpoderes a alguns indivíduos (os Ases) e provocando bizarras deficiências em outros (os Curingas). Esse volume transcorre em parte paralelamente ao livro anterior que se passa em Atlanta durante a campanha presidencial. Aqui, uma das curingas mais interessante da série, Chrysalis foi morta (tinha sido morta no livro anterior e aqui há a sequência da história) e um detetive e um policial caçam o assassino. A identidade do criminoso é uma baita surpresa.
3- CINCO ESCRITOS MORAIS, de Umberto Eco. Após ter lido quatro romances do autor (O Nome da Rosa, Baudolino, O Cemitério de Praga e A Ilha do Dia Anterior), estava na hora de ler uma das suas obras de não-ficção. Aqui ele reúne cinco ensaios em que discute questões atuais. Em “Pensar a Guerra”, põe em perspectiva as diferenças entre guerras atuais e passadas. Em “O Fascismo Eterno”, chama a atenção para as novas roupagens com que o fascista se apresenta. Em “Sobre a Imprensa” ele mostra como a informação escrita está a reboque da televisão. Em “Quando Entra em Cena o Outro”, discute como a crença na vida eterna condiciona os comportamentos. E no quinto ensaio, “Migrações, Tolerância e Intolerável” trata do racismo e da xenofobia.
4- O CEMITÉRIO, de Stephen King. Também publicado no Brasil com o título O Cemitério Maldito, ficou famoso pelas suas três adaptações para o cinema, mas com abordagens diferentes entre si e também em relação ao livro que as originou. A história do médico Louis que se muda de Chicago com a esposa e o casal fofo de filhos (e um gato. O gato é importante) para uma pequena cidade do Maine (cenário de grande parte das obras de King). Apesar do lugar idílico, a sua bela casa fica num terreno onde existe um cemitério indígena antigo e misterioso que trás de volta à vida entes queridos mortos ali enterrados. Um dos livros mais angustiantes do autor.
5- COLUNA DE FOGO, de Ken Follet. Fechamento da trilogia iniciada com Os Pilares da Terra e que continuou com Mundo Sem Fim. Os três livros são tijolos de quase mil paginas cada. Os dois primeiros foram adaptados para premiadas minisséries. Vários dos romances policiais de Follet já viraram filmes, como O Buraco da Agulha, Na Toca do Leão, a Chave de Rebeca, mas ele não se prende a narrativas policiais, como demonstra esta trilogia histórica que se inicia no reinado de Henrique II, o primeiro rei plantageneta inglês, continua no período de Eduardo III durante a Guerra dos 100 anos e termina na disputa entre as rainhas Mary Stuart e sua prima Elizabeth I.
6- A GAROTA MARCADA PARA MORRER, de David Lagercrantz - Esse é o sexto e último volume da série Millennium e o mais fraco de todos, o que é uma grande pena, pois sou fã da hacker Lisbeth Salander, já vista nas telonas em duas adaptações para o cinema. A série originalmente foi criada por Stieg Larsson que escreveu os três primeiros livros antes de morrer (seriam dez). O trabalho foi assumido depois por David Lagercrantz que concluiu a sequência. Aqui temos uma intrincada história fracamente desenvolvida que começa com um homem encontrado morto num parque de Estocolmo e que desperta o interesse do jornalista Mikael Blomkvist, personagem que divide com Lisbeth o protagonismo de todos os livros. Aqui Salander vai finalmente acertar suas diferenças com a sua perigosa irmã Camilla.
7- OS TRES IMPERADORES, de Miranda Carter. Uma biografia fascinante de mais de 600 páginas sobre três governantes das grandes potências europeias: Grã-Bretanha, Alemanha e Rússia, comandadas por três primos: Jorge V (rei-imperador da Inglaterra, do Império Britânico e da Índia); Guilherme II (o último kaiser alemão) e Nicolau II (o último tzar russo). Juntos, reinaram sobre os últimos anos da Europa dinástica, até a Primeira Guerra Mundial. A biógrafa recheou a obra com dezenas de fotografias da época e farta correspondência trocada entre os primos (netos da rainha Vitória). Para os três imperadores a guerra seria um desastre, acabando seu relacionamento familiar em traições, assassinatos e abdicações.
8- JOYLAND, de Stephen King. Livro diferente do que se costuma ler de Stephen King. História de um universitário que decide passar parte das férias em um trabalho temporário no parque de diversões Joyland para esquecer a namorada que partiu seu coração. Em Joyand, um parque no estilo dos anos 70, ele se envolve no mistério da vítima de um serial killer que foi morta ali há muitos anos, e cujo espírito assombra o trem fantasma. Um personagem que rouba a história é Mike, um menino com um dom especial e uma doença incurável. Um livro carregado com toques e nostalgia, drama e algum mistério. Em algumas partes chega mesmo a dar um nó na garganta. King mostra que não é craque apenas no terror puro.
9- A DIVINA COMÉDIA, de Dante Alighieri. Há anos, desejava ler a obra máxima de Dante, mas sempre pensei em qual o melhor momento. Até que uma pessoa próxima começou a se exibir dizendo que estava lendo a obra e tomei isso como um desafio pessoal. Decidi não só ler no formato original em versos traduzidos, mas descobri o incrível site do estudioso Helder da Rocha que fez uma adaptação em prosa com inúmeras notas explicativas muito úteis. Foi uma experiência muito particular e enriquecedora. A obra épica foi escrita no século XIV, não em latim, mas no italiano vulgar, o dialeto de Florença, o que popularizou enormemente o livro. Repleto de simbolismo, dividido em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso) e composto de 100 cantos e 14.233 versos, é considerado o maior poema escrito no Ocidente. Na história acompanhamos os poetas Dante e Virgílio no caminho do Inferno e do Purgatório até chegarmos ao Paraíso, onde Dante encontra sua musa Beatriz.
10- CLARICE, UMA BIOGRAFIA - de Benjamin Moser - A mais completa biografia da escritora Clarice Lispector, com quase 500 páginas e escrita com brilhantismo pelo norte-americano Benjamin Moser (que recentemente escreveu a biografia da genial Susan Sontag). Moser reconstitui a história de Clarice desde os tempo dos seus pais na Ucrânia, perseguidos por serem judeus e obrigados a fugir do país para não morrerem. É um privilégio acompanhar o brilhantismo de Clarice e sua vida difícil, sua personalidade complexa, o drama da esquizofrenia do filho, a sífilis da sua mãe, adquirida num estupro na Ucrânia, o incêndio que quase a matou, a sua dependência de remédios para dormir....A obra de Moser, que a considera a maior escritora judia depois de Kafka, foi responsável por divulgar enormemente o trabalho de Clarice no mundo inteiro. Ele coordena a publicação das suas antologias nos EUA.
11, 12 e 13 - O HEREGE, O ARQUEIRO e O ANDARILHO, de Bernard Corwnell. Li os três livros em sequência. Já havia lido do autor sua trilogia das Crônicas de Artur: O Rei do Inverno, O Inimigo de Deus e Excalibur, além das obras Stonehenge e Azincourt. Os três volumes que li agora são integrantes da trilogia: A Busca do Graal. Por ironia, resolvi ler outro livro antes: 1356. Mal sabia que estava lendo o quarto volume da trilogia (uma trilogia com quatro volumes?). Então, ao começar a história do arqueiro inglês Thomas de Hookton, já sabia o que havia acontecido com o Graal, objeto do quarto volume. Independente disso, a história é recheada de batalhas de tirar o fôlego e é tão boa quanto todas as obras do prolífico inglês Bernard Cornwell (tenho 25 livros dele para ler ainda, entre eles os 12 volumes da série das Guerras Napoleônicas e outros 11 das Guerras Saxônicas).
14- O VELHO E O MAR, de Ernest Hemingway – Foi o último livro publicado por Hemingway e o primeiro dele que li. É de uma novela de quase 130 páginas e que infelizmente já conhecia o final, não somente por já ter assistido ao filme adaptado a partir da obra (com a interpretação magnífica de Spencer Tracy), bem como porque no exemplar já se diz o que vai acontecer na história. Mesmo assim, não deixa de ser emocionante acompanha a luta do velho pescador cubano Santiago na sua tentativa desesperada de pescar o maior peixe da sua vida após uma maré de azar. O pequeno Manoin, menino que ajuda o velho pescador é o elemento de vida e emoção que faz um contraponto perfeito com a dureza e a secura do personagem principal. É uma obra que foi citada quando o autor ganhou o Nobel de Literatura em 1954.
16- KAFKA À BEIRA-MAR, de Haruki Murakami. Uma decepção. Já li cinco livros de Murakami e gosto de todos, mas fiquei impressionado com a chatice dessa obra. O autor arrasta uma história boba por mais de 500 páginas, em que o excessivo detalhismo e os fracos diálogos chegam a ser constrangedores. Murakami está todo ano cotadíssimo para o Nobel de Literatura com fãs pelo mundo inteiro, inclusive eu, mas aqui achei uma tortura ler o livro até o fim e mesmo o realismo fantástico que sempre me agrada nos livros de Garcia Márquez e Salman Rushdie, aqui soa forçado. Ainda não entendo como esse livro tem mais de 90% de aprovação. Suspeito fortemente que há pessoas que não têm coragem de dizer que não gostaram e querem passar a impressão de descolados. Esse cara não sou eu.
17- EM NOME DE DEUS, de Karen Armstrong. Após ler vários romances em sequência gosto de variar um pouco e ler uma biografia ou um livro de não ficção e há tempos este livro da ex-freira católica Karen Armstrong, considerada uma das principais autoridades em história das religiões estava na minha lista. Nesse livro ela analisa os movimentos fundamentalistas surgidos das três principais religiões monoteístas. Ela parte do ano de 1492, quando ocorreram episódios históricos decisivos para cristãos, muçulmanos e judeus. O livro se apoia em ampla documentação e bibliografia e a leitura flui facilmente. O tema da história das religiões me agrada muito.
18 - DEUSES AMERICANOS, de Neil Gaiman. É pura coincidência ler um livro sobre deuses logo em seguida de outro. Há tempos me devia a leitura de uma obra de Neil Gaiman, um autor que tem uma legião de adoradores, mas sempre suspeitei que não era minha praia. Dito e feito: o livro é muito chato e a narrativa não me agradou. Isso parecerá heresia para muita gente, mas não comprei a história nem os personagens me agradaram, principalmente os dois principais. Como há uma série de tv aclamada baseada no livro, aproveitei o embalo para assistir à série também, mas se não fosse pela beleza da produção visual e da ótima trilha sonora o audiovisual não fica muito à frente do livro. Chatíssimos ambos. Acho que não pretendo ler mais nada desse autor. Só ficou uma frase na memória: “Todas as horas ferem. A última mata”.












































