30.1.21

Miami, Uma Pocilga ao Sol

Logo no primeiro dia, senti que alguma coisa estava muito errada naquela viagem. No último dia, os envolvidos já queriam se matar. 

A primeira etapa consistiu no desembarquei com dois amigos no aeroporto de Miami. Haveria um espaço de 13 horas entre a chegada em Miami e a hora de deixar a cidade rumo a Washington, às 6 da tarde. 

A operadora no Brasil não conseguiu um voo mais cedo e ainda teríamos que pegar uma conexão de Washington para Nova Orleans às 9 da noite. Assim, pensei em conseguir no aeroporto de Miami um voo mais cedo para Washington e de lá outro mais cedo para Nova Orleans. Não queria ficar 13 horas em Miami. 

Às 5 da matina estávamos no balcão da United perguntando a um negão gente boa se haveria chance de conseguir esse voo para Washington mais cedo, mas meus amigos preferiam ficar essas 13 horas em Miami. O negão da companhia disse: "Não fiquem em Miami! Miami é horrível, não tem nada aqui que preste! Vocês vão ser assaltados! Miame Beach e South Beach são pocilgas. Eu boto vocês num voo em meia hora para Washington. Lá vocês pegam um shuttle que faz um passeio com guia que leva vocês à Casa Branca, ao cemitério de Arlington, ao Congresso, Capitólio, Museu Smithsoniano, aos monumentos a Washington, Lincoln e Jefferson etc. Depois leva vocês de volta ao aeroporto a tempo de pegarem o voo para Nova Orleans." 

Tentei argumentar com meus amigos para irmos. Se Miami tem praia, Salvador também tem e nós não estávamos viajando por causa de praia, estávamos? Quem trocaria Washington por Miami por causa da praia? Meus dois amigos recusaram. 

Descobrimos, sonolentos, o guarda-volumes do aeroporto, guardamos nossas malas, pegamos um ônibus e fomos para South Beach. Quase 1 hora depois, saltamos do ônibus, tomamos outro, saltamos no começo de South Beach às 7 da manhã. Andamos durante 3 horas pela beira da praia, pela areia da praia, pela rua e pela calçada e não encontramos nada! Quase deserta. Pouquíssimas pessoas na praia e na rua, as loja fechadas, os restaurantes fechados, poucos carros e nada de movimento. Só às 10h conseguimos tomar um caríssimo café da manhã. Mais 1 hora andando pela praia num sol escaldante até o fim de South Beach. 

O fim mesmo! Acabou a praia, acabou a cidade, acabou tudo, não tinha mais nada. Só víamos um descampado, um terrenão baldio enorme, deserto e uma espécie de camping abandonado. Paramos para descansar, nem tomar um banho num chuveirinho que tinha na praia a gente podia, porque deixamos os shorts nas malas no aeroporto. 

Estávamos exaustos e morrendo de calor e eu amaldiçoando os amigos a cada minuto. Imaginava que estávamos ali naquele sufoco quando podíamos estar no Museu Smithsonian em Washington no ar condicionado ou no cemitério de Arlington onde eu poderia tirar fotos para minha coleção de fotos em cemitérios famosos. 

Descansamos numa sombra improvável, atravessamos um descampado e um estacionamento abandonado, saindo numa rua deserta. Pegamos um táxi arredio, perdido naquele ermo. Foi nossa salvação. O motorista, um negão haitiano, nos explicou o que estava acontecendo: "Miami só acorda depois das 11 horas da manhã!" 

Então foi isso. O povo nessa cidade ferve até de madrugada e só acorda quase meio dia. O haitiano nos levou até Miami Beach para, digamos, "apreciar o movimento". Senti-me um jeca total quando meus amigos pediram ao motorista para parar em frente à casa de Versacce para eles tirarem uma foto ali. "Onde tombou Versacce", me disse um deles. Eu preferi não contrariar e esperar no ar condicionado do táxi enquanto eles se enquadravam nas fotos em frente à mansão em um estilo que não consegui identificar. 

Finalmente vida! Finalmente Miami Beach, o povo patinando e se mostrando pelos calçadões. Vamos apreciar o movimento. Mas não dá para ficar apreciando movimento até 6 da tarde quando teríamos que voltar ao aeroporto para pegar o bendito voo. Bem, já que estamos nessa zorra dessa cidade por causa dessa zorra dessa praia vamos aproveitar e tomar um banho de mar né? Quem disse que consegui consenso? Um dos amigos que insistiram tanto para ficar em Miami por causa do mar, não queria tomar banho por dois motivos: 1º motivo, ele já havia se banhado no Atlântico e seu sonho era tomar banho no Pacífico! 2º motivo, ele não tinha shorts. 

Eu não podia discutir o primeiro motivo sob pena de perder completamente o resto de minha sanidade mental, mas o segundo dava para resolver. Compraríamos shorts em uma loja, loja não faltava! Convenci um, não o que queria o Pacífico. Argumentei até os limites da minha paciência que havíamos andado mais de 3 horas na beira da praia, sentimos como aquela cidade é quente e o que ele iria fazer quando nos visse, alegremente, na água do mar? Ou ele achava que iríamos perder a oportunidade de tomar um banho, mesmo que fosse um banho no Atlântico? 

Ele retrucava alegando que não teríamos como tirar a água salgada do corpo antes de ir ao aeroporto. Apontei os chuveirinhos nas praias mas ele, irredutível, garantiu que não iria tomar banho nem comprar shorts. 

Eu disse: "Olha, seu sacana, se você chegar na beira da praia e resolver entrar na água, não vai poder voltar aqui e comprar shorts porque temos pouco tempo." Como eu previra, o sacana mal botou os pés na areia lotada de gente bonita resolveu que queria entrar no mar. 

Quase explodi! Disse que ele não iria voltar porque a loja era longe e ele agora iria ficar ali vendo a gente se divertir. A cara dele deu pena e acabei sugerindo que ele dividisse o short com o outro amigo. Meu amigo que comprou o short o tirou na água e ficou de cueca dentro do mar. Levei o short dele para o outro vestir e fiz barreirinha para ele tirar a calça jeans e vestir o short do outro que estava no mar. 

Depois desse processo resolvemos dar uma volta pela praia e quando notamos estávamos há quase uma hora andando e nosso amigo, uma das pessoas mais brancas que conheço,  fora esquecido na água do mar sob um sol escaldante. Ao voltarmos o confundimos com um pimentão cozido no forno, pois ele, inibido e de cueca, não quis sair da água e de qualquer modo não alugamos um guarda-sol. 

Havíamos chegado àquela praia perto das 2 da tarde e estipulamos ficar só até as 4 horas, pois ainda tínhamos que nos lavar no chuveirinho da praia, tirar as roupas molhadas, vestir  roupas secas e pegar um ônibus para o aeroporto. O capítulo do chuveirinho foi quase uma novela. Por pouco não fomos presos por atentado ao pudor, pois tínhamos que nos lavar, tirar os shorts, vestir as calças e camisas, calçar os tênis ali mesmo e secar no sol pois nem toalhas tínhamos. 

As roupas molhadas foram guardadas nas sacolas plásticas da loja. Pegamos um ônibus. 

Um ônibus errado!  Ele não nos levou ao aeroporto. Perguntei ao motorista então qual era o ônibus certo e ele, gentilmente, nos deixou saltar e indicou outro ponto onde pegaríamos o ônibus correto. Já eram mais de 4 da tarde e o motorista disse que devíamos pegar o ônibus com a letra J. Ou seria letra G? Ele falou numa mistura de inglês e espanhol. 

Afinal era o ônibus. G ou J? Quase pegamos o ônibus errado novamente, mas fomos demovidos por uma negona jamaicana ou panamenha, que estava no ponto e que, praticamente, me puxou pela mochila de cima do segundo degrau. Agora sabíamos que era letra G. 

Após esse vexame, esperamos quase uma hora. O ônibus certo passou mas nós estávamos com tanto sono que dormimos. Os três! A negona dominicana ou salvadorenha não estava mais ali para nos salvar. Esperamos mais uma eternidade até outro ônibus. Meus amigos queriam ir de táxi mas eu disse que sairia muito caro, afinal foi mais de uma hora até o aeroporto. Finalmente, o ônibus certo de novo. 

Assim que entrei perguntei à motorista, uma negona de perucão e dedos cheios de anéis: “Miss, esse ônibus demora meia hora até o aeroporto não é?" 

Ela respondeu, seca: "Não! Uma hora" .

Eram exatamente 5 da tarde e ainda tínhamos que pegar as malas no guarda volumes e fazer o check in. Foi então que lembrei que nos Estados Unidos o povo sai do trabalho as 5:00. Amaldiçoei-me por não ter aceitado a ideia do táxi. Amaldiçoei meus amigos por quererem ficar em Miami em vez de Washington. E estávamos com uma fome! Nossa única comida do dia foi o café da manhã às 10 horas e um sorvete ao meio dia. 

Sem almoço, com sono, salgados, suados, com areia em algumas partes, um pouco sujos, cansados e estressadíssimos. Aquele era apenas o primeiro dia das minhas férias. Rush! O primeiro rush verdadeiro da minha vida. Faltava meia hora para chegar ao aeroporto e ainda estávamos presos no engarrafamento a uma milha de distância. Parecia que perderíamos o voo. Era o último voo do dia para Washington. Outro só no dia seguinte. Não havia mais voos para Nova Orleans. Teríamos que dormir em Miami. Não conseguia pensar em horror maior. 

A negona motorista com unhas imensas pintadas de lilás parecia imune ao meu sofrimento. Meus amigos traziam a angústia estampada no rosto. O trânsito parecia morto. O ônibus não andava, os minutos não paravam de andar. Algum anjo deve ter feito algum milagre pois o engarrafamento, subitamente, desapareceu. A negona motorista de lentes de contato verdes acelerou. Talvez devido às duas moças americanas que também estavam no ônibus e iriam pegar, coincidentemente, o mesmo voo que a gente. 

Como toda tragédia que se preza, essa não acabou assim tão fácil. O que aconteceu ali não sucedeu comigo em qualquer outro lugar em minha vida e aconteceu exatamente em Miami: logo após o engarrafamento desaparecer, o ônibus quebrou! Poderia escrever os e-mails dos colegas que estavam comigo no ônibus para qualquer dúvida ser esclarecida, mas, infelizmente, os dois não dirigem mais a palavra a mim, nem a eles mesmos, diga-se de passagem. Também não tenho o endereço das duas americanas e nem o nome da motorista black power. Parece mentira. Em minha vida inteira nenhum ônibus que peguei nunca havia quebrado. Em lugar algum do mundo em que peguei ônibus o desgraçado quebrou (exceto o ônibus que rolou uma ribanceira comigo dentro em Goiás matando um passageiro e ferindo outros em 1987). 

Pois o desgraçado do ônibus quebrou em Miami com a gente dentro e faltando 20 minutos para o voo, meia milha distante do aeroporto e após o maldito engarrafamento. As meninas americanas e nós três cercamos a negona de colares de pérolas falsas que sacou um celular e ligou para a central. Ela nos disse: "I am doing my best!" Parecia chocada, pois acredito que ela nunca vira um ônibus quebrar em pleno trânsito. 

Só que o "best" dela não estava funcionando. Não ia dar tempo de esperar o ônibus reserva. A negona suada sentiu a nossa dor e disse: "Ok, I will try!" E o ônibus foi sendo levado por ela aos solavancos. A gente tinha já perdido toda esperança. O aeroporto apareceu à nossa frente mas ainda estava longe. A negona, irritada, chegou a dirigir quase 300 metros aos trancos quando o ônibus quebrou de vez. 

Então ela rugiu algo como: “Corram seus bastardos!”  E a gente nem pestanejou. Saltamos do ônibus no meio do trânsito. Corremos feito loucos, nós três e as duas meninas. Só que elas não precisavam pegar as malas no guarda volumes e nós sim. 

Mas onde ficava o maldito guarda volumes? O aeroporto era imenso e havia 3 guarda-volumes. Não tínhamos tempo, nos dividimos e quando um achou o guarda-volumes certo gritou para os outros dois. Faltavam 3 minutos e a moça do guarda-volumes parecia ter tomado valium. Foi o tempo de pegar as malas e subir o elevador. Por sorte, o balcão da United estava exatamente à nossa frente, mas ainda tínhamos que fazer o check in. 

Estávamos cansados, famintos, suados, salgados, sujos e fedendo. As roupas grudadas no corpo, suor frio de medo misturado com o suor do calor terrível de Miami. Daria qualquer coisa por uma coca cola gelada com um Big Mac. Fomos os últimos a entrar no avião. Ao me sentar tive uma crise de riso histérico. Meus amigos se assustaram mas quanto mais eles se envergonhavam, mais eu gargalhava para desabafar e irritá-los ainda mais. Eu sentia o estômago doendo de fome e também pelo riso histérico. 

Foi então que uma aeromoça aproximou-se de mim preocupada e perguntou o que é que eu estava sentindo, eu respondi: Fome! Ela me trouxe um maldito pacote de amendoins e um copo de coca cola. O voo não servia jantar. 

PERDIDOS NO QUEENS


Logo que cheguei com dois amigos em Nova Yorque, um casal americano foi nos pegar no aeroporto La Guardia, que fica no Queens, um bairro maior do que a ilha de Manhattan e nos levou para dormir a primeira noite na sua linda casa em Staten Island, em frente à Baía de Nova Yorque. Mas essa moleza foi só no primeiro dia, no dia seguinte seguimos para nosso hotel. 
  
Aproveitamos bastante os cinco incríveis dias na cidade que nunca dorme apesar de o meu amigo que visitava NY pela primeira vez, mesmo com todos os meus alertas, ter desrespeitado o primeiro e máximo mandamento dos viajantes: NÃO PERDERÁS TEMPO EM NOVA YORQUE! 

Tempo foi tudo que ele perdeu. Paciência foi tudo que perdi. Ele demonstrou seus métodos de organização que fariam um virginiano radical com TOC parecer um inocente amador. Tinha 87 maneiras diferentes de pentear os cabelos e rituais de escovação dos dentes que fariam inveja a um sadomasoquista profissional e me aborrecia com a dedicação suprema ao consumismo. 

Após cinco dias de museus, parques,  noitadas, bares, musicais...deixaríamos NY e na noite anterior à nossa partida, meu amigo nos comunicou que iria acordar mais cedo no dia seguinte para conhecer o Central Park. Respondemos: "Meu filho, nosso carro está reservado para as 10 da manhã, você ficou 5 dias em NY e não conheceu o Central Park?" 

Detalhe: O Central Park, que ficava a dois quarteirões do nosso hotel, tem 340 hectares, mais de 500 mil árvores, 93 quilômetros de trilhas, o comprimento de 20 quarteirões e a largura de 6. Ele queria conhecer em 2 horas das 8 às 10 da manhã. 

E foi. 

Havíamos decidido alugar um carro e seguir por cinco horas até Boston para ter a experiência de dirigir na região da Nova Inglaterra que é muito bonita e com ótimas estradas. Se saíssemos de Nova Iorque as 10 da manhã, como previsto, com as paradas, chegaríamos em Boston lá para as 5 ou 6 da tarde. 

Isso aconteceria com pessoas normais, não conosco. 

Já eram 10 da manhã e meu amigo não voltava. Descemos para a rua todas as malas e ficamos em pé na porta do hotel esperando em vão seu retorno. Liguei para a locadora para mudar a reserva do carro para o meio-dia. Quando deu meio dia e ele também não apareceu, liguei novamente para a locadora para trocar para 1 da tarde.  A atendente alertou que mudava pela última vez e que se eu não buscasse o carro até 1 da tarde, cancelaria a reserva e eu pagaria mais caro. 

Ficamos mais 40 minutos na calçada em frente do hotel sem saber o que tinha acontecido com o sacana.  E se ele estivesse morto? E se tivesse sido assaltado, estuprado, preso? 

Finalmente, já no desespero, o fdp surge num táxi com 3 horas de atraso. Calmamente, ainda foi buscar uma roupa na lavanderia em frente ao hotel e ainda queria abrir a mala, ali mesmo na rua, para guardar as roupas lavadas. Eu o impedi aos berros. Se ele abrisse aquela mala ali levaria mais 3 horas para organizar tudo.  Pegamos um outro táxi, que nos levou a locadora. Aí começa o segundo problema. 

O carro era um Taurus automático e nenhum de nós sabia dirigir um carro daqueles naquela época. Pedimos um outro carro manual mas eles não tinham nenhum. Não podíamos dizer que não sabíamos dirigir esse tipo de carro porque senão a loja não alugaria. O que fazer? Ler o manual, claro. 

Guardamos as malas e entramos no Taurus, que parecia uma lancha de tão grande. Peguei o manual para ler. Em inglês. Eu tenho problemas para ler manual até em Português, o que dirá sob pressão na porta de uma locadora na rua 44 com a 2ª avenida ao lado da ONU. 

Para piorar as coisas, eis que aparece um policial atrás de mim e diz que aquela é uma área de segurança das Nações Unidas e não poderíamos ficar parados ali. Ao lado dele, o atendente da locadora apareceu sem saber o que ainda estávamos fazendo ali. 

Não sei até hoje como consegui ligar o Taurus e passar a única marcha que tem e que para complicar nossa vida era uma daquelas de mão ao lado do volante. Eu li que tinha que botar no D, mas como fazer isso se a alavanca estava dura e não encaixava?  Então descobri que a marcha só encaixava eu pisasse no freio até o fim. 

Os próximos passos eram: entrar na 2ª avenida, pegar a rua 48, passar pela 1ª avenida em frente ao prédio da ONU, tomar a highway FDR e seguir até a Ponte Triborough para a rodovia 95 que me levaria até Boston. Esse trajeto revelou-se um tormento. A embreagem que não existia parecia me atrair como aqueles membros amputados que coçam e o freio era hipersensível. O primeiro toque do pé nele atirou tudo que estava nos bancos no chão. Ok, freio, eu te respeito! 

A 2ª avenida parecia ser uma experiência instransponível, mas conseguimos superá-la. Vencida essa etapa, despistado o guarda, atravessada a ONU, estávamos, sabe-se lá como, na FDR. 

Nosso guia de NY dizia que era só seguir o East River até a Ponte Triborough sem virar em lugar nenhum. A ponte foi vista à distância o que me acalmou, pois eu só imaginava o inimaginável: perder-me em Manhattan. Subi pelo acesso à ponte e, ao longe, vi 10 pedágios. Nove pedágios nos levariam até a rodovia 95 para Boston. Um dos pedágios não era o certo. Qual deles eu peguei? Eu bem sei do que eu sou capaz. Peguei o único pedágio que eu não poderia em hipótese alguma pegar.    

Estar perdido ali era um atestado de óbito para um estrangeiro. O filme Fogueira das Vaidades começa com um acidente ali naquele lugar, naquela ponte. O personagem de Tom Hanks se perde ali mesmo. Adoro a história mas nunca pensei em reproduzir aquela cena na minha vida. 

Percebi que estava no pedágio errado, mas aí já era muito tarde, pois apareceram vários carros atrás do meu e não pude retornar. 

Perguntei ao guarda do pedágio, num inglês corretíssimo e com toda calma: "Mister, sei que estou no pedágio errado e não posso dar ré, mas há um retorno para a rodovia 95? "

Ele respondeu: Yeah! 

Claro que perguntei: O senhor pode me dizer como eu pego esse retorno? 

Ele respondeu: No! 

Não pude acreditar. O homem não queria dizer onde era o retorno! Eu pensei que tinha entendido errado e insisti: Sorry Mister, but I am lost. I just want to know how can I take the detour to 95 road

Meu inglês foi perfeitamente entendido por ele e o dele por mim. Ele respondeu que não me diria onde era o retorno porque se ele dissesse e se eu me acidentasse, o culparia e ele não poderia se comprometer. 

A palavra bastard veio aos meus lábios, mas ficou por lá mesmo. 

A fila de carros aumentou atrás de mim e eu tive que arrancar com o Taurus para aquele terreno inóspito que era o Queens e o Bronx. 

A highway é um dos piores ambientes para se perder. Prefira o Saara! Não tem acostamento nem nada. Só a pista, horas de pista, mil retornos e a gente sem saber qual pegar. Na locadora, nos deram o mapa de Manhattan e da estrada para a Nova Inglaterra, mas não do Queens ou do Bronx. Não estava nos nossos planos nos perder ali. 

Sem mapa, sem acostamento, sem celular, sem informação e a cada retorno que passava ter que ouvir  dos meus amigos: “Será que o retorno não foi aquele que passou?” Eu estava tentando manter a calma e então gritava: "Ninguém fale comigo!!!Ninguém fale comigo!!!!" 

Reconheço esse momento de descontrole, mas ao mesmo tempo pensava que não fazia sentido algum uma batida, uma prisão, uma multa ou algo mais trágico na minha vida em pleno subúrbio de Nova Yorque. Minha vida não valia um filme trágico desses. 

Depois de quase 1 hora naquele ermo, sem sinal de esperança, vi finalmente uma placa que soou como uma gota de água para um sedento ou um acarajé para um faminto: AEROPORTO LA GUARDIA!!! 

Essa frase será usada na minha sepultura um dia como sinal de agradecimento aos deuses. Aeroporto La Guardia, um dia farei um poema com esse título. Estávamos de volta ao aeroporto, onde chegamos 5 dias antes. Imaginei que no aeroporto deveria haver um retorno, uma estrada para Boston. 

Entrei pela pista que levava ao aeroporto e passei quase meia hora tentando encontrar um americano no meio daquele inferno, mas só encontramos haitianos, paquistaneses, chineses ou filipinos. Ninguém para nos informar como encontrar o retorno para a 95. Não podíamos estacionar para pedir informações. 

Decidi por conta própria arriscar. Fui adiante e peguei outra highway. Ninguém garantia que era a estrada certa e eu arrisquei assim mesmo. Meus amigos deviam estar rezando, pois pararam de falar comigo. Após quase 1 hora, a Triborogh Bridge foi vista à distância. Pegamos outro pedágio. 

Quase sem acreditar disse ao moço algo assim: "Moço por favor, tenha pena desse pobre brasileiro perdido. Como eu faço para chegar na 95 até Boston?" 

Ele disse: Siga sempre. Você já está nela!. 

Quase não acreditei. Quase 2 horas perdido e finalmente free and safe. Essa sorte não teve o personagem de Tom Hanks em A Fogueira das Vaidades. 

Nossa. Saí melhor do que Tom Hanks!

14.1.21

ONDE OS VELHOS NÃO TÊM VEZ

    Tenho o hábito de ler sempre os autores de que gosto, que escrevem livros que combinam com meu gosto literário. A vantagem disso é se aprofundar no estilo daquele escritor e a certeza de uma boa experiência. Porém, isso me priva, às vezes, de descobrir grandes autores a quem ainda não tinha dado uma chance. E é sempre uma espécie de epifania cruzar com um escritor assim. Foi o que acabou de acontecer.

        Ainda estou sob o impacto da leitura de Onde os Velhos Não Têm Vez (No Country for Old Men), do norte americano Cormac McCarthy. No Brasil, o filme adaptado do livro recebeu o título: Onde os Fracos Não Têm Vez. Um balaço no juízo do leitor.

     Fico me perguntando por que ainda não tinha lido Cormac McCarthy, unanimemente reconhecido como um dos maiores escritores da atualidade e laureado com o prêmio Pulitzer pelo romance pós-apocalíptico A Estrada, também já adaptado para o cinema com Viggo Mortensen e Charlize Theron. Vai ser minha próxima leitura, pois McCarthy acabou de me viciar.

        Uma das características do autor é a maneira única de escrever, com um texto direto, fluido que lembra José Saramago quando não usa sinais para indicar os diálogos que costumam ter início no meio de uma frase. No começo a leitura pode parecer estranha, mas logo me acostumei a esse estilo peculiar e ao invés de ser um texto difícil na verdade é o contrário. É muito simples, com frases curtas em orações coordenadas, quase como a transcrição literal de pensamentos e falas dos personagens. Uma coisa viciante que não dá para parar. Seria como querer parar um pensamento.  

      Quase não se sabem as características físicas dos seus personagens, o que permite formar uma imagem mental por parte de cada leitor. Outras particularidades são a extrema violência das ações e a virilidade da narrativa e também dos personagens, como se a testosterona derramasse pelas páginas.

        Impossível não associar ao filme dos irmãos Coen, de 2008, indicado para 8 Oscar e que levou 4 estatuetas (inclusive filme, roteiro e direção, todos para as mãos dos Coen), além de ator coadjuvante para o assustador vilão interpretado por Javier Bardem.

A história segue três personagens: o xerife Bell (Tommy Lee Jones no cinema); o desafortunado Moss (Josh Brolin, na tela); e o já citado Javier Bardem, que encarna Chigurh, um dos antagonistas mais enigmáticos que já vi nas telas ou na literatura e que traz a marca da maldade gratuita de um psicopata com um ego gigantesco. Ele carrega um cilindro de oxigênio e costuma matar suas vítimas não com um revólver, mas com um único e mortal jato de ar comprimido na cabeça.

Acompanhamos, num fôlego só, a busca do xerife Bell e do vilão Chigurh pelo soldador Moss, que encontrou (por azar) uma sacola com milhões de dólares em pleno deserto ao lado de carros varados de balas e traficantes mortos em uma disputa de dois cartéis de drogas. O roubo do dinheiro leva Moss a uma fuga desesperada e um rastro de mortes que se seguem.

As reflexões internas do xerife Bell são um contraponto às ações frenéticas, interrompidas por elipses inesperadas e diálogos afiados. Transcrevo um trecho, mas poderia selecionar inúmeros outros: “Fechou os olhos sim. Fechou os olhos e virou a cabeça e ergueu uma das mãos para desviar o que não podia ser desviado. Chigurh atirou em seu rosto. Tudo o que Wells já tinha sabido ou pensado ou amado escorreu devagar pela parede atrás dele. O rosto de sua mãe, sua primeira comunhão, mulheres que tinha conhecido. Os rostos dos homens enquanto morriam de joelhos aos seus pés. O corpo de uma criança morta num barranco junto à estrada em outro país. Ficou caído parcialmente sem cabeça na cama com os braços abertos, a maior parte da mão direita faltando”.

Recomendo muito a leitura com sua sonoridade rara e fácil de acostumar. Em pouco tempo, a gente percebe que aspas, travessões e vírgulas não fazem mesmo a menor falta e a agilidade da narrativa e os diálogos irão hipnotizar o leitor que não sairá o mesmo após a última página.

31.12.20

LEITURAS DE OUTUBRO A DEZEMBRO

Li 61 livros em 2020. Não bati meu recorde de 2019 (68 livros). Em 2018 foram 40.

Em 2020 foram 22 lidos de Janeiro até Maio; 18 de Junho a Setembro; e 21 lidos de Outubro a Dezembro.  Publiquei em dois posts os títulos até Setembro. Aqui vão agora os últimos do ano.

1 - SAPIENS – Segundo livro que li do badalado escritor israelense Yuval Harari após “21 Lições para o Século 21”. Este é um seus best selles com quase 500 mil exemplares vendidos, o que tornou Harari um fenômeno. Aqui um debate sobre o que fez nossa espécie subjugar as demais, capaz de criar obras de arte e avanços científicos enquanto gerou terríveis guerras. Ele explica porque o capitalismo é a mais bem-sucedida religião, o imperialismo é o sistema político mais lucrativo e porque não somos mais felizes hoje do que antigamente.

 

2 - HOMO DEUS – Instigado pelo livro anterior, li o livro seguinte de Yuval Harari em que ele combina ciência, história e filosofia para entender nosso destino e os próximos passos da evolução humana além de entender quais caminhos tomamos para chegar onde estamos. “No século 18, Maria Antonieta aconselhou os pobres a comerem brioche. Hoje eles seguem seu conselho e se os ricos de Beverly Hills comem salada com tofu, nos cortiços e guetos se empanturram de bolinhos recheados, salgadinhos artificiais, hambúrgueres e pizzas. ”

 

3 - O HOMEM DO CASTELO ALTO – Este premiado livro de Philip K. Dick gerou uma série de tv já com quatro temporadas. Vários livros do autor já foram adaptados para o cinema como Blade Runner, O Vingador do Futuro e Minority Report. Nesta distopia, estamos em 1962, os EUA perderam a 2ª Guerra Mundial e os nazistas e japoneses dividem os Estados Unidos. Há diferenças entre livro e série. Apesar de muito elogiado, nem livro nem série me agradaram muito. 

 

4 - WILD CARDS 8 - LUTA DE VALETES – Na sequência de Wild Cards, incrível série de realidade alternativa. Editada  por  George R. R. Martin, acompanhamos o caos se instalar em Manhattan, quando aparecem os Saltadores, gangue com integrantes que transferem suas mentes a outros corpos. A série tem mais de 120 personagens e aqui conhecemos melhor alguns deles, o que não pode ser aprofundada nos livros anteriores como Estranheza, uma espécie de coringa monstro fortíssimo formado pela fusão de dois homens e uma mulher que estavam em uma relação sexual a três quando o vírus carta selvagem os contaminou.

 

5 - WILD CARDS 9 - GUERRA AOS CURINGAS – Até agora este foi o último volume da saga lançado no Brasil (a série tem mais de 20 volumes). Acompanhamos os conflitos criados pela gang do violento Blaise e seus saltadores, e Bomba, um coringa disforme que se alimenta de matéria orgânica em decomposição (com tubos de esgoto ligados ao seu corpo gigantesco para alimentá-lo continuamente). Bomba governa Ellis Island em Nova York e luta pelos direitos dos curingas. Vários personagens queridos da saga morrem neste volume e outros tantos têm destinos surpreendentes.

 

6 - IMPERIUM - Primeiro volume da Trilogia de Cícero, romance histórico do autor inglês Robert Harris (mais famoso pelos livros Pompeia e O Fantasma)
, é focado na figura do futuro senador e cônsul romano Marco Túlio Cícero. Narrado pelo seu escravo e biógrafo Tiro, introduz o talento extraordinário de advogado e orador Cícero. Com incrível verossimilhança, o livro nos conduz ao violento e traiçoeiro mundo da política romana. No primeiro volume vamos acompanhar os primeiros passos de Cícero ao defende uma vítima do corrupto e poderosos Verres, governador da Sicília.

 

7 - LUSTRUM - Segundo romance da Trilogia de Cícero, foca no período em que a República de Roma está expandindo sua influência pelo mundo. Vários homens lutam pelo poder, entre eles Cícero, o poderoso cônsul; César, seu jovem e cruel rival; Pompeu, o principal general; Catão, um político fanático; e o psicopata Catilina. Cícero precisa usar toda a sua astúcia para evitar que Roma mergulhe em uma ditadura. Aqui temos César eleito cônsul e sua polêmica proposta populista de reforma agrária nas terras públicas para legionários e pobres de Roma e a instalação do triunvirato César, Pompeu e Crasso.

 

8 - DICTATOR – Terceiro volume da trilogia mostra Cícero, com 48 anos, o maior orador de sua época, exilado e sem poder político. A única maneira de retornar a Roma é apoiando seu inimigo Júlio César se aproveitando da sua astúcia e habilidade retórica. Mas a união dos seus inimigos levará o notável senador à ruína. Cícero entrou para a História como um orador brilhante e um adversário temido pelos poderosos. Fez alianças e tramou contra homens inescrupulosos, o que o tornou um tipo de herói atemporal.

 

9 - MEMÓRIAS DO SUBSOLO
Otto Maria Carpeaux disse que Dostoiévski é o mais poderoso escritor do século XIX; ou do século XX, pois sua obra é o marco entre dois séculos de literatura. Aqui temos uma obra-prima, uma pequena e sombria novela que traz temas da fase madura de Dostoiévski. Seu protagonista, um funcionário que vive no subsolo de um edifício em São Petersburgo, expõe a sua visão de mundo num discurso explosivo. Já tem início com a frase: “Sou um homem doente…Um homem mau. Um homem desagradável”. 

 

10 - COM SANGUE – Dos quase 80 livros de Stephen King, 12 volumes são de contos e este é o mais recente lançado. O mestre do suspense aborda temas como amor, amizade, talento e justiça e suas deturpações em quatro contos com protagonistas, como sempre, complexos, com suas vidas comuns transformadas por elementos inexplicáveis. Num dos contos temos de volta a estranha detetive Holly Gibney, personagem intrigante do livro Outsider e da trilogia Mr. Mercedes.

 

11 - A DANÇA DA MORTE- Foram quase 1.250 páginas para vencer esse calhamaço de Stephen King sobre um vírus que mata 99% da população, destruindo instituições e gerando o caos. Os sobreviventes se dividem nos clássicos lados do bem e do mal. De um lado a frágil Mãe Abigail, de 108 anos. Do outro, o mal incorporado pelo terrível Randall Flagg, personagem também da saga A Torre Negra, de King, considerado um dos maiores vilões do autor. Há uma série na Amazon Prime com Whoopi Goldberg num dos papéis principais. Li com muita voracidade, mas achei excessivamente arrastado e com um final ao mesmo tempo preguiçoso e caudaloso, apesar da aparente contradição entre esses dois termos.

 

12-PRIMEIRO AMOR - Obra magistral de Ivan Turguêniev, autor do clássico Pais e Filhos que ainda não li e foi considerado o primeiro divulgador da literatura russa no Ocidente. A história é contada a um grupo de amigos por Vladímir Petróvitch sobre sua paixão de infância por uma exuberante Zinaida, filha de sua vizinha que usa a atração que exerce em vários homens para manipular as armas de sedução. O autor era publicamente admirado por escritores como Henry James e Gustave Flaubert.

 

13 - LADY MACBETH DO DISTRITO DE MTZENSK – O primeiro livro que li do russo Nikolai Leskov e considerada sua obra-prima. O autor era contemporâneo de Dostoiévski e Tolstói, tido como grande retratista dos costumes e da alma de seu povo. Nesta impressionante narrativa, acompanhamos a transformação de Catierina Lvovna, jovem e entediada esposa de um velho comerciante, em uma cruel assassina. Inspirada na história de uma das maiores vilãs da literatura, da peça Macbeth de Shakespeare.

 

14 - PÁSSARO DA TEMPESTADE - Primeiro volume da série sobre a Guerra das Rosas, do britânico Conn Iggulden. Acompanhamos o rei Henrique VI alçado ao trono da Inglaterra com o reino abalado pela saúde frágil e que decide se casar com uma nobre francesa para selar o armistício com a França pondo fim à Guerra dos Cem Anos. O acordo gera forte oposição de Ricardo Plantageneta, duque de York, que planeja destronar o rei e ocupar seu lugar. É o início de um período sangrento na Inglaterra, uma guerra civil com alianças e traições com vívidas descrições de batalhas que parecem ficção de tão ferozes e intrincadas, mas que foram reais.

 

15 - TRINDADE – O volume 2 da saga de quatro livros sobre a Guerra das Rosas volta a mostrar batalhas sangrentas e mostra que o duque de York assumiu o poder como protetor do reino após prender o rei Henrique VI. Com os condes de Salisbury e de Warwick, ele forma uma trindade com poder inigualável. A figura mais notável é a rainha Margarida de Anjou, que conduz batalhas sangrentas pelo poder e retorno do rei fazendo alianças quase impossíveis.

 

16-HERANÇA DE SANGUE- Terceiro volume da série Guerra das Rosas retrata a vitória do exército da rainha Margarida de Anjou e do rei Henrique VI contra os Yorks, mas com a morte do duque de York, seu filho invade Londres e se coroa rei como Eduardo IV, o primeiro da dinastia York. Há uma reviravolta que parece um romance de ficção se não fosse de fato História, quando a ambiciosa esposa do rei o joga contra os antigos nobres aliados Neville. O que se segue é a prisão de Eduardo e a Inglaterra se vê com dois reis no cativeiro. Há um quarto volume da série: A ascensão dos Tudors, mas ainda não li.

 

17-UMA CIDADEZINHA DISTANTE – Um livrinho da talentosa e premiada poeta americana Elizabeth Bishop, que viveu 15 anos no Brasil e traduziu o célebre volume de memórias de Helena Morley, Vida de Menina, também já adaptado para o cinema. Aqui Bishop narra sua viagem a Diamantina, Minas Gerais para conhecer de perto o cenário do livro que traduziu e tornou um sucesso internacional, revelando o olhar original de uma estrangeira que observou como ninguém o Brasil, nossos costumes e tradições.

 

18- MR MERCEDES – No primeiro volume da trilogia Bill Hodges, o mestre do terror Stephen King conta a história de um psicopata que atropela e mata diversas pessoas com um Mercedes roubado. Meses depois, o detetive agora aposentado Bill Hodges, atormentado pelo fracasso na resolução do caso, recebe uma carta de alguém que assume ser o Assassino do Mercedes. Hodges passa a investigar o crime novamente e acompanhamos uma caçada ao assassino. A série foi adaptada para a Amazon Prime com três temporadas.

19- ACHADOS E PERDIDOS
- Segundo volume da trilogia anterior. O trio Jerome, Holly e Bill Hodges enfrentam o assassino Morris Bellamy que matou o recluso escritor consagrado John Rothstein. Após roubar seus cadernos com produções inéditas do escritor, esconde-os antes de ser preso por outro crime. Décadas depois, um garoto de 13 anos encontra o tesouro enterrado. Morris sai da prisão, depois de 35 anos e busca vingança. Devorei o livro de 350 páginas em três dias para poder assistir às duas últimas temporadas da série e ler o volume três: Último Turno.

20 - O RETRATO
Nikolai Gogol é um dos autores mais admirados da literatura russa, combinando fantasia, realidade e toques de humor. Esta curta novela conta a história de um estranho quadro que desperta a perversidade e os piores sentimentos em todos os que entram em contato com ele . O pintor Tchartkov compra o estranho quadro com a imagem de um velho, pintado com grande talento. Com o tempo, o pintor passa a ter estranhas sensações e sonhos de horror. Na segunda parte, conhecemos a história do quadro misterioso, o homem pintado e quem o pintou. Este é o quarto livro que li de Gogol depois de Almas Mortas, O Capote e O Diário de um Louco.

21- A ÁRVORE DE NATAL DE CRISTO - 
Escrita muito breve do autor russo Fiódor Dostoievski, considerado um dos mestres da literatura mundial e um dos escritores mais instigantes da literatura. A história é simples, mas profunda, sobre um menino e sua mãe, mortos de fome, frio e mergulhados em imensas necessidades em pleno Natal na Rússia. Conhecido por seu niilismo e personagens imersos em culpa e angústia psicológica, o autor tem forte mensagem embutida no enfrentamento da miséria por uma criança pobre.

13.11.20

A BELEZA

 

A BELEZA

O corpo, vivo, respira

E rola sobre a grama morna.

Verde, grama e corpo, um só.

O sol conspira, o corpo cobre de luz,

E o corpo transpira...

Olhos, sobre o verde, buscam, vagabundos,

Buscam ao redor, 

Boiando em um mar de verde cobre,

Narinas e boca aspiram o aroma de papoulas onipresentes

Arrebentando em cor, 

Em luz e em cor.

Então a Beleza passa de colete e botas de couro preto,

A Beleza passa...

Olhos seguem quase cegos a Beleza

Que, bela, não se disfarça.

A boca se enche de saliva doce,

A boca, ou narinas, suspiram,

A Beleza para, senta-se na grama. Poucos metros.

Eis uma grama feliz!

Colete e botas de couro preto.

A Beleza tem dentes perfeitos, cílios longos, pele de bronze intocado

Nada mais adequado, vez que Beleza é,

Mas nem precisava ter esse peito tão belo.

A Beleza, esqueci de dizer, tirou o colete! 


26.9.20

Leituras de Junho a Setembro

 


Aqui estão as minhas últimas leituras nos meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro. 

Foram 18 livros, 8 deles foram lidos em formato digital e 10 em formato físico. Somente 4 livros foram de não-ficção, sendo dois deles biografias.

Eis a lista:

1 - QUATRO ESTAÇÕES, de Stephen King - Dos quase 80 livros escritos pelo mestre do terror, cerca de 10 são de contos. Quatro Estações é um dos seus melhores livros de contos. Três deles foram adaptados com sucesso para o cinema: os filmes Um Sonho de Liberdade (com Tim Robbins e Morgan Freeman) baseado em "A Primavera Eterna – Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank"; Conta Comigo (com River Phoenix e Kiefer Sutherland), baseado em "Outono da Inocência – O Corpo"; e O Aprendiz (com Ian McKellen), baseado em "Verão da Corrupção – Aluno Inteligente", além do excelente O Método Respiratório, que apesar de não ter virado filme é tão bom que merecia ter crescido para um romance tal seu fôlego.  

2- WILD CARDS 7-A MÃO DO HOMEM MORTO, série editada por George R R Martin (de Game of Thrones) e que dá sequencia às ótimas histórias dos volumes anteriores onde um vírus alienígena atingiu a Terra dando superpoderes a alguns indivíduos (os Ases) e provocando bizarras deficiências em outros (os Curingas). Esse volume transcorre em parte paralelamente ao livro anterior que se passa em Atlanta durante a campanha presidencial. Aqui, uma das curingas mais interessante da série, Chrysalis foi morta (tinha sido morta no livro anterior e aqui há a sequência da história) e um detetive e um policial caçam o assassino. A identidade do criminoso é uma baita surpresa.

 

3- CINCO ESCRITOS MORAIS, de Umberto Eco. Após ter lido quatro romances do autor (O Nome da Rosa, Baudolino, O Cemitério de Praga e A Ilha do Dia Anterior), estava na hora de ler uma das suas obras de não-ficção. Aqui ele reúne cinco ensaios em que discute questões atuais. Em “Pensar a Guerra”, põe em perspectiva as diferenças entre guerras atuais e passadas. Em “O Fascismo Eterno”, chama a atenção para as novas roupagens com que o fascista se apresenta. Em “Sobre a Imprensa” ele mostra como a informação escrita está a reboque da televisão. Em “Quando Entra em Cena o Outro”, discute como a crença na vida eterna condiciona os comportamentos. E no quinto ensaio, “Migrações, Tolerância e Intolerável” trata do racismo e da xenofobia.


4- O CEMITÉRIO, de Stephen King. Também publicado no Brasil com o título O Cemitério Maldito, ficou famoso pelas suas três adaptações para o cinema, mas com abordagens diferentes entre si e também em relação ao livro que as originou. A história do médico Louis que se muda de Chicago com a esposa e o casal fofo de filhos (e um gato. O gato é importante) para uma pequena cidade do Maine (cenário de grande parte das obras de King). Apesar do lugar idílico, a sua bela casa fica num terreno onde existe um cemitério indígena antigo e misterioso que trás de volta à vida entes queridos mortos ali enterrados. Um dos livros mais angustiantes do autor.

5- COLUNA DE FOGO, de Ken Follet. Fechamento da trilogia iniciada com Os Pilares da Terra e que continuou com Mundo Sem Fim. Os três livros são tijolos de quase mil paginas cada. Os dois primeiros foram adaptados para premiadas minisséries. Vários dos romances policiais de Follet já viraram filmes, como O Buraco da Agulha, Na Toca do Leão, a Chave de Rebeca, mas ele não se prende a narrativas policiais, como demonstra esta trilogia histórica que se inicia no reinado de Henrique II, o primeiro rei plantageneta inglês, continua no período de Eduardo III durante a Guerra dos 100 anos e termina na disputa entre as rainhas Mary Stuart e sua prima Elizabeth I.

6- A GAROTA MARCADA PARA MORRER, de David Lagercrantz - Esse é o sexto e último volume da série Millennium e o mais fraco de todos, o que é uma grande pena, pois sou fã da hacker Lisbeth Salander, já vista nas telonas em duas adaptações para o cinema. A série originalmente foi criada por Stieg Larsson que escreveu os três primeiros livros antes de morrer (seriam dez). O trabalho foi assumido depois por David Lagercrantz que concluiu a sequência. Aqui temos uma intrincada história fracamente desenvolvida que começa com um homem encontrado morto num parque de Estocolmo e que desperta o interesse do jornalista Mikael Blomkvist, personagem que divide com Lisbeth o protagonismo de todos os livros. Aqui Salander vai finalmente acertar suas diferenças com a sua perigosa irmã Camilla.

7- OS TRES IMPERADORES, de Miranda Carter. Uma biografia fascinante de mais de 600 páginas sobre três governantes das grandes potências europeias: Grã-Bretanha, Alemanha e Rússia, comandadas por três primos: Jorge V (rei-imperador da Inglaterra, do Império Britânico e da Índia); Guilherme II (o último kaiser alemão) e Nicolau II (o último tzar russo). Juntos, reinaram sobre os últimos anos da Europa dinástica, até a Primeira Guerra Mundial. A biógrafa recheou a obra com dezenas de fotografias da época e farta correspondência trocada entre os primos (netos da rainha Vitória). Para os três imperadores a guerra seria um desastre, acabando seu relacionamento familiar em traições, assassinatos e abdicações.

 

8- JOYLAND, de Stephen King. Livro diferente do que se costuma ler de Stephen King. História de um universitário que decide passar parte das férias em um trabalho temporário no parque de diversões Joyland para esquecer a namorada que partiu seu coração. Em Joyand, um parque no estilo dos anos 70, ele se envolve no mistério da vítima de um serial killer que foi morta ali há muitos anos, e cujo espírito assombra o trem fantasma. Um personagem que rouba a história é Mike, um menino com um dom especial e uma doença incurável. Um livro carregado com toques e nostalgia, drama e algum mistério. Em algumas partes chega mesmo a dar um nó na garganta. King mostra que não é craque apenas no terror puro.

9- A DIVINA COMÉDIA, de Dante Alighieri. Há anos, desejava ler a obra máxima de Dante, mas sempre pensei em qual o melhor momento. Até que uma pessoa próxima começou a se exibir dizendo que estava lendo a obra e tomei isso como um desafio pessoal. Decidi não só ler no formato original em versos traduzidos, mas descobri o incrível site do estudioso Helder da Rocha que fez uma adaptação em prosa com inúmeras notas explicativas muito úteis. Foi uma experiência muito particular e enriquecedora. A obra épica foi escrita no século XIV, não em latim, mas no italiano vulgar, o dialeto de Florença, o que popularizou enormemente o livro. Repleto de simbolismo, dividido em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso) e composto de 100 cantos e 14.233 versos, é considerado o maior poema escrito no Ocidente. Na história acompanhamos os poetas Dante e Virgílio no caminho do Inferno e do Purgatório até chegarmos ao Paraíso, onde Dante encontra sua musa Beatriz.

10- CLARICE, UMA BIOGRAFIA - de Benjamin Moser - A mais completa biografia da escritora Clarice Lispector, com quase 500 páginas e escrita com brilhantismo pelo norte-americano Benjamin Moser (que recentemente escreveu a biografia da genial Susan Sontag). Moser reconstitui a história de Clarice desde os tempo dos seus pais na Ucrânia, perseguidos por serem judeus e obrigados a fugir do país para não morrerem. É um privilégio acompanhar o brilhantismo de Clarice e sua vida difícil, sua personalidade complexa, o drama da esquizofrenia do filho, a sífilis da sua mãe, adquirida num estupro na Ucrânia, o incêndio que quase a matou, a sua dependência de remédios para dormir....A obra de Moser, que a considera a maior escritora judia depois de Kafka, foi responsável por divulgar enormemente o trabalho de Clarice no mundo inteiro. Ele coordena a publicação das suas antologias nos EUA.

       

11, 12 e 13 - O HEREGE, O ARQUEIRO e O ANDARILHO, de Bernard Corwnell. Li os três livros em sequência. Já havia lido do autor sua trilogia das Crônicas de Artur: O Rei do Inverno, O Inimigo de Deus e Excalibur, além das obras Stonehenge e Azincourt. Os três volumes que li agora são integrantes da trilogia: A Busca do Graal. Por ironia, resolvi ler outro livro antes: 1356. Mal sabia que estava lendo o quarto volume da trilogia (uma trilogia com quatro volumes?). Então, ao começar a história do arqueiro inglês Thomas de Hookton, já sabia o que havia acontecido com o Graal, objeto do quarto volume. Independente disso, a história é recheada de batalhas de tirar o fôlego e é tão boa quanto todas as obras do prolífico inglês Bernard Cornwell (tenho 25 livros dele para ler ainda, entre eles os 12 volumes da série das Guerras Napoleônicas e outros 11 das Guerras Saxônicas).

14- O VELHO E O MAR, de Ernest Hemingway – Foi o último livro publicado por Hemingway e o primeiro dele que li. É de uma novela de quase 130 páginas e que infelizmente já conhecia o final, não somente por já ter assistido ao filme adaptado a partir da obra (com a interpretação magnífica de Spencer Tracy), bem como porque no exemplar já se diz o que vai acontecer na história. Mesmo assim, não deixa de ser emocionante acompanha a luta do velho pescador cubano Santiago na sua tentativa desesperada de pescar o maior peixe da sua vida após uma maré de azar. O pequeno Manoin, menino que ajuda o velho pescador é o elemento de vida e emoção que faz um contraponto perfeito com a dureza e a secura do personagem principal. É uma obra que foi citada quando o autor ganhou o Nobel de Literatura em 1954.

 

 15- A MALDIÇÃO DO CIGANO, de Stephen King. Também lançado no Brasil com o título de A Maldição, este foi o 22º livro que li de King e de todos, o de que menos gostei. Tem menos de 300 páginas, mas é um tanto arrastado. Também já havia assistido ao filme que é muito datado. Assim, também já conhecia o final e não me emocionou nem assustou. O livro foi um dos escritos por King com o pseudônimo de Richard Bachman e o título original é “Emagrecido”, em inglês, “Tinner”. A história de um advogado obeso que após atropelar e matar a filha de um velho cigano recebe deste a maldição de emagrecer sem parar independentemente do quanto ele coma.

16- KAFKA À BEIRA-MAR, de Haruki Murakami. Uma decepção. Já li cinco livros de Murakami e gosto de todos, mas fiquei impressionado com a chatice dessa obra. O autor arrasta uma história boba por mais de 500 páginas, em que o excessivo detalhismo e os fracos diálogos chegam a ser constrangedores. Murakami está todo ano cotadíssimo para o Nobel de Literatura com fãs pelo mundo inteiro, inclusive eu, mas aqui achei uma tortura ler o livro até o fim e mesmo o realismo fantástico que sempre me agrada nos livros de Garcia Márquez e Salman Rushdie, aqui soa forçado. Ainda não entendo como esse livro tem mais de 90% de aprovação. Suspeito fortemente que há pessoas que não têm coragem de dizer que não gostaram e querem passar a impressão de descolados. Esse cara não sou eu.


17- EM NOME DE DEUS, de Karen Armstrong
. Após ler vários romances em sequência gosto de variar um pouco e ler uma biografia ou um livro de não ficção e há tempos este livro da ex-freira católica Karen Armstrong, considerada uma das principais autoridades em história das religiões estava na minha lista. Nesse livro ela analisa os movimentos fundamentalistas surgidos das três principais religiões monoteístas. Ela parte do ano de 1492, quando ocorreram episódios históricos decisivos para cristãos, muçulmanos e judeus. O livro se apoia em ampla documentação e bibliografia e a leitura flui facilmente. O tema da história das religiões me agrada muito. 

18 - DEUSES AMERICANOS, de Neil Gaiman. É pura coincidência ler um livro sobre deuses logo em seguida de outro. Há tempos me devia a leitura de uma obra de Neil Gaiman, um autor que tem uma legião de adoradores, mas sempre suspeitei que não era minha praia. Dito e feito: o livro é muito chato e a narrativa não me agradou. Isso parecerá heresia para muita gente, mas não comprei a história nem os personagens me agradaram, principalmente os dois principais. Como há uma série de tv aclamada baseada no livro, aproveitei o embalo para assistir à série também, mas se não fosse pela beleza da produção visual e da ótima trilha sonora o audiovisual não fica muito à frente do livro. Chatíssimos ambos. Acho que não pretendo ler mais nada desse autor. Só ficou uma frase na memória: “Todas as horas ferem. A última mata”.