13.11.18

42ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO


    De novo bati ponto na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, como faço há 16 anos seguidos, e onde encontro uma gente muito estranha, que se diverte passando horas esquematizando todas as inúmeras possibilidades de assistir à maior quantidade possível de filmes, entre mais de 300 produções de 67 países.
    
    Todo ano é a mesma loucura. As mesmas pessoas se deslocam de diferentes partes do país para São Paulo e enfrentam uma alucinada maratona, correndo de um cinema para outro, engolindo almoços e lanches cronometrados e bebendo baldes de café para seguir acordado.

  Mais um ano consegui comprar o passaporte para assistir a 40 filmes mas sempre me vejo conversando com diferentes pessoas para saber quais, nas suas opiniões, os melhores filmes vistos. E toda vez me vejo me perguntando onde foi que errei, pois as pessoas sempre dizem que os melhores filmes foram exatamente aqueles que selecionei para perder ou perdi por optar por concorrentes no mesmo horário. Mas houve filme para todos os gostos, incluindo um chinês com 9 horas de duração e que foi exibida não sei para quem.

     Este ano, a Mostra teve a excelente iniciativa de criar um aplicativo para celulares que permitia ao credenciado reservar os filmes a que queria assistir com 4 dias de antecedência, evitando o trabalho de se deslocar até a Central da Mostra, na Avenida Paulista, e enfrentar filas para retirar os ingressos dos seus filmes com 3 dias de antecedência. Também, pelo mesmo aplicativo, podia-se desistir da reserva até a véspera sem perder o crédito. Se o aplicativo não funcionou 100%, não se deve julgar com muita severidade os idealizadores, pois foi o primeiro ano em que ele foi utilizado. Para mim, só facilitou a vida e não tive qualquer problema.


    Como quase sempre acontece, os premiados deste ano ou eu não concordei com a escolha (como o Prêmio do Público para Melhor Filme Brasileiro de Ficção e o Prêmio da ABRACCINE de Melhor Filme Brasileiro de Diretor Estreante, que foram para o fraquíssimo “Meio Irmão”), ou então eu não assisti aos outros filmes premiados por critério pessoal ou choque entre filmes, como foi o caso dos demais premiados:

1-Prêmios do Júri de Melhor Filme para novos diretores e do Público de melhor Documentário Internacional: “Las Sandinistas!”;
2- Menção Honrosa do Júri para o brasileiro “Sócrates”;
3- Prêmio do Público para Melhor Ficção Internacional para o libanês “Carfanaum”;
4- Prêmio do Público para Melhor Documentário Brasileiro: “Torre das Donzelas”;
5- Prêmio da Crítica de Melhor Filme Internacional:“Nuestro Tempo”;
6- Prêmio da Crítica de Melhor Filme Brasileiro: “Todas as Canções de Amor”.

    Esse ano, acabei dormindo demais ou de menos e perdi dois dos filmes a que tinha direito por conta do passaporte e, ao final, foram 38 vistos. Aqui vai minha avaliação e cotações.



CULPA – A maior surpresa e talvez o melhor filme da Mostra, na minha opinião. Rodado em uma sala, com uma única locação e sustentado no excelente roteiro e na atuação do protagonista. O policial Asger Holm trabalha temporariamente atendendo chamadas de emergência numa delegacia da Dinamarca quando, no final do seu turno e na véspera de um julgamento importante que definirá seu futuro da polícia, atende a uma ligação de uma mulher sequestrada. Quando a ligação é desligada repentinamente, começa a busca pela vítima e pelo seu sequestrador. Com o telefone como sua única ferramenta, Holm entra numa corrida contra o tempo para salvar essa mulher em perigo. Ele logo percebe, porém, que está lidando com um crime muito maior do que pensava. A esposa sequestrada pelo marido com antecedentes criminais, a luta pela guarda dos filhos, as crianças deixadas sozinhas durante o sequestro em andamento, a burocracia da polícia dinamarquesa diante da sequência de dramas que se desenrolam em uma única noite e em tempo real. O suspense fica mais dramático porque o expectador não vê as vítimas nem os policiais que perseguem o sequestrador. Tudo se desenrola tendo como único recurso narrativo as vozes dos personagens pelo telefone e a tentativa desesperada do policial. O filme tem o mérito adicional de utilizar o som representando uma história frenética, paralelamente às imagens mostrando um imobilismo forçado e tenso. O crítico Bruno Carmelo destaca a capacidade do filme de sugerir imagens sem mostrá-las  "o espectador dispõe de elementos suficientes para imaginar a vítima, seu drama, o interior do carro e a casa do sequestrador invadida pelos policiais. Retornamos ao cinema como storytelling, e não como espetáculo: os personagens contam a história ao mesmo tempo a Asger e ao espectador, que tentam juntos desvendar o crime”

  
A GUERRA DE ANNA- Um filme russo muito impactante que conta o drama da pequena judia Anna, de 6 anos, cuja família inteira foi morta em um extermínio. Única sobrevivente, ela passa um longo tempo sozinha escondida na chaminé do escritório de um dos comandantes do 3º Reich. Por dias e noites infindáveis, ela tem que sobreviver escondida, com fome, sede e frio, aprendendo sozinha a descobrir estratégias para se livrar das muitas ameaças.


RETABLO- Uma excelente produção peruana que me surpreendeu. O filme mostra o trabalho de Segundo, um garoto de 14 anos, ao lado do seu pai artesão nas montanhas do Peru. Ele está aprendendo a arte do pai que fabrica retábulos, tradicionais caixas coloridas de variados tamanhos com cenas religiosas e eventos cotidianos. O menino reverencia o ofício, mas se depara com um chocante segredo do pai, que acaba por revelar a paisagem profundamente religiosa e conservadora que o cerca. A forma com que a mãe e a comunidade lidam com a descoberta, o modo como o próprio garoto se martiriza ao descobrir o segredo do pai e como ele resolve apesar de tudo exorcizar seus próprios demônios é um achado. O filme tem uma sequência e uma cena final que são de um requinte invejável.
  
A CASA QUE JACK CONSTRUIU – Mais um petardo de Lars von Trier. Cinema lotado em todas as sessões e gente saindo no meio sem conseguir ver as cenas mais pesadas. O filme tem no personagem principal um ótimo Matt Dillon, como há muito não se via, retratando a epítome da falta de empatia. Ele é Jack, um arquiteto e serial killer perfeccionista e com TOC que a partir de um primeiro assassinato (de Uma Thurman, sempre ótima) que lhe desperta um enorme prazer, passa a matar dezenas de pessoas ao longo de 12 anos, guardando os corpos num frigorífico. Tempos mais tarde, ele compartilha sua história com o sábio Virgil (Bruno Ganz), em uma jornada rumo ao inferno, emulando a Divina Comédia, em que o poeta Virgílio conduz Dante Alighieri ao inferno. As cenas de extrema violência são a marca do diretor e ele não deixa por menos e segue os passos de O Anticristo, dentre outros. Trier segue o esquema de Ninfomaníaca, em que uma viciada em sexo narra suas histórias para um ouvinte. Aqui, um viciado em matar faz o mesmo, mas ele não busca nem receberá qualquer redenção.


A FAVORITA – Uma produção caprichadíssima, com locações impactantes em castelos luxuosos e imensos cômodos decorados suntuosamente com madeiras nobres que fazem os personagens parecerem minúsculos. O filme conta com três grandes atrizes, num duelo de atuações nos papéis principais. No início do século 18, a Inglaterra está em guerra com a França. A frágil rainha Anne (Olivia Colman, vencedora do Grande Prêmio Especial do Júri e da Copa Volpi de Melhor Atriz do Festival de Veneza), tem na sua amiga íntima e parceira de cama Lady Sarah Churchill (Rachel Weisz), a verdadeira governante da Inglaterra. Até que chega à corte a ambiciosa serva Abigail (Emma Stone) que se aproxima da monarca e rouba a velha amizade despertando a ira de Lady Sarah. A ambiciosa Abigail fará de tudo para conseguir seus objetivos não importa o preço a pagar.


JOSÉ - O filme venceu o prêmio Leão Queer no Festival de Veneza. O personagem título tem 19 anos e vive com a mãe na Guatemala, um dos dez países mais religiosos, pobres e perigosos do mundo. Mãe e filho levam uma vida difícil: ela se divide entre a igreja e o trabalho como vendedora de sanduíches, enquanto o rapaz enfrenta uma rotina de ônibus lotados e encontros amorosos rápidos e casuais em quartos sórdidos com outros rapazes que conhece em aplicativo de paquera. Ao conhecer o jovem Luis, surge uma paixão que irá complicar sua vida. José precisa decidir como seguir adiante, lidando com a religiosidade de uma mãe que em parte depende dele ou viver esse amor proibido. A vitória do filme no festival de Veneza coincide com o momento em que o parlamento guatemalteco discute um projeto de lei que proíbe o aborto, mas também o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

SELVAGEM- Leo é um jovem de 22 anos que ganha dinheiro fazendo sexo com outros homens. Sensível, ele observa os clientes irem e virem, sem saber o que esperar do futuro. Ao contrário dos demais, ele se apega, quer um pouco de afeto. Entre programas e baladas, ele conhece Ahd, também michê, e precisa lidar com um sentimento não correspondido. O filme é cru e nem um pouco condescendente, mostrando a verdadeira natureza da vida dos michês sem qualquer glamour. O personagem principal segue uma trajetória descendente, padecendo de doenças fruto da vida sem conforto, alimentação adequada e afeto. Há uma cena bela e tocante em que ao ser examinado por uma médica, instintivamente Leo a abraça. Ele se submete a uma variedade assustadora de fetiches para obter carinho e dinheiro, dorme pelas ruas, bebe água da sarjeta e ferindo um dos códigos da prostituição, beija os clientes na boca.  Como diz o crítico Bruno Carmelo, Léo sofre duplamente quando encontra clientes agressivos demais, para quem o sexo é um instrumento de poder. “A prostituição, como qualquer serviço, depende de uma diferença de posição entre ambos os lados – uma oferta e uma demanda -, mas o personagem acredita na possibilidade de amar a todos, e a qualquer um, numa utopia tão sexualmente voraz quanto afetivamente utópica...Ele serve como exceção que confirma a regra, o contraexemplo de uma figura que transborda de amores numa era de cínicos e individualistas”.

O ANJO- Filme argentino coproduzido por Pedro Almodóvar e com o ator Chino Darin (filho do icônico Ricardo Darin) no elenco. Baseado na história real de Carlos Robledo Puch (que ficou preso por 45 anos), o filme acompanha sua vida de crimes desde que era o belo adolescente Carlitos, que, em 1971, fazia sucesso com seus cabelos loiros e um verdadeiro talento para cometer crimes. Ao lado do amigo Ramon (Darin), com quem tem um envolvimento semi-homoerótico, embarca em uma jornada de descobertas, amor e crime. Matar é apenas um desdobramento aleatório da violência, que aumenta em uma escalada contínua. Por causa de sua aparência delicada, Carlitos passa a ser conhecido como "O Anjo da Morte". O filme explora bem a aparência delicada de Carlitos, seu corpo sem pelos e imberbe, os lábios sedutores e a libido pouco contida em contraste com o desejo de roubar e se apoderar do máximo de experiências e bens possíveis. A sequência de início de final do protagonista dançando com uma arma apontada para a câmera é tão sedutora quanto amoral e por isso ameaçadora enquanto metáfora.


AMOR ATÉ ÀS CINZAS – O diretor chinês Jia Zhang-Ke tem no seu curriculum filmes elogiadíssimos pela crítica e super premiados como Pickpocket, Plataforma, Still Life, Um Toque de Pecado, O Mundo, Cry me a River e Memórias de Xangai.  Aqui, ele conta a história de Qiao uma jovem apaixonada por um mafioso provincial. Em uma briga de gangues rivais, ela dispara uma arma para protegê-lo e acaba ficando cinco anos na prisão. Após sair da cadeia, procura pelo amor que a abandonou na prisão e jamais a visitou, tentando retomar o tempo perdido. O diretor mantém a maestria dos filmes anteriores, com grandes planos abertos reforçando através das imagens a natureza mesquinha dos personagens, emoldurando assim os diálogos que já registram brilhantemente os desajustes humanos. Mais uma vez aqui temos o toque de um mestre que sabe como poucos contar uma história.


A ROTA SELVAGEM - Charley é um garoto de 15 anos que sonha com estabilidade. Filho de um pai solteiro boêmio, mudam-se de cidade com frequência. Quando se estabelecem no Oregon, o rapaz consegue um emprego de assistente de treinador de cavalos de corridas, onde se encanta pelo velho cavalo Lean-on-Pete. Ao descobrir que a vida do animal está em risco por ter terminado sua utilidade nos páreos, ele decide tomar medidas extremas para salvar esse novo amigo. O adolescente segue uma jornada de descobertas e privações ao lado do animal ao tempo em que cresce como ser humano, desenvolvendo uma casca protetora. Muito envolvente, principalmente levando em conta que o garoto tem um talento natural exatamente na corrida, enquanto o animal está no fim da carreira como quarto de milha. Uma história de valentia e persistência além de um belo road movie para além da clássica história do menino e seu cavalo. Atuam como coadjuvantes de luxo Chloë Sevigny e Steve Buscemi.


VIDA SELVAGEM – Uma combinação excelente dos atores Jake Gyllenhaal (O Segredo de Brokeback Mountain, O Abutre, Zodíaco, entre outros)  e Carey Mulligan (Shame e O Grande Gatsby) sob a direção do ator Paul Dano estreando na função mas conhecido por premiadas em filmes como A Pequena Miss Sunshine, 12 Anos de Escravidão e Sangue Negro. Aqui temos a história do adolescente Joe, de 14 anos, filho único do casal. Eles vivem em uma pequena cidade próxima às florestas de Montana nos anos 1960. Em um dos muitos incêndios que ocorrem com frequência, o pai Jerry, desempregado, decide se juntar ao combate contra o incêndio, deixando esposa e filho sozinhos. Forçado a assumir o papel de adulto, Joe testemunha os esforços de sua mãe, enquanto ela tenta tocar a vida em frente. O diretor dá espaço para os silêncios no lugar dos diálogos que os personagens resistem em travar e os espaços amplos em contraste com a prisão de um casamento e de uma casa opressivos. Todo o filme é visto sob a perspectiva do jovem Joe com seu olhar perdido e sua busca de unir as duas partes de um casamento que não mais se aguenta em pé.

PIEDADE – Um excelente filme grego de um cinismo quase cômico. A história de um homem de meia idade que mora com o filho adolescente em uma casa de classe média alta. Ele é saudável e aparenta ter uma vida normal, mas sua esposa está em coma após um acidente. O filme segue os passos desse homem, alguém que se sente feliz apenas quando está infeliz. Viciado em tristeza, o personagem tem uma necessidade tão grande por piedade que faz de tudo para evocar esse sentimento nos outros. É a vida de um homem em um mundo que não parece cruel o bastante para ele.



NOITE SILENCIOSA- Filme polonês. Adam, um jovem economista, descobre que sua namorada está grávida e decide mudar de vida. O rapaz quer sair da Polônia para sempre com ela e abrir um negócio na Holanda. Para fazer isso, ele retorna à sua cidade natal para tentar convencer seus parentes a vender o terreno que é a única propriedade da família. Durante o jantar de Natal, Adam se dá conta de que o preço que pagará para seu sonho se concretizar será muito mais alto do que imaginava. E que, aparentemente, quando se trata de família, as coisas são bem mais bonitas nas fotos do que na realidade.

OS RELATÓRIOS SOBRE SARAH E SALEEM – Filme palestino que mostra a relação de Sarah, judia e dona de um café em Jerusalém Ocidental e casada com um militar judeu e Saleem, palestino também casado que vive na parte oriental da cidade e trabalha como entregador. Eles se apaixonam e vivem uma relação que ameaça as estabilidade das famílias. Uma noite, em um encontro às escondidas, eles são descobertos e a trama ganha dimensões políticas, vindo à tona um relatório falso sobre o uso das informações supostamente obtidas pelo palestino da relação com a esposa do militar israelense. O filme venceu o Prêmio do Público e do Prêmio Especial do Júri de Melhor Roteiro no Festival de Rotterdam.

INIMIGOS ÍNTIMOS- Um filme policial francês, o que normalmente não me agrada, mas que me surpreendeu positivamente. Conta a história de dois amigos de infância de famílias marroquinas, que nasceram e foram criados na periferia de Paris dominada pelo narcotráfico. Apesar de serem como irmãos, já adultos, seguiram caminho opostos, um abraçou o crime e o outro tornou-se policial. Os dois precisam, a partir de determinado negócio que deu errado para ambos, se reencontrar para lidar com os inimigos comuns, precisam um do outro para sobreviver. Com todos os ressentimentos do passado, renovam laços em torno da única coisa que ainda têm em comum: o compromisso com o lugar de sua infância. Após muitas mortes, vinganças e traições, um final doloroso e adequado ao espírito e à atmosfera do ambiente.

A PLANTAÇÃO DE LARANJAS- Belo filme iraniano, como é frequente na maioria das produções daquele país. Aban é uma mulher de 45 anos que gerencia uma fazenda de laranjas. Ela tem que lutar contra a desconfiança e o machismo já que uma mulher independente é uma ameaça aos homens iranianos. Ela lidera uma equipe só de mulheres em trabalho temporário na sua colheita (as mulheres precisam de autorização dos maridos para trabalha). O objetivo é vencer seu competidor, um fazendeiro que tem uma história antiga de rixa com ela e  que não hesita em chantagear as trabalhadoras, boicotar o trabalho de Aban e roubar-lhe a colheita. Ela hipoteca sua casa e seu galpão para entregar a colheita a tempo de honrar um grande contrato. Sua resiliência é invejável e a briga prova a capacidade de cada um de lidar com problemas de toda ordem.


INFILTRADO NA KLAN – Uma comédia séria, um paradoxo típico do cineasta Spike Lee que mostra, nos anos 70 nos EUA as convulsões sociais e a luta pelos direitos civis através da história de Ron Stallworth, primeiro detetive negro na Polícia de Colorado Springs. Após ser recebido com hostilidade pelos colegas, Stallworth propõe aos chefes infiltrar-se na Ku Klux Klan e expor o grupo. Para isso, ele conta com a ajuda do colega judeu, outro grupo discriminado pelos supremacistas brancos da organização. O filme venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e na sessão em que assisti, no dia seguinte à eleição de Jair Bolsonaro, ao final, quando são mostradas cenas de intolerância racial nos EUA com um carro atropelando várias pessoas e matando uma delas nos conflitos de Charloteville e o discurso patético de Donald Trump, todo o cinema começou a aplaudir o filme e a gritar “Ele Não”, “Bolsonaro Nunca”, um desabafo dramático e com gosto amargo de fato consumado pois a eleição tinha sido no dia anterior.  

EM CHAMAS – Filme sul coreano e representante do país na disputa do Oscar de filme estrangeiro e baseado no conto Queimar Celeiros, do ultra badalado escritor japonês Haruki Murakami. Jongsu é um jovem entregador que reencontra uma garota que já morou em sua vizinhança. Ele aceita o pedido dela para cuidar do seu gato enquanto ela estiver na África. Na volta, ela apresenta Jongsu a Ben, um jovem rico e enigmático (papel de Steven Yeun, o Glenn de The Walking Dead) que conheceu na viagem. Um dia, Ben conta a Jongsu sobre seu hobby mais incomum e a partir daí o filme segue novo rumo numa tensão crescente em que o espectador é mantido todo o tempo em suspense até o final catártico que fecha o filme com uma imagem impactante e inesquecível.  De acordo com a crítica de Bruno Carmelo, "o fator mais excepcional do filme se encontra na capacidade de sugerir, cena após cena, que algo gravíssimo aconteceu no passado, ou está prestes a acontecer a qualquer momento".



PODRES DE RICOS- Produção hollywoodiana baseada no best-seller "Asiáticos Podres de Ricos". O filme já faturou mais de 230 milhões de dólares, tendo custado meros 30 milhões. Toda a equipe e o elenco é de origem asiática e conta a história de uma nova-iorquina descendente de chineses que viaja para a Ásia pela primeira vez para acompanhar o namorado a Singapura, onde descobre que o moço é herdeiro da família mais rica do país e tem que lidar com a sogra tirana que a desaprova. Apesar de ser uma comédia que acaba por repetir os clichês do gênero, não deixa de ser muito divertida e ainda tem o luxo dos lindos cenários de Singapura e trilha sonora excelente. Um crítico chamou a atenção para a inversão de estereótipos atribuídos a asiáticos e como é divertido ouvir falas como: "Tem muita gente passando fome nos Estados Unidos, você quer ficar igual a ela?".

O BATERISTA E O GOLEIRO – Filme irlandês. O baterista Gabriel sofre de bipolaridade e depressão após a morte da mãe. Depois de um incidente provocado por ele, é forçado a fazer terapia numa clínica onde começa uma improvável amizade com o adolescente Christopher, diagnosticado com Asperger e que tem obsessão por ser goleiro. Apesar de ambos não serem destaques nem em uma banda nem em um time de futebol, têm funções essenciais ao andamento da harmonia e à solidez de uma equipe. O vínculo que inicialmente é rechaçado pelo baterista, aos poucos vai revelando como um pode ser útil para o outro já que são absolutamente complementares, pois se um tem grande dificuldade para controlar os impulsos, mas é naturalmente conhecedor da natureza humana, o outro tem grande dificuldade para entender as pessoas mas é expert em controle. Um filme edificante e com muita ternura, com uma mensagem de tolerância e amizade.

PEDRO E INÊS- Filme português inspirado na conhecida história de Pedro I e Inês de Castro, quado o monarca entrona a amada morta por seus inimigos. O filme apresenta Pedro, um homem internado num hospital psiquiátrico por viajar de carro com o cadáver da sua amada Inês. A narrativa recorda, simultaneamente, as vidas de Pedro de Portugal, na Idade Média, Pedro Bravo, no presente, e Pedro Rey, em um futuro distópico. As três histórias são contadas intercaladas e com os mesmos atores interpretando os mesmos papeis nas três diferentes narrativas

303 – A estudante de biologia Jule descobre que está grávida e parte de Berlim para Portugal a bordo de uma antiga van 303 para contar pessoalmente a novidade ao namorado. No caminho, ela dá carona a Jan, um rapaz que estuda ciências políticas e está indo à Espanha para conhecer seu pai biológico. Enquanto viajam, suas conversas se tornam cada vez mais pessoais e íntimas. Após vários desentendimentos, eles descobrem que têm opiniões muito diferentes sobre quase tudo, mas não se cansam de conversar, desfrutar da viagem e as belas paisagens da Alemanha, França Espanha e Portugal. O filme tem diálogos muito inteligentes, excelente trilha sonora e bela fotografia e um crescendo de intimidade e romance vai deixando o filme cada vez mais bonito e suave.

  
VERMELHO SOL-  Nos anos 70, um desconhecido chega a uma pacata cidade argentina. Em um restaurante, sem qualquer motivo, ele começa a insultar um renomado advogado local. As pessoas o expulsam o estranho que decide se vingar do advogado que toma um caminho sem retorno que envolve mortes e segredos. O filme indiretamente fala da ditadura argentina e como o ambiente do país levou ao arbítrio. Lembra a maneira com que o diretor Michael Haneke tratou seu “A Fita Branca”, ganhador da Palma de Ouro e do Oscar de Filme Estrangeiro. 


O CAMINHO NÃO TOMADO- Produção chinesa que conta a história de um homem que toma conta de uma decadente fazenda de avestruzes. Ele quer a qualquer preço reconquistar sua ex-mulher, que vive outro relacionamento. Um dia, um homem a quem ele deve dinheiro pede para ele cuidar de um menino que ele suspeita ter sido sequestrado. Ele embarca em uma viagem pelo deserto com a criança. As coisas tomam rumos perigosos quando o homem decide a princípio proteger a criança dos sequestradores, mas em seguida imagina que ele próprio pode ficar com o dinheiro do sequestro para reconquistar a ex-mulher. A relação com a criança, a princípio fria, se torna cada vez mais complexa, alternando o desafeto e a ternura.

SEQUESTRO RELÂMPAGO - Uma boa produção brasileira. Confiei no instinto de ser uma direção da ótima Tata Amaral e acertei. Marina Ruy Barbosa faz uma jovem vítima de um sequestro relâmpago. Seus sequestradores são inexperientes: Matheus e Japonês (o ator global Daniel Rocha) descobrem que não há tempo para sacar o dinheiro nos caixas eletrônicos e decidem ficar com a moça até que amanheça. O nervosismo e os conflitos entre os três ficam à flor da pele. Há uma disputa por liderança e Isabel tenta tranquiliza-los enquanto ao mesmo tempo tenta achar um modo de fugir, tentando também jogar um contra o outro e assumir algum protagonismo, usando da psicologia, uma tarefa quase impossível para quem não sabe usar uma arma e contra bandidos que não têm nada a perder.

LA QUIETUD – O diretor argentino Pablo Trapero estava presente no dia em que vi este filme e o apresentou à plateia da Mostra. Confesso que já vi filmes melhores do diretor, como Do Outro Lado da Lei, Família Rodante,  Nascido e Criado, Leonera, Abutres e O Clã (que lhe deu o Prêmio de Melhor Diretor em Veneza) mas também vi filmes seus piores, como Elefante Branco. Aqui, Eugênia (a belíssima Berenice Bejo, de O Artista) retorna da França após longa ausência para Buenos Aires após o derrame do pai. Em La Quietud, propriedade rural da família, ela se reúne com a mãe e a irmã. As três mulheres são forçadas a confrontar os traumas emocionais do passado, que se desenrolaram em meio à ditadura militar. Segredos há muito enterrados ressurgem, amplificados pela inquietante semelhança física entre as duas irmãs com diversas insinuações de incesto. A atriz Martina Gusman, que interpreta a irmã Mia, é esposa do diretor na vida real.

THUNDER ROAD – Um filme que é uma pequena joia. Não consegui enquadrá-lo em nenhuma categoria, parece uma comédia com pitadas de humor negro, mas também não sei se é isso. Gostei bastante do ator Jim Cummings que faz o papel de Jimmy Arnaud, um policial atrapalhado de uma pequena cidade texana, que luta para lidar com a morte da mãe, o divórcio iminente, a rebeldia da filha adolescente e sua própria falta de noção. Ele aparentemente tem algum grau de autismo ou bipolaridade. O filme foi o vencedor do Grande Prêmio do Júri do festival  South by Southwest e trata-se de um projeto pessoal do próprio Jim Cummings que além do papel principal, fez o roteiro, direção, música e montagem.

OPERAÇÃO OVERLORD – Na véspera do Dia D da 2ª Guerra Mundial, paraquedistas americanos são deixados atrás das linhas inimigas com uma missão crucial para o sucesso da invasão da Normandia que daria fim à grande guerra. No solo francês, numa vila ocupada pelos alemães, eles descobrem que precisam luta contra seres monstruosos, resultados de um experimento nazista. Muito sangue e tiroteio, muitas mortes e massacres são marcas registradas do produtor J. J. Abrams.


A TERCEIRA ESPOSA – Um filme vietnamita do qual eu esperava bem mais. May é uma menina de 14 anos que vive em uma área rural do Vietnã, no fim do século 19 e sua muda quando ela se torna a terceira esposa de um rico dono de terras. Na nova casa, May é favorecida e bem tratada e logo engravida — na esperança de dar ao marido um herdeiro homem. Mas, após testemunhar um encontro romântico proibido, a jovem encara uma série de infortúnios, que farão com que uma transformação, até então adormecida, aflore. Concordo com o crítico que lamenta que o olhar essencialmente descritivo da diretora, até mesmo por ser mulher, mostre as mulheres apenas por fora, sem subjetividades e sem investigar o modo como enxergam o mundo sob seu ponto de vista. O filme objetifica o que já é objetificado.


SEM AMOR- Filme americano apenas bonitinho que conta a história de Joy, uma jovem com profundo vazio na alma e que busca preencher com sexo desenfreado e relacionamentos que se tornam fugazes. Com grandes problemas decorrentes disso (falta de emprego e teto), ela busca ajuda numa terapia para viciados em sexo, ela encontra apoio em Maddie que lhe propõe abstinência de um mês e a casa de hóspede da sua velha mãe que é cuidada por Jim, seu recluso e problemático irmão. Essa dupla aparentemente impossível pode fazer as coisas começarem a mudar para ambos quando descobrem que além das dificuldades comuns com as pessoas (ele se liga de menos e ela, demais) têm também interesses comuns como a música.

GUTLAND- Uma produção de Luxemburgo, coisa rara, que mostra um homem com um passado misterioso chegando a uma vila apenas com uma mala. Os habitantes do local desconfiam do forasteiro mas acabam por integrá-lo no povoado. Aos poucos, fica claro que não apenas ele esconde um passado sombrio como algo sinistro está encoberto sob a superfície imaculada desse pequeno e pitoresco mundo. A história de um forasteiro chegando numa nova cidade sempre rende ótimos enredos, como foi visto desde Teorema, de Pasolini até Dogville, de Lars von Trier.


DE PAI PARA FILHO- Um homem de 60 anos descobre que tem uma grave doença mas em vez de buscar tratamento, decide ir ao Japão para procurar seu pai que o abandonou com dez anos. Ao mesmo tempo, um jovem rapaz de Hong Kong, que de alguma maneira é relacionado a este passado, surge em Taiwan e assim, começam duas jornadas de reconciliação. Destaque para a bela fotografia


AQUI- Filme iraniano arrastadíssimo e que nem sequer poderia dizer ter um fiapo de roteiro. Normalmente gosto dos filmes iranianos e não costumo ter problemas com ritmo lento mas esse é de doer. Conta a história de um velho que vive isolado nas montanhas e que tenta salvar a vida do filho marcado para morrer. Ele acaba tendo que levar o corpo do filho para ser batizado nos rios da montanha e cuidar do neto. Não tem sequer um diálogo, mas apenas o velho gritando o nome do filho nas montanhas.

SAL  - Uma produção da Colômbia que não me agradou muito. Heraldo sofre um acidente de moto durante uma viagem pelo deserto na tentativa de encontrar um pai misterioso. Ele é encontrado ferido por um casal que vive no deserto e que o trata aplicando sal em suas feridas e o alimentam com cacto. À medida que melhora, Heraldo revela uma alma em conflito. Ele precisa resolver seu tormento para poder voltar à jornada. Ainda estou tentando entender qual a mensagem que transcende a história.

ELEMENTO DE UM CRIME- Um dos poucos filmes da Mostra que  não era um lançamento. Um noir dirigido por Lars von Trier e seu primeiro longa, de 1984, que foi vencedor do Grande Prêmio Técnico no Festival de Cannes daquele ano. Para mim um filme muito confuso e no qual dormi mais da metade do tempo O filme é arrastado mesmo. A história de um tal de Fisher que retorna traumatizado e com poucas lembranças ao Cairo depois de liderar a investigação de um assassinato na Europa. Obcecado, procura um terapeuta que, sob hipnose, faz voltar suas memórias. O filme foge quase completamente do estilo adotado por Lars von Trier ao longo da sua carreira que se seguiu a este primeiro longa.


A HISTÓRIA DA PEDRA- Filme de Taiwan que considerei um dos piores da Mostra. Diz a sinopse: "O filme acompanha um grupo de gays dentro e ao redor de um bar local que culmina em mágoas, desespero e tragédia. Em meio ao caos de uma cidade obscura, os personagens tentam encontrar esperança”. Isso até poderia ser um mote para uma boa produção, mas a direção de atores e os próprios atores são péssimos, as locações são mal escolhidas, os enquadramentos pouquíssimo inspirados, enfim falta o básico, uma noção de ritmo e de tempo e até mesmo cenas de transição entre os planos para dar ideia de movimento. Não se sabe como ou porque as pessoas estão ou chegaram naqueles lugares, suas motivações, seus conflitos são pueris e falta uma montagem que se possa chamar por este nome. As cenas de orgias são tão sem graça que garanto que se o diretor deixasse os atores sozinhos com seus corpos seminus eles fariam melhor, sem uma direção que só deve existir pra atrapalhar. Fraquíssimo.


MEIO IRMÃO- Um filme brasileiro que achei dos mais fracos da Mostra. São tantas falhas básicas que não saberia nem por onde começar, mas parece que o público e o júri não levaram isso em consideração pois deram dois prêmios à produção. Na sessão em que assisti estava toda a equipe do filme, atores, diretora, produtor (que é casado com a diretora) e aparentemente toda a plateia era formada de amigos do povo do filme já que ingressos eram distribuídos a quem quisesse. Em outras sessões em que o filme passou, reparei que a turma estava toda ali fazendo campanha. Não sei se isso interferiu no resultado, mas vi que a campanha foi grande. A história gira em torno do desaparecimento da mãe de Sandra, uma adolescente com eterno ar de zumbi. Desorientada e sem dinheiro, ela pede ajuda a  seu meio irmão distante. Ela é branca e ele negro. O rapaz trabalha com gravação de imagens e por acaso gravou uma agressão homofóbica. Ele tem uma homossexualidade reprimida e um interesse sexual pelo amigo que foi um dos agredidos. Não convencem as ameaças pelo whatsapp e o filme parecia um ensaio de grupo amador como a constrangedora cena em que, finalmente, os dois caras se “pegam”, com direito a nu frontal e tudo. Até quando poderia parecer ousado, saiu-se gratuito.

FAMÍLIA SUBMERSA- Filme argentino que se passa durante um verão em uma Buenos Aires com a cidade vazia e abafada. Após a morte da irmã de Marcela ela precisa se desfazer dos pertences e do apartamento da irmã. Nacho, um jovem amigo de sua filha oferece ajuda e isso envolve Marcela em viagens e aventuras compartilhadas misturando pessoas e fatos de outras épocas, tudo muito confuso. Marcela se vê em meio a alguns autoquestionamentos quando sua vida cotidiana entra em ação. Me pareceu muito confuso, talvez porque dormi durante uma parte do filme e se já não havia um fio de meada para acompanhar, dormir deve ter tornado tudo muito mais confuso, pois não sabia mais o que era sonho, delírio, passado ou presente. Talvez tenha que ver novamente.

28.9.18

OS ROMANOV - 300 ANOS DE CZARES RUSSOS


Após duas semanas e 920 páginas, finalizei “Os Romanov”, livro-tijolo do historiador Simon Montefiore, uma embriagante biografia dos 300 anos da dinastia de 20 czares da Rússia, encerrada dramaticamente com a revolução comunista e a chacina de toda a família imperial do czar Nicolau II.

Durante 300 anos de sangue e violência de 20 czares Romanov — seis deles assassinados por estrangulamento, tiros, bombas ou punhaladas —, a Rússia se expandia e milhões de servos e soldados eram mortos em guerras, torturas e massacres. Se a saga dos Romanov não fosse real, poderia perfeitamente ser uma ficção macabra recheada de carnificinas em que pais torturavam filhos, que matavam seus pais e czares e czarinas que traíam seus cônjuges com inúmeros amantes.

Nesses três séculos sob á égide de imperadores que governavam 1/6 do planeta, entre eles Pedro, o Grande; Ivan, O Terrível; e Catarina, a Grande, a Rússia acumulou uma notável coleção de arte, tornou-se uma potência, engoliu países e territórios, modernizou-se e implantou ferrovias gigantescas como a Transiberiana, com mais de 9 mil km. Foi uma era dourada para a arte russa que produziu sofisticadas obras na Literatura e Música, por meio de artistas como Tolstói, Dostoievski, Chékhov, Gógol e Tchaikóvski.

O autor transcreve trechos picantes de cartas de czares e czarinas a seus amantes com conteúdo muito explícito fazendo acreditar que os Romanov eram um imenso clã mafioso de depravados sexuais com libido à flor da pele. Há relatos de médicos da corte que recomendavam que governantes moderassem o número diário de relações sexuais porque isso estava afetando a saúde. O autor chegou a censurar trechos transcritos das cartas por receio de a obra se transformar em um livro erótico.

Para a pesquisa do livro, Montefiore utilizou quantidade gigantesca de relatórios oficiais, documentos inéditos e correspondências de aristocratas, militares, revolucionários como Stálin, Trótsky e Lênin, cortesãos, religiosos, monarcas como a rainha Vitória e Napoleão Bonaparte, aventureiros, charlatões, assassinos e prostitutas. O livro ainda é belissimamente ilustrado com dezenas de fotos das famílias dos czares e seus palácios suntuosos.

A corte dos czares era um circo de aberrações repleta de anões nus maquiados como velhos, gigantes vestidos de bebês, hermafroditas e deficientes físicos, mulheres extremamente obesas, bobos da corte e uma infinidade de cortesões dedicados ao divertimento dos nobres. Orgias tinham início ao meio-dia e duravam até a manhã seguinte. A farra incluía carruagens puxadas por bodes, porcos e ursos e cardeais cavalgando jumentos e bois com adereços fálicos.

A imperatriz Anna Romanov reduziu seus aristocratas ao status de bobos e obrigou príncipes e condes a integrar sua corte de bobos. Um desses nobres sempre se fantasiava de galinha e se sentava num cesto de palha durante horas cacarejando diante da corte.

O livro relata com riqueza de informações a invasão napoleônica na Rússia, quando o czar Alexandre I, escondido em Petersburgo, viu sua capital Moscou ser incendiada por seis dias, evacuada por seus 500 mil habitantes em fuga desesperada.

Simon Montefiore avalia que Napoleão cometeu o maior erro de sua vida ao ficar um mês no Kremlin esperando a rendição de Alexandre. Nesse ínterim, o rigoroso inverno russo se abateu sobre os franceses invasores que fugiram sendo perseguidos e perdendo incalculável número de homens.

Nicolau II, o último Romanóv, um governante muito débil e antisemita, estimulava a perseguição, deportação e o massacre de centenas de milhares de judeus russos (os odiosos pogroms), organizados e apoiada pela famigerada Okhrana, sua polícia secreta. Um czar completamente  manipulado pela esposa Alexandra, que por sua vez era marionete de vários oportunistas, entre eles o famoso monge Rasputin, um charlatão de origem camponesa, místico, tarado e meio louco, com uma influência  junto à corte que nenhum escritor seria capaz de imaginar numa obra ficção. 

Rasputin era tão poderoso que mesmo com provas cabais de que estuprava damas de honra da imperatriz e tráfico de influência, gozava de tamanha confiança da família real que chegava a nomear e  demitir primeiros ministros. Seu assassinato é descrito no livro com toques de thriller policial.

O czar Nicolau a tal ponto alienado do que acontecia fora dos seus suntuosos palácios, que enquanto o povo protestava às portas dos castelos, assassinando autoridades, destruindo edifícios em plena 1ª Guerra Mundial, o governante dedicava-se a prosaicas partidas de dominó. Era tão pródigo em nomear os ministros mais incapazes e corruptos e dar ordens contraditórias, que alguns ministros destruíam seus próprio telefones e telégrafos para que o czar não voltasse atrás em uma ordem dada.

Em um diálogo com o embaixador inglês, Nicolau inquiriu: “Você me diz que eu preciso reconquistar a confiança do povo. Não é antes meu povo que tem de reconquistar minha confiança?”. Essa é uma frase exemplar de um autocrata alienado.

Em outro diálogo com um dos seus conselheiros, o czar perguntou: “Será possível que por 22 anos eu tenha tentado agir pelo melhor e por 22 anos tenha sido um equívoco completo?”.Ouviu uma resposta sincera que jamais ouviria se as coisas não estivessem no caminho do desastre: “Sim, vossa majestade por 22 anos tomou o curso errado”.

O livro tem no seu capítulo final uma análise sobre o período de terror da União Soviética comunista e sobre a Rússia moderna e uma série de correlações entre o período absolutista dos Romanov com o governo autoritário de Vladimir Putin num paralelismo assombroso com o uso do poder do Estado e da repressão e na violência. Um livro importante para se compreender o passado e entender como um estado autoritário se forma e se perpetua.

5.9.18

OS COMPLEXOS PERSONAGENS DE HARUKI MURAKAMI


O escritor japonês Haruki Murakami é o mais popular entre os eternamente favoritos ao Prêmio Nobel de Literatura, aparecendo, a cada ano, em todas as apostas para levar a láurea máxima, mas sendo constantemente esnobado pela Academia Sueca, para tristeza dos seus milhões de fãs no mundo, entre os quais, com orgulho, me incluo.

Talvez Murakami, fã de música e maratonista, não tenha o perfil sisudo ou engajado que se espera dos autores premiados com o Nobel. Ele transita com desenvoltura no universo pop e cotidiano, talvez com desenvoltura excessiva para os padrões acadêmicos. Murakami, traduzido em mais de 40 idiomas, considera mais relevante abordar questões íntimas e pessoais dos seus complexos personagens do que fazer recortes sociais e políticos nos seus romances.

Este ano li três deles: “Minha Querida Sputnik”, “Norwegian Wood” e “O Incolor Tsukuro Tazaki e seus Anos de Peregrinação”, considerado um de seus melhores livros, que na primeira semana de lançamento vendeu 1 milhão de cópias no Japão, já tendo superado os 4 milhões de exemplares no país.

As três obras têm em comum jovens protagonistas sensíveis demais para os ambientes das metrópoles em que se encontram. Outsiders introvertidos, chicoteados pelo espicaçar da consciência, lê-los é como olhar por um buraco de fechadura o interior desnudo de pessoas prestes a saltar para fora do mundo. É um olhar que fascina e incomoda.

Em Minha Querida Sputnik, acompanhamos Sumire, uma adolescente apaixonada por Miu, mulher 17 anos mais velha. Sumire erra pelas páginas de Murakami, vagando à procura de uma identidade própria, repleta de um grande vazio interno. O autor, enquanto nos envolve nas questões íntimas da personagem, faz com que tenhamos a necessária empatia para nos dedicarmos à narrativa, ao mesmo tempo em que nos impele a defrontar com os defeitos de Sumire, com o distanciamento mínimo para sentirmos certa compulsão pelo desenvolvimento da história.

Quem sabe o que nos atraí mais: os dramas ou os defeitos? Em que medida esses defeitos e questionamentos já nos habitaram quando éramos jovens como os personagens de Murakami. “Por que será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Por quê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?”

Norwegian Wood – Toru Watanabe narra-nos a sua história dos 16 aos 20 anos. Sabemos que seu melhor amigo de infância se suicida enquanto a namorada deste, aos poucos, aparenta perder também a sanidade. Enquanto estuda Arte Dramática na universidade, Toru lida com a dificuldade de se relacionar com os demais colegas. Praticamente sem amigos, ele busca desenvolver algum tipo de relacionamento humano e encontrar uma espécie de brecha para uma identidade minimamente própria. A lacuna deixada pela morte do amigo e a alienação da amiga são um espinho cravado em sua alma.

Caso Murakami não tivesse apontado no próprio livro, seria de se espantar se os leitores não notassem as inegáveis similitudes de Toru com o personagem Holden Caufield de “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J.D.Salinger ou as várias referências a “O Grande Gatsby” de F. Scott Fitzgerald, lido e relido por Toru ao longo do romance.

O livro tem o título homônimo de uma canção dos Beatles e aqui vemos uma das obseções de Murakami: a música. Ele não se cansa de incluir em seus romances inúmeras referências musicais. Houve quem encontrasse mais de 3 mil títulos de canções espalhadas pelos seus livros. O próprio autor possui mais de 10 mil discos de vinil na sua coleção.

No último capítulo, a personagem Reiko, como em uma bela e pungente cerimônia de réquiem, toca simplesmente de enfiada 51 canções para o protagonista, entre elas: Norwegian Wood, Eleanor Rigby, Yesterday, Michelle, Something, Here Comes the Sun, Fool on the Hill, Penny Lane, Blackbird, Julia, When I’m Sixty-Four, Nowhere Man, And I Love Her e Hey Jude, todas dos Beatles. E a lista continua com canções de Burt Bacharach, Tom Jobim, Harry Mancini, Gershwin, Bob Dylan, Ray Charles, Carole King, The Beach Boys, Stevie Wonder...É ou não uma ode à cultura pop mundial?

Os personagens reagem movidos mais pelo imprevisível do que pelas suas buscas pessoais. A libertação vem através do incontrolável, do confronto inevitável com o universo do outro. É como se ouvíssemos o eco de um poema de Fernando Pessoa: “Grandes são os desertos, e as almas desertas e grandes. Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!”.

O Incolor Tsukuro Tazaki e seus Anos de Peregrinação tem no personagem título mais um dos solitários protagonistas de Murakami vivendo um drama do passado. Quando estudante, seus quatro amigos inseparáveis eram o seu Norte: Akamatsu, o “pinheiro vermelho”, Ômi, o “mar azul”, Shirane, “a raiz branca”, e Kurono, o “campo preto”.  O único deles sem uma cor no nome era justamente Tsukuro. Anos depois, adulto, ele não consegue se libertar do trauma ocorrido quinze anos antes, quando foi expulso do grupo de amigos.

Tsukuro é impelido a reencontrar os quatro amigos do passado para saber por que foi inexplicavelmente expulso do grupo. Sua busca, se fosse um filme, seria um road movie, já que a jornada quase espiritual o leva a perscrutar o passado e tentar descobrir a jornada pessoal de cada um e de si mesmo. O desconhecido pode ser ameaçador, mas também é libertador.

Aqui novamente encontramos o eco da musicalidade de Murakami com as diversas citações ao longo do romance do compositor húngaro Franz Liszt, autor das sinfonias intituladas exatamente "Os Anos de Peregrinação".

Todos os desfechos das obras de Murakami possuem em comum o uso das narrativas abertas em finais beirando o inconcluso. Não se verá uma ruptura abrupta ou uma catarse, longe disso. Se as buscas dos personagens aparentemente terminam, a estrada finaliza apenas para inferir-se que haverá novas buscas e novos caminhos a percorrer, desta vez com uma bagagem nova, adquirida ao longo do percurso. Bagagem que ironicamente encontrará um peregrino mais leve, repleto de autodescobertas e feridas lancetadas.

Ao reler o texto acima, temo ter dado a impressão de que os livros de Murakami são muito densos ou lúgubres demais. Não poderia haver engano maior. A narrativa fluida e o uso de elementos da cultura pop contemporânea se aliam a um humor um tanto ácido, mas ainda assim, humor. Tudo isso dá o toque de imensa humanidade que se vê derramar ao longo de cada uma das suas páginas.

Longa vida aos complexos personagens de Murakami.

31.8.18

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios e Maurice


Finalizei, quase simultaneamente, dois excelentes livros que estavam, há tempos na fila, aguardando a leitura. Em comum, ambos terem sido adaptados para o cinema e contarem histórias de amores difíceis. O primeiro: Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, do escritor brasileiro Marçal Aquino; o segundo: Maurice, do britânico E.M. Forster.

As semelhanças acabam aqui. Eu Receberia as Piores Notícias... foi adaptado para o cinema pelo brasileiro Beto Brandt; e Maurice, pelo diretor inglês James Ivory. Enquanto a primeira obra gira em torno de relações amorosas repletas de conflitos e tensões em um triângulo amoroso heterossexual com conclusões dramáticas, a obra britânica aborda o amor que não ousa dizer o nome (para citar o irlandês Oscar Wilde), com uma brisa de esperança.

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios - Há uma dupla potente e premiadíssima por trás deste livro e da sua adaptação para a telona: o escritor e roteirista Marçal Aquino e o diretor Beto Brandt, ambos também responsáveis pelos livros/filmes Os Matadores, O Invasor e Ação Entre Amigos, todos com ótimas críticas.

Esse originalíssimo título, composto por simplesmente nove palavras, entrega aos leitores uma paixão visceral e asfixiante do casal Lavínia (Camila Pitanga, mais linda do que jamais esteve, na versão cinematográfica) e Cauby, fotógrafo paulista responsável por partes da narrativa.

A história se desenrola no interior do Pará, onde Cauby praticamente se isola após ter viajado pelo mundo. Ali, ele se dedica a plantar e fumar maconha, ouvir música clássica, cuidar de um tatu de estimação e fazer bicos como fotógrafo de um jornal local. Cauby rasga o peito como se usasse luvas: “Quando estou com você, eu me perdoo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse.”


Intercalando narrativas em flashbacks, mergulhamos raso na alma sem fundo da misteriosa Lavínia, uma personagem que fascina o fotógrafo Cauby pela sua beleza fora do comum, por sua forte temperatura sexual, além de um comportamento bipolar e seu estranho casamento com Ernani, pastor evangélico 40 anos mais velho.

As transbordantes cenas de paixão física — o inferno de um seduzido pelo inferno do outro — ao som de música erudita e poesia são emolduradas pelo calor asfixiante e pegajoso do ambiente ribeirinho paraense, o prenúncio do caos que por todo o ambiente paira, seja pela latente ameaça de um conflito armado entre pistoleiros de mineradoras, garimpeiros e sindicatos, seja pela insegurança trazida pela condição mentalmente precária de uma Lavínia ex-prostituta e ex-viciada.

O livro e também o filme têm uma construção minimalista, seja na descrição exterior da suja e ameaçadora paisagem, seja do caótico interior dos personagens. Somos testemunhas do desenrolar das consequências que até podem parecer previsíveis, mas jamais menos impactantes, sem abrir mão da poética, mas também sem fugir da angústia de um amor impossível: “Uma felicidade sem futuro, como qualquer felicidade que se preze”.


Maurice, ao contrário da obra acima comentada, não se passa no quente e úmido Pará contemporâneo, mas em uma fria Londres no início do século passado e também aborda as dificuldades do amor, mas desta vez entre jovens rapazes da aristocracia britânica. O livro de Edward Morgan Forster, de 1912, foi adaptado para o cinema pelo premiado diretor James Ivory, responsável por levar às telas dois outros livros de Forster (Retorno a Howards End e Uma Janela Para o Amor).

A adaptação de Maurice para as telas conquistou de cara três dos prêmios principais no Festival de Veneza em 1987: o Leão de Prata, para o diretor James Ivory; melhor trilha sonora e o troféu de melhor ator que foi dividido por James Wilby e Hugh Grant, este ainda no início da sua carreira de sucesso no cinema.

O livro trata de modo tipicamente britânico sobre as dificuldades de aceitação da homossexualidade na  aristocracia rural e acadêmica inglesa. Maurice e Clive (James Wilby e Hugh Grant, no cinema) se conhecem na universidade de Cambridge e após um período de intensa paixão juvenil e um cálido romance clandestino, Clive decide finalizar o idílio e viver uma farsa, casando-se com uma mulher e refreando qualquer relacionamento físico e afetivo com homens, sufocando o próprio desejo e legando ao apaixonado Maurice, por anos, uma vida de amor platônico e auto-repulsa por não conseguir debelar sua paixão, algo pouco viril numa sociedade rigidamente hierarquizada e machista.

A história, entretanto, revela uma esperança à altura do sofrimento suportado pelo gentil Maurice quando ele, rompendo as amarras da sua condição social, decide viver uma paixão por um rapaz de classe inferior, um duplo golpe na hierarquia e no machismo. Não há quem possa ter um coração de pedra para não torcer pelo amor desses dois rapazes tão diferentes e com tudo contra eles, que decidem enfrentar tantos dogmas da fria sociedade da época onde,  até 1967, a homossexualidade era um crime punido com prisão. 


Encerro com o trecho final do trabalho acadêmico "O Helenismo em Maurice", de José Ailson de Souza, doutor em literatura: "Muitas características apontadas pela crítica como defeitos do romance, são na verdade de onde a narrativa tira sua força. Refiro-me ao amplo emprego da sentimentalidade, na linguagem e na temática, para tratar do amor entre homens. É de certo modo óbvio que o autor procura abordar a questão de modo delicado, recorrendo a idealizações românticas, para valorizá-la, além de não ser acusado de promover pornografia, mesmo que postumamente – um receio expresso pelo autor. Em todo caso, considerando suas circunstâncias, e sua capacidade de reverberar entre nós, o romance de Forster é, assim como o seu protagonista, de uma coragem admirável, um feito intelectual e literário verdadeiramente heroico”.

6.7.18

O COMPLEXO DE PORTNOY E O TEATRO DE SABBATH



Os dois títulos acima fazem parte das 31 obras geniais do polêmico norte americano Phillip Roth, morto em maio último.

Roth foi um dos escritores mais prestigiados no mundo, o único americano em vida a ter suas obras completas publicadas pela Library of America, instituição que objetiva preservar a herança cultural americana. Oito dos seus livros foram adaptados para o cinema e o número de prêmios é respeitável, só tendo lhe faltado o Nobel, o que sempre motivou críticas unânimes à academia sueca.

O Complexo de Portnoy é a terceira obra de Roth e quando do seu lançamento, em 1969, foi uma bomba em termos de repercussão e polêmica. O livro levou o autor ao patamar dos grandes escritores e deixou-o milionário. Em 1972 o livro foi adaptado para o cinema

Toda a narrativa do livro é uma grande sessão de terapia do judeu americano Alexander Portnoy, — todos os protagonistas dos livros de Roth são judeus, como ele, espécies de alteregos — e aqui o narrador expõe ao analista suas pulsões sexuais incontroláveis e as obsessões com as quais não sabe lidar e que tenta, sem sucesso, reprimir.

Ao mesmo tempo o livro é obsceno e divertido e Portnoy tornou-se símbolo de uma cultura, um feito e tanto para um autor que ainda escreveria, com grande sucesso, dezenas de livros depois deste.

Quase meio século após seu lançamento, O Complexo de Portnoy mantém sua força, mesmo não chocando tanto como nos anos 70 e 80, quando a contracultura e a luta pelos direitos civis eram mais vibrantes.

Portnoy, o atormentado pelo seu forte Complexo de Édipo e culpa, não terá facilidade para se livrar das suas neuroses e da fortíssima influência da mãe judia — mãe judia é um clássico: "Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. Assim que tocava o sinal ao final das aulas, eu voltava correndo para casa, na esperança de chegar ao apartamento em que morávamos antes que ela tivesse tempo de se transformar. Invariavelmente ela já estava na cozinha, preparando leite com biscoitos para mim. No entanto, em vez de me livrar dessas ilusões, essa proeza só fazia crescer minha admiração pelos poderes dela”.

Com linguagem vulgar e narrativa sem cronologia, quase fluxo de pensamento, já que se trata de uma grande sessão catártica com um terapeuta, Roth não economiza nas tintas e percebemos um Portnoy repleto de autoironia, inteligência e sagacidade. Em certas passagens, como já foi relatado por vários leitores, fui tomado por gargalhadas. Despudorado e engraçado, esse livro conquista. Não pede licença nem perdoa.

Leia-o com deleite e sem culpa. Deixe toda culpa para o pobre Portnoy, pois ele já a tem de sobra.

 


O Teatro de Sabbath, de 1995, era o livro favorito do próprio Phillip Roth, entre todas as suas obras. Mais polêmico ainda do que O Complexo de Portnoy, a obra tornou-se de imediato um fenômeno em termos de adoração ou aversão. As feministas mais ferrenhas chegaram a colocá-lo no índice dos livros mais odiosos e seu personagem principal, o cínico e imoral  Mickey Sabbath, considerado a epítome do porco chauvinista.

O judeu quase septuagenário Mickey Sabbath é um artista de fantoches aposentado apresentado ao leitor em plena crise existencial e decadência física e moral. Acompanhamos seu declínio graças ao talento para criar conflitos e buscar situações limites que o levem cada vez mais para baixo. Nesse caminho, ele vê seus pouquíssimos amigos morrendo e em alguns momentos temos a impressão de que este homem é um bólido desgovernado que só é capaz de sentir e causar amargor.

Ledo engano. Sabbath, contra todo seu instinto canalha, mantém forte melancolia com algumas pessoas: o irmão mais velho, herói aviador abatido pelos japoneses na 2ª Guerra; a mãe, força da natureza e esteio da família, em demência senil após não superar a morte do filho. Após a morte da mãe, o pai de Sabbath segue o mesmo destino.

Sozinho, esse homem faz sua jornada rumo a um prometido, mas improvável suicídio. No caminho, conquistando prisão por indecência, demissão da Universidade por assédio sexual a uma aluna graças à férrea recusa em integrar uma sociedade onde há convenções e regras, Sabbath é incoercível seja pela lei, pelos costumes, pela moral ou pelo remorso. Trai, rouba, mente, subjuga, corrompe e estraga tudo à sua volta.

Mesmo atormentado pelos fantasmas do passado — em certos trechos há vários diálogos com a mãe morta (uma imagem extremamente judaica) — uma metáfora da sua solidão, ele vive cercado de mulheres com quem divide a sexualidade desregrada.

Mas Sabbath não é um personagem óbvio, um vilão raso, pois sob um olhar mais cuidadoso do leitor, exibe talvez um envergonhado verniz de ternura. Isso fica evidente na sua busca desesperada por um sentido final para sua vida após a morte de todos os seus parentes e mesmo após o câncer levar a sua amante, alguém tão importante para ele quanto foi a própria mãe.

Após Sabbath perder tudo e todos, já totalmente à deriva, Phillip Roth, como que emulando Machado de Assis ao defender seu Bentinho em Dom Casmurro, diz diretamente para o seu leitor: “Não seja tão duro com Sabbath, Leitor”. E defende seu protagonista a seguir, refletindo sobre qual homem resistiria a uma oferta sedutora, repetida várias vezes por uma moça com um terço da sua idade: “Nem o turbulento debate interior, nem a superabundância de autossubversão, nem os anos de leitura sobre a morte, nem a amarga experiência da aflição, da perda, da injustiça e da dor tornam mais fácil fazer bom uso dos seus miolos quando confrontado com uma oferta como aquela”.

Para o leitor brasileiro, sobretudo baiano, o livro reserva alguns momentos mais divertidos quando o protagonista relembra seu período de marinheiro, onde só lhe importava chegar a um porto qualquer para se deleitar nos prostíbulos do lugar. Sobre Salvador, Sabbath afirma que havia uma igreja e um bordel para cada dia do ano: “Lugar propício à imaginação, a Bahia” e recomenda a um dos poucos amigos deixar sua jovem filha virgem vir para cá: “Ela aprenderia muito mais sobre o texto criativo em um mês na Bahia do que em quatro anos na Universidade Brown”. E ao revirar as gavetas da moça e só encontrar objetos que denotam seu recato, o bruto sentencia sobre ela: “Você não sobreviveria cinco minutos na Bahia”.


Tudo bem que só li "O Teatro de Sabbath" este mês, mas estou sobrevivendo na Bahia há 55 anos. Não podem me acusar de recato!

5.6.18

DOIS GAROTOS SE BEIJANDO


Narrado por uma miríade de vozes de uma geração que morreu vítima da Aids, Dois Garotos Se Beijando, de David Levithan, é um livro de rasgar o coração. Intercala-se a leitura de suas páginas com lágrimas.

Acompanhamos Harry e Craig, dois adolescentes de 17 anos, ex-namorados, na sua tentativa de passar 32 horas se beijando para figurar no Livro dos Recordes. O desafio é fazer desse um ato público e político, em frente à escola em que ambos estudam e assim dar visibilidade a um tema tabu e ampliar o espaço da luta contra a homofobia e o preconceito.

Curiosamente, essa história é inspirada em um fato real. Os universitários Matty Daley e Bobby Canciello se beijaram sem parar por 32 horas, 30 minutos e 47 segundos no campus da Universidade de Nova Jersey.

Pelas regras do Guinness, o ato tinha que ser público e eles não podiam se sentar, usar o sanitário ou fraldas de adultos e tiveram que suportar o calor, o desconforto e as fortíssimas dores musculares sem desgrudarem os lábios por sequer um segundo.

Mas o livro ainda conta três outras histórias paralelamente: a de Peter e Neil, dois jovens que estão juntos há um ano; a de Ryan e Avery, que se conhecem num baile gay e um deles tem que se decidir como revelar que é transexual; e Cooper, um garoto solitário que atravessa suas noites em salas de bate papos na internet com homens desconhecidos e precisa enfrentar o drama de ter seu segredo descoberto pelos pais da pior maneira.

Todos os narradores unem-se em uma só voz para contar as histórias desses adolescentes. Eles, os narradores, já conhecem todas aquelas emoções por já terem vivido os mesmos dramas e afetos, enfrentaram os mesmos preconceitos e sentiram as mesmas dores quando estavam vivos. Somos os fantasmas da geração mais velha que sobrou. Você conhece algumas das nossas músicas. Não queremos assombrar você com melancolia demais. Nós te ensinamos a dançar.” Dizem.

Ao mesmo tempo em que os narradores demonstram empatia pelos dramas dos novos jovens, recordam a ironia do seu próprio tempo, refletindo “quando paramos de querer nos matar, começamos a morrer. Quando estávamos sentindo força, ela foi tirada de nós. Isso não deve acontecer com vocês.”

O conhecidíssimo poema Filtro Solar, versão do original de Mary Schmich diz: “Conselho é uma forma de nostalgia. Compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado do lixo, esfregá-lo, repintar as partes feias e reciclar tudo por mais do que vale.”

É isso que se vê em Dois Garotos se Beijando. Há uma dor subjacente ao fato de que estamos diante de conselhos de homens mortos tentando ajudar jovens vivos, evitando assim que eles passem pelos mesmos dissabores. Mas sabemos que isso é inútil não apenas porque os conselheiros estão mortos e nada podem fazer, mas porque conselhos são meras formas de nostalgia vã.

Por outro lado, há uma beleza imensa em poder ler essas páginas, esses conselhos mesmos, como se ainda houvesse alguma esperança. Mas eles, os narradores reconhecem: “Raramente somos unânimes em relação a alguma coisa. Alguns de nós amaram. Alguns não conseguiram. Alguns foram amados. Alguns não foram. Alguns nunca entenderam para que tanta confusão. Alguns queriam tanto que morreram tentando. Alguns juram que morreram de coração partido, não de AIDS”

Ao final da história, uma espécie de grito de desafio, uma ode à visibilidade com a qual não vejo outra forma mais perfeita de encerrar esse comentário: “Se juntarmos armários suficientes, temos o espaço de um quarto. Se juntarmos quartos suficientes, temos o espaço de uma casa. Se juntarmos casas suficientes, temos o espaço de uma aldeia, de uma cidade, de uma nação, do mundo”.


1.6.18

OS POLICIAIS GELADOS DE JO NESBØ



Há um ano eu nunca tinha ouvido falar no escritor norueguês Jo Nesbø. Somente com o lançamento do filme “O Boneco de Neve”, passei a prestar atenção à sua literatura policial e consumi-la como um faminto. Recentemente, li três livros da sua série sobre o detetive alcoólatra e viciado Harry Hole (Morcego, Baratas e Boneco de Neve). Há ainda quase dez títulos para serem degustados com o mesmo protagonista.


A literatura policial escandinava é quase um subgênero à parte na galeria de livros de suspense, envolvendo complicadas investigações e tramas policiais na linhagem dos mestres Agatha Christie (e seu detetive com TOC Hercule Poirot); Edgar Alan Poe (e o pai de todos os detetives de ficção, Auguste Dupain); Georges Simenon (com seu comissário Jules Maigret); Raymond Chandler (com seu detetive pinguço Philip Marlowe) e Arthur Conan Doyle (com o mais famoso de todos, Sherlock Holmes). Assim como o detetive Harry Hole, de Jo Nesbø, os protagonistas dessas novelas policiais são poços de idiossincrasias e dramas pessoais carregando cérebros brilhantes.

Autores suecos, dinamarqueses, finlandeses e noruegueses, como comprovam o sucesso da Série Millenium e vários outros, estão ganhando notoriedade no mundo inteiro com suas obras de forte impacto e seus personagens cheios de dores e amargores internos com seus próprios fantasmas para exorcizar. Os livros de Nesbø são traduzidos em mais de quarenta línguas e ele já chegou a ter três livros, simultaneamente, no topo da lista dos mais vendidos na Noruega.

Infelizmente, as adaptações das suas obras para o cinema não têm sido felizes. O filme baseado em “Headhunters” teve má recepção e Nesbø só aceitou vender os direitos porque os royalties iriam para sua fundação que ajuda crianças carentes a ler e escrever. A adaptação para as telas de Boneco de Neve também foi um fiasco como roteiro, edição e atuações e nem mesmo a presença de Michael Fassbender (X-Men e Shame) no papel do icônico detetive Harry Hole salvou a empreitada.

Em O Morcego, como nas obras seguintes, a editora Record refez o projeto gráfico das capas nas cores branco, preto e vermelho com detalhes em relevo e os livros passaram a ter melhor qualidade editorial. Aqui, Hole é enviado de Oslo para desvendar um misterioso assassinato de uma jovem norueguesa na Austrália. No meio da trama, o detetive luta contra seu alcoolismo e a tendência à autodestruição e enfrenta boxeadores aborígenes, traficantes, maníacos sexuais e a corrupção policial. Nesbø se esmera na contextualização da atmosfera da cultura australiana com seu passado colonial e racista.

No livro seguinte, Baratas, o detetive Hole é enviado para a Tailândia para investigar, com o máximo de brevidade e sigilo, a morte de um embaixador norueguês apunhalado em um motel barato de Bangkok. A missão no fundo é evitar um escândalo diplomático. Em uma atmosfera de trânsito barulhento e caótico e calor e umidades asfixiantes, Hole vê-se em uma trama que envolve antros de ópio, bares vagabundos de striptease, templos budistas e pedofilia. No decorrer da investigação, após um rastro de crimes, ele percebe que pode ser a próxima vítima do assassino. 

E finalmente, em Boneco de Neve, o policial norueguês enfrenta um serial killer em Oslo que mata mulheres, aparentemente de modo aleatório, no primeiro dia de inverno de cada ano e deixa um boneco de neve no jardim de suas casas usando uma peça de roupa da pessoa morta. O jornal inglês The Guardian considerou este o livro mais ambicioso de Jo Nesbø. O The Times o comparou ao Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris. Cada capítulo é eletrizante, como costumam ser todas as aventuras de Harry Hole.

Boneco de Neve é o sétimo romance de Nesbø e vendeu 160 mil exemplares apenas na semana do lançamento e é o romance policial norueguês mais vendido até hoje. 
Todos os livros têm em comum finais surpreendentes, que fazem valer cada minuto da leitura e desejar mais livros com o atormentado Harry Hole.



14.5.18

A TETRALOGIA NAPOLITANA DE ELENA FERRANTE

A escritora italiana Elena Ferrante é um sucesso na literatura mundo afora, mas eu, por preconceito, sempre achei que o seu seria um tipo de leitura mais feminina, talvez um tanto devido à escolha das ilustrações para as capas dos seus livros que a Editora Biblioteca Azul - Editora Globo fez para o Brasil.

Não sei como, venci o preconceito e após terminar de devorar as mais de 1.500 páginas dos quatro volumes da sua Tetralogia Napolitana, posso dizer que estou viciado na escrita de Ferrante.

            Apesar de ainda considerar péssimas as capas dos quatro livros, inadequadas ao conteúdo áspero e sujo da ambientação da história narrada em Nápoles ou no ambiente acadêmico e político ao longo de mais de 50 anos da Itália pós-guerra, confesso que ultrapassei a barreira das ilustrações infantis das capas para desfrutar de uma das melhores narradoras dos últimos anos.

         
            A tetralogia, que já vendeu quase 6 milhões de exemplares pelo mundo, é formada pelos romances: A Amiga Genial,  História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida. Tive o privilégio de ler os quatro livros de enfiada, um após o outro, ao contrário daqueles que começaram a lê-los na medida em que foram sendo publicados sucessivamente, ano a ano de 2012 a 2015.

           As obras narram as vidas de duas amigas de infância em um bairro pobre de Nápoles. Lenu e Lila. A primeira, a narradora, escreve já na maturidade sobre o desenrolar das histórias de ambas, os caminhos que percorreram, suas dores, a maternidade, os amores e os ódios.

A história nos faz ora admirar ora detestar uma ou outra, torcendo pelo sucesso de Lenu no mundo acadêmico e na literatura ou pela libertação de Lila da miséria social do bairro pobre de Nápoles, representação do microcosmo da Itália pós-guerra, com os assassinatos políticos, a luta sindical e partidária e a máfia napolitana, a Camorra.

A relação das duas amigas é o foco narrativo dos quatro volumes e Ferrante, habilmente, alterna as histórias de uma e de outra, fazendo com que os leitores fiquem presos ao vínculo único que as une que é desenvolvido nos muitos episódios em que, ao longo da vida, elas convivem em momentos diferentes, da infância à vida adulta, já casadas e com filhos.

          Há uma notável construção sobre a ambivalência das amigas Lenu e Lila, suas passionalidades napolitanas, a insuperável competitividade de ambas e seus rancores, mas também a ternura, os vínculos familiares e mesmo os amores divididos por ambas.

A crítica tem feito seguidos elogios à escrita de Ferrante que se insere na tradição da literatura feminina sem apelar para aspectos mais fáceis e de leitura rápida. As obras alcançam ainda a esfera do romance histórico, pois perpassam pela vida das duas amigas todo o panorama político e social da Itália na segunda metade do século passado.

No bojo de toda a história, vemos uma profunda crítica ao universo machista e retrógrado e uma elegia sobre a busca da voz própria e feminina, que inclui a tetralogia napolitana no chamado “romance de formação”, tradição em que estão obras que acompanham as transições da vida de um personagem não apenas ao longo dos anos, da infância à velhice, mas sua evolução psicológica e crítica que muito o definem em um antes e um depois, como acontece em David Copperfield, de Charles Dickens; Um Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce e O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D.Salinger, entre outros.

        Que seja bem-vinda a adaptação da obra para as telas pela HBO, mas, se eu fosse você, não esperaria e começaria logo a devorar os livros para ao menos poder também dizer, como sempre acontece: o livro é muito melhor.