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30.9.25

21 LIVROS LIDOS DE JUNHO A SETEMBRO DE 2025

Há 7 anos, publico breves resenhas dos livros lidos e divido as postagens em três blocos. Aqui estão os 21 lidos de Junho a Setembro deste ano.  Foram livros de 16 autores homens e 5 autoras mulheres. 12 físicos e 9 digitais. Se tivesse que comprar todos eles na Amazon, custariam R$ 1.214,00 mas como só paguei pelos físicos, tendo baixado os demais na internet, economizei R$ 433,00. 

Já havia publicado a lista dos 22 lidos de Janeiro a Maio.  

21- HELIOGÁBALO - Texto teatral de Jean Genet de 1942 que por muito tempo foi considerado perdido, mas que recentemente foi descoberto numa biblioteca nos Estados Unidos. Lançada há pouquíssimo tempo, retrata ficcionalmente a história do curto período do imperador romano adolescente Heliogábalo (de 218 a 222). O palácio imperial vira um palco de poder, traição e assassinato. Não é preciso conhecer a história dos imperadores romanos para embarcar na decadência do poder: Esse trecho exclamado da boca do próprio Heliogábalo é excepcional:  “Sou o filho da noite. Nascido da noite grávida pela verga monstruosa de um criador de porcos judeu, quem sabe. E eis a maravilha: eu, pequeno plebeu sem nobreza, eu, o selvagem, eu, o obscuro, nascido da coxa de um zé-ninguém, justo eu fui escolhido para ser o sucessor dos imperadores romanos” Heliogábalo foi morto juntamente com sua mãe após um reinado repleto de escândalos, crimes e devassidão.  Todos os elementos caros ao autor Jean Genet de quem só havia lido Querelle, adaptado para o cinema por Rainer Werner Fassbinder.

20- A SENHORA DAS ÁGUAS- Terceiro livro que li da autora inglesa Philippa Gregory parte da série de seis volumes sobre A Guerra das Rosas, em que a autora foca nas figuras femininas ligadas à monarquia inglesa da Idade Média. Dessa vez, a narradora é Jacquetta de Luxemburgo, descendente da deusa das águas Melusina e com capacidade de prever o futuro. Estamos no auge da Guerra dos Cem Anos, com a Inglaterra lutando pelos seus territórios conquistados na França. Após assistir à morte de Joana D’arc, feita prisioneira por seu tio, Jacquetta se casa e logo enviúva do poderoso duque de Bedford, tio do fraco e adolescente rei da dinastia Lancaster Henrique VI. Casa-se novamente, desta vez por amor, com o escudeiro do ex-marido, tem doze filhos, participa de diversas batalhas e assiste à filha Elizabeth casar-se com o novo rei York Eduardo VI.

19 – CARTAS A UM JOVEM POETA – O primeiro contato que tive com a escrita do tcheco Rainer Maria Rilke, um dos principais poetas do século XX. Este livro, xodó e unanimidade, trás dez cartas trocadas pelo jovem Franz Kappus, poeta indeciso entre a carreira literária e a militar com Rilke. Após a morte do autor, as correspondências foram compiladas nesse livro belíssimo que merece ser lido e relido infinitas vezes de tão belas as suas mensagens. É uma pena que a obra de Rilke não seja mais reconhecida atualmente como merece.


18- O FANTASMA – Quinto livro que li do escritor inglês Robert Harris após a trilogia de Cícero e o excelente O Conclave, recentemente adaptado com sucesso para o cinema. Esse também foi adaptado para o cinema em 2010 por Roman Polanski, com Ewan McGregor e Pierce Brosnan nos papéis de um ghostwriter e do seu biografado ex-primeiro-ministro britânico. Apesar de o filme ter recebido diversos prêmios como o urso de prata, em Berlim, e o Cesar francês para Polanski, e apesar de eu gostar muito do estilo de escrita do autor, achei o livro muito ruim e irritante. A história é muito fraca sobre um ex-primeiro ministro suspeito de envolvimento com sequestro e tortura.

17 - A EMPREGADA – Primeiro livro que li da autora Freida McFadden e que faz parte de uma trilogia de extremo sucesso, sendo campeã de vendas no mundo. O livro nem é tão bom e a escrita tem vários problemas, mas mesmo assim é um daqueles prazeres culpados, ou guilty pleasures, pois não dá pra largar de tão envolvente que é a história. Tem furos?  Tem. Tem uma linguagem ligeira e rasinha? Tem. Mas a história é boa e um passatempo tranquilo. Uma ex-presidiária em liberdade condicional vai trabalhar numa mansão em que um casal e uma filha não são certinhos demais para ser verdade. Uma história cheia de reviravoltas. O livro ficou 74 semanas consecutivas entre os primeiros do The New York Time.

16- THE WALKING DEAD- A QUEDA DO GOVERNADOR-PARTE 1- Terceiro volume da série de Jay Bonansinga e Robert Kirkman e que arrebatou fãs pelo mundo após a adaptação para a Netflix. Li o volume 3 achando que era o primeiro. Não sei como não percebi esse erro até porque já tinha assistido à série. Agora preciso ler o volumes 1 e 2. O ritmo é muito bom e prende a atenção. Detalhe para o último capítulo e para o embate violentíssimo e altamente satisfatório entre Michonne e o Governador. Aliás, o personagem do Governador foi eleito um dos piores vilões da literatura, mas o ator David Morrissey, da série, pode ser escolhido como o ator mais canastrão e caricato da história. Não entendo como alguém não percebeu a total falta de carisma desse ator para representar um vilão tão glorioso, o que já tinha ficado claríssimo no seu péssimo desempenho no filme Instinto Selvagem 2 de 2006.

15- O ETERNO MARIDO – 12º livro que li do mestre do romance russo Fiódor Dostoievski. Caí na besteira de comprar o e-book por R$ 1,99. Poderia ter comprado  outra edição digital por até R$ 30,00 ou uma edição física por até R$ 50,00 e justamente por isso acabei lendo uma edição ruim cuja tradução é para o português de Portugal. Apesar de a história ser ótima, como acontece com tudo de Dostoiévsky, é impossível não se estressar com a tradução. História do reencontro, após 9 anos, de dois homens, um deles, o viúvo e "eterno marido", e o outro o ex-amante da falecida. Aqui, encontramos todos os personagens típicos do universo do autor: o homem trágico, as doenças, o homem mau, os bêbados, a criança que sofre e as pessoas bem intencionadas.  

14- HISTÓRIA DO MEDO NO OCIDENTE – Primeiro livro que li de Jean Delumeau, historiador francês especialista em estudos sobre a história do Cristianismo, premiado pelos estudos do Renascimento e professor de História das Mentalidades Religiosas.  Aqui, o autor escreve um precioso tratado com quase 700 páginas que podem ser desfrutadas com imenso prazer a partir do que chama de a menos heróica das paixões humanas apontando os pesadelos mais íntimos da civilização ocidental do século XIV ao XVIII - o mar, os mortos, as trevas, a peste, a fome, a bruxaria, o Apocalipse, Satã e seu agentes (o judeu, a mulher, o muçulmano). 

13- OS PROFETAS – Primeiro livro que li de Robert Jones Jr, escritor negro e homossexual norte americano. História extremamente bem escrita, ao mesmo tempo brutal, sensível e amarga, que se passa no Mississipi no período da escravidão.  Os jovens escravizados Isaiah e Samuel vivem em uma plantação de algodão e mesmo em meio a toda a humilhação, sofrimento e trabalhos extenuantes, se amam profundamente. A relação não causa transtorno entre os demais escravizados que, por força da ancestralidade, veem o amor entre dois homens com naturalidade, porém esse afeto causa desconforto entre os donos da fazenda e perseguição de Amos, escravizado mais velho, convertido ao cristianismo, que busca vantagens com a pregação do Evangelho. Lendo o livro, é impossível não enxergar ecos dos espetaculares James Baldwin e Toni Morrison, assumidas influências literárias para o autor. 

12- CINZAS DO NORTE – Quinto livro que li do amazonense Milton Hatoum que como em todas as obras anteriores, se passa em Manaus com todo o seu fascínio. Aqui, temos a história dos amigos Olavo e Raimundo cuja amizade durará toda a vida.  Olavo é pobre e criado por um casal de tios e que vivem à sombra da rica família Mattoso. Raimundo Mattoso é o amigo rico que deseja ser pintor, mas cujo pai burguês deseja que ele siga o caminho do comércio da família.  Tendo como pano de fundo o regime militar, os amigos vão seguir rumos opostos, mas nunca deixarão de manter o afeto.

11- AO CAIR DA NOITE – Esse foi o 50º livro que li do mestre do terror Stephen King.  São 13 contos com comentários do autor sobre a inspiração para cada história. Aqui estão alguns: A Corredora é uma mulher perseguida por um psicopata em uma praia quase deserta. Posto de Parada tem um homem dividido sobre como agir diante da briga de um casal. Mudo tem um vendedor que dá carona para um homem silencioso, sem saber que ele escuta bem até demais; N é homem com transtorno obsessivo-compulsivo diante de um misterioso círculo de pedras. Wila é uma comovente história de pessoas que não percebem que estão mortas. O Gato dos Infernos mostra o quanto King é mestre em retratar animais perigosos. No Maior Aperto é uma das histórias mais nojentas que já li e que tem um homem preso num banheiro químico. 

10- UM CONTO DE DUAS CIDADES – Terceiro livro que li de Charles Dickens. O segundo livro de ficção mais vendido da história, só perdendo para Dom Quixote. A história se passa no período da Revolução Francesa. Quando o livro começa temos o Dr. Manette, libertado da Bastilha após 18 anos preso, e diversos personagens característicos do romance folhetinesco. Esse livro aquela que é considerada por muitos como a melhor de toadas as aberturas de romance da Literatura: “Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; a era da sabedoria, a era da tolice; a época da crença, a época da incredulidade; a estação da Luz, a estação das Trevas; a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós; íamos todos direto para o Céu, íamos todos para o lado oposto – em suma, era um período tão semelhante ao atual, que algumas de suas autoridades mais barulhentas insistiam que fosse recebido, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação.”

9- O FANTASMA DA ÓPERA – Primeiro livro que li de Gaston Leroux. A história clássica de terror gótico conhecida por todos pelo filme e pelo musical famoso. Publicado originalmente em 1909 conta a história de um suposto fantasma que habita os porões da Ópera de Paris criando mil problemas para os funcionários e artistas até que ele se apaixona pela cantora Christine Daaé. O triângulo amoroso trágico se forma quando é cortejada pelo jovem e belo visconde Raoul de Chagny.  A edição de luxo e de capa dura que li acompanha pôster e conteúdo extra.



8- OS CEM MELHORES POEMAS DO SECULO XX -  Após a antologia dos Cem Melhores Contos do Século, temos de volta o professor Ítalo Moriconi reunindo os versos mais importantes da literatura brasileira com poemas de autores como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Oswald de Andrade, Vinícius de Moraes, Mário de Andrade, Ferreira Gullar, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Antonio Cícero, Adélia Prado, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos, Augusto e Haroldo de Campos, Paulo Leminski e muitos Outros.
7- CAFÉ PRETO – Mais uma obra da insubstituível dama do crime Agatha Christie. Temos aqui novamente o detetive belga Hercule Poirot convocado por um famoso cientista inglês que teme que sua fórmula secreta seja roubada, mas Poirot chega tarde demais e seu cliente acaba de ser morto e sua preciosa fórmula está desaparecida. Todos os ocupantes casa são suspeitos, como sempre ocorre nos livros da autora mas sabemos que no final tudo será desvendado por Poirot. Um detalhe curioso é que a obra originalmente foi escrita para o teatro e o biógrafo de Agatha Christie a transformou em um romance, mas percebe-se a estrutura teatral subjacente.

6- A FEITICEIRA DE FLORENÇA – 12º livro que li de um dos meus escritores favoritos: Salman Rushdie. História que faz várias idas e vindas no tempo envolvendo a Florença renascentista e a Pérsia do imperador Akbar, o Grande em 1514. Com o texto repleto de realismo fantástico típico das obras de Rushdie temos uma miríade de personagens como o italiano Nicolau Machiavel. O xá Argalia conhece a belíssima Qara Köz,  feiticeira de Florença, ex-amante do soberano e a história da feiticeira é contada ao imperador mongol Akbar, o Grande, por um atrevido forasteiro que passa por Istambul até a Florença dos Médicis e vai até a América recém descoberta.

5- FACA – 13º livro que li do autor de romances policiais norueguês Jo Nesbo e mais um mistério a ser desvendado pelo trágico e genial detetive alcoólatra Harry Hole. Quando uma mulher é encontrada morta em casa, Harry acorda embriagado e com as mãos sujas de sangue sem recordar nada da noite anterior. Svein Finne, serial killer preso por Harry, está de volta à cena e aparentemente o crime tem sua assinatura. Aos poucos, Harry recupera a memória da noite do crime e se convence de que ele mesmo pode ser o assassino. Como nos livros anteriores, um suspense cheio de reviravoltas e com uma lista de suspeitos que cresce sem parar. Esse pode ser o caso mais difícil de Harry Hole.

4- TODA POESIA – Aqui está um improvável sucesso de vendas que surpreendeu o mundo editorial. Todos os livros de poesias do curitibano Paulo Leminski reunidos desde os primeiros dos anos 1970, da chamada “geração mimeógrafo”.


3- POEMAS – Sou completamente apaixonado pelos poemas da polonesa Wislawa Szymborska, prêmio Nobel de Literatura. Ela escreveu pouco na vida, cerca de 250 poemas apenas, mas todos extremamente impactantes e facilmente reconhecíveis no estilo próprio. Essa coletânea tem 44 poemas e excelente prefácio e tradução de Regina Przybycien. Obras primas como: O terrorista, ele observa, A Mulher de Lot, Um Grande Número, Vietnã e O Quarto do Suicida.




2- A COR PÚRPURA – Primeiro livro que li de Alice Walker, ganhadora dos prestigiados prêmios Pulitzer e American Book Award e que baseou a obra-prima do cinema dirigida por Steven Spielberg além de um aclamado musical da Broadway. Ambientado no Sul dos Estados Unidos, entre 1900 e 1940, aqui temos a história de Celie, negra e semianalfabeta, estuprada pelo padrasto, forçada a se casar com um viúvo violento que lhe causava constantes abusos físicos e morais. Por 30 anos, Celie escreve cartas para Deus, mas quando ela crê que sua única e querida irmã Nettie foi morta, o estilo da escrita de Celie muda sem saber que a sua irmã é missionária na África. Eleito pela BBC um dos 100 romances que definem o mundo.

1- O LEOPARDO – Primeiro livro que li do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa e seu único romance. Publicado em 1958 após ser recusado por diversas editoras até finalmente ser um dos livros mais lidos da Itália, o autor nos leva até anos 1860 no período do Risorgimento, quando os divididos estados italianos travam uma guerra sangrenta que resultou na unificação do país como vemos hoje. Acompanhamos a história de Dom Fabrizio Salina e sua decadente família aristocrática siciliana que sofrem com as ameaças das forças revolucionárias e democráticas. Ele tem que decidir de que lado vai ficar na nova ordem. Adaptado para o cinema por Luchino Visconti e ganhador da Palma de Ouro em 1963.

31.5.22

ÚLTIMAS LEITURAS

 

LIVROS LIDOS DE JANEIRO A MAIO DE 2022

Há 4 anos publico uma breve resenha dos livros lidos no ano. Para alguns deles, quando me animo, dedico resenhas maiores. Nos últimos quatro anos, minha média anual de leituras está em 56 livros. Foram 40 em 2018; 68 em 2019; 61 em 2020; e 55 em 2021.

Divido as postagens sempre em três blocos Aqui estão os 21 livros que li de Janeiro a Maio deste ano. Foram 8 em papel e 13 em e-book, hábito que pensei que jamais fosse me acostumar de tanto que adoro os livros físicos, mas a praticidade do digital me fez capitular.

1-O COLAR DA RAINHA – Primeiro livro que li de Alexandre Dumas. Uma intrincada história cheia de reviravoltas sobre uma ambiciosa criada da rainha francesa Maria Antonieta, fisicamente muito parecida com a patroa, que aproveita disso para participar de uma trama para minar a já fragilizada reputação da realeza. O livro é um romance histórico que trata das excentricidades da alta nobreza francesa e do declínio da monarquia naquele país mesclando história e ficção numa trama deliciosa e breve.



2 e 3- OS CAÇADORES DE DUNA e OS VERMES DE AREIA DE DUNA- Após os seis primeiros e excelentes livros da saga original de Duna, o filho do autor, Brian Herbert, escreveu novas histórias. Esses dois novos livros deram sequência à série. Aqui, núcleos separados irão se encontrar no último livro num final apoteótico, mas um tanto anticlimático. São muitos personagens que vamos reencontrar e também novos, muitas tramas impossíveis de acompanhar para quem não leu ao menos o último livro da hexalogia original. Foram publicados também livros cujas narrativas cronologicamente antecedem a saga original: desses eu já havia lido A Casa Atreides e A Casa Harkonnen, faltando o terceiro volume, A Casa Corrino.

4-O OUTONO DA IDADE MÉDIA- Publicado em 1919, este livro é considerado um dos mais importantes já escritos sobre a Idade Média. Escrito pelo historiador holandês Johan Huizinga, tem mais de 550 páginas com um texto deliciosamente fluido, apesar de tratar de um tema aparentemente complexo que é o período final da Idade Média, o autor, sabiamente, utilizou métodos e fontes que não eram usuais na época, aproximando-se do que tempos depois seria batizado de História das Mentalidades.  Aqui, a vida medieval é retratada cultura e artisticamente com seus profundos aspectos religiosos e políticos além dos seus modos cotidianos de lidar com a felicidade, os lutos, as guerras, os medos e os afetos. Já escrevi uma resenha completa sobre ele no blog.

5-O CREPÚSCULO E A AURORA- Este livro do autor britânico Ken Follett é o quarto volume da história que começa no monumental Os Pilares da Terra, continua com Mundo Sem Fim e segue com Coluna de Fogo, na chamada Saga Kingsbridge. Se nos três livros anteriores a história acontecia numa sequência temporal, aqui os fatos acontecem cronologicamente antes dos demais, perto do ano 1.000 na Inglaterra, com ataques de vikings e tramas que seguem o mesmo ritmo dos outros livros com personagens carismáticos sofrendo, enfrentando nobres poderosos, religiosos inescrupulosos e tramas cheias de traição e um tanto de final feliz. Vale muito a leitura das quatro obras, pois o autor é mestre nas reconstituições históricas.

6-ASCENSÃOEste foi o 36º livro de Stephen King que li (abaixo, os outros três que completam os 38 dele que li). Uma história que lembra a do seu livro A Maldição do Cigano. Aqui temos um homem que de repente começa a perder muito peso, mas sem alterar sua aparência. Um livro curto (apenas 144 páginas) para os padrões verborrágicos do autor e não se trata de um livro de terror como alguns dos mais conhecidos de King. Quem dera o autor conseguisse ser objetivo e retirar tanta gordura desnecessária de outros filmes como fez nesse ótimo livro Ascensão.

7-LOVE A HISTÓRIA DE LISEY Aqui King nos empurra 680 desnecessárias páginas (podia ter cortado metade) de uma história de amor entremeada de um tipo de viagem por psicotrópico. Temos aqui um escritor dominado pelos seus demônios e cujo amor da esposa é um tipo de salvação. Após ler o livro, assisti à série da Apple TV com Julianne Moore e Clive Owen com cenas violentíssimas e chega a ser mais “doida” do que o livro. Os vilões, o psicopata Dooley e o fantasmagórico Rapaz Espichado não são assustadores ou carismáticos suficientes para carregar o antagonismo da história. Lembrando tantos personagens assustadores já criados por King, o mestre aqui ficou devendo. Dois vilões que não valem meio.

 

8-SACO DE OSSOS O pior livro de Stephen King que já li, com suas infinitas 568 páginas, que mereciam uma machadada ao meio. Vi o filme homônimo e achei tão fraco quanto, com a vantagem de ter eliminado a gordura desnecessária. Outro livro sobre um escritor que aqui sofre de bloqueio criativo após a morte da esposa. Ainda em luto, ele resolve voltar à casa de veraneio à beira de um lago para se inspirar (no filme ele segue para a casa do lago pouco tempo após a morte da mulher, mas no livro King o arrasta por mais de cem páginas até decidir leva-lo à tal casa) onde ele vai se envolver numa história de custódia de criança e atormentados fantasmas do passado. 

 

9-STEPHEN KING VAI AO CINEMA- Livro que reúne cinco contos já publicados em outros livros de King com comentários novos do autor sobre cada conto e suas adaptações cinematográficas. Dos cinco contos eu já havia lido dois (Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank e As Crianças do Milharal) então valeu muito a leitura dos outros três (1408; A Máquina de Passar Roupas e Low Men in Yellow Coats), o último deles ainda não publicado no Brasil já que pertence ao livro Hearts in Atlantis e que traz personagens do multiverso de King com muitas referências à excelente série A Torre Negra. Recomendo muito aos fãs do autor.

10- FRANKENSTEIN – De tanto que essa história está presente no nosso imaginário, fico até surpreso de somente este ano, aos 58, eu ter lido esse clássico da inglesa Mary Shelley. Com o subtítulo de O Prometeu Moderno, conta a conhecida história do médico de Victor Frankenstein que conseguiu dar vida a um ser morto e assustador. A partir do “nascimento” então, criador e criatura vivem num jogo de perseguição repleto de horror. É o primeiro livro de ficção científica da literatura mundial a se tornar um clássico do terror e é importante lembrar que se trata de uma obra escrita por uma mulher, e no começo dos anos 1800, o que não é pouca coisa.

11-AS SOMBRAS DO MAL - AS FITAS DE BLACKWOOD-  Primeiro livro que li da dupla Guillermo del Toro e Chuck Hogan, apesar de já ter comprado há tempos e ainda não ter lido seus três primeiros livros: Noturno, A Queda e Noite Eterna. Aqui temos o trabalho conjunto de uma agente do FBI com o enigmático Hugo Blackwoood. A agente testemunha um crime brutal e inexplicável e começa a questionar sua própria sanidade. Ela encontra fitas antigas que a levarão até um fascinante homem que é a chave para desvendar o que aconteceu com o seu parceiro e ainda defender a humanidade de uma ameaça sem rosto: os incorpóreos, espíritos que se alimentam de emoções e que só buscam o êxtase da morte e do caos. Excelente.

12-A CASA SOTURNA- De Charles Dickens. Foi o primeiro livro de Dickens que li e escrevi no blog uma resenha inteira. Em suas 800 páginas, o autor discorre sobre temas sempre presentes nos seus livros, como o sofrimento das crianças pobres nas ruas inglesas. Infelizmente o livro, que estava esgotado há anos, foi relançado com graves problemas na tradução e erros de revisão. Descuido pela tradução de termos de uso lusitano no lugar de brasileiros, como “quinta”, para terreno; “miúdo”, para criança; “gira”, para maluco e “algibeira”, para bolso. Dickens tece críticas ácidas ao Judiciário por meio do motor da história: um processo que se arrasta por gerações sem jamais chegar perto de uma solução.

13-MANSFIELD PARK– Segundo livro que li da inglesa Jane Austen (após A Abadia de Nothanger) Com 608 páginas, acompanhamos a inesperada heroína Fanny Price, que não é uma protagonista óbvia já que não é vigorosa, aventureira ou audaz mas sim uma moça frágil, insegura tímida que deixa a casa dos pais pobres para morar com os tios ricos onde convive com parentes muito diferentes e complicados. Este é o romance da maturidade de Jane Austen e contido em comparação aos seus livros anteriores Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade (que ainda não li). A excelente edição da ‎ Penguin-Companhia das Letras traz ainda textos adicionais de análises de críticos e notas explicativas sobre a obra, a autora e o contexto histórico.


14, 15 e 16-FUNDAÇÃO, FUNDAÇÃO E IMPÉRIO e SEGUNDA FUNDAÇÃO – Escrevi no blog uma resenha completa sobre esses três livros de Isaac Asimov, de quem só havia lido dois livros (Eu Robô e O Homem Bicentenário). Há mais quatro livros que completam a saga mas ainda não os li. Confesso a minha decepção com a leitura pois a saga carece de fôlego narrativo, pois no fundo são contos encadeados para virarem livros, e nem são livros grandes. Nenhum dos três tem mais de 230 páginas cada, com personagens importantes desaparecendo em pouco tempo com os saltos temporais. A primeira temporada da série da Apple TV, adaptação da saga tem inegável riqueza da superprodução mas não segue fielmente a trama dos livros, sendo uma história dos vácuos deixados pelos originais. Achei até melhor do que o original, o que é raro de acontecer.

 

17-O LIVRO DO DESASSOSSEGO O livro considerado a obra máxima de Fernando Pessoa. Assinado pelo semi-heterônimo Bernardo Soares. Um livro clássico para ser lido, relido com calma, como verdadeira obra de consulta e referência. Uma obra existencialista, repleta de reflexões e questões filosóficas que merecem ser degustadas com paciência e sem pressa pelos leitores. O meu exemplar praticamente não tinha mais espaço para marcações. É tudo perfeito. Não sei como alguém pode ser tão genial como Fernando Pessoa na literatura. Tudo é perfeito. Ainda irei reler o livro muitas vezes, eu sei.

18-SANGUE NA NEVE Há mais de um ano não lia outro livro de um dos meus escritores favoritos, o autor norueguês Jo Nesbo, de quem já havia devorado nove obras. Neste romance não temos o protagonista de vários dos livros do autor, o atormentado policial Harry Hole, mas, temos outro atormentado, Olav, cujo único talento é matar. Mas, apesar de ser um exímio matador de aluguel, Olav tem uma natureza sensível e seu último trabalho será matar a esposa do chefão das drogas de Oslo que estaria traindo o marido. Com elementos noir, Olav se apaixona pela mulher do chefe e decide que pela primeira vez não vai cumprir um trabalho, erro que lhe cobrará um preço emocional e psicologicamente altíssimo. Nesbo sempre afiado como uma navalha.

19-SERIAL KILLERS - ANATOMIA DO MAL- Livro de 480 páginas do estudioso Harold Schrechter, anunciado como: “O dossiê definitivo sobre assassinos em série”, tem uma edição em capa dura ilustrada da editora Dark Side. Infelizmente, a versão digital que li não corresponde exatamente ao original devido aos erros de tradução e falhas primárias como traduzir o grupo The Police como “Polícia” ou a canção Psycho-Killer do Talking Heads como Psico-assassino. Apesar disso, é uma leitura interessante que relaciona psicopatas em série da história que inspiraram filmes, livros e canções como Norman Bates (Psicose), Hannibal Lecter (O Silêncio dos Inocentes), Jack, o Estripador e inúmeros outros com estatísticas intrigantes: 76% dos serial-killers são dos EUA onde 84% são brancos, 90% são homens e 65% das vítimas são mulheres.

 

20-ELIZABETH I- UMA BIOGRAFIA-Escrito pela jornalista inglesa Lisa Hilton e com 416 páginas é anunciado como um retrato definitivo da Rainha Virgem. Filha de Henrique VIII e Ana Bolena, Elizabeth reinou por 45 anos e foi considerada uma das maiores governante da história da Inglaterra. O livro mostra que o país sob seu comando se tornou a grande potência política, econômica e cultural do Ocidente e recria não apenas o cenário da era elizabetana, mas a complexidade da personalidade da rainha que a vida toda lutou contra os fantasmas da decapitação da mãe por ordem do pai, a permanente suspeita de bastardia e o "fantasma" de Maria Stuart, prima e rainha que mandou decapitar.

21-GUIA DE LEITURA: 100 AUTORES QUE VOCE PRECISA LER- Coleção de breves resenhas de diversos autores, sob a organização de Léa Messina, guia que apresenta, de modo sucinto, cem escritores que se destacam no ramo da ficção e que, através dos séculos, deixaram sua marca na imaginação humana. Traz ensaios de críticos literários, jornalistas, escritores e professores apaixonados pela leitura. A lista tem autores de todo o mundo, atuais e da antiguidade. Valioso como obra de referência. Dos 100 listados, já havia lido mais da metade, outros estavam esperando na minha estante para serem lidos. Agora, tenho como meta, incluir na minha lista de leituras obras de outros autores deste guia. Alguns deles, confesso, ainda não conhecia.


24.3.22

A CASA SOTURNA

Confesso minha ignorância sobre a existência deste livro de Charles Dickens, escritor que é uma verdadeira instituição inglesa. Já havia comprado seus livros mais conhecidos (David Copperfield, Oliver Twist, Um Conto de Duas Cidades, A Pequena Dorrit, Grandes Esperanças e Um Conto de Natal), mas nunca tinha tomado coragem para ler nenhum. E veja que coisa: comecei por ler o autor pelo único que não conhecia.

A Casa Soturna foi um romance publicado em 1853 e é considerado pela crítica como a obra mais perfeita de Dickens. Em suas 800 páginas, o autor discorre sobre aqueles temas sempre presentes nos seus livros, como o sofrimento das crianças pobres nas ruas inglesas. Aqui, Dickens, que já havia trabalhado no sistema legal britânico, tece críticas ácidas ao Judiciário por meio do motor da história: um processo que se arrasta por gerações sem jamais chegar perto de uma solução, pondo em xeque o mastodôntico sistema jurídico inglês do século XIX.

Esta história, como todas as demais do autor, já foi adaptada mais de uma vez para as telas em filme e minissérie com seus mais de 40 personagens magistralmente manipulados pelo escritor, revelando o perfeito domínio da narrativa, apesar de deixar o leitor algumas vezes confuso com os diferentes enredos que vão se entrecruzando. O bom humor de Dickens é surpreendente por estar em uma trama que aborda pobreza, morte, assassinato e solidão.

A primeira página do livro já dá uma mostra da narrativa especial na descrição da ambientação não lisonjeira de Londres. Imediatamente, lembrei-me da descrição feita da cidade de Paris no livro O Perfume, de Patrick Süskind, com a diferença de que na Casa Soturna o conjunto se mostra através do olhar, enquanto no Perfume tudo está ligado ao olfato. Eis Londres em todo o seu fog e “esplendor”:

“Tanta lama nas ruas, como se a superfície da terra houvesse acabado de emergir das águas, e não seria maravilha encontrar-se um megalossauro, de doze metros de comprimento mais ou menos, saracoteando-se como um lagarto elefantino, no alto da colina de Holborn. Poder-se-ia imaginar que a fumaça que descia das chaminés, formando uma garoa leve e escura, com flocos de fuligem, tão grandes como fornidos capulhos de neve, era luto posto pela morte do sol. Cães indistintos no meio do lodaçal. Em não melhor estado os cavalos, enlameados até os antolhos. Pedestres, entrechocando os guarda-chuvas, como que contagiados todos de mau humor, escorregando nas esquinas das ruas, onde dezenas de milhares de outros pedestres vinham deslizando e escorregando desde que o dia raiou (se é que um dia assim pode raiar), acrescentavam novos depósitos às crostas e mais crostas de lama, que aderiam tenazmente naqueles pontos ao calçamento, acumulando-se a juros compostos. Nevoeiro por toda a parte. Nevoeiro rio acima, onde este corre entre verdes ilhotas e campinas; nevoeiro rio abaixo, onde ele rola, sujo, entre os renques de embarcações e a sujeira das praias duma grande cidade (grande e imunda). Nevoeiro nos pantanais de Essex, nevoeiro nas alturas de Kent. Nevoeiro insinuando-se nas cozinhas de brigues carvoeiros; nevoeiro pairando sobre os estaleiros e suspendendo-se do cordame dos grandes navios..."

Selecionei outro belíssimo trecho onde o autor descreve a miséria do maravilhoso personagem Jo, um dos meninos inesquecíveis e que são puro deslumbramento descritivo em uma obra “dikensiana: “...não é um autêntico selvagem estrangeiro: é apenas o artigo comum fabricado em casa. Sujo, feio, desagradável em todos os sentidos. De corpo, uma criatura comum das ruas comuns, pagão apenas na alma. A imundície doméstica o enxovalha, os parasitas domésticos o devoram, as chagas domésticas estão nele, os farrapos domésticos o cobrem: a ignorância nativa, floração do solo e do clima ingleses, afunda-lhe a natureza imortal, pondo-a num nível inferior ao dos brutos que perecem. Adianta-te, Jo, com as tuas maneiras inflexíveis! Da sola dos pés ao alto da cabeça, nada há de interessante em ti!”.

Infelizmente o livro, que estava esgotado há anos, foi relançado com graves problemas na tradução (imperdoável numa edição de luxo ilustrada e capa dura) pela Biblioteca Áurea selo da Editora Record, custando mais de R$ 70,00. É incompreensível ler a tradução de nomes próprios como Ricardo, Haroldo, João e Príncipe. Algo irritante que jamais vi sequer num livro ruim. Os erros de revisão ficam evidentes no descuido pela tradução de termos de uso lusitano no lugar de brasileiros, como “quinta”, para terreno; “miúdo”, para criança; “gira”, para maluco e “algibeira”, para bolso.

Apesar de tudo isso, o prêmio de ler Dickens não tem comparação. Agora não tenho qualquer desculpa para não devorar David Copperfield, Oliver Twist e seus amigos, que há tempos me olham acabrunhados da estante.