Ao desfrutar
de qualquer uma das obras primas de Quentin Tarantino, sabemos o que esperar. E
ele nunca decepciona seus admiradores. É impossível não assistir a qualquer
cena filmada por ele sem perceber, imediatamente, quem a concebeu. Diretores
desse tipo, com marca e estética próprias, há pouquíssimos atualmente. Talvez
Woody Allen e Pedro Almodóvar sejam os outros dois.
O tema da
escravidão é ainda uma ferida não totalmente cicatrizada na cultura norte-americana
e poucas vezes ela foi retratada no cinema com as cores reais, com seu caráter
violento e vil. Não fosse pela maestria que resultou num filme espetacular,
Tarantino já mereceria ser louvado pela coragem em cutucar essa ferida até
sangrar. Aliás, alguém discorda que as duas qualidades sejam atributos do diretor?
A coragem e a atração pelo sangue e a violência?
Mais do que a
violência pura, é o tema da vingança que mobiliza todas as energias de
Tarantino, seu leitmotiv pessoal, na
estética que homenageia desde os velhos filmes B aos antigos filmes de gangster
ou de kung fu de Bruce Lee, passando pela blackspoitation
(movimento dos anos 70 de filmes dirigidos e protagonizados por negros) e agora fazendo releitura particular de um
western à la Sergio Leone.
As películas de Tarantino são adornadas por trilhas sonoras exuberantes,
diálogos insólitos de tão coloquiais, violência estilizada, inversões
narrativas, planos abertos alternados por closes extremos e uma mistura de
tensão, humor e catarse que, invariavelmente, fazem do espectador mais do que
um admirador, um cúmplice do diretor.
Destaque
merecido para o ator Christoph Waltz, que já levara o
Oscar pelo papel do nazista sádico em Bastardos Inglórios ,
do próprio Tarantino, e agora concorre novamente ao prêmio por Django Livre, já
tendo levado para casa o Globo de Ouro este ano pelo papel do caçador de
recompensas que liberta o personagem título, interpretado magistralmente por
Jamie Foxx, infelizmente esquecido em todas as indicações. Injustamente
esquecidos também foram Leonardo diCaprio fazendo excepcionalmente bem o
primeiro vilão da sua carreira, e Samuel L Jackson, como um negro que se
diverte barbarizando os irmãos de cor.
O
filme recebeu muitas críticas de alguns setores culturais dos Estados Unidos,
como do diretor Spike Lee, ativista dos direitos dos negros, que anunciou um boicote
a Django Livre sem sequer a ele assistir, entre outras coisas, pelo uso
excessivo da palavra “nigger”, considerada muito ofensiva pelos negros norte-americanos.
No Brasil equivaleria a “crioulo”, como está nas legendas. Spike Lee declarou: “A escravidão americana não foi um western spaghetti
de Sergio Leone. Foi um Holocausto. Meus ancestrais foram roubados da África”.
Spike
Lee certamente sabe que muitos negros eram escravos de outros negros na própria
África antes de ser vendidos a comerciantes brancos, o que não diminui o drama
dos seus ancestrais. O problema é que Spike Lee se considera proprietário do
assunto “conflito racial” e sempre protesta quando um diretor branco ousa
tratar do tema.
Tarantino
se defendeu dizendo que “o filme fala
sobre a época da escravidão, um período terrível e injusto. Como alguém pode
fazer um filme sobre a escravidão sem mostrar as injustiças que eram
cometidas?”. Jamie Foxx, que interpreta Django, completou: “Spike é um diretor fantástico, mas ele se
torna mesquinho ao atacar seus colegas sem acompanhar o trabalho que está sendo
feito. Para mim, isso é irresponsável.”
Vá
ver Django e esqueça essa discussão ridícula do politicamente correto, delicie-se
com tudo que o filme oferece, torça por Django e dê as merecidas risadas na
cena em que os brancos da Ku Klux Klan debatem sobre quão incômodas são as máscaras
brancas que usam para esconder os rostos.
2 comments:
Goulart,
Eu assisti Django Livre ontem.
O ponto alto do filme para mim é a cena, magistralmente bem dirigida, na qual os brancos altercam contra a má qualidade das máscaras feitas pela esposa de um deles. Eu me pipoquei de rir. Os outros espectadores pareciam não entender a frande sacaneada que o Tarantino deu em cima da Klan.
Tarantino homenageia vários estilos na obra.
De início, Django de Tarantino é o mesmo personagem de uma co-produção franco-italiana de 1967 "Django Mata em Silêncio", que assisti quando era garoto. Western Spaguetti dos bons.
Produção longa, essa do Tarantino, mas, você nem sente o tempo passar.
Também gostei da Atuação de Samuel L. Jackson, que retora ao universo do diretor, irrepreensível no personagem Stephen.
Abraço.
Cláudio Melo.
É verdade: Tarantino nunca decepciona seus admiradores. "E attendez la creme", Caps!
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