1.11.16

40ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO

Mais um ano se passou e mais uma Mostra Internacional de Cinema em São Paulo está chegando ao fim. Este ano, mais uma vez cerca de 340 filmes para escolher e aquele dilema de saber que mais do que escolher aos que se vai assistir, vai-se escolher mesmo aqueles que vai perder...

Outro dilema dessa Mostra: assistir a 10 filmes seguidos do cineasta polonês Krzysztov Kieslovsky: Decálogo 1 a 10, cada um deles baseado em um pecado e cada um com uma hora de duração, ou ver cinco outros filmes inéditos que ocupam as mesmas 12 horas, todos com seus respectivos intervalos para xixi, café e pão de queijo. Optei por dispensar Kieslovsky, pois acho que não suportaria a pressão da sua densidade niilista pelo que já vi dele (A Trilogia das Cores: Igualdade, Liberdade e Fraternidade e as partes V e VI do Decálogo, respectivamente Não Amarás e Não Matarás).

Primeiro dia da Mostra já com o passaporte para 40 filmes na mão ao preço de R$ 340,00, me dava acesso a cada filme por R$ 8,50, valor mais barato do que eu pagaria com carteirinha de estudante: R$ 9,50 durante a semana e R$ 17,00 nos fins de semana. E se fosse para pagar inteira então seria o dobro, já que não sou estudante. Outra vantagem do passaporte é poder pegar os ingressos para os filmes com 3 dias de antecedência sem arriscar encontrar sala lotada, o que já me aconteceu em anos anteriores quando não pude comprar o passaporte. 

Teria eu assistido a 41 ou 42 filmes? Não sei responder pois deixei dois filmes pela metade de tão ruins que foram, então eles juntos (metade de cada um) somam um só? E depois que acabou meu passaporte ainda vi dois filme a mais. Conta 42?

Esse ano tive um exemplo vivo da capacidade alienante do cinema. No primeiro dia da Mostra, fominha como sou, decidi assistir a 5 filmes seguidos no Shopping Frei Caneca que tem 10 salas, cinco delas dedicadas a filmes da Mostra. Entro no shopping às 13:30 e saio às 23:30. Noto que o asfalto está molhado e penso: choveu. Na verdade a cidade de São Paulo passou enquanto eu estava no cinema por um dos maiores temporais, que derrubou dezenas de árvores, criou centenas de quilômetros de congestionamento, tumultuou os semáforos e a vida das pessoas por horas. Enquanto eu estava na bolha escura de uma sala com ar refrigerado.

Uma das coisas que tenho medo é parecer um dos loucos da Mostra. Frequentando o festival há 15 anos e vendo sempre as mesmas pessoas que aqui transitam todos esses anos, sinto que não sou uma pessoa mesmo muito normal. Honestamente não é normal uma pessoa ficar 15 dias só vendo filme e falando sobre esse único tema. Fico olhando pra essas pessoas que falam alto sobre os filmes, trocam opiniões aos berros com recomendações de filmes imperdíveis etc....Nessas horas agradeço a Steve Jobs pela invenção do I-Pod...

Essa gente é tão sem noção que tem uns caras que se julgam tão alternativos que só assistem a filmes que não têm previsão de entrar em cartaz por não terem ainda legendagem em português (as legendas em português são colocadas eletronicamente na hora do filme). São aqueles que curtem filmes filipinos de 5 horas (todo ano tem um filme assim) e detestam filmes norte americanos (é aquele tipo de gente que fala estadunidense pra não dizer norte americano). 

Este ano não encontrei Sérgio, aquele velhinho que em todas as Mostras marca presença. Nos últimos anos tenho visto ele se arrastando com um cheiro horrível de urina....uma incontinência óbvia. Como já disse uma vez, ele fede demais mas sabe tudo de cinema e então se uma sala cheira a urina é sinal de que o filme é bom pois Sérgio estará lá empestando o ar. Soube que ele foi proibido de frequentar as salas da Mostra. Nem sei se está vivo.

Outros diretores homenageados este ano junto com Kieslovsky foram o também polonês morto este ano Andrzej Wajda, com 17 filmes, o italiano Marco Bellocchio, com 12 longas e que inclusive assina o cartaz da Mostra que a cada ano é feito por um diretor diferente e o americano William Friedkin com 7 longas.


Mas aqui vai a lista dos filmes a que assisti este ano com suas classificações na minha opinião.

FILMES NOTA 10

CANASTRA SUJA - Um filme espetacular do diretor brasileiro Caio Sóh, que para mim fez o melhor filme que vi nessa Mostra e que me impressionou muito algumas mostras atrás com seu filme de estreia, o excelente Teus Olhos Meus. Aqui ele demonstra ainda maior maturidade na condução de uma história com roteiro muito bem amarrado, que prende o expectador num crescendo de tensão impressionante, atuações soberbas de toda a equipe com destaque para Adriana Esteves e Marco Ricca. Num subúrbio carioca, uma família disfuncional em que o pai tenta se recuperar do alcoolismo, a mãe vive uma vida sem graça mas com um caso tórrido com o namorado da filha, o casal de filhos mais velhos com pouca perspectiva de trabalho e uma filha caçula com autismo. A família se esfacela aos poucos e o drama parece se esgarçar até o limite máximo, mas o diretor consegue fechar a história com um final surpreendente e brilhante.


A GAROTA DESCONHECIDA – O novo filme dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardene que já ganharam duas Palmas de Ouro por Rosetta e A Criança. Sempre é uma experiência fascinante assistir a um filme deles que já realizaram também os excelentes A Promessa, O Filho, O Silêncio de Lorna, O Garoto da Bicicleta e Dois Dias, Uma Noite. Aqui, a história de Jenny, uma jovem e competente médica com forte sentimento de culpa por não ter aberto a porta do seu consultório após o horário de expediente e, no dia seguinte, descobrir que a moça que a procurou foi encontrada morta ali perto. Jenny parte em uma busca pela identidade da morta, tentado se redimir, enfrentando ameaças de traficantes, agressões de suspeitos e o descaso da própria polícia por se tratar da morte de uma prostituta africana. Grande filme dos irmãos belgas que não fazem nada ruim. Uma bela viagem pela alma humana, mostrado com igual intensidade, tanto o seu lado mais perverso quanto o mais sensível.  

O APARTAMENTO - Ótimo filme iraniano vencedor dos Prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Ator no Festival de Cannes.  Dirigido por Asghar Farhadi e que já dirigiu o ótimo À Procura de Elly (Melhor Diretor no Festival de Berlim), e A Separação primeiro filme iraniano a ganhar um Oscar. Conta uma história com ótimo roteiro sobre um casal obrigado a sair do apartamento onde vive por problemas na estrutura do prédio. No novo flat, um incidente ligado ao antigo morador vai mudar drasticamente a vida do jovem casal. A partir da busca por descobrir o que aconteceu com sua esposa, o marido busca vingança e não apenas justiça.

GLORY - Um dos melhores filmes a que assisti na Mostra. Na corrupta Burgária, um trabalhador ferroviário gago e aparentemente limítrofe, encontra uma enorme quantia de dinheiro nos trilhos e a entrega à polícia. Como recompensa, ele ganha um novo relógio de pulso, que logo para de funcionar e a chefe de relações públicas do Ministério dos Transportes, perde o antigo relógio do funcionário, uma relíquia de valor sentimental e única herança do seu pai. Ele começa uma luta desesperada para obter seu velho relógio de volta, assim como sua dignidade, enfrentando o descaso da burocracia e a insensibilidade da chefe de relações públicas. Um final que surpreende com uma reviravolta espetacular.


FILMES NOTA 9

SOLSTÍCIO DE VERÃO – Um excelente filme polonês. Em 1943 os alemães estão instalados na Polônia, uma ligação entre um rapaz polonês do interior, a filha de um fazendeiro local, um jovem oficial alemão e uma garota judia fugida de Varsóvia. Eles têm a oportunidade de se ajudarem mutuamente e o que os ameaça também os ajuda a fugir da dura realidade da guerra em que vivem: o amor. A improvável conexão entre os quatro, no contexto implacável de uma guerra, leva a uma série de tragédias.

LA VINGANÇA - Coprodução Brasil-Argentina. Uma das comédias mais engraçadas que vi nos últimos tempos, uma das surpresas da mostra. Despretensiosa, leve e inteligente. Um humor a que não estamos muito acostumados no cinema brasileiro recheado de besteirol e comédias bestas. O filme é um road movie com os ingredientes típicos do gênero e se sai muito bem em todos os quesitos. A história de dois amigos que resolvem fazer uma viagem num opala amarelo para a Argentina. Para um deles a viagem objetiva reatar o romance com a ex que ele flagrou transando com um argentino. O outro amigo é o grande destaque do filme e rouba todas as cenas, o ótimo  Daniel Furlan, que busca vingar a traição ao amigo fazendo sexo com o maior número possível de argentinas. O filme brinca com a velha rivalidade entre brasileiros e argentinos e é extremamente divertido.

THE HANDMAIDEN - Em 1930, durante a ocupação japonesa na Coreia do Sul, uma jovem e bela ladra é contratada para ser criada de uma rica herdeira reclusa pelo tio dominador. Recrutada por um vigarista o objetivo é ajudá-lo a seduzir a herdeira, roubar sua fortuna e trancá-la em um hospício. Tudo parece correr conforme o previsto, mas várias surpresas aparecem mostrando que sempre há um golpe dentro de outro golpe e assim por diante. Tudo começa mesmo a dar errado quando a empregada e a herdeira se apaixonam e o filme exibe tórridas cenas de sexo lésbico que lembram o filme Azul é a Cor Mais Quente. O diretor sul coreano Park Chan-Wook é cultuado por uma legião de fãs que lotaram o cinema, famoso por quatro filmes premiados: Mr. Vingança, Lady Vingança e Oldboy (Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes) e Sede de Sangue (Prêmio do Júri em Cannes).

TEMPESTADE DE AREIA - Um filme israelense sobre uma família de uma aldeia palestina em que uma mulher se vê na embaraçosa posição de ser anfitriã do casamento do marido com uma segunda esposa mais jovem. Quando ela descobre o envolvimento da filha mais velha com um garoto da universidade e de outra aldeia, uma relação proibida, que envergonharia a família, a mãe tenta conter a situação, reprimindo a garota, mas a moça quer uma vida diferente para si. A escolha leva a uma sucessão de dramas envolvendo as famílias e a noção de honra e de dever. Um sacrifício da mãe leva a filha a avaliar sua escolha. Uma sociedade extremamente machista em que as mulheres não têm a menor chance de escolhas próprias. Venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance.


HEDI- Na Tunísia, o jovem e acomodado Hedi vai se casar e seguir o caminho traçado para ele pela família. Ele não espera muito do futuro e na semana anterior ao seu casamento, numa cidade litorânea acaba conhecendo uma dançarina de espírito livre que trabalha em um resort. A maneira como ela leva a vida o impressiona e os dois começam uma relação apaixonada. Com os preparativos do casamento a todo vapor, ele é forçado a finalmente fazer uma escolha por si próprio. O protagonista é interpretado pelo excelente Majd Mastoura, que transmite com brilho as angústias do personagem diante da vida e dos novos desafios cheios de promessa de felicidade e de riscos. O ator venceu o Urso de Prata de melhor ator e o filme, o Prêmio de Melhor Primeiro Longa no Festival de Berlim.

SOPHIE E O SOL NASCENTE - Em uma pequena e idílica cidade do sul dos Estados Unidos, com a 2ª Guerra Mundial destruindo a Europa, um oriental ferido é abandonado num ponto de ônibus. Confundido com um chinês, é cuidado por uma viúva que adora jardinagem e rapidamente demonstra ser um excelente ajudante para o jardim que fica cada vez mais belo. Quando o Japão ataca Pearl Harbor e os EUA entram na guerra o oriental, na verdade um americano descendente de japoneses, é perseguido e sofre ataques. Sophie, uma nativa solitária se encanta pelo forasteiro e uma amizade começa a partir de um interesse mútuo pela arte, tornando-se um namoro proibido e ameaçado pela violência. Um final de um lirismo extremamente poético com uma simples imagem de duas flores crescendo juntas em um jardim que só quem vê o filme capta.

FILMES NOTA 8

DIVINAS DIVAS - Um belo documentário dirigido pela atriz Leandra Leal sobre oito conhecidas transexuais e travestis, personagens icônicos da primeira geração de artistas transformistas do Brasil que desafiaram a moral de um país no auge da ditadura militar, nos anos 1960 e 1970, em apresentações no Teatro Rival produzidas pelo avô de Leandra Leal, herdeira do teatro. O documentário homenageia os 50 anos de carreira no palco do teatro e a luta pelos direitos humanos e pelas liberdades individuais no Brasil de ontem e de hoje. Na estreia no cinema do Shopping Frei Caneca uma multidão de transformistas e artistas gays conhecidos do cinema e da televisão.

HEARTSTONE - Em uma remota vila de pescadores na Islândia, os adolescentes Thor e Christian têm um verão turbulento. Enquanto um tenta ganhar o coração de uma garota, o outro descobre novos sentimentos pelo melhor amigo. Quando a estação termina e a natureza hostil da Islândia reassume seu lugar, chega o momento de enfrentar a vida adulta. A frieza das relações humanas e a aspereza do tratamento entre famílias e jovens é um retrato do clima inóspito e hostil onde a doçura e o sentimento de afeto, no caso entre dois rapazes, pode levar a uma repressão que descamba para a violência e a repressão brutal. Forte e com uma breve insinuação de esperança na cena final.

CONSPIRAÇÃO DA FÉ – Filme dinamarquês com boa produção, excelente iluminação e tomadas caprichadas sobre o desaparecimento de crianças em comunidades religiosas. Os irmãos Samuel e Magdalena são sequestrados na mesma semana em que a polícia de Copenhague encontra uma garrada no mar com um pedido de socorro escrito oito anos antes por um menino em cativeiro. A partir daí dois policiais (um ateu e um muçulmano) descobrem uma conexão entre as duas histórias e ao investigar a comunidade religiosa, encontram um longo rastro de sequestros e assassinatos. Numa Mostra recheada de cinema independente e com poucos recursos de produção mais caprichada, esse filme é uma boa exceção.

AMOR E OUTRAS CATÁSTROFES – Filme dinamarquês despretensioso mas muito humano e honesto. Um casal aparentemente perfeito e com dois filhos. A esposa, psiquiatra, quer ter mais um bebê e engravida sem contar ao marido e ele exige que ela aborte. Ao mesmo tempo, ele também engravida a amante, paciente da sua esposa e também exige dela um aborto. O filme aborda essa situação com realismo e sem máscaras. Uma situação de caos que exige maturidade para lidar com emoções tão intensas.

FILMES NOTA 7

BENCH CINEMA -  Filme iraniano que poderia ser mais bem produzido, pois traz uma ótima ideia. É aquele tipo de filme que praticamente está num subgênero “Filmes que falam sobre cinema”. Conta a história de um homem que após sair da prisão e sendo apaixonado por cinema, passa seu tempo assistindo a filmes e decorando todas as falas. Como o vídeo é proibido no Irã, ele decide viajar pelo país reencenando sozinho os filmes clássicos. Forma uma trupe itinerante com um violinista de rua, um artista visual insone e uma ex-atriz. O filme tem excesso de citações dos filmes e suas trilhas sonoras e talvez merecesse um tratamento mais artístico e menos precário. É bonita a ideia de mostrar pessoas simples sendo emocionadas por uma apresentação pobre mas bem intencionada diante da proibição do audiovisual pelo regime dos aiatolás, mas uma direção mais sensível poderia obter melhor resultado. Aplausos de um público um pouco condescendente ao final. Destaco uma cena em que o censor diz que mesmo o público não vendo os filmes, mas usando a imaginação, a interpretação é perigosa pois a imaginação deve ser controlada.

ARANHA VERMELHA - Em Cracóvia no final dos anos 60 o jovem Karol mora com  os pais e passa seu tempo praticando saltos ornamentais. Sua vida é insossa e sem emoções até que descobre um assassino em série que já matou mais de dez pessoas. O jovem se coloca no caminho do criminoso, no que parece ser a única maneira de sentir-se realmente vivo. O contato dessas duas personalidades tortuosas vai gerar consequências imprevisíveis. 

DESCONHECIDA - Um filme americano com aquele gênero mais independente e intelectual que o pessoal de Sundance adora. Com um elenco de força (Rachel Weisz, Kathy Bates e Danny Glover) se passa em Nova Yorque e conta a história de Tom que comemora seu aniversário com amigos, organizado por sua mulher quando a misteriosa Alice chega à festa e Tom tem certeza de que a conhece. O filme se transforma em uma jornada dupla de reconhecimento noite adentro. O que Tom e Alice buscam da vida são coisas opostas, enquanto um quer a estabilidade e a previsibilidade, a outra busca o desapego total, a liberdade e as novas experiências.

ELLE - Um filme do diretor Paul Verhoven com a diva do cinema francês, a sempre excelente Isabelle Huppert em um papel que parece ter sido feito para ela: uma executiva de jogos de videogame que parece ser indestrutível e implacável. Após ser estuprada em sua própria casa por um mascarado ela se recusa a denunciar o caso polícia e começa a seguir os rastros desse homem. Começa um jogo de poder que gira em torno de novos ataques e violência que a qualquer momento vai sair do controle. A forma como ela lida com a situação certamente deixa parte da plateia atordoada, mas apenas aquela parte que não sabe do que a dupla Paul Verhoven-Isabelle Huppert é capaz. Realmente o cinema francês não é sinônimo de uma boa digestão.

SÃO JORGE - Filme sobre os problemas recentes em um Portugal em uma crise grave de desemprego e depressão econômica. Afundado em dívidas, Jorge, um boxeador desempregado prestes a ser abandonado pela esposa brasileira e seu filho pequeno, aceita trabalhar em uma agência de cobranças que o arrasta para um mundo de violência e crime. O ator Nuno Lopes venceu o Prêmio de melhor ator no Festival de Veneza.

FILMES NOTA 6

MARGUERITE AND JULIEN - Filme francês de época sobre dois irmãos se amam desde a infância e ao crescerem a paixão se torna voraz escandalizando a família e a sociedade. Eles são perseguidos e sofrem pelo amor fugindo para viver juntos enfrentando a todos. O tabu do incesto não é algo fácil de encarar e eles pagam um preço alto pelo amor. A antiga musa do cinema francês Geraldine Chapin faz uma participação especial.

LA MADRE - No interior da Espanha, um garoto de 14 anos, procurado pelo Serviço Social tem uma mãe desempregada e instável incapaz de cuidar dele. Ela o envia para se esconder na casa de um ex-namorado, um imigrante romeno. A situação se torna crítica quando a mãe desaparece e o garoto passa a depender demais da boa vontade de estranhos, causando conflitos por onde passa até que suas opções vão se acabando e ele tem que enfrentar seus piores medos.


TANNA - Uma coprodução da Austrália e Vanuatu sobre uma das últimas sociedades tribais do mundo na Oceania. Duas tribos rivais vivem se atacando e uma das formas de buscar a paz e a convivência é o casamento de jovens entre as duas tribos, mas num clássico argumento do cinema e da dramaturgia que é o amor proibido e que sempre rende boas histórias desde Shakespeare,uma jovem rompe com seu casamento arranjado para fugir com seu amante da mesma tribo, desencadeando uma guerra que ameaça o futuro de todos. Excelentes tomadas do alto de um vulcão ativo. Todos os atores eram amadores e integrantes da própria comunidade. Um final que surpreende mas que é organicamente inteligente. Nunca tinha visto um filme de Vanuatu


METEOR STREET - Um filme alemão sobre a relação conturbada e também afetuosa de dois irmãos palestinos em Berlim. Lakhdar, mais velho, e Mohammed, de 18 anos, após fugirem da guerra do Líbano. Com os pais ainda no Líbano, Mohammed tenta encontrar seu caminho em um mundo de homens rudes. A diretora Aline Fischer estava presente para apresentar o filme que não me encantou tanto assim, mas recebeu aplausos tímidos acredito que mais por contra da diretora que estava ali. Uma  história triste de busca angustiada de encontrar um significado para a vida, mas que promete algum sentido com um final simples mas honesto. 

NUNCA VAS A ESTAR SOLO - Um filme do Chile sobre violência contra os homossexuais. Baseado numa história real. Um senhor introvertido gerente que vive sozinho com seu filho Pablo, gay de 18 anos, que é vítima de um violento ataque homofóbico que o deixa em coma. Durante a luta do seu pai por justiça e assistência médica, ele percebe o quão distantes e estranhos ele e o filho se tornaram. A falta de testemunhas e as exorbitantes contas do hospital forçam o pai a deixar a estabilidade de sua vida para reposicionar-se em um mundo preconceituoso. 


MORTE EM SARAJEVO - Em Sarajevo, um hotel se prepara para a festa de gala da União Europeia em memória do centenário do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, o que desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Enquanto os funcionários do hotel planejam uma greve pelos salários não pagos, o hotel, hipotecado, está em vias de ser tomado pelo banco. Do telhado do imóvel até o porão, passando pela recepção, lavanderia e cozinha, as crescentes tensões transformam o Hotel Europe em uma panela de pressão ideológica retrato da eterna crise dos balcãs envolvendo sérvios, croatas, bósnios, cristãos e muçulmanos. O filme venceu o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio da Crítica no Festival de Berlim.


FILMES NOTA 5

EL PRIMERO DE LA FAMILIA – Filme chileno que não deslancha. Em um subúrbio de alguma cidade do Chile, Tomás passa o último fim de semana com sua família antes de viajar à Europa para continuar seus estudos. Um problema com a encanação causa uma inundação na casa e o mau cheiro, segundo a sinopse, revelaria a verdadeira essência das relações familiares, mas não me pareceu que essa analogia fez sentido. Para mim, foi um filme com roteiro fraco e atuações rasas e pouco inspiradas.

ENCARANDO MEU PRATO - Filme croata sobre uma família disfuncional. Uma moça que sustenta uma família com um pai que era dominador e autoritário e que tem um derrame, uma mãe irresponsável e um irmão mais velho meio limítrofe. Essa nova posição da moça como mantenedora da casa permite que ela explore sua força e sexualidade. A família, percebendo que pode perder seu sustento não permite que a jovem se liberte.  Ela vai definir-se a partir das promessas vagas da liberdade e a prisão da família disfuncional

INVASÃO ZUMBI - Uma comédia-drama de zumbi, quase um subgênero, em que um misterioso surto viral ataca toda a Coreia do Sul e em um trem expresso todos estão tentando sobreviver à epidemia que atinge o país. No trem que segue para a única cidade que se defendeu da epidemia, os passageiros devem lutar pela própria sobrevivência. Uma produção de padrão médio para alto com algumas cenas inspiradas como a multidão de zumbis sendo arrastada por um trem. 


FILMES NOTA 4

O ANJO FERIDO - Filme do Cazaquistão que conta quatro breves histórias sobre quatro jovens tentando sobreviver em uma aldeia pobre do Cazaquistão: uma vítima de bullying que não pretende reagir; um garoto que terá que sustentar a família, pois seu pai acabou de sair da prisão; um menino que junta sucatas de metal e acha um tesouro guardado por três crianças desajustadas; e um rapaz que teme que seus estudos médicos sejam afetados quando sua namorada engravida. Não entendi o tal anjo ferido do título nem como as quatro histórias se amarram no final.


DEPOIS DA TEMPESTADE - Um filme japonês bem sem graça e que pelo timming de comédia arranca algumas risadas forçadas de uma plateia muito condescendente. É a história de um escritor em decadência que  trabalha como detetive particular e desperdiça em jogos o pouco dinheiro que ganha. Após a morte do pai, ele tenta retomar o controle de sua vida e reconquistar o amor e o respeito da mãe, do filho e da esposa. Durante uma noite de tempestade eles são obrigados a passar um tempo juntos e têm a oportunidade para reatar esses laços. Se não apelasse para o cômico poderia ser menos banal.

FILMES NOTA 3

DEPOIS DO AMOR - Filme grego sobre um músico falido de 30 anos que está tomando conta de uma casa luxuosa e sem conseguir superar o fim do namoro planeja prender a ex num final de semana na mansão e só deixá-la quando ela explicar o motivo do fim do relacionamento. Um casal que aparentemente tem uma sintonia ótima, ambos são meio maluquinhos e sexualmente têm uma química explosiva. A situação deles não corre o menor risco de dar certo.

O PLANO DE MAGGIE - Uma comedia romântica com pegada de cinema independente americano com elenco composto entre outros por Ethan Hawke e Julianne Moore - Maggie é uma jovem de 30 anos com histórias de insucessos amorosos e que decide ter um filho só e pede o sêmen de um ex-colega hipster. É quando ela se apaixona pela primeira vez por um professor de antropologia casado e infeliz no casamento com uma dominadora esposa. O filme dá um salto e quatro anos depois, com uma linda filhinha, o novo casal descobre que esse não era o final feliz que Maggie esperava. É quando ela cria um novo plano para ajustar as coisas.


FILMES NOTA 2

AS ASAS DO MEU PAI – Na Turquia no universo da construção civil um idoso trabalhador é diagnosticado com câncer e ele precisa deixar o trabalho para tratar o tumor, mas ele não tem o dinheiro necessário pois se parar de trabalhar perde sua dignidade. Também não tem direito a se aposentar ainda nem pode pagar o valor necessário para a aposentadoria. O drama pela busca da dignidade na sociedade turca moderna.

DECÁLOGO 7 -  Da série de Krzysztov Kieslovsky, mas não sei exatamente a qual dos dez pecados o filme alude. Enquanto era estudante do ensino médio, uma jovem teve uma filha que sua mãe criou como se fosse sua. Quando a jovem se sente pronta para a maternidade, a mãe se recusa a deixá-la levar a criança embora. Ela então sequestra sua própria filha, procura o pai da criança que não vê há anos e gera uma série de conflitos emocionais.


DECÁLOGO 8 - Krzysztov Kieslovsky: Uma professora de ética em Varsóvia é visitada por uma americana que pesquisa o destino dos judeus sobreviventes da Segunda Guerra Mundial. Elas duas descobrem que estão ligadas por uma decisão da professora que décadas afetou a vida da americana, salvando-a da morte e fazendo que fosse adotada por cristãos. Depois de tantos anos a procura pelas raízes e pela história pessoal não será tão simples.


FILMES NOTA 1

LAS PLANTAS - Um filme chileno pouco inspirado, um fiapo de roteiro sobre uma jovem de 17 anos cuja mãe está internada com câncer, o pai ausente e que precisa cuidar de seu irmão em estado vegetativo. Ela lê para o irmão uma história em quadrinhos chamada Las Plantas, sobre almas de vegetais que tomam conta dos corpos das pessoas durante a lua cheia. Nessa mesma época a jovem começa a explorar sua sexualidade, conhecendo estranhos por meio da internet.Foi considerado o melhor filme da seção Generation 14plus no Festival de Berlim. Imagino que os outros eram bem piores. De qualquer modo tem uns ingredientes juvenis como a descoberta do sexo, universos de cross players e algumas imagens de nudez explícita.

ANTES O TEMPO NÃO ACABAVA – Um filme brasileiro que faz a gente entender porque o cinema argentino dá de dez no cinema nativo. Um roteiro mal amarrado e uma história sem estofo e sem indicação mínima de sinal desfecho. Dois diretores para um filme que não diz muito, apesar de que os atores não são tão ruins, mas também estão longe de serem bons. Um filme com boas intenções. Um jovem índio em conflito com as tradições do seu povo, enfrenta os líderes da sua comunidade na periferia de Manaus para morar sozinho no centro da cidade. O fato de o jovem índio ser bissexual parece mais uma jogada do roteiro para atrair um certo grupo simpatizante de alguma questão de gênero que não vai muito além da simpatia pelo protagonista. No cinema em que vi o elenco e os diretores estavam presentes dando entrevista e apresentado o filme que esteve no festival de Berlim.


O ESTUDANTE -Filme russo que não me agradou como um todo e que mostra um adolescente em crise de fanatismo à Bíblia. Ele vira pelo avesso a vida da mãe, dos colegas e de todo o colégio devido aos seus questionamentos filosóficos e religiosos. Somente sua professora de biologia o desafia e esse embate não resulta satisfatório. Achei interessante quando as citações literais do rapaz são acompanhadas por transcrições na tela, mas depois de algumas vezes a sacada fica repetitiva e cansa. Além disso, a atuação do protagonista carece de  maior sutileza e torna-se inverossímil, a partir de certo ponto, a excessiva tolerância dos colegas e da escola com as maluquices do aluno. Não parece nem de longe crível que aqueles adolescentes permitiriam que um colega como aquele tivesse aquele nível de liberdade para pregar o que prega e muito menos que o colégio desse aquele espaço para isso. Não me pareceu honesto nem de longe.


LOBO E OVELHA – Um filme que parece não ter roteiro. Uma história no limite da banalidade. Na zona rural do Afeganistão, o pastoreio é feito por crianças, que dominam as montanhas e, apesar de não haver adultos por perto, conhecem todas as regras. Meninos e meninas não podem ficar juntos. O filme mostra o cotidiano dessas crianças. Tudo tem a profundidade de um pires e é impressionante que o filme tenha vencido o prêmio Art Cinema na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes. Parte da plateia aplaudiu ao final. Acho que não pertencemos à mesma tribo.


FILMES NOTA ZERO

O QUARTO HOMEM - Filme holandês de 1983 do diretor Paul Verhovenn que dirigiu alguns dos mais importantes filmes do cinema holandês e também RoboCop, O Vingador do Futuro, Instinto Selvagem, Showgirls e Tropas Estelares. Aqui um filme meio datado, mal envelhecido com estética de filmes pornográficos dos anos 70/80 com imagens saturadas e com baixo contraste. Historia de um escritor bissexual e alcoólatra que se envolve com uma mulher misteriosa cujos três maridos morreram em acidentes. Não gostei nem um pouco.

CORAÇÕES CICATRIZADOS - Um filme romeno insuportavelmente chato. Além de usar o recurso da tela quadrada (coisa que nem é mais original, pelo menos três filmes na Mostra já fizeram isso com mais sucesso como Mommy, O Filho de Saul e O Homem das Multidões), para jogar uma pá de cal na chatice usa planos fixos. Em nenhuma das cenas há movimento de câmera e tudo que se move para fora e para dentro do pequeno quadro são os atores e muitos deles estão em camas de um hospital, ou seja, sem movimentos. Enfim, é prá irritar o expectador e assim me irritou tanto que deixei o filme na metade. Se passa em 1937 quando um jovem passa uma temporada numa clínica na costa do mar Negro com tuberculose óssea. Apaixonado por outra paciente, ele narra sua tentativa e a de seus companheiros em aproveitar ao máximo a vida enquanto seus corpos definham.

A DRAGON ARIVES!- Eu não saberia dizer muita coisa sobre esse filme iraniano, apenas que ele é tão chato e insuportável que saí na metade, algo que raramente acontece, principalmente porque eu gosto demais do cinema iraniano, mesmo os que tem uma narrativa bastante arrastada. Aqui não é a narrativa arrastada que me incomodou mas a narrativa empastelada. Não dá pra sabem em que tempo a história se passa, não falo do tempo como época mas de presente, passado ou mais passado. As transições entre os tempos é nenhuma e não se percebe de qual dos tempos estamos falando ou se é um documentário falso ou uma ficção falsa. Pela sinopse trata-se de uma história de um detetive que recebe a missão de investigar o suicídio suspeito de um preso político exilado em um ilha remota. Em um navio abandonado num antigo cemitério no deserto um mistério ainda maior é descoberto. Pelo jeito começa uma mistura de paranoia e alucinação. Cinquenta anos depois, uma antiga caixa é descoberta nos fundos de um armário e seu conteúdo joga uma estranha luz sobre esse enigma. Não tive paciência alguma para compactuar com essa farsa e nenhum interesse em descobrir que enigma era esse. O enigma pra mim foi saber como as pessoas conseguiram assistir esse filme até o final.

9.7.16

SOBREVIVI A DONA SÔNIA


Lendo relatos de pessoas que sobreviveram a desastres naturais como terremotos e tsunamis, pensei: Eu também sou um sobrevivente: "Sobrevivi a Dona Sônia”.


Dona Sônia, como alguns sabem, é minha mãe, equivalente a duas bombas de Hiroshima somada a um furacão Katrina.


Capítulo 1- Dona Sônia com uma lata de querosene

Quando eu e meus irmãos éramos pequenos, sempre aparecíamos com piolhos, coisa comum em crianças. As pessoas normais usam Neocid, mas a minha mãe resolveu inovar. Um dia como quem está pensando misérias, ela resolveu usar querosene nas nossas cabeças. Meus irmãos estão no Facebook para testemunhar.

Dona Sônia juntou os três filhos pequenos na sala de casa e de posse de um chumaço de algodão deliciou-se a esfregar querosene nos nossos couros cabeludos. E ficou nisso algum tempo acreditando que os piolhos iam morrer intoxicados. Alguns minutos depois nossas cabeças começaram a arder como se houvessem nos posto soda cáustica no couro cabeludo. Gritávamos como loucos correndo pela casa chorando. Minha mãe não percebeu de imediato o que estava acontecendo e só aos poucos reparou que a causa dos gritos era o fato de que ela esfregava querosene nas nossas cabeças como quem lustra um móvel. Não bastava encharcar nossos cabelos com o querosene, ela tinha que esfregar com força o combustível. 

Passamos os três um tempão debaixo do chuveiro para amenizar a queimação. Não sei como ela não pensou e acender um fósforo para queimar os piolhos também.

Capítulo 2- Dona Sônia não respeita os médicos

Quando eu era criança tinha um temperamento horrível. Minha mãe me levava em psicólogos para ver o que havia de errado comigo. Um dia encontrei, fuçando nos seus papéis, um relatório de um desses médicos que dizia, entre outras coisas, que eu não poderia ser contrariado. Fiquei feliz como pinto no lixo, pois finalmente eu tinha uma licença médica para ser insuportável.
Um dia que minha mãe não fez uma das minhas vontades eu saquei meu trunfo e disse para ela: 
- “Você não pode me contrariar. Eu li o relatório do psicólogo”.

Ela me pegou pelo braço e me encheu de chineladas dizendo: “Que merda de médico vai dizer o que eu posso fazer”.
Pensei na hora que a vida não fazia qualquer sentido pois se ela gastava dinheiro com o médico, por que desobedecia as ordens dele?

Pensei: se nem os médicos ela respeita, estou lascado!

Capítulo 3- Dona Sônia dá uma de cafetina

Como já escrevi neste blog num texto com o título "Sexo ou Benzetacil", quando eu era criança tinha uma doença rara e séria chamada Coreia de Sydenham que causa espasmos e movimentos involuntários e pode mesmo matar. O tratamento consistiu em 5 anos de benzetacil todos os sábados. Mas minha mãe preferiu acreditar no conselho de um médico em quem ela confiava e que disse que eu só ficaria curado quando tivesse minha primeira relação sexual.
Então, já com oito anos de idade, ela começou a maquinar uma forma de conseguir isso. Tudo na surdina, ela contratou a empregada de uma vizinha que tinha transado com todos os filhos da patroa e designou a moça para o trabalho medicinal. Não satisfeita em cafetinar em prol do filho, ainda colocou meu irmão como espião para relatar a ela os progressos da moça que me dava banho e fazia todas as minhas vontades e lá pelos 14 anos as coisas acabaram acontecendo como minha mãe tramara. 

Aos 15 eu me curei da doença graças à benzetacil, mas minha mãe jura de pé junto até hoje que quem me curou foi a empregada.
Capítulo 4 – Dona Sônia tem pavor de sangue

Quando eu tinha em torno de oito anos levei uma queda que quase me matou. Estava no segundo andar da casa dos meus pais e debrucei-me sobre um corrimão enferrujado que se partiu e caí de uma grande altura. Até hoje tenho a cicatriz no lado da testa. Foi brutal o tombo e caí nos pés de minha mãe que estava no quintal no momento. A reação dela foi imediata. Me pegou no colo e me levou pra rua aos gritos. Em vez de tomar um táxi ou me levar ao hospital o que fez?
Ahhhh Dona Sônia tem sempre ideias brilhantes. Ela resolveu que a coisa mais correta a fazer era me entregar ao primeiro desconhecido que passava na porta de casa. Disse para a pessoa: “Toma. Leva no Fórum que é filho do promotor”. E saiu gritando pra dentro de casa esperando que o bom samaritano fosse fazer o que ela disse.
Minha sorte foi que a pessoa a quem ela me entregou não tinha medo de sangue.

Capítulo 5 – Dona Sônia apela para os espíritos

Sempre fui uma criança de saúde complicada e minha mãe sempre acreditou em todo tipo de medicina alternativa. Enquanto o tratamento com a empregada contratada não surtia efeito, minha mãe cada semana aprendia uma nova técnica infalível que iam de banhos de folhas malcheirosas a benzedeiras e até homeopatia para curar bactérias que faziam a festa no meu organismo.

Isso sem contar que a culpada das bactérias estarem ali era dela mesma, que se recusava a autorizar a operação das minhas amígdalas e só cedeu quando o médico ameaçou denunciá-la. Ela era daquele tipo de fãs de amígdalas para quem tirar minhas amígdalas era um tipo de amputação, não importava se sua função na minha garganta era entupir meu sangue de estreptococos.

Então ela entrou na onda do espiritismo e me levou pra um centro em que um médium incorporava o espírito de um tal de Zé Arigó ou Dr. Fritz. Não importa o nome porque eram ambos assustadores para uma criança de 11 anos.

Nesse centro eu via todo tipo de “cirurgia espiritual” que consistia no tal médium introduzir colheres nos olhos, bocas e narizes das pessoas e “abrir a barriga” dos crédulos pacientes com facas e canivetes. Tinha sangue ou algo que o valha pra todo lado e supostamente pedaços de tumores extirpados na pia do banheiro onde descansavam os “instrumentos cirúrgicos” usados, entre chumaços de algodão ensanguentados.

Ela anunciou toda orgulhosa que eu ia ser operado espiritualmente. Já me imaginei deitado ali com o tal Zé Arigó (que nome assustador) ou Dr. Fritz (parece nome de médico nazista), mas minha mãe tinha planos mais macabros. A tal cirurgia não seria no centro, mas na nossa própria casa. No dia marcado, eu deveria dormir sozinho em um quarto escuro com um pijama branco novo (não sei por que tinha que ser branco ou novo) e uma garrafa cheia de água da bica (não servia água da torneira?). O tal espírito ia vir exatamente à meia-noite para me operar.

Agora imagine o terror dessa criança tendo que dormir sozinha num quarto escuro esperando dar meia-noite para um espírito com um desses nomes tétricos chegar e me meter a faca. Pelo menos era uma faca espírita e não deixou cicatrizes visíveis.

Tenho uma cicatriz invisível em algum lugar.

Capítulo 6 – Dona Sônia entre as bibas

Quando morávamos no interior nos anos 70, minha mãe era amiga de uma bichinha, um advogado de 1 metro e meio de altura extremamente afetado. Na casa desse homem, se reunia a nata gay da cidade. Era um povo muito alegre e animado que dava muitas festas principalmente no Carnaval para onde minha mãe levava a mim e meu irmão e passávamos horas dançando e pulando. Não sei o que minha mãe via de interessante em estar no meio de um monte de gays, pois ela era a única mulher no grupo. E ainda levava os filhos pequenos. Eu tinha de 11 a 12 anos e meu irmão é um ano mais novo.

Certo dia, no meio da uma das festas da bicharada, entram dois rapazes desses de rua, meio bofinhos, e logo são levados para um quarto pelo anfitrião, a bichinha-hobbit de um metro e meio de altura. Eu, menino besta, estranhei aquilo e perguntei a minha mãe se os rapazes eram amigos do dono da casa, pois eles entraram os três no quarto e não saiam há um tempão. Eis que minha mãe me sai com esta:

_Ah, fulano é ativo, não é passivo não!

Obviamente ela não usou esses termos, mas os verbos equivalentes correspondentes: come e dá!

Eu não entendo até hoje qual a lógica da minha mãe me dizer essas coisas aos 11 anos. Não fazia sentido, primeiro porque era óbvio que aquele advogado franzino era evidentemente uma bichinha pintosa que no meio gay se chama de bicha PAM (Passiva Até a Morte) e é claro que ela estava hierarquizando os papéis desempenhados, sendo o ativo superior ao passivo. Minha mãe é craque em estabelecer valores.

Queria muito saber como a cena se passava na cabeça dela, com o mini-advogado traçando sozinho dois malandros de rua. Deve ter sido algo surreal, pois ela precisou dividir aquilo com o filho pequeno. 

Capítulo 7 – Dona Sônia, a mãe zelosa. Só que não

Quando meu irmão mais novo nasceu, eu tinha 11 anos e a prefeitura de Vitória da Conquista, onde morávamos, estava instalando a rede de esgotos nas ruas que estavam com valas enormes. Choveu muito um dia e as ruas estavam enlameadas e as valas transbordando de água suja e fedida. Nessas condições de perigo, minha mãe não viu nada demais em me deixar sair com meu irmão recém-nascido no carrinho de bebê para passear por aquelas ruas, sem contar no frio que faz em Conquista. Tirei meu irmão do berço, quentinho, e disse a ela o que ia fazer. Nem um conselho, um aviso ou um alerta. Foi mesmo que nada.

Parando na beira de uma dessas valas, aconteceu o óbvio, o carrinho de bebê escorregou e caiu dentro da água suja com meu irmão dentro. Eu pensei na hora: “Ihhh...morreu!”. Eu é que não iria mergulhar naquela porcaria pra resgatar o bebê. Foi quando um rapaz conhecido viu a cena e prontamente mergulhou na água suja e espumosa. Primeiro tirou o carrinho e depois mergulhou de novo e resgatou meu irmão que saiu em choque e marrom de lama e lodo. 

Chegando em casa entreguei o menino à minha mãe que enfiou ele debaixo do chuveiro como se nada tivesse acontecido. 

Esse mesmo irmão apareceu quando criança com uma mancha de vitiligo no pescoço. Minha mãe ouviu contar que saliva de mãe cura vitiligo de filho então ela, muito crédula, passou a passar cuspe na mancha do meu irmão. Todo dia fazia isso como um ritual e tinha que ser saliva de jejum, não era uma saliva qualquer. Bem, a mancha cresceu um pouquinho e parou. 

Ela jura que foi graças ao cuspe salvador.

Em outra oportunidade ela mostrou como merece ser processada pelas horas extras que obrigou nossos anjos da guarda a trabalharem. Em uma viagem de férias a uma fazenda, numa noite escura, ela não viu perigo algum em deixar que eu saísse de cavalo pelo pasto com meu segundo irmão na garupa. Não importava se eu já tivesse demonstrado que não era exatamente o irmão mais cuidadoso, não importava se eu não tivesse nunca andado de cavalo na vida, não importava se o cavalo era bravo ou manso, que mal havia em deixar duas crianças se divertirem numa noite escura num pasto escuro e com um cavalo desconhecido? O que poderia acontecer?

Um acidente, que foi exatamente o que aconteceu. 

O cavalo disparou e, no escuro, tentou atravessar uma porteira onde só cabia o próprio cavalo. A trave superior da porteira bateu no meu peito e as duas traves laterais fraturaram meus dois pés. Eu não conseguia tirar o cavalo do lugar, ele insistia em passar pela porteira sem se dar conta que eu estava preso em cima dele sem conseguir passar. A sorte é que meu irmão pulou da garupa, correu até a sede da fazenda no escuro e buscou ajuda. Passei o resto das férias com os pés imobilizados. 

Enquanto isso, meu primeiro irmão, para não ficar em desvantagem, resolveu apostar corrida à noite com outro menino e acabou se jogando contra uma cerca de arame farpado. Conseguiu cortar até a parte interna dos lábios além da cara e partes do corpo. 

Para minha mãe, deixar os filhos soltos e expostos a todo tipo de perigo sempre foi um tipo muito pessoal de psicologia pedagógica.

Capítulo 8 – Dona Sônia, a desquitada.

Meus pais eram tão compatíveis como um torcedor do Vitória na arquibancada do Bahia; como um copo de leite com manga; como a mistura de água e óleo. 

Minha mãe certa vez descobriu que meu pai tinha uma amante. Na verdade ela acabou convencendo a nós seus filhos disso. Hoje eu tenho 90% de certeza de que meu pai não tinha talento para arrumar uma amante. A tal mulher devia ser apenas uma amiga, se tanto. Mas minha mãe, que já a tempos não se dava com ele, dormindo por meses em quartos separados, resolveu implicar com essa história e para perturbar meu pai arrumou uma gata de rua e levou para dentro de casa. Batizou a bichana exatamente com o nome da tal suposta amante do meu pai: Michele!

Não satisfeita de xingar a pobre gata a todo momento: "Michele sua ordinária, Michele venha ver a sujeira que você fez aqui" e coisas assim, minha mãe escolhia os momentos sagrados do meu pai para xingar a gata Michele. E nos incentivava a fazer o mesmo sem sequer esconder dos filhos pequenos a razão real da pirraça: a suposta amante do meu pai.

Um dia, minha mãe conjecturou se desquitar, pois as coisas não andavam bem há tempos com meu pai. Dona Sônia é uma ariana mais impulsiva do que a maioria das arianas já é e quando decidia fazer algo, não havia quem a impedisse, até porque ninguém tinha tempo de fazer isso uma vez que ela nem sequer pensava antes de fazer. Quando pensou, já fez.


Então, quando ela não queria fazer alguma coisa, logo achava alguém pra responsabilizar por ela não fazer aquilo.

Voltado ao desquite, pois nos anos 70 ainda não havia divórcio, ela reuniu a mim e meu irmão para comunicar a decisão. Eu com onze anos e meu irmão com dez, começamos a chorar e perguntar o que iriamos dizer na escola. Algo bastante compreensível para duas crianças naquela época. Então ela decidiu não se desquitar, adiando a decisão inevitável por vários anos.

Tempos depois, perguntamos a ela se com tantos problemas com meu pai, por que ela não se separou antes. Ela tinha um trunfo: “Vocês não deixaram!”, dizia.

O pior é que ela acreditava mesmo naquilo, que era uma decisão suficientemente simples para ser deixada sob a responsabilidade de duas crianças. Logo ela, que ninguém consegue impedir de nada. 

Se eu descobrisse que existia Psicanálise mais cedo tinha levado ela à falência.

Capítulo 9 - Dona Sônia e sua farmácia misteriosa


Minha mãe durante a maior parte da minha infância e adolescência tinha a firme crença de que qualquer remédio que ela tivesse na sua "farmacinha" curava tudo, de dor de cabeça a infecção respiratória. Não sei como ela não enterrou os filhos pois além de sermos as crianças mais mal comportadas da paróquia, minha mãe jamais em sua vida imaginou que houvesse uma coisa chamada "validade de remédio".

Na cabeça de minha mãe qualquer remédio, comprado a qualquer tempo, valeria para sempre. A muito custo convencemos ela de que não se devia jogar fora as caixas dos remédios mas nós mesmos achávamos que a razão era simplesmente para saber para que raios de doença esse ou aquele remédio servia. Só assim para evitar que ela desse antibióticos para gripe ou analgésicos para diarreia.

Bem, após a etapa de guardar os remédios nas caixas foi a vez de Dona Sonia fazer a descoberta mais sensacional da sua vida: Remédios têm validade. Era muito comum ao fazermos uma inspeção na sua "farmacinha" encontrarmos remédios com até 10 anos de validade vencida. Não sei como sobrevivemos a essas verdadeiras bombas fármicas. E nem adiantava falar com ela para se desfazer dos tais medicamentos. Ela dizia que ia jogar fora mas nos a víamos escondida levar os remédios de volta para a "farmacinha" ou criar uma "farmacinha alternativa", fartamente suprida de medicamentos vencidos há anos.  


Capítulo 10 - Dona Sônia Mad Max

Já contei que minha mãe contratou uma empregada para me desvirginar e assim, na sua cabeça, me curar de uma doença séria. O que não contei é que ela e meu pai tiveram a briga mais séria que já vi por conta exatamente dessa empregada. 

Um dia, meu pai, exímio falso moralista, descobriu que a moça estava grávida e resolveu expulsá-la de casa. Minha mãe estava, naquele momento, chegando da rua e sequer teve tempo de guardar o carro na garagem quando ouviu a gritaria. Entrou em casa correndo e viu meu pai bradando que não ia ter uma solteira grávida em casa. Imediatamente Dona Sônia interveio e disse que a moça não iria sair coisíssima nenhuma. Meu pai viu sua autoridade ser questionada (ele era promotor dentro de casa também) e avançou sobre a moça para expulsá-la. Minha mãe ficou na frente e levou um empurrão caindo sobre uma mesinha de centro. 

Nas mãos de Dona Sônia, estavam as duas correntes de ferro que ela usava para fechar o carro na garagem. Em dois segundos, as duas correntes já caíram como chicote sobre os ombros do meu pai abrindo um talho. O sangue escorreu dali e ele voltou-se novamente sobre ela. Eu e meu irmão ficamos na frente para defendê-la. 

Meu segundo irmão carregou para a rua o mais novo, ainda um bebê chorando, enquanto o meu primeiro irmão apanhou um índio de jacarandá e entregou nas mãos da minha mãe para que ela se defendesse Nisso, meu pai, que estava enrolado na toalha com que havia saído do banho, deixou a toalha cair, ficando completamente pelado na sala. Nu e sangrando. 

Anos depois daquilo eu conheci a expressão “tragicomédia” e percebi que nenhuma cena de pastelão que eu visse na vida, no cinema, no teatro ou em qualquer lugar seria superior àquela.

Não sei que fim levou a empregada. Só sei que minha mãe justificou sua defesa da moça atribuindo a mim o motivo de tudo, pois a moça estava me curando da Coréia de Syderham. Ou seja, a culpa era toda minha.

Na verdade, acho que eles não teriam dinheiro suficiente para pagar as minhas sessões de Psicanálise.

1.7.16

2 FILHOS DE FRANCISCO


Parece que para fazer uma análise do filme sobre a vida de Zezé di Camargo & Luciano, o crítico precisa, antes, dizer se gosta ou não de música sertaneja. Se ele gosta do estilo e elogia o filme, parece que não dão muita credibilidade à sua crítica - ora, o homem é fã dos caras... - Mas se o crítico não gosta de música sertaneja nem é fã da dupla, mas gostou do filme, a sua crítica já aparenta começar com mais crédito.

Então, estou em confortável vantagem. Não gosto da dupla. Adorei o filme.

É  impressionante que este seja apenas o filme de estreia de Breno Silveira num longa-metragem. O orçamento de "2 Filhos de Francisco" foi pequeno, se comparado, por exemplo, ao de Carandiru, seu mais forte concorrente em termos de números. Dois Filhos de Francisco esteve por oito semanas consecutivas liderando o ranking de audiência, fato digno de registros em se tratando de um filme nacional. Seu público passou de 4,7 milhões de telespectadores, tendo o filme custado 5,9 milhões. O orçamento de Carandiru foi de 12 milhões e levou mais de 4 milhões de pessoas aos cinemas. “2 Filhos de Francisco” bateu essa marca.

É preciso repetir. Não se trata de um filme caça-níqueis, mas de uma película contando uma história belíssima e tocante. Não é apenas para fãs da dupla, é para quem gosta de um bom drama com aspectos biográficos e contemporâneos, com elementos de uma brasilidade simples e limpa, ingênua e pura, algo que a gente, às vezes, nem se lembra que existe ainda.

O filme tem no ator que faz o papel do pai de Zezé e Luciano um dos seus pontos mais fortes. Ângelo Antônio dá um show de interpretação ao lado da não menos talentosa Dira Paes, no papel da mãe da dupla, Dona Helena. Essa é a velha história do feijão e do sonho que já deu novela e, na verdade, é mesmo um arquétipo recorrente dos contrários que se completam.

O mais interessante é saber que a história toda é real. É tocante ver um agricultor pobre do cerrado goiano, com pouquíssima instrução, tendo a visão profunda de que a educação é um instrumento de libertação e crescimento. Ele constrói uma escola para as crianças pobres da região e se alimenta eternamente de um sonho impossível como diz a música de Chico Buarque “Sonhar mais um sonho impossível/Lutar quando é fácil ceder/.../Não me importa saber/Se é terrível demais/Quantas guerras terei de vencer/Por um pouco de paz.”

E Francisco não desistiu nunca, mesmo travando uma guerra injusta contra a fome, contra a pobreza, contra a ignorância e contra a própria morte de um filho e a paralisia de outro. O destino estendeu várias armadilhas no seu caminho para testar sua esperança. E ele nunca deixou de sonhar, nisso reside o seu valor. E ele o transmitiu aos filhos.

O sonho de Francisco era poder ver dois de seus nove filhos formarem uma dupla sertaneja de sucesso. Um sonho de um homem simples contra um mundo de improbabilidades. A cena em que ele troca toda a produção da sua roça por um acordeão e um violão para os dois filhos é a síntese do embate entre o feijão e o sonho. Ele investe nesse sonho toda a sua energia, era o sonho que o alimentava, não o feijão.

Márcio Kieling e Thiago Mendonça foram escolhas felizes, pois além de se parecerem assustadoramente com a dupla original, não fazem feio. Ainda integram o elenco de feras do porte de Lima Duarte, José Dumont e Paloma Duarte.

O filme foi escolhido para ser o representante do Brasil na disputa da pré-indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, derrotando 11 concorrentes como Casa de Areia, Meu Tio Matou o Cara, Garrincha, A Dona da História e Contra Todos.


A mensagem que fica é a da frase que começa e termina o filme dita por Zezé di Camargo: “Os outros achavam meu pai sonhador demais, doido demais. Doidos éramos nós. Ele é quem tinha razão”.

24.4.16

WYLLYS E BOLSONARO: OS MUTUALISTAS


 

Na obra máxima do Nobel português José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, há uma passagem célebre em que Deus e o Diabo decidem o destino de Jesus. Deus já tem tudo traçado, mas o Diabo intervém e propõe que Jesus não morra na cruz. O Diabo oferece um pacto a Deus: ele deixaria de representar o Mal, Deus o aceitaria de volta no céu e a disputa entre o Bem e o Mal acabaria, poupando o sofrimento de Jesus e a perda de milhões de vidas em guerras religiosas.

No entanto Deus responde: “Quero-te como és, e, se possível ainda pior do que és agora porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és. Se tu acabas, eu acabo. Para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal. Se o Diabo não vive como o Diabo, Deus não vive como Deus. A morte de um seria a morte do outro”.

Lembrei-me dessa passagem quando vi a proporção que tomou a disputa entre os deputados federais Jair Bolsonaro e Jean Wyllys na votação da admissibilidade do impeachment na Câmara dos Deputados quando Bolsonaro defendeu um torturador e Wyllys cuspiu no colega.

Partidários de ambos os lados passaram a se agredir, como sói acontecer nas redes sociais. Além de antípodas, um votou a favor e o outro votou contra o impeachment, o tema que hoje mais acirra os ânimos.  

Mas, no fundo, acredito que os dois políticos são as duas faces da mesma moeda. Jean Wyllys foi eleito pela primeira vez deputado federal pelo Rio de Janeiro em 2010 com apenas 13 mil votos. Não atingiu o mínimo necessário e só chegou a Brasília arrastado pelos votos do deputado Chico Alencar do PSOL. Na eleição seguinte, em 2014, ele teve dez vezes a sua votação anterior chegando a 144 mil votos. Foi o 7º mais votado do Rio e acabou sendo escolhido, em votação na internet, o melhor deputado em 2015. O que aconteceu nesse intervalo que fez o deputado ex-BBB ter tal upgrade?

Vejamos o outro lado. Bolsonaro, que está no seu sexto mandato foi o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro e ainda elegeu dois filhos com pensamentos políticos idênticos. A votação de Bolsonaro em 2014 foi o quádruplo da sua votação em 2010. Passou de 120 mil votos para 464 mil votos. Pulou de 11º mais votado para o 1º lugar.

O que aconteceu entre 2010 e 2014 foi bom para ambos. A disputa entre Wyllys e Bolsonaro rendeu dez vezes mais votos para o primeiro e quatro vezes mais votos para o segundo. A rixa entre eles gera frutos para ambos. Quando Bolsonaro tem os holofotes sobre si ao elogiar um torturador, Wyllys não quer ficar atrás no quesito originalidade e desfere cusparadas no colega. Ambos são mutualistas cuja definição é: “Tipo de interação entre duas espécies que se beneficiam reciprocamente da associação entre elas de forma obrigatória (simbiose) ou facultativa”.

Sou totalmente avesso às pregações nazistas e homofóbicas de Bolsonaro, acho-o repugnante e atroz, mas lembro que ele não caiu na Câmara dos Deputados de paraquedas. Foi eleito e representa o pensamento de milhares de eleitores, assim como Wyllys. Ao se opor a Wyllys, Bolsonaro lucra votos, como já foi demonstrado. Wyllys ao cuspir no colega cumpre à risca a trajetória bem sucedida que traçou para si e que gera frutos e votos. Trata-se do anti-Bolsonaro.

Engana-se quem pensa que eles se excluem. Como Deus e o Diabo no livro de Saramago, um deve agradecer pela existência do outro.